Mostrando postagens com marcador Alemanha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alemanha. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Começando a cumprir a promessa

Xavi cumprimenta alguns jogadores da Holanda (Países Baixos): de fato, a Laranja mereceu cumprimentos no empate com a Alemanha (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)

Ao ser apresentado em entrevista(s) coletiva(s) como novo técnico da seleção masculina da Holanda (Países Baixos), Xavi Hernández já avisara: ganhando ou perdendo, queria ver uma seleção intensa, gostando de jogar com a bola, buscando o ataque, se movimentando. E mesmo com erros aqui e ali, mesmo ainda ineficiente nas finalizações, até que a Laranja começou a cumprir a promessa. Na estreia pela Liga das Nações - e estreia do próprio técnico espanhol -, o time holandês foi ofensivo, criou chances, diminuiu a má impressão com que terminou a Copa do Mundo, e ajudou o empate em 1 a 1 com a Alemanha a ser uma partida entre seleções atraente.

E até que os holandeses demoraram para se assentar diante da Alemanha, também com uma badalada estreia de técnico (Jürgen Klopp), que teve a primeira chance logo aos 2' (um chute de Karim Adeyemi, para fora) e começou tendo mais a bola. A partir do momento em que a Laranja segurou mais a bola - começando aos 7', num pivô de Brian Brobbey, completado por cruzamento de Crysencio Summerville que Marc ter Stegen pegou -, aí ela também passou a ser mais perigosa. Aos 10', Brobbey só não fez o gol por ter chutado fraco; aos 12', o arremate de Tijjani Reijnders foi bloqueado, saiu para escanteio... e na cobrança, aos 13', Virgil van Dijk até fez gol, de cabeça, mas ele foi anulado pela alegação do VAR (Brobbey teria bloqueado Ter Stegen de se movimentar na pequena área). O bom começo seguia, em lances como arremate de Quinten Timber - titular, até inesperadamente - para fora, aos 30'

Só que, se a Holanda vinha bem, a Alemanha também tinha espaços - só não tinha mais Kai Havertz, machucado. Coube a seu substituto, Younes Ebnoutalib, fazer Bart Verbruggen trabalhar, rebatendo uma bola aos 31'. No minuto seguinte, um azar holandês - Brobbey caiu em campo, machucado na parte posterior da coxa -, uma hesitação do juiz espanhol Alejandro Hernández (que não parou o jogo), e a Alemanha seguiu o jogo até fazer 1 a 0, com Felix Nmecha aproveitando o rebote dado por Jan Paul van Hecke, após chute de Adeyemi. A falta de, digamos, delicadeza alemã - talvez pela falta em Havertz ter vindo de Quinten Timber - causou muita irritação de Denzel Dumfries e Van Dijk em campo. Talvez tenha desconcentrado os holandeses, porque quase a Alemanha fez o segundo aos 38', não perdesse Adeyemi uma chance com o gol vazio, após Nadien Amiri cruzar. Faltou concentração também nas sucessivas falhas de Ter Stegen. Aos 42', Micky van de Ven chutou, e ele pegou em dois tempos. Ato contínuo, cobrou o tiro de meta errado, Cody Gakpo dominou a bola, chutou... mas Ter Stegen pegou.

Ruben van Bommel teve suas tentativas, na pressão holandesa no segundo tempo. E foi decisivo no lance do empate (Maurice van Steen/ANP/Getty Images)

Se tinha errado algumas vezes no primeiro tempo, o goleiro da Alemanha consertou no segundo. Já nos primeiros segundos, ele pegou a bola, após tentativa de Summerville finalizar; aos 59', após tabelar com Mexx Meerdink, Dumfries chutou e Ter Stegen fez ótima defesa. Tais finalizações eram sinais de que a Holanda iria insistir. Ainda mais após a entrada de Joey Veerman, que tornou os ataques mais rápidos, com passes longos e precisos. Só faltava alguma calma, como numa falta de Van Dijk em Kimmich que causou algumas escaramuças, aos 62'. E faltava, principalmente, eficiência nas finalizações. Como aos 66', quando Dumfries cruzou e Meerdink, na pequena área, com o gol vazio, "retribuiu" Adeyemi e errou a mira do carrinho. De quebra, aos 72', o camisa 9 chutou e Ter Stegen fez nova defesa. De quebra, a Alemanha, até então acanhada na etapa final, voltou a trazer perigo, aos 70', num chute de Philipp Treu (estreante na Mannschaft, na lateral direita), para fora. Ou até num cabeceio de Ebnoutalib, aos 83', para fora.

Àquela altura, já tinham entrado na Holanda Guus Til - que poderia ajudar no meio-campo, e até quebrar galho na frente, como já faz no PSV de vez em quando - e Ruben van Bommel. A insistência seguia, num cabeceio de Van Hecke aos 86' (Ter Stegen, de novo) e num arremate colocado de Van Bommel, aos 88', espalmado pelo goleiro alemão para escanteio. Só no segundo minuto dos acréscimos, enfim, a resistência alemã caiu, num belo cruzamento de trivela e de pé trocado de Van Bommel, mandando assim a bola para Gakpo completar de primeira e empatar.

No fim, Til ainda cabeceou para fora, aos 90' + 4. Mas o empate já tinha mostrado: a Holanda, mesmo sem vencer, começou a cumprir a promessa. É continuar melhorando no próximo domingo, contra a Sérvia.



Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 2

Holanda 1x1 Alemanha

Data: 24 de setembro de 2026
Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Árbitro: Alejandro Hernández Hernández (Espanha)
Gols: Felix Nmecha, aos 32', e Cody Gakpo, aos 90' + 2

HOLANDA
Bart Verbruggen; Denzel Dumfries, Virgil van Dijk, Jan Paul van Hecke e Micky van de Ven; Tijjani Reijnders (Guus Til, aos 83'), Ryan Gravenberch e Quinten Timber (Joey Veerman, aos 57'); Crysencio Summerville (Ruben van Bommel, aos 83'), Brian Brobbey (Mexx Meerdink, aos 35') e Cody Gakpo. Técnico: Xavi Hernández

ALEMANHA
Marc ter Stegen; Philipp Treu, Nico Schlottebeck, Jonathan Tah e Nathaniel Brown; Joshua Kimmich, Nadien Amiri (Yannik Engelhardt, aos 80') e Felix Nmecha (Anton Stach, aos 64'); Karim Adeyemi (Serge Gnabry, aos 80'), Kai Havertz (Younes Ebnoutalib, aos 30') e Kevin Schade (Chris Führich, aos 64'). Técnico: Jürgen Klopp

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Para manter a boa vontade

Xavi Hernández começa seu trabalho na seleção masculina da Holanda (Países Baixos) tendo, ainda, boa vontade. E a retribuindo. Resta vencer para que isso siga, nas primeiras rodadas da Liga das Nações (Jeroen van den Berg/Soccrates/Getty Images)

Em julho passado, dias antes da final da Copa do Mundo, Xavi Hernández i Creus foi claro à rádio espanhola RNE: "Tenho que respeitar todos os treinadores que estão em atividade por seleções, mas eu gostaria muito de treinar uma seleção. Quero participar de uma Copa do Mundo, uma Eurocopa, uma Copa Africana de Nações ou uma Copa da Ásia como treinador. Teria que ser um projeto bonito e que pudesse trabalhar com calma". Pois bem: no mês seguinte, a chance surgiu. Uma grande chance. E será como o primeiro técnico estrangeiro que a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) tem, após 48 anos, que Xavi iniciará o desafio de fazer a Laranja voltar a ser uma competidora real nos torneios que disputa. 

A começar pela fase de grupos da Liga das Nações, que já terá desafios grandes nestas datas FIFA "turbinadas". Primeiro, o maior clássico que os neerlandeses podem imaginar: contra a Alemanha - também em estreia badalada de técnico, Jürgen Klopp -, às 15h45 de Brasília desta quinta, 24, na Johan Cruyff Arena de Amsterdã. Aí vem a Sérvia, no domingo, 27, às 13h de Brasília, em Belgrado. Depois, a Grécia, às 15h45 do dia 1º de outubro, outra quinta, em Tessalônica. E finalmente, a quarta rodada, no "jogo de volta" contra os sérvios, em Eindhoven, às 15h45 de mais um domingo, 4 de outubro.

Xavi não tem lá uma carreira de técnico que tenha decolado. Começou no Al-Sadd catarense, e no Barcelona em que marcou época como meio-campo, embora tenha um título espanhol e uma Supercopa da Espanha (ambos em 2022/23), além de dar a primeira chance no time principal a Lamine Yamal e Pau Cubarsì, entre outros, o trabalho de Xavi foi considerado defensivo demais. Não exatamente ruim, mas mediano. 

Ainda assim, o nativo da cidade espanhola de Terrassa foi saudado com alguma boa vontade por torcida e imprensa. Primeiro, por ter sido simpático, saudando a memória de Johan Cruyff e a importância de Louis van Gaal (quem lhe deu a primeira chance no Barcelona), se dizendo até um “filho do futebol holandês”. Depois, por interromper o ciclo repetitivo de treinadores que a seleção masculina neerlandesa tinha. E finalmente, por ser, principalmente dentro de campo, um símbolo do “jeito espanhol” de jogar. Um jeito que fez a Espanha se tornar uma seleção definitivamente grande, desde 2008. E um jeito que a Holanda quer recuperar para sua seleção masculina, que mesmo tendo alguns bons momentos na Copa recém-passada, saiu por baixo, eliminada após ser exagerada e desnecessariamente defensiva contra Marrocos, nos 16-avos de final.

Van Dijk: sentindo-se prestigiado por Xavi, o capitão da Laranja decidiu continuar (Jeroen van den Berg/Soccrates/Getty Images)

Pois Xavi quis manter essa boa vontade, a princípio, em sua primeira convocação, sem mudanças bruscas. Dos 26 jogadores chamados, 20 estiveram na Copa. As alterações foram todas elogiadas por ele. Joey Veerman, de bom começo no Borussia Dortmund, de volta à Laranja após ser excluído nos tempos de Ronald Koeman? “Ele joga. Tem muitas qualidades táticas, pode nos ajudar, é ótimo na construção de jogadas”. Gjivai Zechiël, convocação que estreia na Laranja, meio-campo promissor, vindo de ótimo começo de temporada no Feyenoord? “Ele tem potencial.” Mexx Meerdink, novamente convocado para o ataque após uma leve lesão causar o corte de Donyell Malen? “Quero vê-lo jogar.” Virgil van Dijk, que decidiu seguir na Laranja, pelo menos, até a Euro 2028, aos 35 anos? “Viajei a Liverpool para falar com ele. Foi uma boa conversa. Ele é um líder por natureza, então, não havia por quê ele deixar de ser o capitão. Precisamos dele.”

Até mesmo nos assuntos mais espinhosos, Xavi manteve a amenidade de um início cuidadoso. Por exemplo, ao falar sobre a ausência de Memphis Depay - ausência que, para muitos holandeses que o julgam displicente, deveria ser definitiva, antes até que os corintianos se magoassem com ele após o pênalti perdido nas quartas de final da Copa Libertadores da América: “O mais difícil foi falar com Memphis [sobre a ausência]. Mas tenho uma ótima relação com ele, ele entendeu bem, e quero deixar claro que a porta não está fechada definitivamente nem para ele, nem para Weghorst, nem para ninguém”. Ou mesmo ao ser perguntado sobre o trabalho do antecessor Ronald Koeman: “Respeito Ronald. Não vou falar sobre o passado aqui”.

Joey Veerman (centro): de volta às convocações da Laranja, o meio-campo quer esquecer a relação turbulenta com o técnico anterior, Ronald Koeman, e começar nova fase (Stefan Koops/Eye4Images/NurPhoto/Getty Images)

Se o novo técnico dos Países Baixos ainda age com simpatia, tem a retribuição dos convocados. A começar por Van Dijk: “Para continuar, eu precisava sentir confiança, uma combinação de respeito e satisfação, era o que eu queria. Desde o primeiro segundo da conversa com ele, foi o caso. Foi muito bom, e estou motivado”. Joey Veerman, enfim prestigiado, também minimizou as turbulências com Ronald Koeman (“Não faz sentido pensar no que já foi”) e foi otimista com o novo período (“Não conversei com Xavi individualmente, mas se ele me convocou, é pelo que viu de mim. Espero ter chance contra a Alemanha”). Também otimista foi Brian Brobbey, provável titular no ataque, vindo de bom começo de temporada no Sunderland. Ao ouvir a lembrança das ausências de Malen, Memphis e de outro veterano, Wout Weghorst, Brobbey foi curto e grosso: “Eu estou aqui”. E o estreante Zechiël creditou sua convocação, grato, a um “plano de Deus”.

Cabe à Holanda jogar para vencer. Até porque, se as datas FIFA passarem com maus resultados, a boa vontade com Xavi passará rapidamente.

Os 26 convocados da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

GOLEIROS: Bart Verbruggen (Brighton-ING), Mark Flekken (Bayer Leverkusen-ALE) e Robin Roefs (Sunderland-ING)

DEFENSORES: Denzel Dumfries (Real Madrid-ESP), Jurriën Timber (Arsenal-ING), Virgil van Dijk (Liverpool-ING), Jan Paul van Hecke (Tottenham Hotspur-ING), Micky van de Ven (Tottenham Hotspur-ING), Nathan Aké (Fenerbahçe-TUR) e Jorrel Hato (Chelsea-ING)

MEIO-CAMPISTAS: Tijjani Reijnders (Al Qadsiah-SAU), Ryan Gravenberch (Liverpool-ING), Quinten Timber (Crystal Palace-ING), Teun Koopmeiners (Juventus-ITA), Guus Til (PSV), Joey Veerman (Borussia Dortmund-ALE), Kenneth Taylor (Lazio-ITA) e Gjivai Zechiël (Feyenoord)

ATACANTES: Cody Gakpo (Liverpool-ING), Crysencio Summerville (Al Hilal-SAU), Jeremie Frimpong (Liverpool-ING), Noa Lang (Napoli-ITA), Mexx Meerdink (AZ) e Ruben van Bommel (PSV)

terça-feira, 3 de junho de 2025

Sinal fechado

A cabeça baixa de Romée Leuchter indica: as últimas rodadas da Liga das Nações deixaram muita preocupação sobre a seleção feminina da Holanda, com vistas à Euro (Stan Oosterhof/Soccrates/Getty Images)

Desde que saiu o sorteio dos grupos da Eurocopa feminina, as perspectivas sobre a seleção da Holanda (Países Baixos) são mistas. Ao mesmo tempo em que enfrentar Inglaterra (atual campeã) e França já será certeza de grandes desafios desde a fase de grupos, ficavam as esperanças de que as Leoas Laranjas teriam, sim, condições de vencerem o equilíbrio e irem às quartas de final, por terem um time entrosado, com boas jogadoras - a começar do gol, com Daphne van Domselaar em ótima forma, e seguindo até a esperança de que Vivianne Miedema se livre das lesões. Pois é: as esperanças diminuíram bastante, com as últimas rodadas da fase de grupos da Liga das Nações. Já teriam diminuído só com os 4 a 0 sofridos para a Alemanha, na sexta-feira passada. O empate em 1 a 1 com a Escócia - lanterna do grupo 1 da Liga A, sem pontos até esta terça-feira - apenas deixou mais dúvidas sobre as capacidades neerlandesas. Dúvidas despertadas desde o primeiro minuto de bola rolando contra as alemãs.

Nem demorou tanto assim para a Alemanha começar a acelerar a troca de passes, começar a envolver a defesa holandesa, começar a chegar perto do gol. Foi assim já aos 8', quando Giulia Gwinn recebeu passe de calcanhar de Klara Bühl e chutou. Daquela vez, Dominique Janssen bloqueou. No minuto seguinte, após rebote parcial de escanteio, não houve jeito: Bühl cruzou, Janina Minge ajeitou, e Linda Dallmann completou com precisão, no ângulo esquerdo de Lize Kop, para fazer 1 a 0. Era só o começo: as alemãs acuavam as holandesas na defesa, tentavam cruzamentos pelos dois lados, não davam espaço para a Holanda tentar a troca de passes (e nem a Holanda tentava, a bem da verdade). Jeroen Elshoff, narrador da emissora NOS, lamentava: "Het is bijna niet te stoppen" - em holandês, "quase não dá para parar".

A única menção leve de ataque holandês foi aos 21': em escanteio cobrado por Jill Roord, a zagueira Buurman cabeceou, mas a goleira Ann-Katrin Berger pegou. Nada que a Alemanha não restabelecesse rapidamente. Primeiro, aos 23', quando Lea Schüller cabeceou para fora. Depois, com o segundo gol, aos 25': Kerstin Casparij (atuação muito frágil na marcação) perdeu a bola, Sjoeke Nüsken passou para Jule Brand, esta cruzou, e Lea Schüller desviou rasteiro. E foram mais jogadas alemãs, diante de uma Holanda frágil na defesa - principalmente nas laterais, com Casparij e Esmee Brugts sem conseguirem conter nem Minge, nem Gwinn, nem Bühl (talvez o nome do jogo). Com a fragilidade, vieram os espaços que normalmente vêm quando as Leoas Laranjas jogam mal. E foram aproveitados no último minuto do primeiro tempo, quando Minge lançou e Sarai Linder veio da lateral esquerda para, livre, correr com a bola até a área, tocar na saída de Kop e fazer 3 a 0.

Vieram alterações ao final do intervalo. Sherida Spitse para, quem sabe, fortalecer a saída de bola da defesa; Lynn Wilms para fortalecer a marcação na direita, no lugar de Casparij; e Victoria Pelova tentando manter a bola no meio-campo, nas poucas vezes em que a Holanda a tivesse. Mudanças? Antes mesmo que elas talvez tivessem efeito, Dallmann deu passe de calcanhar que deixou Gwinn livre para cruzar a bola na cabeça de Schüller, superando Spitse na marcação para transformar a vitória por 3 a 0 em goleada (4 a 0). Goleada que poderia ter ficado maior ainda aos 56', quando Bühl, onipresente, cobrou escanteio, e Roord tirou em cima da linha para evitar o gol olímpico. Ou mesmo aos 65', quando Kop rebateu chute da meio-campista alemã. Chances, para a Holanda, somente nos minutos finais - mais precisamente, nos acréscimos, quando Wilms cruzou e Daniëlle van de Donk (substituta de Roord) completou para fora. Notas de rodapé numa goleada que fez das alemãs semifinalistas antecipadas da Liga das Nações.

A goleada fez mais: mostrou como a seleção feminina neerlandesa seguia com alguns pontos frágeis rumo à Eurocopa. Claro, haveria mudanças na escalação contra a Escócia, dentro de um cenário em que a preparação para a Eurocopa era mais importante. Tão importante que Vivianne Miedema foi desligada da delegação, nesta segunda, com o técnico Andries Jonker antecipando: a atacante já entrará em preparação, combinada e preparada com o fisiologista da delegação, para chegar ao dia 19, data da apresentação das convocadas para a Euro, em condições de participar do torneio continental. Andries Jonker até evocou uma lembrança masculina: Arjen Robben, machucado no último amistoso holandês antes da Copa de 2010, que só jogou aquele torneio ao se preparar, dia e noite, na semana anterior. "Vivianne é do mesmo tipo dele, e vai fazer de tudo para estar lá no dia 19. Acho que vai dar certo. Ela quer muito estar na Euro, e isso mostra a jogadora de alto nível que é".

Jill Roord foi quem mais apareceu nos (poucos) bons momentos das Leoas Laranjas contra a Escócia (Alex Bierens de Haan/Getty Images)

O alto nível até começou sendo visto no time holandês que enfrentou a Escócia, em Tilburg. Curiosamente, duas conhecidas apareciam mais nas jogadas de ataque: Van de Donk (agora titular) e, principalmente, Jill Roord. Que, desta vez, abriu o placar, aos 10', após tentar uma primeira vez - a goleira Lee Alexander Gibson rebatera a primeira, mas Van de Donk cruzou na sobra. Tendo em vista os espaços que a Holanda tinha para avançar e chutar da entrada da área - Esmee Brugts fez isso aos 16', e Roord, aos 21' e aos 26', com Gibson pegando as duas tentativas -, era de se prever vitória tranquila das Leoas Laranjas. 

Previsão que se acabou aos 27', num erro da defesa: Caitlin Dijkstra mandou a bola nos pés de Emma Lawton, que cruzou com precisão para Kathleen Mary McGovern cabecear e fazer 1 a 1 (de volta ao gol, Daphne van Domselaar tentou rebater, mas a bola entrou). A partir dali, a Escócia começou a avançar mais, como se notou no chute cruzado de Mia McAuley, aos 38', para fora, em jogada originada de mais um erro de passe. Pelo menos, a Holanda ainda teve chances na reta final da etapa inicial: novo chute de Roord aos 34', um desvio de Romée Leuchter completando escanteio aos 38', um cabeceio de Victoria Pelova (aniversariante do dia) aos 39', todos rebatidos pela goleira escocesa.

Ficaria pior, para a Holanda. Porque se a Escócia atacou mais nos contragolpes durante os primeiros 45 minutos, no segundo tempo ela dominou. A começar aos 49', quando McAuley forçou Van Domselaar a defender seu chute. Aos 63', Erin Cuthbert arrematou, e com um desvio, a bola passou perto da trave esquerda. E Van Domselaar mostrou a boa fase que vive no gol, na reta final: aos 83', defendeu o arremate de Kirsty Howat, e aos 88', após Brugts errar mais um passe, gerando contra-ataque escocês, Martha Thomas bateu para a camisa 1 holandesa evitar à queima-roupa. A Holanda? Só teve chance digna de nome aos 80', num chute de Roord rente à trave.

Nada que evitasse a incômoda impressão de que a esperança de uma boa Eurocopa ficou menor para a Holanda, após estas datas FIFA. E que o sinal está praticamente vermelho. Só se espera que, após alguns dias de férias, a preparação a partir do dia 19 volte a abri-lo.

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 1

Alemanha 4x0 Holanda
Data: 30 de maio de 2025
Local: Weserstadion (Bremen)
Árbitra: Alina Pesu (Romênia)
Gols: Linda Dahlmann, aos 9', Lea Schüller, aos 25' e aos 48', e Sarai Linder, aos 45'

ALEMANHA
Ann-Katrin Berger; Giulia Gwinn (Carlotta Wamser, aos 81'), Janina Minge (Kathrin Hendrich, aos 56'), Rebecca Knaak e Sarai Linder; Elisa Senss (Sara Däbritz, aos 68') e Sjoeke Nüsken; Jule Brand, Linda Dallmann e Klara Bühl (Selina Cerci, aos 68'); Lea Schüller (Giovanna Hoffmann, aos 57'). Técnico: Christian Wück

HOLANDA
Lize Kop; Kerstin Casparij (Lynn Wilms, aos 46'), Dominique Janssen, Veerle Buurman e Esmee Brugts (Sherida Spitse, aos 46'); Jackie Groenen, Wieke Kaptein e Damaris Egurrola Wienke (Victoria Pelova, aos 46'); Chasity Grant, Jill Roord (Daniëlle van de Donk, aos 69') e Romée Leuchter (Katja Snoeijs, aos 84'). Técnico: Andries Jonker


Holanda 1x1 Escócia
Data: 3 de junho de 2025
Local: Koning Willem II Stadion (Tilburg)
Árbitra: Silvia Gasperotti (Itália)
Gols: Jill Roord, aos 10', e Kathleen Mary McGovern, aos 27'

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Kerstin Casparij (Lynn Wilms, aos 74'), Sherida Spitse (Dominique Janssen, aos 68'), Caitlin Dijkstra e Esmee Brugts; Victoria Pelova (Katja Snoeijs, aos 85'), Wieke Kaptein e Jackie Groenen; Daniëlle van de Donk (Chasity Grant, aos 68'); Jill Roord (Damaris Egurrola, aos 85') e Romée Leuchter. Técnico: Andries Jonker

ESCÓCIA
Lee Alexander Gibson; Emma Louise Lawton, Sophie Howard (Rachel MacLauchlan, aos 46'), Jenna Clark e Amy Muir; Kirsty MacLean (Emma Watson, aos 90' + 4), Erin Cuthbert e Caroline Weir; Mia McAuley (Kirsty Howat, aos 56'), Kathleen Mary McGovern (Martha Thomas, aos 56') e Freya Gregory (Kirsty Smith, aos 46'). Técnico: Melissa Andreatta


quarta-feira, 28 de maio de 2025

O que importa é a Euro, mas...

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) até terá seu interesse em avançar às semifinais da Liga das Nações, mas encara as datas FIFA pensando na preparação para a Eurocopa (Reprodução)

"Só uma coisa importa. Usaremos este período para nos prepararmos rumo à Eurocopa." Por estas frases do técnico Andries Jonker, na entrevista coletiva de apresentação, já fica claro: a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) estará nas duas últimas rodadas da fase de grupos da Liga das Nações, tem até chance de ainda avançar às semifinais... mas pensará principalmente nos últimos ajustes para a convocação e a reta final da preparação para a Euro feminina, na Suíça, em julho. É com esse espírito, pensando (um pouco) menos em vencer e mais em se aprumar, que as Leoas Laranjas enfrentarão a Alemanha - nesta sexta, 30 de maio, às 15h30 de Brasília, na cidade alemã de Bremen - e a Escócia, fechando o grupo 1 da liga A - na próxima terça, 3 de junho, em Tilburg, também às 15h30 de Brasília.

De certa forma, a convocação para as duas partidas já indicou: ao contrário do que pareceu em 2024, Andries Jonker ainda apostará em boa parte da "geração Euro-2017" para a próxima edição do torneio europeu de seleções de mulheres. Um indício quase gritante disso está no retorno de mais uma veterana às convocações: após um ano e três meses, a atacante Shanice van de Sanden foi novamente relacionada. À primeira vista, pode parecer (e até é) apego excessivo ao passado. Nem tanto, ao se reparar que Van de Sanden marcou sete gols nos últimos quatro jogos que fez pelo Toluca, clube em que atua no México desde janeiro. E como a Liga MX Femenil já tem uma outra representante veterana entre as holandesas (Merel van Dongen, nas Rayadas de Monterrey), fica relativamente justificada a presença da veterana, que avaliou à emissora NOS a roda-viva por que passou nos últimos anos: "Eu me tornei mãe, tive algumas lesões no tornozelo, no tendão de Aquiles (...) Agora está tudo certo: me sinto em forma e posso entregar o que sou capaz de entregar em campo". E foi além: "Fiz isso [jogar no México] também para tentar ir à Euro".


Talvez também tenha sido a vontade de deixar "tudo certo" o motivo para uma mudança que foi tema na coletiva de imprensa de Andries Jonker: a atacante Jill Roord voltando (inesperadamente) ao Twente em que começou a jogar, oito anos depois de deixar os Países Baixos. Roord voltara de séria lesão - ligamento cruzado anterior do joelho - mostrando boas atuações no Manchester City, teria espaço nas Citizens... mas preferiu voltar. O motivo foi até compreensível, explicado no vídeo em que comentou seu retorno ao recém-coroado bicampeão holandês entre as mulheres: "Joguei por clubes fantásticos no exterior, dei tudo de mim por oito anos... mas nos últimos anos, perdi mais o meu prazer de jogar futebol, a minha felicidade. E já acho que vou recuperá-la aqui [no Twente]". Mesmo assim, o técnico até brincou com a surpresa que Roord causou, ao deixar a mais competitiva liga europeia da atualidade para voltar à sua "casa": "Eu quase caí da cadeira, por essa eu não esperava".

Jonker foi mais sério ao criticar o calendário das datas FIFA femininas - com alfinetada especial à própria Liga das Nações ("Essas mulheres sempre precisam continuar jogando. Sempre. As pessoas pensam que elas nunca precisam descansar. Uma hora o gás acaba"). Criticou até mesmo a antecipação da revelação de que Arvid Smit e Janneke Bijl, seus atuais auxiliares técnicos, deixarão a Holanda após a Eurocopa feminina ("Tenho minhas opiniões, mas acho melhor nem falar nada"), rumando para trabalharem ao lado de Sarina Wiegman na comissão técnica da Inglaterra, adversária na fase de grupos da Euro. Em sentido contrário, aliás, virá... Arjan Veurink, atual auxiliar de Sarina (não só nas Lionesses, mas desde os tempos em que ela era a treinadora holandesa), para comandar as Leoas Laranjas após a Eurocopa.

Jonker ressaltou que a Euro é o foco: "Claro, se pudermos vencer na Nations League, pode ser legal, mas tudo gira em torno da Euro". Até por isso, não pestanejará em poupar contra a Alemanha Vivianne Miedema, ainda voltando da lesão muscular sofrida justamente nas últimas datas FIFA ("Espero poder jogar alguns minutos contra a Escócia", desejou a atacante à ESPN holandesa), nem Lineth Beerensteyn, atual goleadora da Liga das Nações, também machucada. Jonker também deixará de fora outra titular absoluta - e muito motivada: a goleira Daphne van Domselaar, celebrada no Arsenal campeão europeu de mulheres. Vinda da festa da vitória em Londres direto para a concentração no centro da federação, na cidade de Zeist, Van Domselaar era só alegria na apresentação ("É fantástico, ainda parece mentira"). Mas até por ainda vir de lesão no tornozelo - para jogar as fases decisivas da Champions, foi poupada nas últimas rodadas da Super League inglesa -, a goleira verá Lize Kop titular contra as alemãs. Entre a dupla holandesa do Arsenal campeão, talvez só jogue Victoria Pelova, também com as memórias da festa na cabeça ("O que vou dizer mais? Foi incrível, foi inesquecível").

Pelova (centro) demorou mais para voltar da festa do título do Arsenal campeão europeu de mulheres, mas vai jogar. Ao contrário de Van Domselaar, que voltou antes, mas está fora contra a Alemanha (KNVB Media/Soccrates Images/Divulgação)

No entanto, mesmo que a Eurocopa importe mais... jogo competitivo é jogo competitivo. E o próprio Andries Jonker lembrou isso, na entrevista coletiva: "Nesta semana, o que importa é a Euro. Mas claro que queremos ganhar". Até porque, na Liga das Nações, nem o empate bastará: com dez pontos no grupo 1 da Liga A, como a Alemanha, a Holanda está atrás no saldo de gols. Então, para tentar ir às semifinais, não há jeito: é necessário ganhar em Bremen para passar à liderança e depender só de si. Ou seja: o que importa é a Eurocopa. Mas se a Holanda avançar na Liga das Nações, ninguém vai chorar. Nem mesmo com um calendário cada vez mais lotado...

As 23 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

Goleiras: Daphne van Domselaar (Arsenal-ING), Lize Kop (Tottenham Hotspur-ING) e Daniëlle de Jong (Twente) - Regina van Eijk (Ajax) estará no grupo contra a Alemanha, substituindo Van Domselaar, que não será relacionada

Defensoras: Kerstin Casparij (Manchester City-ING), Lynn Wilms (Wolfsburg-ALE), Sherida Spitse (Ajax), Dominique Janssen (Manchester United-ING), Caitlin Dijkstra (Wolfsburg-ALE), Veerle Buurman (PSV), Ilse van der Zanden (Utrecht) e Merel van Dongen (Rayadas de Monterrey-MEX)

Meio-campistas: Daniëlle van de Donk (Lyon-FRA), Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA), Damaris Egurrola Wienke (Lyon-FRA), Wieke Kaptein (Chelsea-ING), Jill Baijings (Aston Villa-ING) e Victoria Pelova (Arsenal-ING)

Atacantes: Lineth Beerensteyn (Wolfsburg-ALE), Jill Roord (Manchester City-ING), Vivianne Miedema (Manchester City-ING), Esmee Brugts (Barcelona-ESP), Renate Jansen (PSV), Katja Snoeijs (Everton-ING), Chasity Grant (Aston Villa-ING), Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA) e Shanice van de Sanden (Toluca-MEX).

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

A humilhada está sendo exaltada

Beerensteyn já vinha em boa fase na seleção feminina da Holanda (Países Baixos) em 2024. Começou este ano do mesmo jeito, na Liga das Nações (Hans van der Valk/BSR Agency/Getty Images)

Ah, Lineth Beerensteyn. A atacante já está há muito tempo na seleção feminina da Holanda (Países Baixos). Acompanhou seus altos - o título europeu em 2017, o vice mundial em 2019 - e seus baixos - a campanha apagada na Euro passada, em 2022-valendo-por-2021. Algumas vezes, foi titular. Na maioria, porém, não só era reserva, como quase sempre era contestada: não tinha o talento para finalização que Vivianne Miedema mostra, não tinha a técnica de Lieke Martens, para muitos é apenas uma "operária", uma esforçada - e mesmo assim, dispensável. Pois é: a humilhada está sendo exaltada. Pois Beerensteyn começou 2025 sendo o principal destaque neerlandês nas duas rodadas iniciais da Liga das Nações - tanto no empate em 2 a 2 com a Alemanha, quanto na vitória por 2 a 1 sobre a Escócia.

No primeiro jogo, até que a Alemanha começou melhor, com suas saídas em bloco para o ataque, carregadas principamente por Jule Brand, no meio-campo. Entretanto, a defesa holandesa não só estava atenta, com bons começos de Caitlin Dijkstra e Veerle Buurman, como as Leoas Laranjas fizeram o primeiro gol logo na primeira chance: aos 13', Buurman lançou em profundidade, Lineth Beerensteyn ganhou a disputa na corrida, chegou à área com a bola e tocou na saída da goleira Ann-Katrin Berger. Começava aí o melhor momento da Holanda no jogo, com o segundo gol quase vindo já aos 16', quando Dijkstra desviou a bola para fora, após Jill Roord cobrar falta. Mesmo assim, convinha prestar atenção na Alemanha. Que continuava atacando, em tentativas de Laura Freigang - aos 30', em chute por cima do gol, e aos 41', cabeceando para fora após Giulia Gwinn cobrar falta. Sjoeke Nüsken também tinha sua tentativa, aos 39'. Até que nos acréscimos, veio enfim o empate, em boa troca de passes: Klara Bühl (ativa na esquerda) cruzou, Lea Schüller superou Esmee Brugts (sem muita capacidade defensiva) e cabeceou para o 1 a 1.

Era visível: a Alemanha já tinha envolvido a Holanda, por ter rapidíssimas trocas de passe, além dos supracitados avanços com muitas jogadoras. Numa dessas, já no começo da etapa final, saiu o 2 a 1 alemão: Brand fez a jogada pela direita, passou a bola e Nüsken ficou livre para marcar. No minuto seguinte, Daphne van Domselaar fez excelente defesa, voando para espalmar cabeceio de Schüller - e a goleira apareceria de novo aos 55', agarrando firme chute de Bühl. Só depois de todos esses sustos o time dos Países Baixos se recompôs. Com Chasity Grant (substituta de Daniëlle van de Donk, machucada ainda no 1º tempo) aparecendo bem na direita, os ataques voltaram a fluir. E logo veio o gol de empate, novamente com Beerensteyn, de cabeça. Aberto o caminho para chances de parte a parte, o segundo tempo terminou com chances de um lado (chute de Bühl para fora, aos 70', cabeceio da zagueira Rebecca Knaak para fora aos 77') e de outro (Grant cruzou, e a bola passou pouco à frente de Renate Jansen, que poderia ter virado aos 86'). E a impressão geral foi positiva em Breda.

E seguiu positiva no começo do jogo contra a Escócia. Bem mais ofensiva do que contra as alemãs, a Holanda criou muitas chances. Começou num cabeceio de Jill Roord para fora, aos 6'. Depois, aos 11', o cabeceio foi de Miedema, e a goleira Lee Alexander Gibson precisou espalmar. Chegaram a ser duas chances em um minuto: aos 21', Chasity Grant chutou após Esmee Brugts cruzar, e Gibson pegou, enquanto Beerensteyn recebeu a bola em profundidade no minuto seguinte,e chutou cruzado. As Leoas Laranjas tinham mais a bola, encurralavam a Escócia, que só teria chance numa jogada de bola parada. Bem, ela apareceu. E as escocesas aproveitaram: aos 34', um escanteio rebatido parcialmente, Rachel MacLauchlan bateu, a bola ricocheteou na defesa e sobrou para Emma Louise Lawton fazer o 1 a 0 surpreendente. As escocesas se animaram tanto que quase fizeram o segundo gol, nos acréscimos, quando Lauren Davidson cruzou, Kirsty Hanson completou à queima-roupa na área, e Daphne van Domselaar evitou. Estava claro: a seleção dos Países Baixos não tivera intensidade nem no ataque (tinha a bola, mas perdia as chances), nem na defesa (dava espaços crescentes). Precisava melhorar no segundo tempo, se não quisesse ser vítima de uma zebra.

A Holanda conseguiu ganhar o jogo, mas a Escócia bem que assustou ao sair na frente (Ian MacNicol/Getty Images)

As Leoas Laranjas começaram a mostrar isso no segundo tempo. Azar de Lee Gibson: a goleira escocesa trabalhou duas vezes em seis minutos (evitando gol olímpico de Roord aos 48' e chute de Miedema aos 53'). Miedema - ainda algo sem ritmo nestas datas FIFA - teve chance ainda aos 51', desviando para fora cruzamento de Brugts. Mas coube a quem tirar a Holanda do desafogo? Quem? Isso mesmo: Beerensteyn. Que fez seu segundo gol nesta Liga das Nações - o nono, no total de edições, fazendo dela goleadora histórica do torneio até o momento -, em boa jogada individual aos 54', driblando três defensoras pela esquerda antes do chute. A Escócia bem que tentou assustar (Lauren Davidson tentou aos 61'), Miedema perdeu boa chance aos 63' (chutou por cima a bola, após saída errada de Gibson), mas o gol da virada e da vitória veio ao 64', em triangulação. Que contou com Beerensteyn, claro: ela passou, Miedema cruzou, Grant completou na pequena área para seu primeiro gol pela seleção feminina holandesa. De quebra, Beerensteyn ainda mandou o terceiro gol na trave, aos 67' - Roord teve mais chances por sua vez, aos 71' e aos 75'.

Mas se a seleção da Holanda teve resultados até previsíveis nestas primeiras rodadas, ela tem um destaque esperado por poucos. Enfim, depois de muitas críticas, Lineth Beerensteyn tem seu valor reconhecido. Já não era sem tempo.

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 1

Holanda 2x2 Alemanha
Data: 21 de fevereiro de 2025
Local: Rat Verlegh (Breda)
Árbitra: Maria Caputi (Itália)
Gols: Lineth Beerensteyn, aos 13' e aos 66', Lea Schüller, aos 45' + 1, e Sjoeke Nüsken, aos 50'

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Kerstin Casparij, Caitlin Dijkstra (Sherida Spitse, aos 71'), Veerle Buurman (Dominique Janssen, aos 71') e Esmee Brugts; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk (Chasity Grant, aos 43') e Wieke Kaptein (Renate Jansen, aos 83'); Lineth Beerensteyn, Vivianne Miedema (Katja Snoeijs, aos 71') e Jill Roord. Técnico: Andries Jonker

ALEMANHA
Ann-Katrin Berger; Giulia Gwinn, Elisa Senss, Rebecca Knaak e Sarai Linder (Felicitas Rauch, aos 88'); Janina Minge e Sjoeke Nüsken; Jule Brand (Vivien Endemann, aos 77'), Laura Freigang (Linda Dallmann, aos 64') e Klara Bühl (Selina Cerci, aos 77'); Lea Schüller. Técnico: Christian Wück


Escócia 1x2 Holanda
Data: 25 de fevereiro de 2025
Local: Hampden Park (Glasgow)
Árbitra: Stéphanie Frappart (França)
Gols: Emma Louise Lawton, aos 34', Lineth Beerensteyn, aos 54', e Chasity Grant, aos 64'

ESCÓCIA
Lee Alexander Gibson; Rachel McLauchlan, Sophie Howard, Jenna Clark (Samantha Kerr, aos 75') e Emma Louise Lawton (Kirsty Smith, aos 86'); Leah Eddie, Caroline Weir e Kirsty MacLean; Lauren Davidson (Claire Emslie, aos 69'), Eilidh Adams (Martha Thomas, aos 69') e Kirsty Hanson (Freya Gregory, aos 69'). Técnico: Michael McArdle

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Kerstin Casparij, Sherida Spitse, Dominique Janssen e Esmee Brugts; Wieke Kaptein, Jackie Groenen e Jill Roord; Chasity Grant (Romée Leuchter, aos 65'), Vivianne Miedema (Katja Snoeijs, aos 72') e Lineth Beerensteyn. Técnico: Andries Jonker

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Precisa perder o medo

Na abertura dos trabalhos da seleção feminina da Holanda (Países Baixos) em 2025, Andries Jonker é um técnico demissionário - que reclamou do isolamento na notícia (Stan Oosterhof/Soccrates/Getty Images)

Várias convocadas novatas, atuações promissoras nos amistosos que fecharam 2024 (até mesmo na derrota para os Estados Unidos)... a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) tinha tudo para ter um começo de ano impondo respeito nas datas FIFA que vêm aí, abrindo a fase de grupos da Liga das Nações, contra Alemanha - nesta sexta, dia 21, em Almelo, às 16h45 de Brasília - e Escócia - em Glasgow, na terça, 25, às 16h30 de Brasília. Até porque impor respeito é necessário, em ano de Eurocopa feminina, na qual as Leoas Laranjas terão um grupo dificílimo, encarando Inglaterra e França. Só que a convocação feita pelo técnico Andries Jonker ignorou, em grande parte, toda essa renovação promissora. E talvez isso seja indicativo de mais problemas.

Problemas resumidos num fato, confirmado no mês passado pela federação holandesa: a saída de Jonker, cujo contrato iria até o fim da Euro, sem ter a renovação. Diretor de "futebol de alto nível" (as aspas não são irônicas), o ex-jogador Nigel de Jong justificou a decisão da dispensa de Jonker pelo desejo da federação de colocar a equipe de mulheres "numa nova fase". Compreensível, até: o trabalho de quase três anos do treinador pode ser considerado razoável (quartas de final na Copa de 2023, semifinalista na Liga das Nações passada, vaga na Eurocopa assegurada), mas diante do crescimento da nova geração e do fim gradual da "geração 2017-2019" - Lieke Martens parou com a seleção, Sherida Spitse e Daniëlle van de Donk deverão parar após a Euro -, era desejável abrir espaço para mais novatas, junto às veteranas que ficarão para tentar levar a equipe à Copa de 2027.

Saída em comum acordo, certo? Errado, conforme Andries Jonker deixou claro na entrevista coletiva de abertura dos trabalhos, no centro de treinamentos da federação, em Zeist: "Fiquei surpreso e triste. (...) Foi uma decisão da federação, e não cabe a mim explicá-la. Fui perguntado o que pensava do meu futuro, e após pensar bem, tinha dito que eu ainda queria seguir mais dois anos. Aí, a federação teria tempo para avaliar um novo substituto". Conflito aberto, nem assim Nigel de Jong quis deixar claras as razões da saida: "As razões não interessam agora, porque ainda estamos explicando. Tudo que se falar agora será uma carga extra para as jogadoras e a comissão técnica".

E as jogadoras também se afastaram de quaisquer comentários a respeito da saída vindoura de Jonker. A começar por Sherida Spitse, que falou ao lado do técnico na coletiva: "Geralmente temos contato com a direção, mas não soubemos de nada disso [demissão]. Pessoalmente, achei chato, pois tenho uma ótima relação com ele, adoraria passar mais dois anos sob seu comando". Mais amenas ainda foram, falando à emissora NOS, Daniëlle van de Donk ("Claro que é chato, mas assim são as coisas no futebol. Posso achar muitas coisas, mas não sou eu quem decide, não estamos envolvidas nisso") e Jackie Groenen ("Tenho uma opinião, mas não acho que preciso dizê-la. Posso deixar claro que tenho boa relação com Andries, mas essas são coisas que fogem do meu controle").

As jogadoras treinam normalmente, se eximindo dos debates sobre a saída de técnico que vem aí (KNVB Media/Divulgação)

Se suposta má relação com as comandadas é um motivo totalmente afastado para a troca de técnico, talvez a razão esteja numa postura meio temerosa demais de Jonker nas convocações. Se as novatas deram bom resultado, talvez fosse o caso de dar mais espaço a elas. Entretanto, o que se viu foram alguns retornos. Merel van Dongen, agora uma feliz mãe (até recebeu um uniforme das Leoas Laranjas para bebês, de presente da federação); Caitlin Dijkstra, recuperada de lesão, assim como... Vivianne Miedema, enfim ganhando algum ritmo de jogo no Manchester City, já com cinco gols na liga inglesa, expressando confiança ao site oficial da seleção neerlandesa: "'Estou bem. Estou aqui de novo, finalmente. Já faz um tempo, espero poder estar aqui com mais frequência. (...) Acho que estou razoavelmente em forma".

O otimismo segue em Esmee Brugts, que não só diz querer um título ("A Nations League é mais uma chance"), como também lembra que a Alemanha tirou das holandesas a chance de estar no torneio olímpico passado, em Paris: "Ficamos tão perto... foi duro". E será bom se esse otimismo significar um pouco mais de coragem da Holanda, em campo e nas convocações. Afinal de contas, é um caminho de se impor, rumo a uma Eurocopa em que imposição será necessária desde o começo.

As 24 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

Goleiras: Daphne van Domselaar (Arsenal-ING), Lize Kop (Tottenham-ING) e Daniëlle de Jong (Twente)

Defensoras: Kerstin Casparij (Manchester City-ING), Lynn Wilms (Wolfsburg-ALE), Sherida Spitse (Ajax), Dominique Janssen (Manchester United-ING), Caitlin Dijkstra (Wolfsburg-ALE), Veerle Buurman (PSV), Ilse van der Zanden (Utrecht) e Merel van Dongen (Rayadas de Monterrey-MEX)

Meio-campistas: Daniëlle van de Donk (Lyon-FRA), Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA), Wieke Kaptein (Chelsea-ING), Jill Baijings (Aston Villa-ING) e Jill Roord (Manchester City-ING)

Atacantes: Lineth Beerensteyn (Wolfsburg-ALE), Vivianne Miedema (Manchester City-ING), Esmee Brugts (Barcelona-ESP), Renate Jansen (PSV), Chasity Grant (Aston Villa-ING), Chimera Ripa (PSV) e Chasity Grant (Aston Villa-ING) - Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA). adoentada, foi cortada temporariamente entre sexta e domingo, dando lugar a Fenna Kalma (PSV)

domingo, 29 de dezembro de 2024

Laranja Mecânica, primeira e única: 10º capítulo - apesar de tudo, valeu

A Holanda decepcionou justamente quando não podia: na final da Copa de 1974. A Alemanha (Ocidental) foi justa campeã. Mas os holandeses perdoaram (Getty Images)


Para além da vitória contra o Brasil, no jogo decisivo da segunda fase, chamava a atenção que a Holanda (Países Baixos) estivesse aliviada só de chegar à final da Copa de 1974. Na coluna que ditava a um jornalista para o diário De Telegraaf, Johan Cruyff já dava o título: "Objetivo alcançado". No diário que escreveu durante a Copa, Jan Jongbloed relaxava: "Pela primeira vez neste torneio, eu me sinto muito calmo. Não sei por quê, mas é provavelmente por termos chegado à final, e certamente não deixaremos escapar". Ruud Krol retomava a humildade: "Alcançamos a final com tudo, porque ninguém esperava isso da gente. Mesmo assim, espero que possamos superar a Alemanha". Para tanto, os desafios e os problemas aumentaram cada vez mais para a Laranja, embora ninguém soubesse: a badalação fosse grande na imprensa de todo o mundo. 

Em primeiro lugar, não só Johan Cruyff continuava apenas melhorando da gripe que já o acometera antes do jogo contra o Brasil, como seguia precisando convencer a esposa Danny de que nada de errado acontecera na festa pós-jogo contra a Alemanha Oriental. Em segundo lugar, Robert Rensenbrink sofria com dores no fêmur, desde a vitória sobre a Seleção, e sua escalação era colocada sob (muita) dúvida - só foi aprovado e escalado após teste na manhã do dia da final. Em terceiro lugar, a delegação holandesa perdera um nome importante: auxiliar de Rinus Michels, Cor van der Hart fora dispensado nos dias anteriores ao domingo da final, em razão do mau comportamento na confraternização no Waldhotel. Van der Hart era importante: vinha dele o material para os jogadores sobre os adversários da Oranje naquela Copa, jogo a jogo. E em quarto lugar, por decisão de Rinus Michels, a mudança para Munique, sede da final, ocorreu um dia antes - para desagrado de alguns jogadores, que preferiam o Waldhotel-Krautkrämer, na cidade alemã de Hiltrup, com que já estavam acostumados. Não era à toa: Cruyff chegou à reta final da Copa se dizendo "exausto".

A Alemanha Ocidental subia na hora certa

De certa forma, a Holanda vinha em tendência interna diferente da Alemanha Ocidental rumo à final. A seleção da casa fizera uma primeira fase altamente criticada, mesmo com as vitórias sobre Chile (1 a 0, na estreia) e Austrália (3 a 0). A derrota para a "irmã" oriental, no jogo final da fase de grupos (1 a 0), causou controvérsia - alguns suspeitam da Mannschaft ter "aliviado" o caminho para a segunda fase, outras fontes garantem que a chateação da derrota foi grande entre os alemães ocidentais. E foi o ponto culminante para a virada: a partir dali, o técnico Helmut Schoen (1915-1996) e Franz Beckenbauer (1945-2024), o grande comandante da equipe em campo (e um pouco fora dele também), decidiram ser mais pragmáticos. 

Nomes que já não rendiam na Copa - como os meio-campistas Jupp Heynckes e Günter Netzer, destaques no título da Eurocopa em 1972 - foram para a reserva na segunda fase. A preferência seria dada ao resultado. E a Alemanha, se não brilhou, foi inegavelmente mais firme na busca da vaga na final: 2 a 0 na Iugoslávia, 4 a 2 na Suécia, 1 a 0 na Polônia, lugar garantido na decisão. De quebra, o clima entre o grupo foi melhorando progressivamente, de Malente (concentração alemã durante a maior parte da Copa, na cidade de Hamburgo) até Grünwald, pequeno clube em Munique onde a delegação ficou, nos dias anteriores à final da Copa. Aliás, dias ensolarados, ao contrário do que se viu no torneio.

A Alemanha Ocidental, preparada para a final da Copa de 1974: ao contrário da Holanda, o ânimo crescia na reta final (AFP)

E foi em Grünwald que a Alemanha se preparou definitivamente para encarar a Laranja. Ali Helmut Schoen definiu: Cruyff teria de encarar marcação individual. Afinal de contas, sabiam que o grande nome holandês tivera mais dificuldades contra a Alemanha Oriental ao ser perseguido pelo zagueiro Konrad Weise. Bastou o técnico alemão pedir a Berti Vogts que fizesse isso - logo a Vogts, órfão de pai e mãe, que tratava os técnicos importantes em sua carreira como se fossem os pais que lhe faltaram -, que o defensor alemão aceitou imediatamente. Não faria outra coisa nos 90 minutos, a não ser marcar o "Número 14" incessantemente, para que ele não ditasse o jogo como costumava fazer.

Era assim, apostando também em nomes que subiram de produção durante a Copa (como Wolfgang Overath, o meio-campo que recebeu a preferência sobre Netzer, e o ponta-esquerda Bernd Hölzenbein, conhecido pela habilidade em jogar... e em cavar faltas) e nos nomes de sempre (Sepp Maier, Beckenbauer, Gerd Müller) que a Alemanha tentaria impor sua maior tradição sobre a Holanda, favorita para muitos. Até porque alguns jogadores ali tinham o que vingar, em relação a clubes: nas quartas de final da antiga Copa dos Campeões 1972/73, o Ajax aplicara 4 a 0 no Bayern de Munique, no jogo de ida. Era ver o que aconteceria no Estádio Olímpico de Munique, no domingo, 7 de julho de 1974.

O golpe certeiro e o arrependimento

O juiz inglês John Keith "Jack" Taylor estava preocupado em prestar atenção a todos os detalhes da decisão que apitaria naquela Copa. Sem falar espanhol e sem que seus auxiliares (o mexicano Benito Archundia e o uruguaio Ramón Barreto) falassem inglês, Taylor combinou: deu dois cartões a cada um, amarelo e vermelho, e lhes pediu que os cartões fossem mostrados, caso ele não visse um lance em que teria de agir. Pediu que escrevessem os números de camisa dos jogadores, a inicial dos países ("N", de "Netherlands", o inglês para Holanda/Países Baixos; "G", de "Germany", para Alemanha), e agiria de acordo com a cor dos cartões. Taylor só não prestou atenção a um detalhe insólito, logo no apito inicial, num Estádio Olímpico previsivelmente com mais alemães do que holandeses: a falta das bandeirinhas de escanteio, retiradas do gramado para a festa de encerramento da Copa. Bandeirinhas colocadas, a final da Copa de 1974 podia começar. E começou.

E como começou, para a Holanda. Cruyff tentou avançar, não teve espaço, recuou a bola para Rijsbergen, que também tentou avançar, não conseguiu, recuou para Haan no campo de defesa, deste para Krol... a Laranja ficou com a bola por 56 segundos. Até que Cruyff viu espaço. Escapou da marcação de Vogts. Seguiu veloz até a beira da área. E levou o carrinho de Uli Hoeness, caindo na área. "Jack" Taylor marcou imediatamente: pênalti. Há como desconfiar de que a falta tinha sido cometido antes da linha demarcatória da grande área, mas de todo modo, ela foi inquestionável e foi marcada. Indo para a cobrança, Johan Neeskens pensava em bater no canto esquerdo. Só que ouviu Franz Beckenbauer gritar para Sepp Maier: "Sepp, rechts von du!" ("Sepp, é na sua direita!", em alemão). Justamente o canto em que Neeskens pensava. No limite, no apito do juiz inglês, o camisa 13 holandês decidiu bater no meio. Pegou mal na bola. Mas Sepp Maier pulou mesmo no canto esquerdo, e ela entrou. Holanda 1 a 0, na final da Copa de 1974, aos dois minutos de jogo em Munique. Sem que a Alemanha tivesse tocado na bola. Um golpe certeiro.

O pênalti de Hoeness em Cruyff: em dois minutos, sem que jogadores da Alemanha tocassem na bola, a Holanda fazia 1 a 0 na final da Copa (Bert Verhoeff/Anefo)

De quebra, aos 4', Vogts (já perseguindo Cruyff) levou o cartão amarelo. E em vantagem - até mais precoce do que fizera contra Argentina e Alemanha Oriental, na segunda fase -, a Holanda decidiu esfriar o ritmo do jogo. A torcida alemã vaiava, mas a Laranja começou a trocar passes e mais passes. De chances, a Alemanha só teve um chute de Paul Breitner, aos 9', por cima do gol de Jan Jongbloed. Aos 21', num escanteio, Rainer Bonhof (nascido em Niederhein, território dentro da fronteira neerlandesa) cabeceou, e Jongbloed até afastou, mas sem muitos problemas. No mais, até pelos problemas de Cruyff com a marcação de Vogts e a má forma do machucado Rensenbrink, a Holanda mantinha a bola com passes lentos. Para muitos, era uma tentativa de humilhar os alemães ocidentais. Para outros, além disso, era tentativa de humilhar os alemães por tudo feito nos Países Baixos fora dos campos, durante a invasão na Segunda Guerra Mundial - Van Hanegem assumia ter "ódio" dos alemães na época, já que uma explosão causada por nazistas matara seu pai e um dos seus irmãos.

Johnny Rep participou disso. 30 anos depois, em depoimento ao jornalista Auke Kok, publicado no livro "1974: wij waren de besten" ("1974: nós éramos melhores"), o atacante lamentou: "A cada minuto, você via que os alemães ficavam mais irritados. Eles realmente ficaram irados. Tudo isso, por nossa culpa. Acho que aquela troca de passes foi o pior erro da minha carreira. Depois do primeiro gol, achávamos que já tinha acabado. A gente tinha mesmo era de matar o jogo".

De fato, o que aconteceu a partir dali deu razões para o arrependimento de Rep, tanto tempo depois.

A Alemanha reage para o título

Bastou um momento para a Alemanha se reanimar, como já fizera em tantos momentos de sua seleção no futebol até ali - a virada na final da Copa de 1954, os empates tardios no tempo normal da final da Copa de 1966 e na semifinal da Copa de 1970. Aos 22', Gerd Müller (1945-2021) caiu num giro para se livrar da marcação de Rijsbergen, na entrada da área. Reclamou, pedindo pênalti. Com o jogo parado (Rijsbergen torceu o tornozelo e estava sendo atendido), o atacante alemão caiu teatral no gramado, após toque de Van Hanegem, como se tivesse sido atingido duramente. Müller tinha fingido, mas o auxiliar Benito Archundia viu tudo. Como pediu o juiz, o chamou, anotou "N3" no cartão amarelo, sem falar nada. "Jack" Taylor não teve dúvidas: cartão amarelo para Van Hanegem.

Vogts gritou a Beckenbauer: "Franz, agora vai mudar tudo!". De fato, mudou. Começou só dois minutos depois, aos 26': Overath passou a bola a Breitner, na esquerda. O lateral deixou com Hölzenbein, livre de marcação para avançar até a área. Foi o que fez. Bastou passar por Jansen e sentir a aproximação do pé do meio-campista para que o ponta alemão caísse. Sua fama de "cavador de faltas" ("Eu não sabia de nada disso", lamentou Haan ao jornalista Auke Kok) dava resultado: pênalti marcado. Overath chegou a pensar em bater, mas Breitner foi definitivo ao pegar a bola. Bastou Jongbloed se mover levemente para a esquerda, que o lateral alemão bateu no canto direito. O goleiro holandês nem se mexeu: 1 a 1.

Breitner empata: 1 a 1. A Alemanha ainda não virara o placar, mas virava o jogo e ficava cada vez mais à vontade (STAFF/AFP/Getty Images)

Num lance, a Alemanha conseguia o ânimo que precisava para reagir. E começou a fazer isso acelerando cada vez mais os passes e as jogadas, forçando a Holanda a correr atrás. Começou aos 29', na única vez em que Berti Vogts ousou ir ao ataque: o lateral tabelou com Overath, dominou a bola, chegou à área, e bateu para boa defesa de Jongbloed. Depois, aos 33', Overath cruzou, e Jongbloed falhou ao tentar interceptar antes de repor a bola. Mais um minuto, Uli Hoeness chutou cruzado após chegar à área, e Rijsbergen tirou na pequena área. E aos 36', Beckenbauer cobrou falta e Jongbloed espalmou por cima. Sem ter espaço para avançar, a Holanda só teve chance aos 37': Cruyff escapou, passou a Rep, mas Sepp Maier antecipou a saída de gol e rebateu a finalização do atacante holandês.

Contudo, a Holanda seguia pressionada. E a Alemanha, enfim, virou. Com espaço aberto pelo mau posicionamento de Krol, Bonhof dominou a bola na direita, passou por Haan (o zagueiro temeu marcar mais forte e fazer pênalti) e cruzou. Gerd Müller dominou a bola. Fez com Krol o que já fazia muitas vezes nos treinos no Bayern de Munique (certa vez ele descreveu: "A única coisa que eu faço nos treinos é receber a bola na área, com Schwarzenbeck me marcando, girar e chutar no canto que o goleiro não possa alcançar"). Muller dominou, girou tirando Krol da jogada e bateu cruzado, no contrapé de Jongbloed, no canto direito: 2 a 1, virada no placar.

Gerd Müller fazia o que sabia imensamente: gols decisivos. A Alemanha chegava perto do título (STAFF/AFP via Getty Images)

Intervalo apitado, Van Hanegem chutou a bola perto do juiz. "Jack" Taylor chegou perto dele e pressionou: só não lhe daria o amarelo porque já era intervalo. Johan Cruyff, capitão, fez isso. Não com a bola, mas com a boca: não parou de reclamar, até tomar ele mesmo o cartão amarelo. Dois fatos que davam a mostra de como a Holanda sentiu os gols que tomara. Sentiu que o jogo não era mais dela.

Tentou mas não deu

No intervalo, Rinus Michels tinha ainda mais coisas com que se preocupar do que a derrota de momento. Rensenbrink falou ao técnico no vestiário: não aguentava mais, as dores no fêmur estavam insuportáveis. Ao mesmo tempo, Rijsbergen ainda sentia dores no tornozelo. E Michels não queria desperdiçar as duas alterações a que tinha direito de uma vez só, no intervalo. Perguntou ao zagueiro se ele aguentava. Ouvindo um "sim", só aí o técnico da Holanda autorizou: "René, vá se aquecer". René van de Kerkhof, atacante do PSV, que não tivera um minuto em campo naquela Copa de 1974, seria o substituto de Rensenbrink. Para irritação de Piet Keizer: mesmo sem ter aproveitado sua chance contra a Suécia, na fase de grupos, o ponta esperava ter a chance na final. Ser ignorado por Rinus Michels foi impacto tão duro que Keizer nunca mais falou com o técnico - e encerrou sua carreira no fim de 1974.

Mudança feita, ela pareceu ser infrutífera no começo da etapa final: aos 48', em escanteio, Bonhof quase fez o terceiro gol alemão, mandando a bola rente à trave direita. Contudo, aos poucos, a entrada de René van de Kerkhof acelerou mais o ataque holandês. E as chances começaram a aparecer: aos 52', em escanteio, Sepp Maier rebateu mal a bola, e Breitner precisou afastar para novo escanteio. Aos 54', numa bola parada, quase o empate: Cruyff cobrou falta, Van Hanegem cabeceou, e Sepp Maier pegou, mesmo caindo.

A defesa no cabeceio de Van Hanegem deixou claro: Sepp Maier faria a partida de sua carreira no gol da Alemanha, naquela final, mesmo com a melhora da Holanda (Istvan Bajzat/Picture Alliance/Getty Images)

Mesmo se retraindo mais, a Alemanha seguia perigosa. E aos 59', poderia ter feito o terceiro gol: Gerd Müller recebeu a bola de Grabowski, livre na área, e tocou na saída de Jongbloed, para as redes - o gol foi anulado (Haan, Rijsbergen e Krol fizeram a linha de impedimento), mas há quem sustente que Müller estava em posição legal. De todo modo, aos poucos ficou notável: já que Cruyff era apagado pela marcação individual perfeita de Berti Vogts, a Holanda apostaria mais nos avanços de Suurbier e Krol pelos lados, pela boa entrada de Van de Kerkhof, pelas tentativas de Neeskens e Rep. 

A pressão pelo empate aumentou. Aos 73', Van de Kerkhof cruzou da esquerda, Neeskens pegou a bola de voleio do outro lado da área e Sepp Maier fez uma das grandes defesas de sua carreira. Mais um minuto, e Maier precisou trabalhar de novo, pegando firme chute de Theo de Jong (este veio a campo, para substituir Rijsbergen, que sucumbiu às dores no tornozelo desde o primeiro tempo). Depois, Johnny Rep tentou duas vezes: aos 77', desviando cruzamento de Neeskens para fora, e aos 79', em arremate cruzado que saiu pela linha de fundo. E veio de Neeskens a última chance da Laranja, aos 86', batendo de longe, rente à trave direita de Maier.

A Holanda tentou, mas não deu. A Alemanha se segurou, povoando a área de defesa e mostrando atenção máxima. Teve em Sepp Maier, talvez o melhor goleiro de sua história, fazendo a partida de sua carreira. Teve em Berti Vogts o que Helmut Schoen queria que ele fosse: alguém a anular Cruyff, já previamente desgastado, que fez sua pior partida naquela Copa justamente na decisão. Teve em Bonhof e Overath dois nomes fundamentais no meio-campo. Teve Gerd Müller, mais uma vez, como um goleador de decisão. Teve Beckenbauer como um líder tão discreto quanto fundamental. E teve o segundo título mundial de sua história.

Era doloroso para a Holanda, mas a Alemanha merecera plenamente a vitória na final (Paul Popper/Popperfoto/Getty Images)

À Laranja, restava a dor daquela que ficou conhecida como a "Mãe de Todas as Derrotas". Justamente na final da Copa do Mundo, o cansaço de todos - principalmente de Cruyff - foi sentido, na mais vulnerável atuação no torneio. O momento em que "Jack" Taylor apitou o fim do jogo, aos 45 minutos e 16 segundos, é daqueles em que cabe o clichê: cada holandês vivo então se lembra de onde estava, e da tristeza que sentiu.

Tudo bem

A tristeza não passou nem no jantar oferecido pela FIFA às três primeiras seleções da Copa do Mundo, com Cruyff recebendo sisudo o prêmio de segundo melhor jogador do torneio. Ela só foi amenizada na volta da delegação holandesa ao país natal. Quando o avião da Transavia abriu suas portas no chão, os 22 jogadores e a comissão técnica se surpreenderam: não era o caso de dizer que o saguão do aeroporto Schiphol, em Amsterdã, estava lotado. Era o caso de dizer que as proximidades da pista já estavam lotadas de torcedores.

A rainha Juliana com Cruyff, Neeskens, Rijsbergen, os irmãos Van de Kerkhof... sim, a delegação da Holanda foi plena e justamente saudada no retorno da Copa (Keystone/Hulton Archive/Getty Images)

Houve mais festa, no trajeto até o almoço na casa real, com a rainha Juliana. Depois, o ápice: num palco na Leidseplein, uma das principais praças de Amsterdã, todos os homenageados viram uma multidão a gritar "Holland wint de wereldcup, la-la-la" ("Holanda venceu a Copa do Mundo"). Mas pelo menos um dos jogadores não estava ligando muito: Jan Jongbloed. Como sempre, o goleiro titular (talvez o símbolo daquele conto de fadas holandês) estava mesmo era com saudades de casa. Somente a homenagem dos vizinhos de sua casa, em Amsterdã, o aliviou. Tanto quanto as palavras finais do diário do goleiro: "Estou feliz por ter acabado. Saudações, Jan Jongbloed".

O mais importante, ele e seus colegas já tinham feito: colocar o Reino dos Países Baixos no mapa do futebol mundial. Graças à Laranja Mecânica. A primeira e única.


COPA DO MUNDO FIFA 1974 - FINAL

Alemanha Ocidental 2x1 Holanda

Data: 7 de julho de 1974
Local: Estádio Olímpico (Munique)
Árbitro: John Keith "Jack" Taylor (Inglaterra)
Gols: Johan Neeskens, aos 2', Paul Breitner, aos 26', e Gerd Müller, aos 43'

ALEMANHA OCIDENTAL
Josef "Sepp" Maier; Hans-Georg Schwarzenbeck, Berti Vogts, Franz Beckenbauer e Paul Breitner; Rainer Bonhof, Wolfgang Overath e Uli Hoeness; Bernd Hölzenbein, Gerd Müller e Jürgen Grabowski Técnico: Helmut Schoen

HOLANDA
Jan Jongbloed; Wim Suurbier, Arie Haan, Wim Rijsbergen (Theo de Jong, aos 69') e Ruud Krol; Wim Jansen, Willem van Hanegem e Johan Neeskens; Johan Cruyff; Robert Rensenbrink (René van de Kerkhof, aos 46') e Johnny Rep. Técnico: Rinus Michels

*    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *    *   

BIBLIOGRAFIA

- KOK, Auke. 1974: Wij waren de besten. Amsterdã, Uitgeverij Thomas Rap, 2006

- BETING, Mauro. As melhores seleções estrangeiras de todos os tempos. São Paulo, Contexto, 2010.

- VERKAMMAN, Matty. VISSER, Jaap. HOIJTINK, Henk. Oranje Toen en nu - Deel 10 (1974-1976, 2010). Roterdã, De Buitenspelers, 2010

- Coleções dos jornais De Telegraaf, Algemeen Dagblad, De Volkskrant