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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Citricultura: camisas de clubes

"Camisa 'raiz' é aquela do Ajax do meio dos anos 1990, com o patrocínio do ABN-Amro." "Ainda é difícil ver a camisa do PSV sem a Philips como patrocínio." "Ué, o Feyenoord já teve camisa reserva verde e branca?" Pois bem: há muitos colecionadores de camisas de times de futebol por aí. E se ouvem várias frases assim sobre as camisas holandesas, de vários colecionadores. Para nem falar da incrível coincidência de tantos clubes com as cores vermelha e branca em seus uniformes principais (os três grandes, AZ, Twente, Utrecht, Sparta Rotterdam...).

Pois bem: exatamente para trazer algumas curiosidades de que o leitor talvez já saiba - e outras que talvez não lhe fizessem a menor falta - é que a seção "Citricultura" reaparece, mostrando o histórico de alguns clubes holandeses por meio de suas camisetas. Que têm algumas similaridades com o histórico brasileiro - por exemplo, o fato de patrocínios nelas só terem sido aceitos a partir de 1982. E algumas diferenças. Ah, sim: de quebra, cada clube terá um modelo pitoresco mostrado aqui. E olha que muito time ficou de fora na lista...

Eis a versão do Ajax para a "camisa vinagrete" que a Portuguesa tornou famosa no começo dos anos 1990, aqui no Brasil. Esta era a camisa reserva dos Godenzonen na temporada 1989/90 (oldfootballshirts.com)
AJAX

Patrocinador:
1982-1991 - TDK (fábrica de eletroeletrônicos e materiais de reprodução - fitas K7, por exemplo)
1991-2008 - ABN-Amro (banco)
2008-2013 - AEGON (seguradora)
Desde 2013 - Ziggo (operadora de telefonia móvel, contrato até 2020)

Material esportivo:
1973-1977 - Le Coq Sportif
1977-1979 - Puma
1979-1980 - Cor du Buy
1980-1984 - Puma
1985-1989 - Kappa
1989-2000 - Umbro
Desde 2000 - Adidas (contrato atual até 2020)

Curiosidade: pela óbvia importância de Johan Cruyff na história do clube, a camisa 14 foi aposentada pelo Ajax em 2007. O último a vesti-la foi o meio-campista espanhol Roger García Junyent.

Esta foi a camiseta reserva na temporada 1987/88, quando o PSV conquistou a Tríplice Coroa. De quebra, foi vestida na final da Copa dos Campeões. Para homenagear os 30 anos, a Umbro copiou o desenho, na terceira camisa do PSV para a temporada 2018/19 (oldfootballshirts.com)
PSV

Patrocinador:
1984-2016 - Philips (fábrica de eletroeletrônicos e eletrodomésticos)
(2011-2015 - nas mangas, houve o patrocínio do banco Freo)
Desde 2016 - Energie Direct (empresa desenvolvedora de energia sustentável, contrato até o fim da temporada 2018/19. Atrás da camisa, há o patrocínio da GoodHabitz, empresa fabricante de comida natural)

Material esportivo:
1970-1974 - Le Coq Sportif
1974-1995 - Adidas
1995-2015 - Nike
Desde 2015 - Umbro

Curiosidade: Você, leitor deste texto que só alimenta sua cultura (in)útil sobre futebol, sente saudades da Philips na camiseta do PSV? Ora, não sinta. Como empresa que fez o clube nascer, ela nunca deixou o PSV de lado. Internamente, segue como investidora minoritária. De mais a mais, o logotipo da conhecida multinacional segue na camisa - agora, nas mangas...

Por que esta camisa alviverde foi a reserva do Feyenoord em 2008/09? Por que, aliás, às vezes se veem bandeiras alviverdes na torcida do Feyenoord? Simplesmente porque assim é a bandeira da cidade de Roterdã: verde e branca (oldfootballshirts.com)
FEYENOORD

Patrocinador:
1982-1984 - Gouden Gids (lista telefônica holandesa - literalmente, em holandês, o "guia dourado")
1984-1989 - Opel (fábrica automotiva)
1989-1990 - HCS (empresa de informática)
1990-2004 - Stad Rotterdam Verzekeringen (seguradora estatal de Roterdã)
2004-2008 - Fortis (banco)
2008-2009 - Fortis/ASR (fusão entre o Fortis e o ASR, outra instituição financeira holandesa)
2009-2013 - ASR (banco/seguradora holandesa)
2013 - Diergaarde Blijdorp (zoológico holandês)
2013-2017 - Opel
Desde 2016 - Qurrent (empresa de energia sustentável - contrato até 2021)

Material esportivo:
1963-1970 - Bukta/Jansen & Tilanus
1970-1978 - Le Coq Sportif
1978-1983 - Adidas
1983-1987 - Puma
1987-1990 - Hummel
1990-2000 - Adidas
2000-2009 - Kappa
2009-2013 - Puma
Desde 2013 - Adidas (contrato até 2023)

Curiosidade: na segunda metade da temporada 2012/13 - ou seja, já em 2013 -, o contrato do Feyenoord com a ASR já tinha se encerrado. Então, o clube decidiu fazer um contrato temporário com o Diergaarde Blijdorp, zoológico de Roterdã, até o fim da temporada. Houve até comercial, com direito a Van Bronckhorst (então ainda auxiliar técnico) com um elefante... 

O torcedor do AZ sempre terá gratidão por esta camisa: era a reserva na campanha do título holandês, em 2008/09 (oldfootballshirts.com)
AZ

Patrocinador:
1982-1986 - Sony (empresa de eletroeletrônicos)
1986-1988 - Electrolux (empresa de eletrodomésticos)
1988-1989 - Swingbo (empresa desenvolvedora de softwares)
1989-1990 - Reebok (empresa de material esportivo)
1990-2002 - Frisia (primeiro nome do banco dirigido por Dirk Scheringa, mecenas do AZ entre 1993 e 2009)
2002-2004 - Actus Notarissen (tabelião)
2004-2005 - Frisia
2005-2009 - DSB (segundo nome do banco dirigido por Dirk Scheringa, mecenas do AZ entre 1993 e 2009)
2010 - BUKO (transportadora)
Desde 2010 - AFAS (empresa desenvolvedora de softwares - contrato até 2022)

Material esportivo:
1977-1986 - Adidas
1986-1989 - Lotto
1989-1990 - Reebok
1990-1993 - Hi-Tec
1993-1998 - Hummel
1998-1999 - Kappa
1999-2001 - produção doméstica
2001-2006 - Umbro
2006-2008 - Quick
2008-2009 - Canterbury
2009-2011 - Quick
2011-2015 - Macron
Desde 2015 - Under Armour

Curiosidade: Com a falência do banco DSB que o mecenas Dirk Scheringa dirigia, em 2009, o AZ se viu obrigado obviamente a trocar de patrocínio. E ficou meia temporada, em 2010, com a transportadora BUKO ocupando a camisa. A coisa só se resolveu com a chegada da AFAS, a partir da temporada 2010/11. E não só para patrocinar a camisa, mas também para dar nome ao estádio do clube de Alkmaar.

Esta camisa dos anos 1980 marcou tanto a torcida do Utrecht que até versão retrô dela foi feita, nos dias atuais (oldfootballshirts.com)
UTRECHT

Patrocinador:
1982-1992 - Nissan (empresa automotiva)
1992-2005 - AMEV (banco)
2005-2011 - Phanos (imobiliária)
2011 - Bank of Scotland
2011-2012 - Simpel.nl (desenvolvedora de softwares para telefones celulares)
2012-2015 - HealthCity (rede de academias)
Desde 2015 - Zorg van de Zaak (empresa de auxílio profissional)

Material esportivo:
1970-1972 - Sparta
1972-1976 - Le Coq Sportif
1976-1979 - Puma
1979-1981 - Pony
1981-1983 - Admiral
1983-1989 - Puma
1989-1995 - Lotto
1995-2001 - Reebok
2001-2009 - Puma
2009-2012 - Kappa
Desde 2012 - Hummel

Curiosidade: o Utrecht é outro time que tem números aposentados em sua camisa. E não é por razão feliz: ninguém joga com o número 4 dos Utregs, em celebração à memória do zagueiro francês David Di Tommaso, falecido por um ataque cardíaco enquanto dormia, em 2005, aos 26 anos. "DiTo" usava justamente a 4...

Este modelo do Vitesse ficou bem conhecido na Holanda, no final dos anos 1990 (oldfootballshirts.com)
VITESSE

Patrocinador:
1992-2001 - Nuon (empresa de energia)
2001-2003 - sem patrocínio
2003 - Sunweb (agência de viagens)
2003-2004 - sem patrocínio
2004-2010 - AFAB (banco)
2010-2011 - Zuka.nl (empresa de webdesign)
2011-2012 - Simpel.nl (desenvolvedora de softwares para telefones celulares) e Spieren voor Spieren (empresa beneficente para auxílio de crianças com doenças motoras)
2012-2014 - Youfone (operadora de telefonia celular)
2014-2017 - Truphone (operadora de telefonia celular)
2017-2018 - Swoop (revendedora de equipamentos eletrônicos usados)
2018-2019 - Droomparken (agência de viagens)

Material esportivo:
1998-1999 - Lotto
1999-2005 - Uhlsport
2005-2006 - Quick
2006-2009 - Legea
2009-2012 - Klupp
2012-2014 - Nike
Desde 2014 - Macron

Modelo do Groningen na temporada 1999/2000: com uma dessas, Arjen Robben começou sua carreira (oldfootballshirts.com)
GRONINGEN

Patrocinador:
1983-1984 - AGO
1985-1987 - AEGON (seguradora)
1987-1996 - Pioneer (fabricante de eletroeletrônicos)
1996-2000 - ANOZ (seguradora)
2000-2002 - Idee voor Vakwerk (empresa de auxílio profissional)
2002-2003 - Beaufort (lojas de material de construção)
2003-2007 - Centric (empresa de teconolgia da informação)
2007-2011 - Noordlease (locadora de carros)
2011-2017 - Essent (empresa energética)
Desde 2017 - Payt (empresa de informática bancária)

Material esportivo:
1985-1996 - Puma
1996-2008 - Umbro
2008-2014 - Klupp
2014-2017 - Masita
Desde 2017 - Puma

Acha esta camisa do Heerenveen feia? Respeite-a assim mesmo: foi com este modelo, na temporada 2006/07, que Afonso Alves fez história (oldfootballshirts.com)
HEERENVEEN

Patrocinador:
Data não encontrada - AA Drink
Data não encontrada - Telekabel/UPC Nederland
1988-1993 - Unibind (empresa identificadora de documentos)
1993-2001 - Batavus (fabricante de bicicletas)
2001-2016 - Univé (seguradora holandesa)
Desde 2016 - GroenLeven (empresa desenvolvedora de painéis de energia solar - a Univé segue nas mangas da camisa)

Material esportivo:
Data não encontrada-1990 - Adidas
1990-1991 - Fila
1991-1993 - Adidas
1993-1994 - ABE
1994-1998 - Adidas
1998-2000 - Fila
2000-2002 - ABE
2002-2008 - Umbro
Desde 2008 - Jako

Curiosidade: muita gente já sabe - se não sabe, ficará sabendo agora - que a camisa do Heerenveen reproduz o desenho da bandeira da província da Frísia (onde a cidade de Heerenveen fica), e que os desenhos em vermelho não são corações, e sim folhas de lírio, flor comum na região - em holandês, "pomperbladen". Fica, então, uma informação simpática: na temporada 2016/17, o clube fez algumas partidas tendo "KiKa" no espaço do patrocínio. Homenagem a uma mulher? Não: simplesmente as iniciais da campanha "Kinderen Kankervrij", iniciativa beneficente para apoiar crianças com câncer - iniciativa que o Heerenveen apoia até hoje, aliás.

Muita gente ficou conhecendo o Twente com esta camiseta - na temporada 2007/08, quando o clube conquistou uma vaga nas fases preliminares da Liga dos Campeões, após eliminar o Ajax numa repescagem em plena Amsterdam Arena (oldfootballshirts.com)
TWENTE

Patrocinador:
1986-1989 - NCR (fabricante de caixas registradoras)
1989-1991 - Laser Computer (loja de informática)
1991-1992 - sem patrocínio
1992-1997 - SNS Bank (banco)
1997-1998 - On (predecessora da Amicon)
1998-1999 - Amicon (seguradora na área da saúde)
1999-2000 - Essent/CasTel (empresa de telefonia que se fundira na época com a Essent)
2000-2002 - Essent (empresa energética)
2002-2005 - Zwanenberg (fabricante de alimentos em conserva)
2005-2013 - Arke (agência de viagens)
2013-2015 - XXImo (empresa de cartões)
2015-2016 - Web Print (empresa impressora)
2016-2021 - Pure Energie (empresa de energia renovável)

Material esportivo:
1982-1984 - Adidas
1984-1985 - Admiral
1985-1990 - Adidas
1990-1995 - Hummel
1995-1998 - Adidas
1998-2001 - Fila
2001-2008 - Umbro
2008-2011 - Diadora
2011-2012 - Burrda
2012-2016 - Nike
Desde 2016 - Sondico (contrato até 2021)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Citricultura: os mascotes

No Brasil, o "Canarinho Pistola", o urubu do Flamengo, o periquito (para os de mais idade) e o porco (para os de menos idade) do Palmeiras, a macaca da Ponte Preta, o mosqueteiro do Corinthians, o São Paulo (literalmente), a raposa do Cruzeiro, o galo do Atlético-MG, o "Manequinho" do Botafogo... no exterior, a águia do Benfica-POR, o diabo vermelho do Manchester United-ING, até a cabra do Colônia-ALE. Vários clubes mundo afora têm seu mascote, e não é diferente no futebol holandês.

Não são todas as agremiações que os têm. Além do mais, eles passam em branco para os torcedores adultos, sendo atração mais para os torcedores menores: os mascotes são os "garotos-propaganda" de eventos de fidelização das crianças aos clubes. O que não quer dizer que não apareçam: quase sempre, antes de cada jogo, lá estão eles, tentando mobilizar os torcedores. Até mesmo em partidas da seleção holandesa. Hora de você conhecer os mascotes do futebol holandês.

Kicky (à esquerda), leoa mascote da seleção feminina, e Dutchy (à direita), leão mascote da seleção masculina 

(Onsoranje.nl)
Lucky Ajax (raposa), mascote do Ajax

(Real Time)
Phoxy (raposa), mascote do PSV

(Aaron van Zandvoort/Soccrates/Getty Images)
Coentje (garoto, nomeado em homenagem ao ídolo Coen Moulijn), mascote do Feyenoord

(instagram.com/coentje1908)

Heero (garoto), mascote do Heerenveen

(VI Images/Getty Images)

Vito (águia), mascote do Vitesse

(VI Images/Getty Images)
Kingo (urso), mascote do Willem II

(VI Images/Getty Images)
Zwolfje (lobo), mascote do Zwolle

(Soccrates/Getty Images)

Bikkel (cavaleiro), mascote do NEC

(Broer van den Boom/Soccrates/Getty Images)

Storky (garça), mascote do ADO Den Haag

(Angelo Blankenspoor/Soccrates/Getty Images)

Guus (cavalo), mascote do De Graafschap

(VI Images/Getty Images)

Bultje (coelho), mascote do Heracles Almelo

(santosonline.nl)
Woutje Stein (garoto), mascote do Excelsior

(Cees van Hoogstallen/Soccrates/Getty Images)
RiKCy (leão), mascote do RKC Waalwijk

(Broer van den Boom/Soccrates/Getty Images)
Koempeltje (minerador), mascote do Roda JC

(Jeroen Houwsen/Soccrates/Getty Images)
MVV Maastricht

(Marcel Bonte/Soccrates/Getty Images)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Citricultura: as canções da seleção holandesa

Se a seção sobre cultura do futebol holandês começou aqui no blog com as apresentações das músicas e das canções ligadas aos clubes do país, nada mais esperado que ela continue com o mesmo assunto no segundo texto, mas com a seleção laranja como destaque. E se o assunto é seleção, nada mais natural do que começar pelo hino nacional da Holanda - "Het Wilhelmus" ("O Guilherme", falando do príncipe Guilherme de Nassau), tornado hino holandês desde 1932, com a letra datando de 1570 e a música, uma variante de outra melodia do começo do século XVII. Não é um hino tão marcante quanto "A Marselhesa" (França), "Deutschland über alles" (Alemanha) ou o "Inno di Mameli" (Itália), mas é sempre cantado a plenos pulmões por torcedores e jogadores. Com uma letra muito maior, só a primeira estrofe é cantada antes dos jogos - como aqui, antes do jogo contra a Eslováquia, pela Copa de 2010:


Wilhelmus van Nassouwe, ben ik van Duitse bloed (Guilherme de Nassau eu sou, de sangue alemão)
Den vaderland getrouwe, blijf ik tot in den dood (À terra natal continuarei fiel, até a morte)
Een prinse van Oranje, ben ik vrij onverweerd (Um príncipe de Oranje eu sou, livre e destemido)
Den Koning van Spanje heb ik altijd geëerd (O rei da Espanha sempre honrei)

Com relação às arquibancadas, como sói acontecer, torcedores holandeses são mais criativos no visual do que nos cânticos: só há o "Holland!" ou "Aanvalluh!" (corruptela de "Aanvallen!" - em holandês, "ataquem"). Criações musicais ficam mais para fora do campo. E aí, fica até curioso: em geral, as criações musicais para apoiar a Laranja estão muito mais ligadas às Eurocopas do que às Copas do Mundo.

Ainda assim, uma das primeiras canções feitas para apoiar uma seleção numa Copa foi holandesa. Já em 1934, segunda Copa da história e primeira participação do país num torneio assim, anos antes de Johan Cruyff pensar em nascer, o cantor Willy Derby (1886-1944) celebrava a estreia em “Wij gaan naar Rome” (“Nós vamos a Roma”), celebrando a viagem rumo à Itália, país-sede. O refrão da letra (aqui, na íntegra) já mostrava otimismo nos talentos do país:


We gaan naar Rome, we gaan naar Rome (Nós vamos a Roma, nós vamos a Roma)
Bep Bakhuys doelpunt daar voor twee (Bep Bakhuys fará dois gols)
We gaan naar Rome, we gaan naar Rome (Nós vamos a Roma, nós vamos a Roma)
En Vente neemt z’n kanjers mee (E [Leen] Vente está levando seu brilho)
En Mijnders, Wels zóógoed als Smit (E [Kees] Mijnders, [Frank] Wels são tão bons quanto [Kick] Smit)
Die juichen om de beurt: Hij zit! (Eles comemoram de fora: ele fez!)
Als echte jongens, als ferme jongens (Como jovens de verdade, jovens firmes)
Hollandsche jongens van Jan de Wit (Jovens holandeses, de Jan de Wit)

Em 1950, nasceu mais um sucesso da torcida holandesa para a seleção. O músico Jan de Cler, empregado da rádio KRO, criou "Hup Holland Hup”, canção para ser cantada durante as transmissões das partidas da Laranja. Nas décadas seguintes, ela chegou a ser deixada de lado. Mas isso durou até 1988: nas transmissões da NOS, emissora pública holandesa de televisão, para os jogos da Eurocopa que a Holanda venceria, o humorista e cantor Freek de Jonge reabilitou "Hup Holland Hup". Bastou: desde então, vários torcedores holandeses têm a letra na ponta da língua, pedindo força à seleção - usando para isso o leão, mascote do país.


Hup, Holland hup (Vai, Holanda, vai)
Laat de leeuw niet in z'n hempie staan (Não deixe o leão ficar de cuecas) 
Hup, Holland hup (Vai, Holanda, vai)
Trek het beessie geen pantoffels aan (Não coloque pantufas no animalzinho) 
Hup, Holland hup (Vai, Holanda, vai)
Laat je uit 't veld niet slaan (Não se deixe ser derrotada) 
Want de leeuw op voetbalschoenen (Porque o leão de chuteiras) 
Durft de hele wereld aan (Ousa dominar todo o mundo) 

E o título daquela Euro 1988 rendeu aos adeptos da seleção batava mais um sucesso eterno. André Hazes (1951-2004), um dos cantores mais populares da história holandesa, usou a melodia da canção de domínio público “Auld Lang Syne” (aqui, a “Valsa da Despedida”) para o refrão de “Wij houden van Oranje” (“Nós amamos a Laranja”). Foi hit absoluto nas rádios holandesas após a conquista da Euro. E continua sendo hit da torcida, até hoje:


Nederland, oh, Nederland (Holanda, oh, Holanda)
Jij bent een kampioen (Você é uma campeã)
Wij houden van Oranje (Nós amamos a laranja)
Om zijn daden en zijn doen (Por suas façanhas e seus feitos)

18 anos depois, antes da Copa de 2006, com Hazes já falecido, "Wij houden van Oranje" foi reabilitada. Pelo menos, o refrão dela: a família autorizou que o rapper holandês Ali B. usasse a voz de André para sua recriação da canção, com vistas ao Mundial (aqui, a letra). Outra vez, foi sucesso: às vésperas da Copa na Alemanha, foi a segunda música mais escutada na Holanda. Teve clipe e tudo o mais:


Mais tarde, a Euro 2008 trouxe outro êxito que entrou para o repertório futebolístico da seleção, em Copas ou Euros: “Viva Hollandia”, do cantor Wolter Kroes. Talvez, a letra que melhor retrate o clima de um grupo holandês de torcedores. Até por isso, também virou comum no repertório da torcida:


We zijn er weer bij en dat is prima (Estamos aí de novo, e isso é maravilhoso)
Viva Hollandia (Viva Holanda)
We houden van het leven de liefde en de lust (Amamos a vida, o amor e o luxo)
We feesten door tot ‘s avonds laat nog lang niet uitgeblust” (Fazemos festa até tarde da noite e ninguém fica cansado)

E periodicamente, as criações para embalar a torcida holandesa em Copas ou Eurocopas continuam. Em 2010, a Copa da África do Sul teve uma de suas características transformada em hit para a campanha do bicampeonato: "Vuvuzela", da dupla Gebroeders Ko ("Ik toeter mijn speakers eruit/Wat een geluid!" - "Eu estouro meus altofalantes/Que barulho!"). E se a campanha da Euro 2012 foi decepcionante, pelo menos rendeu um clipe engraçado. Veja abaixo "Ben je ook voor Nederland?" ("Você também torce pela Holanda?"), parceria de Wolter Kroes, Yes-R e Ernst Daniël Smid, usando a melodia do "Baile dos Passarinhos" - sim, a do "passarinho quer dançar" que Gugu Liberato popularizou no Brasil. Não deixa de ser engraçado ver Sneijder, Robben e cia. interagindo com... pintinhos de plástico, mascotes daquela campanha na Euro.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Citricultura: os hinos/canções dos clubes

Quarta-feira. A partir deste 26 de dezembro, o Espreme a Laranja inicia uma seção dedicada a apresentar ao leitor um pouco do modo holandês de acompanhar o futebol. Como é a mídia do futebol na Holanda? Como os jogos são transmitidos? Quais são os hábitos das torcidas? Os gritos? Os mascotes? Os uniformes? Sexta-feira, no Glob... quer dizer, às quartas, você sempre terá isso aqui no blog.

E para abrir a "Citricultura" (afinal, se a cultura de criação de laranjas é chamada "citricultura", nada mais natural do que nomear a seção assim), o blog começa com os hinos. Ao contrário do que ocorre no Brasil, nem todos os torcedores costumam cantá-los nas partidas. Aliás, às vezes, há clubes que tornam canções incidentais mais conhecidas do que os hinos oficiais.

É o caso do PSV. Durante as partidas, em Eindhoven, é muito mais comum ver "Simply the best", a famosa canção de Tina Turner escolhida para sonorizar a entrada do time em campo a cada partida. Ou mesmo ouvir a torcida cantar "PSV, wat ben je mooi" ("PSV, como você é lindo"), música criada pelos próprios torcedores, citando ídolos do clube (e o fundador Frits Philips), com a mesma melodia do "a cada dia te quero mais" criado na Argentina e popular no Brasil.


"Coen Dillen 
Willy [van der Kuijlen]
Cocu 
Van Nistelrooij 
[Adrie] Van Raaij [ex-presidente do clube], Guusje Hiddink 
PSV, wat ben je mooi [PSV, como você é lindo]

Oooohhhh, Fritsje Philips 
Luccie Nillis
Romariooooo"


O que não quer dizer que a torcida desconheça completamente o hino do PSV. Nem que ele não receba respeito. Se a marcha tem uma versão mais antiga, o próprio clube apoiou a versão de Guus Meeuwis - cantor popular na Holanda, nascido e criado em Eindhoven - para o hino, divulgando-a em seu canal no YouTube.



"Voor Rood-Wit gezongen (cantando pelo alvirrubro) 
vol man'lijke kracht (cheio de poder humano) 
een lied met ons allen (uma canção com todo o nosso poder) 
want eendracht maakt macht (porque a união faz a força) 

Wij trekken ten strijde (Nós vamos à luta) 
een strijd vol van vree (uma luta cheia de paz) 
vooruit nu Rood-Witten (A partir de agora, é pelo alvirrubro) 
vooruit PSV (Pelo PSV) [aqui, o resto da letra]"


Já no Ajax, a situação é diferente. O simpatizante aqui no Brasil pode até saber que, antes dos jogos, soa na Johan Cruijff Arena "Bloed, zweet en tranen" ("Sangue, suor e lágrimas"), canção de André Hazes (1951-2004), um dos cantores mais populares que a Holanda já teve - também veiculada em qualquer momento que peça homenagens (como no primeiro jogo em Amsterdã após a morte de Johan Cruyff, em 2016). Pode saber que, em jogos por competições continentais, a torcida sempre fará uma coreografia com bandeiras, ao som do "Va Pensiero", o canto dos escravos hebreus na ópera "Aída", de Giuseppe Verdi. Talvez alguns já saibam até que os intervalos dos jogos em Amsterdã sempre terão "Three little birds", de Bob Marley, nas caixas de som.

(Torcida do Ajax cantando "Three little birds" no intervalo de Ajax 3x0 AEK, estreia do time na fase de grupos da Liga dos Campeões 2018/19)

Todavia, poucos sabem que aquela marcha que antecede a entrada em campo das equipes - o Ajax e o adversário da vez, seja quem seja - é... o hino do Ajax. Que vai aqui abaixo, com a letra:

"Hup, Ajax, hup 
Rood-witte schare (multidão alvirrubra) 
Dappere strijders, fier en koen (lutadores valentes e orgulhosos) 
Geen club die ons kan evenaren (não há clube que possa nos igualar) 
Rood en wit wordt kampioen (o alvirrubro será campeão) 

Hup, Ajax, hup 
Rood-witte schare 
Dappere strijders, fier en koen 
Een roep die geldt, dat is je ware (um grito que vale, pode ter certeza) 
Rood en wit wordt kampioen"


E no final de cada partida do Ajax, ganhando ou perdendo, uma canção que lembra à torcida de Amsterdã que o importante é a fidelidade: "Mijn club" ("Meu clube"), da banda Jiskefet. Não há torcedor Ajacied que não saiba este refrão abaixo (o vídeo é da Museumplein, praça em Amsterdã onde a torcida assistiu à final da Liga Europa, em 2017). Um refrão que, aliás, serve para qualquer torcedor, de qualquer time no mundo:


"Dit is mijn club, mijn ideaal (Este é meu clube, meu ideal)
Dit is de mooiste club van allemaal (Esse é o clube mais lindo de todos) 
Hier ligt mijn hart, mijn vreugde en mijn verdriet (Aqui está meu coração, minha alegria e minha tristeza) 
Het kan dooien, het kan vriezen (Pode ventar, pode estar congelante) 
We kunnen winnen of verliezen (Podemos vencer ou perder) 
Maar een betere club dan deze is er niet (Mas não há clube melhor do que este)"

O Feyenoord se alterna entre criações próprias e canções já conhecidas. As primeiras não faltam. O cantor Lee Towers é responsável por uma delas: "Mijn Feyenoord", que pode não ser o hino, mas é tão querida da torcida que é como se fosse. Qualquer adepto do Stadionclub na Holanda sabe os versos de cor e salteado - como se pode ver no vídeo abaixo, na recepção da taça aos campeões da Copa da Holanda em 2015/16:


"Feyenoord, Feyenoord
Niets is sterker dan dat ene woord (Nada é mais forte do que aquela palavra) 
Feyenoord, mijn Feyenoord (Feyenoord, meu Feyenoord)"


"Niets is sterker dan dat ene woord", aliás, virou lema absoluto da torcida. Assim como absoluto é o hit "Super Feyenoord", do grupo Champ. Começou a ser tocado na campanha do título do Stadionclub na Copa da UEFA 2001/02. E entrou para o cotidiano do clube a ponto de ser tocada segundos antes do pontapé inicial das partidas em De Kuip:


Mas se é para citar o maior sucesso entre os torcedores Feyenoorders, nenhum é maior do que o próprio hino do clube, que soa a cada vez que os jogadores sobem para o gramado, nas partidas. Sempre, com os torcedores cantando em uníssono com Jaap Valkhoff:


"Hand in hand, kameraden (De mãos dadas, camaradas) 
Hand in hand voor Feyenoord 1 (De mãos dadas pelo Feyenoord) 
Geen woorden maar daden (Sem palavras, apenas atos)
Leven Feyenoord 1 (Viva o Feyenoord 1)"

Então, onde estão as citações da torcida? Estão no trecho de "I will survive", na versão do grupo Hermes House Band, cantarolada sempre que o Feyenoord marca gols. E estão, principalmente, no indefectível "You'll never walk alone", na versão de Lee Towers, sempre ao fim dos jogos em De Kuip:

Também há citações em outros clubes holandeses: o AZ também evoca "You'll never walk alone", "Jump", do Van Halen, toca sempre que o Heracles Almelo entra em campo. A autoexplicativa "La cucamarcha" embala a alegria da torcida sempre que o Utrecht faz um gol. "L'Amour Toujours", de Gigi D'Agostino, também é a trilha sonora para quando o Heracles manda a bola para as redes. Por outro lado, os hinos de NAC Breda e Vitesse são as trilhas sonoras para as entradas dos clubes em campo. Se o AZ não veicula muito seu hino oficial, tem um hábito sempre que as partidas começam. Ao ouvirem o bordão "Rette kettette ketet!", os torcedores respondem: "A-Zet!" (como se diz "AZ" em holandês).
E assim, entre criações e derivações do que se faz na Europa, as torcidas holandesas dão o tom.