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quarta-feira, 6 de maio de 2020

O primeiro

Kindvall e Israël, os autores dos gols da final, erguem a taça da Copa dos Campeões em frente à torcida, na chegada a Roterdã: o Feyenoord foi o primeiro (Hans Grootenhuijs)

O clima de festa já estava montado desde o começo do ano: livros, entrevistas, celebrações. A pandemia arruinou um pouco disso. Entretanto, nem mesmo ela impede que, neste 6 de maio de 2020, o coração de cada torcedor do Feyenoord se encha de alegria com as lembranças. Porque está lá, na história: há 50 anos, o Stadionclub era o primeiro clube holandês campeão de um torneio europeu - e logo o mais importante, a então Copa (hoje Liga) dos Campeões, na temporada 1969/70.

Um time já preparado

De certa forma, é possível dizer que a base do time de Roterdã que partiria para o título europeu já estava bem fortalecida e entrosada, pelas temporadas anteriores. No gol, após onze anos como titular absoluto, Eddy Pieters Graafland (1934-2020) cedeu a titularidade a Eddy Treijtel, que chegou a De Kuip justamente naquela temporada 1969/70. No miolo de zaga, uma das duplas de defensores mais conhecidas da história Feyenoorder: o capitão Rinus Israël, também conhecido como “Ijzeren Rinus” (Rinus de ferro), por sua disposição meio exagerada nas jogadas e divididas, e Theo Laseroms (1940-1991). Tanto Israël como Laseroms eram firmes. Até além da conta, diga-se de passagem.

Já estavam no Feijenoord (sim, a grafia da época era essa - o "y" veio para facilitar a pronúncia fora da Holanda) também o meio-campista Wim Jansen (titular), surgido nas categorias de base do clube. Também fardava a camiseta alvirrubra dividida ao lateral-direito Piet Romeijn. E no ataque, dois importantes atletas: o sueco Ove Kindvall, um bom finalizador, e o já veterano Coen "Coentje" Moulijn (1937-2011), considerado um dos melhores pontas da história da Holanda. E desde a temporada 1968/69, o time ficara definitivamente preparado com o atacante Henk Wery e, acima de todos, um dos grandes símbolos da conquista europeia, um dos grandes ídolos da história do Feyenoord: o meio-campista Willem van Hanegem, vindo do Xerxes, um clube desativado após a fusão que resultaria no Utrecht.

O elenco do Feyenoord campeão europeu em 1970. Em pé: Guus Haak, Manus Vrauwdeunt, Henk Wery, Eddy Treytel, Theo Laseroms, Eddy Pieters Graafland, Theo van Duivenbode, Ruud Geels e Willem van Hanegem. Agachados: Cor Veldhoen, Piet Romeijn, Franz Hasil, Ernst Happel (técnico), Rinus Israël, Coen Moulijn, Guus Brox (diretor), Wim Jansen, Ove Kindvall e Mever (massagista) (Arquivo Kicker)

Já foi um time forte a ponto de suplantar os concorrentes Ajax e Twente para levar o título holandês em 1968/69 - com direito ao artilheiro da temporada: Kindvall, com 30 gols, ao lado de Dick van Dijk, do Twente. Não só isso: o Feyenoord abiscoitou a dupla coroa do futebol nos Países Baixos, ganhando também a Copa da Holanda (na final, após 1 a 1 em 120 minutos com o PSV, 2 a 0 numa partida extra). E mais forte ainda ficaria com algumas mudanças para 1969/70: além da supracitada chegada de Eddy Treytel para o gol, vieram o lateral esquerdo Theo van Duivenbode, justamente do arquirrival Ajax (após a goleada sofrida pelos Ajacieden na final da Copa dos Campeões 1969/70, Van Duivenbode caiu em desgraça para o técnico Rinus Michels, e foi dispensado), e o meio-campista austríaco Franz Hasil.

Só que a alteração mais importante - talvez, a mais decisiva - seria no banco do Feyenoord. E seria em relação ao técnico: Ben Peeters deixou o clube, e para seu lugar, chegou o austríaco Ernst Happel (1925-1992). Despontado ao comandar o ADO Den Haag campeão da Copa da Holanda em 1967/68, Happel traria seu comando autoritário e seu estilo tático firme, sem firulas, querendo a vitória como fosse. Uma das frases típicas do austríaco aos jogadores virou mantra da torcida do Feyenoord - e do próprio jeito do clube jogar: "Kein keloel, maar fussball" (em livre tradução, "sem mimimi, joguem bola"). Enquanto o adversário Ajax já aprontava as bases do Futebol Total e prezava a técnica, no Feyenoord o pedido seria por raça, por esforço, por busca incansável da vitória.

Foi com este foco que o Feyenoord começou a temporada 1969/70 E logo no jogo de ida da primeira fase da Copa dos Campeões, conseguiu uma façanha histórica: enfrentando o KR, da Islândia, a equipe de Happel aplicou 12 a 2 em De Kuip. No dia 17 de setembro de 1969, o Stadionclub proporcionara simplesmente a maior goleada da história do torneio – recorde que resiste até hoje, já na era de Liga dos Campeões. A superioridade foi tamanha que um jornal disse que o Feyenoord ganhou "um jogo que não foi jogo". Engraçado notar que o destaque na goleada foi para um atacante periférico do time: Ruud Geels, autor de quatro dos doze gols. Só para constar, no jogo de volta, em 30 de setembro, na capital da Islândia, mais uma goleada do Feyenoord. Mais discreta: "só" 4 a 0.


A vitória que embalou

Todavia, na segunda fase da Copa dos Campeões, o desafio era o mais difícil possível: o adversário do Feyenoord seria o Milan, justamente o campeão europeu naquele momento. E os milanistas possuíam um time poderoso e experiente: Fabio Cudicini no gol, Karl-Heinz Schnellinger na zaga, Giovanni Trappatoni como volante, Gianni Rivera como principal destaque. E a primeira partida, em 12 de novembro de 1969, no Giuseppe Meazza, a vantagem dos Rossoneri foi até curta: o atacante francês Néstor Combin fez 1 a 0, e o placar ficou nisso. A imprensa holandesa até celebrou.

E celebrou porque o meio-campo do time holandês estava em estado de graça. Jansen, Van Hanegem e Hasil já estavam entrosados à perfeição. E seria justamente deste setor do time Feyenoorder que sairia a vitória e a classificação no De Kuip, no jogo de volta, em 26 de novembro de 1969: Jansen marcaria, aos 6', e já no fim, aos 82', Van Hanegem faria o gol do 2 a 0 e da classificação. O Feyenoord conseguira: eliminara o campeão europeu de 1968/69. Autor de um livro sobre aquela campanha, o jornalista Robert van Brandwijk é definitivo: "Talvez tenha sido a maior vitória da história do Feyenoord". Não era para menos.


De Kuip garante a vaga na final

1969 acabou, 1970 começou, e a Copa dos Campeões começou a virar prioridade do Feyenoord. Ainda mais após um revés duro na Eredivisie: no Klassieker contra o Ajax, uma vantagem de 3 a 1 em casa virou um empate em 3 a 3, por duas falhas de Treytel. Dali os Amsterdammers partiram para o título holandês naquela temporada. Mas no torneio continental, a caminhada do Feyenoord seguiu firme. Nas quartas de final, a barreira seria o Vorwärts Berlin, da Alemanha Oriental. No jogo de ida, em Berlim Oriental, em 4 de março de 1970, Jürgen Piepenburg fez o gol da vitória do Vorwärts: 1 a 0. Mas se conseguira se valer da raça, da eficiência e do calor da torcida para eliminar um Milan mais forte, o Feyenoord podia fazer o mesmo contra o campeão alemão oriental. Fez: em 18 de março, em De Kuip, no jogo de volta, Kindvall voltou a ser garantia de bola nas redes, fazendo 1 a 0 logo no começo do segundo tempo. Henk Wery fez 2 a 0. E o Feyenoord era semifinalista.

O Feyenoord chegava à reta final da temporada mostrando equilíbrio entre a dureza que a torcida pedia, com Israël e Laseroms na zaga, e a capacidade técnica de Jansen, Coen Moulijn e Van Hanegem, coroada pelos gols de Kindvall. Na semifinal, teria de superar o Legia Varsóvia, campeão polonês. Na ida, em 1º de abril de 1970, o Stadionclub segurou um time que possuía o bom Kazimierz Deyna no ataque, saindo de Varsóvia com o 0 a 0 no bolso. Na volta em De Kuip, em 15 de abril, o de sempre: 2 a 0, com Van Hanegem e Hasil encaminhando a vitória ainda no primeiro tempo. Foi fácil a ponto do Feyenoord poder até fazer mais gols. Mas bastava a garantia da classificação para a decisão da Copa dos Campeões. Pela segunda temporada seguida, um clube holandês chegava à final. Mas não era o Ajax. Era o Feyenoord. 

Final dura e inesquecível

6 de maio de 1970. Neste dia, no mesmo San Siro em que a equipe jogara contra o Milan, o Feyenoord decidiria o principal torneio europeu contra um adversário duro. E mais experiente: o Celtic, já com o título europeu de 1967/68 na sala de troféus, ainda contando com boa parte dos "Leões de Lisboa" que haviam vencido a Internazionale na decisão de três anos antes: o zagueiro Billy McNeill, o volante Tommy Gemmell, o meio-campo Jimmy Johnstone, o atacante Willie Wallace, o técnico Jock Stein.

Era parada dura, que precisava de nomes experientes. Por isso, Ernst Happel decidiu: mudaria o goleiro. E pediu a Eddy Pieters Graafland, 36 anos, que substituísse Treytel no gol, naquela final. Já prestes a parar de jogar, sem muita motivação, Eddy PG pensou bem, e decidiu aceitar o pedido do técnico. De resto, o time já conhecido: Piet Romeijn, Rinus Israël, Theo Laseroms, Theo van Duivenbode, Wim Jansen, Franz Hasil, Willem van Hanegem, Henk Wery, Ove Kindvall e Coen Moulijn. A torcida fez a parte dela: foram 25 mil adeptos de Het Legioen ("A Legião", como é conhecida a torcida do Feyenoord) viajando a Milão, de ônibus, trem ou avião.

No jogo, a primeira chance foi do Feyenoord, com Hasil, chutando de longe para a defesa de Evan Williams. Porém, aos 29 minutos do primeiro tempo, os Bhoys abriram o placar: após falta na meia-lua, uma cobrança ensaiada terminou no chute de Tommy Gemmell, no canto esquerdo de Pieters Graafland, que teve a visão tapada.

Mas não duraria mais do que dois minutos a vantagem escocesa. Aos 31, pela direita, o árbitro italiano Concetto Lo Bello apitou falta. Hasil cobrou, e a bola foi disputada de cabeça, até que Israël completou, também testando, sobre Williams. Era o gol de empate.

O capitão Israël (esquerda) e o veterano Pieters Graafland erguem a taça da Copa dos Campeões (Arquivo ANP)
Sem mais gols, a partida foi para a prorrogação. E nela continuaria empatada, até os 12 minutos da segunda parte do tempo extra. No meio-campo, Lo Bello apitou falta. A bola foi lançada para a área. Billy McNeill, capitão do Celtic, tocou com a mão. Porém, o árbitro deu a lei da vantagem, o artilheiro Kindvall dominou pela esquerda e tocou na saída de Willians.

Era o gol do título. O gol do primeiro clube holandês campeão europeu de clubes. O gol que premiou a decisão de Pieters Graafland, na última partida de sua carreira. O gol que premiou o modo firme de Ernst Happel treinar aquela equipe. O gol que colocou Ove Kindvall, Wim Jansen, Willem van Hanegem, Rinus Israël... todos eles, na galeria de heróis eternos do Feyenoord.

Depois, viria o Ajax para consolidar o domínio dos Países Baixos no futebol europeu de clubes, naquele começo de década de 1970. Mas o Feyenoord foi o primeiro. Isso ninguém lhe tirará.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Este time já conquistou o mundo

O time que fez o mundo conhecer o Feyenoord, campeão europeu. Em pé: Guus Haak, Manus Vrauwdeunt, Henk Wery, Eddy Treytel, Theo Laseroms, Eddy Pieters Graafland, Theo van Duivenbode, Ruud Geels e Willem van Hanegem. Agachados: Cor Veldhoen, Piet Romeijn, Franz Hasil, Ernst Happel (técnico), Rinus Israël, Coen Moulijn, Guus Brox (diretor), Wim Jansen, Ove Kindvall e Mever (massagista) (Arquivo Kicker)
Como qualquer leitor deste blog (ou acompanhante mediano do futebol europeu) sabe, o Feyenoord está às portas do título holandês, após 18 anos de jejum. Sendo assim, o Espreme a Laranja começa uma pequena série de textos sobre o Stadionclub, preparando o "ambiente" para a conquista cada vez mais provável. Começando nesta quinta, com um texto publicado na Trivela, em 2010, para lembrar simultaneamente do ponto mais baixo da história do clube de Roterdã (os 10 a 0 sofridos para o PSV, na Eredivisie 2010/11) e dos pontos mais altos (os títulos europeu e mundial, primeiros de um clube holandês na história, em 1969/70). Amanhã, a coluna sobre como está o ambiente em Roterdã. E no sábado, um texto comentando o último título nacional do Feyenoord, em 1998/99.

O ano de 2010 terminará amargamente para o Feyenoord. É certo que a primeira metade do ano foi até honrosa: o Stadionclub terminou o Campeonato Holandês em quarto lugar. Porém, sem dúvida, a maior lembrança será a tão falada goleada de 10 a 0 sofrida para o PSV, na temporada 2010/11 da Eredivisie. A maior derrota que já atingiu o clube de Roterdã em sua história no torneio nacional.

Sem dúvida, é um dos pontos mais baixos da história do Feyenoord, que já vai por 102 anos. E, talvez, a goleada sofrida em Eindhoven, no dia 24 de outubro, tenha impressionado exatamente porque, apesar dos pesares, o clube continua tendo tradição. Continua sendo um dos integrantes do Trio de Ferro holandês. E, principalmente, porque foi o primeiro clube a despontar na aparição do futebol holandês no cenário mundial, na década de 1970.

Muito se fala do Ajax tricampeão europeu, mas, se a Holanda começou a aparecer, foi porque, em 1970, o Feyenoord tornou-se o primeiro holandês a conquistar um título continental. Mais do que isto: o primeiro holandês a conquistar um título mundial. O time a ter conseguido a maior goleada da história da Liga dos Campeões em todos os tempos. E é desta época dourada que esta matéria falará.

Van Hanegem: chegando do Xerxes para ser o maior ídolo da história Feyenoorder (Arquivo ANP)
A construção do time

Como em várias equipes que conseguiram sucesso, a construção do Feyenoord que ganharia o mundo levaria tempo. A começar pelo nome: ainda sem frequência em competições europeias, o time ainda se chamava Feijenoord – o “y” seria incluído somente em 1974.

Não se pode dizer, no entanto, que a base já não estivesse lá. A começar pelo experiente goleiro Eddy Pieters Graafland, que defendeu a seleção holandesa por uma década – parando em 1967, quando já tinha 33 anos -, e estava no De Kuip desde 1958.

Também já vestiam a camisa dividida verticalmente em branco e vermelho dois futuros integrantes do time de Rinus Michels na Copa de 1974: o zagueiro e capitão Rinus Israël (reserva no Mundial), também conhecido como “Ijzeren Rinus” (Rinus de ferro), por sua disposição meio exagerada nas jogadas e divididas, e o meio-campista Wim Jansen (titular), surgido nas categorias de base do clube. Já havia o lateral-direito Piet Romeijn. E no ataque, dois importantes atletas: o sueco Ove Kindvall, um bom finalizador, e o já veterano Coen Moulijn, considerado um dos melhores pontas da história da Holanda.

E ainda chegariam mais jogadores, antes da temporada 1968/69. Outro zagueiro vigoroso, Theo Laseroms, que faria uma dupla histórica do Feyenoord com Israël, e o atacante Henk Wery. Porém, o mais importante reforço viria de um clube falido: o Xerxes, nascido em Roterdã (mas, então, na cidade de Delft), havia abandonado o futebol profissional. E o meio-campista Willem van Hanegem chegou ao Feyenoord, junto do goleiro Eddy Treytel.

O primeiro sucesso

E o clube começou a disputar o campeonato holandês, tendo como principais rivais na disputa do título o Ajax (que, ao final daquela temporada, seria finalista da Copa dos Campeões) e o Twente de Jan Jeuring, Theo Pahlplatz e Dick van Dijk, treinado por Kees Rijvers. Entretanto, comandado por Ben Peeters, o Feyenoord teve um ótimo começo de temporada, vencendo seus 13 primeiros jogos – só tropeçou na 14ª rodada, ao empatar sem gols com o Telstar.

Haveria ainda outros tropeços do Stadionclub, que permitiam a Ajax e Twente sonharem com o título. Como os dois empates por 1 a 1 com AZ e ADO, na 20ª e 21ª rodada, e a derrota para o NAC Breda, na 22ª. A maior chance para os adversários, então, veio com a derrota para o Holland Sport, por 1 a 0, na 31ª rodada. Porém, Ajax e Twente também perderam, então. E o Feyenoord terminou vencendo Twente (1 a 0, fora de casa) e NEC (também 1 a 0, no De Kuip). Era o nono título nacional do clube, com direito a artilheiro – Kindvall fez 30 gols, junto de Van Dijk, do Twente. Para melhorar, viria ainda a dupla coroa, com o título da Copa da Holanda: após empate por 1 a 1 com o PSV, 2 a 0 numa partida extra.

Mudanças para a história

E, para a temporada 1969/70, a mudança mais importante viria no banco. Ben Peeters deixou o cargo de técnico vago, e este seria ocupado pelo austríaco Ernst Happel, que já estava havia sete anos no ADO Den Haag, pelo qual vencera a Copa da Holanda, em 1967/68. Entre os jogadores, viriam o lateral-esquerdo Theo van Duivenbode, que surgiu no arquirrival Ajax, e mais um meio-campista, o austríaco Franz Hasil. No gol, Treytel (mais um Feyenoorder a estar na Copa de 1974) tomaria o lugar de Pieters Graafland.

E, na primeira fase da Copa dos Campeões da Europa, o Feyenoord já conseguiu uma façanha histórica: enfrentando o KR, da Islândia, a equipe de Happel aplicou 12 a 2. Simplesmente a maior goleada da história da Copa dos Campeões – e um recorde que resiste até hoje, já na era de Liga dos Campeões.

Na segunda fase, todavia, o desafio era grande: enfrentar o Milan, justamente o campeão da competição na temporada anterior. E, na primeira partida, em 12 de novembro de 1969, no Giuseppe Meazza, Nestor Combin deu a vitória aos Rossoneri. No entanto, o meio-campo do time holandês estava em estado de graça. E seria justamente a principal dupla dos Feyenoorders que definiria a vitória e a classificação no De Kuip, em 26 de novembro: Jansen marcaria, aos seis minutos do primeiro tempo, e Van Hanegem faria o gol do 2 a 0, aos 37 da segunda etapa.

Paralelamente à superação de tamanho desafio, o time que Happel armara não decepcionava na Holanda: continuava disputando o título da Eredivisie com o Ajax. No entanto, um resultado ruim no De Klassieker acabaria desanimando o Feyenoord: em casa, a equipe vencia por 3 a 1, mas permitiu o empate, por duas falhas de Treytel. O Ajax se animaria, então, para vencer o título holandês – e goleiro perderia a posição para veterano Pieters Graafland.

Na Copa dos Campeões, porém, o time de Roterdã prosseguia firme na disputa do título. Nas quartas de final, o adversário seria o Vorwärts Berlin, da Alemanha Oriental. E o mesmo cenário da vitória sobre o Milan se repetiu: derrota por 1 a 0 fora de casa, mas triunfo por 2 a 0 na volta. Classificação garantida nas semifinais, onde o adversário seria o Legia Varsóvia, da Polônia.

E, enfim, a classificação para a decisão: empate sem gols em Varsóvia, e vitória por 2 a 0 em Roterdã. Chegava, enfim, a decisão esperada, no dia 6 de maio. No mesmo San Siro em que a equipe jogara contra o Milan. E com um adversário nada desprezível: o Celtic, que havia sido campeão europeu, havia duas temporadas.

O capitão Israël (esquerda) e o veterano Pieters Graafland erguem a taça da Copa dos Campeões (Arquivo ANP)

Suado e inesquecível

No jogo, a primeira chance foi do Feyenoord, com Hasil, chutando de longe para a defesa de Evan Williams. Porém, aos 29 minutos do primeiro tempo, os Bhoys abriram o placar: após falta na meia-lua, uma cobrança ensaiada terminou no chute de Tommy Gemmell, no canto esquerdo de Pieters Graafland, que teve a visão tapada.

Mas não duraria mais do que dois minutos a vantagem escocesa. Aos 31, pela direita, o árbitro italiano Concetto Lo Bello apitou falta. Hasil cobrou, e a bola foi disputada de cabeça, até que Israël completou, também testando, sobre Williams. Era o gol de empate.

Sem mais gols, a partida foi para a prorrogação. E nela continuaria empatada, até os 12 minutos da segunda parte do tempo extra. No meio-campo, Lo Bello apitou falta. A bola foi lançada para a área. Billy McNeill, capitão do Celtic, tocou com a mão. Porém, o árbitro deu a lei da vantagem, o artilheiro Kindvall dominou pela esquerda e tocou na saída de Willians. Era o gol do título. Do primeiro título europeu de um clube holandês. E Israël levantou a taça.

"Ijzeren Rinus" Israël já erguera o troféu da Copa dos Campeões. E ergueu o do Mundial Interclubes (Arquivo ANP)
Desafio ainda mais difícil

A disputa do Mundial Interclubes, porém, seria ainda mais desafiadora. Afinal de contas, o time de Ernst Happel (com Treytel de volta ao gol, já que Pieters Graafland encerrou a carreira depois do título europeu) teria pela frente o lendário Estudiantes. O time de Osvaldo Zubeldía, tricampeão sul-americano, campeão mundial em 1968, que contava com Oscar Malbernat, Carlos Pachamé, Carlos Bilardo, Juan Ramón Verón… temido tanto pela habilidade quanto pelos ameaçadores expedientes extracampo que usava costumeiramente.

E o primeiro jogo para o Feyenoord seria fora de casa, em La Bombonera, no dia 26 de agosto de 1970. E parecia que o Estudiantes iria fazer mais uma vítima: rapidamente, Juan Miguel Echecopar fez 1 a 0, e Verón ampliou a vantagem dos Pinchas. Todavia, o time holandês teria uma importante reação: ainda no primeiro tempo, Van Hanegem diminuiu. E, no segundo, Kindvall apareceu mais uma vez, empatando o jogo. Um placar ótimo para a volta, em Roterdã.

Porém, no dia 9 de setembro, o time de La Plata fazia jogo duríssimo, impedindo que o clube da Het Legioen marcasse e mantendo o empate sem gols, que forçaria um jogo extra para a decisão do título. Até que, no intervalo, Ernst Happel trocou Coen Moulijn por um defensor, Joop van Daele – que jogava de óculos (curiosidade importante para daqui a pouco). E Van Daele seria o autor do gol que faria a Het Legioen, a fanática torcida, explodir. O gol que fazia do Feyenoord o primeiro holandês campeão mundial.

Daí, mais uma história se somaria ao incrível anedotário daquele Estudiantes. Irritados e inconformados com os óculos de Van Daele, os jogadores da equipe argentina foram protestar após o gol. Malbernat resolveu o problema a seu modo: chegou a Van Daele, tirou seus óculos e começou a pisar em cima deles, dizendo: “Você não pode jogar de óculos. Não na América do Sul.” Hoje, o óculos quebrado de Van Daele está no museu do clube. Como um bálsamo que, diante dos difíceis tempos atuais, é a principal lembrança do tempo mais feliz da história do Feyenoord.

(Texto originalmente publicado na Trivela, em 8 de novembro de 2010)