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terça-feira, 2 de julho de 2024

Melhorou e pode mais

Gakpo no primeiro tempo, Malen no segundo: os símbolos de uma atuação convincente da Holanda, que está nas quartas de final da Eurocopa ( sportinfoto/DeFodi Images/DeFodi/Getty Images)

"Não vou mudar muita coisa. Não é necessário tanto pânico por causa de um jogo só." Assim o técnico Ronald Koeman minimizou a necessidade de mudanças pedidas na seleção masculina da Holanda (Países Baixos) para o jogo desta terça, contra a Romênia, pelas oitavas de final da Eurocopa. De certa forma, a Laranja comprovou isso em campo. Porque só uma posição passou por grandes mudanças. E porque, após um começo preocupante, um gol bastou para a equipe nacional neerlandesa se agigantar, dominar a partida na Allianz Arena de Munique e conseguir um 3 a 0 tão convincente que poderia até ter vindo antes - e eis aí um ponto a melhorar para as quartas de final que vêm aí, no sábado, em Berlim, contra a Turquia.

Quando a partida começou em Munique (com Steven Bergwijn como um surpreendente titular), aparentemente, haveria mais pontos a melhorar. Pressionando a saída de bola, a Romênia deixou os Países Baixos sem muito espaço para avançar, criar jogadas, chegar ao ataque. É certo que o único chute a gol romeno foi aos 14' (Dennis Man, arriscando por cima do gol), mas a equipe laranja - jogando de azul, como "visitante" que era - jogava no limite: um erro, e um gol contrário poderia acontecer. Mas aconteceu o inverso: a Romênia amenizou a pressão na saída de bola, e numa das primeiras oportunidades com espaço para atacar, Xavi Simons passou a Cody Gakpo, e ele fez o que melhor sabe. Corte para o meio, chute de pé direito, 1 a 0 Holanda, terceiro gol de Gakpo nesta Euro, seu sexto num grande torneio pela seleção neerlandesa. Nada mal.

Começava aí a melhor fase holandesa. Enfim, se via em campo a intensidade que torcida e imprensa pediam. A começar pela dupla de volantes: atentos, raramente perdendo bolas, sempre acertando passes (100% de acerto para cada um no primeiro tempo), Tijjani Reijnders e Jerdy Schouten foram muito seguros. E distribuíam a bola para Xavi Simons ou Gakpo criarem. Resultado: chances, muitas chances. Tantas que o placar poderia estar mais definido no intervalo. Aos 26', cabeceio de Stefan de Vrij, na rede pelo lado de fora, após escanteio; aos 31', o lançamento em profundidade de Reijnders, cruzado por Denzel Dumfries, e o gol só não saiu porque Radu Dragusin afastou na pequena área. Dumfries, então, fazia o que sempre faz quando tem espaço: uma tremenda ajuda ofensiva. Vasile Mogos precisou sair na Romênia já no 1º tempo (após dividida com... Dumfries), Bogdan Racovitan entrou e sofreu ainda mais ao tentar marcar o camisa 22. A começar aos 44': Dumfries acreditou em jogada, roubou a bola de Racovitan já na área e cruzou, mas Xavi Simons demorou para finalizar. Quando o fez, errou.

Calmo, acertando passes no meio, até avançando ao ataque: Reijnders teve atuação firme que ajudou muito a Laranja. Assim como seu parceiro Schouten (Sebastian Widmann/UEFA)

Até que a Romênia tentou trazer algum tipo de pressão de volta, no segundo tempo. Ainda assim, logo a Holanda neutralizou. E voltou a atacar, apostando na velocidade de Donyell Malen, substituindo um Bergwijn ainda em recuperação de problema muscular. Só que a Laranja também voltou a perder gols: a sorte do goleiro Florin Nita aos 54' (Memphis Depay tentou duas vezes, mas Andrei Ratiu e Racovitan bloquearam antes de Nita defender), Virgil van Dijk cabeceando bola na trave aos 58', Nita espalmando chute de Cody Gakpo aos 62'... e quando a bola enfim balançava as redes, o gol era anulado. Foi o que aconteceu com Gakpo, de fato, impedido ao finalizar aos 63'. Depois, Memphis Depay ainda cobrou falta mandando a bola rente à trave, aos 68'. E Joey Veerman (de volta, substituindo um Schouten em ótimo dia) teve sua chance aos 73', finalizando em diagonal para fora.

Não que a Romênia ameaçasse muito, mas convinha não brincar com a sorte. Mas justamente quando Wout Weghorst, a aposta de gols sempre esperada, era preparada para sair da reserva, Donyell Malen apagou os traumas vividos na eliminação na Euro passada (então, perdeu grande chance de gol contra a Tchéquia, nas oitavas de final). Coube a ele completar para o 2 a 0, na pequena área, em jogada na qual Gakpo teve o mérito de acreditar, driblando dois na linha de fundo; e coube a Malen fazer o terceiro, já nos acréscimos, puxando rápido contra-ataque.

Sim, mais intensidade era pedida, e a Holanda trouxe isso em campo. Claro que há pontos a aprimorar, como a quantidade de gols perdidos, que poderiam ter resolvido o jogo muito antes. Ainda assim, a primeira partida eliminatória vencida pela Laranja numa Eurocopa desde 2000 deixou claro: ela melhorou, e pode mais. Tem a tarefa de continuar mostrando, pois, na partida do próximo sábado.

UEFA Euro 2024 - Oitavas de final

Romênia 0x3 Holanda
Local: Allianz Arena/Football Arena (Munique)
Data: 2 de julho de 2024
Árbitro: Felix Zwayer (Alemanha)
Gols: Cody Gakpo, aos 20', e Donyell Malen, aos 83' e aos 90' + 3

HOLANDA
Bart Verbruggen; Denzel Dumfries, Stefan de Vrij, Virgil van Dijk e Nathan Aké (Micky van de Ven, aos 69'); Jerdy Schouten (Joey Veerman, aos 69') e Tijjani Reijnders; Steven Bergwijn (Donyell Malen, aos 46'), Xavi Simons e Cody Gakpo (Wout Weghorst, aos 84'); Memphis Depay (Daley Blind, aos 90' + 2). Técnico: Ronald Koeman

ROMÊNIA
Florin Nita; Andrei Ratiu, Radu Dragusin, Andrei Burca e Vasile Mogos (Bogdan Racovitan, aos 38'); Marius Marin (Alexandru Cicaldau, aos 72'); Dennis Man, Nicolae Stanciu (Darius Olaru, aos 88'), Razvan Marin e Ianis Hagi (Denis Alibec, aos 72'); Dennis Dragus (Valentin Mihaila, aos 72'). Técnico: Edward Iordanescu

quarta-feira, 13 de março de 2024

Ainda resta algo

Aplausos tristes: mesmo que tenha melhorado, o PSV de fato foi inferior ao Borussia Dortmund que o eliminou na Liga dos Campeões. Mas o cenário segue tranquilo (Nesimages/Michael Bulder/DeFodi Images/Getty Images)

Do jeito como a partida de volta das oitavas de final da Liga dos Campeões começou, parecia que a eliminação seria dura para o PSV. Não só pelo gol sofrido logo no começo, mas pela ofensividade do time alemão ao longo de todo o primeiro tempo. Se serviu de consolo, o PSV melhorou progressivamente, criou chances no segundo tempo, teve pelo menos duas oportunidades valiosas de empate. Só que não aproveitou suas chances. O Dortmund fez isso. E, por essa eficiência, os Boeren estão eliminados da Champions League. Mesmo assim, tem a serena impressão de que a vida segue.

De certa forma, o mau começo do time de Eindhoven talvez tenha se devido a uma aposta de Peter Bosz na escalação. Jerdy Schouten foi recuado para o miolo de zaga - coisa até comum, para dar a segurança que André Ramalho por vezes não dá -, enquanto Guus Til tentaria ajudar o ataque, a partir do meio, com Joey Veerman (recuperado do problema muscular) voltando à sua posição habitual, tendo a ajuda de Mauro Júnior (desde que voltou de cirurgia no joelho, o brasileiro tem sido muito elogiado). Na teoria, tudo correto. Na prática... Ian Maatsen já sinalizou que não seria fácil, com um chute aos 2', defendido por Benítez. E no minuto seguinte, em nova jogada em que a bola chegou rapidamente à área, Julian Brandt ajeitou e Jadon Sancho bateu com precisão, no canto direito do gol, para o 1 a 0 dos Aurinegros.

Era só o começo. Com Brandt e Sancho inspirados, com o meio-campo pressionando bastante a defesa do time holandês, o PSV não tinha o descanso que normalmente tem no Campeonato Holandês. Benítez que o diga: aos 16', precisou defender dois chutes em sequência, à queima-roupa - primeiro de Brandt, depois de Donyell Malen. Este voltaria a tentar, aos 27' e aos 40'. Àquela altura, o PSV já tivera mais espaço e tempo com a bola para arriscar - primeiro com Sergiño Dest, aos 31', depois com Guus Til, aos 34', enfim forçando o goleiro Gregor Kobel a trabalhar. Mas estava claro: os visitantes precisavam melhorar em Dortmund, se não quisessem sucumbir sem pena nem glória.

A eliminação do time holandês de Eindhoven só não ficou definida ainda no primeiro tempo pelas defesas de Benítez (Nesimages/Michael Bulder/DeFodi Images/Getty Images)

Melhoraram. Peter Bosz reconheceu, após o jogo: faltava gente no meio-campo para conter o Dortmund. A entrada de Hirving Lozano consertou isso, de certa forma, possibilitando que Malik Tillman desse mais rapidez ao meio. Com mais rapidez, o PSV teve mais a bola. Com a bola, enfim Luuk de Jong, o principal nome do ataque, pôde aparecer, bem como Johan Bakayoko. E o chute de Lozano na trave, aos 53', sinalizou: o PSV estava vivo. Começava aí a pressão: com Jordan Teze, aos 56', com Lozano voltando à carga aos 62', com Luuk de Jong tentando aos 69', com Bakayoko forçando Kobel a defender aos 71'.

Falando nisso: mesmo mais pressionado, o Dortmund mantinha mais tranquilidade. Contava com Kobel seguro no gol, e Mats Hummels comandando as ações na defesa. Se algo piorava, já era mudado - que o diga a entrada de Felix Nmecha, que ajudou como pôde no meio. E se o PSV tinha maior quantidade de chances, o time alemão talvez continuasse mais perigoso. Niclas Füllkrug comprovou isso aos 78', ao até marcar gol - anulado, por impedimento tão milimétrico que ficou até duvidoso. Mas talvez, a grande prova disso tenha vindo nos lances finais do jogo.

Já com o PSV pressionando plenamente, após as entradas de Isaac Babadi e Ricardo Pepi, apostando em cruzamentos, a última chance veio aos 90' + 4: Pepi ajeitou, Luuk de Jong tabelou com Teze, entrou na área com a bola, cara a cara com Kobel... mas finalizou muito acima do gol, mandando a bola na Muralha Amarela. Ato contínuo, tiro de meta cobrado, a bola foi parar na defesa do PSV, que trocou passes... até Babadi escorregar. Deixando a bola com Marco Reus. Claro que o meio-campista aproveitou a chance, fez 2 a 0 e decretou a eliminação do PSV.

Eliminação que, claro, foi sentida, como Joey Veerman lamentou: "Ótimo que a gente ganhe de 7 a 0 na Eredivisie, mas hoje precisávamos ter feito uns quatro". Ainda assim, talvez não seja o caso de falar em crise, num clube que lidera invicto o Campeonato Holandês, a nove rodadas do fim. Aliás, a invencibilidade talvez seja o grande objetivo do PSV, a partir de agora.

Liga dos Campeões da UEFA - oitavas de final (jogo de volta)

Borussia Dortmund-ALE 2x0 PSV

Data: 13 de março de 2024
Local: Signal Iduna Park (Dortmund)
Árbitro: Daniele Orsato (Itália)
Gols: Jadon Sancho, aos 3', e Marco Reus, aos 90' + 5

BORUSSIA DORTMUND
Gregor Kobel; Emre Can, Niklas Süle, Mats Hummels e Ian Maatsen; Marcel Sabitzer e Salih Özcan; Donyell Malen (Karim Adeyemi, aos 70'), Julian Brandt (Felix Nmecha, aos 58') e Jadon Sancho (Marco Reus, aos 75'); Niclas Füllkrug. Técnico: Edin Terzic

PSV
Walter Benítez; Jordan Teze, Jerdy Schouten, Olivier Boscagli e Sergiño Dest; Mauro Júnior (Isaac Babadi, aos 86') e Joey Veerman (Ricardo Pepi, aos 82'); Johan Bakayoko, Guus Til (Hirving Lozano, aos 46') e Malik Tillman; Luuk de Jong. Técnico: Peter Bosz

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

De igual pra igual

PSV e Borussia Dortmund fizeram um jogo literalmente igual na Liga dos Campeões. O que dá chances de classificação ao time holandês ( Nesimages/Michael Bulder/DeFodi Images/Getty Images)

Entre PSV e Borussia Dortmund, o time alemão era considerado favorito nas prévias antes das oitavas de final da Liga dos Campeões começarem. De certa forma, continua sendo. Ainda assim, no jogo de ida desta terça, o time de Eindhoven mostrou que pode tentar a classificação com um pouco mais de força do que os comentários lhe atribuíam. Fez uma partida igual, a começar pelo resultado: no empate de 1 a 1 no Philips Stadion, as duas equipes criaram chances, se esforçaram, tornaram a partida agradável de ser vista.

O PSV talvez tenha começado a se fortalecer para a partida ao mostrar uma escalação mais previdente na defesa (Jerdy Schouten, que corre menos riscos na saída de bola, foi recuado para a zaga ao lado de Olivier Boscagli), sem deixar de ser forte no ataque. Tanto que Malik Tillman começou cedo a avançar para o ataque, ajudar Luuk de Jong e Hirving Lozano (dois que apareceram bem no ataque) e ser mais um a causar pressão a Alexander Meyer, goleiro que virou titular do Dortmund às pressas após Gregor Kobel se machucar no aquecimento. Partiu do norte-americano o primeiro chute mais perigoso, aos 19', mandando a bola rente à trave direita.

Só que, se o PSV ia bem no ataque, o Borussia Dortmund também, em que pesasse a ausência de Sébastien Haller. Quase fez gol aos 20': num escanteio, Nico Schlotterbeck desviou e Niclas Fullkrüg errou o cabeceio final. Mas aos 24', coube a Donyell Malen comprovar a boa fase que vive, justamente contra o clube em que despontou. Até por isso, nem comemorou o gol que fez: recebendo a bola de Marcel Sabitzer e chutando forte e alto, com a bola batendo na esquerda do travessão antes de entrar. Nada que abalasse muito o PSV, que continuou atacando. Mesmo impedido, Tillman quase acertou o gol, de cabeça, aos 28'. Aos 33', Sabitzer bloqueou arremate de Lozano; aos 37', o mexicano começou a jogada que Johan Bakayoko (atuação inferior) completou com voleio errado; aos 40', o ponta belga acertou, ajeitando de calcanhar para Ismael Saibari chutar forte e forçar Meyer a espalmar.

O primeiro tempo acabou, o segundo começou, e o PSV passou a ter até mais a posse de bola. Pelas pontas, como gosta, foi atacando (como num cruzamento de Bakayoko interceptado por Mats Hummels, aos 48'). Contudo, faltava o espaço para finalizar: o Borussia Dortmund bloqueava bem sua área. Só Joey Veerman tentou, num chute de fora, aos 49'. A chance do empate só viria num pênalti de marcação muito criticada: Tillman dominou a bola, entrou na área, Hummels tentou tirar de carrinho, atingiu a bola, o estadunidense do PSV pulou, caiu... e o juiz sérvio Srdjan Jovanovic achou a queda faltosa e marcou o penal. Nem mesmo a revisão do VAR opinou o contrário ("Agora o VAR ficou do nosso lado", celebrou Veerman na entrevista coletiva). E Luuk de Jong cobrou para fazer 1 a 1, se tornando o maior goleador da história do PSV em competições europeias.

No pênalti do empate do PSV, muitas dúvidas. Tillman até riu na conversa em campo, enquanto Hummels protestou desde o começo (Nesimages/Michael Bulder/DeFodi Images via Getty Images)

Depois do empate, a partida seguiu animada. De um lado, foi o Borussia Dortmund tentando (Malen forçou o goleiro Walter Benítez a rebater, aos 59', e Marius Wolf quase fez um gol de chaleira, aos 72'). Mas o PSV seguiu corajoso em casa, como normalmente é. Saibari arriscou por cima do gol aos 62', Bakayoko apareceu novamente aos 75' (Meyer rebateu), Dest fez jogada bonita aos 81', para outra defesa do goleiro do Dortmund, e Veerman tentou mais um chute de fora da área, aos 90' + 4.

A boa atuação do PSV deixou a impressão de que a vitória até era possível, como Peter Bosz indicou à emissora Ziggo Sport, que mostra a Liga dos Campeões para os Países Baixos: "Foi um jogo intenso, mas acho que poderíamos ter tido mais. Tivemos chances no primeiro e no segundo tempos". E deixou a impressão de que é possível surpreender, como Luuk de Jong indicou: "Só precisamos ser eficientes". Afinal de contas, se o jogo de ida já foi de igual para igual, é possível imaginar coisa semelhante em Dortmund. 

Liga dos Campeões da UEFA - oitavas de final (jogo de ida)

PSV 1x1 Borussia Dortmund-ALE

Data: 20 de fevereiro de 2024
Local: Philips Stadion (Eindhoven)
Árbitro: Srdjan Jovanovic (Sérvia)
Gols: Donyell Malen, aos 24', e Luuk de Jong, aos 56'

PSV
Walter Benítez; Jordan Teze, Jerdy Schouten, Olivier Boscagli (Armando Obispo, aos 90') e Sergiño Dest; Ismael Saibari (Mauro Júnior, aos 83') e Joey Veerman; Johan Bakayoko, Malik Tillman e Hirving Lozano (Ricardo Pepi, aos 75'); Luuk de Jong. Técnico: Peter Bosz

BORUSSIA DORTMUND
Alexander Meyer; Julian Ryerson, Mats Hummels, Nico Schlotterbeck e Ian Maatsen; Marcel Sabitzer e Emre Can; Donyell Malen (Salih Özcan, aos 83'), Marco Reus (Julian Brandt, aos 62') e Jadon Sancho (Marius Wolf, aos 68'); Niclas Füllkrug (Youssoufa Moukoko, aos 83'). Técnico: Edin Terzic

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Nada tanto assim

O Ajax jogou bem, mas teve falhas. E o Benfica as aproveitou para sinalizar: este jogo está mais aberto do que podia parecer na Liga dos Campeões (ANP)

100% de aproveitamento na fase de grupos, coisa que não era conseguida por um time da Holanda (Países Baixos) na Liga dos Campeões desde 1996. O domínio esperado na liderança do Campeonato Holandês. Uma equipe badalada, com jogadores badalados - e técnico idem -, conseguindo manter do lado de fora do gramado os problemas por que passa a diretoria do Ajax. Muito se pensava que a equipe de Amsterdã era franca favorita diante do Benfica, nas oitavas de final. Bem, o time Ajacied até mostrou talento na partida de ida, em Lisboa. Mas a equipe portuguesa também mostrou seu talento, aproveitando algumas inegáveis falhas dos visitantes. O 2 a 2 exemplificou muito bem as alternâncias de superioridade. E fez mais: mostrou que nada está decidido.

Pelo modo como a partida no Estádio da Luz começou, de fato, o Ajax parecia com todas as condições para se impor diante dos Encarnados, mesmo fora de casa. Começando com a pressão sobre a zaga lenta do Benfica, com os avanços de Noussair Mazraoui pela direita, o ataque dos Amsterdammers estava fortalecido. A tal ponto que o gol até demorou. Mas quando saiu, foi bonito, mostrando a intensidade: Mazraoui roubou a bola de Jan Vertonghen, tabelou com Antony e cruzou para a finalização de classe com que Dusan Tadic abriu o placar.

O que não quer dizer que as coisas ficaram perfeitas depois. Desde então, as laterais do Ajax tiveram muito espaço a ser explorado - principalmente a esquerda, onde Daley Blind sofreu com Rafa Silva já após a vantagem dos visitantes. Não à toa, ali surgiu a jogada de uma bola defendida por Pasveer - e que rendeu o escanteio no qual saiu o empate acidental, num chute de Vertonghen desviado acidentalmente por... Sébastien Haller. Que fazia mais um gol, como costuma fazer na Liga dos Campeões. Mas do lado errado.

Sébastien Haller cometeu gol contra? Tudo bem: fez a favor também, consolidando o começo superior do Ajax (ANP)

Bem melhor para Haller foi fazê-lo do lado certo, pouco depois, aproveitando rebote e reestabelecendo a vantagem do Ajax no primeiro tempo, com seu 11º gol na Liga dos Campeões. O marfinense segurava a bola no ataque, Antony e Dusan Tadic auxiliavam nas pontas, Mazraoui seguia aparecendo muito bem. E tudo isso, sem contar avanços esporádicos, como o de Edson Álvarez, que acertou a bola na trave, aos 43'. Era um bom símbolo de como o Ajax fora superior no primeiro tempo.

O gol perdido faria falta. Porque o Benfica voltaria melhor no segundo tempo. Aproveitando o ritmo diminuído do Ajax - até pelo cansaço -, o time da casa voltou a ter intensidade no ataque. Rafa Silva seguia dando muito trabalho a Blind na direita, Darwin Núñez causava problemas ao miolo de zaga (principalmente a Lisandro Martínez, que já precisara interceptar um chute), e cada contra-ataque benfiquista encontrava um espaço aberto pelos avanços insistentes do Ajax, tentando o terceiro gol que encaminharia a vitória. A entrada de Roman Yaremchuk, no ataque, aumentou a pressão dos mandantes.

De certa forma, o gol do merecido empate comprovou tudo isso. Os avanços algo desesperados do Ajax: logo antes do gol, Jurriën Timber viera de uma área à outra, e reclamara pênalti sofrido. Uma certa demora de Erik ten Hag em fazer alterações: Nicolás Tagliafico já esperava para substituir Blind. A melhora do Benfica, com mais um contragolpe puxado velozmente por Rafa Silva, e concluído no chute rebatido por Remko Pasveer, e aproveitado por Yaremchuk para o 2 a 2.

O Ajax jogou bem. Continua favorito para obter a vaga em Amsterdã, no jogo de volta, em 15 de março. Mas nada tanto assim.

Liga dos Campeões - oitavas de final - jogo de ida

Benfica 2x2 Ajax

Local: Estádio da Luz (Lisboa)
Data: 23 de fevereiro de 2022
Árbitro: Slatko Vincic (Eslovênia)
Gols: Dusan Tadic, aos 18', Sébastien Haller (contra), aos 26', Sébastien Haller, aos 29', e Roman Yaremchuk, aos 72'

Benfica
Odisseas Vlachodimos; Gilberto (Diogo Gonçalves), Nicolás Otamendi, Jan Vertonghen e Álex Grimaldo; Rafa Silva, Julian Weigl, Adel Taarabt e Everton (Roman Yaremchuk); Darwin Núñez (Valentino Lazaro) e Gonçalo Ramos. Técnico: Nélson Veríssimo

Ajax
Remko Pasveer; Noussair Mazraoui (Devyne Rensch), Jurriën Timber, Lisandro Martínez e Daley Blind (Nicolás Tagliafico); Edson Álvarez, Steven Berghuis e Ryan Gravenberch (Davy Klaassen); Antony, Sébastien Haller e Dusan Tadic. Técnico: Erik ten Hag

domingo, 27 de junho de 2021

O castelo de cartas caiu

A Holanda vinha numa leve evolução durante esta Euro. Mas tinha erros. Foram duramente punidos pela República Tcheca, que fez a Laranja voltar várias casas com a eliminação na Euro (Pro Shots)

A seleção masculina da Holanda (Países Baixos) fizera uma boa fase de grupos. Ainda tinha defeitos a consertar - algumas fragilidades defensivas, por exemplo -, mas se notava uma leve evolução. Era como a lenta construção de um castelo de cartas. Tudo acabou bruscamente neste domingo. O castelo caiu, graças a um sopro da República Tcheca. Que impôs seu estilo de força física, bolas altas e mais segurança sobre o que fazer em campo, para superar uma Laranja atarantada, fazer 2 a 0 e ir às quartas de final da Euro. Pode ter sido uma surpresa, mas foi muito merecida.

No começo em Budapeste, até parecia que essa surpresa não aconteceria. Se a força da Tchéquia era o jogo pelo alto, a Holanda começou tentando: logo aos 8', num escanteio curto, Matthijs de Ligt podia até estar impedido, mas cabeceou e quase abriu o placar. Aos 13', outra bola alta quase abriu o caminho do gol: iniciando muito bem a partida na Ferenc Puskas Arena, Daley Blind lançou até o ataque, e Denzel Dumfries superou Tomas Kalas e o goleiro Tomas Vaclik, que saiu cedo do gol - só que Kalas se recompôs para evitar o 1 a 0, bloqueando o chute. Até ali, com relativa rapidez na troca de passes, aproveitando a escalação de Donyell Malen, a Holanda ensaiava o gol.

O ensaio acabou a partir da metade do primeiro tempo. Foi quando a República Tcheca começou a ter mais a bola nos pés. Começou a impor mais a sua força física, nas jogadas pelo alto - assim criou a primeira chance, aos 22', quando Petr Sevcik cruzou, e Tomas Soucek quase fez, de cabeça. E mostrou até velocidade na troca de passes (principalmente pela direita, com Vladimir Coufal): foi assim na grande chance dos tchecos durante a etapa inicial, aos 38', quando Lukas Masopust ajeitou e Antonín Barák só não abriu o placar porque De Ligt bloqueou seu chute na hora precisa. A Laranja não tinha mais espaço para trocar passes e acelerar o jogo. Só conseguiu fazer isso aos 31' (um chute de Malen bloqueado por Ondrej Celustka) e aos 39' (jogada individual de Dumfries, concluída com um chute rebatido por Vaclik). No mais, já chamava a atenção a quantidade de vezes em que Maarten Stekelenburg recebia a bola recuada, para recomeçar as jogadas com um chute longo. Sinal preocupante de falta de criatividade neerlandesa.

De Ligt sai, sozinho, após ser expulso. Já estava difícil para a Holanda. Ficou ainda mais (Getty Images)

No segundo tempo, poderia ter sido diferente a partir dos 52', quando Malen fez uma excelente jogada e ficou cara a cara com Vaclik, sem mais ninguém a marcá-lo. Preferiu tentar o drible, e o goleiro da Tchéquia, bem posicionado, fez a defesa. Dois minutos depois, outra bola alta. Superado (e levemente empurrado) por Patrik Schick, De Ligt escorregou. Decidiu evitar a sequência do lance pondo a mão na bola. Levou o cartão amarelo, inicialmente, mas o juiz Sergei Karasev ouviu o VAR, reviu o lance, viu que De Ligt interrompera a chamada "chance clara e manifesta de gol" e trocou o cartão. De amarelo para vermelho. A Holanda ficava com dez homens, sem um zagueiro. Seria um drama.

Drama aumentado pela polêmica substituição de Frank de Boer, minutos depois: preferiu tirar Malen, que vinha jogando bem mesmo com a grande chance perdida, para colocar Quincy Promes, como um "falso ala", para aumentar a quantidade de jogadores na defesa com a expulsão de De Ligt. Deu tudo errado. A bola já não seria mais da Holanda, mas da República Tcheca. Que pôde jogar como gosta, jogando a bola para o alto, aproveitando a firmeza dos seus jogadores - como Tomas Holes, de excelente atuação no meio-campo, neutralizando Georginio Wijnaldum. Que quase fez o gol com Schick, aos 60', e Pavel Kaderábek, aos 64' (grande bloqueio de Dumfries). 

Até que aos 68', num escanteio, Stekelenburg saiu mal do gol, Kalas ajeitou, e Holes teve o "prêmio" de fazer o 1 a 0. Foi a definição do jogo: uma Holanda desalentada, sem um chute a gol, sem uma alternativa para jogar além da sua preferencial, sem saber o que fazer. Diante de uma seleção segura, que sabia procurar bem os seus destaques, que tinha espaço para se impor. Foi assim a jogada do segundo gol, aos 80': Holes recebeu bola em contragolpe (após outra bola alta...), passou para o meio, e Schick estava lá para fazer o seu quarto gol na Euro.

O gol que simbolizou a queda do castelo de cartas da Holanda, cuja construção lenta no caminho desta Euro mal começou e já acabou, dizimada pela primeira seleção mais organizada que encontrou no caminho. 

Euro 2020 - oitavas de final
Holanda 0x2 República Tcheca

Local: Ferenc Puskas Arena (Budapeste)
Data: 27 de junho de 2021
Árbitro: Sergei Karasev (Rússia)
Gols: Tomas Holes, aos 68', e Patrik Schick, aos 80'
Cartão vermelho: Matthijs de Ligt, aos 55'

Holanda
Maarten Stekelenburg; Denzel Dumfries, Matthijs de Ligt, Stefan de Vrij, Daley Blind (Jurriën Timber) e Patrick van Aanholt (Steven Berghuis); Marten de Roon (Wout Weghorst), Georginio Wijnaldum e Frenkie de Jong; Memphis Depay e Donyell Malen (Quincy Promes). Técnico: Frank de Boer

República Tcheca
Tomas Vaclik; Vladimir Coufal, Tomas Kalas, Ondrej Celustka e Pavel Kaderábek; Tomas Holes (Alex Kral) e Tomas Soucek; Lukas Masopust (Jakub Jankto), Antonín Barák (Michal Sadílek) e Petr Sevcik (Adam Hlozek); Patrik Schick (Michael Krmencik). Técnico: Jaroslav Silhavy