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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Play-offs pela Conference League: um favorito. Um favorito?

Em retrospecto, pode-se considerar que a repescagem pelo lugar da Holanda (Países Baixos) na segunda fase preliminar da Conference League é feita para os times "médios-grandes" do futebol holandês. Utrecht (participante de todas as edições da repescagem, entre 2015/16 e 2023/24), AZ (por vezes), Twente (por vezes), NEC também teve suas participações, Vitesse (antes de mergulhar fortemente na crise que ameaça sua existência), Heerenveen, Groningen, às vezes uma surpresa como o Go Ahead Eagles ou o Sparta Rotterdam... enfim, a oportunidade de jogar um torneio europeu quase sempre é válida para clubes que nem são tão pequenos que bordejam o amadorismo - forte no futebol holandês -, nem são grandes o bastante para desafiarem o reinado do trio Ajax-PSV-Feyenoord. Pois bem: os play-offs que começam nesta quinta-feira serão diferentes. 

Porque o Ajax, ainda o clube holandês mais conhecido, ainda o clube holandês mais rico, terá de jogar sua sorte em duas partidas. Em crise profunda desde a temporada 2022/23 (na verdade, desde a saída progressiva do triunvirato que guiou os tempos áureos entre 2018 e 2022 - pela ordem, o diretor de futebol Marc Overmars, destituído por assédio sexual comprovado a funcionárias do clube; o treinador Erik ten Hag; e o diretor geral Edwin van der Sar), o clube de Amsterdã tem tentado sair do círculo vicioso, sem muito sucesso. Primeiro, a passagem do alemão Sven Mislintat como diretor de futebol foi tão rápida quanto turbulenta, com escolhas desastradas de contratações causando a saída de nomes simbólicos, como Dusan Tadic. Depois, a passagem de Alex Kroes tentou colocar o clube nos eixos, a entrada do técnico italiano Francesco Farioli quase fez um Ajax incomumente "reativo" levar o título em 2024/25... mas a derrocada incrível nas últimas rodadas, somada às discordâncias crescentes entre Farioli e o já demissionário Kroes, ocasionou a demissão do treinador. 

Agora, com Jordi Cruyff - sobrenome mais simbólico não poderia haver, em termos de Ajax - vindo para ser diretor esportivo do clube de Amsterdã, ele terá de passar pela prova dos play-offs. Encara três times muito mais acostumados a isso, com Utrecht, Heerenveen e Groningen. É mais favorito do que todos eles, mas também tem a pressão muito maior. E é exatamente por ela, e por circunstâncias a serem faladas, que os play-offs pela Conference atraem mais atenção agora.

Ajax x Groningen
21 de maio, às 13h45 de Brasília, em Volendam (Johan Cruyff Arena reservada para shows)

Mika Godts foi o único jogador que mereceu o destaque no Ajax, nesta temporada. Caberá a ele tentar catalisar o time de Amsterdã para superar a pressão natural e levar a vaga na Conference (Marcel Bonte/Soccrates/Getty Images)

Ajax (5º colocado na temporada regular)

A pressão que está sobre os Ajacieden já começa fora de campo. Afinal de contas, não será na Johan Cruyff Arena, sua casa, que o time jogará, já que ela está destinada a shows do cantor Harry Styles nesta semana. Será no cenário acanhado do KRAS Stadion, a casa do Volendam, que o time de Amsterdã jogará sua tentativa de ir à Conference, para não ficar fora de torneios europeus, pela primeira vez após 36 anos. Indo para dentro de campo, as atuações também colocam a desconfiança da torcida em patamares muito altos: afinal, nas duas últimas rodadas da Eredivisie, uma derrota em casa para o Utrecht e um empate com o Heerenveen, possíveis adversários na decisão definitiva da vaga. Além do mais, o time não anda saindo a contento. Há o único destaque técnico, Mika Godts; a experiência de Steven Berghuis, o capitão Davy Klaassen e Wout Weghorst (este, ainda, sempre garantia de voluntariedade); há jovens que oferecem alguma promessa, como os meias Jorthy Mokio e Sean Steur; o goleiro Maarten Paes também trouxe alguma constância a uma posição que sofria, nas temporadas recentes. Mas os Amsterdammers não embalam em campo. Jogarão com um desfalque na zaga: o croata Josip Sutalo (convocado para a Copa do Mundo). E a pressão só passará se eles terminarem o próximo domingo, 24, classificados para a segunda fase preliminar da Conference League. Do contrário, estará confirmado o maior vexame da história recente do Ajax.

Van Bergen carrega um Groningen que chega como azarão, mas com boas condições de surpreender (Ron Baltus/Soccrates/Getty Images)

Groningen (9º colocado na temporada regular)

Os Groningers podem até chegar como relativos azarões, diante da força do Ajax - e do talento que ainda se vê, aqui e ali, nos adversários de Amsterdã. Ainda assim, há nomes em quem o time do norte neerlandês pode confiar, como o atacante Thom van Bergen e o goleiro Etienne Vaessen. É certo que o nome, talvez, de maior destaque na temporada já não está defendendo os Groningers há alguns meses: o meio-campo Stije Resink, fora dos campos após romper o ligamento cruzado anterior. Ainda assim, o que se vê da equipe alviverde são jogadas velozes, principalmente pelas pontas, ajudadas pela aceleração de Younes Taha no meio-campo. Foi assim, inclusive, que os Groningers conseguiram vencer... o Ajax, na temporada regular (3 a 1, em 7 de março, pela 26ª rodada). E ao contrário do adversário, o time chega pacificado por duas vitórias nas duas últimas rodadas, que o ajudaram a vencer a concorrência do Sparta Rotterdam, ocupar a 9ª posição ("aberta" pelo título do AZ, 6º colocado, garantido na Liga Europa pelo título da Copa da Holanda). Repita-se: o Groningen chega como azarão. Mas nada impede que ele consiga superar um Ajax abalado. Até porque a torcida, que chegou a ter a viagem a Volendam proibida por razões de segurança, estará afinal presente, esperando para ver se a surpresa acontecerá.

Utrecht x Heerenveen 
21 de maio, às 16h de Brasília, em Utrecht

Com Alarcón sendo um bom empréstimo que já está garantido em definitivo, o Utrecht chega em clima tranquilo, tentando a vaga para deixar boa impressão final na saída do técnico Ron Jans (Marcel van Dorst/EYE4IMAGES/NurPhoto via Getty Images)

Utrecht (7º colocado na temporada regular)

Os Utregs já estão de olho na próxima temporada, aconteça o que acontecer. Já têm até técnico novo garantido: Anthony Correia, vindo após o elogiável trabalho que manteve o Telstar na primeira divisão. Contudo, quem está no banco ainda é Ron Jans, técnico que mais vitórias teve na história do Campeonato Holandês, prestes a encerrar a carreira (anunciou que sairia do clube no começo do ano). E mesmo já tendo sido homenageado pela torcida, Jans terá de comandar uma equipe que entrou nos eixos somente no returno, graças a duas contratações por empréstimo. Uma delas já tem a permanência em definitivo assegurada: o ponta-direita Ángel Alarcón, cuja contratação foi anunciada na terça passada. A outra é o ucraniano Artem Stepanov, que resolveu as incertezas no meio da área, não solucionadas nem por David Min, nem pelo ídolo Sébastien Haller. Além delas, o meio-campo Gjivai Zechiël, considerado o melhor do time na temporada até agora, verdadeiro "motorzinho", muito veloz com a bola no meio-campo, também pode ajudar. Enfim, o Utrecht está em clima tranquilo, pré-férias. Está num cenário que conhece, a repescagem por vaga na Conference League, que disputou ininterruptamente entre 2016 e 2024, antes de ir à Liga Europa com o quarto lugar de 2024/25. Só falta a vaga para que Ron Jans se despeça deixando ótima última impressão, e as férias sejam felizes antes da chegada do novo técnico.

O Heerenveen de Trenskow chega com a intenção de impor seu estilo técnico intenso em campo, na segunda repescagem seguida que disputa, para voltar às competições europeias (Sonny Lensen/AFP/Getty Images)

Heerenveen (8º colocado na temporada regular)

Se o Utrecht parece estar tranquilo, o Heerenveen tem mais intensidade. Aliás, teve por toda a temporada regular. Além da regularidade que mostraram nomes como o goleiro Bernt Klaverboer (revelação da posição) e o lateral esquerdo Vasilis Zagaritis, os velhos conhecidos Joris van Overeem (meio-campo, jogou mais recuado) e Jacob Trenskow (ponta-direita, que costumou vir muito para o meio-campo) também colaboraram numa campanha que oscilou, até a ascensão que permitiu a presença na repescagem pela segunda temporada seguida - foi derrotado pelo AZ na semifinal, em 2024/25. Contratações pontuais também ajudaram bastante, como o ponta-esquerda Luca Oyen e o atacante Lasse Nordas, ambos rendendo bem na segunda metade a temporada. E o Fean, novamente, sonha em reaparecer nas competições europeias, após 13 anos. Chega apostando nas rápidas saídas para contra-ataque, tentando bloquear o Utrecht.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Play-offs pela Conference League: reações e reaparições

Chega a ser até um "milagre": não, esta temporada 2024/25 não terminará com o Utrecht disputando a repescagem que vale um lugar na segunda fase preliminar da Conference League, começando nesta quinta-feira. Sim, é algo notável, tendo em vista que os Utregs a disputam sempre, nas últimas temporadas. O que não quer dizer que os jogos que encerram a temporada no futebol masculino da Holanda (Países Baixos) sejam totalmente renovados. Afinal de contas, o AZ foi o ganhador da vaga em 2021/22; o Twente, em 2022/23; e ambos têm nestes play-offs chances de reagir, após temporadas oscilantes.

Além deles, também há reaparições. Havia algum tempo que NEC e Heerenveen não conseguiam sonhar com participações em torneios europeus - mesmo sendo, ambos, habituais integrantes do meio de tabela na liga neerlandesa, andavam mais do lado de baixo do que do lado de cima. Nesta temporada, em meio a um tremendo equilíbrio na parte baixa da tabela (sempre foram poucos pontos entre a zona da repescagem e a zona da "repescagem de baixo", para evitar o rebaixamento), ambos tiveram desempenho melhor na reta final. E podem surpreender, mesmo que as únicas chances sejam nesta quinta.

Pois é: num calendário cada vez mais povoado, se discute cada vez mais a efetiva necessidade dos play-offs pela Conference. Até porque ele talvez interfira no coeficiente holandês na UEFA: vale lembrar que o Go Ahead Eagles ganhou a repescagem na temporada passada... e já caiu na própria segunda fase, para o SK Brann norueguês. Talvez fosse mais simples dar a vaga diretamente ao quinto colocado da Eredivisie. E o próprio caminho já foi encurtado, com a eliminação dos jogos de volta dentro da repescagem. Ainda assim... o Go Ahead Eagles está aí, campeão da Copa da Holanda, com lugar assegurado na próxima fase de liga da Liga Europa. Quem dirá que ele não mereceu o lugar na Conference? E quem dirá que a repescagem não tem sua utilidade?

Enfim... vale ver como os quatro participantes dela chegarão para os jogos desta quinta. E para a tentativa, em si.

AZ x Heerenveen
22 de maio, às 13h45 de Brasília, em Alkmaar

Numa temporada de altos e baixos, o AZ espera terminar bem, contando com Peer Koopmeiners a comandar a equipe no meio ( Jan Mulder/BSR Agency/Getty Images)

AZ (5º colocado na temporada regular)

Pode-se dizer que o AZ várias vezes ensaiou crescer nesta temporada... mas sempre ficava no mesmo lugar. Um bom começo na Eredivisie (cinco vitórias nas seis primeiras rodadas) foi seguido por três derrotas. Depois, na Liga Europa, os Alkmaarders despacharam o Galatasaray na segunda fase... mas caíram para o Tottenham - campeão do torneio, é verdade - nas oitavas de final. Na Copa da Holanda, a volta à decisão, vantagem por longo tempo... até tomar o empate do Go Ahead Eagles nos acréscimos do 2º tempo, e cair nos pênaltis. De volta à Eredivisie, a reta final trouxe tanto preocupação (seis jogos sem vitória) quanto reação (os três triunfos nas três últimas rodadas, que deixaram o time na quinta posição, com a vantagem de poder ter dois jogos em casa, se passar à final). E há motivos para o AZ ter otimismo. A geração campeã europeia jovem em 2022/23 já tem destaque no time principal, com nomes como o goleiro Rome-Jayden Owusu-Oduro, o zagueiro Wouter Goes e o atacante Mexx Meerdink já titulares. Peer Koopmeiners, por sua vez, já desponta no meio-campo como o irmão Teun um dia fez. E justamente nestes play-offs, voltam dois nomes importantes: o capitão Jordy Clasie e o goleador Troy Parrott, ambos recuperados de contusão. Quem sabe a vaga na Conference complete a reação.

Os fatores conspiravam até contra. Mas o Heerenveen superou tudo, aproveitou o equilíbrio no meio da tabela, cresceu na reta final e pode ter a vaga num torneio continental, após muito tempo (Peter Lous/BSR Agency/Getty Images)

Heerenveen (9º colocado na temporada regular)

As últimas temporadas foram de problemas dentro e fora de campo no clube da Frísia. E ao contrário do que possa parecer, esta não fugiu à regra. A expectativa que chegou com Robin van Persie, em seu primeiro trabalho "para valer" como treinador, foi impactada com a demora de bons resultados - incluindo até um 9 a 1 sofrido justamente para o AZ. A duras penas, o Fean se manteve, foi subindo gradativamente... mas nunca parecia capaz de entrar na repescagem. Além do mais, no começo deste ano, foi novamente impactado pela decisão de Van Persie: cortejado pelo Feyenoord a que sempre esteve ligado, o ex-atacante decidiu encarar o desafio de treinar o clube, após a demissão de Brian Priske. Restou ao time alviazul buscar um novo técnico, enquanto o auxiliar Henk Brugge quebrava o galho... até a chegada de Robin Veldman. Ao mesmo tempo, o grupo de jogadores pareceu ficar mais coeso com esta dificuldade. Jogadores como o meio-campo Levi Smans e o atacante Ion Nicolaescu cresceram de produção. Com o grande equilíbrio no meio de tabela, a chance de ir à repescagem da Conference aumentou. E foi concretizada com quatro vitórias nas sete últimas rodadas, com direito a vencer o Feyenoord na última (2 a 0). A reaparição oferece a chance ao Heerenveen de se firmar, como há muito tempo não faz.

Twente x NEC
22 de maio, às 16h de Brasília, em Enschede

O Twente chega à repescagem amparado nos gols de Steijn. Mas de nada adiantarão se a defesa não colaborar... (Broer van den Boom/BSR Agency/Getty Images)

Twente (6º colocado na temporada regular)

Ver o Twente precisando disputar a repescagem parecia um pouco surpreendente, nesta temporada. Um time que contou com primoroso desempenho do meio-campista Sem Steijn (goleador da Eredivisie regular, com 24 gols - desde Jari Litmanen, em 1993/94, nenhum meio-campista fazia tantos gols na liga holandesa), que tem um armador de jogadas muito razoável em Michel Vlap, pontas úteis em Daan Rots e Sayfallah "Sayf" Ltaief, opções muito decentes no ataque (a experiência de Ricky van Wolfswinkel e a confiabilidade - quando está livre de lesões... - de Sam Lammers). Por quê, então, a necessidade de jogar por um lugar na Conference? Porque a defesa penou mais do que em outros anos. Mees Hilgers, Max Bruns, Alec van Hoorenbeeck, o sueco Gustaf Lagerbielke... nenhum deles trouxe segurança ao miolo de zaga. E até mesmo o goleiro Lars Unnerstall, garantia de segurança em temporadas idas, chega aos play-offs em má fase (sofreu um "frango" clássico no 3 a 2 sofrido, de virada, para o AZ, na penúltima rodada). Além do mais, ainda dói a lembrança dos 6 a 2 tomados do Feyenoord, em pleno De Grolsch Veste. Por tudo isso, o Twente precisará jogar a repescagem. Se serve de consolo, tem plenas condições de vencê-la e ter a vaga na Conference League.

Bryan Linssen, crescendo na reta final, pode abrilhantar ainda mais o fim de temporada do NEC (Broer van den Boom/BSR Agency/Getty Images)

NEC (8º colocado na temporada regular)

O clube de Nijmegen volta à repescagem pela segunda temporada seguida, em clima de despedidas. No banco, o técnico Rogier Meijer se prepara para deixar o clube, após cinco anos - e a saída era considerada natural, já que o trabalho deu sinais de desgaste. Em campo, está encerrando a carreira Lasse Schöne, o jogador estrangeiro com mais partidas na história do Campeonato Holandês. Porém, a despedida é daquelas em alto astral. Porque o NEC tem bons jogadores: atrás, o goleiro Robin Roefs, e na frente, o ponta-direita Sontje Hansen, e os atacantes Kento Shiogai, Koki Ogawa e... Bryan Linssen. Aos 34 anos, o veterano despontou nesta reta final, com excelente atuação na penúltima rodada (dois gols nos 3 a 0 no NAC Breda). Antes dela, merece ainda destaque o triunfo contra o Ajax: 3 a 0 em plena Johan Cruyff Arena. Então, diante deste crescimento na reta final... por quê não imaginar que os Nijmegenaren poderão começar a temporada 2025/26 - com o novo técnico, Dick Schreuder - na Conference League?

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Play-offs pela Conference League: aumentam as novidades

O Campeonato Holandês da temporada 2023/24 acabou... pelo menos para 14 clubes. Afinal, como é comum, ano após ano, quatro clubes holandeses ainda jogarão a repescagem que vale vaga na segunda fase preliminar da próxima Conference League. Como também é comum, a repescagem que originalmente incluiria do 4º ao 7º lugar foi "rebaixada" pelos bons resultados de clubes melhor colocados: o vice-campeão Feyenoord ganhou a Copa da Holanda (que dá um lugar direto na fase de grupos da Liga Europa), mas já tinha vaga na Liga dos Campeões - e com isso, legou sua vaga ao AZ, 4º colocado da Eredivisie. A vaga na terceira fase preliminar da Europa League, então, foi para o Ajax, quinto colocado. E aí, a repescagem ficará entre o 6º e o 9º colocados da liga dos Países Baixos.

E entre esses quatro times, há mais novidades do que costuma acontecer nos play-offs que fecham a temporada holandesa masculina no futebol. Certo, nem tantas: o Utrecht se aprumou após muitos sustos no começo da Eredivisie, e voltou ao cenário que já conhece tanto (é a oitava participação seguida dos Utregs nos play-offs). O Sparta Rotterdam, se é menos frequente, deu sequência à boa fase, retornando à repescagem após decidi-la em 2022/23. Mas dois participantes menos frequentes ganharam direito a sonhar com a volta a torneios europeus. O NEC se valeu de um ótimo fim de temporada para ser o melhor dos quatro (6º colocado) e ganhar um lugar na repescagem. E o Go Ahead Eagles já coroou sua incrível evolução nos últimos três anos ao ser um dos quatro participantes. 

Quatro participantes que terão a resolução bem mais dinâmica: afinal de contas, não haverá jogo de volta na repescagem, pelas limitações do calendário. As semifinais ocorrem nesta quinta-feira; e a decisão da vaga na Conference League, no próximo domingo, com o time melhor colocado na temporada regular como mandante. Sendo assim, é bom saber como entram os quatro clubes holandeses que ainda têm algo a aspirar.

NEC x Go Ahead Eagles
23 de maio, às 13h45 de Brasília, em Nijmegen

O NEC deixou de lado a incômoda fama de ser time "de empates" para embalar na metade final da temporada. Já foi vice-campeão da Copa da Holanda, e tem boas chances na repescagem (Broer van den Boom/BSR Agency/Getty Images)

NEC (6º colocado na temporada regular)

Ah, é, o NEC era o time dos empates até a temporada passada? Pois mudou essa realidade no returno. Quando nada, porque foi o único time, entre os 18 da Eredivisie, a ter vencido o campeão PSV (3 a 1, na 27ª rodada). Mas não foi só por isso. O time de Nijmegen contou com nomes experientes que engrenaram na hora certa: o goleiro Jasper Cillessen - voltou a jogar bem, após inconstâncias em 2022/23 -, o zagueiro Bram Nuytinck, o meio-campo Lasse Schöne (mais na reserva, mas ainda valioso para entrar no decorrer do jogo). Falando em meio-campo, Dirk Proper e Mees Hoedemakers formam uma dupla bem entrosada no setor. E em meados da temporada, ainda chegou o ponta-de-lança Tjaronn Chery, para ajudar um ataque rápido em praticamente todos os jogadores: os pontas Sontje Hansen, Rober González (direita), Kodai Sano (esquerda), o atacante Koki Ogawa... tudo isso rendeu um time que embalou na metade final da temporada. Não só pelos bons resultados conseguidos na Eredivisie, mas também, e principalmente, por chegar à final da Copa da Holanda. Perdeu para o Feyenoord, é verdade. Mas alcançar a repescagem é uma "segunda chance" para os Nijmegenaren voltarem a uma competição europeia, após 15 anos. Uma chance merecida.

Desde 2022 no Go Ahead Eagles, Willumsson simboliza em campo um time firme dentro e fora de campo, que superou o orçamento pequeno com muita sabedoria ao usá-lo (Vincent Jannink/ANP/Getty Images)

Go Ahead Eagles (9º colocado na temporada regular)

Parece incrível pensar que, há três anos, as Águias apenas subiam para a Eredivisie, voltando a ela como vice-campeões da segunda divisão em 2020/21. Por outro ponto de vista, porém, talvez tenha sido essa humildade que fez com que o "Kowet" subisse tanto, nesta temporada. Começando pelo lado de fora do campo, onde o diretor geral Jan Willem van Dop e o diretor esportivo Paul Bosvelt (ex-jogador, com passagem pelo Manchester City e duas Eurocopas defendendo a Holanda no caminho) trabalham muito bem com pouco dinheiro. Indo para dentro do gramado, o técnico René Hake já tem um trabalho bem desenvolvido, com dois anos no clube de Deventer. E finalmente, os jogadores estão muito entrosados. Para começo de conversa, há pelo menos dois anos a torcida (fanática) já decorou a linha defensiva, com o goleiro Jeffrey de Lange tendo à sua frente o quarteto Mats Deijl-Jamal Amofa (ou Gerrit Nauber)-Joris Kramer-Bas Kuipers. Mais à frente, há várias opções de volante, sem que o time perca seu nível razoável para os padrões da Eredivisie. E no ataque, o islandês Willum Willumsson costuma ser bom na armação, e o que lhe falta em velocidade é compensado pelos pontas Bobby Adekanye (mais) e Oliver Edvardsen (menos), para que o atacante Victor Edvardsen - sem parentesco com Oliver - faça seus gols. Tamanha solidez fez com que o GAE superasse times como Heerenveen e Fortuna Sittard, entrando na repescagem em busca de uma participação em torneio europeu, que não tem há nove anos. O respaldo da torcida já está garantido sem a vaga. Com ela, então...

Utrecht x Sparta Rotterdam
23 de maio, às 16h de Brasília, em Utrecht

O Utrecht correu risco de nem chegar à repescagem que conhece tão bem. Mas se recuperou para chegar novamente a ela, contando com os gols de Sam Lammers (Gerrit van Keulen/ANP/Getty Images)

Utrecht (7º colocado na temporada regular)

Disputar de novo a repescagem pela vaga na Conference League - e mesmo antes, quando a vaga era para a Liga Europa - é pouco para o tamanho da ambição que o Utrecht tem, há algumas temporadas. Mas se esta temporada regular serviu para alguma coisa, foi para os Utregs reconhecerem: pior que ficar sempre no mesmo patamar é correr o risco de ficar abaixo dele. Foi o que aconteceu em grande parte do primeiro turno, quando o clube patinou em posições perto de outra repescagem (a de acesso/descenso), demitiu o técnico Michael Silberbauer e continuou sem decolar mesmo com a contratação de Ron Jans, vindo de trabalho primoroso no Twente. Pelo menos, a paciência continuou pelos lados do estádio De Galgenwaard. E boas contratações também: pelo menos, na figura do atacante Sam Lammers, que veio de várias passagens apagadas (Atalanta-ITA, Eintracht Frankfurt-ALE, Rangers-ESC) para ter uma chance nos Utregs. Pois bem: Lammers foi o primeiro jogador a fazer gols em oito jogos seguidos do Utrecht no Campeonato Holandês. Fez isso, também, porque o time que negava fogo enfim, ganhou a organização esperada sob Ron Jans. Com segurança atrás - o goleiro grego Vassilis Barkas, ex-Celtic, é dos melhores da Eredivisie, sem contar a experiência dos zagueiros Mark van der Maarel (que faz na repescagem as últimas partidas da carreira) e Nick Viergever. Mais à frente, o volante Ryan Flamingo mostra versatilidade - além do meio, pode jogar na lateral direita - e vigor físico, a tal ponto de interessar ao campeão PSV. E mais à frente, pontas rápidos (Victor Jensen, Taylor Booth, Othmane Boussaid) criam as jogadas que Sam Lammers está finalizando. Enfim, o Utrecht teve de correr um pouco mais desta vez. Até por isso, valoriza a disputa da repescagem que antes seria tão somente repetitiva.

Ah, o Sparta Rotterdam não iria repetir a repescagem da temporada passada? Pois a dupla japonesa Koki Saito (à esquerda)-Shunsuke Mito ajudou os Spartanen a seguirem o bom momento (Pieter Stam de Jonge/ANP/Getty Images)

Sparta Rotterdam (8º colocado na temporada regular)

No caminho de volta da decisão da repescagem da temporada passada pela vaga na Conference League, perdida para o Twente, o grupo do Sparta Rotterdam ficou sabendo: o técnico Maurice Steijn, comandante da primorosa campanha em 2022/23 (6º lugar), deixaria o clube, aceitando a proposta do Ajax. Poderia ter sido um tremendo solavanco à grande e melhor surpresa que o Campeonato Holandês tivera na época anterior. A diretoria tratou de minorar esse solavanco promovendo a treinador Jeroen Rijsdijk, auxiliar de Steijn. Teve, de certa forma, a sorte de perder poucos destaques: seguiram por lá o goleiro Nick Olij (também dos melhores da Eredivisie, pré-convocado para a Holanda que disputará a Euro 2024), o lateral direito Saïd Bakari, o experiente volante Jonathan de Guzman. Alguns contratados logo saíram a contento: se o japonês Koki Saito, que tão certo dera em 2022/23, sofreu durante parte da temporada com uma lesão muscular, seu compatriota Shunsuke Mito justificou ter sido a revelação da J-League na temporada passada, logo virando titular, com Camiel Neghli e Charles-Andreas Brym também ajudando. Na frente, Tobias Lauritsen seguiu fazendo gols. E os Spartanen provaram nesta temporada que a firmeza continua: das 34 rodadas, só ficaram fora da zona da repescagem pela Conference League em nove delas. Reencontrarão na "semifinal" o Utrecht, que eliminaram exatamente na mesma fase da repescagem passada. E só esperam que, desta vez, a volta da final seja mais alegre. Com título e com técnico...

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Play-offs pela Conference League: três hábitos e um sonho

É comum achar que Ajax, PSV e Feyenoord monopolizam a disputa do título do Campeonato Holandês, com o AZ desafiando vez por outra. Pois prestando atenção aos play-offs disputados na Holanda (Países Baixos), a cada fim de temporada, que valem vaga na segunda fase preliminar da Conference League, também é possível notar uma frequência constante de certos clubes. É claro que há oscilações no desempenho dos clubes aqui e ali - que o diga o Groningen, que disputou os play-offs em 2020/21 e hoje está rebaixado. Porém, a repescagem (que em holandês é chamada "Nacompetitie", "depois da competição") é comum para os clubes do "subtopo" do futebol neerlandês.

E os participantes que começarão a disputar a vaga na Conference, nesta quinta-feira, comprovam isso. O Twente pode até disputá-la pela primeira vez, mas já teve sua passagem fugaz pela Conference. O Utrecht é um veterano dos play-offs da Conference, inegavelmente: afinal, vai para sua sexta participação seguida na tentativa de conseguir um lugar na competição europeia (lembrando que era a Liga Europa, até 2020/21). O Heerenveen tem aparições mais esparsas, mas também esteve nos play-offs na temporada passada. E até o Sparta Rotterdam, a grande surpresa, teve sua aparição em 2020/21.

Então, é hora de ver como esses clubes todos chegam para tentarem ser o representante da Holanda (Países Baixos) que falta nas competições europeias da temporada 2023/24. Os vencedores dos dois duelos decidirão a vaga em ida (8 de junho, às 15h de Brasília) e volta (11 de junho, às 9h30 de Brasília).

Twente x Heerenveen
Jogo de ida: 1º de junho, às 13h45 de Brasília, em Heerenveen
Jogo de volta: 4 de junho, às 9h30 de Brasília, em Enschede

Livre de lesões no joelho, que o perturbaram, Vaclav Cerny é o destaque de um Twente muito competente e consistente. Que pode provar isso nos play-offs (Joris Verwijst/BSR Agency/Getty Images)

Twente (5º colocado na temporada regular)

No gol, a segurança habitual de Lars Unnerstall. Na lateral direita, Joshua Brenet e sua velocidade, sempre uma opção possível para ataques. No meio-campo, Michel Vlap, livre de um jejum de gols, parecendo ainda melhor do que já é na criação de jogadas. E no ataque, além de um Vaclav Cerny cada vez melhor na ponta-direita (foi o goleador do clube e quem mais passes para gol deu na temporada regular), um daqueles saudáveis problemas: o jovem costarriquenho Manfred Ugalde cresce de produção, a ponto de deixar no banco Ricky van Wolfswinkel, ainda confiável em campo. Em suma, o Twente está muito regular. Não à toa, é considerado o principal favorito para ter a vaga na Conference League - que, aliás, conheceu nos play-offs da fase de grupos. Quando caiu para a Fiorentina-ITA, que... é finalista da Conference atual. Quem sabe isso não aconteça com os Tukkers?

Sydney van Hooijdonk assumiu a responsabilidade no Heerenveen. E será quem mais merecerá aplausos no time, caso o Fean leve a vaga (Bart Stoutjesdijk/ANP/Getty Images)

Heerenveen (8º colocado na temporada regular)

Poderia ter sido o RKC Waalwijk, que também chegou à última rodada do Campeonato Holandês com chances. Poderia ter sido o Go Ahead Eagles, que vinha mais atrás e também tinha possibilidades remotas. No fim, foi o Heerenveen. Que passou por uma mudança de tática ao longo da temporada, se tornando mais ofensivo. Também, pudera: o Fean teve um dos melhores atacantes da Eredivisie em Sydney van Hooijdonk, que voltou por empréstimo para enfim cumprir tudo que se esperava dele na primeira passagem, no returno da temporada passada. A ajudar o filho do ex-atacante Pierre, estiveram os pontas Osame Sahraoui e Antoine Colassin (este, evoluindo na reta final da temporada). Isso, sem contar o lateral direito Milan van Ewijk, também importante ofensivamente - já se fala que o PSV pensa com carinho em sua contratação. Ainda valerá muito a pena o retorno de um velho conhecido: Andries Noppert. O goleiro titular da Holanda (Países Baixos) na Copa passada sofreu com uma lesão muscular sofrida em janeiro. E só retornou agora. Mas trará experiência valiosa para o time da Frísia, que tentará voltar a uma competição europeia - chegou perto nos play-offs passados, mas caiu para o AZ.

Sparta Rotterdam x Utrecht
Jogo de ida: 1º de maio, às 16h de Brasília, em Utrecht
Jogo de volta: 4 de junho, às 9h30 de Brasília, em Roterdã


Koki Saito virou ídolo e símbolo da grande esperança que o Sparta Rotterdam tem para voltar às competições continentais (Roy Lazet/ANP/Getty Images) 

Sparta Rotterdam (6º colocado na temporada regular)

O Sparta Rotterdam nem precisava de muito incentivo para entrar com todo o otimismo nos play-offs. Só estar neles, após sofrer para se salvar do rebaixamento em 2021/22, já era um delicioso sinal de como as coisas melhoraram para o time do bairro de Spangen, em Roterdã, atualmente. Porém, o fato de poder voltar a um torneio europeu, após 38 anos, é mais uma razão para sonhar alto. Outro fator, bem mais prático: os Spartanen só chegaram a esta fase por terem muitos bons jogadores na temporada. No gol, Nick Olij foi simplesmente o melhor de sua posição ao longo das 34 rodadas regulares do Campeonato Holandês. No meio-campo, Joshua Kitolano e Arno Verschueren se entrosaram bem - sem contar a experiência de Jonathan de Guzmán. E no ataque, Tobias Lauritsen cuidou dos gols, e o japonês Koki Saito se mostrou grata revelação. Ainda faltam incentivos? Pois bem: na última rodada, domingo passado, o Sparta Rotterdam fez 5 a 0 no lanterna Groningen. Sua maior goleada num jogo fora de casa pela Eredivisie, desde 1985. O clube mais antigo em atividade no futebol profissional dos Países Baixos - fundado em 1888 - está muito motivado. Merece toda a atenção.

"Tasos" Douvikas já fez 19 gols no Campeonato Holandês. O Utrecht precisa e deseja que ele faça mais alguns (Dennis Bresser/Soccrates/Getty Images)

Utrecht (7º colocado na temporada regular)

Está certo que o Utrecht queria mais: há algumas temporadas o clube não sai dos play-offs, e tudo o que desejava era obter uma vaga direta num torneio europeu. Era fazer algo semelhante ao que o AZ faz: desafiar os três grandes. No entanto, terá mais uma vez de jogar tudo em duas partidas por um lugar numa competição europeia. Se lhe serve de consolo, superou dificuldades e parece mais assentado. Teve até de trocar seu técnico na pausa para a Copa do Mundo - e não por estar em má fase, mas pelo técnico Henk Fräser ter exagerado numa briga com o atacante Amin Younes, nos treinos desta pausa. Só que o dinamarquês Michael Silberbauer, sucessor de Fräser, conseguiu estabilizar os Utregs. Para isso, contou com uma defesa experiente (Sean Klaiber, Mike van der Hoorn, Mark van der Maarel e Nick Viergever). Teve um meio-campo bem firme, com a mescla da experiência de Jens Toornstra com a evolução de Can Bozdogan. E no ataque, bastaria citar Anastasios Douvikas, um dos goleadores da Eredivisie (19 gols), mas tanto Taylor Booth quanto Othman Boussaid ajudaram. Enfim, se é para disputar novamente os play-offs, nada melhor do que "ganhá-los" de novo (a última vez foi em 2019) para dar à temporada a aliviante impressão de que ficou tudo bem por acabar bem.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Play-offs pela Conference League: a salvação de várias lavouras

Em geral, os play-offs pós-temporada do Campeonato Holandês trazem aos clubes que os disputam (no caso, do 5º ao 8º colocados da Eredivisie) um ar de esperança. Afinal, é uma perspectiva de participação num torneio europeu, ainda que seja o mais modesto de todos, dando vaga na segunda fase preliminar da Conference League. De mais a mais, o Feyenoord chegou à Conference atual exatamente por meio desta repescagem, e agora, vive a típica ansiedade antes de uma final, como a que disputará contra a Roma, daqui a uma semana, para decidirem o primeiro campeão da história da competição. Ou seja: vale a pena.

No caso dos quatro que seguirão sua temporada a partir desta quinta, com os jogos de ida na primeira fase da repescagem, vale a pena mesmo. Porque todos eles, coincidentemente, tiveram algum momento de decepção ao longo das 34 rodadas regulares da liga. E terão na possibilidade de alcançar a Conference uma grande chance de melhorarem a impressão que deixaram nas respectivas torcidas. Seja por desempenho aquém do esperado, por incertezas ou pela oportunidade aberta de consolidar uma reação, o fato é que estes play-offs terão um destacado ar de "salvação da lavoura" para AZ, Vitesse, Utrecht e Heerenveen.

AZ x Heerenveen
Jogo de ida: 19 de maio, às 13h45 de Brasília, em Heerenveen
Jogo de volta: 22 de maio, às 9h30 de Brasília, em Alkmaar

O AZ está um pouco desacostumado a se arriscar em play-offs. Terá de contar com Pavlidis e Karlsson (foto) para não se decepcionar mais (Pro Shots)

AZ (5º colocado na temporada regular)

Um time que não perdeu do campeão Ajax na temporada (venceu por 2 a 1 no turno, em plena Johan Cruyff Arena, e empatou por 2 a 2 no returno). Um time que até sonhou em ocupar a terceira colocação, ao vencer o Feyenoord - 2 a 1, na 24ª rodada. Um time que está tão acostumado a ir diretamente às competições europeias, nos últimos anos, que estranha ao ter de disputar a repescagem pela Conference League. Mas é isso que aconteceu com o AZ. Em grande parte, por causa de uma reta final ruim no campeonato: o time de Alkmaar só venceu uma vez nas últimas cinco rodadas, sendo vítima da ascensão irresistível do Twente. Por isso, mesmo que a posição seja relativamente cômoda (sempre terá a vantagem de definir em casa), o AZ entra com cautela. 

Até porque, diante de temporadas em que desafiou os três grandes e até sonhou com o título, ter de disputar a vaga na Conference League via repescagem é uma relativa decepção. E há preocupação com certos problemas que a equipe tem: os torcedores Alkmaarders desconfiam, por exemplo, da inconstância do goleiro Peter Vindahl, que pode ir muito bem numa partida e muito mal na seguinte. E após a péssima surpresa na última rodada da liga - derrota em casa para o RKC Waalwijk (3 a 1) -, o técnico Pascal Jansen estranhou: "Meu time foi irreconhecível". Pelo menos, sobram nomes capazes de devolverem a confiança rapidamente. Para citar só dois, Vangelis Pavlidis e Jesper Karlsson, destaques no ataque. Mas há o entrosamento absoluto do meio-campo, um Owen Wijndal que voltou a ser confiável na lateral esquerda... enfim, o AZ tem plenas condições de ainda consertar o que saiu errado.

Van Hooijdonk chegou ao Heerenveen em janeiro. Demorou um pouco a engrenar. Mas quando engrenou, simbolizou a reação do time rumo aos play-offs (ANP)

Heerenveen (8º colocado na temporada regular)

Dos quatro clubes que disputarão a vaga na Conference League, o Heerenveen é o mais motivado. Também, pudera. Por muito tempo, o Fean rondou a metade de baixo da tabela - não nas últimas posições, mas sem brilhar. Perdeu os dois Veerman que tanto se destacavam nas temporadas recentes pelo clube - Joey Veerman para o PSV, Henk Veerman para o Utrecht. Para tentar aprumar as coisas, houve até demissão de técnico: Johnny Jansen deixou o clube em janeiro. O dinamarquês Ole Tobiasen foi contratado às pressas, para conduzir as coisas até o fim da temporada (era quando o Heerenveen pretendia fazer a troca de técnicos, originalmente). O trabalho de Tobiasen começou pessimamente: nenhuma vitória nos primeiros seis jogos - quatro derrotas e dois empates. Em certo momento do Campeonato Holandês, a equipe da Frísia temeu levemente o rebaixamento. Aí as mudanças se aprofundaram. 

Se jogar com quatro zagueiros não resolvia as coisas, Tobiasen resolveu colocar mais um defensor para aumentar o número de marcadores na área - e a defesa teve mais segurança. No meio-campo, Thom Haye começou a assumir destaque na criação de jogadas, com bons lançamentos e cruzamentos. E no ataque, se negavam fogo nas primeiras partidas após chegarem ao clube, Sydney van Hooijdonk e Amin Sarr começaram a se entrosar - principalmente Van Hooijdonk, emprestado pelo Bologna para tentar ser destaque em seis meses. Pois começou a ser, decidindo até jogos diretos contra concorrentes pelo lugar na repescagem (caso dos 3 a 1 no Groningen, pela 29ª rodada). Os times acima na tabela tropeçavam: Groningen, NEC, Go Ahead Eagles... e o Heerenveen alcançou a 8ª posição, a duas rodadas do fim. Mesmo goleado pelo Ajax na penúltima rodada - 5 a 0, o jogo do título -, o time se recompôs com mais uma vitória contra adversário direto (3 a 1 no Go Ahead Eagles), na última rodada, para apagar os temores do miolo da temporada. Agora, o Heerenveen tem chances de voltar a um torneio europeu. Seria a concretização de uma notável recuperação. E a definição de um bom clima para a chegada de Kees van Wonderen, o técnico a partir da próxima temporada.

Vitesse x Utrecht
Jogo de ida: 19 de maio, às 16h de Brasília, em Utrecht
Jogo de volta: 22 de maio, às 13h de Brasília, em Arnhem

Openda já merece respeito pela temporada que fez. Merecerá ainda mais, se continuar liderando tecnicamente o Vitesse (Pro Shots)

Vitesse (6º colocado na temporada regular)

O time de Arnhem poderia estar num fim de temporada bem mais movimentado. Afinal de contas, não só esteve na Conference League desta temporada, sua primeira aparição em torneios continentais, como até sonhou em ir às quartas de final - levava a decisão das oitavas contra a Roma para a prorrogação, até tomar o empate romanista a dois minutos do fim (a equipe italiana foi às quartas, com a vitória por 1 a 0 na ida). Bastou essa eliminação acontecer para a equipe aurinegra perder o fôlego na reta final do Campeonato Holandês. A desvantagem para o Feyenoord, terceiro colocado, já era grande demais para ser descontada. Twente e AZ também abriram vantagem no returno - o Vites teve apenas o 10º desempenho nas 17 rodadas finais. A partir da 28ª rodada, a equipe ficou estabilizada na 6ª colocação, sem perdê-la nem correr mais risco de ficar fora da repescagem. Se houve fato, foi negativo: a perda de dois titulares - o goleiro Jeroen Houwen e o ala esquerdo Maximilian Wittek, ambos machucados.

O que não quer dizer que o Vitesse chegue para as partidas finais desgastado. Talvez só haja preocupações no gol, posição em que o alemão Markus Schubert tem inconstâncias. De resto, a zaga é segura: Danilho Doekhi mostra firmeza na marcação (tanta firmeza que se despedirá do Vites nestes play-offs, com transferência garantida para o Union Berlin alemão), e Riechedly Bazoer segue mostrando segurança na saída de bola. No meio-campo, o eslovaco Matus Bero mostra qualidade na criação de jogadas, e Million Manhoef ocupa bem a lacuna aberta pela lesão de Wittek. Mas é no ataque o lugar do maior destaque do Vitesse nesta temporada, de longe: com velocidade e boa finalização, o belga Loïs Openda brilhou pelo clube em várias partidas - como em duas vitórias por 2 a 1, sobre Go Ahead Eagles (30ª rodada) e Fortuna Sittard (33ª rodada), sem contar o empate com o Ajax na rodada derradeira. É em Openda que o Vitesse mais aposta, para manter a regularidade e voltar à Conference League. Afinal, o time gostou da experiência...

Chegar à Conference League pode animar um pouco mais a temporada apenas razoável do Utrecht - e ser um fecho digno para a carreira de Willem Janssen (Pro Shots)

Utrecht (7º colocado na temporada regular)

É possível escrever que o Utrecht mescla duas características de outros dois concorrentes ao lugar na Conference League. Como o Heerenveen, os Utregs viveram um momento ruim na temporada - não muito ruim (o time nunca ficou abaixo da 7ª posição na tabela), mas a frustração de expectativas levou à demissão do técnico René Hake, após a 27ª rodada. Enquanto não se definia o treinador para a próxima temporada, Rick Kruys foi escolhido como interino para tentar conduzir o trabalho sem turbulências. Tendo Dick Advocaat como um "conselheiro de luxo", Kruys quase fracassou. O fracasso ficou pela demora para vencer: nas sete rodadas em que treinou a equipe, só uma vitória. O "quase" ficou por conta dos tropeços de quem vinha atrás na tabela: o Groningen decaiu, as equipes que vinham abaixo tinham pontuação muito menor, e o Utrecht manteve a sétima colocação sem ameaças durante as rodadas derradeiras, mesmo com o excesso de empates (quatro nas últimas sete rodadas).

Enquanto não chega a hora de Henk Fräser assumir a equipe, após a saída antecipada do Sparta Rotterdam, Rick Kruys seguirá para os play-offs com uma base, pelo menos, bem entrosada. É verdade que algumas perdas prejudicam os Utregs. No gol, Fabian de Keijzer está fora da temporada, com uma lesão muscular. Pior ainda é o caso de Bart Ramselaar: um raro destaque técnico da equipe, sonhando com uma transferência ao fim da temporada, o meio-campo viu os planos se esboroarem com um rompimento de ligamento cruzado anterior no joelho. Mas há quem compense isso. Na defesa, o zagueiro e capitão Willem Janssen viverá os últimos jogos de sua carreira tentando impulsionar o time, como o líder animado que se fez respeitar para a torcida. Mais à frente, há Quinten Timber, volante que aparece promissor. Bem como Adam Maher e Simon Gustafson, bons criadores de jogadas. E o ataque tem velocidade (Mimoun Mahi, Othman Boussaid, Moussa Sylla), habilidade (Sander van de Streek) e boa finalização (Anastasios Douvikas). Caberá ao time deixar a falta de resultados para trás.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Play-offs pela Conference League: espere o inesperado

Antes a repescagem era pela Liga Europa. Agora, quatro clubes da Holanda (Países Baixos) disputarão lugar na primeira edição da Liga de Conferências (UEFA)

Até duas temporadas atrás, a repescagem após as 34 rodadas regulares do Campeonato Holandês era por uma vaga na segunda fase preliminar da Liga Europa (quem a ganhou foi o Utrecht, em cima do Vitesse). Seria assim em 2019/20... mas a eclosão da pandemia de COVID-19 não deixou. Agora que, pelo menos, a Eredivisie pôde terminar normalmente, quando os play-offs voltam, é pela segunda vaga preliminar, mas no novo torneio de clubes da UEFA: a Liga de Conferências, a Conference League, que terá sua primeira edição em 2021/22.

Em parte, a repescagem trará o esperado. Além do formato conhecido - quatro clubes, divididos em duas chaves de dois, em eliminação simples -, dois dos times que disputarão o lugar na Conference League são clubes habituados ao chamado "sub-topo", ou seja, à própria repescagem, vez por outra. No entanto, o aperto do calendário forçado pela pandemia transformou o "mata-mata" em "mata-morre": um jogo único na primeira fase, e os vencedores também jogarão pelo espaço na Conference em 90 minutos. Além do mais, um dos jogos trará um clube que já não disputa torneios europeus há muito tempo. E que nunca viu oportunidade tão grande para conseguir surpreender.

Feyenoord x Sparta Rotterdam (quarta-feira, 16h de Brasília)

Torcida desconfiada (no mínimo), atuações apáticas, clima de despedida generalizado: cabe a nomes como Berghuis darem um fim mais honroso à temporada do Feyenoord (Pro Shots)

Feyenoord (5º colocado na temporada regular)

Mesmo já tendo um time mais frágil do que Ajax ou PSV ou mesmo AZ, o Feyenoord pelo menos ostentava nível técnico suficiente para assegurar a vaga direta em torneios continentais. Em 2020/21, não deu. A inconstância dentro de campo (o time tanto podia fazer 3 a 1 no PSV quanto tomar 3 a 2 do AZ, tudo isso em pleno De Kuip), as atuações apáticas em muitos jogos, a excessiva dependência de Steven Berghuis e Jens Toornstra: tudo isso condenou o Feyenoord à repescagem. De quebra, o time vem de uma reta final melancólica na Eredivisie: só uma vitória nos últimos cinco jogos.

Além do mais, esta repescagem deve marcar a despedida de muitos jogadores do Stadionclub - por exemplo, o goleiro Nick Marsman e o zagueiro Eric Botteghin. Falando em despedidas, Dick Advocaat faz suas últimas partidas como treinador, no banco de reservas: talvez, os últimos jogos de sua carreira. O clima de abatimento também é aumentado por um fator independente do futebol: se o Feyenoord for à decisão da vaga, o jogo final não seria em De Kuip (afinal, Roterdã já sediará a final do Eurovision, conhecido festival europeu de música). Pelo menos, haverá torcida nesta quarta-feira. E pelo menos, o clube vem de vitória na última rodada: 3 a 0 no RKC Waalwijk. Com Berghuis se destacando, naturalmente. Será suficiente para evitar o pessimismo?

O Sparta Rotterdam mostrou firmeza e contou com destaques como Smeets (10) e Thy (no meio) para voltar a sonhar em disputar uma competição europeia (Pro Shots)

Sparta Rotterdam (8º colocado na temporada regular) 

Na última rodada da Eredivisie, eram três clubes disputando a última vaga nos play-offs. O Sparta Rotterdam foi o único deles a vencer, com 2 a 1 no Heerenveen fora de casa. Teve como prêmio a manutenção do sonho de voltar a disputar um torneio europeu, após 36 anos (a última aparição foi na Copa da UEFA, em 1985/86). Prêmio justo, para um time que apresentou, acima de tudo, competência para se estabilizar no meio da tabela, primeiro, e subir nas últimas rodadas - foram cinco vitórias nas seis partidas derradeiras da temporada regular.

Tudo isso se deveu à firmeza dos Spartanen. Em primeiro lugar, pelo próprio estilo tático do técnico Henk Fräser: primeiro se cuida da defesa, para depois tentar o ataque. Depois, em todos esses setores, nomes de destaque. O teuto-nigeriano Maduka Okoye se tornou goleiro titular no decorrer da temporada, e se converteu num dos bons goleiros do campeonato; Abdou Harroui é volante tão promissor que é titular da seleção sub-21 da Holanda; e o alemão Lennart Thy ficou responsável pelos gols (com Bryan Smeets como bom coadjuvante). Bastou para alcançar algo que o clube do bairro de Spangen não alcançava havia muito tempo. Diante da má impressão deixada pelo rival citadino Feyenoord na reta final, quem sabe a surpresa não seja ainda mais agradável no tradicional estádio Het Kasteel.

Utrecht x Groningen (quarta-feira, 13h45 de Brasília)

Van de Streek foi um dos catalisadores da reação do Utrecht no returno - que pode ser coroada agora (Pro Shots)

Utrecht (6º colocado na temporada regular) 

Na primeira metade da temporada, os Utregs foram considerados a decepção do campeonato para muitos (este blog, incluso). Um time que parecia lento, previsível, sem a ofensividade que o tornou um dos mais agradáveis de serem vistos nos últimos anos, dentro do Campeonato Holandês - e que o fazia candidato a estar na repescagem quando as 34 rodadas terminassem. O 10º lugar ao final de 2020, já sob o novo técnico René Hake, parecia uma posição que só seria superada caso o estilo antigo voltasse. Pois bem: voltou. O returno mostrou o Utrecht reconhecidamente agradável. 

Nos contra-ataques, sempre puxados pela velocidade de Gyrano Kerk, um álibi que rendeu resultados como o 6 a 0 no Willem II, simplesmente a maior vitória fora de casa da história do clube na Eredivisie. Além de Kerk, já um símbolo do time nas temporadas recentes, Sander van de Streek cresceu bastante, se alternando entre o meio-campo e o ataque. Também ficou notável a reação de Adam Maher, enfim vivendo boa fase na carreira, sendo um meio-campista de bons lançamentos. Tal reação foi exemplificada num simples jogo: na partida atrasada da 22ª rodada, já na reta final da liga, em abril, o Utrecht foi o único time a render um tropeço ao campeão Ajax - 1 a 1, em plena Johan Cruyff Arena.

O Groningen fez temporada regular, é um time confiável, tem bons nomes... mas Robben se recuperou durante boa parte da temporada para brilhar exatamente agora (Pro Shots)

Groningen (7º colocado na temporada regular) 

Certo, durante boa parte da temporada o clube alviverde do norte holandês mostrou regularidade elogiável. Teve técnica em Mohamed El Hankouri e Ahmed El Messaoudi, teve velocidade em Gabriel Gudmundsson, teve experiência em Sergio Padt - goleiro que se despede, em seus últimos jogos antes de ir para o Ludogorets-BUL. Os Groningers ainda podem se orgulhar de serem um dos únicos times a terem vencido o campeão Ajax, ainda no turno (1 a 0). 

Mas era claro: quem todos esperavam ainda não estava em campo. Arjen Robben passou boa parte da temporada se recuperando de problemas musculares. Começou a voltar na reta final - e já na antepenúltima rodada, brilhou, com dois passes para gol na goleada sobre o Emmen (4 a 0) em seu primeiro jogo começando como titular. Voltou ao banco contra o AZ, na penúltima rodada, e sequer entrou em campo na derrota para o Zwolle, no último jogo da liga. Exatamente para este momento: o Groningen já sabia que disputaria a repescagem. Precisaria de Robben em ótimas condições. E o técnico Danny Buijs já sinalizou: "Ele começará como titular. E só sai de campo se estiver 5 a 0 para nós, aos 45 do 2º tempo". Se o atacante tem uma chance para mostrar que valeu a pena voltar, é a hora.

sábado, 18 de maio de 2019

Play-offs pela Liga Europa: "título" de consolação

Mais um Campeonato Holandês acabado, em sua fase regular de 34 rodadas. O que significa dizer que é hora de mais uma repescagem (ou "Nacompetitie", como os holandeses falam) pelo último lugar da Holanda em competições europeias, na segunda fase preliminar da Liga Europa. Se no ano passado, os play-offs premiariam a reação de algumas equipes ao longo da temporada, agora o cenário é diferente.

Porque os quatro times que disputarão a vaga a partir deste sábado, com os jogos de ida do mata-mata, fizeram boas temporadas. O único caso de ascensão vertiginosa rumo aos play-offs foi o Groningen - mas mesmo quando penava nas últimas posições, o time do norte holandês já dava a impressão de que tinha capacidade de reagir. Se em 2017/18, a vaga na Liga Europa coroava a reação, agora ela será uma espécie de "título" de consolação para quem a ganhar no próximo dia 28.

Vitesse x Groningen

Jogo de ida: neste sábado, às 15h45 de Brasília, em Groningen
Jogo de volta: terça-feira, 21 de maio, às 15h45 de Brasília, em Arnhem

Bryan Linssen pode até ter feito mais gols, mas a técnica que Odegaard exibiu fez dele o destaque do Vitesse, mostrando que ainda pode ser bom jogador (BSR Agency)
Vitesse (5º colocado na temporada regular)

Tão logo o campeonato começou, demorou um pouco até o técnico Leonid Slutsky achar o jeito certo de fazer o seu time jogar, com os nomes à disposição. Para piorar, um importante nome do começo da campanha foi perdido: o atacante Tim Matavz, por fratura na fíbula. Mas logo Slutsky conseguiu acertar a equipe. E os jogadores aproveitaram bem a chance, no 4-4-2. Na defesa, Danilho Doekhi e Jake Clarke-Salter (fora do jogo de ida, por lesão) mostraram firmeza, enquanto Vyacheslav Karavaev e Max Clark avançavam sem descuidarem da defesa.

No meio-campo, enquanto Thulani Serero cuidou bem da marcação e Alexander Büttner pôde enfim só atacar, como fazia já nos tempos da lateral, Martin Odegaard chegou à grande fase da carreira: muito ofensivo pela direita, o norueguês está comumente mencionado como um dos destaques da Eredivisie. No ataque, enquanto Matavz se recuperava da lesão, Thomas Buitink foi grata surpresa. Houve percalços, logo resolvidos - no gol, o português Eduardo, de atuações inconstantes, deu lugar a Remko Pasveer. E mesmo com momentos turbulentos, como a sequência de quatro empates na reta final, o Vites conseguiu se manter na quinta posição. Chega muito bem à repescagem, para tentar repetir o feito da temporada passada.

Ao pegar a bola na direita, o japonês Ritsu Doan sempre deu razão para a torcida do Groningen confiar que viriam jogadas perigosas para os adversários. Pode continuar assim (BSR Agency)
Groningen (8º colocado na temporada regular)

No primeiro turno, havia uma notícia boa e uma ruim para o Groningen. A ruim: o time penava para sair das últimas colocações (nas dez primeiras rodadas, foram nove derrotas). A boa: já havia perspectivas de que a equipe poderia melhorar. Era só ter paciência. A diretoria teve, mantendo o trabalho do técnico Danny Buijs. A torcida teve, apoiando os jogadores. E os frutos vieram no returno: uma sequência de sete jogos sem derrotas - cinco vitórias e dois empates - levaram o time do norte holandês a rondar a zona de classificação para os play-offs.

No gol, após um começo de temporada turbulento, que o fez perder vagas nas convocações da seleção holandesa e a braçadeira de capitão da equipe, Sergio Padt voltou a demonstrar segurança. No meio-campo, Ritsu Doan se consolidou como o nome dos Groningers na temporada: técnico na direita, preciso nos chutes colocados, o japonês certamente será cobiçado por clubes de outros centros. E no ataque, enquanto Mimoun Mahi voltou a viver boa fase na reta final de sua passagem (rumará para o Zürich-SUI), Kaj Sierhuis aproveitou bem seu empréstimo, e Paul Gladon, vindo da reserva e fazendo gols, se tornou titular. Assim, o time alviverde superou a disputa com Willem II e ADO Den Haag, alcançando os play-offs. E chega motivado para tentar coroar sua reação.

Utrecht x Heracles Almelo

Jogo de ida: neste sábado, às 13h30 de Brasília, em Almelo
Jogo de volta: terça-feira, 21 de maio, às 13h30 de Brasília, em Utrecht

A torcida do Utrecht se acostumou com esta cena na temporada regular: ao correr com a bola e marcar, Kerk (à esquerda) é saudado pelos companheiros (BSR Agency)
Utrecht (6º colocado na temporada regular)

Não que o Utrecht tenha sido decepcionante na primeira metade da temporada: desde o começo, já era time para a zona dos play-offs por vaga na Liga Europa - quando nada, porque chegou à decisão da vaga na temporada passada (perdeu) e na retrasada também (ganhou). Porém, algo levava a crer que os Utregs estavam estagnados, precisando de uma mudança. Até por isso, ainda na fase inicial da temporada, veio a demissão do técnico Jean-Paul de Jong. E o veterano Dick Advocaat chegou. Se foi cauteloso como sempre na montagem do time (às vezes, mais do que devia), Advocaat também impôs sua experiência para trabalhar com os jogadores. Estes, por sua vez, melhoraram de desempenho.

Muito veloz no ataque, Gyrano Kerk foi o melhor dos Utregs na temporada regular, trabalhando bem com quaisquer dos parceiros na frente, fosse Sander van de Streek (mais finalizador), Othman Boussaid (também móvel pela esquerda) ou Nick Venema (revelação do clube na temporada, querido pela torcida). No meio-campo, a chegada de Riechedly Bazoer fortaleceu um setor que já contava com a técnica de Simon Gustafson e a experiência de Urby Emanuelson. Na defesa, Willem Janssen seguiu como esteio da equipe, mostrando a liderança que sempre teve, enquanto o lateral direito Sean Klaiber era a opção de surpresa nos avanços. Assim, o Utrecht conseguiu bons resultados, como o empate contra o PSV e a vitória sobre o Feyenoord. E por mais que Dick Advocaat negue o favoritismo, o time alvirrubro chega mais experiente, para tentar buscar a vaga na Liga Europa.

Kuwas (ao centro) e Adrián Dalmau (direita) fizeram o companheiro Breukers (esquerda) festejar muitos gols do Heracles. E a torcida também (BSR Agency)
Heracles Almelo (7º colocado na temporada regular)

Do jeito como iniciou sua campanha, o Heracles deu a impressão de que nem precisaria dos play-offs para alcançar uma vaga em competições europeias: chegaria a elas pela quarta ou pela terceira posições. Nas dez primeiras rodadas, foram sete vitórias e dois empates (uma das igualdades, contra o Ajax, em Amsterdã, na estreia). De certa forma, essa estreia fulgurante confirmava o bom começo do técnico alemão Frank Wormuth no clube. E premiava a firmeza da defesa, com o goleiro Janis Blaswich como destaque. No ataque, Brandley Kuwas e Kristoffer Peterson, já destaques na temporada passada, recebiam um companheiro de igual talento com a chegada do espanhol Adrián Dalmau.

No decorrer do Campeonato Holandês, as inconstâncias no desempenho se apresentaram. No final do mesmo primeiro turno em que começaram brilhando, os Heraclieden amargaram seis derrotas. Caíram de posição e chegaram até a temer a perda do lugar na zona da repescagem, com as subidas de Groningen, Willem II e ADO Den Haag. O começo do returno não foi muito melhor: três jogos, três derrotas. Aí entrou o talento. Frank Wormuth fez algumas mudanças na defesa, que deram certo: no miolo de zaga, Maximilian Rossmann e Dario van den Buijs se entrosaram, enquanto Kuwas e Dalmau seguiram muito bem no ataque. Valeu para uma vitória sobre o futuro campeão Ajax (aliás, o time de Almelo foi o único a não ter sido derrotado pelos Ajacieden nesta Eredivisie). Valeu para Dalmau se manter como homem-gol da equipe. E valeu para o Heracles se segurar, manter a regularidade e chegar aos play-offs. Resta ver se o clima de despedida já estabelecido no clube - Kuwas, por exemplo, já anunciou que sai para o Al Nasr-EAU - perturbará em algo contra o Utrecht.

sábado, 12 de maio de 2018

Melhor do que a Eredivisie

Mount (à esquerda) foi o destaque de uma das surpresas das repescagens: a fácil vitória do Vitesse (vitesse.nl)
Sabe-se que a temporada de futebol não acaba na Holanda com a 34ª e última rodada do Campeonato Holandês. Já nesta semana, estão acontecendo as duas repescagens. Uma em cima: pela vaga na segunda fase preliminar da Liga Europa, a última à disposição do país nas competições continentais, entre o quinto e o oitavo colocados da Eredivisie - a rigor, entre o quarto e o sétimo colocados, mas o Feyenoord, ocupante da quarta posição, já tinha seu lugar, campeão da Copa da Holanda que é. A outra é mais dramática, na qual Roda JC (antepenúltimo colocado) e Sparta Rotterdam (penúltimo) jogam a salvação contra outros seis times, vindos da segunda divisão. Pois bem: as duas começaram de modo surpreendente. Para muitos, até mais do que a temporada toda.

Buscando o lugar na Liga Europa, estão Utrecht, Vitesse, ADO Den Haag e Heerenveen. E as partidas que fizeram, na quarta recente, já esquentaram inesperadamente o clima que parecia morno. Vitesse e ADO Den Haag abriram a disputa, com o jogo de ida, em Haia. Mesmo terminando uma posição abaixo (7º lugar), o Den Haag parecia num crescimento mais promissor: com o atacante Bjorn Johnsen marcando muitos gols – foram dois do norueguês de ascendência americana nos 3 a 2 contra o Roda JC, na última rodada, ficando como vice-goleador da temporada –, Nasser El Khayati chamando a responsabilidade na criação das jogadas e uma zaga extremamente esforçada e fisicamente forte, o favoritismo leve pendia para os auriverdes, contra um Vitesse meio irregular, tentando se refazer em meio à reta final, até com troca de técnico (já com demissão anunciada, Henk Fräser deixou o time rodadas antes do fim da Eredivisie, e o auxiliar Edward Sturing assumiu).

Só que, mesmo numa montanha-russa de desempenho em campo, o Vites possui bons jogadores, também. O defeito no gol, com as falhas do veterano Remko Pasveer, foi minorado: o reserva Jeroen Houwen substituiu Pasveer nas oito rodadas finais e não decepcionou. No ataque, os gols são tarefa cumprida tanto por Tim Matavz quanto por Bryan Linssen. Finalmente, do meio-campo do time de Arnhem saiu o homem que definiu o jogo de ida. Emprestado pelo Chelsea, como se espera: Mason Mount. O armador inglês de 19 anos fez três gols, Matavz e Linssen ajudaram com um tento cada, o Vitesse abriu 4 a 0 já no primeiro tempo... e o 5 a 2 deixa o time aurinegro em excelentes condições para a volta, neste sábado, em seu GelreDome. 

Se o primeiro jogo para definir o finalista do play-off “de cima” surpreendeu pela facilidade, o segundo surpreendeu duplamente. Afinal, o Utrecht não é considerado só franco favorito contra o Heerenveen, mas também à própria vaga na Liga Europa (quando nada, porque decidiu a repescagem nas duas últimas temporadas – e ganhou a vaga, na passada). Pois bem: no primeiro tempo da ida, mais eficiente e sortudo, o Heerenveen fez 2 a 0, com um gol de falta contando com desvio (Yuki Kobayashi) e outro com erro dos Utregs na saída de bola (Reza “Gucci” Ghoochannejhad). Mais do que isso: fez 3 a 0 no início do segundo tempo (Daniel Hoegh).

Utrecht batido? Nada disso: o time visitante diminuiu para 3 a 1 logo após sofrer o terceiro gol, com Zakaria Labyad. Veio um revés até pior: a expulsão de Yassin Ayoub, exatamente um minuto depois do gol da esperança, de modo tolo (Ayoub fez falta, levou o primeiro amarelo, aplaudiu ironicamente o juiz Ed Janssen, e levou o segundo amarelo). Mas os Utregs cresceram... e empataram, com dez jogadores: Labyad fez de falta, e um arremate de Urby Emanuelson com desvio na zaga rendeu o 3 a 3. Aí, tentando manter um resultado que seria até admirável, o quinto colocado da temporada se fechou na defesa. Mas não adiantou: o Heerenveen fez 4 a 3 no final do jogo, com Denzel Dumfries. Seja como for, a partida de volta, neste sábado, em Utrecht, para definir o outro “finalista” pelo lugar na Liga Europa é altamente promissora.

O Dordrecht quebrou a banca nos play-offs pela vaga na Eredivisie: reverteu a grande vantagem do Cambuur (Pro Shots)
Se um mata-mata mais “normal” como o da parte superior da tabela já rendeu duas partidas empolgantes, o da definição de promovidos/mantidos/rebaixados tem fornecido momentos dignos das melhores finais de campeonato – como é comum na repescagem para tal fim, diga-se de passagem. Tome-se por exemplo a primeira fase, na qual Cambuur e Dordrecht fizeram uma das partidas. Na ida, fora de casa, o Cambuur pareceu encaminhar sua classificação à segunda fase, goleando os mandantes por 4 a 1. 

Como se não bastasse, no primeiro tempo da partida de volta, sábado passado, a equipe de Leeuwarden abriu o placar. O que aconteceu? Isso mesmo: o Dordrecht protagonizou uma emocionante reação. No segundo tempo, em 25 minutos, os “Cabeças de Cabra” viraram exatamente para 4 a 1, causando a necessidade de prorrogação, de disputa por pênaltis... e nela fizeram o impressionante: 5 a 3 nas cobranças, e classificação merecidamente comemorada.

As dificuldades do Dordrecht seguem na segunda fase: afinal, o time pega o Sparta Rotterdam, vindo da Eredivisie. E mesmo em casa, a equipe era superada até com facilidade pelo adversário de Roterdã, que fazia 1 a 0 e controlava o jogo... até o “golaço contra” de Stijn Spierings, dando o 1 a 1 de graça aos mandantes em Dordrecht. Pelo menos, o Sparta consertou as coisas, com o 2 a 1 que lhe devolveu vantagem para a volta, no que pode ser o jogo final da carreira do técnico Dick Advocaat, em caso de rebaixamento dos “Spartanen” (pelo menos, é o que o próprio promete).

Também mereceu destaque a alta movimentação das coisas em Telstar x De Graafschap. Há 40 anos sem jogar a Eredivisie, o Telstar fez 2 a 0 no primeiro tempo – e ainda ficou com um homem a mais. Novamente, outro jogo que parecia definido tomou o caminho inverso: em dois minutos da etapa final, entre os 27 e os 29 minutos, os visitantes da cidade de Doetinchem empataram. O Telstar ainda fez 3 a 2, mas já se anseia pelo que poderá vir do estádio De Vijverberg, no próximo domingo.

Assim como certamente será cercado de tensão o Roda JC x Almere City da volta, com o empate sem gols que se viu na cidade de Almere. E até mesmo o FC Emmen, que nunca jogou na elite, e viu o sonho de disputar uma das vagas aumentar com a goleada sobre o experiente NEC (4 a 0 num time que jogou a Eredivisie em 2016/17!), deve manter cautela. É o que também recomendou Edward Sturing para a repescagem pela Liga Europa, ao Vitesse que comanda: “O Cambuur também pensava que estava tudo definido”. Razões para essas precauções, não têm faltado.

E é por isso, até, que a “Nacompetitie” (nome que os holandeses dão às repescagens) tem empolgado. A ponto de haver quem brinque, mídias sociais afora, que ela está sendo melhor do que a própria Eredivisie. Ou quem sugira a adoção do mata-mata...

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 11 de maio de 2018)