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domingo, 14 de junho de 2026

Se mudar, estraga

Na equilibrada estreia na Copa, contra o Japão, a Holanda mostrou capacidade técnica, evoluiu e chegou a ter a vantagem. Mas as mudanças do técnico Ronald Koeman deram errado, e o castigo foi duro, com o empate japonês (Jose Breton/Pics Action/NurPhoto/Getty Images)

O empate por 2 a 2 com o Japão, marcando a estreia da Holanda (Países Baixos) nesta Copa do Mundo, pode ser visto de duas maneiras. Há o lado positivo: ao contrário das preocupações que os amistosos trouxeram, a Laranja cresceu em ambiente competitivo, melhorou, até fez por merecer a vitória. Mas há o lado negativo visto no estádio de Dallas (mais precisamente, de Arlington, subúrbio): ele está focado nas alterações do técnico Ronald Koeman, que tiraram a velocidade neerlandesa e permitiram que o Japão crescesse na reta final, até o empate que conquistou.

Como se pensava, a Laranja começou tendo mais a bola nos pés. Mas como não se pensava, a primeira chance veio rapidamente: Cody Gakpo fez sua jogada habitual pela esquerda aos 3', passou a Donyell Malen, e este só não fez o gol pela excepcional defesa de Zion Suzuki. Além do mais, a equipe neerlandesa logo impôs seu ritmo: não tinha muito espaço para atacar, mas também não dava espaço para os temidos e velozes contragolpes do Japão. Que no início, só teve qualquer coisa parecida com uma oportunidade de gol aos 15', quando Shogo Taniguchi avançou e cruzou, e Daizen Maeda (opção nova no ataque) desviou para fora, acossado por Jan Paul van Hecke. Ou aos 27', quando Hiroki Ito, outro defensor a ter avançado, aproveitou um chute e mandou muito acima do gol.

Só que os holandeses só voltariam a chegar perto do gol aos 30', sem muito perigo (cabeceio desajeitado de Denzel Dumfries). O perigo veio, sim, aos 34': num escanteio, Malen cabeceou e Suzuki rebateu - na sequência da jogada, ainda, Tijjani Reijnders mandou a bola para fora. Aos 36', a chance poderia ter sido perigosa, mas Gakpo escorregou na hora de finalizar, errando a meta. O Japão se continha, ficava nos contra-ataques... mas só ficou perto do gol quando "cortou caminho", com lançamentos longos. Foi assim aos 43', quando Daichi Kamada cruzou, e Keito Nakamura dominou bem, mas chutou para fora. Ou aos 45': a bola saiu dos pés de Taniguchi, chegou a Ayase Ueda, mas o atacante finalizou na rede pelo lado de fora. As duas seleções se protegiam bastante. Faltava alguma ser mais aguda em campo.

Summerville e Gravenberch (de frente) foram responsáveis por fazerem a Holanda crescer de produção no segundo tempo. Poderiam ter ficado em campo... (Jose Breton/Pics Action/NurPhoto/Getty Images)

A Holanda decidiu ser isso, tão logo o segundo tempo começou. Com menos de um minuto de segundo tempo, Summerville tentou uma jogada, cruzou a bola para a área, mas ninguém finalizou. Virgil van Dijk fez isso, da melhor maneira possível para os holandeses: aos 50', Ryan Gravenberch cruzou, e o capitão da Laranja cabeceou para o primeiro gol dela nesta Copa do Mundo. Claro que o Japão teria mais espaço e obrigação para atacar, e também não demorou muito para empatar: já aos 57', com a bola circulando perto da defesa holandesa, Nakamura bateu de média distância, a bola desviou em Daizen Maeda (ou terá sido em Van Hecke?), e o 1 a 1 japonês estava garantido.

De todo modo, mesmo com o empate, a Laranja seguiu calma, sem se abalar. Gravenberch, especialmente, seguia como desafogo na direita. Assim como... Summerville. E os dois teriam participação decisiva no segundo gol holandês, com bola no pé, aos 64'. Primeiro, o meio-campo fez excelente jogada, e deu sequência a ela entregando a pelota para que o camisa 24, praticamente novato - só dois jogos pela Laranja - fizesse 2 a 1, aos 64'. Desde então, a seleção europeia começou a se recuar, gradativamente, para jogar com três zagueiros. Mostras disso foram as alterações no segundo tempo, logo após a pausa para hidratação na etapa final: mesmo jogando bem, ambos, Reijnders e Summerville foram substituídos. E Memphis Depay, enfim entrando em campo, reduziu a velocidade que o ataque tinha com Malen.

O excessivo recuo holandês fez com que o Japão crescesse na etapa final. Até conseguir o empate que tanto buscou (Charlotte Wilson/Getty Images)

Resultado: o Japão voltou a atacar, na reta final do jogo. Começou a criar mais chances, com nomes conhecidos do Campeonato Holandês que vieram a campo. Como o ala Yukinari Sugawara, que chutou para a defesa de Verbruggen, aos 79'. E como, finalmente, Koki Ogawa: no penúltimo minuto do tempo regulamentar, em escanteio, o atacante que se destacou pelo NEC na temporada recente do Campeonato Holandês, sozinho na área, desviou escanteio de cabeça. Daichi Kamada também completou. E o Japão conseguiu o 2 a 2 que buscou bem mais na reta final.

E buscou bem mais porque as mudanças de Ronald Koeman estragaram o que poderia ter sido uma vitória. Mas "agora é continuar", como Van Dijk completou após a partida.

COPA DO MUNDO FIFA 2026 - GRUPO F

Holanda 2x2 Japão

Data: 14 de junho de 2026
Local: Dallas Stadium/AT&T Stadium (Arlington, Dallas)
Árbitro: Ismail Elfath (Estados Unidos)
Gols: Virgil van Dijk, aos 51', Keito Nakamura, aos 57', Crysencio Summerville, aos 64', e Daichi Kamada, aos 89'

HOLANDA
Bart Verbruggen; Denzel Dumfries, Virgil van Dijk, Jan Paul van Hecke e Micky van de Ven; Ryan Gravenberch (Nathan Aké, aos 81'), Tijjani Reijnders (Quinten Timber, aos 68') e Frenkie de Jong; Crysencio Summerville (Teun Koopmeiners, aos 68'), Donyell Malen (Memphis Depay, aos 68') e Cody Gakpo (Brian Brobbey, aos 84'). Técnico: Ronald Koeman

JAPÃO
Zion Suzuki; Tsuyoshi Watanabe (Takehiro Tomiyasu, aos 75'), Shogo Taniguchi e Hiroki Ito; Ritsu Doan (Yukinari Sugawara, aos 75'), Kaichi Sano, Daichi Kamada e Keito Nakamura; Takefusa Kubo (Koki Ogawa, aos 75'), Ayase Ueda (Kento Shiogai, aos 84') e Daizen Maeda (Junya Ito, aos 66'). Técnico: Hajime Moriyasu

terça-feira, 25 de junho de 2019

Faz parte

Holanda se aliviou na última hora contra o Japão. Terá desafio ainda maior contra a Itália (Pim Ras Fotografie)

Quando o último jogo das oitavas de final da Copa do Mundo começou, em Rennes, a Holanda pareceu envolver o Japão. Parecia que a estratégia para superar a baixa estatura da Nadeshiko (bolas altas, apostando na velocidade de Shanice van de Sanden e Lieke Martens pelas pontas) iria levar a uma classificação fácil das Leoas Laranjas às quartas. Nada mais ilusório: as nipônicas impuseram o toque de bola acelerado, empataram o jogo, atormentaram um cansado time holandês no segundo tempo. Aí, numa das únicas vezes em que a Laranja conseguiu rondar a área da goleira Ayaka Yamashita, veio um pênalti. Que Martens converteu, para ser a salvadora, o nome da vitória que deu a vaga nas quartas.

Martens desvia para o belo gol que abriu o placar: enfim, ela apareceu (FIFA/Getty Images)

Enfim, a camisa 11 teve uma atuação digna de nota na Copa. E não só pelo gol: desde o começo da partida no Roazhon Park, Martens enfim teve o espaço que precisava para ser mais veloz com a bola e participar ativamente das jogadas. Foi o que aconteceu com apenas cinco minutos de jogo no Roazhon Park: Lieke cruzou, Vivianne Miedema tentou finalizar de primeira, e o gol só não se consumou pela aparição de Aya Sameshima, bloqueando a bola para um escanteio. De certa forma, seu bonito gol aos 17' - desvio com a parte externa do pé, após escanteio cobrado por Sherida Spitse - premiava as aparições mais constantes do maior destaque da seleção holandesa.

Com a atuação segura do meio-campo (Daniëlle van de Donk criando as jogadas, Jackie Groenen como o "carrapato" das japonesas e Sherida Spitse ajudando a defesa), a Laranja estava sossegada. Tão sossegada que perdeu o controle do jogo. Por vezes estabanada nas tentativas de carrinhos, Groenen começou a ser superada por Yui Hasegawa. Ainda apostando nos lançamentos longos, a defesa quase sempre mandava as bolas para a saída antecipada da goleira Yamashita. A posse da esférica foi ficando mais com o Japão. E as coisas se dificultaram: impondo velocidade na troca de passes, as nipônicas conseguiram o empate antes do intervalo, com bela triangulação entre Mana Iwabuchi, Yuika Sugasawa e Hasegawa, a autora do 1 a 1.

Tinha ficado difícil? Ficaria ainda mais no segundo tempo. A velocidade e a boa ocupação de espaços por parte do Japão ("Às vezes parecia que havia 20 japonesas em campo", se impressionou Vivianne Miedema) foi prensando a Holanda em seu campo de defesa. O meio-campo já não tinha a bola. O ataque "morria" de inanição. E as quatro da linha de trás sofriam cada vez mais com os avanços. As chances das japonesas demoraram, mas apareceram. Aos 64', em chute de Emi Nakajima rebatido no susto pela goleira Sari van Veenendaal; aos 71', em arremate de Hasegawa rente à trave; aos 76', quando Iwabuchi mandou a bola na rede pelo lado de fora; aos 79', quando Hina Sugita acertou o travessão; e aos 80', quando Van Veenendaal novamente apareceu com destaque, espalmando chute de Yuka Momiki (que entrou muito bem no jogo, melhorando as chegadas ao ataque).

Martens apareceu - e reapareceu para confirmar a dramática vitória (AP)

Sarina Wiegman fazia o que era possível: colocava Jill Roord para melhorar o meio-campo, devolvia Kika van Es ao time, tirava a cansada Van de Sanden para dar lugar a Lineth Beerensteyn. Pois foi justamente da atacante da camisa 21 que surgiu o lance salvador, aos 88' - ela cruzou, Miedema complementou, e a bola desviou no braço da zagueira Saki Kumagai. A juíza Melissa Borjas apitou o pênalti imediatamente, demorou em conversas com o VAR, mas confirmou sua marcação. Lieke Martens conseguiu manter alguma frieza: "Eu me sentia bem, aí perguntei a Sherida [Spitse, cobradora das bolas paradas] se eu poderia bater. Ela me deu a bola imediatamente". E a camisa 11 marcou o seu terceiro gol pela Holanda em Copas do Mundo, na mais apropriada das horas. Restava ao Japão aquela incômoda impressão do "quem não faz, toma". Faz parte.

Mas após o alívio, certamente virão críticas a novo sofrimento da Holanda na Copa do Mundo feminina. A defesa segue frágil - a não ser por Van Veenendaal, que mostrou firmeza quando exigida nesta terça. O meio-campo ainda perde muitas divididas. E o ataque segue tímido quando enfrenta um time com defesa forte e bem postada. É exatamente o caso da Itália, adversária do próximo sábado em Valenciennes. Além do mais, as Azzurre parecem viver o caso do time que se encaixa na hora certa. Há segurança na defesa, com Sara Gama comandando as ações. Velocidade no lado do meio, com Aurora Galli. E um ataque merecedor de respeito, com Valentina Giacinti, Cristiana Girelli e Barbara Bonansea entre as melhores atacantes da Copa.

Tudo isso, diante de uma Holanda que ainda não sabe encontrar variações satisfatórias para seu jogo. Será um grande desafio. Faz parte de uma Copa do Mundo. Até porque a Laranja conseguiu passar do seu desafio nas oitavas de final.

Copa do Mundo feminina - oitavas de final
Holanda 2x1 Japão
Data: 25 de junho de 2019
Local: Roazhon Park (Rennes)
Árbitra: Melissa Borjas (Honduras)
Gols: Lieke Martens, aos 17' e aos 90'; Yui Hasegawa, aos 43'.

Holanda
Sari van Veenendaal; Desiree van Lunteren, Dominique Bloodworth, Stefanie van der Gragt e Merel van Dongen (Kika van Es); Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk (Jill Roord) e Sherida Spitse; Shanice van de Sanden (Lineth Beerensteyn), Vivianne Miedema e Lieke Martens. Técnica: Sarina Wiegman

Japão
Ayaka Yamashita; Risa Shimizu, Saki Kumagai, Nana Ichise e Aya Sameshima; Emi Nakajima (Yuka Momiki), Narumi Miura, Hina Sugita e Yui Hasegawa; Yuika Sugasawa e Mana Iwabuchi (Saori Takarada). Técnica: Asako Takakura Takemoto


sábado, 28 de novembro de 2015

Retomando o caminho

O Japão superou a Holanda na Copa do Mundo. E as Leoas querem a revanche (onsoranje.nl)
Quase nada mudou na seleção feminina da Holanda. Mas as poucas coisas que mudaram foram suficientemente importantes para deixar turbulento o caminho que parecia bem desenvolvido após a honrosa participação na primeira Copa do Mundo de sua história. E será justamente contra o time que as desclassificou (o Japão, vice-campeão mundial, em amistoso neste domingo) que as Leoas Laranjas continuarão mostrando qual é o grau de avanço que o caminho delas precisa ter, até o decisivo quadrangular europeu em março de 2016, por uma vaga nos torneio de futebol dos Jogos Olímpicos.

Para princípio de conversa, a principal alteração veio no banco de reservas. No cargo desde 2010, comandante da equipe que enfim chegou à Copa do Mundo, Roger Reijners tinha respaldo mais do que suficiente para continuar coordenando o trabalho rumo a uma vaga nos Jogos. Porém, havia um impasse com a KNVB: ela oferecia a renovação de contrato ao técnico, que tinha compromisso até o meio de 2016. Ele não aceitou, e julgou-se pela demissão imediata, no meio de julho. Segundo a diretora de futebol feminino da entidade, Minke Booij, a intenção já estava além de 2016: "Queríamos dar ao novo técnico mais de um ano para poder trabalhar com vistas ao Campeonato Europeu de 2017, e deixar o time pronto para atuar em casa". 

Claro, as palavras de Booij em relação a Reijners foram bem elogiosas: "Ele significou demais para nosso time, foi o primeiro a nos levar a uma Copa. Podemos ver que foi um período longo e frutífero". O técnico, por sua vez, lamentou a demissão: "Queria ir aos Jogos Olímpicos com a equipe, e só depois ir embora. Mas entendo a decisão da federação por outro técnico, já que eu não queria renovar meu contrato".

Porém, não havia outro nome imediato na agulha. Resultado: somente em setembro, após a interina Sarina Wiegman comandar a seleção na goleada por 8 a 0 sobre Belarus, chegou um novo treinador. E Arjan van der Laan mostrou-se até impressionado com o desafio, após um período de trabalho em categorias de base masculinas de NEC, Sparta Rotterdam e Utrecht. "É uma honra trabalhar aqui como técnico. Já estou esperando pelo primeiro dia em que as comandarei em campo".

Nas duas primeiras partidas, um bom resultado (2 a 1 em cima das francesas, quadrifinalistas da Copa) e um semifracasso (o jogo contra a Polônia, que as Leoas perdiam por 1 a 0, foi suspenso no intervalo, pela forte chuva que causou pane no fornecimento de eletricidade no estádio). Mas só o terceiro jogo trará uma equipe tradicional e de respeito inquestionável no futebol feminino, com as japonesas.

E aí entram as mudanças vistas em campo. Que já começam no gol: enquanto Loes Geurts se recupera de uma séria concussão que teve em seu clube (o Göteborg, da Suécia), Sari van Veenendaal aproveita a grande chance que tem. Atuando no Arsenal, a goleira já vem mostrando que não foi sorte de principiante a ótima atuação contra a China, na Copa do Mundo, quando já substituíra Geurts.

No resto do time, as atuações na Eredivisie feminina vão indicando aos poucos substitutas para gente mais antiga. Na lateral direita, não há mais Dyanne Bito: reserva na Copa, ela encerrou a carreira após o torneio. Na zaga, Daphne Koster já não fora ao Mundial, e provavelmente não voltará a vestir a camisa laranja que usou em 129 partidas. No meio-campo, embora seja uma das mais célebres jogadoras holandesas, a volante Anouk Hoogendijk, titular do Ajax, ficou de fora das convocações.

Caminho livre, então, para novidades vindas da Eredivisie Vrouwen. Vindas, aliás, principalmente de Twente e Ajax, que disputam a liderança ponto a ponto. Como a defensora Kika van Es, que volta a ser lembrada após uma fratura na perna, ou a defensora Danique Kerkdijk. Do Ajax, vêm jogadoras que começam a se destacar na Oranje, mas que nela já estiveram durante a Copa. O grande exemplo é a meio-campista Tessel Middag. Mas os Amsterdammers também têm promessas como a atacante Kelly Zeeman. Ainda assim, em matéria de atacantes, a esperança atual tem sido Vanity Leiwerissa, do PSV.

E é com essas novidades que a Holanda tenta retomar o caminho ligeiramente interrompido no futebol feminino. Além disso, gente de desempenho discreto na Copa, como a atacante Vivianne Miedema, tem de voltar a provar algo. Sem contar veteranas que ainda estão presentes, como a lateral direita Claudia van den Heiligenberg e a atacante Kirsten van de Ven, das melhores holandesas no Mundial. Van der Laan tem até março de 2016 para preparar um time que possa enfrentar Suécia, Suíça e Noruega de igual para igual, e ainda tendo o fator casa como ajudante (o quadrangular pela vaga olímpica será jogado na Holanda). Haverá melhor prova de confiança do que uma vitória contra as algozes nipônicas?