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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guia da Eredivisie 2026/27: Ajax



Contratações como a de Marcos Leonardo (à esquerda) simbolizam a ambição máxima de Jordi Cruyff (à direita) como diretor do futebol do Ajax: fazer o time de Amsterdã voltar a falar grosso no Campeonato Holandês (Divulgação/ajax.nl)

Amsterdamsche Football Club - Ajax

Cidade: Amsterdã
Estádio: Johan Cruyff Arena (capacidade para 53.502 torcedores)
Apelidos: Godenzonen (em holandês, "os filhos dos deuses" - apelido dado desde o time campeão europeu em 1994/95, pela torcida, como se o Ajax fosse escolhido pelos deuses para ser o representante do bom futebol no mundo); Ajacieden (nome dado a torcedores e jogadores do clube); Amsterdammers
Títulos: 36 Campeonatos Holandeses (merecem citação dois títulos mundiais, quatro Copas/Ligas dos Campeões, 1 Copa da UEFA e 19 Copas da Holanda)
Ranking histórico: 1º 
Patrocínio: Ziggo (empresa de telecomunicações)
Técnico: Miguel Ángel "Míchel" Sánchez
Destaque: Mika Godts (atacante)
Fique de olho: Marcos Leonardo (atacante)
Brasileiros no elenco: Lucas Rosa (lateral direito), Caio Henrique (lateral esquerdo) e Marcos Leonardo (atacante)
Temporada passada: 5º lugar
Copas europeias: Conference League (enfrentará o Shelbourne-IRL, na terceira fase preliminar)
Objetivo: Título
Amistosos de pré-temporada:
4 de julho - Ajax 1x3 Panathinaikos-GRE
6 a 11 de julho - Viagem de pré-temporada, em Garderen (Holanda/Países Baixos)
10 de julho - Ajax 1x0 AEK Larnaca-CHP
15 de julho - Ajax 1x1 Bochum-ALE
18 de julho - Ajax 1x0 Olympiacos-GRE
26 de julho - Ajax 2x1 Burnley-ING
2 de agosto - Volendam (segunda divisão holandesa) 1x3 Ajax
Principais chegadas: Marc-André ter Stegen (G, Barcelona-ESP), Caio Henrique (D, Monaco-FRA), [Dies Janse (D, Groningen)], Daley Blind (D, Girona-ESP), Julian Brandt (M, Borussia Dortmund-ALE), Marcos Leonardo (A, Al Hilal-SAU) e Jano Monserrate (A, Atlético de Madrid-ESP)
Principais saídas: [Vitezslav Jaros (G, Liverpool-ING)], Takehiro Tomiyasu (D, fim de contrato), [Oleksandr Zinchenko (D/A, Arsenal-ING)], Kian Fitz-Jim (M, Torino-ITA), Sean Steur (M, Newcastle-ING), Branco van den Boomen (M, Angers-FRA), Wout Weghorst (A, Twente) e [Chuba Akpom (A, Ipswich Town-ING)]

Legenda
Jogador (posição, clube)
Empréstimo
[retorno de empréstimo] 
[transferência em definitivo após empréstimo]

Desde o primeiro semestre deste 2026 como diretor de futebol - mais até do que isso, diretor esportivo - do Ajax em que seu pai foi e é o maior dos ícones, Jordi Cruyff já deixava claro: não estava no clube de Amsterdã para um daqueles projetos de reformulação que demoram alguns anos até colocar as coisas nos eixos. Está certo que a reformulação seguirá ocorrendo após anos difíceis, mas pelo menos na Eredivisie, que já não vencem há quatro anos, os Ajacieden têm a obrigação de disputarem o título e afastarem o risco de vexames, como o que quase aconteceu na temporada passada, com o clube só garantindo a vaga na Conference League dentro da decisão de cobranças da marca do pênalti, na repescagem pós-temporada. Para tentar isso, se o pai é considerado influência decisiva no futebol espanhol como um todo, a partir do Barcelona, Jordi começou a "espanholizar" o Ajax. A começar pelo técnico a conduzir essa reação: nem mesmo o rebaixamento do Girona que comandou por alguns anos inibiu a contratação de Miguel Ángel "Míchel" Sánchez, considerado ainda um técnico capaz de aprumar os Ajacieden.

Sob "Míchel", já vieram algumas contratações ambiciosas, dignas de animar a torcida. A primeira delas, com o brasileiro Caio Henrique, opção considerada muito adequada para a lateral esquerda. A segunda, com um retorno esperado havia algum tempo: Daley Blind, verdadeiro estandarte do Ajax (tanto quanto o pai Danny), volta para a terceira passagem pelo clube de Amsterdã - e não só para o último ano de sua carreira, mas já com vistas a um cargo no clube após esta temporada final. A terceira veio com uma aposta promissora para o ataque: se o veterano Wout Weghorst saiu pela porta da frente - o que talvez lhe faltasse em técnica sempre sobrou em esforço, o que rendeu o respeito da torcida Ajacied -, o brasileiro Marcos Leonardo é considerado altamente capacitado para marcar gols e cumprir o objetivo que o fez vir do Al-Hilal saudita (recuperar espaço no futebol europeu, a partir de um time forte, num campeonato médio, para depois tentar algo mais competitivo). Isso tudo, sem contar a chegada de Marc-André ter Stegen, para tentar recuperar o ritmo e retomar a qualidade indiscutível no gol durante o empréstimo, e a surpresa da vinda de Julian Brandt, negociação cuidada desde abril pela diretoria, em segredo. Além do mais, ficaram no clube nomes promissores - Jorthy Mokio, no meio, e Don-Angelo Konadu e Mika Godts, no ataque - e veteranos que podem ajudar - claro, Davy Klaassen e Steven Berghuis. Tudo para cumprir a obrigação a que Jordi Cruyff "autoimpôs" o Ajax: pelo menos na Eredivisie, voltar a ser campeão.

domingo, 24 de maio de 2026

Análise da temporada: Ajax

Mika Godts foi o único ponto positivo num Ajax cheio de problemas durante a temporada. Embora tenha conseguido evitar o vexame maior e ir à Conference League, esta Eredivisie deixou claro: há muita coisa a melhorar em Amsterdã (Peter Lous/EYE4IMAGES/NurPhoto/Getty Images)

Colocação final: 5º lugar, com 56 pontos (14 vitórias, 14 empates e 6 derrotas)
No turno havia sido: 3º lugar, com 30 pontos
Time-base: Paes (Jaros); Gaaei, Sutalo, Baas e Lucas Rosa (Wijndal); Gloukh (Itakura/Fitz-Jim), Klaassen e Regeer (Mokio/Steur); Bounida (Berghuis/Edvardsen), Weghorst (Dolberg) e Godts
Técnico: John Heitinga (até a 13ª rodada), Fred Grim (interino, da 14ª à 26ª rodadas) e Óscar Garcia (a partir da 27ª rodada)
Maior vitória: Ajax 4x0 Sparta Rotterdam (27ª rodada)
Maior derrota: Groningen 3x1 Ajax (26ª rodada)
Principal jogador: Mika Godts (atacante)
Artilheiro: Mika Godts (atacante), com 17 gols 
Quem deu mais passes para gol: Mika Godts (atacante), com 12 passes
Quem mais partidas jogou: Mika Godts (atacante), com 35 partidas - 33 pela temporada regular, mais as duas da repescagem pela Conference League
Copa nacional: eliminado pelo AZ, nas oitavas de final
Competições continentais: Liga dos Campeões (eliminado na fase de liga)

Terminar a primeira metade da temporada vencendo o arquirrival Feyenoord (2 a 0, na 16ª rodada) e segurando o NEC (2 a 2, 17ª rodada, última de 2025) deixava no Ajax, já com um difícil turno no Campeonato Holandês, a impressão de que, quem sabe, dias melhores viriam na segunda metade da temporada, com o ano novo que chegava. Meses depois, a impressão é pesarosa: ainda há muito, muito a melhorar pelos lados de Amsterdã. Como se os Ajacieden tivessem voltado algumas casas, no longo caminho da superação da crise que o clube vive há alguns anos. Na Liga dos Campeões, uma leve esperança de classificação à segunda fase após o pior começo de campanha que o clube fez em sua história na competição europeia foi frustrada pela derrota para o Olympiacos em casa (2 a 1), na última rodada, confirmando a eliminação. Na Copa da Holanda, a chance de uma revanche contra o AZ, que o eliminara exatamente nas oitavas de final em que se encontraram novamente... resultou em um vexame dos Amsterdammers, despachados com goleada por 6 a 0.

Na Eredivisie, o time tentava se reformular. Fora de casa, vitórias na base da superação, como os 3 a 2 no Telstar (18ª rodada) e os 4 a 1 no Fortuna Sittard (23ª rodada). Algumas contratações, como a do goleiro Maarten Paes e do zagueiro Takehiro Tomiyasu - sem contar a simbólica, e até nostálgica, chegada de Jordi Cruyff, o filho mais velho de Johan, para ser o diretor esportivo e comandar uma reformulação. Que se provou necessária, diante da brusca queda com o decorrer do returno. Culminando na derrota por 3 a 1 para o Groningen (26ª rodada), que causou a saída do técnico Fred Grim, retornando às categorias de base. Amigo da família Cruyff e técnico do time B, não necessariamente nesta ordem de importância, o espanhol Óscar García virou interino. Até fez um time mais ofensivo. Mas ainda sofrendo demais com a queda técnica de nomes como Oscar Gloukh e Kasper Dolberg, e com as lesões dos veteranos Wout Weghorst e Steven Berghuis. Motivos para sorrir, no Ajax, vindos do campo, só quando o belga Mika Godts pegava na bola. Principalmente na reta final da temporada, quando Godts se destacou nos 3 a 0 sobre o Heracles Almelo (30ª rodada) e nos 2 a 0 no NAC Breda (31ª rodada - aqui, Godts fez, talvez, o gol mais bonito desta Eredivisie). Só que um empate contra o PSV, uma derrota para o Utrecht e um empate com o Heerenveen condenaram: o Ajax teria de disputar os play-offs por uma vaga na Conference League. Ganhou-os. Pelo menos, seguirá disputando competições europeias. Só que ficou claro: o caminho para tentar voltar ao topo ainda é muito, muito longo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Parada obrigatória: Ajax

Mika Godts era o único ponto positivo num Ajax "deprimido" em boa parte da primeira metade da temporada. Pois o time melhorou em campo, e já terminou 2025 mais esperançoso (Rene Nijhuis/MB Media/Getty Images)

Posição: 3º lugar, com 30 pontos (8 vitórias, 6 empates e 3 derrotas)
Técnico: John Heitinga (até a 13ª rodada) e Fred Grim (interino, desde a 14ª rodada)
Time-base: Jaros (Pasveer); Lucas Rosa (Gaaei), Sutalo (Itakura), Baas (Bouwman) e Wijndal; Regeer, Klaassen e Taylor; Gloukh (Raúl Moro), Weghorst (Dolberg) e Godts
Maior vitória: Ajax 3x1 Zwolle (5ª rodada) e Fortuna Sittard 1x3 Ajax (15ª rodada)
Maior derrota: Ajax 0x2 AZ (9ª rodada)
Copa da Holanda: enfrentará o AZ nas oitavas de final
Competição europeia: Liga dos Campeões (34º colocado na fase de liga)
Artilheiro: Mika Godts (atacante), com 7 gols
Objetivo do início: título
Avaliação: Só faltava estar nas últimas posições da Eredivisie, porque a crise foi quase a mesma vista na temporada passada. Com indefinições táticas e fragilidades expostas, os Ajacieden fizeram um turno muito enfraquecido na liga. Mas a reação vista na reta final de 2025 trouxe esperanças gerais

Quando John Heitinga foi anunciado como novo técnico do Ajax, antes da temporada atual começar, o ponto de interrogação da torcida em Amsterdã só aumentou. Porque alguns jogadores importantes em 2024/25 saíram (Jordan Henderson, por exemplo), porque a demissão do técnico Francesco Farioli forçaria o time a recomeçar um trabalho, não havia lá muitos nomes de destaque... a impressão de que poderia dar errado era gigantesca. E pelo menos em grande parte desta primeira metade de temporada, de fato deu errado. Já na segunda rodada da Eredivisie, um tropeço - 2 a 2 com o Go Ahead Eagles, incômodo Ajacied há algumas temporadas - foi o primeiro sinal. Pior ainda foi amargar 1 a 1 com o Volendam (desde sempre candidato ao rebaixamento), fora de casa, na 4ª rodada. Na Liga dos Campeões, bastou a fase de liga começar para as derrotas se avolumarem, em casa (Internazionale, Galatasaray, Benfica) e fora (Olympique de Marselha, Chelsea). No duro, só um momento reanimou o combalido ânimo da torcida: a digna atuação nos 2 a 2 contra o PSV, no clássico da 6ª rodada da Eredivisie. Por mais que John Heitinga quisesse ver o Ajax jogando dominante como gosta, o fato é que nem a defesa dava muita margem para isso (a começar pelo gol, onde nem o tcheco Vitezslav Jaros, nem o veteraníssimo Remko Pasveer davam confiança), nem o ataque se destacava (nomes habituais, como Davy Klaassen ou Kenneth Taylor, tinham desempenhos medianos em 2025/26; e contratações como Raúl Moro e Oscar Gloukh começavam em baixa). A única exceção ao baixo astral generalizado no clube era o belga Mika Godts, com atuações confiáveis na ponta esquerda.

Algumas derrotas em casa deixaram clara a crise, como o AZ fazendo 2 a 0 em Amsterdã (9ª rodada). E quando houve sequência de quatro derrotas - duas na Champions, duas na Eredivisie, incluído aí um Excelsior 2 a 1 em plena Johan Cruyff Arena, na 13ª rodada, primeira vitória fora de casa do time de Roterdã contra o Ajax na história da liga masculina neerlandesa -, ficou claro que era o ponto final para Heitinga, que foi demitido. Diretor de futebol, Alex Kroes também anunciou sua saída. E Fred Grim, na comissão técnica, ficou como interino, pegando um time que estava na sexta posição. Era quase questão de sobrevivência ser mais humilde, para a crise não piorar. E não é que o Ajax conseguiu? Jogando com três zagueiros (o japonês Ko Itakura virou titular, como um "falso volante"), dando mais tempo de jogo e paciência a Oscar Gloukh, os Ajacieden recomeçaram a vencer no 2 a 0 contra o Groningen, pela 14ª rodada, em jogo começado num domingo, interrompido (foguetório exagerado) e retomado na terça. Na rodada seguinte, contra o Fortuna Sittard, mesmo jogando mal, o Ajax venceu tendo a sorte de dois gols contra (3 a 1). Na Champions, enfim, a primeira vitória: 4 a 2 no Qarabag azeri, fora de casa. Já havia até condição de abrir mais espaço para jovens testados e relativamente aprovados, como o zagueiro Aaron Bouwman e o ponta Rayane Bounida. Mika Godts seguia como destaque, e Oscar Gloukh crescia de produção, enfim. Vencer o Klassieker contra o Feyenoord (2 a 0 em casa, 16ª rodada) foi o empurrão de que o Ajax precisava, retomando a terceira posição. E contra a surpresa NEC, mesmo fora de casa - Ajax frágil aqui, é só o sétimo colocado em jogos fora -, segurar o 2 a 2 valeu para seguir a reconstrução. E com o fim de 2025 trazendo a confirmação de Jordi Cruyff, com um sobrenome que dispensa apresentações, como seu diretor de futebol a partir de fevereiro, o Ajax terminou o ano com uma esperança típica de quem espera um feliz ano novo. Pode ter isso. Mas precisa seguir reagindo, para voltar a um círculo virtuoso.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Menos otimismo

Desde a temporada 2008/09, a Holanda (Países Baixos) não tinha tantos clubes em fases introdutórias (então, fase de grupos; agora, fase de liga) de competições europeias. Agora, são seis. Além do mais, são boas as chances do país se manter à frente de Portugal e Bélgica no ranking de coeficientes da UEFA, tendo em vista que o português Santa Clara e o belga Charleroi já foram eliminados nos play-offs por lugar na fase de liga da Conference League. Caso algum clube neerlandês consiga uma boa campanha em Liga dos Campeões, Liga Europa ou Conference, já serviria para talvez, até, perturbar a França no ranking. Contudo, está aí o problema: algum holandês fazer uma campanha notável, ir longe.

É impossível? Claro que não. Afinal de contas, PSV e Feyenoord alcançaram as oitavas de final da Champions em 2024/25. Entretanto, também não puderam sonhar muito em passar delas - assim como Ajax e AZ, ambos despachados também nas oitavas da Liga Europa passada. E pelo modo como esta temporada começou, por incrível que possa parecer, só Utrecht e AZ mostram alguma consistência em campo. O Go Ahead Eagles tem um "caldeirão" em seu estádio, tem alguns jogadores, mas ficam fortes dúvidas sobre o que poderá fazer com a concorrência mais forte da Liga Europa. E os três grandes do país ainda oscilam demais dentro de campo, o que lhes pode prejudicar nas competições continentais. Se é bom ver tantos holandeses chegando a elas, melhor ainda seria voltar a ver um deles indo longe - o último foi o AZ, semifinalista da Conference em 2022/23. A ver quais são as perspectivas.

Liga dos Campeões

O PSV pode até avançar na Liga dos Campeões, mas terá adversários mais difíceis (Getty Images)

PSV (lista de inscritos e tabela de jogos)

O atual bicampeão da Eredivisie terá agora desafios maiores do que teve na fase de liga da Champions passada. Nela, inclusive, oscilou: se conseguiu algumas vitórias notáveis - como a virada sobre o Shakhtar Donetsk, na fase de liga (de 2 a 0 contra para 3 a 2, com o terceiro gol nos acréscimos do 2º tempo), ou a eliminação sobre a Juventus, na segunda fase, num Philips Stadion que carregou a equipe para a classificação -, amargou a maior derrota de sua história em torneios europeus, na ida das oitavas de final, com os marcantes 7 a 1 do Arsenal. 

Contudo, agora, os adversários na fase inicial parecem um pouco mais exigentes para os Boeren do que em 2024/25: nada menos do que cinco campeões nacionais - Bayern de Munique, Liverpool, Napoli, Olympiacos e Union Saint-Gilloise (estes últimos, mais acessíveis, verdade) -, equipes exigentes em Newcastle e Bayer Leverkusen (este, mesmo com a turbulência da demissão de Erik ten Hag)... além disso, o time de Eindhoven teve perdas sensíveis: Olivier Boscagli, Johan Bakayoko, Malik Tillman, Luuk de Jong. E seu início de Eredivisie mostra algumas fragilidades, ainda. Pelo menos, há alguns destaques remanescentes: Sergiño Dest, Joey Veerman, Guus Til, Ismael Saibari, Ricardo Pepi. Eles precisarão aparecer, para que o PSV possa sonhar em entrar no "bolo" da segunda fase. Talvez, aparecer até mais do que na temporada passada.

O Ajax começa a temporada oscilante, terá adversários difíceis no começo da fase de Liga dos Campeões... mas pode reagir para ir à segunda fase (Patrick Goosen/BSR Agency/Getty Images)

Ajax (lista de inscritos e tabela de jogos)

Até que o Ajax teve bom desempenho na Liga Europa passada. Num certo momento, teve até chances de ir diretamente para as oitavas de final. Entretanto, o fim traumático da temporada passada no Campeonato Holandês - perder um título muito próximo para o PSV, após ter vantagem de nove pontos na frente, a cinco rodadas do fim - foi a gota d'água para o técnico Francesco Farioli sair, já em meio a muitas discordâncias com a direção de futebol do clube. Ainda assim, pelo menos, restava um minúsculo prêmio de consolação: voltar à fase de liga da Champions, após três anos. Já era um primeiro passo para sair do mau momento vivido pelo clube. 

Mas só um primeiro passo, porque o técnico John Heitinga voltou ao clube que tão bem conhece, para treinar um time de volta à estaca zero: muitos jogadores saindo (Jorrel Hato, Jordan Henderson, Bertrand Traoré, Brian Brobbey), a pressão por um Ajax mais ofensivo em campo, as inconstâncias que o time ainda mostra em campo (já são dois empates em cinco rodadas na Eredivisie), um começo complicado de fase de liga. Internazionale e Chelsea são adversários exigentes; Galatasaray e Benfica até trazem mais equilíbrio, mas entram por cima atualmente. Mas o fim de fase de liga oferece mais possibilidades: Qarabag-AZE, Villarreal-ESP... quem sabe, a essas alturas, o Ajax já esteja mais estabilizado em campo, para poder avançar ao mata-mata.

Liga Europa

O Feyenoord sonhou em estar na Champions. Estará na Liga Europa. Não é de todo ruim, o time tem condições, mas precisa de alguma melhoria (Joris Verwijst/BSR Agency/Getty Images)

Feyenoord (lista de inscritos e tabela de jogos)

O Feyenoord sonhou com a Liga dos Campeões, na qual entrou na terceira fase preliminar. Mas este sonho já acabou contra o Fenerbahçe-TUR: mesmo vencendo o jogo de ida (2 a 1, com gol da vitória no último minuto), mesmo abrindo o placar na volta em Istambul, a má atuação defensiva foi prato cheio para o Fener aproveitar, virar, golear (5 a 2) e ir aos play-offs. Frustração? Mais ou menos: ir à Champions seria melhor, mas o Stadionclub já tinha uma vaga assegurada na Liga Europa - e logo na fase de liga. Certo, já não haverá Igor Paixão, o dínamo ofensivo do clube nos últimos anos. Nem Dávid Hancko, o principal nome da defesa. Nem mesmo revelações que poderiam ajudar, como Antoni Milambo. 

Ainda assim, a impressão que ficou é de que a janela de transferências poderia trazer mais perdas do que trouxe - tanto que Quinten Timber, cotado para sair até o fim, ficou no Stadionclub. E vindas como as de Sem Steijn e Luciano Valente, que já ajudam num começo 100% no Campeonato Holandês, podem ajudar o time a passar pela maioria dos adversários na fase de liga (incluindo aí, contra o Celtic-ESC, um reencontro numa tradicional rivalidade). Há coisas a corrigir, sim, como a falta de um atacante confiável. Mas a impressão que a equipe treinada por Robin van Persie passa é que, dos três grandes neerlandeses, é a que começou mais sólida a temporada. Isso pode ajudar a seguir na Liga Europa.

O Utrecht voltou a onde queria estar, após 15 anos: uma competição europeia. Se os adversários mais fortes vêm quentes, os Utregs estão fervendo (Joris Verwijst/BSR Agency/Getty Images)

Utrecht (lista de inscritos e tabela de jogos)

Enfim, o Utrecht está onde queria estar havia muito tempo. Mais precisamente, há 15 anos: a última participação dos Utregs num torneio europeu fora na temporada 2010/11, ainda num formato antigo da Liga Europa, com fase de grupos. Desde então, o clube virou habitué da repescagem da Holanda (Países Baixos) por lugar no torneio - depois, na Conference League. Às vezes, até vencia esta repescagem. Mas nunca chegava ao espaço mais visto, a fase de grupos/fase de liga: sempre ficava nas preliminares. Pois bem: a ótima campanha na liga holandesa em 2024/25, com a quarta posição, enfim levava o clube à Liga Europa sem precisar de repescagem. 

Ah, seria nas fases preliminares? Sem problemas: dois jogos na segunda fase preliminares, duas vitórias (sobre o Sheriff Tiraspol moldavo). Na terceira fase preliminar, mais dois triunfos, diante do Servette-SUI. E nos play-offs que levavam à fase de liga, uma revanche: despachar com mais duas vitórias o Zrinjski Mostar, da Bósnia, justamente o algoz do Utrecht numa dessas fases preliminares (a segunda fase da Liga Europa, em 2018/19). Chegando 100% à fase de liga, agora a pergunta é outra: ah, a tabela dos Utregs não é difícil demais, contra clubes contra Porto, Betis e Nottingham Forest? Pode até ser. Mas o time tem uma mescla interessante de juventude (vale ver o lateral esquerdo Souffian El Karouani) e experiência (na zaga, com Mike van der Hoorn e Nick Viergever - este, ex-AZ, PSV e Ajax, pode virar o jogador holandês com mais partidas por torneios europeus na história; no ataque, com Sébastien Haller, de volta). Tem em Ron Jans um técnico holandês que sabe jogar pelo resultado. Se o Utrecht, enfim, está num torneio europeu a sério, sonhar não custa nada...

    Tabela difícil? O Go Ahead Eagles não se importa: já curte a experiência europeia na Liga Europa, inédita em sua história (Gerrit van Keulen/ANP/Getty Images)

Go Ahead Eagles (lista de inscritos e tabela de jogos)

As estatísticas dizem: ao lado do SK Brann (Noruega), o Go Ahead Eagles é o clube mais frágil desta fase de liga da Liga Europa. Francamente, a torcida das Águias não está se importando muito com o que as estatísticas apontam. Sim, é verdade que o "Kowet" talvez seja o mais frágil representante dos Países Baixos nos torneios continentais. Mas para um clube que, há cinco anos, estava na segunda divisão, figurar numa competição europeia pela primeira vez em sua história é prova inequívoca de uma grande evolução. Dentro e fora de campo. Dentro de campo, isso já se via desde 2023/24, quando o clube da cidade de Deventer já conquistou a repescagem que leva a um lugar na Conference League. Falhou nela: já caiu para o supracitado SK Brann, na segunda fase preliminar. 

Mas o temor de que aquilo fosse sorte de principiante foi superado com um 2024/25 brilhante, que seguiu com boa campanha na Eredivisie e terminou com o título da Copa da Holanda, inédito na história do clube. Por mais que alguns responsáveis pela façanha já tenham deixado o clube, como o técnico Paul Simonis (agora no Wolfsburg) e o meio-campo finlandês Oliver Antman (agora no Rangers-ESC), a lua-de-mel com a torcida segue. E mesmo que as perspectivas sejam pequenas, vale esperar para ver o que podem fazer nomes como o goleiro Jari de Busser, o lateral direito Mats Deijl e o meio-campo Jakob Breum, todos de nível técnico digno. Valerá esperar para ver clubes como o Aston Villa e o Stuttgart irem jogar no "caldeirão" tão acanhado quanto empolgado que é o estádio De Adelaarshorst. E os torcedores já devem estar ansiosos para viagens aventureiras fora de casa, contra Lyon, Panathinaikos, Red Bull Salzburg-AUT... pode até ser clichê, mas mesmo caindo na fase de liga, o Go Ahead Eagles já comemora a presença na Liga Europa. Um ponto alto em sua história.

Conference League

Com um time bem entrosado e talentos como Kees Smit, o AZ pode sonhar na Conference (IconSport)

AZ (lista de inscritos e tabela de jogos)

Pois é: se a fama da Champions League é justificável, se a Liga Europa oferece mais tradição, é o AZ, representante holandês na fase de liga da Conference League (novamente tendo um time dos Países Baixos, aliás), que está mais otimista sobre sua sequência na temporada 2025/26. Nem era para ser tão otimista assim: afinal de contas, chegar à Conference foi duro. Primeiro, um desempenho algo decepcionante na Eredivisie 2024/25, causando a necessidade de disputar os play-offs pela vaga europeia. Neles, conquistar a vaga foi difícil: na decisão, contra o Twente, o time de Alkmaar tomava 2 a 0 em casa, e só virou no segundo tempo, com o 3 a 2 da vitória marcado nos acréscimos do 2º tempo. 

Sossego, então? Que nada: a estreia na segunda fase preliminar já teve uma surpresa ruim, com os 4 a 3 sofridos para o Ilves Tampere (Finlândia), no jogo de ida, fora de casa. Só assim o AZ tomou jeito: reverteu a vantagem do Ilves na volta (5 a 0); passou facilmente pelo FC Vaduz (Liechtenstein) na terceira fase preliminar, com duas vitórias; e despachou o Levski Sofia (Bulgária) nos play-offs. Na fase de liga, o sorteio só trouxe algumas dificuldades nas perspectivas sobre o jogo contra o Crystal Palace inglês. No mais, não só são boas as chances de ir às oitavas de final, diretamente, como o clube parece ter capacidade para isso em seu time. Principalmente, pelo crescimento dos jovens jogadores: Rome-Jayden Owusu-Oduro no gol, Kees Smit e Zico Buurmeester no meio-campo, Ibrahim Sadiq e Mexx Meerdink no ataque (onde também está o irlandês Troy Parrott e o recém-chegado brasileiro Weslley Patati). Se o time for mais constante, pode ser uma boa chance do AZ repetir a chegada à semifinal, como fez em 2022/23.



quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Guia da Eredivisie 2025/26: Ajax

 
Oscar Gloukh é uma boa novidade, o Ajax mudou seu escudo (para o usado entre 1928 e 1991)... mas o time é quase o mesmo da temporada passada. Com novo técnico, espera-se o título (Ajax/Divulgação)

Amsterdamsche Football Club - Ajax

Cidade: Amsterdã
Estádio: Johan Cruyff Arena (capacidade para 53.502 torcedores)
Apelidos: Godenzonen (em holandês, "os filhos dos deuses" - apelido dado desde o time campeão europeu em 1994/95, pela torcida, como se o Ajax fosse escolhido pelos deuses para ser o representante do bom futebol no mundo); Ajacieden (nome dado a torcedores e jogadores do clube); Amsterdammers
Títulos: 36 Campeonatos Holandeses (merecem citação dois títulos mundiais, quatro Copas/Ligas dos Campeões, 1 Copa da UEFA e 19 Copas da Holanda)
Ranking histórico: 1º 
Patrocínio: Ziggo (empresa de telecomunicações)
Técnico: John Heitinga
Destaque: Kenneth Taylor (meio-campista)
Fique de olho: Aaron Bouwman (defensor)
Brasileiros no elenco: Lucas Rosa (lateral direito)
Temporada passada: vice-campeão
Copas europeias: Liga dos Campeões (fase de liga)
Objetivo: Título
Amistosos de pré-temporada:
5 de julho - Ajax 6x3 Hibernian-ESC
12 de julho - Ajax 1x1 Aarhus-DIN 
16 de julho - Ajax 2x1 PAOK-GRE
19 de julho - Ajax 3x2 Mechelen-BEL
24 de julho - Ajax 5x1 Celtic-ESC
27 de julho - Como-ITA 3x0 Ajax
3 de agosto - Ajax 2x2 Monaco-FRA
Principais chegadas: Viteszlav Jaros (G, Liverpool-ING), Joeri Heerkens (G, Sparta Praga-TCH), [Tristan Gooijer (D, Zwolle)][Gerald Alders (D, Twente)], Ko Itakura (D, Borussia Mönchengladbach-ING), Oscar Gloukh (M, Red Bull Salzburg-AUT), Raúl Moro (A, Valladolid-ESP), Kasper Dolberg (A, Anderlecht-BEL) e [Chuba Akpom (A, Lille-FRA)]
Principais saídas: [Matheus (G, Braga-POR)], Jay Gorter (G, Pafos-CHP), [Daniele Rugani (D, Juventus-ITA)], Precious Ugwu (D, Volendam), Dies Janse (D, Groningen), Jakov Medic (D, Norwich City-ING), Borna Sosa (D, Crystal Palace-ING), Jorrel Hato (D, Chelsea-ING), Sivert Mannsverk (M, Sparta Praga-TCH), Jordan Henderson (M, Brentford-ING), Kristian Hlynsson (M, Twente) e Carlos Forbs Borges (A, Club Brugge-BEL), Bertrand Traoré (A, Sunderland-ING) e Brian Brobbey (A, Sunderland-ING)

Legenda
Jogador (posição, clube)
Empréstimo
[retorno de empréstimo] 
[transferência em definitivo após empréstimo]

Começar de novo: esta é a frase que guia o Ajax em busca de um título holandês que não vem desde 2022 - tempo demais, para os padrões do clube de Amsterdã. E a espera que já passa de três anos ficou ainda mais irritante com a maneira traumática como a conquista foi perdida na temporada passada, com os Ajacieden "derretendo" incrivelmente nas últimas rodadas, enquanto o PSV reagia para o bicampeonato, após sua própria queda. Prato cheio para que fossem mais audíveis as críticas, antes em voz baixa, contra o estilo do técnico Francesco Farioli, bem mais "resultadista" do que se aceita pelo histórico dos Amsterdammers. Também cheio para que eclodissem, de vez, discordâncias do técnico com o diretor de futebol, Alex Kroes, quanto às ações que o Ajax deveria ter com transferências. Por causa delas, se soube depois, Farioli sairia do Ajax, com ou sem título. Saiu sem ele. E se a questão era trazer o Ajax mais próximo do seu tradicional estilo, foi até esperado que a direção fosse atrás de um técnico "ras-Ajacied" (na gíria holandesa, "Ajaxista roxo", nascido e criado no clube, que conhece os usos e costumes da Johan Cruyff Arena como a palma da mão). 

Assim, após a vitoriosa experiência auxiliando Arne Slot no Liverpool, John Heitinga voltou por cima a Amsterdã, dois anos após ser demitido, mais uma vítima de uma fase baixíssima na história do clube. Só que Heitinga - e seu auxiliar, Marcel Keizer, também com passagem anterior - terá um time muito semelhante ao da temporada passada. Certo, algumas coisas mudaram, como a chegada de dois goleiros, afeitos a jogarem com a bola nos pés tanto quanto a defenderem-na com as mãos, ao gosto do "jeito Ajax" (o tcheco Vitezslav Jaros, emprestado pelo Liverpool - logo, conhecido de Heitinga -, e o tcheco-neerlandês Joeri Heerkens, jovem respaldado pela titularidade na Holanda campeã europeia sub-19). Mais à frente, reforços como o meia israelense Oscar Gloukh e o ponta espanhol Raúl Moro são jovens promissores. Só que, no duro, o Ajax conta é com conhecidos: Davy Klaassen, Kenneth Taylor (cogitado no Porto, mas ficará), Steven Berghuis, Brian Brobbey (precisa melhorar, após más atuações em 2024/25), Wout Weghorst. E algumas perdas, como a do jovem Jorrel Hato, podem fazer falta. Enfim, o Ajax só não virá igual à temporada passada porque terá de... começar de novo, com um novo treinador. E espera terminar com a salva de prata, desta vez.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Análise da temporada: Ajax

O Ajax fez uma temporada muito digna. Teve momentos elogiáveis. Em muitos momentos, foi eficiente como pouco se gosta em Amsterdã. Mas... de que adiantou, se o título que parecia próximo escapou nas últimas rodadas? (ANP/Getty Images)

Colocação final: 2º lugar, com 78 pontos (24 vitórias, 6 empates e 4 derrotas)
No turno havia sido: 2º lugar, com 39 pontos
Time-base: Pasveer (Matheus); Gaaei, Sutalo, Baas (Kaplan/Wijndal) e Hato; Klaassen, Henderson (Fitz-Jim) e Taylor; Traoré, Brobbey (Weghorst) e Godts (Berghuis)
Técnico: Francesco Farioli
Maior vitória: Ajax 5x0 Fortuna Sittard (3ª rodada)
Maior derrota: Utrecht 4x0 Ajax (31ª rodada)
Principais jogadores: Davy Klaassen (meio-campista) e Kenneth Taylor (meio-campista)
Artilheiro: Kenneth Taylor (meio-campista), com 9 gols  
Quem deu mais passes para gol: Kenneth Taylor (meio-campista), com 6 passes
Quem mais partidas jogou: Kenneth Taylor (meio-campista), com 31 partidas
Copa nacional: eliminado pelo AZ, nas oitavas de final
Competições continentais: Liga Europa (eliminado pelo Eintracht Frankfurt-ALE, nas oitavas de final) 

Diante da terrível temporada passada (vale lembrar: o Ajax chegou a ser último colocado no Campeonato Holandês, em 2023/24), os objetivos eram humildes em Amsterdã. Claro que jamais o título deixará de estar na alça de mira dos Ajacieden quando se trata de Eredivisie, mas se só viesse a vaga na Liga dos Campeões, a temporada já seria considerada digna. E em que pese uma derrota logo no começo ter causado sustos - 2 a 1 para o NAC Breda, logo na segunda rodada -, o Ajax se revelou uma equipe que ganhava solidez constante. Ao ganhar os dois clássicos do turno (2 a 0 no Feyenoord, em De Kuip, pela 4ª rodada, e 3 a 2 no PSV, de virada, pela 11ª rodada), a torcida se convenceu de vez que Francesco Farioli formava uma equipe que, se não era brilhante tecnicamente, era eficiente como poucas vezes se aceitou na história Ajacied. Mesmo rodando demais o grupo de jogadores - até para sofrer menos com os machucados -, já terminar em segundo lugar no turno era um bom sinal, diante das péssimas lembranças. Assim como eram bons augúrios os destaques que se sobressaíam. Na defesa, Anton Gaaei reagia na lateral direita, e Josip Sutalo, na zaga. Se Jordan Henderson decepcionava, Davy Klaassen mostrava que parecia "nascer para jogar no Ajax" - e tinha ótimo parceiro num Kenneth Taylor redivivo, após má fase. Se Brian Brobbey tinha temporada difícil no ataque, Wout Weghorst estava sempre a postos para vir do banco de reservas e ajudar nas vitórias. 

Elas vinham, com dureza (2 a 1 no "Klassieker" contra o Feyenoord, nos acréscimos, na 21ª rodada). Com "magreza" (dois 1 a 0 seguidos fora de casa, contra o Almere City, na 24ª rodada, e o Zwolle, na 25ª). Mas com muita eficiência. E o 2 a 0 no PSV, em pleno Philips Stadion, na 27ª rodada, pareceu indicar que viria o 37º título da liga para o clube de Amsterdã. Contudo, a partir dali começaram algumas falhas. Até pelo grupo curto de jogadores, Farioli não podia variar muito o jeito de jogar. Que começou a ficar "manjado". E teve o primeiro forte golpe na reta final com os 4 a 0 do Utrecht, no jogo antecipado da 31ª rodada. Na 30ª, o drama começou a se aproximar: insistência sem gols contra o Sparta Rotterdam, tomar o 1 a 0 no final, e só empatar no desespero. 32ª rodada? Pior ainda: derrota em casa pela primeIra vez para o NEC na história da Eredivisie (3 a 0). Àquela altura, o grupo jovem sentia as derrotas, e os veteranos tornavam o time lento até demais. A pressão foi sentida no auge do drama: os 2 a 2 sofridos contra o Groningen, na penúltima rodada, tirando a liderança que parecia firme havia tão pouco tempo, com gol sofrido nos acréscimos do 2º tempo. Na última rodada, até houve a vitória, mas era tarde para ser campeão. Diante do sonho que crescera, a decepção foi grande. Tão grande que, somada a discordâncias sobre os rumos a seguir (no jeito de jogar, nas contratações), levou Francesco Farioli a se demitir, após as lágrimas na última rodada. Lágrimas que sintetizaram o tamanho da decepção do Ajax, que pareceu andar, andar e andar... mas não chegou a lugar nenhum. E terá de recomeçar de novo.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Parada obrigatória: Ajax

Kenneth Taylor fez por merecer aplausos. Assim como o Ajax, de certa forma: mesmo sem se impor tanto, é clara a reação do time, bem mais confiável do que na temporada passada (Andre Weening/BSR Agency/Getty Images)

Posição: 2º lugar, com 39 pontos
Técnico: Francesco Farioli
Time-base: Pasveer; Gaaei (Rensch), Sutalo, Baas e Hato; Henderson, Klaassen e Fitz-Jim (Van den Boomen); Traoré, Brobbey (Weghorst) e Akpom (Godts)
Maior vitória: Ajax 5x0 Fortuna Sittard (3ª rodada)
Maior derrota: NAC Breda 2x1 Ajax (2ª rodada) e AZ 2x1 Ajax (15ª rodada)
Copa da Holanda: enfrentará o AZ, nas oitavas de final
Competição europeia: Liga Europa (11º colocado na fase de liga)
Artilheiros: Davy Klaassen (meio-campista) e Wout Weghorst (atacante), ambos com 6 gols
Objetivo do início: vaga em competições europeias/título
Avaliação: Embora as limitações de opções no grupo se façam sentir nos tropeços esporádicos, a melhora dos Ajacieden é visível na temporada. Ainda há chances de alcançar a liderança e voltar a ser campeão

No começo da temporada, o Ajax ainda era olhado pela imprensa - e um pouco, pela torcida, até por sua própria - como uma incógnita. Algo até natural, diante da traumática temporada 2023/24, cheia de problemas dentro e fora de campo, seguramente o pior momento da história recente do clube de Amsterdã. Disputar as fases preliminares da Liga Europa também causava desconfiança. E os dois primeiros resultados da equipe no Campeonato Holandês - vitória por 1 a 0 contra o Heerenveen, e derrota por 2 a 1 para o NAC Breda - trouxe um temor de que esta temporada seria igual àquela que passou. Nem tanto, nem tanto... chegar à fase de liga da Liga Europa e resultados como a goleada sobre o Fortuna Sittard (5 a 0, 3ª rodada) indicaram bons augúrios. Aos poucos, se viu que o italiano Francesco Farioli formava um time mais firme na defesa, sem deixar de ter no ataque a fluidez de que a torcida Ajacied tanto gosta. 

Isso se devia a algumas decisões de Farioli - polêmicas no começo, mas compreendidas depois, como colocar o veteraníssimo Remko Pasveer (41 anos completados em novembro passado) no gol. Deve-se também à melhora de alguns jogadores já presentes, como Jordan Henderson, Kenneth Taylor e Mika Godts - o inglês tem protegido bem a zaga; Taylor, normalmente adiantado para a ponta esquerda, talvez seja o melhor jogador do Ajax nesta temporada; o jovem Godts cresceu de produção (em jovens, o meia Kian Fitz-Jim também merece lá seu destaque). E à utilidade de alguns nomes que chegaram, como Davy Klaassen - novamente com gols importantes, novamente ajudando no meio-campo, novamente mostrando como se sente "em casa" no Ajax - e Wout Weghorst - mesmo na reserva, sempre marcando gols vindo dela. Vencer dois clássicos seguidos (2 a 0 no Feyenoord, em jogo atrasado da 4ª rodada, e 3 a 2 no PSV, na 11ª rodada) trouxe a confiança da torcida. E em que pese o grupo curto de jogadores (Farioli reclama do tanto que precisa "rodar" os titulares) e tropeços aqui e ali - como os empates em 2 a 2 com Twente (14ª rodada) e Utrecht (5ª rodada, jogo atrasado), mais a derrota para o AZ (2 a 1, 15ª rodada) -, o Ajax segue rondando o PSV, mais de perto do que na temporada passada. Embora a humildade ainda seja mantida, a sensação é de que o Ajax está sacudindo a poeira. Se não é acima de qualquer suspeita, tampouco faz feio. E pelo menos na Eredivisie, pode sonhar com a volta de tempos melhores.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Guia da Eredivisie 2024/25: Ajax

A chegada de Weghorst é uma das únicas contratações dignas de nota num Ajax mais modesto, que tenta se reorganizar para não sofrer (Ajax/Divulgação)

Amsterdamsche Football Club - Ajax

Cidade: Amsterdã
Estádio: Johan Cruyff Arena (capacidade para 53.502 torcedores)
Apelidos: Godenzonen (em holandês, "os filhos dos deuses" - apelido dado desde o time campeão europeu em 1994/95, pela torcida, como se o Ajax fosse escolhido pelos deuses para ser o representante do bom futebol no mundo); Ajacieden (nome dado a torcedores e jogadores do clube); Amsterdammers
Títulos: 36 Campeonatos Holandeses (merecem citação dois títulos mundiais, quatro Copas/Ligas dos Campeões, 1 Copa da UEFA e 19 Copas da Holanda)  
Patrocínio: Ziggo (empresa de telecomunicações)
Técnico: Francesco Farioli
Destaque: Brian Brobbey (atacante)
Fique de olho: Dies Janse (defensor)/Christian Rasmussen (atacante)
Brasileiros no elenco: nenhum
Temporada passada: 5º colocado
Copas europeias: Liga Europa (enfrentará o Panathinaikos-GRE, na terceira fase preliminar)
Objetivo: vaga em competições europeias/título
Amistosos de pré-temporada:
5 de julho - Ajax 0x1 Zwolle
9 de julho - Ajax 4x0 Sint Truiden-BEL
13 de julho - Ajax 2x1 Rangers-ESC
18 de julho - Ajax 2x1 Al Wasl-EAU
19 de julho - Ajax 1x0 Olympiacos-GRE
26 de julho - Ajax 4x1 Vitesse
Principais chegadas: Daniele Rugani (D, Juventus-ITA)[Owen Wijndal (D, Royal Antwerp-BEL)], [Youri Baas (D/M, NEC)][Naci Ünüvar (M, Twente)], Wout Weghorst (A, Burnley-ING) e Bertrand Traoré (A, Villarreal-ESP)
Principais saídas: Gerónimo Rulli (G, Olympique de Marselha-FRA), Jorge Sánchez (D, Cruz Azul-MEX), Jakov Medic (D, Bochum-ALE), Oliver Aertssen (D, Zwolle), Tristan Gooijer (D, Zwolle), Borna Sosa (D, Torino-ITA), Silvano Vos (M, Milan-ITA), Naci Ünüvar (M, Espanyol-ESP), Steven Bergwijn (A, Al Ittihad-SAU), Carlos Forbs Borges (A, Wolverhampton-ING) e [Georges Mikautadze (A, Metz-FRA)]
Grupo de jogadores

Legenda
Jogador (posição, clube)
Empréstimo
[retorno de empréstimo] 
[transferência em definitivo após empréstimo]

Esta temporada não vai, e não pode, ser igual àquela que passou. Pelo menos é o que se espera do Ajax, que viveu em 2023/24 o pior momento de sua história recente. E pelo menos, o começo já parece estruturado: após muita confusão com relação a mau procedimento (comprar ações do clube já sabendo que seria o diretor de futebol), Alex Kroes enfim pôde assumir os trabalhos no futebol Ajacied. E já contratou um técnico mais adequado ao que se deseja do clube de Amsterdã: Francesco Farioli, que defende mais intensidade dentro de campo. Pode não ter feito isso no Nice-FRA, seu clube anterior, mas pelo menos tentou. Porém (ai, porém), Alex Kroes já sinalizou: o trabalho para reabilitar o Ajax levará alguns anos, e é bom que as expectativas sigam mais baixas. 

Até por isso, não só as contratações foram poucas e modestas - de nota, só a chegada badalada (com certa justiça) de Wout Weghorst e a volta de Bertrand Traoré, titular no vice-campeonato na Liga Europa 2016/17 -, como é possível que venham vendas para encherem os cofres mais vazios do clube. Algumas dessas vendas podem até explicar decisões polêmicas de Farioli: por exemplo, tornar o veteraníssimo Remko Pasveer (41 anos em novembro) o goleiro titular, em detrimento do alemão Diant Ramaj, dos raros nomes do Ajax elogiados na temporada passada. Com o clube precisando de dinheiro, Steven Bergwijn saiu por oferta generosa do Al Ittihad saudita. Mas Brian Brobbey seguiu no clube, Steven Berghuis também (chegou a ser cogitado no Besiktas-TUR, mas ficou), Jordan Henderson é outro experiente, há promessas como Jorrel Hato, Christian Rasmussen e Dies Janse (este passou boa impressão na pré-temporada)... e se o Ajax começará a temporada como coadjuvante, espera pelo menos sofrer menos agora. 

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Análise da temporada: Ajax

Brian Brobbey fez seus gols, alguns jogadores fizeram papel razoável... mas a reação do Ajax teve teto. Se a queda foi amenizada ao longo da temporada, o clube foi coadjuvante incomum e conviveu com a crise (ProShots/Icon Sport/Getty Images)

Colocação final: 5º lugar, com 56 pontos (15 vitórias, 11 empates e 8 derrotas)
No turno havia sido: 5º lugar, com 25 pontos
Time-base: Ramaj; Rensch (Gaaei), Sutalo, Kaplan (Sosa) e Hato; Mannsverk (Henderson) e Tahirovic; Bergwijn (Berghuis/Akpom), Hlynsson (Van den Boomen) e Taylor; Brobbey
Técnico: Maurice Steijn (até a 9ª rodada), Hedwiges Maduro (interino, na 10ª rodada), John van't Schip (a partir do jogo atrasado da 3ª rodada) e Michael Valkanis (apenas na 16ª rodada, por motivos particulares de John van't Schip)
Maior vitória: Ajax 5x0 Vitesse (13ª rodada)
Maior derrota: Feyenoord 6x0 Ajax (29ª rodada)
Principal jogador: Brian Brobbey (atacante)
Artilheiro: Brian Brobbey (atacante), com 18 gols
Quem deu mais passes para gol: Steven Berghuis (meio-campista) e Brian Brobbey (atacante), ambos com 8 passes
Quem mais partidas jogou: Kenneth Taylor (meio-campista), que jogou todas as 34 partidas
Copa nacional: eliminado pelo USV Hercules (terceira divisão), na segunda fase
Competições continentais: Liga Europa (eliminado na fase de grupos) e Conference League (eliminado pelo Aston Villa-ING, nas oitavas de final)

No começo da temporada, foi o que se sabia: um Ajax tão desalentado, tão desorientado - dentro e fora de campo -, numa crise tão profunda que ocupar a lanterna da Eredivisie (ao ser goleado pelo PSV, por 5 a 2, na 10ª rodada) parecia um pesadelo irreal. E, no entanto, era a realidade nua e crua que os Ajacieden viviam, com os planejamentos para a temporada se esboroando na falta de acerto entre o diretor de futebol Sven Mislintat e o técnico Maurice Steijn, ambos rapidamente demitidos. Ainda no primeiro turno, John van't Schip (que viria para ser uma espécie de conselheiro técnico) aceitou socorrer a equipe em campo, alguns resultados positivos - oito jogos sem derrota pela Eredivisie, com seis vitórias - levaram os Amsterdammers direto para a quinta posição da liga. De quebra, se a fase de grupos da Liga Europa foi demais contra Brighton-ING e Olympique de Marselha-FRA, pelo menos haveria a segunda fase da Conference League como uma "segunda chance" em competições europeias. E alguns jogadores mostravam talento, mesmo em meio a uma fossa abissal na história do Ajax: o goleiro alemão Diant Ramaj estabilizava os problemas no gol, Jorrel Hato mostrava talento e técnica promissoras na zaga - onde o turco Ahmetcan Kaplan, enfim, conseguia sequência de jogo após duas graves lesões no joelho -, Brian Brobbey mostrava evolução no que era seu ponto fraco (finalização), mesmo ainda oscilando. De quebra, descontente na Arábia Saudita, Jordan Henderson achou em Amsterdã um lugar confiável para voltar a jogar no futebol europeu - e sua experiência poderia valer para ajudar o Ajax. A temporada teria uma reação inesquecível para apagar o início terrível? A segunda metade da temporada respondeu: não, não teria. 

O primeiro jogo de 2024 foi considerado pela própria torcida como "enganoso": mesmo vencendo o Go Ahead Eagles (3 a 2, 17ª rodada da Eredivisie), o goleiro Ramaj evitou vários gols dos Eagles. Depois, uma sequência sem vitórias entre a 20ª e a 23ª rodadas (três empates e uma derrota) deixou claro que o nível técnico do Ajax tinha um "teto". A própria classificação para as oitavas de final da Conference League teve algo de incrível: perdendo por 2 a 0 na ida para o Bodo/Glimt-NOR, buscou o empate em casa, e venceu por 2 a 1 na volta, fora de casa e com um a menos. Ainda assim, o Ajax não decolava. Certos nomes, até cruelmente, acabavam virando bodes expiatórios - caso do lateral direito Anton Gaaei, que falhou tanto nos 4 a 0 sofridos para o Feyenoord em casa, ainda no turno, quanto nos 2 a 0 sofridos para o AZ (23ª rodada). A eliminação para o Aston Villa, na Conference League, foi até previsível. Se alguns nomes cresciam de produção aqui e ali - como Sivert Mannsverk e Kenneth Taylor, no meio-campo -, se Brobbey conseguia fazer 18 gols mesmo na má fase, Jordan Henderson e Steven Berghuis sofriam com lesões, sem conseguir dar a colaboração que se esperava. A mudança para um esquema com três zagueiros não tornava a equipe nem um pouco mais firme na defesa. Mesmo em casa, os Ajacieden falhavam contra times menores (ficaram no 2 a 2 com o Fortuna Sittard, na 25ª rodada, e no 1 a 1 com o Go Ahead Eagles, na 28ª rodada). Mas nenhum golpe foi pior do que tomar inapeláveis 6 a 0 do arquirrival Feyenoord - nunca o Ajax ficara uma temporada sem marcar gols no time de Roterdã, e desde 1964 não tomava tantos gols na Eredivisie. O empate em 2 a 2, com o Vitesse, na última rodada, foi uma melancólica mostra de como esta temporada foi inesquecível para o Ajax. Inesquecível pelos motivos errados, bem entendido. Novo técnico, o italiano Francesco Farioli terá muito trabalho.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

O Brasil x Ajax de 1979: uma goleada, dois destaques

O Brasil goleou o Ajax em junho de 1979. E foi com dois gols e entrosamento com Zico que Sócrates, aniversariante deste 19 de fevereiro, começou a exibir seu talento nacionalmente (Gazeta Press)

Este é um texto que poderia ser publicado no dia 3 de março, quando Zico completará 71 anos de idade. Mas também pode - e será - publicado neste 19 de fevereiro, em que Sócrates (1954-2011) completaria 70 anos. Em primeiro lugar, porque qualquer coletânea de imagens retrospectivas da carreira do "Doutor" dentro de campo sempre destaca o gol com que ele abriu o placar, na goleada da Seleção Brasileira sobre o Ajax, num amistoso em 21 de junho de 1979 - aqui, o jogo na íntegra. Em segundo lugar, porque o gol foi só o começo: esta foi uma das primeiras partidas em que o meio-campista que se tornaria ícone na história do Corinthians chamou a atenção pela Seleção. Dividindo o espaço com Zico (que superou até um boicote). Embora ninguém soubesse, a dupla mostraria boa parte da técnica que impressionaria na Copa do Mundo, três anos depois. Aliás, é possível dizer que ninguém sabia, mas aquele momento de 1979 marcava o nascimento da equipe que faria papel elogiável na Copa de 1982, após idas e vindas. 

Antes do jogo: um Brasil que começava, um Ajax que iria mudar

Ainda técnico da Seleção no ano de 1979 - dividia-a com o comando do Flamengo -, Cláudio Coutinho (1939-1981) já pensava e adotava um tipo de jogo mais ofensivo do que as atuações cautelosas, até em excesso, na campanha da Copa de 1978. Tanto que muitos dos escalados para enfrentar o Ajax estariam na Espanha, três anos depois. Na zaga, Oscar e Edinho - este, reserva na Copa de 1982; no meio-campo, Falcão (a ausência mais criticada no Mundial do ano anterior), Toninho Cerezo e Zico; e Sócrates sendo experimentado como atacante. Além deles, havia outras experiências com nomes de frente. Jogariam o ponta direita Nilton Batata, um dos destaques do Santos campeão paulista de 1978 havia algumas semanas (sim, a decisão do título estadual de 1978 foi em junho de 1979); o ponta esquerda Joãozinho, causando furor no Cruzeiro com seus dribles; e tanto o meio-campo Zenon como o atacante Renato, ambos símbolos do Guarani campeão brasileiro do ano anterior. Isso, sem contar mais nomes da Copa de 1978, como o lateral direito Toninho, e o goleiro Leão, já considerado um símbolo de sua posição no país, naquela época. Em suma, o amistoso contra o Ajax era um teste importante para o Brasil. Até porque, no mês seguinte, viria a Copa América.

No Ajax, o clima era de férias, já que a temporada 1978/79 estava terminada. E ela estava bem terminada, até porque o clube comemorava mais um título holandês. De quebra, o nível técnico era elogiável, tanto que o time de Amsterdã seria semifinalista da Copa dos Campeões (o formato antigo da Liga dos Campeões) na temporada seguinte. Ainda assim, se sabia: era uma equipe muito, muito diferente do "Gloria Ajax" que impressionara o mundo no começo daquela década de 1970, com Johan Cruyff à frente. O único remanescente daqueles tempos era Ruud Krol. Ainda assim, o próprio Krol, já experiente (30 anos em 1979), já declarara que pensava em correr mundo, após tanto tempo em Amsterdã. Em 5 de junho daquele ano, ao diário Het Vrije Volk, Krol reconhecia: "Não consigo mais ter a vontade exigida para jogar por este clube. Uma mudança de ares faria bem. Já tive de jogar o suficiente neste mundinho".

Após o título holandês na temporada 1978/79, o Ajax partiria para uma excursão pela América do Sul antes das férias. Mas mudanças viriam (Voetbal International)

Mas Krol só deixaria o Ajax no ano seguinte, 1980, rumando para o Napoli-ITA. Em 1979, ele ainda capitanearia o clube, que ganhou o título holandês com goleada na última rodada - 8 a 1 no Twente, em 10 de junho - e rumou quase imediatamente para uma excursão sul-americana. Antes, a imprensa informou que ela começaria na Argentina, passaria pelo Uruguai, e terminaria no Brasil (o diário Algemeen Dagblad ainda disse que o jogo contra a Seleção estava indefinido, mas ele foi confirmado). E a delegação do Ajax veio à América do Sul pensando numa escalação quase titular. Os destaques jogariam: além de Krol, os mais falados eram os pontas Simon Tahamata (esquerda - considerado o grande talento técnico do Ajax, Tahamata começava sua passagem rápida pela seleção da Holanda) e Tscheu La Ling (direita). No meio-campo, estavam dois nomes dinamarqueses que se tornariam mais conhecidos nos anos 1980: Soren Lerby e Frank Arnesen. Porém, um dos principais destaques Ajacieden da época, o atacante inglês Ray Clarke, seria poupado da viagem. E entre os goleiros, o reserva Peter Jager teria preferência sobre o experiente Piet Schrijvers, que ficara em Amsterdã, machucado.

Com a passagem pelo Uruguai cancelada, o Ajax acabou ficando mais tempo do que esperava na Argentina. Fez três amistosos, com duas derrotas por 3 a 2, para River Plate (em 12 de junho - ao diário De Telegraaf, Ruud Krol se queixou: "O River Plate nos recebeu com dureza, foi um jogo tipicamente sul-americano") e Racing (em 14 de junho, no estádio do Vélez Sarsfield - o Racing se sagrara campeão argentino). Só haveria uma vitória do Ajax em campos argentinos, igualmente por 3 a 2, contra o Talleres, em 16 de junho de 1979. 

E depois, a delegação do Ajax já veio para o Brasil. A curiosidade era mútua, como Ruud Krol deixou claro ao De Telegraaf: "Na Argentina, só conhecem os jogadores do Ajax que também estão na seleção. O Ajax é mais famoso no Brasil, mas acho que as pessoas esperam uma equipe tão forte como a que tínhamos há seis anos. Também estamos muito curiosos com o nível técnico do Brasil". Do lado brasileiro, a curiosidade maior ia para um jogador: Simon Tahamata. Em relato para a revista Placar sobre o amistoso contra o River Plate, o jornalista argentino Pedro Urquiza alertou: "[Tahamata é] miúdo, de notável habilidade. Craque, irá dar muito trabalho a Toninho. Sabe lançar com precisão e fazer tabelas". Ao De Telegraaf, Cláudio Coutinho era até simpático ao atacante descendente de indonésios: "Gosto de ver Tahamata jogar. Ele devia vir jogar aqui [no Brasil], iria se dar bem".

Tahamata causava boa impressão, em seu surgimento no Ajax, naqueles idos (ANP)

Enfim, por mais que o favoritismo fosse do Brasil, havia respeito pelo Ajax, como a revista Placar resumiu: "O Ajax versão 1979 nada tem a ver com o time histórico da era Cruyff. Mas continua perigoso".

O jogo: Sócrates brilha no 1º tempo, Zico vence o boicote na etapa final

Contudo, bastou o jogo começar no estádio do Morumbi para que se visse: o Ajax estava em marcha lenta demais para aguentar o ritmo ofensivo que a Seleção Brasileira impôs desde que a bola rolou - só criou uma chance, aos 45', num voleio de La Ling para fora. Krol e seu companheiro de zaga, Piet Wijnberg, até tentaram sair com a bola para alguns ataques. E tanto o falado Tahamata quanto La Ling tentaram criar jogadas pelas pontas. Mas Oscar e Edinho, a dupla de zaga brasileira, nem sofreu muito para contê-los. No meio-campo, Falcão começava a se destacar, com passes longos, e Cerezo mostrou velocidade.

Só que, também desde os primeiros minutos, Sócrates deixou claro: o teste com ele como atacante (não se usava essa gíria, mas era um "falso 9") daria muito certo. Voltando para buscar a bola, o "Doutor" acelerava jogadas com seus habituais toques de calcanhar. E coroou essa ótima atuação já no primeiro gol, aos 9'. Foi o gol citado no começo deste texto. E será sempre evocado em qualquer coletânea de imagens que mostre a inteligência do "Magrão", como os mais próximos o chamavam. Falcão lançou a bola do meio-campo. Sócrates a dominou. Com um giro de corpo, se livrou da marcação de Krol e Wijnberg. E chutou colocado, no canto esquerdo de Jager, para fazer o golaço do 1 a 0.

(O primeiro gol de Brasil 5x0 Ajax, marcado por Sócrates, na transmissão da TV Cultura de São Paulo, com a narração de Luis Noriega. Exibido em 1992, no programa "Grandes Momentos do Esporte")

Sócrates não parou por aí na partida. Era sempre opção de jogo, principalmente com Nílton Batata: isso se veria aos 10', quando ele passou para Nílton chutar por cima do gol de Jager. Pouco depois, aos 14', e um chute do camisa 9 (sem usar a 8 que o tornou conhecido, principalmente, no Corinthians) atingiu o travessão. Os outros destaques do Brasil apareceram ao longo dos 45 minutos iniciais: Falcão tentou aos 21', Zico cobrou bem falta aos 34', e Jager apareceu com duas defesas. Mas Sócrates terminou o primeiro tempo ressaltando o "cartão de visitas" que dava em seu segundo jogo pela Seleção. Aos 44', após troca de passes, Toninho lançou pela direita, Nílton Batata cruzou, e o paraense fez 2 a 0 completando para o gol vazio. Já fazia por merecer a manchete que o diário De Volkskrant estampou, em 23 de junho de 1979, na notícia sobre o amistoso: "De uitblinker Socrates leest Ajax de les" (em holandês, "O destaque Sócrates dá lição ao Ajax").

Com a vantagem no placar, Cláudio Coutinho já começou o segundo tempo fazendo mais alterações. No gol, Carlos substituiu Leão; no meio-campo, Zenon estreava pela Seleção, substituindo Toninho Cerezo. E se viram dois méritos brasileiros. Em primeiro lugar, Zico e Sócrates começaram a trocar mais de posição no ataque, complicando ainda mais o Ajax. Em segundo lugar, Toninho, lateral bastante ofensivo (já jogara assim na Copa de 1978), teve o prêmio de seu gol, aos 54', após passe em profundidade de Joãozinho. E aí, foi a vez de Zico ser o destaque, superando um boicote que andava popular por aqueles tempos. Mesmo que já tivesse destaque desde o seu primeiro jogo pela Seleção Brasileira (em 25 de fevereiro de 1976, fez os dois gols da vitória por 2 a 1 sobre o Uruguai, em Montevidéu, na Taça do Atlântico, triangular amistoso que tinha ainda a Argentina), o "Galinho de Quintino" ainda era visto fora do Rio de Janeiro como alguém que tinha fama demais e bola de menos. Fora dos domínios fluminenses, era chamado pejorativamente de "craque de Maracanã".

Mesmo já a passos firmes no caminho de se tornar o maior jogador da história do Flamengo, mesmo já nome fundamental na Seleção, muitos paulistas duvidavam de Zico. Em matéria no programa Esporte Espetacular, da TV Globo, em 2021, o ex-jogador comentou que apenas dois jornalistas de rádio lhe enalteciam em São Paulo: Fausto Silva, então repórter esportivo da Rádio Globo paulista, e Wanderley Nogueira, já ativo então na Rádio Jovem Pan em que ainda está. Nos treinos antes do amistoso, já no Morumbi, ele chegou a ser vaiado ao perder um pênalti. E o boicote teve um capítulo negativo no segundo tempo. Zico fez o quarto gol (aos 70', tocando na saída do goleiro após Renato ajeitar lançamento) e o quinto (aos 75', após jogada individual de Joãozinho). Obviamente, o placar estava em 5 a 0 para o Brasil. Entretanto, por pura birra, o placar do Morumbi ficou fixo em 3 a 0, como se omitisse os gols de Zico, como se não servissem de nada. Na reportagem citada, Zico diz que só notou o boicote quando Zenon veio festejar um dos gols com ele e lhe falou que não ligasse, que ignorasse a deselegância.

Naquela época, Zico sofria com o boicote de parte - até grande - de quem acompanhava futebol em São Paulo. Começou a vencer isso com dois gols contra o Ajax, mesmo sem o registro no placar do Morumbi (Gazeta Press)

Houve outros bons momentos do Brasil, como aos 67', num chute de Nílton Batata que Jager rebateu. O Ajax só chegou duas vezes, num chute de Tahamata aos 55' (Carlos pegou) e num arremate de Soren Lerby para fora após escanteio, aos 85'. O time de Amsterdã foi completo coadjuvante, numa ótima atuação do Brasil (o De Telegraaf estampou na manchete de 23 de junho: "Um Ajax sem chances contra o Brasil"). Aquela goleada indicou um caminho. Que passaria por solavancos: a Seleção seria eliminada nas semifinais da Copa América de 1979, Cláudio Coutinho seria trocado por Telê Santana com o advento da CBF (entidade originada naquele ano)... Mas, afinal, a boa impressão seria confirmada com alguns bons momentos na Copa de 1982.

Em grande parte, com a dupla Sócrates-Zico. Que começou a brilhar contra o Ajax.


Brasil 5x0 Ajax

Data: 21 de junho de 1979
Local: Estádio Cícero Pompeu de Toledo/Morumbi (São Paulo)
Árbitro: José Roberto Wright
Gols: Sócrates, aos 9' e aos 44', Toninho, aos 54', e Zico, aos 70' e aos 75'

BRASIL
Leão (Carlos, aos 46'); Toninho, Oscar, Edinho e Júnior; Falcão, Toninho Cerezo (Zenon, aos 46') e Zico; Nílton Batata, Sócrates (Renato, aos 62') e Joãozinho. Técnico: Cláudio Coutinho

AJAX
Peter Jager; Wim Meutstege, Piet Wijnberg, Ruud Krol e Peter Boeve; Søren Lerby, Dick Schoenaker e Frank Arnesen; Tscheu La Ling (Ton Blanker, aos 68'), Karel Bonsink (Ruud Kaiser, aos 72') e Simon Tahamata. Técnico: Cor Brom

domingo, 7 de janeiro de 2024

Parada obrigatória: Ajax

Bergwijn nem quis olhar. A torcida do Ajax também não: ao longo da primeira metade da Eredivisie, uma crise como raras vezes se viu em Amsterdã. E ela só está amenizada, não eliminada (ProShots/Icon Sport/Getty Images)

Posição: 5º lugar, com 25 pontos 
Técnicos: Maurice Steijn (até a 9ª rodada), Hedwiges Maduro (interino, na 10ª rodada), John van't Schip (a partir do jogo atrasado da 3ª rodada) e Michael Valkanis (apenas na 16ª rodada, por motivos particulares de John van't Schip)
Time-base: Ramaj; Rensch (Gaaei), Sutalo, Hato e Sosa (Martha); Tahirovic e Taylor; Berghuis, Hlynsson (Akpom) e Bergwijn; Brobbey
Maior vitória: Ajax 5x0 Vitesse (13ª rodada)
Maior derrota: Ajax 0x4 Feyenoord (6ª rodada)
Copa da Holanda: eliminado pelo USV Hercules (quarta divisão), na segunda rodada
Competição europeia: Liga Europa (eliminado na fase de grupos) e Conference League (enfrentará o Bodo/Glimt-NOR, na segunda fase)
Artilheiro: Brian Brobbey (atacante), com 8 gols
Objetivo do início: Título
Avaliação: A crise vivida em alguns momentos da primeira metade da temporada já se entronizou como um dos pontos mais baixos da história do Ajax. Ainda traz marcas, como a vexatória eliminação na Copa da Holanda. Mesmo que o pior já tenha passado na Eredivisie, ainda há muito a melhorar

Maurice Steijn, um técnico desacostumado ao peso que traz o trabalho no Ajax; Sven Mislintat, um diretor de futebol que chegava fazendo opções controversas; tais opções desestimulando e indicando a saída de nomes marcantes - Dusan Tadic que o diga; várias e várias vendas - só para dar dois exemplos, Mohammed Kudus e Edson Álvarez saíram com a temporada já em andamento. Já se avisava: viver-se-iam tempos de reformulação em Amsterdã. O Ajax sabia que iria sofrer. Só não sabia, não imaginava, o tamanho desse sofrimento. Até porque, bem ou mal, a temporada do Campeonato Holandês começou com vitória (3 a 1 no Heracles Almelo). Porém, empatar em 2 a 2 com o Excelsior, na segunda rodada, já acendeu o sinal de alerta. Que ficou mais forte com um jogo pela Liga Europa: mesmo se classificando à fase de grupos, perder o jogo de volta dos play-offs em plena Johan Cruyff Arena (Ludogorets-BUL 1 a 0) não era um sinal nada bom. De volta à Eredivisie, também trouxe maus augúrios o empate sem gols contra o Fortuna Sittard (com direito a pênalti perdido do Fortuna). E o sinal amarelo se "avermelhou" com a primeira derrota: Twente 3 a 1, na quinta rodada. Os reforços trazidos por Mislintat não tinham chance com Steijn; técnico e diretor de futebol indicavam faíscas na relação; em campo, os Ajacieden se mostravam inseguros como quase nunca costuma acontecer no Campeonato Holandês. E chegou o primeiro "ponto baixo" da temporada: ser goleado pelo arquirrival Feyenoord, na Johan Cruyff Arena (6ª rodada), com um papelão da "F-Side", ala mais fanática da torcida. Atirar sinalizadores e forçar a interrupção do jogo, no começo do segundo tempo, com 3 a 0 contrários no placar, só adiou o sofrimento retomado dias depois, com portões fechados e o Stadionclub fazendo 4 a 0. 

A sequência perigosa na tabela trouxe três derrotas: AZ 2 a 1 (8ª rodada), Utrecht 4 a 3 (9ª rodada) - tomando virada após ter 3 a 2 na frente -, PSV 5 a 2 (10ª rodada - de novo saindo na frente, de novo tomando virada). Era preciso olhar duas vezes para confirmar o segundo "ponto baixo": sim, o Ajax estava na última posição do Campeonato Holandês, àquela altura. Nem os mais conhecidos - Steven Berghuis, Steven Bergwijn - acalmavam, nem os mais jovens - Kristian Hlynsson, Brian Brobbey - se impunham. Alguns nomes viravam "bodes expiatórios" da torcida. Em campo, só saía a contento Jorrel Hato, revelação na zaga. Pior: a crise na diretoria de futebol se escancarava, com o conflito de interesses que forçou a saída de Sven Mislintat (ter ações na empresa de agenciamento que cuidou da negociação de Borna Sosa). Desprestigiado, Maurice Steijn também saíu. E só aí algum "modo de segurança" se estabeleceu no Ajax, com a ajuda de nomes que conhecem a fundo o clube - e seu ambiente, seu "jeito". Louis van Gaal aceitou ser conselheiro, de longe; John van't Schip, nascido e crescido no clube, aceitou o desafio de voltar a ele como técnico. Até conseguiu entabular uma reação: quatro vitórias seguidas, e o Ajax alcançou o quinto lugar na tabela. Alguns nomes melhoraram em campo: o alemão Diant Ramaj saiu a contento no gol, Chuba Akpom aproveitou chance no ataque, Brobbey evoluiu. Ainda assim, avançar na Liga Europa nunca pareceu provável. E a eliminação na Copa da Holanda, de cara, para o semiamador USV Hercules (quarta divisão), lembra: se há uma reação na Eredivisie, ela ainda é pequena demais para o tamanho da crise que o Ajax vive.