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segunda-feira, 25 de junho de 2018

30 anos da Euro 1988 - parte 4: o golaço, o pênalti, a festa

Enfim, Holanda: Gullit levanta o troféu da Euro no Estádio Olímpico de Munique, em 25 de junho de 1988, e dá início à festa (VI Images/Getty Images)
No texto mais recente deste especial, falando sobre a semifinal da Eurocopa de 1988 e a vitória empolgante da Holanda sobre a Alemanha, a última frase foi: “Mas ainda faltava uma final”. Pelo esforço mental despendido em campo, os jogadores da Oranje pareciam esquecer disso. Felizmente, para eles, havia alguém que não permitiu que isso continuasse. O nome dele: Marinus Hendricus Jacobus Michels, vulgo Rinus Michels.

Duas histórias confirmam isso. A primeira ocorreu enquanto a equipe tomava café da manhã, no hotel em que estava, em 23 de junho, um dia após o 2 a 1 sobre os alemães. Van Breukelen chegou ao refeitório dizendo: “Bem, podemos ir para casa”. Van Basten respondeu, alerta: “Ainda tem a final”. Veio a tréplica do goleiro: “Nós já a jogamos. Foi maravilhoso vencer os manés. Se eu pudesse escolher entre vencer os alemães ou superar os russos na final, eu não teria a menor dúvida. Escolheria vencer a Alemanha”.

Van Basten discordou: “Eu não vejo a coisa assim. Quero finalmente acabar com essas histórias de que a equipe de 1974 seria muito mais forte. Pelo menos, mais forte do que a nossa. Essa é a chance de colocar as coisas no lugar. Eles só chegaram ao segundo lugar”. Era tudo o que Rinus Michels queria ouvir. Finalizando a discussão, o treinador arrematou: “Então, que tal nos lembrarmos de que a gente ainda pode vencer um torneio?”.

Após questionamentos até de Cruyff, seu principal pupilo, Rinus Michels tinha a consagração merecida (VI Images/Getty Images)

Outra história que revela como Michels apagou rapidamente a vitória contra a Alemanha de sua cabeça ocorreu no dia 24 de junho, véspera da final. Após aproveitarem o dia de folga, um grupo de jogadores, liderados por Ruud Gullit, bateu à porta do quarto de Rinus, que havia ficado no hotel. E entregou ao treinador um presente, comprado por Carel Akemann, supervisor dos jogadores na delegação: um relógio Cartier, comprado para o técnico a pedido dos próprios atletas. Michels olhou para o relógio. No verso, estava gravado: “Obrigado, do elenco da Euro ‘88”. 

Comovido, abriu o coração: “Eu o usarei. Trabalho há muito tempo no futebol, mas ganhar um presente desses de um elenco de jogadores realmente me emociona. Se vocês me permitem, eu ligarei para a minha esposa, agora”. Bonito. Mas, enquanto os jogadores se distanciavam, o comandante pediu atenção, e alertou: “Mas se vocês perderem amanhã, eu devolvo o relógio”. Mensagem compreendida. E Michels retirou-se para o quarto – não sem antes chorar ao telefone, junto da esposa Wil, ainda emocionado com o gesto dos atletas.

A foto posada daquela final de 25 de junho de 1988, no Estádio Olímpico de Munique. Em pé: Van Basten, Ronald Koeman, Rijkaard, Erwin Koeman, Gullit e Van Breukelen. Agachados: Van Tiggelen, Mühren, Van Aerle, Wouters e Vanenburg (VI Images/Getty Images)
O gol de Gullit acalma o início

No dia seguinte, 25 de junho, era ir para o gramado do Estádio Olímpico de Munique e jogar a final  contra a União Soviética, que pouco havia mudado em relação à primeira fase (a íntegra, aqui). E a Holanda pareceu tranquila, em campo. O ataque soviético era ativo e até mais perigoso em campo, com Sergei Gotsmanov, Oleg Protasov e Igor Belanov chegando à área, mas a defesa holandesa não sofria em campo, com boas atuações de Rijkaard e Van Tiggelen – este último, até melhor do que Rijkaard, até avançando ao meio-campo para ajudar Mühren e Wouters na marcação. Além da tranquilidade, a Oranje tinha um fator de sorte: principal zagueiro da equipe soviética, Oleg Kuznetsov estava suspenso, pelo cartão amarelo levado na vitória por 2 a 0 sobre a Itália, nas semifinais. 

Assim, o ataque mantinha o controle do jogo. E a ausência de Kuznetsov pode explicar o que se viu aos 33 minutos do primeiro tempo: Erwin Koeman cobrou escanteio da esquerda, alto demais. A bola foi rebatida, e Erwin Koeman cruzou novamente. Aí deu-se a sorte: orientados pelo atacante Sergei Aleinikov, os defensores fizeram a linha de impedimento. Só se esqueceram de combinar com Van Basten, que desviou de cabeça, e Gullit, que completou, também testando, para o gol de Dasaev. 1 a 0.

Aquele gol

A tranquilidade holandesa aumentou ainda mais. Embora a pressão soviética continuasse, a organização tática com que o time fora pensado por Rinus Michels facilitava a diminuição do perigo. E essa organização iniciou a jogada que simboliza aquela partida, aquela vitória, aquele título. Aqui, cabe uma pequena lembrança: antes da Euro, a Holanda disputou jogos-treino, durante a fase de preparação. Num deles, em 7 de junho de 1988, contra o Quick 1888, time amador de Nijmegen, mesmo com goleada da seleção por 8 a 1, o gol de honra do Quick foi marcado por Michel Dreis, com... um voleio improvável, que encobriu Hiele, goleiro reserva. É o gol abaixo.


Voltemos ao jogo: eram nove minutos do segundo tempo. A União Soviética pressionou, mas Van Tiggelen desarmou um jogador, próximo à área holandesa. E o lateral esquerdo progrediu com a bola até pouco depois do meio-campo, quando passou a Arnold Mühren. Da esquerda, o veterano volante, então, cruzou a bola, de primeira, para Van Basten, que vinha pelo lado oposto, correndo para a grande área. Ao lado de Carel Akemann, no banco de reservas, Rinus Michels lamentou: “O que ele está fazendo?!”.

Na foto mais ampla, Van Basten chuta, enquanto o zagueiro soviético se protege (Reprodução)
Na área, Van Basten chegava. Um zagueiro aproximou-se dele, mas ouviu Dasaev gritar: “Preste atenção em Gullit!”. E deixou o camisa 12 livre. Pouca chance de haver problemas, até porque o cruzamento de Mühren saíra alto demais, indo além da segunda trave, onde ele pensara em mandar a bola. E o atacante holandês, com quatro gols até então, teria de resolver a jogada daquele modo. Na base do “é tudo ou nada”, Van Basten chutou. Mais distante, testemunhando a jogada, Jan Wouters pensou: “Ele é louco”.

Já se sabe o que aconteceu: a bola encobriu Dasaev, que não esperava por aquela solução para a jogada. E balançou as redes. 2 a 0. Delírio na torcida holandesa, incredulidade em campo, provada pelo diálogo entre Wouters e Van Basten, durante a comemoração. “Como você fez isso?” “Eu não sei!” Mas fez, para surpresa de Theo Reitsma, narrador da televisão pública holandesa NOS, que só gritou no vídeo abaixo: "Schitterende doelpunt!" ("Belíssimo gol!"). Sorte da Holanda. Sorte de quem viu o que foi, seguramente, um dos gols mais bonitos da história do futebol até os dias de hoje. Até mesmo Dasaev se rendeu, 25 anos depois, falando à revista ELF Voetbal: "Foi um gol na sorte, mas só Van Basten poderia fazer um gol daqueles".


Van Breukelen prova seu valor

Só que o jogo não acabara. A pressão da União Soviética só aumentou: pouco depois do gol de Van Basten, Alexander Zavarov aproveitou falta cobrada para a área e chutou na trave. E aos 29 minutos daquela etapa final, após lançamento para a área mal rebatido, a bola foi para a linha de fundo. Gotsmanov foi pegá-la. Pouca chance de a jogada seguir. Mas Van Breukelen foi perseguir o camisa 18 soviético e derrubou-o. O árbitro francês Michel Vautrot não pestanejou: pênalti. Até duvidoso, mas mais “marcável” do que os vistos na semifinal.

Ali se veria a necessidade de Van Breukelen colocar em prática o que refletira nos últimos meses, em consultas com o psicólogo Ted Troost. Desde 1984 titular absoluto da Oranje, o goleiro passara a sofrer pressão em 1987: com o estilo de jogo ofensivo no Ajax treinado por Johan Cruyff, onde o titular Stanley Menzo era daquele tipo de goleiro mais afeito ao jogo com os pés, o pedido para que a seleção adotasse o mesmo esquema era sistemático. Da mídia, da torcida, de onde fosse.

Defender um pênalti durante a final exorcizou definitivamente os fantasmas que Van Breukelen ainda tinha (Bob Thomas/Getty Images)
Goleiro muito mais afeito ao trabalho típico da posição (isto é, defender bolas), Van Breukelen começou a sentir-se boicotado. Começou a falhar em algumas partidas. Nas partidas por seu clube, o PSV, entrava em campo e via faixas pedindo por Menzo, ou até Joop Hiele, na seleção. Perdia visivelmente a autoconfiança. Em uma partida das eliminatórias da Euro, até fora barrado por Michels, em detrimento de Hiele. Somente ao começar as consultas com o psicólogo, Van Breukelen retomou seu nível normal de atuações, aprendendo a impor mais em campo, a ser mais agressivo. 

O trabalho mental dava certo. A ponto de Van Breukelen já ter sido decisivo na final da Copa dos Campeões 1987/88, defendendo a cobrança de Antônio Veloso, zagueiro do Benfica, na série de chutes da marca do pênalti, garantindo o 6 a 5, após empate sem gols no tempo normal, e o primeiro título europeu do PSV. Mas a final da competição europeia de clubes fora em 25 de maio, exatamente um mês antes. E os detratores continuavam ácidos: dias depois de conquistar a Copa dos Campeões, Van Breukelen recebeu uma carta anônima. Algumas palavras dela: "Você é um babacão, Van Breukelen, eu me irritei muito com você e sua alegria exagerada após aquele pênalti pego na sorte. Aquela sua histeria significa, para mim, que logo você vai fraquejar de novo na Euro".

Agora eram Van Breukelen e Belanov, um em frente ao outro, na grande área do Estádio Olímpico de Munique. Belanov bateu no canto direito, forte. E o arqueiro rebateu com tanta força que a bola foi parar fora da área. Mas seu olhar imponente, e até furioso, após defender, deixava claro: a Eurocopa de 1988 tinha dono. O apito final de Michel Vautrot ratificou uma conquista merecida, de um time que foi se acertando durante a competição, que tinha vários atletas determinados, um craque que explodiu na hora mais apropriada (Van Basten), um gênio no banco.

Após a taça, os festejos dos holandeses no pódio já preconizavam o que se veria na Holanda (Popperfoto/Getty Images)

O êxtase na Holanda

Agora, era levantar a taça. E ser recebido na Holanda. A festa foi otimamente descrita por Johan Derksen, redator-chefe da revista Voetbal International: “A estrada de Munique até Amsterdã foi uma festa. Não tinha gente mostrando o dedo do meio na parte chamada Autobahn, mas só compatriotas comemorando. A solidariedade era incrivelmente grande. Muçulmanos e cristãos, torcedores do Ajax e do Feyenoord, socialistas e liberais; todos eles haviam sido campeões europeus. Rinus Michels, Jan Wouters, Hans van Breukelen e Marco van Basten eram heróis nacionais, agora”.

Se havia alguma dúvida da felicidade holandesa com o título da Euro 1988, ela acabou com o enlouquecido trajeto dos jogadores pelos canais de Amsterdã com a taça (Arquivo ANP)
Depois, a recepção pela rainha Beatrix, na casa real. A ensandecida torcida que seguiu os canais da capital, atravessados pelo elenco de barco. O discurso de Rinus Michels, que reconheceu: “O jogo contra a Alemanha foi a verdadeira final”. Tudo isso, tendo como trilha sonora de “Wij houden van Oranje” ("Nós amamos a Laranja"), canção de André Hazes, que frequentou as primeiras posições das paradas de sucesso na Holanda durante aqueles dias que emocionaram o país. E virou um clássico no futebol do país.Seu refrão: “Nederland, oh, Nederland/Jij bent de kampioen/Wij houden van Oranje/Om zijn daden em zijn doen” (Holanda, oh, Holanda/Você é a campeã/Nós amamos a Laranja/Por suas façanhas e seus feitos).


Os gols de Holanda 2x0 União Soviética, final da Euro 1988, na transmissão da TV Globo para o Brasil, com a narração de Galvão Bueno



Vídeo com a recepção da torcida aos jogadores campeões europeus, em Amsterdã, com passeio pelos canais com a taça

Logo após o apito final, Rinus Michels desejou: "Espero que possamos deixar para trás as memórias de 1974". Não, a Holanda não deixou. Foi somente um feito. Mas que até hoje emociona os holandeses. Que esperam por uma festa como a que viveram em 1988.

domingo, 24 de junho de 2018

30 anos da Euro 1988 - parte 3: o dia da glória chegou

A comemoração de Gullit (esquerda) e Rijkaard se justificava plenamente: a vitória contra a Alemanha, velha rival e carrasca, na semifinal da Euro 1988, marcou a história da seleção holandesa (Arquivo ANP)
Várias seleções têm uma vitória que as desafogam, em sua história. Um triunfo altamente importante para lhes provar que as derrotas não são definitivas, que as coisas podem melhorar, que nem sempre elas são os times humilhados e sem esperança que foram um dia. Para o Brasil, a vitória contra a Suécia, na final da Copa de 1958; para a França, provavelmente foram os 3 a 0 sobre o Brasil, na decisão do Mundial de 1998;  a decisão da Euro 2008 é o marco inicial da melhor fase da história da seleção da Espanha.

Pois bem: a Holanda já teve uma dessas vitórias. Precisamente, contra a Alemanha, na semifinal da Eurocopa, em 21 de junho de 1988 (a íntegra do jogo está no link). Um dia em que se libertou dos traumas, em que venceu um grande adversário, em que livrou-se das risadas de que sempre foi alvo – e de que voltaria a ser, depois. Mais do que isso: um dia em que venceu um adversário figadal, alguém que sempre a sobrepujara, o seu maior e mais cruel algoz. Até mesmo em campos geopolíticos, já que as tropas alemãs mataram cerca de 250 mil pessoas e dizimaram o país, numa ocupação de cinco anos, durante a Segunda Guerra Mundial. 

Só pela declaração do ex-jogador Willem van Hanegem à época, nota-se como a mágoa holandesa em relação à Alemanha era gigante, mais do que hoje em dia: “Eu os odeio. Eles mataram minha família. Meu pai, minha irmã, dois dos meus irmãos. Toda vez que eu enfrentava a Alemanha, ficava cheio de raiva”. Talvez por isso a Holanda tenha ficado longos minutos apenas tocando a bola, durante a final da Copa de 1974: não era para manter a posse, mas para impor certa humilhação aos algozes.

E talvez por isso a Holanda tenha sofrido tanto com a derrota em 1974. Batizada como “a mãe de todas as derrotas”, ela tornou-se uma espécie de marco negativo para os holandeses. Algo que representava para eles o que o 22 de novembro de 1963, dia do assassinato de John F. Kennedy, representa para os norte-americanos. Ou, para os brasileiros, o 31 de março de 1964. Ou o 25 de abril de 1984, quando a Emenda Dante de Oliveira ficou a 22 votos de ser aprovada, frustrando o pedido pelo retorno das eleições diretas para presidente. Ou até o 1º de maio de 1994 em que Ayrton Senna morreu. Enfim, cabe o clichê: aquele tipo de data em que todo mundo se lembra do que estava fazendo durante o fato.

E o revés que dera o segundo título mundial aos alemães insistia em doer, insistia em ficar latejando nos holandeses. A ponto dos próprios germânicos ficarem sem compreender a razão de tanta raiva, nos jogos entre as duas seleções desde a Copa de 1974. Por exemplo: durante a Euro 1980, no duelo que terminou em 3 a 2 para o Nationalelf, Huub Stevens, defensor holandês, brigou com o goleiro Harald Schumacher, enquanto René van de Kerkhof deu um soco no olho de Bernd Schuster. Tal sentimento gerou críticas de Karl-Heinz Rummenigge: “É uma pena e uma vergonha que eles usem o futebol como válvula de escape para o ódio em relação à Segunda Guerra Mundial”.

A formação que comoveu a torcida holandesa no Volksparkstadion de Stuttgart - e em todo o país - naquela semifinal de 21 de junho de 1988. Em pé: Van Basten, Ronald Koeman, Rijkaard, Van Tiggelen, Gullit e Van Breukelen. Agachados: Van Aerle, Mühren, Wouters, Vanenburg e Erwin Koeman (fanpictures.ru)
Mas só entrar com o coração na ponta da chuteira, só entrar com sede de vingança, não seria suficiente contra a Alemanha que disputava aquela Eurocopa. Até por jogar em casa, a equipe treinada por Franz Beckenbauer era a grande favorita ao título. E a base do time trazia boa parte do elenco que se sagraria tricampeão mundial em 1990: Lothar Matthäus coordenava as ações no meio-campo, Jürgen Klinsmann pedia passagem no ataque, Andreas Brehme comandava a defesa. Além deles, havia gente que não estaria na Copa do Mundo disputada dali a dois anos, mas fazia boa Eurocopa, como o zagueiro Matthias Herget e o meio-campista Wolfgang Rolff.

Nervosismo no começo

E a motivação até exagerada atrapalhou a Holanda, no primeiro tempo. A Oranje pressionou mais em chutes de fora da área, mas não conseguia se aproximar do gol alemão, defendido por Eike Immel. E a Alemanha até trazia perigo, ancorada nas boas atuações de Herget, que chegava de surpresa, como líbero que era, e Matthäus, chefe do meio-campo. No segundo tempo, a Oranje até cresceu em campo. Lesionado no fim da primeira etapa, Herget teve de dar lugar a Hans Pflügler, que não entrou bem, enfraquecendo o miolo de zaga. Além do mais, na esquerda, Gullit fazia o que queria de Uli Borowka. 

Ainda assim, faltava calma. O lance que mais exemplificou o estado de nervos do time holandês foi já na etapa final: a certa altura, Matthäus também ficou no gramado, alegando falta, próxima à área holandesa. O árbitro romeno Ioan Igna nada marcou, e o jogo seguiu. Enquanto o camisa 8 alemão seguia no gramado, Van Breukelen saiu da área e vociferou perto do adversário: “Eu quero que você se f***”. O goleiro, aliás, era o símbolo da tensão holandesa no jogo: gritava com o árbitro, peitava quem quer que fosse alemão e tentasse cavar alguma falta (levaria até amarelo, posteriormente).

É de se impressionar que Van Breukelen tenha apenas batido palmas, ironicamente, aos seis minutos do segundo tempo, quando Klinsmann caiu ao ser acossado por Rijkaard, e Ioan Igna deu a penalidade máxima. Matthäus, que não tinha muito a ver com a história, bateu no canto esquerdo. O goleiro acertou e quase defendeu, mas a Alemanha estava na frente.

A Oranje volta para o jogo

Pouco depois, derrubado por Berry van Aerle, Rudi Völler ficou caído no chão por mais tempo do que o esperado. Alguns adversários foram cobrá-lo, e Van Aerle puxou de leve o cabelo do atacante. Pronto: Völler quis discussão, ficou por mais tempo no chão, se contorcendo, e a confusão ocupou uns cinco minutos de jogo.

Aquilo foi o ponto de virada. A Holanda precisaria apresentar mais calma, se não quisesse cair mais uma vez para os alemães. Desde então, o time passou a usar mais passes em profundidade, embora não tivesse abdicado jamais de arriscar chutes de fora da área. Enfim, num lançamento, Van Basten recebeu, na entrada da área, pela direita. Por baixo, Köhler tentou tirar a bola pela linha de fundo, com um carrinho despretensioso, na bola. Van Basten caiu. E Ioan Igna (numa arbitragem ruim, diga-se de passagem) deu o pênalti, aos 29 minutos do segundo tempo. Ronald Koeman bateu e fez: 1 a 1. Dois pênaltis, dois gols, um empate, como naquela final de 1974.

  
Kohler tenta desarmar Van Basten, este cava o pênalti marcado... (Arquivo ANP)

... e Ronald Koeman bate para empatar a semifinal (Four Four Two)

Embora a partida não estivesse sendo boa tecnicamente, tinha a tensão indispensável aos grandes clássicos, aquele suspense que faz o ambiente irrespirável em campo e fora dele. Ao mesmo tempo em que a partida parecia se encaminhar para a prorrogação, a impressão era de que algo ainda poderia acontecer. E aconteceu.

No final, a revanche sonhada pela Holanda

44 minutos do segundo tempo. Uma jogada inofensiva começa no meio-campo. Ronald Koeman faz menção de passar a Gullit. Mas o camisa 10 vai para a esquerda, levando consigo a marcação de Borowka e Matthäus. O meio fica livre para Koeman lançar em profundidade. Jan Wouters recebe a bola, e quase imediatamente lança para Van Basten. Perseguido por Köhler, o atacante dá um toque sutil de carrinho. Suficiente para tirar a bola do alcance de Immel, que se estica todo para defendê-la. Inútil. 2 a 1.


Van Basten toca fraco... (Getty Images)


... mas já serve para Immel apenas ver a bola ir ao canto, no gol que fez a Holanda explodir (Four Four Two)
"Ja! Ja, Marco van Basten! 2-1! (...) Volksparkstadion is van Oranje!” ("Sim! Sim, Marco van Basten! 2 a 1! O Volksparkstadion é da Laranja!"), narrou Evert ten Napel, o locutor da NOS, a emissora holandesa de tevê que transmitia o jogo. Naquele momento, a audiência do jogo já batia nos 5,8 milhões de telespectadores, em território holandês. Enquanto Van Basten marcava o gol da virada, a audiência atingiu picos de 8,7 milhões de telespectadores na Holanda. Sem contar os 109 países para os quais a Eurocopa era transmitida - o que incluía o Brasil, com a transmissão pela TV Globo, com a narração de Luiz Alfredo e os comentários de Juca Kfouri. Após o gol, Luiz lembrou 1974: "Uma vingança gostosa de Rinus Michels!".

Após um final de jogo mais frenético, com a Alemanha tentando virar no abafa, Ioan Igna apitou o fim do jogo em Hamburgo. Explosão no banco de reservas, com Rinus Michels abraçado pelos auxiliares. Explosão na torcida, que fazia mais barulho do que a maioria alemã. Explosão entre os jogadores, que comemoravam como se já houvessem ganho a Eurocopa. Gullit inicia as festividades, abraçando o treinador e puxando um trem formado pelos que estiveram em campo. Van Breukelen falava: “Esperava por isso havia 14 anos. Antes do jogo, lembrei de mim mesmo, ao assistir à final de 1974, adolescente, e isso aumentou minha raiva. Estou feliz por dar este presente às antigas gerações, a quem viveu a guerra”.

Não importa que outras partidas posteriores tenham vindo, nem que a Alemanha tenha ganho em outras ocasiões, até mais importantes. O trauma de 1974 estava encerrado com a vitória em 1988. “Finalmente a vingança!”, estampou o diário De Telegraaf em sua capa, no dia seguinte. Era hora de comemorar. E a Holanda fez isso. Algumas vezes, baixando o nível: enquanto deixava o campo, Ronald Koeman usou a camisa alemã ganha em troca com Olaf Thon como se fosse um pedaço de papel higiênico, fingindo limpar as nádegas. Criticadíssimo pela falta de educação, Koeman desculpou-se rapidamente com o país e com Thon, e não ficaram mágoas.

A Holanda queria comemorar a virada sobre sua arquirrival. Mas Koeman passou um pouco dos limites (Arquivo ANP)

Mas ficou a alegria. Em todo o país, as pessoas saíram às ruas para provocar alemães, celebrar a vitória, buzinar. Sem exageros: a festa vista em Amsterdã foi considerada a maior desde a libertação do jugo nazista, em 1944. Até por ser outra espécie de libertação. O poema “21-6-88”, de Jules Deelder, exemplifica bem o que a vitória significou para a Holanda: “Oooooo! En wie vergeef/des doelman hand/zich strekte naar de bal/die één minuut/voor tijd/de Duitse doellijn kruiste/zij die vielen/rezen juichend/uit hun graf” (“Oooooo! E quem esquece/a mão do goleiro/que se esticou/para a bola/que um minuto antes do fim/a linha alemã cruzou/aqueles que caíram/das suas tumbas/se levantaram”). 

De fato, a mais inesquecível das vitórias holandesas. Mas ainda havia uma final.


(Os gols e a comemoração pós-jogo de Holanda 2x1 Alemanha, semifinal da Euro 1988, na transmissão da NOS, emissora pública holandesa de tevê, com a narração de Evert ten Napel)

sábado, 23 de junho de 2018

30 anos da Euro 1988 - parte 2: a sorte conspira a favor

Van Basten recebeu a chance de Rinus Michels, após a derrota na estreia. E saiu do banco para ser aclamado na Euro 1988 (Bongarts/Getty Images)
Escalada para a primeira fase da Euro 1988, a Holanda teria dificuldade considerável no grupo B. Embora o nível técnico dos favoritos não fosse tão grande quanto o que Alemanha e Itália tinham, no grupo A, havia times elogiáveis. O principal favorito a liderar a chave era a União Soviética. Em seu último grande momento no futebol, os soviéticos traziam uma equipe com jogadores já experientes das Copas de 1982 e 1986, como o goleiro Rinat Dasaev e o zagueiro Anatoli Demianenko. Juntos a eles, gente que vivia a melhor fase da carreira, como os atacantes Vassili Rats, destaque soviético na Copa de 1986, Igor Belanov, eleito o melhor jogador da Europa em 1986, e Alexei Mikhailichenko, que faria parte da equipe soviética medalha de ouro no torneio olímpico de futebol, nos Jogos de Seul, dali a alguns meses.

Embora com um time sem tantas novidades, a Inglaterra ainda sabia que Gary Lineker, Peter Beardsley e John Barnes tinham muito a contribuir, no ataque – e ainda havia Peter Shilton, já um estandarte do English Team, no gol. Finalmente, a Oranje teria a incógnita Irlanda como última adversária. Jogando a primeira grande competição de sua história, a seleção irlandesa era guiada pelo ideário do técnico inglês Jack Charlton, que pedia muita dedicação na defesa. Ou seja: embora Frank Stapleton, Tony Cascarino e John Aldridge dessem algum brilho ao ataque, o que impressionava no Eire era o esforço hercúleo na marcação, expresso em gente como o zagueiro Mick McCarthy e o volante Paul McGrath – na verdade, zagueiro adiantado.

E a Holanda? Já estava com a sua escalação definida, como se leu na primeira parte deste especial. Todavia, as opções de Rinus Michels desagradavam alguns personagens importantes. Um deles, claro, era Johan Cruyff: em sua coluna para o jornal espanhol El Periodico, o já então técnico do Barcelona elegeu a Laranja como sua favorita ao título da Euro: "Se o time jogar com três atacantes, garantirá o pânico em toda defesa adversária". Era um bom augúrio que continha crítica implícita: a opção de Michels por dois atacantes. Claro que o treinador holandês entendeu. E replicou duramente a opinião do principal jogador que treinou em campo: "Eu não faria isso com um colega de trabalho. Cruyff está sempre falando, em todos os canais (...). Ele diz que já somos campeões europeus. É muito fácil [falar isso] quando não se tem responsabilidade". Mas pelo sim, pelo não, o fato é que Michels ainda apostou num esquema com três atacantes para a estreia: além de Gullit e Bosman, John van't Schip começou jogando.

A Holanda que estreou na Euro 1988, contra a União Soviética, em Colônia, no dia 12 de junho. Em pé: Van Tiggelen, Rijkaard, Ronald Koeman, John Bosman, Gullit e Van Breukelen. Agachados: Wouters, Mühren, Vanenburg, Wouters e Van't Schip
A Oranje chegou para a estreia contra a União Soviética, no dia 12 de junho, em Colônia, com um certo temor (aqui, o jogo na íntegra).  No que daria aquele time meio desequilibrado taticamente, contra a equipe determinada e coesa de Valeri Lobanovsky? Deu numa partida dominada pelos de camisas laranjas. Mais impressionante: nenhum dos armadores destacou-se no ataque. Mais impressionante ainda: esse destaque não foi de Ruud Gullit. Foi da dupla de zaga. Avançando como elementos surpresas, Ronald Koeman e Rijkaard impressionaram. Ao mesmo tempo, a dedicação de Van Tiggelen, Van Aerle e Mühren impediu que a defesa ficasse absolutamente desguarnecida.

Aqui, faz-se necessário um parêntese: entre os dois “líberos” que a Holanda tinha, Rijkaard foi ainda mais impressionante. Marcou bem, saiu bem com a bola nos pés, trouxe perigo em chutes de fora da área, em trocas de passes... enfim, a atuação do camisa 17 foi classuda a ponto de impressionar o técnico argentino Cesar Luis Menotti, que estava em Colônia: “Eu nunca vi um líbero tão técnico na minha vida”. 

Rijkaard chegara àquela Euro em baixa: após sair do Ajax brigado com o técnico Johan Cruyff, no meio de 1987, fora contratado pelo Sporting-POR. Mas a transação se deu fora do prazo, e o volante/zagueiro não poderia atuar pelos Leões. O jeito foi repassá-lo ao Zaragoza-ESP, ainda em 1987. Mas ele não impressionara ali. Até aquela partida contra a União Soviética. No estádio, estava Arrigo Sacchi, técnico do Milan. Impressionado, ali Sacchi decidiu pedir a contratação de Rijkaard a Silvio Berlusconi, já então o mecenas milanista. E o resto é história.

Mas voltemos ao jogo: a Holanda estava bem, até que houve uma falha de marcação de Van Tiggelen, pela esquerda, aos sete minutos do segundo tempo. Ele somente cercou o meia Vagiz Khidiatullin, sem dar o bote. E o soviético pôde inverter o jogo para Rats, que entrava pela área, do outro lado. O atacante bateu, de voleio, e fez 1 a 0 para a URSS. Nem com toda a ajuda de Koeman e Rijkaard ao ataque, a Oranje conseguiu vazar a meta de Dasaev. Rinus Michels, então, decidiu usar a arma que tinha no banco: tirou Vanenburg, apagado, e colocou Van Basten. O camisa 12 tentou. A insistência ofensiva foi grande: Dasaev defendeu um chute de Koeman, um cabeceio de Gullit, contou com a sorte ao ver a bola vinda da cabeça do próprio colega Vagiz Khidiatullin bater no travessão. E a União Soviética segurou o 1 a 0, saindo na frente, no grupo A da Euro.


Claro, a boa atuação na estreia já deixara uma impressão de que era possível ir longe na Euro. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas realmente era preferível vencer a Inglaterra. Ela fora derrotada por 1 a 0 pela Irlanda, começara pessimamente, mas era bom não brincar com um time experiente como o inglês. Mais uma derrota e a Holanda estaria eliminada. Ao mesmo tempo, após reconhecer o peso da derrota ("Certamente foi um golpe duro", falou à emissora pública de tevê NOS), Rinus Michels reconheceu os erros próprios ao escalar o time no 4-3-3 tipicamente holandês: "Achei que alguns tiveram timidez demais, não jogaram livres".

Era necessário ter alguém que trouxesse mais técnica ao ataque. Era necessário ter alguém que trouxesse mais temor à zaga adversária. John Bosman não causara muito tormento entre os soviéticos, na estreia. Enfim: mesmo que ele não estivesse em perfeita forma, Van Basten tinha de iniciar a partida. Era preciso correr riscos. Rinus Michels decidiu corrê-los.

Rinus Michels voltou ao 4-4-2 que pensara para a Euro 1988. E a esperada estreia veio no segundo jogo pelo torneio, contra a Inglaterra, em Dusseldorf. Em pé: Van Basten, Rijkaard, Ronald Koeman, Erwin Koeman, Gullit e Van Breukelen. Agachados: Vanenburg, Wouters, Van Tiggelen, Van Aerle e Mühren (Professional Sport/Popperfoto/Getty Images)
Entrou quem faltava: Van Basten

Em Dusseldorf, no dia 15 de junho, Van Basten substituiu Bosman na escalação que começou o jogo contra o English Team (a íntegra aqui). E que início cheio de sustos. No primeiro deles, Van Breukelen saiu mal do gol e foi driblado por Lineker, que chutou na trave. E a bola voltou ao goleiro holandês. No segundo susto, Glenn Hoddle cobrou falta na mesma trave que Lineker acertara. A bola bateu no poste, rolou próxima à linha do gol e foi dominada pela defesa holandesa.

A sorte estava virando. Prova disso foi o que se viu aos 44 minutos do primeiro tempo: após cruzamento de Gullit, da esquerda, Van Basten dominou na área, deu um drible humilhante em Tony Adams e bateu na saída de Shilton para abrir o placar. Eis ali a prova de que o camisa 12 tinha a habilidade que John Bosman não possuía, por mais esforçado e dedicado ao time que fosse.

No segundo tempo, aos seis minutos, Bryan Robson empatou para o English Team. Só que, aos 26 minutos, Van Basten novamente apareceu livre, recebeu passe de Gullit na área e recolocou a Oranje na frente. E, aos 30, em jogada ensaiada (cobrança de escanteio, desviada na área para o complemento na segunda trave: lembram da Copa de 2010?), Van Basten emplacou o terceiro gol na partida. Definitivamente, com três gols em um jogo, o atacante mostrava a Michels que estava pronto para ser titular.


No meio do caminho tinha uma orelha: Kieft

Caminho encontrado, a Holanda ganhava cada vez mais confiança. Mas não estava garantida nas semifinais da Euro. Afinal, a Irlanda era uma incógnita cada vez mais perigosa: ganhara da Inglaterra, e arrancara um empate por 1 a 1 contra a União Soviética. Tinha três pontos, um a mais do que a Oranje. Novamente, era vencer ou vencer. Mesmo que o nível técnico da seleção de Rinus Michels fosse superior ao dos irlandeses (e houvesse sido ampliado com a explosão de Van Basten), o jogo em Gelsenkirchen, no dia 18 de junho, era mais um caso em que a Holanda teria de matar um leão para seguir no torneio - a íntegra, aqui.

A seleção da Holanda que sofreu, mas conseguiu chegar às semifinais contra a Irlanda - contando com a sorte no gol. Em pé: Van Tiggelen, Ronald Koeman, Rijkaard, Van Basten, Gullit e Van Breukelen. Agachados: Mühren, Van Aerle, Wouters, Vanenburg e Erwin Koeman (Getty Images)
Novamente, houve sustos no começo: nos primeiros minutos de jogo, McGrath mandou uma bola na trave, de cabeça. Depois, só a Oranje trouxe perigo. Mas, por mais que se esforçasse, a dedicação irlandesa na defesa vencia as tentativas de ataque. Hora de Rinus Michels agir: aos cinco minutos do segundo tempo, ele colocou Wim Kieft no lugar de Erwin Koeman. Ainda que a seleção estivesse agora armada num 4-3-3, a insistência resumia-se a cruzamentos para a área prontamente afastados de cabeça, ou a chutes de fora da área defendidos pelo goleiro Pat Bonner. A Holanda ia se cansando. A semifinal impensável chegava para consagrar a Irlanda. Mas tinha uma orelha no meio do caminho.

37 minutos do segundo tempo. Gullit cruza da direita, e Paul McGrath, zagueiro, tirou de cabeça. De primeira, Ronald Koeman arrisca o voleio. Pega fraco. A bola saltita, Kieft voa para cabecear e dá com a orelha na bola. O destino dela muda, e ela continua saltitando, até morrer no canto esquerdo de Bonner. O 1 a 0 esperado viera, para explosão de Rinus Michels, no banco. Após o jogo, Kieft se mostrou até incrédulo, para a revista Voetbal International: "O chute errado de Ronald Koeman teve tanto efeito que, quando eu desviei, a bola continuou girando sobre seu eixo. O goleiro também não esperava que ela chegaria até mim, e deu um passo para o lado".

Na transmissão da TV Globo para aquele jogo (era sábado de manhã, no horário de Brasília), o narrador Luiz Alfredo mencionou "o abraço e a alegria de Rinus Michels" e a "bola toda, toda, cheia de veneno (...) surpreendendo Pat Bonner". Raul Plassmann também citou o desvio em seus comentários. E sintetizou bem o que significava a vitória: "Premia um futebol de mais técnica, mas que teve muita dificuldade".


Enfim, com o destino e a habilidade conspirando a favor, a Holanda chegava à semifinal da Euro, aos trancos e barrancos. E enfrentaria a Alemanha, sua eterna arquirrival, sua algoz costumeira.

Seria um jogo à parte. E foi.

Com Van Basten, além de manter a mobilidade, o ataque holandês ganhou em técnica (lineupbuilder.com)


sexta-feira, 22 de junho de 2018

30 anos da Euro 1988 - parte 1: escrevendo certo por linhas tortas

Esta Holanda fez história na Euro 1988. Da esquerda para a direita, na primeira fileira: Monne de Wit (fisioterapeuta), Gerrit Steenhuizen (roupeiro), Nol de Ruiter (auxiliar técnico), Rinus Michels (técnico), Bert van Lingen (auxiliar técnico) e Guus de Haan (auxiliar técnico). Na segunda fileira: Ronald Koeman, John Bosman, Wim Kieft, Wilbert Suvrijn, Joop Hiele, Hans van Breukelen, Hendrie Krüzen, Frank Rijkaard, Sjaak Troost, Wim Koevermans e Ruud Gullit. Na terceira fileira: Marco van Basten, Adri van Tiggelen, Berry van Aerle, Jan Wouters, Aron Winter, Arnold Mühren, John van't Schip, Gerald Vanenburg e Erwin Koeman (Cor Mulder/Arquivo ANP)

Antes da Copa de 1974, a Holanda fazia parte de uma escala menor, quase ignorada no futebol europeu e mundial. Não era plenamente inexperiente em grandes cenários (já participara dos Mundiais de 1934 e 1938), mas também era um time inofensivo. Como se sabe, 1974 mudou o modo como a seleção holandesa é vista mundo afora. Só que aquela competição também iniciou o estereótipo trágico: a Holanda joga bonito e perde. Isso foi visto à exaustão. Nas Copas do Mundo, em 1990, 1998, 2010, 2014... nas Eurocopas de 1992, 2000, 2008, 2012... enfim, várias vezes esperava-se o “agora vai” que traria o título tantas vezes merecido. Mas o “agora vai” só foi uma vez: na Euro 1988. E nesta época atual, em que a Oranje anda distante do destaque internacional, longe de Euros e Copas do Mundo (e sem dar a impressão de que logo voltará), nada mais lógico do que lembrar essa vez em que a Oranje “foi”, há 30 anos. 

Além de ser o único título da história da seleção adulta, a Eurocopa de 1988 marcou a vida do país. Movimentou-o a ponto de provocar grandes comoções populares e levar músicas às paradas de sucesso. Mas o sentido mais importante da conquista foi mesmo o futebolístico. Afinal, ela uniu aquela que é considerada a segunda grande geração de jogadores da história do país. Transformou os destaques dessa geração em estrelas, na Holanda e fora dela. E foi o símbolo de como 1988 é o grande ano da história do futebol holandês: além da vitória da seleção, o PSV conquistou a Tríplice Coroa (Copa dos Campeões, Campeonato Holandês e Copa da Holanda), e o Ajax chegou à final da Recopa - perdeu para o Mechelen, da Bélgica, é verdade, mas o campeão tinha quatro holandeses em sua escalação, mais o técnico Aad de Mos.

Enfim, por todos esses motivos, a coluna fará um especial até a próxima segunda-feira, 25 de junho, data exata dos 30 anos do título. É uma versão revista e ampliada do especial já publicado na Trivela, em 2013, por ocasião dos 25 anos da conquista. Serão quatro textos mostrando como foi a trajetória na Euro 1988, quando a Holanda teve a certeza de que podia ganhar algum dia, que não estava condenada a ser a eterna perdedora. Hora de começar a viagem de volta.

Um começo com turbulências

Durante a década de 1980, a Holanda sofreu com uma palavra: entressafra. Não havia mais a sabedoria tática de Ruud Krol, o esforço de Johan Neeskens, a elegância de Robert Rensenbrink e acima de tudo, a genialidade de Johan Cruyff. Ao mesmo tempo, por mais que seu talento técnico fosse indiscutível, a geração que surgia desde o início daquela década ainda não se mostrara capaz de desabrochar em campo. Um bom exemplo disso é que a Chuteira de Ouro já até fora ganha por Wim Kieft (1981/82) e Marco van Basten (1985/86). 

Mas algo continuava interrompendo o caminho de volta a uma grande competição. O duro caminho até que a nova geração ganhasse experiência suficiente incluiu duas dolorosas experiências em eliminatórias. Na qualificação para a Euro 1984, a vaga para a Espanha foi perdida no número de gols pró, após a Roja golear Malta por 12 a 1, na última rodada do grupo 7. Nas eliminatórias para a Copa de 1986, a Oranje foi para a repescagem contra a Bélgica, rival histórica. E perdeu o lugar no Mundial, por um gol, que os Diabos Vermelhos marcaram fora de casa. Na ida, em 16 de novembro de 1985, a Bélgica fizera 1 a 0, beneficiada pela expulsão rápida do atacante Wim Kieft (aos quatro minutos de jogo!). Quatro dias depois, na volta, em Roterdã (claro, De Kuip), a Laranja vencia por 2 a 0, mas um gol do zagueiro belga Georges Grün, a cinco minutos do fim, deu aos visitantes o lugar na Copa.

Foi o sinal definitivo de que faltava ainda algo àquela geração de jogadores. Treinador na campanha das eliminatórias, Leo Beenhakker deixou o cargo criticando a falta de esforço daquela geração de jogadores. À revista Voetbal International, "Don Leo" fulminou: "No intervalo daquele jogo [na volta da repescagem], eles pareciam animadinhos. Ninguém estava cansado, sem fôlego [de tanto correr], nem tinha qualquer lesão.  Num gramado desses [a grama em De Kuip estava castigada pelo inverno]. Como você pode não ter nada num gramado desses? Isso foi o que me chateou: a falta de senso de realidade. Ninguém estava naquele clima de "ou vai ou racha".

O time do fracasso holandês na repescagem das Eliminatórias europeias da Copa de 1986. Em pé: Wijnstekers, Houtman, Gullit, Spelbos, Rijkaard e Van Breukelen. Agachados: De Wit, Van Tiggelen, Van der Korput, Tahamata e Valke (VI Images)
Para tornar a situação ainda mais confusa, havia discordâncias sobre os rumos táticos do futebol do país. Isso ficou claro num congresso, organizado pela federação holandesa em janeiro de 1986. Nele debateram Leo Beenhakker - que colocou parte da culpa do fracasso em seu antecessor, Kees Rijvers, que comandara a Laranja entre 1981 e 1984; Rinus Michels, diretor técnico da federação holandesa; e Johan Cruyff, já despontando como treinador no Ajax, oposto a Michels e Beenhakker quanto às ideias sobre futebol. Tanto que, num dos dias do congresso, após o debate, Cruyff se surpreendeu ao ler num jornal, no dia seguinte, que os técnicos de Ajax, PSV, Groningen e Utrecht estavam de acordo quanto ao futuro do futebol holandês. Cruyff chegou aos debates já furioso: "Li que estamos todos de acordo e levei um susto. Só estamos de acordo no fato de que não há uma maneira única de as coisas serem feitas. Somente nisso".

Se havia um consolo, ele estava no fato de que a Holanda já tinha uma geração em plena evolução. Na defesa, enfim Hans van Breukelen se consolidara como goleiro titular, enquanto Ronald Koeman e Frank Rijkaard começavam a formar uma zaga de muito respeito na Europa; no ataque, Marco van Basten começaria a viver os grandes momentos de sua carreira exatamente naquele momento, enquanto Ruud Gullit partia da frente para começar a aparecer em todas as partes do campo. Ou seja: era uma base com a qual dava para se fazer um trabalho promissor. E os que haviam decepcionado Leo Beenhakker nas eliminatórias da Copa - Simon Tahamata, Michel van de Korput, Peter Houtman - começaram a dar lugar a gente que vinha para ficar por alguns anos: Adri van Tiggelen, Erwin Koeman, Jan Wouters.

Antes das eliminatórias para a Eurocopa, em 1986, Rinus Michels recebeu a tarefa de acumular o cargo de diretor técnico da federação holandesa com o comando da Oranje. E os comandados de Michels tiveram seus percalços. O começo foi bom, com a vitória por 1 a 0 sobre a Hungria, em 15 de outubro de 1986. Mas o empate sem gols com a Polônia, em 19 de novembro, em casa, na segunda rodada, já trouxe problemas. Pelo menos, o terceiro jogo deu margem a algum alívio: em 21 de dezembro, 2 a 0 sobre o Chipre, o membro mais fraco do grupo. Só que, na quarta rodada, veio mais um empate em casa: 1 a 1 contra a Grécia, em Roterdã, em 25 de março de 1987. Eram resultados perigosos. A situação melhorou com duas vitórias por 2 a 0 (contra a Hungria, em casa, no dia 29 de abril; e contra a Polônia, fora, em 14 de outubro). A Holanda continuava na frente do grupo 5, e estava invicta, perto da vaga na Euro. Mas qualquer falha podia ser fatal. 

E essa falha veio em 28 de outubro de 1987, na penúltima rodada das eliminatórias, numa goleada por 8 a 0, contra o Chipre, em Roterdã: quando o placar estava em 1 a 0, um rapaz de 21 anos, presente nas arquibancadas do De Kuip, atirou uma laranja, que acertou a cabeça do goleiro cipriota, Andris Charitou. Este teve de deixar o campo, e os companheiros de time também o fizeram, alegando falta de condições para continuarem jogando em segurança.


Depois, houve o retorno, e o jogo seguiu até os 8 a 0. Mas a Uefa acompanhou o incidente e anulou a vitória. Drama à vista: com 10 pontos, um à frente da Grécia, a Oranje teria de passar por um duríssimo confronto direto contra os helênicos, em Rodes, na última rodada, para assegurar sua classificação. Aí entrou a influência de Jacques Hogewoning, presidente da KNVB, a federação holandesa. Ainda durante a partida, Hogewoning mandou Co Greep, especialista médico da federação, para verificar as condições de Charitou. E lá viu que o goleiro estava em boas condições – algo confirmado pelo médico da seleção cipriota.

A equipe da KNVB trouxe tal informação no julgamento da Uefa em relação ao incidente. E deu certo: uma pena que poderia ser de vitória por 3 a 0 “dada” ao adversário transformou-se na obrigação de jogar uma nova partida contra o Chipre, com portões fechados, além do pagamento de uma multa. Algo contornável. Tão contornável que a Holanda fez tranquilos 4 a 0 nos cipriotas, em Amsterdã, no De Meer, em 9 de dezembro de 1987, e garantiu a classificação para a Eurocopa. Na última rodada, ainda houve a vitória sobre os gregos, por 3 a 0, em 16 de dezembro. E só aí a preparação para a Eurocopa pôde começar.


A escolha dos jogadores

Na fase final da preparação, em três amistosos ocorridos já em 1988, os jogadores convocáveis já estavam praticamente definidos. Algumas presenças constantes nas eliminatórias da Euro foram perdendo espaço. Na zaga, Sonny Silooy e Ronald Spelbos ficariam fora da fase final do torneio continental; no ataque, René van der Gijp fracassou nos testes. Já outras novidades agradaram pelo esforço, e conseguiram ser premiados com a convocação. Foi o caso dos atacantes John van't Schip e John Bosman, dos zagueiros Wilbert Suvrijn e Wim Koevermans, do meio-campo Hendrie Krüzen.

O técnico Rinus Michels chegou a algumas conclusões, que levaram à formação do time titular. A primeira era óbvia: os jogadores que vinham sendo convocados eram inegavelmente talentosos, mas não tinham o nível de compreensão tática da geração de 1974. Sozinhos, não conseguiriam concretizar uma revolução tática, como se vira havia 14 anos. Logo, o esquema tático deveria ser mais básico, já em sua origem. E assim foi, com a Holanda escalada num 4-4-2.

A segunda conclusão: sabia-se que Michels era um técnico absurdamente rígido em suas convicções. Sendo assim, a convocação do grupo de 20 jogadores que viajou à Alemanha para a Euro obedecia unicamente a seus critérios. Stanley Menzo, do Ajax, era um goleiro mais afeito ao jogo com os pés, que tanto fazia parte do Futebol Total? Michels não queria saber: como o titular Hans van Breukelen tinha mais capacidades debaixo das traves, o reserva também teria de ser assim. Logo, Menzo ficou de fora, e Joop Hiele, do Feyenoord, foi convocado. Hiele até jogara uma partida nas eliminatórias (Van Breukelen foi poupado por problemas psicológicos), mas certamente seria o reserva: titular absoluto na temporada da Tríplice Coroa do PSV, Van Breukelen se recuperara.

A terceira e mais importante conclusão também tem algo de óbvio: como um dos ideólogos do Futebol Total, Michels exigia dedicação ao lado coletivo da equipe. Sempre. Se houvesse algum jogador altamente habilidoso, mas sem compromisso, certamente iria para o banco de reservas. Essa era a razão principal para o atacante Marco van Basten, talvez o grande jogador holandês daquela geração, ficar entre os suplentes, a princípio: Rinus Michels não gostava de Marco. Achava-o um jogador preciosista, uma vedete, que preferia o gol bonito e as luzes dos refletores à ajuda estóica para o time. Exatamente a grande virtude de John Bosman, atacante titular da equipe. Discreto, Bosman era jogador bem mais ao gosto de Michels.

O outro motivo para Van Basten não ser a grande estrela do time era a já presente propensão dele a lesões. No final de 1987, o tornozelo que o faria encerrar a carreira precocemente passou pela primeira cirurgia, forçando o atacante a ficar cinco meses sem jogar. Além disso, Van Basten sofreu uma microfratura num osso próximo ao olho, e precisou de algum repouso na concentração holandesa para a competição, em Noordwijk. O próprio reconheceu que precisaria mostrar talento aos poucos: “Eu estava machucado, no Milan. Precisava entrar em forma novamente, e foi lógico, da parte de Michels, pensar na base do ‘em time que está ganhando não se mexe’”.

E a escalação do time também foi sendo montada para privilegiar o esforço, pedindo o talento apenas quando ele fosse necessário. No miolo de zaga, Ronald Koeman e Rijkaard sabiam avançar com habilidade para o ataque – e Rijkaard poderia até ser improvisado como volante. Sendo assim, era quase obrigatório que os laterais fossem mais defensivos, como eram Berry van Aerle, na direita, e Adri van Tiggelen, na esquerda.

Também foi para evitar que o espírito ofensivo dos dois zagueiros vitimasse sempre o goleiro Van Breukelen que Michels escalou Jan Wouters e Arnold Mühren, dois volantes mais afeitos à marcação, no seu 4-4-2. O veterano Mühren, de 37 anos, ainda tinha a capacidade de ser bom nos lançamentos longos, podendo ajudar Erwin Koeman e Vanenburg, que ficaram na armação. 

E aí, no ataque, enquanto Bosman faria o serviço sujo de marcar a saída de bola adversária, haveria a grande estrela: Ruud Gullit. Eleito o melhor jogador do ano em 1987, pelas revistas France Football e World Soccer, Ruud era o capitão da Oranje. Além de exuberante tecnicamente, era o homem de confiança de Rinus Michels em campo. Gullit era o camisa 10, literalmente. Era a grande esperança, com Van Basten à meia-bomba.

Assim Rinus Michels decidiu a escalação holandesa que começaria a Euro: pela lesão ocular e por ser julgado pouco esforçado, Van Basten deu lugar a John Bosman na estreia (lineupbuilder.com)
Van Breukelen; Van Aerle, Koeman, Rijkaard e Van Tiggelen; Wouters, Mühren, Erwin Koeman e Vanenburg; Gullit e Bosman. Eis a escalação com que a Holanda voltaria a uma competição de grande fama. E alcançou o sucesso. Mas não sem dificuldades. Nem sem mudanças.