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| Antes mesmo de poder erguer a taça em campo, o PSV já é o campeão holandês. Ou melhor: tricampeão. Dando toda a impressão de que está pronto para mais (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images) |
Exagero falar que o PSV é o "campeão da pobreza", apelido pejorativo dado no futebol da Holanda (Países Baixos) a um time que seja campeão nacional com a concorrência em má fase. Desde a chegada de Peter Bosz, há quase três anos, o clube da "Cidade das Luzes" voltou a dominar o Campeonato Holandês, e ser o clube com mais títulos da Eredivisie neste século - o 13º foi confirmado com cinco rodadas de antecipação, como se sabe, neste domingo, 5 de abril - só mostra a constância maior que os Eindhovenaren têm até agora. E tendo em vista que o clube já teve um tetracampeonato neste século, de 2005 a 2008, é muito plausível pensar que isso pode acontecer de novo.
Basta ter em vista todo o seu ambiente interno, com a dupla Marcel Brands (diretor geral) e Earnie Stewart (diretor de futebol) dando respaldo e condições de trabalho ao técnico Peter Bosz - que tem pleno respeito do grupo, ainda mais com contrato renovado até 2028. Além do mais, o ambiente do PSV costuma ser, e está, bem menos turbulento do que os dos arquirrivais Ajax (preso ao velho dilema do "DNA Ajax", tentando se reconstruir sob o novo diretor geral, Jordi Cruyff) e Feyenoord (com as escolhas cada vez mais criticadas de Dennis te Kloese, acumulando as direções gerais e de futebol, e do técnico Robin van Persie - a permanência de ambas será muito bem avaliada no fim da temporada).
Contudo, se o título de 2023/24 teve uma dominância até maior do que agora (vale lembrar do melhor primeiro turno dos 69 anos de profissionalismo do futebol neerlandês, 17 vitórias em 17 jogos) e o bicampeonato de 2024/25 teve a grande emoção como seu trunfo (o PSV chegou a abrir nove pontos de vantagem na liderança, despencou e ficou nove pontos atrás do Ajax, mas arrancou e viu o Ajax cair para confirmar a conquista na última rodada), inegavelmente o 27º título holandês chega à sala de troféus do Philips Stadion com sorrisos amarelos e a sensação de que falta alguma coisa. Talvez, o que falte seja uma ocasião que mostre esse domínio fora do nicho que acompanha o futebol holandês. Afinal, o PSV até chegou às semifinais da Copa da Holanda, mas caiu para o NEC, já considerado a surpresa mais agradável da temporada holandesa de futebol antes mesmo do fim dela. E na Liga dos Campeões, mostrando fragilidades defensivas e inconstância, ficou na fase de liga - queda decepcionante, para um clube que conseguira ir às oitavas de final na temporada passada. Se é tão dominante na liga, fica a impressão de que poderia tentar a "dupla coroa" que não consegue desde a temporada 2024/25. E se é tão dominante no futebol holandês, falta ao PSV uma campanha marcante em torneio europeu.
Porque, se o bicampeonato teve uma dose de drama tão tormentoso quanto gostoso a qualquer torcedor, o tricampeonato chegou ao natural. Mesmo que a pré-temporada tenha trazido saídas esperadas - Malik Tillman, Noa Lang, Johan Bakayoko, o ídolo Luuk de Jong -, as reposições trouxeram jogadores de qualidade inquestionável para o nível técnico do futebol holandês, como o atacante marfinense Alassane Pléa e o ponta-direita romeno Dennis Man (este, vindo por empréstimo). E de quebra, nomes fundamentais permaneceram em Eindhoven, como a dupla Joey Veerman-Jerdy Schouten, Mauro Júnior, Sergiño Dest (este, de contrato renovado mesmo após séria lesão no joelho), Guus Til, Ismael Saibari. Foi o suficiente para já abrir a temporada vencendo a Supercopa da Holanda, fazendo 2 a 1 no Go Ahead Eagles. Foi o suficiente para estrear no Campeonato Holandês já pespegando 6 a 1 no Sparta Rotterdam. Foi o suficiente para vencer três jogos nas três primeiras rodadas. Nem mesmo o sério problema de perder o recém-contratado Pléa logo na segunda rodada - no 2 a 0 no Twente, fora de casa, o marfinense sofreu grave lesão na cartilagem do joelho - tirou o PSV do prumo.
Entretanto, a primeira derrota da temporada já deixou claro o principal problema do PSV dentro de campo: suas desatenções defensivas, e a dificuldade para encarar equipes boas no contra-ataque. O Telstar, que não jogava a Eredivisie desde 1978, deixou tudo isso a nu em pleno Philips Stadion, na quarta rodada, fazendo 2 a 0 em 30 de agosto de 2025, no que foi considerado o jogo mais surpreendente da temporada atual. Pelo menos, o PSV contrabalançou sobrepujando, fora de casa, o supracitado NEC: em jogo muito ofensivo, digno dos dois melhores ataques do campeonato, os visitantes de Eindhoven fizeram 5 a 3 em Nijmegen, controlando o tranco na quinta rodada da Eredivisie, em 13 de setembro. Contudo, o começo na fase de liga da Champions exemplificou até melhor este PSV inconstante: o mesmo time que estreava tomando 3 a 1 do Union Saint-Gilloise belga em casa impunha 6 a 2 ao Napoli, também em Eindhoven.
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| Momentos como as duas derrotas para o Telstar deixam claro que o PSV ainda tem problemas a melhorar. Isso, sem contar a eliminação precoce na Liga dos Campeões... (ProShots/Getty Images) |
Pelo menos no Campeonato Holandês, o PSV logo deixou esse problema para trás no decorrer da campanha. Se permitiu o empate do Ajax na 6ª rodada - 2 a 2, em 21 de setembro de 2025 -, fazer 3 a 2 no Feyenoord, outro clássico, na 10ª rodada, em 26 de outubro, já indicou a abertura de vantagem na liderança. Assim como já fora na temporada passada, golear de novo o AZ em Alkmaar - 5 a 1, na 12ª rodada, em 9 de novembro - deixou claro que o Campeonato Holandês tinha um favorito ao título. E mesmo em jogos com atuações inferiores, o PSV fazia o que um time campeão precisa fazer: vencer, compensar dias ruins com o resultado. Exemplos assim sobraram: na 13ª rodada, na única chance fora de casa contra o NAC Breda, 1 a 0, e assim o placar ficou. Nas duas últimas partidas de 2025 pela Eredivisie, o PSV também superou suas dificuldades (fez 2 a 0 no Heracles Almelo, tomou o empate e ainda fez 4 a 3, na 16ª rodada, em 13 de dezembro; e virou para 2 a 1 no Utrecht, fora de casa, na 17ª rodada, fechando o turno).
2025 terminou, 2026 começou, e ficava a dúvida lembrando de 2025: se o PSV despencara na virada de temporada passada ao perder muitos jogadores machucados, como seria agora, vendo nomes como Ricardo Pepi novamente fora de combate (vítima de fratura no braço)? Simples: seria melhor. A primeira rodada do returno começou com 5 a 1 no Excelsior, fora de casa, em 10 de janeiro. Em 17 de janeiro, fora de casa, um jogo mais difícil do que se pensava contra o Fortuna Sittard teve vitória (2 a 1). Mesmo quando a vitória não vinha, pelo menos um ponto acontecia - contra o NAC Breda, em casa, na 20ª rodada, o zagueiro Armando Obispo foi buscar o gol do empate em 2 a 2 nos acréscimos.
Paralelamente, tentativas do técnico Peter Bosz tinham mais sucesso. Se os atacantes "de ofício" (Alassane Pléa, Ricardo Pepi, Myron Boadu) estavam machucados, Guus Til era improvisado no meio da área... e chegava a 11 gols. Se o miolo de defesa sofria, Jerdy Schouten era recuado para ele - e dava certo. Assim como dava certo contar com os avanços de Ismael Saibari, forte candidato a melhor jogador do Campeonato Holandês. E se dava certo, era pela segurança habitual que traziam nomes como Mauro Júnior (o brasileiro com mais partidas na história do PSV, um ídolo do clube) e Perisic. Enquanto o NEC oscilava, enquanto Feyenoord e Ajax mergulhavam na crise, o PSV seguia. E quando fez 3 a 0 ainda no primeiro tempo do clássico contra o Feyenoord, na 21ª rodada, em 1º de fevereiro, abrindo dezessete pontos de vantagem na liderança, o título virou questão de tempo. E pouco tempo: começou a se falar da possibilidade de quebrar o recorde de maior precocidade na conquista do título holandês, coisa que o PSV mesmo fizera, em abril de 1978.
Se as eliminações na Liga dos Campeões e na Copa da Holanda decepcionavam, também deixavam mais tempo para o PSV se concentrar no título que viria. Se havia mais derrotas no caminho - 2 a 1 tomados do Volendam, na 23ª rodada; 3 a 2 do NEC, na 27ª rodada, em outro jogo altamente equilibrado; e os 3 a 1 do Telstar, na 28ª rodada, que já poderia ter terminado com o título -, elas pareciam apenas adiar um pouco a conquista.
Mas o PSV fez sua parte para que ela viesse com o recorde. Contra o Utrecht, ficou com 2 a 0 atrás, buscou a virada, e ainda tomou mais um empate antes de que Couhaib Driouech - coadjuvante útil sempre - fizesse o gol do 4 a 3. No dia seguinte, o Feyenoord fracassou contra o Volendam (0 a 0). E o título veio. Como provavelmente viria, tamanha era a confiança interna no PSV. Em campo, segundo disse Jerdy Schouten - ausência nesta reta final e nos próximos meses, com lesão ligamentar no joelho: "Em nenhum momento pensei que não seríamos campeões". Fora dele também, com o diretor de futebol Earnie Stewart apregoando: "Trabalho todos os dias é para isso mesmo".
Vêm aí mais desafios: as prováveis saídas de Schouten, de Veerman, de Saibari. Mas o PSV parece estar pronto para elas. Típico de um campeão em melhoria contínua, em que todo mundo - diretoria, técnico, jogadores - parece saber exatamente o que fazer. Para fazer o que sempre dá prazer: erguer a taça.



