sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Poucas esperanças


A seleção holandesa sub-21 atual tem a pesada função de dar alguma esperança de renovação. E começou mal (Pro Shots)

Que a seleção principal da Holanda vive uma crise, isso o leitor já sabe há muito tempo. E ela teve nova prova incontestável na semana passada, com as rodadas das Eliminatórias da Copa de 2018. Se a seleção da França ainda tem muito o que provar, também (algo indicado pelo empate relativamente vexatório com Luxemburgo – que teve um destaque em Gerson Rodrigues, que atua no Telstar, da segunda divisão holandesa), foi incontestável o 4 a 0 dos Bleus na Oranje, quinta-feira retrasada. E ninguém, torcida ou imprensa, se deixou levar excessivamente pelos 3 a 1 sobre a Bulgária, que manteve as esperanças remotas de ir à repescagem da qualificação europeia. Com o cenário desalentador na equipe adulta, a equipe laranja sub-21 vira esperança de dias melhores. Mas mesmo essa esperança também caiu, com o mau começo holandês nas eliminatórias da Euro sub-21.

Pois é: na equipe adulta, o que se vê são más atuações de um time que se divide entre veteranos e novatos. Os de mais idade ora se esforçam e mostram que têm algo a dar (Arjen Robben), ora têm dificuldades para encontrar ritmo (Wesley Sneijder foi tão lento contra a França que tornou inevitável sua ida para o banco contra a Bulgária; Robin van Persie entrou para jogar contra os franceses, lesionou o joelho e foi cortado). Já os novatos têm desempenhos altamente irregulares, entre o promissor – Davy Pröpper, contra a Bulgária – e o preocupante – Wesley Hoedt, contra a França. E assim, à beira de ficar fora da Copa, já começa o discurso: “Daqui a pouco a Holanda reage, daqui a pouco os garotos crescem e ganham experiência”.

Por isso, merecia alguma atenção a seleção sub-21 que também atuou nas datas Fifa. Tanto por alguns jogadores que até já estiveram na equipe principal (caso do meio-campista Bart Ramselaar), como pelo fato dela começar a disputar a qualificação para a Euro da categoria. E tendo um desafio respeitável no grupo 4, com apenas uma vaga direta para a edição de 2019, na Itália: a seleção da Inglaterra, semifinalista da Euro sub-21 realizada há dois meses - e reforçada por muita gente campeã mundial sub-20, como bem apontou Art Langeler, técnico da Jong Oranje (a “Laranja Jovem”).

Estreando na sexta passada, em Doetinchem, justamente contra a Inglaterra, a equipe treinada por Langeler teve desempenho até elogiável. Foi ofensiva e veloz no primeiro tempo contra os Young Lions – e também insegura defensivamente, como mostrou o contragolpe sofrido que levou ao gol de Dominic Calvert-Lewin para os ingleses, aos 20 minutos do primeiro tempo. Pelo menos, a velocidade continuou, e a troca de passes levou ao gol de Ramselaar para o empate, ainda aos 32 minutos, na etapa inicial. Continuando com uma atuação promissora, não faltou quem visse um consolo para as mazelas da equipe de cima no 1 a 1 dos jovens. Sensação fortalecida pelas palavras de Art Langeler: “Mostramos que a Holanda realmente tem muitos talentos, e que podemos disputar seriamente [a vaga]”.

Pois se a Holanda principal recuperou-se ligeiramente no domingo passado, foi a vez da Jong Oranje dar motivos para preocupação, na terça. Contra a Escócia, fora de casa, foi insegura defensivamente, sem conseguir a rapidez ofensiva da estreia. Segurou-se quanto foi possível, mas terminou sofrendo o 2 a 0 – para piorar, com o segundo gol escocês, de Stevie Mallan, mostrando falha do zagueiro Pablo Rosario, do PSV. Resultado: queda para a penúltima posição na chave, com apenas um ponto.

Derrota da Jong Oranje na semifinal da Euro sub-21 de 2013 já foi dura. Mas diante do que se vê agora, é honrosa (ANP)
Obviamente, há muito tempo para a seleção sub-21 se recuperar. Mas caso isso não ocorra, será mais um sinal preocupante para o futebol holandês. Não que apenas títulos sejam importantes para equipes jovens, mas participar do Europeu da categoria sempre é um sinal de que a reposição de veteranos será feita. E das Euros sub-21 da atual década, a Holanda participou da fase final apenas em 2013. Pior: dos titulares daquela campanha elogiável (queda para a Itália, nas semifinais), apenas Kevin Strootman e Stefan de Vrij são titulares absolutos na equipe adulta – Jeroen Zoet e Bruno Martins Indi até aparecem nas convocações, mas não conseguem uma sequência de atuações entre os titulares.

A preocupação só aumenta ao lembrar de eliminações anteriores da seleção holandesa, nas eliminatórias da Euro sub-21 – com regulamento diferente e apenas oito equipes na fase final, a Jong Oranje terminava liderando seus grupos, mas decepcionava na repescagem que definia os classificados. Para 2011, com Tim Krul, Luuk de Jong e Bas Dost titulares, queda para a Ucrânia onde jogava Yevhen Konoplyanka (derrota por 3 a 1 na ida, em casa, e vitória insuficiente por 2 a 0 na volta). Na edição retrasada, de 2015, mesmo com jogadores experientes (Terence Kongolo, Jetro Willems, Wout Weghorst), as atuações péssimas da defesa colocaram tudo a perder na repescagem de qualificação contra Portugal, futuro vice-campeão da categoria, contando com gente como Renato Sanches e Bernardo Silva (2 a 0 sofridos na ida, incrível derrota por 5 a 4 na volta).

E agora, este mau começo nas eliminatórias. Que ainda pode ser consertado. Há apostas: Ramselaar, Justin Kluivert, Steven Bergwijn, o atacante Gervane Kastaneer, até mesmo gente que pode se alternar entre seleção principal e sub-21 - como Timothy Fosu-Mensah, até chamado por Art Langeler antes da “promoção” às pressas na convocação de Dick Advocaat. Mas um novo fracasso diminuirá ainda mais as esperanças, mostrando que não bastará a confiança de que a nova geração um dia explodirá para o biênio 2020/2022. E só ampliará o desalento que vive o futebol holandês, em relação às suas seleções.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 8 de setembro de 2017)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Top 10: holandeses na Serie A

Quando éramos reis: o domínio do trio Gullit-Van Basten-Rijkaard no Milan simbolizou grande momento do futebol holandês (AP)
Em fevereiro deste 2017, o autor deste Espreme a Laranja teve a honra de colaborar para uma verdadeira referência: o então Quattro Tratti, hoje Calciopédia, site em português sobre futebol italiano. E se o tema do texto laranja foi uma descrição da decepcionante passagem de Edwin van der Sar pela Juventus, entre 1999 e 2001, hoje o tema é azul - ou melhor, "azzurro": o blog reproduz na íntegra um texto de Caio Dellagiustina para o Calciopédia, publicado em setembro de 2014, com a relação dos dez holandeses de maior destaque na história do Campeonato Italiano. É o início de uma série sobre holandeses em outros campeonatos conhecidos da Europa. Confira - e aproveite para entrar no sempre recomendável Calciopédia!

Por Caio Dellagiustina

Laranja e azul são cores complementares, dizem os artistas e designers mundo afora. Ao todo 43 jogadores holandeses jogaram na Itália – hoje, sete holandeses atuam na Serie A, com destaque para Kevin Strootman, Nigel de Jong, Stefan de Vrij e Urby Emanuelson. Antes deles, porém, alguns marcaram época e viraram até referência de uma época. Foi o que aconteceu com Marco van Basten, Frank Rijkaard e Ruus Gullit, que formaram o “Milan dos holandeses”, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990.Os holandeses começaram a marcar presença na Itália a partir do fim da década de 1940. O primeiro deles, Faas Wilkes, fez sucesso (e consta na nossa listagem) e abriu as portas para outros. No entanto, seus compatriotas começaram a ser vistos com frequência em campos da Bota a partir da década de 1980, logo após o final da “Geração Total” e com o sucesso dos jogadores campeões europeus de 1988.

Grandes jogadores, alguns até os maiores da história da seleção laranja, já desfilaram seu talento por palcos italianos. De Van Basten a Seedorf, de Wilkes a Sneijder, muitos foram os talentos. Se azul e laranja se complementam, no entanto, no que diz respeito ao futebol, o laranja da Holanda nem sempre se deu bem com o azul da Itália. Muitos dos jogadores laranjas chegaram com muitas expectativas, mas não renderam o que deles se esperava e fracassaram. Casos como os de Michael Reiziger e Patrick Kluivert, que não deram certo no Milan, simbolizam o fato de que mesmo bons jogadores da Oranje não conseguiram se firmar na Serie A e tiveram vida curta na Itália – isso sem falar em outros fracassos, como Andy van der Meyde, Klaas-Jan Huntelaar e Maarten Stekelenburg. Até mesmo Johan Cruyff, o maior jogador holandês da história, fracassou no Belpaese. No final da carreira, foi avaliado em um jogo-teste com o Milan, teve atuação horrorosa, foi vaiado pela torcida e nem foi contratado.

Os fracassos tinham diversas razões. Boa parte deles, por uma característica negativa de muitos jogadores holandeses: a de se lesionarem muitas vezes. Foi o que aconteceu com Marciano Vink, fera do Elifoot 98. O atacante de origem surinamesa atuou apenas 13 vezes no Genoa, por exemplo.Outros, por sua vez, não fracassaram, mas tiveram passagem discreta, como Edwin van der Sar, Wim Jonk e Mark van Bommel. Até mesmo aqueles que aparecem nesse Top 10 tiveram momentos bem ruins ou pouco brilhantes na Itália. São os casos de Edgar Davids, em suas passagens por Milan e Inter, ou Dennis Bergkamp, que criou expectativas em sua chegada à Inter, mas foi tornar-se ídolo no Arsenal. Para montar as listas, o Calciopédia levou em consideração a importância de determinado jogador na história dos clubes que defendeu, qualidade técnica do atleta versus expectativa, identificação com as torcidas e o dia a dia do clube (mesmo após o fim da carreira), grau de participação nas conquistas, respaldo atingido através da equipe, desempenho por seleções nacionais e prêmios individuais. Listas são sempre discutíveis, é claro, e você pode deixar a sua nos comentários!

Além do “top 10”, com detalhes sobre os jogadores, suas conquistas e motivos que os credenciam a figurar em nossa listagem, damos espaço para mais alguns jogadores de destaque. Quem não atingiu o índice necessário para entrar no top 10 é mostrado no ranking a seguir.

Observações: Para saber mais sobre os jogadores, os links levam a seus perfis no site. Os títulos e prêmios individuais citados são apenas aqueles conquistados pelos jogadores em seu período na Itália. Também foram computadas premiações pelas seleções nacionais, desde que ocorressem durante a passagem dos jogadores no período em questão.

Top 20 Holandeses na Itália
11º - Jaap Stam; 12º - Bryan Roy; 13º - Nigel de Jong; 14º - Edwin van der Sar; 15º - Kevin Strootman, 16º - Wim Jonk; 17º - Mark van Bommel; 18º - Patrick Kluivert; 19º - John van ‘t Schip; 20º - Wim Kieft.

Bergkamp até ganhou Copa da UEFA pela Inter, mas não deixou em Milão tantas saudades quanto no Arsenal (Bob Thomas/Getty Images)

10º – Dennis Bergkamp

Posição: atacante
Clube em que atuou: Internazionale (1993 a 1995)
Títulos conquistados: 1 Copa da UEFA (1993/94)
Prêmios individuais: Bola de Bronze na disputa de melhor
jogador do ano (1993) e artilheiro da Copa da Uefa (1993/94)

Após ser destaque no Ajax, Bergkamp teve propostas de vários times da Europa, como Real Madrid e Barcelona, mas acabou escolhendo a Inter, por querer jogar na Itália, “a maior liga” da época, segundo o holandês. Chegou juntamente com um compatriota, o meia Wim Jonk, também do Ajax. Porém, demorou a se acertar. Foram seis meses sem marcar e alguns problemas físicos, mas conseguiu ajudar a equipe a conquistar a Copa da Uefa, coroando-o como artilheiro da competição, com oito gols em onze partidas.

Mesmo com o título e o prêmio de goleador, Bergkamp não conseguiu engrenar. Seu estilo de dribles curtos e chutes de média distância não encaixou no futebol italiano e o holandês acabou cedido ao Arsenal, onde jogou por onze anos, até encerrar a carreira – curiosamente, Jonk também deixou a Inter na mesma época, transferindo-se ao PSV. Na Itália, deixou apenas 22 gols e modestas 72 aparições com a camisa nerazzurra, além de conflitos com colegas de equipe e imprensa, e uma homenagem. O prêmio “Burro da Semana”, oferecido ao pior jogador da rodada acabou se tornando “Bergkamp da Semana”. Nos Gunners, se tornou um dos maiores jogadores da história do futebol inglês, contrariando àqueles que não esperaram pelo seu sucesso na Itália.

Winter viveu relação de amor e ódio na Lazio, e encontrou a paz na Inter (inter.it)
9º – Aron Winter

Posição: meio-campista
Clubes em que atuou: Lazio (1992 a 1996) e Internazionale (1996 a 1999)
Títulos conquistados: 1 Copa da UEFA (1997/98)
Prêmios individuais: nenhum

Winter viveu uma relação de amor e ódio com a Lazio, mais especificamente com sua torcida. Desde sua chegada, teve muito medo, pois sofreu com atos racistas quase constantemente – Winter é negro e judeu, algo que não foi aceito pela ala mais conservadora da torcida da Lazio. Mesmo com a contrariedade de setores da torcida biancoceleste, foi titular por quatro anos. Seu chute potente e sua força física lhe rendeu espaço nos times de Dino Zoff e Zdenek Zeman. Marcou 21 gols em sua passagem por Roma.

Após o período na capital, trocou a Lazio pela Inter, onde foi de vilão a herói. Disputou duas finais de Copa da Uefa seguidas. Na primeira a Beneamata foi derrotada pelo Schalke 04 com Winter errando o pênalti decisivo. No ano seguinte, foi um dos pilares da equipe campeã, vencendo a Lazio na decisão. Em Milão, Winter jogou de forma mais recuada em relação aos tempos de laziale e marcou apenas uma vez vestindo nerazzurro. Em 1999, retornou para a Holanda, onde voltou a jogar no mesmo Ajax que o projetou.

Dá para cravar: antes de Maradona, Krol foi o mais conhecido nome da história do Napoli (spazionapoli.it)

8º – Ruud Krol

Posição: lateral esquerdo e zagueiro
Clube em que atuou: Napoli (1980 a 1984)
Títulos conquistados: nenhum
Prêmios individuais: Guerin d’Oro (1981)

Após dois vices-campeonatos mundiais com a Holanda e a conquista da soberania europeia com o Ajax (vencendo duas Copas dos Campeões contra times italianos, Inter e Juventus, respectivamente), Ruud Krol chegou ao Napoli após uma passagem um tanto quanto frustrada pelo ainda amador futebol canadense. Já em fase final de carreira, o polivalente defensor foi líder de uma equipe sem tanto destaque.

Na equipe partenopea, comandava a defesa e se arriscava com qualidade ao ataque, jogando como líbero, apesar de lateral esquerdo de origem. Nos 107 jogos, no período de 1980 a 1984, fez apenas um gol, contra o Brescia, em sua primeira temporada, levando o clube à terceira colocação da Serie A. Mas, deixou na lembrança da torcida um futebol elegante e envolvente, sendo considerado um dos mais importantes jogadores do Napoli. Sua saída abriu espaço para um certo Diego Maradona.

Faas Wilkes teve de escolher entre clube italiano e seleção holandesa. Ficou com a Inter (alchetron.com)


7º – Faas Wilkes

Posição: meio-campista
Clubes em que atuou: Internazionale (1949 a 1952) e Torino (1952 e 1953)
Títulos conquistados: nenhum
Prêmios individuais: nenhum

Um dos melhores jogadores da década de 1950, Faas Wilkes ganhou destaque por sua habilidade e por seus movimentos extravagantes. Foi apelidado de Mona Lisa de Rotterdam, devido a seus dribles, que lembravam uma obra de arte. Wilkes começou no pequeno Xerxes, de sua terra natal, e aos 26 anos – ainda não como profissional e após ter sua transferência para o Milan vetada pela federação holandesa – chegou à Inter, onde atuou durante três anos e conquistou os torcedores nerazzurri, mesmo não vencendo nenhum título. Conhecido por ser o popular “fominha” e com ares galanteadores – para alguns, o Cristiano Ronaldo da época –, marcou 47 gols em 95 jogos, sendo lembrado até hoje no Giuseppe Meazza. Transferiu-se para o Torino, onde, por conta de uma série lesão, não teve o mesmo desempenho, marcando apenas um gol em 12 jogos.

Após um ano no Piemonte, mudou-se para a Espanha, para atuar no Valencia, e ser considerado um dos três melhores estrangeiros do país, ao lado de Di Stefano e Kubala. Foi o ídolo e inspiração do grande jogador holandês de todos os tempos, Johan Cruyff. Até hoje, com 35 gols em 38 jogos, é o quarto maior artilheiro da seleção holandesa, atrás de Van Persie, Kluivert e Bergkamp.

Davids ensaiou um fracasso no Milan. Mas na Juventus, tornou-se um dos grandes volantes de seu tempo (Reuters)

6º – Edgar Davids

Posição: volante
Clubes em que atuou: Milan (1996 e 1997), Juventus (1997 a 2004) e Inter (2004 e 2005)
Títulos conquistados: 3 Campeonatos Italianos (1997/98, 2001/02 e 2002/03); 1 Copa da Itália (2004/05), 2 Supercopas da Itália (2001/02 e 2002/03) e 1 Copa Intertoto (1999)
Prêmios individuais: Integrante da equipe de melhores na Copa de 1998 e na Euro 2000

Após despontar no Ajax, na geração campeã europeia na década de 1990, Davids foi contratado pelo Milan, a custo zero. Ficou quase um ano e meio em Milão e não deixou saudades. Transferiu-se para a Juventus – para ser o primeiro holandês da equipe –, onde comprovou tudo o que dele se esperava. Em Turim, apesar de ter ficado um ano parado por doping, se transformou em peça fundamental do meio campo, com seu futebol agressivo, implacável, mas de muita qualidade. Chamado de "Pitbull", pelo seu poder de marcação, roubadas de bola e muitas faltas, Davids também era um volante técnico, que se aventurava pelo ataque e caía pelo lado esquerdo, ajudando a armar jogadas.

Davids foi pilar das principais conquistas juventinas enquanto lá esteve, ao lado de Antonio Conte, Didier Deschamps, Zinedine Zidane, Pavel Nedved, Alessandro del Piero e David Trezeguet. O "Pitbull" perdeu espaço na Juve quando se desentendeu com o treinador Marcello Lippi e foi cedido, por empréstimo, para o Barcelona. Menos de seis meses depois voltava à Itália, dessa vez para jogar na Inter, que comprou seu passe. Tornou-se, assim, um dos 10 jogadores na história a terem vestido as camisas dos três gigantes italianos. Mas, novamente em Milão, teve atuações a serem esquecidas e, ao final da temporada, foi cedido gratuitamente ao Tottenham e encerrou seu ciclo na Itália.

Quando era um dos melhores jogadores do mundo, Sneijder estava na Internazionale (US Presswire)

5º – Wesley Sneijder

Posição: meio-campista
Clube em que atuou: Inter (2009 a 2013)
Títulos conquistados: Campeonato Italiano (2009/10); 2 Copas da Itália (2009/10 e 2010/11), 1 Supercopa da Itália (2010), Liga dos Campeões (2009/10) e Mundial de Clubes (2010)
Prêmios individuais: Bola de Prata da Copa do Mundo (2010), artilheiro da Copa do Mundo (2010), Jogador do ano para a UEFA (2009/10), Meio-campista do ano na seleção da UEFA (2009/10), e Integrante da Seleção da Copa do Mundo (2010), da equipe do ano da UEFA (2009/10), da seleção do Campeonato Italiano (2009/10) e da FIFPro (2009/10).

Sem muito destaque no Real Madrid com as chegadas de Kaká e Cristiano Ronaldo, Sneijder trocou os merengues pela Inter de Milão, a fim de retomar o bom momento na carreira e ser o cara da equipe de José Mourinho. E em sua primeira temporada carregou a Inter até o título europeu, que não vinha desde 1965, levando o prêmio de melhor jogador da competição. Ao lado de Milito, foi o jogador mais decisivo na campanha da Tríplice Coroa nerazzurra – feito inédito entre clubes italianos e ainda não igualado. Durante a temporada, teve como pontos altos as boas partidas nos dois dérbis de Milão, um gol decisivo sobre o CSKA Moscou nas quartas de final da LC, um gol e uma assistência na partida mais lembrada pelo torcedor azul e preto na história recente (o 3 a 1 na ida das semifinais, contra o Barcelona), e também uma assistência na final, contra o Bayern de Munique.

Manteve o bom desempenho durante a Copa do Mundo, comandando a Holanda com cinco gols até a final, quando a Oranje foi derrotada pela Espanha. Para muitos, mereceria o prêmio de melhor jogador do mundo, mas acabou em terceiro, atrás de Messi, Xaxi e Iniesta. Venceu tudo o que podia, com exceção da Supercopa da Europa, mas teve sua relação com o clube desgastada a partir de 2012, quando o clube queria que ele reduzisse o salário para renovar seu contrato. Afastado do time por questões disciplinares e pelos problemas contratuais, ficou sem jogar do final de setembro do mesmo ano ao final de janeiro de 2013. Especulado em outros gigantes, acabou preferindo o Galatasaray, mas até hoje faz falta ao meio campo da Inter um cérebro como o do ex-camisa 10. Até a chegada de Hernanes, a Inter também sofreu com a falta de um batedor de faltas do seu nível. Ao todo, Wes vestiu a camisa da Beneamata em 116 oportunidades e marcou 22 gols.

Seedorf viveu mais uma história de recuperação: ruim na Inter, virou antológico no Milan (AP)


Posição: meio-campista
Clubes em que atuou: Sampdoria (1995 e 1996), Inter (2000 a 2002) e Milan (2002 a 2012)
Títulos conquistados: 2 Campeonatos Italianos (2003/04 e 2010/11); 1 Copa da Itália (2002/03), 2 Supercopas da Itália (2004 e 2011), 2 Ligas dos Campeões (2002/03 e 2006/07), 2 Supercopas Europeias (2003 e 2007) e 1 Mundial de Clubes (2007)
Prêmios individuais: Melhor meia-direita e melhor jogador do Campeonato Italiano (2003/04); Melhor meio-campista da Liga dos Campeões (2002/03 e 2006/07), Melhor meio-campista da Europa (2007), Bola de Prata do Mundial de Clubes (2007) e Integrante do Dream Team do Campeonato Italiano, da Liga dos Campeões e da lista Fifa 100.

Após destaque no brilhante time do Ajax no início dos anos 1990, Seedorf iniciou sua trajetória na Itália atuando pela Sampdoria. Depois de apenas um ano nos Blucerchiati, chamou a atenção do Real Madrid, clube pelo qual atuou durante quatro anos antes de retornar à Bota, para jogar na Inter. Com a credencial de meia habilidoso, que armava com precisão, marcava com qualidade e ainda tinha um excelente chute de longa distância, não embalou na equipe nerazzurra, visto que era utilizado como meia aberto pela direita – apesar de atuar em todas as posições do meio-campo, Seedorf sempre se saiu melhor atuando centralizado. Acabou sendo trocado por Francesco Coco, com o rival Milan, em um dos piores negócios da história da Inter.

No lado rossonero de Milão, Seedorf viveu seu melhor momento na carreira, destacando-se na Itália e na Europa, formando o meio-campo ao lado de Andrea Pirlo, Gennaro Gattuso e Kaká durante vários anos, conquistando especialmente a Liga dos Campeões, com propriedades. A conquista da orelhuda também o consagrou como um dos únicos jogadores que venceu a competição por três clubes diferentes. Em um time que teve alguns holandeses como grandes craques, Seedorf não fez feio – muito pelo contrário – e se tornou um dos maiores jogadores da história recente do Diavolo. Em dez anos de clube, disputou 432 partidas pelo clube, superando o mito Liedholm como o estrangeiro com mais partidas vestindo vermelho e preto. Dois anos depois de deixar o clube, largou o Botafogo prestes a disputar a Copa Libertadores e sua carreira como jogador para se tornar técnico do Milan. Porém, sofreu com a impaciência de Silvio Berlusconi e foi demitido menos de seis meses depois.

A força física se aliava à qualidade técnica. E Gullit brilhou no Milan (acmilan.it)

3º – Ruud Gullit

Posição: atacante
Clubes em que atuou: Milan (1987 a 1993 e 1994) e Sampdoria (1993 e 1994 e 1994 a 1995).
Títulos conquistados: 3 Campeonatos Italianos (1987/88, 1991/92 e 1992/93), 3 Supercopas da Itália (1988,  1992 e 1994), Copa da Itália (1993/94), 2 Copas dos Campeões (1988/89 e 1989/90), 2 Supercopas Europeias (1989 e 1990), 2 Mundiais Interclubes (1989 e 1990) e 1 Eurocopa (1988)
Prêmios individuais: Esportista Holandês do ano (1987), Bola de Ouro para a revista France Football (1987), Bola de Prata para a revista France Football (1988), Jogador do ano da World Soccer Magazine (1987 e 1989), 3º Melhor jogador do ano da IFFHS (1988 e 1989) e inserido na lista Fifa 100 (2004)

Um dos maiores jogadores holandeses da história, Gullit desembarcou em Milão no auge de sua carreira, com um valor recorde em transferências do Milan, no ano em que venceria o prêmio de melhor jogador do mundo. Versátil, formou o trio de ataque – embora as vezes jogasse como meia – ao lado de seu conterrâneo Van Basten, também recém-chegado, e de Pietro Paolo Virdis. E já em sua primeira temporada ajudou o rossonero a destronar o Napoli de Diego Maradona e ficar com o título italiano. Gullit ajudou com muita técnica com a bola nos pés, habilidade e nove gols marcados. Logo depois, capitaneou a Holanda de Rinus Michels no título europeu e fez um dos gols na final contra a União Soviética.

Multicampeão e adorado pela torcida, que praticava a “Gullitmania”, usando perucas rastafári como o cabelo do ídolo (foto), perdeu espaço e foi emprestado à Sampdoria. Com o título da Copa da Itália, destaque e artilharia no time de Sven-Göran Eriksson, retornou ao Milan, mas pouco jogou. Voltou à Samp ainda na metade da temporada, mas já não parecia tão empolgado com a vida e o assédio na Bota e escolheu a Inglaterra para jogar seus últimos anos como atleta profissional.

Quando jogava pelo Milan, Rijkaard parecia cobrir todos os cantos do campo: volante ou meio-campista (Leo Vogelzang)


Posição: meio-campista
Clube em que atuou: Milan (1988 a 1993)
Títulos conquistados: 2 Campeonatos Italianos (1991/92 e 1992/93), 2 Supercopas da Itália (1988 e 1992), 2 Copas dos Campeões (1988/89 e 1989/90), 2 Supercopas Europeias (1989 e 1990), 2 Mundiais Interclubes (1989 e 1990) e 1 Eurocopa (1988)
Prêmios individuais: Bola de Bronze para a revista France Football (1988 e 1989), melhor estrangeiro do Campeonato Italiano (1991/92), melhor jogador do Campeonato Italiano (1991/92) e inserido na lista Fifa 100 (2004)

Último do histórico trio holandês a chegar e o primeiro a sair. Porém a participação de Rijkaard no Milan é tão lembrada quanto de seus conterrâneos com a camisa rossonera. Vencedor dos principais títulos dessa geração, Rijkaard foi um dos pilares do meio-campo – mesmo com o início como zagueiro – tanto do Milan quanto da seleção holandesa. Após ser revelado pela famosa escola do Ajax e passar rapidamente por Sporting e Zaragoza, a chegada ao Milan reergueu seu futebol e fez dele um dos melhores jogadores da Europa.

Atuou durante cinco temporadas, jogando 201 vezes e marcando 26 gols. Comandou o meio-campo com marcação e movimentação e, sob o comando de Arrigo Sacchi, levantou a Copa dos Campeões de 1989 com propriedade, o que lhe proporcionou disputar o prêmio da Bola de Ouro da revista France Football, dominado pelo Milan – além de Rijkaard, Franco Baresi ficou em segundo e van Basten venceu. Em 1990, fez o gol do título da Copa dos Campeões sobre o Benfica. Rijkaard, aliás, encerrou esta temporada com chave de ouro e realizou a façanha de marcar gols em todas as finais disputadas pelos rossoneri. Nos dois anos seguintes, já sob o comando de Capello, faturou o Italiano, título que ainda não tinha. Após trocar o Milan pelo Ajax, onde se aposentaria, pregaria uma peça no antigo time: na final da Liga dos Campeões em 1995, deu assistência para Kluivert fazer o gol do título holandês sobre o Diavolo, no mesmo estádio em que marcara contra o Benfica, em Viena.

Van Basten quase alcançou a unanimidade no Milan: para a maioria, era o melhor atacante do mundo na época (Getty Images)


Posição: atacante
Clube em que atuou: Milan (1987 a 1995)
Títulos conquistados: 4 Campeonatos Italianos (1987/88, 1991/92, 1992/93 e 1993/94), 4 Supercopas da Itália (1988, 1992, 1993 e 1994), 3 Copas dos Campeões/Liga dos Campeões (1988/89, 1989/90 e 1993/94), 3 Supercopas Europeias (1989, 1990 e 1994), 2 Mundiais Interclubes (1989 e 1990) e 1 Eurocopa (1988)
Prêmios individuais: 3 Bolas de Ouro para a revista France Football (1988, 1989 e 1992), 1 vez melhor jogador do mundo para a FIFA (1992), artilheiro da Eurocopa (1988), artilheiro da Copa dos Campeões (1988/89), artilheiro do Campeonato Italiano (1989/90 e 1991/92) e inserido na lista Fifa 100 (2004)

Para muitos, o grande craque holandês depois de Johan Cruyff. Se Rijkaard e Gullit eram os príncipes laranjas, Marco van Basten era o rei. E o jogadoraço foi um dos personagens que conduziram o futebol holandês aos tempos áureos, após a década de 70. Fundamental no título europeu com a Oranje, em 1988, foi responsável também pelo reaparecimento do Milan no cenário italiano e europeu. Destinado a marcar gols e conquistar títulos, formou o trio holandês que deu suporte ao Milan durante o final da década de 1980 e o início da década de 90, ao lado de Gullit e Rijkaard. Gols, golaços, passes e dribles geniais. Marco van Basten era o melhor jogador do mundo à época, com sobras.

Nos oito anos de Milan, conquistou tudo, até mesmo o título intercontinental, inédito na história do Diavolo, e a Copa dos Campeões, que não vinha há 20 anos. Mas, em seu auge, uma lesão no tornozelo o obrigou a encerrar a carreira, ainda aos 28 anos – ainda que o anúncio definitivo tenha acontecido apenas dois anos após sua última partida, quando van Basten já tinha 30. Em sua despedida, fez até Capello se emocionar e deixou como grande lembrança as 201 aparições com a camisa rossonera e os 125 gols. E, até hoje, nenhum jogador holandês o superou em solo italiano.

domingo, 3 de setembro de 2017

Sobrevivendo no inferno

Robben foi um dos únicos a mostrar vontade, numa vitória insuficiente da Holanda (ANP/Pro Shots)

Depois da partida de quinta-feira revelar como a seleção da Holanda perdeu terreno no futebol europeu, graças aos 4 a 0 impostos pela França, a necessidade da Laranja nesta oitava rodada do grupo A das eliminatórias europeias para a Copa de 2018 era tão óbvia que é quase desnecessário citá-la: vencer a Bulgária. Pois bem, foi exatamente o que aconteceu, com os 3 a 1 vistos neste domingo, na Amsterdam Arena. O problema é que a Suécia também fez o óbvio: goleou Belarus fora de casa (4 a 0). E assim, seguem pequenas as chances da Holanda alcançar a repescagem para ainda tentar participar de um mundial pela 11ª vez.

Na entrevista coletiva dada no sábado, Dick Advocaat reconheceu a necessidade maior: "O jogo contra a França já foi. Precisamos de dedicação total contra a Bulgária. Precisamos vencer - e como isso será feito, não importa nada". Já na coletiva, o treinador antecipou algumas mudanças. Com a suspensão de Kevin Strootman, Tonny Vilhena já foi anunciado como titular no meio-campo. Recuperado das dores no joelho, Kenny Tete foi ocupar o lugar na lateral direita, como previsto. A surpresa veio pouco antes do jogo: Davy Pröpper receberia o voto de confiança como armador, enquanto Wesley Sneijder ia para o banco. À emissora pública NOS, Advocaat não fez rodeios: "Wesley não esteve na sua melhor forma contra a França. Então, é necessário tentar algo. Pröpper é bom com a bola nos pés, e se mexe mais. (...) Espero um time mais dinâmico, não podemos ficar tocando para lá e para cá".

Pelo menos no começo, deu muito certo. A Holanda mostrou mais velocidade pelas pontas - principalmente na esquerda, com Quincy Promes e Daley Blind aparecendo mais. E Pröpper justificou plenamente a aposta recebida, tentando não só criar, mas também aparecer na frente para a finalização. Símbolo disso tudo foi o primeiro gol, aos 7': Promes recebeu de Blind, tabelou com Vincent Janssen e cruzou para Pröpper finalizar na pequena área. Já significava algo: pelo menos, o desespero não seria tanto em busca do gol.

O que não quer dizer que a Oranje deslanchou a partir do 1 a 0. Longe disso. A Bulgária seguiu fechada em seu 4-1-4-1 (ou 4-4-2, quando não tinha a posse de bola), e a compactação impedia troca veloz de passes. Resultado: por várias vezes a bola tinha de ser recuada para Wesley Hoedt e Stefan de Vrij - e destes, até para Jasper Cillessen recomeçar as jogadas. Enquanto a Holanda atuava lentamente, a Suécia já encaminhava a vitória contra Belarus, fazendo 3 a 0 apenas na etapa inicial. E só para lembrar como a postura tática holandesa é deficiente, quase houve empate da Bulgária logo aos 17', quando Ivelin Popov cruzou e Georgi Kostadinov cabeceou na trave. Chance de gol para os holandeses? Só aos 34', quando Janssen enfim teve a bola nos pés, recuada por Pröpper, e arrematou rente à trave esquerda de Plamen Iliev. Ficava claro: a Holanda vencia, mas precisaria acelerar bem mais o jogo se quisesse diminuir a desvantagem no saldo de gols.

No segundo tempo, não só o marasmo seguiu, com a Holanda raramente achando espaços, como a Bulgária até começou a arriscar mais, com o espaço no meio-campo. Ainda assim, ficava demais depender apenas da dupla Popov-Kostadinov para fazer Cillessen trabalhar. Pelo lado laranja, de nada adiantava Janssen aparecer mais no jogo, se seus chutes invariavelmente saíam pela linha de fundo. Mais confiança mereciam Blind, Promes, Pröpper... e Robben. Três deles participaram da jogada do 2 a 0, aos 67': Promes passou, Blind cruzou, Robben escorou para fazer seu 34º gol pela seleção (sexto goleador na história, superando a marca dos 33, alcançada por Johan Cruyff e Abe Lenstra).

Novamente para lembrar a fragilidade crônica holandesa, a Bulgária diminuiu quase na sequência, quando Ivelin Popov cobrou falta e Kostadinov, quase imperceptivelmente, desviou a bola na área, fora do alcance de Cillessen - e sem marcação nenhuma. Tudo bem, a Holanda até merecia vencer - e assegurou os três pontos com o segundo gol de Pröpper, aos 80', de cabeça. Mas se sabia que era um triunfo com pouco significado. Primeiro, porque a goleada da Suécia ampliava a diferença no saldo de gols, primeiro critério de desempate nas eliminatórias da Copa (+11 para os suecos, +5 para os holandeses).

Em segundo lugar, porque a Oranje nunca deu a real impressão de que poderia golear os búlgaros - algo criticado pelo capitão Robben à NOS: "É necessário vencer, por muitos gols. Mas achei o time apático no segundo tempo. É necessário marcar. Há vontade, mas é necessário mais movimentação". Em terceiro lugar, porque algumas alterações pedidas não foram testadas, mesmo com a vitória garantida - como experimentar Bas Dost no lugar de Janssen.

E a única esperança holandesa é saber que ainda sobrevive ("Ainda estamos na briga", falou Robben; "Nada é impossível", apregoou Pröpper"). No entanto, o pessimismo é geral na Holanda: se o adversário da próxima rodada é Belarus, o da Suécia é Luxemburgo, que também oferece possibilidade de aumentar o saldo de gols. A Laranja sobrevive no inferno: segue em crise, longe de um lugar na Copa do Mundo. Nem mesmo o auxiliar técnico Ruud Gullit falando em "vitória fantástica", num vídeo que postou em seu perfil no Twitter, ilude mais.

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Holanda 3x1 Bulgária
Data: 3 de setembro de 2017
Local: Amsterdam Arena (Amsterdã)
Juiz: Anastasios Sidiropoulos (Grécia)
Gols: Davy Pröpper, aos 7' e aos 80'; Arjen Robben, aos 67', Georgi Kostadinov, aos 69'

Holanda
Jasper Cillessen; Kenny Tete, Stefan de Vrij, Wesley Hoedt e Daley Blind; Georginio Wijnaldum e Tonny Vilhena; Arjen Robben, Davy Pröpper (Marco van Ginkel, aos 86') e Quincy Promes; Vincent Janssen. Técnico: Dick Advocaat

Bulgária
Plamen Iliev; Strahil Popov, Vasil Bozhikov, Georgi Terziev e Petar Zanev; Atanas Zehirov (Georgi Slavchev, aos 46'); Ivailo Chochev, Georgi Kostadinov, Aleksandar Tsvetkov (Simeon Slavchev, aos 24') e Stanislav Manolev (Andrei Galabinov, aos 60'); Ivelin Popov. Técnico: Petar Hubchev

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Inacreditável

A França já vinha melhorando antes deste gol de Griezmann, que abriu o placar. Daí por diante, foi o previsível diante de uma Holanda cada vez pior (Christophe Ena/AP)
O que é inacreditável? Seguramente, não é o fato da França ter vencido a Holanda, no grupo A das eliminatórias europeias para a Copa de 2018, nesta quinta. E diante do que se viu no campo do Stade de France, não é inacreditável nem mesmo a goleada por 4 a 0. Nada mais lógico do que ver uma seleção como a francesa, com vários jogadores cobiçados Europa afora, no último dia da janela de transferências, impondo seu nível técnico diante de uma Laranja cada vez mais desmoralizada.

De modo até curioso, o 4-3-3 com que a seleção holandesa entrou em campo (com a estreia de Timothy Fosu-Mensah pela equipe) até fez alguns minutos calmos, mantendo a posse de bola diante dos Bleus. Todavia, não tinha nenhum espaço para conseguir fazer jogadas, entre as linhas muito bem postadas e treinadas da equipe da casa. Aí, foi o de sempre: a partir dos 10 minutos do primeiro tempo, a equipe azul começou a ter mais a posse de bola. E diante de uma Holanda com incapacidade crônica de se recompor rapidamente na defesa, ditou o jogo como e quando quis.

Opções de jogada para os franceses não faltavam. Na esquerda, Layvin Kurzawa sempre estava à disposição para os ataques; na direita, eram dois jogadores à disposição, com Djibril Sidibé e Kingsley Coman (ótima atuação); pelo meio, N'Golo Kanté mostrava não só a disposição de sempre nos desarmes, mas também alta capacidade para trabalhar a bola. O único problema francês era a atuação deficiente de Paul Pogba. Por sorte, Antoine Griezmann voltava quase sempre ao meio para acelerar o jogo. Assim conseguia fazer jogadas, com o grande espaço que a defesa holandesa oferecia. Assim Griezmann abriu o placar, aos 14', após tabela com Olivier Giroud, passando facilmente por Wesley Hoedt, que apenas prestou atenção na bola.

Para a seleção holandesa, o pior não era perder. Até porque a Bulgária "fazia seu papel", com a vitória momentânea sobre a Suécia na partida simultânea. O pior era notar que não havia como avaliar sua atuação, porque... não havia atuação. Os desarmes eram facilmente feitos já quando Kevin Strootman ou Georginio Wijnaldum tinham a bola. Ou seja, a esférica sequer chegava a Wesley Sneijder ou Arjen Robben, para a criação de jogadas - quando muito, Quincy Promes a tinha nos pés. Para nem falar de Vincent Janssen, escolhido como atacante titular, que tocou na bola apenas nove vezes nos primeiros 45 minutos. Em suma: o goleiro da França, Hugo Lloris, sequer precisou fazer uma defesa digna do nome. Enquanto isso, Jasper Cillessen sempre precisava de atenção na meta holandesa - se falhou no gol de Griezmann, levado por baixo das pernas, fez boa defesa em arremate de Coman, aos 39'. Para piorar, a Suécia empatou contra a Bulgária no fim da etapa inicial.

Algo precisava ser feito. Dick Advocaat tentou fazer: para acelerar o meio-campo holandês, tirou Sneijder e colocou Tonny Vilhena para o segundo tempo. O espaço para jogadas laranjas até apareceu, já que a França começou a avançar. Ainda assim, na hora de perturbar o adversário, os anfitriões eram muito mais efetivos em Saint-Denis. O segundo gol quase veio já aos 53', quando Giroud e Pogba tiveram a bola nos pés, mas chutaram-na em cima da defesa. A velocidade do meio-campo francês desnorteava a Holanda, e o símbolo disso foi Kevin Strootman, expulso em seis minutos: levara o amarelo aos 56', após derrubar Kanté com um carrinho, e recebeu depois o vermelho - até injusto, pelo juiz Gianluca Rocchi ver pisão inexistente do camisa 8 holandês em Griezmann.

Cheia de lamentações como as de Van Persie, a Holanda ainda pode chegar à Copa, por incrível que pareça (Stanley Gontha)
Aí, já não adiantava nada. Nem a entrada de Robin van Persie, substituindo Janssen para tentar fazer o ataque holandês aparecer mais. Nem a grande chance do empate que Robben perdeu aos 69': após erro de Lloris na saída de bola, Promes cruzou da esquerda, e o capitão da Laranja cabeceou na área, em cima de Samuel Umtiti, que estava na pequena área. Não adiantava mais, porque os espaços estavam ainda mais abertos, e a França só precisava aproveitar uma. Aproveitou aos 73', com o belo gol de Thomas Lemar. Jogo definido, até Kylian Mbappé, febre europeia, pôde entrar - e marcar seu primeiro gol, o quarto da França, já nos acréscimos, minutos após Lemar fazer o terceiro. Sem contar outras ocasiões em que Cillessen precisou defender - como em chutes de Mbappé, aos 80', e Alexandre Lacazette, aos 87'.

4 a 0. Não era apenas a pior derrota da Holanda para a França; era também a pior derrota da história holandesa em partidas de competição, excetuando-se os torneios olímpicos. Houve força apenas para declarações humildes de Dick Advocaat, à emissora holandesa NOS: "Nunca estivemos no ritmo do jogo. A França foi muito melhor, em todos os aspectos. E 4 a 0 é um resultado exagerado, estou um pouco chocado". Na zona mista, Kevin Strootman criticou o árbitro sem se esquecer de apontar o dedo para a sua péssima atuação, frouxa na marcação: "O juiz foi do mesmo nível que eu, hoje". E Sneijder foi definitivo: "Precisamos conversar bastante. Não conseguiremos mais chances". Chances? Pois é, a Holanda ainda tem. No fim do jogo, a Bulgária fez 3 a 2 na Suécia - para ânimo repentino de Robben, que soube enquanto falava à NOS: "Sério [que a Bulgária ganhou]? Ótimo, vou contar ao pessoal no vestiário! Parabéns à França, e agora temos de partir para a Bulgária".

Se por um lado o triunfo búlgaro representou a queda laranja para a quarta posição do grupo A, com 10 pontos, abriu possibilidade para superar Bulgária e Suécia nos jogos diretos e ainda conseguir lugar na repescagem - a Bulgária, aliás, já pode ser superada no domingo, em Amsterdã. De mais a mais, a diferença no saldo de gols para a Suécia (7 dos suecos, 3 dos holandeses) ainda é descontável. 

Ou seja: apesar de desmoralizada, a seleção da Holanda ainda depende de suas próprias forças para alcançar a repescagem nas eliminatórias europeias. Não merece chegar à Copa, mas ainda sonha com ela. Isso, sim, é inacreditável. Aliás, quem consegue acreditar que a Holanda ganhará da Bulgária?

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
França 4x0 Holanda
Data: 31 de agosto de 2017
Local: Stade de France, em Saint-Denis
Juiz: Gianluca Rocchi (Itália)
Gols: Antoine Griezmann, aos 14'; Thomas Lemar, aos 73' e 88', e Kylian Mbappé, aos 90' + 1

França
Hugo Lloris; Djibril Sidibé, Laurent Koscielny, Samuel Umtiti e Layvin Kurzawa; N'Golo Kanté, Kingsley Coman (Alexandre Lacazette, aos 80'), Paul Pogba e Thomas Lemar; Antoine Griezmann (Nabil Fekir, aos 89') e Olivier Giroud (Kylian Mbappé, aos 75')  Técnico: Didier Deschamps

Holanda
Jasper Cillessen; Timothy Fosu-Mensah, Stefan de Vrij, Wesley Hoedt e Daley Blind; Georginio Wijnaldum e Kevin Strootman; Arjen Robben, Wesley Sneijder (Tonny Vilhena, no intervalo) e Quincy Promes; Vincent Janssen (Robin van Persie, aos 64'). Técnico: Dick Advocaat

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Apostando em tudo que pode

Holanda se prepara com toda a concentração. Afinal, as datas FIFA praticamente definirão o destino nas eliminatórias da Copa (ANP)

Após tantas decepções, principalmente nos últimos dois anos, a seleção da Holanda não recebe muita confiança – e nem a merece, aliás. Todavia, na rodada passada do grupo A das eliminatórias europeias para a Copa de 2018, a vitória sobre Luxemburgo (e a derrota da França para a Suécia) devolveu um pouco a esperança à Laranja. Enfim, chegou a hora de confirmar tal esperança – ou de afundar no desânimo. Porque, a partir destas datas FIFA, todas as partidas serão “decisões”. A primeira, nesta quinta-feira, já é a mais importante de todas: contra a França, em pleno Stade de France. E a Holanda precisa ganhar.

Pode parecer exagero, mas é a única alternativa para a equipe, se ainda quiser depender só de si para ter uma das duas vagas - direta ou na repescagem – e tentar estar na Rússia a partir de 14 de junho de 2018. Além de ser o resultado mais esperado pela maioria, uma derrota para os Bleus (na segunda colocação do grupo, com 13 pontos) seria naturalmente desastrosa para a Oranje (3ª colocada, com 10): a diferença dentro do grupo poderia ir a seis pontos, tanto para os franceses quanto para os suecos (líderes, com 16 pontos), caso estes vençam o jogo direto e simultâneo contra a Bulgária, em Sófia. Ou seja, a Holanda ficaria praticamente fora da Copa, se ausentando de outro torneio grande em sequência, pela primeira vez em 32 anos - não esteve nem na Euro 1984, nem na Copa de 1986. 

Nem mesmo um empate ajudaria: se por um lado, viria um ponto, pelo outro seguiria até o risco de cair para a quarta posição, em caso de vitória búlgara. Vencer seria triplamente importante. Primeiro, porque devolveria a Holanda definitivamente à disputa por uma vaga na Copa, podendo ficar a apenas um ponto da liderança, caso Suécia e Bulgária empatem. Segundo, porque colocaria a equipe laranja numa posição insuspeita de vantagem para as “decisões” seguintes: jogaria em casa contra Bulgária (já no próximo domingo, em Roterdã, às 13h) e Suécia (fechando a campanha nas eliminatórias, às 15h45 de 10 de outubro). Terceiro, e talvez mais importante: daria motivos para confiança na equipe holandesa. 

Para tentar alcançar tal façanha, Dick Advocaat fez uma convocação na qual decidiu apostar em todos os recursos à disposição. Jovens com potencial? Estão lá: apostou-se em Kenny Tete, de ótimo começo pelo Lyon na temporada. Donny van de Beek, que tem mostrado personalidade ao substituir Davy Klaassen no meio-campo do Ajax, foi chamado pela primeira vez - ainda que tenha falhado num dos gols do Rosenborg, na partida que eliminou o Ajax da Liga Europa. Wesley Hoedt, de atuação promissora contra Luxemburgo, também figurou entre os 23 - como Tonny Vilhena, que segue fundamental no Feyenoord, e Matthijs de Ligt, ainda badalado no Ajax. Até mesmo Timothy Fosu-Mensah, chamado para a seleção holandesa sub-21 que também jogará, foi incluído às pressas no elenco principal, caso Tete seja cortado (sente dores no joelho).

As surpresas começaram com alguns retornos. Quase três anos e meio após sua primeira e única partida pela Oranje adulta (justamente contra a França – um amistoso, em março de 2014, também em Saint-Denis), o zagueiro Karim Rekik foi chamado, mesmo ainda iniciando sua passagem pelo Hertha Berlim. Ao chegar à apresentação, no hotel Huis ter Duin, na cidade de Noordwijk, Rekik assumiu: “Eu não contava com isto [a convocação], mas só torna ainda melhor”. Porém, Rekik claramente será reserva. A maior surpresa veio no ataque.

Claro, a convocação de Advocaat não ousaria prescindir de Wesley Sneijder e Arjen Robben – mesmo ainda voltando de lesão lombar sofrida nas férias, bastou Robben jogar confiavelmente pelo Bayern de Munique para estar na lista. O inesperado veio com a presença de Robin van Persie. Que estivesse na lista preliminar, tudo bem – nela estava até mesmo Ryan Babel, presença também surpreendente. Mas pouco se previa que Van Persie ficaria entre os 23 finais. E as evasivas declarações de Dick Advocaat para justificá-la (“Ele ainda é um dos melhores atacantes holandeses, por isso foi convocado. Havia dúvidas sobre sua forma, mas ele tem jogado pelo Fenerbahçe”) não esclareceram a surpresa. Ficou na conta do tempo juntos, no clube turco.

Volta de Van Persie surpreendeu. Seja como for, é a grande chance do atacante ter um novo final em sua trajetória na seleção (ANP)
De todo modo, se há uma ocasião para Van Persie reescrever o final de sua história com a camisa laranja, aos 34 anos recém-completos, é essa. Até porque sua última partida – há quase dois anos, em 13 de outubro de 2015 -, foi justamente a vexatória derrota por 3 a 2 para a República Tcheca, em plena Amsterdam Arena, confirmando a ausência holandesa da Euro 2016, com direito a gol contra “à la Oséas” do próprio atacante. Que, mesmo do alto da fama de maior goleador da história da seleção (50 gols), se apresentou com humildade: “Nem sempre eu estive bem o suficiente para ser convocado, a vida no futebol é assim, eu entendo, não tenho rancor de ninguém [pela ausência]. Estou apenas feliz. Não é a situação ideal para voltar, mas se temos uma chance, temos de buscá-la com tudo”. 

Uma lesão no ombro sofrida contra o Vardar-MCD, pela Liga Europa, quase causou seu corte, mas ter se apresentado e participado dos treinos desde segunda-feira passada faz crer que, se necessário, Van Persie pode até começar jogando. Não é provável, já que Dick Advocaat ainda aposta em Vincent Janssen ou Bas Dost como opções principais. Mas convém pensar que ele possa ser uma surpresa (jogaria junto de Sneijder e Robben pela primeira vez desde novembro de 2014), diante da grande experiência do retornado e das decepcionantes atuações de Janssen e Dost vestindo laranja - ainda mais no caso de Dost, que segue bem no Sporting. Assim como também surpreenderá o retorno do 5-3-2 visto na Copa do Mundo passada, opção experimentada num treino sem a imprensa, em Amsterdã, nesta terça.

De resto, o discurso foi o previsível: cheio de otimismo e vontade. Às vezes com mais introspecção, no caso do estreante Van de Beek, que apenas se disse “lisonjeado” pela confiança de Advocaat. Com mais ousadia, no caso do próprio técnico da seleção: “Por que não podemos vencer? Não devemos ter medo, também temos bons jogadores”. Com reconhecimento dos próprios erros, no caso de Kevin Strootman: "A pressão é grande, mas permitimos que isso acontecesse". E com a confiança digna do capitão que Robben é: “Não podemos pensar que somos menores. Podemos dizer que será difícil, e que a França tem um melhor time. Mas se é para pensar assim, é melhor ficar em casa”.

E chegou a hora da Holanda tentar evitar o destino pessimista que se prevê para ela nas eliminatórias da Copa. Por mais que também tenha muito o que melhorar, a França parece melhor e mais capacitada tecnicamente para deixar a Oranje definitivamente afastada do Mundial. Uma derrota no Stade de France teria até consequências futuras: representaria o fim da geração de Robben, Sneijder e Van Persie, além de transformar as três partidas restantes da qualificação em amistosos potencialmente melancólicos. Mas a Holanda irá a campo apostando em tudo o que pode apostar para tentar surpreender. Se serve de ânimo, também era assim antes de pegar o Brasil, na Copa de 2010, ou a Espanha, na Copa de 2014...

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 30 de agosto de 2017)