Com jogadoras tão jovens, tendo de substituir nomes de experiência indiscutível, seria até esperado ver a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) fraquejando nas duas partidas contra a França, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina. Só que a nova geração deu a impressão de que já está pronta. Deu ao técnico Arjan Veurink uma daquelas "dores-de-cabeça" de que todo treinador gosta. Porque várias jogadoras jovens aproveitaram a chance para se afirmar: de Veerle Buurman, na defesa, a Esmee Brugts, no ataque, passando por Wieke Kaptein e Damaris Egurrola Wienke, no meio. E tanto a vitória por 2 a 1, em casa, quanto o empate por 1 a 1 contra as francesas, fora, deixaram grande satisfação em quem acompanha o futebol de mulheres nos Países Baixos.
No primeiro jogo, em Breda, o começo deu a impressão de que as desatenções decisivas seguiriam: um erro de Veerle Buurman, e Marie-Antoinette Katoto ficou livre - perdeu o gol, mas de qualquer forma, estava impedida. Porém, aos poucos a Holanda ousou mais. Como num chute de Victoria Pelova, por cima do gol, aos 7'. Ou como no minuto seguinte, quando Esmee Brugts já deu o sinal do destaque ofensivo que teria, arriscando o gol chutando antes do meio-campo - a bola foi para fora. E finalmente, aos 11', uma jogada de bola parada foi aproveitada, consolidando um "conto de fadas": Lynn Wilms mandou a bola para a área, em falta, e Renée van Asten - justamente ela, justamente a estreante em convocações, justamente a titular pela primeira vez - completou para fazer 1 a 0 para as Leoas Laranjas. Os abraços de todas as companheiras de time, celebrando o gol de Van Asten, poderia ter sido um final feliz. Mas havia muito jogo pela frente.
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| Van Asten (de frente): a estreante viveu um conto de fadas no primeiro jogo contra as francesas, ao começar como titular e marcar o primeiro gol (Marcel van Dorst/EYE4IMAGES/NurPhoto/Getty Images) |
E neste jogo, aos poucos, a França ficou com a bola, como até esperado para um time tão ofensivo, com atacantes experientes. Porém, também se viu uma Holanda organizada defensivamente, como poucas vezes. Além das quatro defensoras escaladas, as meio-campistas retornavam frequentemente, com Damaris Egurrola sendo muito elogiada pela atenção e precisão nos desarmes. Era organização... mas também era risco. Por mais que a equipe dos Países Baixos resistisse, por mais que a França só houvesse criado uma chance de gol em todo o primeiro tempo (aos 26', Kadidiatou Diani cruzou e Katoto cabeceou para fora), era necessário ter uma saída para contra-atacar - até porque Wieke Kaptein, atenta no meio-campo, poderia acelerar a jogada para Brugts ou mesmo Lineth Beerensteyn. Ela não surgiu, e depois do intervalo, um azar de Daphne van Domselaar - de volta ao gol das Leoas Laranjas - abriu o caminho do empate francês, aos 54': Sandy Baltimore passou por Lynn Wilms na direita da área, chutou quase sem ângulo, mas a bola bateu na perna esquerda da goleira holandesa e entrou.
Noutros tempos, o empate teria aberto o caminho para a França crescer. Não abriu no primeiro jogo, porque Van Domselaar se recuperou da falha no gol, do melhor jeito possível: duas excelentes defesas, aos 61' (bloqueando chute de Diani à queima-roupa, após cruzamento de Anaële Le Moguedec) e aos 66' (Baltimore arriscou de fora da área, no ângulo). As Leoas Laranjas seguiam concentradas defensivamente. E num lance que uniu três das melhores holandesas em campo, veio o gol da vitória: Van Asten dominou e tocou, Kaptein lançou em profundidade, Brugts dominou, correu livre até a área e chutou cruzado para fazer 2 a 1. Com espaço aberto, os Países Baixos até poderiam ter feito o terceiro gol (aos 82', Wilms lançou, Chasity Grant completou, mas Griedge Mbock-Bathy conseguiu bloquear na pequena área). Ainda assim, conseguiram bloquear todo e qualquer espaço das francesas para chute. E após onze anos, festejaram em Breda a primeira vitória sobre as Azuis. Já era muita coisa. Poderia ser mais.
Para que fosse mais, a vitória seria necessária em Auxerre. Só que a França, novamente, começou pressionando desde o começo. A Holanda se ancorava demais em Brugts para acelerar suas (raras) tentativas de ataque - Lineth Beerensteyn só tentou algo aos 8', num cruzamento para fora. Pelo menos, houve uma boa chance das Leoas Laranjas, aos 11': Wieke Kaptein cruzou, Brugts finalizou de primeira (da entrada da área), e a goleira Pauline Peyraud-Magnin espalmou para fora.
De todo modo, as francesas seguiam pressionando mais. Tiveram uma boa chance aos 16', quando Clara Matéo arriscou chute da entrada da área, e a bola só saiu após desvio em Brugts, para escanteio. Contudo, não só a defesa holandesa seguia bem postada, como aos poucos, havia espaço para Wieke Kaptein aparecer e tentar acelerar as saídas de bola para Brugts, ou Beerensteyn, ou mesmo para Romée Leuchter (das três atacantes, a que menos se destacou). Só aí a França decidiu voltar a usar uma de suas principais qualidades ofensivas: as bolas paradas. Assim conseguiu fazer 1 a 0, nos acréscimos do 1º tempo: após escanteio ensaiado, Sandy Baltimore - novamente com boa atuação - cruzou, e Marie-Antoinette Katoto cabeceou para as redes.
Pelo menos no começo do segundo tempo, a pressão francesa foi a mesma. Só que, na hora da finalização, na hora de acertar o gol, as Azuis perdiam chances. Foi assim com Grace Geyoro, logo aos 49'; com Sandy Baltimore, aos 61'; e com Sakina Karchaoui (fazendo 100 jogos pela seleção francesa), aos 74'. Por mais que a saída da Holanda para os contra-ataques tivesse sérias dificuldades - Beerensteyn caiu de produção no segundo tempo -, a França perdia suas chances de resolver a partida. Teve a punição.
Porque, aos 76', Élisa de Almeida transformou uma jogada que seria tiro de meta (a bola sairia pela linha de fundo após Brugts cruzar) em sequência. Brugts correu, dominou pela esquerda, cruzou, e Wieke Kaptein coroou um dia marcante em sua carreira - capitã das Leoas Laranjas aos 20 anos, após a substituição de Beerensteyn -, cabeceando ("Acho que foi meu primeiro gol de cabeça, sou ruim nisso", brincou com a ESPN holandesa) para empatar o jogo. O valioso ponto poderia ser posto a perder logo após o gol, aos 78', após a própria Kaptein errar na saída de bola, mas Geyoro mandou a bola no travessão. Cada vez mais nervosas, as francesas erraram a maioria dos ataques. E só tiveram chance numa jogada polêmica, já nos acréscimos, em que Renée van Asten puxou Mélvine Malard, que a pisou na área... e o suposto pênalti de Van Asten foi ignorado pela juíza italiana Maria Caputi.
Nada mais perturbaria os dois ótimos resultados, que deixaram a Holanda no controle de sua condição para ir à Copa do Mundo Feminina, em 2027, líder isolada que agora é de seu grupo. A impressão final era indiscutível: as jovens tinham sido testadas e aprovadas. Estão prontas para as partidas decisivas de junho, contra Irlanda (dia 5, fora de casa) e Polônia (dia 9, em casa), que valem a vaga no Mundial.
Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina da FIFA - Europa - Grupo A2
Holanda 2x1 França
Data: 14 de abril de 2025
Local: Rat Verlegh (Breda)
Árbitra: Marta Huerta de Aza (Espanha)
Gols: Renée van Asten, aos 11', Sandy Baltimore, aos 54', e Esmee Brugts, aos 67'
HOLANDA
Daphne van Domselaar; Lynn Wilms, Veerle Buurman, Renée van Asten e Marisa Olislagers (Janou Levels, aos 60'); Victoria Pelova (Ella Peddemors, aos 69'), Damaris Egurrola Wienke e Wieke Kaptein; Lineth Beerensteyn, Romée Leuchter (Chasity Grant, aos 60') e Esmee Brugts (Lotte Keukelaar, aos 90' + 1). Técnico: Arjan Veurink
FRANÇA
Pauline Peyraud-Magnin; Melween N'Dongala (Kelly Gago, aos 87'), Griedge Mbock-Bathy, Maëlle Lakrar e Mélvine Malard (Clara Matéo, aos 78'); Sandy Baltimore, Anaële Le Moguedec e Oriane Jean-François (Grace Geyoro, aos 61'); Marie-Antoinette Katoto, Sakina Karchaoui (Naomie Feller, aos 87') e Kadidiatou Diani. Técnico: Laurent Bonadei
França 1x1 Holanda
Data: 18 de abril de 2025
Local: Abbé-Deschamps (Auxerre)
Árbitra: Maria Caputi (Itália)
Gols: Marie-Antoinette Katoto, aos 45' + 1, e Wieke Kaptein, aos 76'
FRANÇA
Pauline Peyraud-Magnin; Alice Sombath (Laurina Fazer, aos 85'), Élisa de Almeida, Griedge Mbock-Bathy e Sandy Baltimore; Grace Geyoro, Oriane Jean-François (Kelly Gago, aos 85') e Sakina Karchaoui; Clara Matéo (Delphine Cascarino, aos 61'), Marie-Antoinette Katoto (Mélvine Malard, aos 71') e Kadidiatou Diani (Thiniba Samoura, aos 61'). Técnico: Laurent Bonadei
HOLANDA
Daphne van Domselaar; Lynn Wilms, Veerle Buurman, Renée van Asten e Janou Levels; Wieke Kaptein, Damaris Egurrola Wienke e Victoria Pelova; Esmee Brugts (Ella Peddemors, aos 90' + 2), Romée Leuchter (Chasity Grant, aos 46') e Lineth Beerensteyn (Lotte Keukelaar, aos 64'). Técnico: Arjan Veurink



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