Em julho passado, dias antes da final da Copa do Mundo, Xavi Hernández i Creus foi claro à rádio espanhola RNE: "Tenho que respeitar todos os treinadores que estão em atividade por seleções, mas eu gostaria muito de treinar uma seleção. Quero participar de uma Copa do Mundo, uma Eurocopa, uma Copa Africana de Nações ou uma Copa da Ásia como treinador. Teria que ser um projeto bonito e que pudesse trabalhar com calma". Pois bem: no mês seguinte, o projeto surgiu. E será como o primeiro técnico estrangeiro que a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) tem, após 48 anos, que Xavi iniciará o desafio de fazer a Laranja voltar a ser uma competidora real nos torneios que disputa.
A começar pela fase de grupos da Liga das Nações, que já terá desafios grandes nestas datas FIFA "turbinadas". Primeiro, o maior clássico que os neerlandeses podem imaginar: contra a Alemanha - também em estreia badalada de técnico, Jürgen Klopp -, às 15h45 de Brasília desta quinta, 24, na Johan Cruyff Arena de Amsterdã. Aí vem a Sérvia, no domingo, 27, às 13h de Brasília, em Belgrado. Depois, a Grécia, às 15h45 do dia 1º de outubro, outra quinta, em Tessalônica. E finalmente, a quarta rodada, no "jogo de volta" contra os sérvios, em Eindhoven, às 15h45 de mais um domingo, 4 de outubro.
Xavi não tem lá uma carreira de técnico que tenha decolado. Começou no Al-Sadd catarense, e no Barcelona em que marcou época como meio-campo, embora tenha um título espanhol e uma Supercopa da Espanha (ambos em 2022/23), além de dar a primeira chance no time principal a Lamine Yamal e Pau Cubarsì, entre outros, o trabalho de Xavi foi considerado defensivo demais. Não exatamente ruim, mas mediano.
Ainda assim, o nativo da cidade espanhola de Terrassa foi saudado com alguma boa vontade por torcida e imprensa. Primeiro, por ter sido simpático, saudando a memória de Johan Cruyff e a importância de Louis van Gaal (quem lhe deu a primeira chance no Barcelona), se dizendo até um “filho do futebol holandês”. Depois, por interromper o ciclo repetitivo de treinadores que a seleção masculina neerlandesa tinha. E finalmente, por ser, principalmente dentro de campo, um símbolo do “jeito espanhol” de jogar. Um jeito que fez a Espanha se tornar uma seleção definitivamente grande, desde 2008. E um jeito que a Holanda quer recuperar para sua seleção masculina, que mesmo tendo alguns bons momentos na Copa recém-passada, saiu por baixo, eliminada após ser exagerada e desnecessariamente defensiva contra Marrocos, nos 16-avos de final.
Pois Xavi quis manter essa boa vontade, a princípio, em sua primeira convocação. Dos 26 jogadores chamados, 20 estiveram na Copa. As alterações foram todas elogiadas por ele. Joey Veerman, de bom começo no Borussia Dortmund, de volta à Laranja após ser excluído nos tempos de Ronald Koeman? “Ele joga. Tem muitas qualidades táticas, pode nos ajudar, é ótimo na construção de jogadas”. Gjivai Zechiël, convocação que estreia na Laranja, meio-campo promissor, vindo de ótimo começo de temporada no Feyenoord? “Ele tem potencial.” Mexx Meerdink, novamente convocado para o ataque após uma leve lesão causar o corte de Donyell Malen? “Quero vê-lo jogar.” Virgil van Dijk, que decidiu seguir na Laranja, pelo menos, até a Euro 2028, aos 35 anos? “Viajei a Liverpool para falar com ele. Foi uma boa conversa. Ele é um líder por natureza, então, não havia por quê ele deixar de ser o capitão. Precisamos dele.”
Até mesmo nos assuntos mais espinhosos, Xavi manteve a amenidade de um início cuidadoso. Por exemplo, ao falar sobre a ausência de Memphis Depay - ausência que, para muitos holandeses que o julgam displicente, deveria ser definitiva, antes até que os corintianos se magoassem com ele após o pênalti perdido nas quartas de final da Copa Libertadores da América: “O mais difícil foi falar com Memphis [sobre a ausência]. Mas tenho uma ótima relação com ele, ele entendeu bem, e quero deixar claro que a porta não está fechada definitivamente nem para ele, nem para Weghorst, nem para ninguém”. Ou mesmo ao ser perguntado sobre o trabalho do antecessor Ronald Koeman: “Respeito Ronald. Não vou falar sobre o passado aqui”.
Se o novo técnico dos Países Baixos ainda age com simpatia, tem a retribuição dos convocados. A começar por Van Dijk: “Para continuar, eu precisava sentir confiança, uma combinação de respeito e satisfação, era o que eu queria. Desde o primeiro segundo da conversa com ele, foi o caso. Foi muito bom, e estou motivado”. Joey Veerman, enfim prestigiado, também minimizou as turbulências com Ronald Koeman (“Não faz sentido pensar no que já foi”) e foi otimista com o novo período (“Não conversei com Xavi individualmente, mas se ele me convocou, é pelo que viu de mim. Espero ter chance contra a Alemanha”). Também otimista foi Brian Brobbey, provável titular no ataque, vindo de bom começo de temporada no Sunderland. Ao ouvir a lembrança das ausências de Malen, Memphis e de outro veterano, Wout Weghorst, Brobbey foi curto e grosso: “Eu estou aqui”. E o estreante Zechiël creditou sua convocação, grato, a um “plano de Deus”.
Cabe à Holanda jogar para vencer. Até porque, se as datas FIFA passarem com maus resultados, a boa vontade com Xavi passará rapidamente.
Os 26 convocados da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA
GOLEIROS: Bart Verbruggen (Brighton-ING), Mark Flekken (Bayer Leverkusen-ALE) e Robin Roefs (Sunderland-ING)
DEFENSORES: Denzel Dumfries (Real Madrid-ESP), Lutsharel Geertruida (PSV), Jurriën Timber (Arsenal-ING), Virgil van Dijk (Liverpool-ING), Jan Paul van Hecke (Tottenham Hotspur-ING), Micky van de Ven (Tottenham Hotspur-ING), Nathan Aké (Fenerbahçe-TUR) e Jorrel Hato (Chelsea-ING)
MEIO-CAMPISTAS: Tijjani Reijnders (Al Qadsiah-SAU), Ryan Gravenberch (Liverpool-ING), Quinten Timber (Crystal Palace-ING), Teun Koopmeiners (Juventus-ITA), Guus Til (PSV), Joey Veerman (Borussia Dortmund-ALE), Kenneth Taylor (Lazio-ITA) e Gjivai Zechiël (Feyenoord)
ATACANTES: Brian Brobbey (Sunderland-ING), Cody Gakpo (Liverpool-ING), Noa Lang (Napoli-ITA), Jeremie Frimpong (Liverpool-ING), Crysencio Summerville (Al Hilal-SAU), Mexx Meerdink (AZ) e Ruben van Bommel (PSV)
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