quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Citricultura: os hinos/canções dos clubes

Quarta-feira. A partir deste 26 de dezembro, o Espreme a Laranja inicia uma seção dedicada a apresentar ao leitor um pouco do modo holandês de acompanhar o futebol. Como é a mídia do futebol na Holanda? Como os jogos são transmitidos? Quais são os hábitos das torcidas? Os gritos? Os mascotes? Os uniformes? Sexta-feira, no Glob... quer dizer, às quartas, você sempre terá isso aqui no blog.

E para abrir a "Citricultura" (afinal, se a cultura de criação de laranjas é chamada "citricultura", nada mais natural do que nomear a seção assim), o blog começa com os hinos. Ao contrário do que ocorre no Brasil, nem todos os torcedores costumam cantá-los nas partidas. Aliás, às vezes, há clubes que tornam canções incidentais mais conhecidas do que os hinos oficiais.

É o caso do PSV. Durante as partidas, em Eindhoven, é muito mais comum ver "Simply the best", a famosa canção de Tina Turner escolhida para sonorizar a entrada do time em campo a cada partida. Ou mesmo ouvir a torcida cantar "PSV, wat ben je mooi" ("PSV, como você é lindo"), música criada pelos próprios torcedores, citando ídolos do clube (e o fundador Frits Philips), com a mesma melodia do "a cada dia te quero mais" criado na Argentina e popular no Brasil.


"Coen Dillen 
Willy [van der Kuijlen]
Cocu 
Van Nistelrooij 
[Adrie] Van Raaij [ex-presidente do clube], Guusje Hiddink 
PSV, wat ben je mooi [PSV, como você é lindo]

Oooohhhh, Fritsje Philips 
Luccie Nillis
Romariooooo"


O que não quer dizer que a torcida desconheça completamente o hino do PSV. Nem que ele não receba respeito. Se a marcha tem uma versão mais antiga, o próprio clube apoiou a versão de Guus Meeuwis - cantor popular na Holanda, nascido e criado em Eindhoven - para o hino, divulgando-a em seu canal no YouTube.



"Voor Rood-Wit gezongen (cantando pelo alvirrubro) 
vol man'lijke kracht (cheio de poder humano) 
een lied met ons allen (uma canção com todo o nosso poder) 
want eendracht maakt macht (porque a união faz a força) 

Wij trekken ten strijde (Nós vamos à luta) 
een strijd vol van vree (uma luta cheia de paz) 
vooruit nu Rood-Witten (A partir de agora, é pelo alvirrubro) 
vooruit PSV (Pelo PSV) [aqui, o resto da letra]"


Já no Ajax, a situação é diferente. O simpatizante aqui no Brasil pode até saber que, antes dos jogos, soa na Johan Cruijff Arena "Bloed, zweet en tranen" ("Sangue, suor e lágrimas"), canção de André Hazes (1951-2004), um dos cantores mais populares que a Holanda já teve - também veiculada em qualquer momento que peça homenagens (como no primeiro jogo em Amsterdã após a morte de Johan Cruyff, em 2016). Pode saber que, em jogos por competições continentais, a torcida sempre fará uma coreografia com bandeiras, ao som do "Va Pensiero", o canto dos escravos hebreus na ópera "Aída", de Giuseppe Verdi. Talvez alguns já saibam até que os intervalos dos jogos em Amsterdã sempre terão "Three little birds", de Bob Marley, nas caixas de som.

(Torcida do Ajax cantando "Three little birds" no intervalo de Ajax 3x0 AEK, estreia do time na fase de grupos da Liga dos Campeões 2018/19)

Todavia, poucos sabem que aquela marcha que antecede a entrada em campo das equipes - o Ajax e o adversário da vez, seja quem seja - é... o hino do Ajax. Que vai aqui abaixo, com a letra:


"Hup, Ajax, hup 
Rood-witte schare (multidão alvirrubra) 
Dappere strijders, fier en koen (lutadores valentes e orgulhosos) 
Geen club die ons kan evenaren (não há clube que possa nos igualar) 
Rood en wit wordt kampioen (o alvirrubro será campeão) 

Hup, Ajax, hup 
Rood-witte schare 
Dappere strijders, fier en koen 
Een roep die geldt, dat is je ware (um grito que vale, pode ter certeza) 
Rood en wit wordt kampioen"


E no final de cada partida do Ajax, ganhando ou perdendo, uma canção que lembra à torcida de Amsterdã que o importante é a fidelidade: "Mijn club" ("Meu clube"), da banda Jiskefet. Não há torcedor Ajacied que não saiba este refrão abaixo (o vídeo é da Museumplein, praça em Amsterdã onde a torcida assistiu à final da Liga Europa, em 2017). Um refrão que, aliás, serve para qualquer torcedor, de qualquer time no mundo:


"Dit is mijn club, mijn ideaal (Este é meu clube, meu ideal)
Dit is de mooiste club van allemaal (Esse é o clube mais lindo de todos) 
Hier ligt mijn hart, mijn vreugde en mijn verdriet (Aqui está meu coração, minha alegria e minha tristeza) 
Het kan dooien, het kan vriezen (Pode ventar, pode estar congelante) 
We kunnen winnen of verliezen (Podemos vencer ou perder) 
Maar een betere club dan deze is er niet (Mas não há clube melhor do que este)"

O Feyenoord se alterna entre criações próprias e canções já conhecidas. As primeiras não faltam. O cantor Lee Towers é responsável por uma delas: "Mijn Feyenoord", que pode não ser o hino, mas é tão querida da torcida que é como se fosse. Qualquer adepto do Stadionclub na Holanda sabe os versos de cor e salteado - como se pode ver no vídeo abaixo, na recepção da taça aos campeões da Eredivisie 2016/17:

"Feyenoord, Feyenoord
Niets is sterker dan dat ene woord (Nada é mais forte do que aquela palavra) 
Feyenoord, mijn Feyenoord (Feyenoord, meu Feyenoord)"


"Niets is sterker dan dat ene woord", aliás, virou lema absoluto da torcida. Assim como absoluto é o hit "Super Feyenoord", do grupo Champ. Começou a ser tocado na campanha do título do Stadionclub na Copa da UEFA 2001/02. E entrou para o cotidiano do clube a ponto de ser tocada segundos antes do pontapé inicial das partidas em De Kuip:


Mas se é para citar o maior sucesso entre os torcedores Feyenoorders, nenhum é maior do que o próprio hino do clube, que soa a cada vez que os jogadores sobem para o gramado, nas partidas. Sempre, com os torcedores cantando em uníssono com Jaap Valkhoff:


"Hand in hand, kameraden (De mãos dadas, camaradas) 
Hand in hand voor Feyenoord 1 (De mãos dadas pelo Feyenoord) 
Geen woorden maar daden (Sem palavras, apenas atos)
Leven Feyenoord 1 (Viva o Feyenoord 1)"

Então, onde estão as citações da torcida? Estão no trecho de "I will survive", na versão do grupo Hermes House Band, cantarolada sempre que o Feyenoord marca gols. E estão, principalmente, no indefectível "You'll never walk alone", na versão de Lee Towers, sempre ao fim dos jogos em De Kuip:


Também há citações em outros clubes holandeses: o AZ também evoca "You'll never walk alone", "Jump", do Van Halen, toca sempre que o Heracles Almelo entra em campo. A autoexplicativa "La cucamarcha" embala a alegria da torcida sempre que o Utrecht faz um gol. "L'Amour Toujours", de Gigi D'Agostino, também é a trilha sonora para quando o Heracles manda a bola para as redes. Por outro lado, os hinos de NAC Breda e Vitesse são as trilhas sonoras para as entradas dos clubes em campo. Se o AZ não veicula muito seu hino oficial, tem um hábito sempre que as partidas começam. Ao ouvirem o bordão "Rette kettette ketet!", os torcedores respondem: "A-Zet!" (como se diz "AZ" em holandês).

E assim, entre criações e derivações do que se faz na Europa, as torcidas holandesas dão o tom.

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