terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Continua faltando

Na retrospectiva do ano do futebol na Holanda (Países Baixos) para 2024, publicada há exatamente 364 dias, havia até um certo otimismo na análise. Afinal de contas, à seleção masculina, só faltava ganhar mais de seleções grandes para ganhar respeito e até confiança rumo à Copa de 2026; à seleção feminina, faltava abrir mais espaço para novatas (e não seria nada má uma boa campanha na Eurocopa de mulheres); e aos clubes, em geral, fazendo campanhas dignas aqui e ali nos torneios continentais, faltava uma campanha definitivamente respeitável.

De certa forma, 2025 termina com uma impressão mais preocupada no futebol laranja. Em todas as frentes. A seleção masculina cumpriu seu principal objetivo no ano, é verdade: estará na Copa do Mundo. Mas não só seguiu sem vencer outras grandes equipes nacionais, como começou a tropeçar preocupantemente contra seleções inferiores. Resultado: embora se reconheça que os jogadores da Laranja são bons, também se considera que ela é muito suscetível a surpresas. Com relação aos clubes, então, a decepção é ainda maior: com a temporada 2025/26 chegando à metade, apenas PSV (na Liga dos Campeões), Go Ahead Eagles (Liga Europa) e AZ (na Conference League) podem aspirar a desempenhos razoáveis. A seleção feminina, por sua vez, até termina o ano um pouco mais otimista. Só que isso veio depois de um péssimo primeiro semestre, seguido das mudanças necessárias.

Numa frase: continua faltando muita coisa no futebol do Reino dos Países Baixos. O quê, especificamente?

Nos homens, a Holanda até conseguiu a vaga na Copa sem muitos problemas. Só que as oscilações fizeram com que ela terminasse 2025 atraindo desconfiança - até mesmo sobre o que ocorrerá no Mundial (KNVB Media/Divulgação)

Seleção masculina: regrediu. Antes de avançar?

Impossível dizer que 2024 tinha sido um mau ano para a seleção masculina da Holanda (Países Baixos): afinal de contas, por mais que o desempenho tivesse sido oscilante, ela tinha sido semifinalista da Euro e estava classificada na Liga das Nações. Certo, faltava vencer seleções grandes. Mas não era nada que não se pudesse resolver em 2025. Até porque ele começaria com as partidas das quartas de final da Nations League, em março, nas quais a adversária era... a Espanha, atual campeã europeia. E novamente, a Laranja caiu. Mas exigiu bastante dos espanhóis, nos 2 a 2 da ida em Roterdã e, principalmente, nos 3 a 3 em Valência, com notáveis atuações de Tijjani Reijnders, Cody Gakpo e de Memphis Depay, de volta à forma com o ritmo de jogo ganho no Corinthians. Perder nos chutes da marca do pênalti (Espanha 5 a 4 nas cobranças) fazia parte: com o grupo nas Eliminatórias da Copa sendo muito acessível - Polônia, Finlândia, Lituânia e Malta -, a perspectiva era a melhor possível. E ela foi fortalecida pelo começo categórico nas eliminatórias da Copa: nas duas primeiras rodadas, duas vitórias sem gols sofridos (2 a 0 na Finlândia, 8 a 0 em Malta), uma goleada muito útil em termos de saldo de gols. E nada indicava que seria diferente nas rodadas seguintes. Só que... foi.

No primeiro jogo contra a Polônia, na terceira rodada da qualificação para a Copa, em Roterdã, em setembro, a Holanda nem foi tão mal. Nomes como Denzel Dumfries e o citado Memphis cresceram muito de produção. Porém, de tanto controlar o jogo ao ter a vantagem, sem buscar mais gols, a Laranja foi pessimamente surpreendida ao tomar o 1 a 1 em casa. Bem, bastaria dominar a Lituânia, mesmo fora de casa, dias depois, para tranquilizar a situação, certo? Erradíssimo: a Laranja até abriu 2 a 0 no primeiro tempo, mas antes mesmo do intervalo, tomou o empate dos lituanos. Pior ainda: a Lituânia, 146ª colocada no ranking da FIFA, jogava melhor e tinha chances de virar o jogo. Só não virou porque Memphis Depay, além de se isolar naquele 7 de setembro como maior goleador da história da seleção holandesa masculina, fez o gol de um 3 a 2 salvador, mas que também mudava para pior a impressão de torcida e imprensa sobre a seleção laranja.

Retomado o ritmo de jogo no Corinthians, mesmo com lesões aqui e ali, Memphis Depay retomou sua titularidade na Laranja. E retomou com algumas ótimas atuações (ProShots/Getty Images)

O mau humor não mudou com as duas goleadas por 4 a 0, sobre Malta e Finlândia, nas rodadas de outubro das eliminatórias. Não mudou nem com os testes periódicos que o técnico Ronald Koeman começou a fazer nas convocações, com alguns estreantes (o goleiro Robin Roefs, para a reserva; Sem Steijn, Luciano Valente e Emmanuel Emegha, mais à frente). Talvez só tivesse mudado em caso de vitória contra a Polônia, em Varsóvia, na penúltima rodada da qualificação - mas o 1 a 1 tenso trouxe uma preocupação adicional: a lentidão da defesa para voltar e marcar contra-ataques, vista no gol de Jakub Kaminski. Pelo menos, o primeiro lugar no grupo G das eliminatórias e a vaga direta na Copa não corriam riscos, pela grande vantagem neerlandesa no saldo de gols, primeiro critério de desempate. E tudo isso se confirmou com uma goleada na rodada final: 4 a 0 na Lituânia. Após algum tempo (desde 2014), a Holanda voltou a se classificar para uma Copa do Mundo masculina sem sufocos.

Porém, nem o final feliz das eliminatórias tira a impressão de que a Laranja é uma seleção excessivamente displicente. Melhor do que estava na Copa de 2022, mas displicente. Mesmo com um meio-campo ótimo (Frenkie de Jong, Tijjani Reijnders e Ryan Gravenberch nada deixam a dever a nenhuma outra grande seleção), a fragilidade crescente da defesa - os dois laterais têm no apoio a melhor qualidade, e Virgil van Dijk sente cada vez mais o peso dos 34 anos - faz crer que, talvez, Ronald Koeman volte a experimentar um esquema com três zagueiros, nos amistosos que iniciarão 2026, contra Noruega e Equador, em março. E o grupo na Copa do Mundo, com o elogiado Japão, uma europeia vinda de repescagem (entre Ucrânia, Suécia, Polônia e Albânia) e Tunísia, é traiçoeiro demais para uma seleção que atrai menos confiança no fim de 2025 do que atraía há um ano. A esperança de torcida e imprensa é que a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) tenha regredido neste ano, para avançar em 2026. Quem sabe, avançar até o título mundial, caso embale no decorrer da Copa...

A dor de Weghorst, contra a Internazionale (Liga dos Campeões), simboliza: está difícil a situação para os clubes holandeses em 2025/26 (ProShots/Getty Images)

Clubes: o sonho não acabou, mas passou

Coeficiente melhor que o de Portugal e França, desde a temporada passada. Dois times nas oitavas de final da Liga dos Campeões, algo que não ocorria desde a temporada 2005/06. Nível promissor de times como o Utrecht, nas fases preliminares desta temporada atual. A saudável novidade do Go Ahead Eagles, novamente brilhando - e agora com uma fase de liga garantida, indo diretamente à Liga Europa ao conquistar a Copa da Holanda. Sim, a Holanda (Países Baixos) acreditava poder manter a vantagem. Ainda mais com a reta final incrível que o campeonato teve na temporada passada: com nove pontos de vantagem na virada do ano passado, o PSV desmoronou no começo de 2025, viu o Ajax abrir nove pontos, estar com eles a cinco rodadas do fim... para então, ser ele a desmoronar, com uma arrancada notável do time de Eindhoven para o bicampeonato, ganho na última rodada.

Mas o sonho acabou logo que as fases de liga começaram. Certo, há as exceções à regra: com boas vitórias contra Napoli (6 a 2 impressionante) e Liverpool (aproveitando a crise dos Reds para fazer 4 a 1 em Anfield), o PSV está firme para tentar ir à segunda fase da Liga dos Campeões, antes das oitavas. Uma surpreendente vitória sobre o Aston Villa turbinou o Go Ahead Eagles para seguir se esforçando em busca da vaga na Liga Europa. E bem ou mal, o AZ cumpriu a perspectiva de avançar na Conference League. Ainda assim, nem mesmo essas exceções escapam de críticas. Ao PSV, por exemplo, falta constância (se houve as vitórias citadas, houve derrota para o Union Saint-Gilloise belga em casa na estreia). Ao AZ, falta ofensividade: o time de Alkmaar não brilha nem nas vitórias.

O PSV é uma das raras exceções promissoras. Mas mesmo assim, ainda patina na Champions (ProShots/Getty Images)

Em vez de serem promissores, os times holandeses decepcionam. Que o diga, principalmente, o Feyenoord: as chances de avançar na Liga Europa se esvaem, e o time sofre com escolhas estranhas de escalação e derrotas pouco previstas (como o 1 a 0 sofrido para o Braga, na estreia em Portugal, e a virada para o 4 a 3 sofrida para o FCSB na Romênia, após ter 3 a 1 de vantagem). O Utrecht tinha mais dificuldades previstas, mas também não depõe a favor do clube ter somente um ponto em seis rodadas. E o Ajax teve na péssima campanha na Liga dos Campeões um símbolo do momento turbulento em que vive: chegou a ser último colocado na fase de liga, só teve derrotas em casa, e a vitória inicial só chegou na rodada passada (e mesmo assim, numa virada difícil: 4 a 2 sobre o Qarabag, no Azerbaijão).

Tudo isso se reflete no coeficiente: é cada vez mais provável que os Países Baixos sejam ultrapassados por Portugal, já que na próxima temporada serão descartados os pontos ganhos em 2018/19, quando o Ajax foi semifinalista da Champions - e, por tabela, turbinou os desempenhos do país. De quebra, uma das vagas a que o país tem direito na fase de liga do principal torneio europeu será perdida. E fica a impressão amarga: a Holanda perdeu uma ótima chance. O sonho não acabou em definitivo, já que sempre há a chance de reagir. Mas ele... passou.

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) começou o ano amuada, teve o ápice do baixo astral na eliminação precoce na Eurocopa... mas termina mais animada (KNVB Media/Divulgação)

Seleção feminina: depois da tempestade, a bonança pode vir

Os Países Baixos têm jogadoras de boa qualidade. Sempre tiveram. E as seleções femininas neerlandesas de base mostram ótima situação: que o diga a equipe sub-17, campeã europeia e vice-campeã mundial neste ano que se acaba. Entretanto, quando este 2025 começava, o grupo dificílimo em que o sorteio da Eurocopa feminina jogara as Leoas Laranjas - tendo, além de País de Gales, a França (sempre tradicional) e a Inglaterra (então campeã europeia - seria bicampeã -, e vice mundial) - já dava a impressão de que seria um ano complicado. Porque, mesmo com boas jogadoras, a seleção laranja de mulheres não passava a impressão consistente que precisaria passar para superar francesas e inglesas, ambas com mais qualidade técnica, mais opções e, no caso das inglesas, mais sabedoria em horas decisivas.

A impressão ficou pior ainda com o anúncio da saída do técnico Andries Jonker, antes mesmo da Euro - em janeiro, mais precisamente. Talvez fosse a atitude certa, mas foi tomada do jeito errado, sem nem um sucessor anunciado simultaneamente, nem explicações claras da federação (o que irritou ainda mais Jonker, que já demonstrou seu descontentamento com o anúncio nas datas FIFA de fevereiro - só no segundo semestre, o motivo seria "explicado", com um genérico "clima ruim com o grupo"). Nem influiu tanto nas rodadas iniciais do grupo da Liga das Nações - a Holanda pegava Alemanha, Escócia e Áustria, empatou com as alemãs na estreia, e conseguiu superar escocesas em um jogo de fevereiro, e austríacas, nas duas partidas de abril.

Porém, aí os problemas começaram. Primeiro, algumas lesões de nomes importantes. Que o diga a goleira Daphne van Domselaar, que sofreu uma lesão no tornozelo nos 3 a 1 feitos em casa contra as austríacas - e desde então, nunca mais esteve no auge da forma, mesmo se esforçando e até tendo um título europeu com o Arsenal. Que o diga, principalmente, Vivianne Miedema: conseguindo iniciar uma sequência de jogos na seleção, a atacante entrou em outros 3 a 1 contra a Áustria - fora de casa -, fez um belo gol... e minutos depois, com lesão muscular na parte posterior da coxa, já precisou ser substituída. 

Pior ainda foi ver a fragilidade defensiva crônica das holandesas ser posta a nu nos 4 a 0 sofridos para a Alemanha, na penúltima rodada do grupo 1 da Liga A, tirando as chances de classificação às semifinais, quando as Leoas Laranjas sequer chutaram ao gol de Ann-Katrin Berger. Entretanto, se houve uma partida em que o sinal de alerta ficou aceso, quase indo para o sinal vermelho, foi mesmo no empate em casa com a Escócia, por 1 a 1, na última rodada. Era só para cumprir tabela, mas indicava uma Holanda sem conseguir compensar no ataque (quantas chances perdidas!) a fraqueza da defesa. E nem mesmo a vitória no amistoso de despedida rumo à Euro (2 a 1 na Finlândia) apagou a forte desconfiança, aumentada ainda mais pela lesão no tornozelo que quase causou o corte de Lineth Beerensteyn.

Euro iniciada, houve a "folga" esperada na estreia, com tranquilos 3 a 0 no País de Gales. Diante da derrota e da má atuação da Inglaterra na sua estreia respectiva (França 2 a 1), a Holanda teve esperanças de vencer e, quem sabe, superar o "Grupo da Morte". Para o azar laranja, porém, Sarina Wiegman sabia exatamente o que fazer, diante de um grupo que (ainda) conhece como a palma da mão, mesmo com as renovações. E mesmo com inegável esforço, as Leoas Laranjas foram presas fáceis para os 4 a 0 que reabilitaram as Lionesses: nem conseguiram marcar no meio-campo, muito menos ameaçaram no ataque. Era a abertura de várias fissuras entre Andries Jonker, já sem muita autoridade desde o anúncio da saída, e o grupo: Wieke Kaptein reclamou de ter sido deixada no banco, Daniëlle van de Donk negou que uma lesão fosse grave como o técnico lamentou, Romée Leuchter depois diria que nunca teve a melhor das relações com Jonker. Se fez seu 100º gol pela seleção, Miedema novamente penou com as dores. E mesmo com um início esperançoso contra a França, precisando vencer por três gols de diferença para ir às quartas de final, o poderoso ataque francês rumou para a virada por 5 a 2, decretando a eliminação da Holanda na fase de grupos. Sinceramente, era até esperado, diante da desastrada decisão da federação e da má fase das jogadoras.


A depressão pós-Euro era tamanha que, já neste fim de ano, Miedema comentou que chegou a pensar em abandonar a seleção neerlandesa em definitivo. Pelo menos, houve um nome que simbolizou e assumiu a necessidade de renovação: o novo técnico, Arjan Veurink, anunciado desde abril. Ele chegava motivado e embalado: afinal, além de um histórico vitorioso em campeonatos holandeses femininos (quatro títulos, com o Twente), Veurink foi o auxiliar de Sarina Wiegman nos vitoriosos trabalhos na própria Holanda e na Inglaterra. E o treinador chegou tranquilizando: bastaria mostrar mais intensidade e mais cuidados defensivos, que logo as Leoas Laranjas voltariam a jogar bem. Chegou assumindo tarefas: convenceu Miedema a seguir na seleção, e afinal ajudou Sherida Spitse, após 248 jogos em 19 anos, a anunciar a saída definitiva das Leoas Laranjas, de forma tranquila. E chegou abrindo espaço para novatas.

Elas já começaram a aproveitar o espaço dado: nomes como Ella Peddemors e Lieske Carleer surpreenderam bem nos quatro amistosos finais de 2025. A própria Holanda mostrou um frescor havia muito tempo não visto em campo. E os resultados comprovaram: um empate (na estreia sob Veurink, 0 a 0 com a Polônia), três vitórias, só um gol sofrido nesses quatro jogos, Miedema voltando a brilhar (foram quatro gols nos 5 a 0 sobre a Coreia do Sul). O nível de exigência aumentará nas eliminatórias para a Copa de 2027, num grupo com França, Polônia e Irlanda, começando em março. Mas depois de um primeiro semestre tempestuoso, está presente a esperança de que a bonança virá para as Leoas Laranjas.

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