terça-feira, 13 de setembro de 2011

Vai ser mais difícil

Na Liga Europa 2010/11, Twente só parou nas quartas. Terá de se esforçar para não parar antes dessa vez (UEFA.com)

Sabe-se que a última vez em que algum clube holandês saiu de campo comemorando um grande título continental foi na temporada 2001/02, quando o Feyenoord viveu o melhor dos cenários: ganhando o título da Copa Uefa, contra o Borussia Dortmund, em decisão marcada previamente para o... De Kuip! Sabe-se também que o último time vindo da Holanda que fez fama pelo brilhantismo foi o Ajax campeão da Liga dos Campeões, em 1994/95. E, finalmente, sabe-se que, após o título do Feyenoord, houve alguns bons momentos - destaque para os bons duelos do Milan, na Liga dos Campeões, contra Ajax (quartas de final, 2002/03) e PSV (semifinais, 2004/05), quando uma classificação das equipes batavas chegou a parecer bem possível.

E, na véspera da estreia dos times holandeses nas fases de grupos dos campeonatos europeus de clubes, convém notar que 2010/11 também foi um período honroso, apesar dos pesares. Talvez, o clube que mais decepcionou foi o Ajax: mesmo com boas atuações contra o Milan, ser facilmente superado pelo Real Madrid e perder para o Auxerre, na França, matou as chances de classificação às oitavas de final da Liga dos Campeões. E, na segunda fase da Liga Europa, os Ajacieden decepcionaram, sendo presas fáceis para o Spartak Moscou.

Só que Twente e PSV mostraram valor, de certa forma. Principalmente o clube de Enschede: longe de ter sido saco de pancadas na Liga dos Campeões, a equipe conseguiu superar o Werder Bremen, e garantiu uma bela consolação com a ida para a Liga Europa. Aí ficou ainda melhor: superando Rubin Kazan, nos 16-avos de final, e Zenit, nas oitavas (dois clubes em situação melhor), os Tukkers chegaram às quartas de final. Foram facilmente superados pelo Villarreal, mas a boa impressão permaneceu. Os Eindhovenaren, por sua vez, também tiveram bom rival no Lille, mas passaram pelos franceses. Nas oitavas de final, só sofreram com a defesa férrea dos Rangers, já que foram francamente melhores. Só foram parar também nas quartas, pela superioridade do Benfica.

Porém, o cenário deverá ser diferente, nesta temporada. Não que os clubes holandeses tenham mudado sua situação. Apenas os desafios são mais difíceis. Tome-se por exemplo a situação do Ajax, que começa na Liga dos Campeões enfrentando o Lyon, na Amsterdam ArenA, nesta quarta. A chave que coube aos Godenzonen na LC foi novamente indigesta. Para começo de conversa, o temível Real Madrid será adversário, de novo. E, se inspira menos respeito do que o Milan, o Lyon também é melhor, e favorito à outra vaga do grupo D. Dos duelos contra os Gones sairá a possibilidade dos Amsterdammers sonharem com as oitavas de final - isso, se não houver tropeços contra o Dinamo Zagreb.

Na Liga Europa, o cenário é um pouco mais auspicioso. AZ, PSV e Twente tiveram grupos bastante acessíveis. Contra Hapoel Tel Aviv, Rapid Bucareste e Legia Varsóvia, no Grupo C, o time de Eindhoven terá oportunidades para melhorar aos poucos, se entrosar e esquecer o começo irregular que está tendo na Eredivisie. Já na chave G, o AZ terá mais exigências contra Metalist Kharkiv, Austria Wien e Malmö, mas pode avançar sem problemas. Finalmente, o Twente terá no Fulham um rival elogiável, na chave K. Mas Odense e Wisla Cracóvia não deverão oferecer muita resistência. Tudo bem até o sorteio dos jogos da segunda fase. Aí, a coisa deve complicar.

E deve complicar porque os clubes holandeses não dão razões para confiança mínima (exceto, talvez, o regular Twente). Nesta temporada, definitivamente, ocasiões honrosas como as do ano passado devem ser mais raras. Com a Grécia não muito atrás no ranking da Uefa, não custa batalhar para evitar eliminações precoces - e indesejáveis.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

810 minuten: como foi a 5ª rodada

Apesar do 3 a 2 contra o Heracles, o Ajax teve menos dificuldades do que se pensa (Ajax.nl)

Cinco rodadas passadas na Eredivisie, já se consegue notar uma certa força do Trio de Ferro, mais os dois que normalmente têm conseguido furar esse bloqueio nos últimos anos - claro, AZ e Twente. Só que, dentre os três principais clubes holandeses, nota-se que o Ajax tem conseguido manter o status de favorito. E, principalmente, que o começo do Feyenoord tem algo de animador: o time de Ronald Koeman está invicto (três vitórias e dois empates).

Entre o resto, o destaque supremo vai para o RKC. Para um time ainda considerado alvo favorito para o rebaixamento, os Católicos estão tendo um começo ótimo: ocupam a sexta posição, com 10 pontos, mesma quantidade do PSV. Só não estão à frente dos Eindhovenaren pelo menor número de gols marcados. Clubes que tinham tudo para fazer campanha melhor, como Groningen e NAC Breda, sofrem com o péssimo começo. Vamos à avaliação dos jogos da quinta rodada:

Roda JC 2x1 Twente
O time de Kerkrade se valeu de uma atuação bastante calma para, enfim, impor a primeira derrota na temporada aos Tukkers. Estes até começaram melhor: em detrimento do pouco espaço que a defesa dava, Willem Janssen conseguia achar lacunas. Numa dessas é que ele conseguiu chutar, para o rebote do goleiro Kieszek (emprestado pelo Porto), aproveitado por Janko.

Só que os contragolpes do Roda foram certeiros. No minuto seguinte, Vormer empatou. E, no primeiro minuto da segunda etapa, o próprio Vormer fez belo passe para Mitchell Donald virar o jogo. Houve certa pressão do time de Co Adriaanse, mas o Roda se segurou. Pôde até fazer 3 a 1, no final do jogo. De qualquer modo, já podia se vangloriar por ter derrubado o único time a haver conseguido só vitórias na Eredivisie, até a quinta rodada.

AZ 4x0 Vitesse
Mesmo tendo perdido Sigthórsson, o ataque dos Alkmaarders continua com vários jogadores que, se estão num bom dia, são até imparáveis. Foi o caso diante do Vitesse. Bastaram dois gols rápidos para encaminhar a vitória. Ambos, surgidos de cruzamentos mal marcados pela defesa dos Arnhemmers (e nos quais Velthuizen, finalmente de volta ao gol dos aurinegros após a passagem ruim pelo Hércules), e aproveitados por Wernbloom e, depois, por Gudmundsson. O belo gol de Maher - após passe de Beerens, o meia tocou por cobertura - e o pênalti convertido por Elm trataram de apagar qualquer possibilidade de reação dos visitantes. Tudo antes do intervalo.

ADO Den Haag 0x1 RKC Waalwijk
Até que, pelo começo, os Hagenaren davam a ideia de que conseguiriam vencer. Tendo os irmãos John e Wesley Verhoek à frente, os comandados de Maurice Steijn iam frequentemente ao ataque. Mas bastou um contra-ataque bem encaixado dos Católicos para Rick ten Voorde, com um belo voleio na segunda trave, fazer o gol da vitória. Depois, o RKC só segurou o jogo. E nem teve tantas dificuldades para alcançar um ótimo resultado.

De Graafschap 1x0 NEC
No primeiro tempo em Doetinchem, as duas equipes criaram poucas jogadas de ataque. Nas que criaram, as defesas agiram bem. A não ser numa rápida triangulação em que Soufiane El Hassnaoui abriu o placar para o time anfitrião. Depois de ficarem atrás, os Nijmegenaren começaram a chegar mais ao ataque. Essa medida ficava mais frequente à medida que o fim do jogo se aproximava. Só que os jogadores falhavam nas finalizações e chutes de fora da área. Com tantas oportunidades perdidas, não houve como evitar a primeira vitória dos Superboeren na temporada.

Heracles Almelo 2x3 Ajax
O gol de Willie Overtoom que colocou os Almelöers na frente até deu a impressão de que os Ajacieden também poderiam ser surpreendidos. Só que Siem de Jong não deixou. Menos valorizado do que deveria, o camisa 10 dos Amsterdammers recolocou o atual campeão no jogo, com o empate. E, no segundo tempo, sacramentou a virada - que até demorava, tal o número de chances criadas, mas defendidas por Remko Pasveer. Que, diga-se de passagem, falhou nos dois primeiros gols.

Um rápido contra-ataque e um passe de Eriksen para Sulejmani concluir com um leve toque fecharam a questão para o Ajax voltar a ser líder do campeonato. Nem mesmo o gol de Glynor Plet, no final do jogo, assim como a expulsão de Lorenzo Ebecilio, apagaram a sensação de que o placar foi mais apertado do que o jogo em si. Vitória categórica, importante para dar moral rumo à sequência indigesta de jogos (Lyon na quarta, pela Liga dos Campeões; depois, pela Eredivisie, "só" PSV, Twente, Groningen e AZ).

Heerenveen 3x0 Groningen
O Dérbi do Norte se resumiu quase a um time. As únicas vezes em que o Groningen chegou ao ataque foram pelo esforço de Leandro Bacuna. De resto, o Heerenveen foi francamente superior. Tanto é que nem precisou se esforçar muito para fazer 3 a 0, num jogo que teve poucas emoções.

VVV-Venlo 3x3 PSV
Não adianta: o PSV não consegue decolar nesta temporada. Prova disso foi o tropeço quase imperdoável contra o VVV. Com algumas alterações feitas por Fred Rutten (a mais notável delas sendo a colocação do recém-contratado Tyton no gol, deixando Isaksson no banco de reservas), a vantagem de 2 a 0 fora construída facilmente, com destaque para o belo gol de Toivonen. Mais do que isso: com seu tento, Dries Mertens igualou Piet van der Kuil (temporada 1961/62) e Mateja Kezman (temporada 2003/04) como um dos três únicos "PSV'ers" a terem marcado gols em todos os primeiros cinco jogos de uma temporada.

Só que não adiantou. Porque bastaram quatro minutos para os Venlonaren conseguirem virar o jogo de modo espetacular. Duas vezes, contando com falhas de marcação dos Eindhovenaren no jogo aéreo. E, uma vez, graças a um belíssimo gol, talvez o mais bonito da rodada, feito pelo nigeriano Uche Nwofor, contratação recente. Somente aos 30 minutos do segundo tempo os visitantes escaparam da derrota, com o empate feito por Wilfred Bouma. Ainda assim, o tom de derrota foi indisfarçável para o PSV.

NAC Breda 1x3 Feyenoord
O gol de Robbert Schilder, com cinco minutos de jogo, não era um bom auspício na tentativa do Stadionclub em manter a invencibilidade na Eredivisie. Era preciso que os novos reforços aparecessem. E eles o fizeram. Primeiro, foi Otman Bakkal, que empatou o jogo ao desviar escanteio de Jerson Cabral. Mas foi no segundo tempo que o esforço empregado pelos Rotterdammers, enfim, deu frutos.

E contando, mais uma vez, com uma novidade no elenco. El Ahmadi virou o jogo, com um belo gol de fora da área, e o sueco John Guidetti, que entrou na vaga de Guyon Fernandez, converteu pênalti, a três minutos do fim. Pelo esforço que o NAC também empregou no jogo, que foi até animado, uma vitória animadora.

Excelsior 2x3 Utrecht
Outro jogo que poderia ter sido mais fácil. Mesmo após ter saído atrás no placar, o Utrecht atacava mais. Virou ainda no primeiro tempo, fez 3 a 1 na etapa final, e parecia ter a vitória bem encaminhada. Só que, mesmo com um jogador a mais (Samuel Scheimann foi expulso antes ainda de Nana Asare fazer o terceiro dos Utregs), os visitantes deixaram o Excelsior fazer o segundo, com o zagueiro Broerse. Então, tiveram de se esforçar para conter o oponente de ânimo redivivo. Conseguiram evitar a surpresa de ver o lanterna da Eredivisie chegar ao empate, mas têm de se cuidar.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Não precisava

Celebrado após marcar seu primeiro gol pela seleção, Strootman vai se firmando no grupo de Van Marwijk (Getty Images)
Tem-se discutido muito o conceito de jogos entre seleções. A utilidade deles, a falta de empolgação que se vê, o ritmo modorrento. Pode-se dizer, de certo modo, que a campanha da Holanda nas eliminatórias para a Euro 2012 preenche à perfeição. Independentemente do grupo em que caísse, a Oranje já vinha anabolizada psicologicamente pela campanha na Copa. Depois que o sorteio lhe reservou os rivais, a crença da qualificação ficou ainda mais forte, quase como se fosse destino.

E é o que os jogos têm revelado: antes mesmo do massacre contra San Marino, o domínio do time de Bert van Marwijk no Grupo E já era flagrante. E o 2 a 0 contra a Finlândia foi mais uma prova do que já se vê há um bom tempo: um time que nem precisa se esforçar para ser amplamente superior. Mais do que isso: um time que mostra uma capacidade insuspeita. A de conseguir recuperar a postura tática e emocional em campo, mesmo após passar por problemas em campo.

Essa postura foi delineada desde os primeiros momentos do jogo em Helsinque. Com a mesma escalação do jogo da última sexta, a Oranje começou pressionando firmemente a saída de bola finlandesa. Não deu para abrir o placar antes dos 15 minutos, então, veio o natural: a volta ao paciente toque de bola, ao "tikkie-takkie voetbal" - sim, daí derivou o "tiki-taka" que dá nome ao estilo do Barcelona.

Assim passou-se boa parte do primeiro tempo, sem que o time anfitrião conseguisse ameaçar muito. Só que foi um passe longo que acelerou a resolução da história. Sem exercitar comumente essa qualidade na seleção, Sneijder fez um lançamento milimétrico para Strootman, que completou de primeira. Belo gol, o primeiro pela seleção, o que de certo modo ajuda o meia do PSV a se solidificar como a grande alternativa a Van Bommel ou De Jong, na dupla de marcação. Se é que Strootman ainda é alternativa.

Somente depois é que o time de Mixu Paatelainen começou a fazer algo no ataque. Guiado pelos esforços de Forssell (menos), Pukki (o melhor finlandês, provavelmente), Eremenko e Hetemaj, o time começou a criar jogadas e até a arriscar chutes a gol. Só que nenhum deles dava problemas a Stekelenburg. Essa tendência prosseguiu no segundo tempo.

Mas quem criou problemas foi a própria Holanda. Apalermada pela própria superioridade, a equipe começou a jogar displicentemente. Bastou para uma jogada perigosa surgir de um erro, e quase resultar no primeiro gol sofrido pela Oranje em jogos fora de casa nas eliminatórias: após Pieters errar um recuo de bola, aos 13 minutos, Hämäläinen dominou-a livre, entrou na área e tocou por cima de Stekelenburg. Só não marcou porque o lateral esquerdo holandês se redimiu, tirando em cima da linha.

Só então a Oranje exibiu a qualidade de conseguir se recompor. E a expulsão de Hetemaj, pelo segundo cartão amarelo após falta em Van Bommel, aos 25, só tranquilizou mais as coisas. O que não significou nova onda de letargia: Van Marwijk acertou ao tirar Van Persie e Huntelaar, apáticos, para colocar Luuk de Jong e Elia.

O atacante do Twente pouco fazia, mostrando algum nervosismo. Mas Elia deu novo dinamismo aos ataques laranjas, mostrando-se como boa opção. E foi por uma jogada individual sua que, aos 46 minutos, Luuk de Jong fez o gol decisivo, seu primeiro pela Oranje.

Enfim, a Holanda nem estava desesperada pela vitória. Mesmo que a Suécia tenha vencido San Marino, basta um ponto contra a Moldávia para a Oranje garantir o voo dos 23 atletas rumo a Polônia e Ucrânia em 2012. Só que, se não precisava de muito esforço, também não precisava incorrer na displicência. Menos mal que mostrou também capacidade de reação.

domingo, 4 de setembro de 2011

Os rescaldos do massacre




Desde 2004 na Oranje, Kuyt está bem perto de entrar na lista dos dez com mais partidas pela seleção (AP)

É de se supor que uma goleada tão grande quanto os 11 a 0 contra San Marino quebre algum tipo de recorde - ou, no mínimo, aumente certas invencibilidades. Só que a quantidade de números que o placar largo modificou na história da seleção holandesa é impressionante.

A começar, claro, pelo mais citado dos recordes: foi a vitória de maior placar nos 106 anos de história da Oranje, superando os 9 a 0 conseguidos contra Finlândia, em 4 de abril de 1912 (pelo torneio olímpico de futebol, em Estocolmo), e Noruega, em 1º de novembro de 1972 (nas eliminatórias para a Copa de 1974).

Só que o triunfo em Eindhoven significou o prolongamento de duas invencibilidades. A primeira, vá lá, nem tão desconhecida assim: desde o 11 de julho de 2010 (derrota cujas circunstâncias todos conhecem: contra a Espanha, na final da Copa), ou seja, há 13 jogos, a Holanda não sabe o que é derrota. E, em termos de partidas em casa por eliminatórias para a Eurocopa, a invencibilidade vai mais longe: 47 jogos. A última derrota data de 30 de outubro de 1963: 2 a 1 para Luxemburgo, em Roterdã.

Não bastasse isso, jamais os holandeses haviam conhecido uma invencibilidade tão grande na qualificação para o torneio continental de seleções: há sete partidas estão invictos (desde 2007, na derrota por 2 a 1 para Belarus, em Minsk, quando a vaga para a Euro 2008 já estava garantida).

Em relação a feitos individuais, também se viram várias mudanças. A começar na lista dos jogadores com mais partidas. Dirk Kuyt fez, em Eindhoven, a sua 79ª partida pela Oranje. Ainda é o 12º jogador com mais partidas. Só que empatou com Bergkamp e Kluivert. Caso jogue em Helsinque, contra a Finlândia, na próxima terça, o atacante se tornará o 10º com mais jogos envergando a camisa laranja.

E, na lista de goleadores, as mexidas foram ainda maiores. Se é criticado por seus rendimentos nos clubes - mas, vá lá, seu início de temporada no Schalke 04 tem sido reconhecido -, Klaas-Jan Huntelaar cresce de rendimento na Oranje. Tanto é que, com apenas cinco anos de serviços prestados à Oranje adulta, o nativo de Drempt já fez 28 gols, em 45 jogos. E igualou-se a Beb Bakhuys, atacante dos anos 1920 e 1930, como oitavo jogador com mais gols pela seleção. Logo atrás (precisamente, na 10ª posição), chegou Robin van Persie. Com os quatro gols que marcou, o atacante do Arsenal foi a 25, superando Marco van Basten.

Só que números são rescaldos frios, e nem querem dizer muita coisa. As impressões do jogo é que dão elementos úteis. E tivemos duas impressões fortes em Eindhoven. A primeira: Kevin Strootman vive uma ascensão frenética em sua carreira. Há um ano, o meio-campista estava no Sparta Rotterdam. Logo no início da temporada 2010/11, foi-se para o Utrecht. E, hoje, está no PSV. E, pela postura mais ofensiva que mostrou como parceiro de Van Bommel, dá a impressão de que pode tomar a posição de De Jong.

A segunda é ver que, se exibe um estilo francamente mais ofensivo do que o mostrado na Copa do Mundo, ele ainda não envolve todos os jogadores. Basta ver as jogadas de ataque. Todas com toques rápidos, tabelas envolventes... e com Sneijder, Van Persie e Kuyt aparecendo em boa parte do tempo. Com isso, se mostra desenvoltura sem Robben, a equipe de Bert van Marwijk corre o risco de ter seus pontos fortes bem visados, atraindo a atenção dos marcadores e tornando as coisas mais difíceis.

Mas, por incrível que pareça, saber que a Alemanha, um rival de grande respeito, será adversária no amistoso de 15 de novembro é auspicioso. Exatamente para revelar como a Oranje pode se sair contra um oponente da mesma altura. Motivação para enfrentá-lo, existe. Sneijder prova isso ("É a melhor base da Oranje na qual joguei. Temos prazer, e crescemos muito a cada jogo. O técnico também cresceu, após três anos."). Van Bommel, também, com palavras parecidas ("É o melhor time em que já joguei, como Van Persie já disse. E nisso incluo os clubes em que já estive.")

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Rival fraco. Mas foi histórico




Era para a foto ser de Van Persie, que fez quatro gols. Só que Sneijder marcou o décimo que a torcida pedia (Getty Images)

A seleção de San Marino é fraca. Fragílima. Nível técnico próximo do risível, seguramente um dos piores da Europa. Basta pegar os resultados do time nas duas últimas eliminatórias de que participou. Na qualificação para a Euro 2008, nenhum ponto, dois gols marcados, 57 sofridos. E, na tentativa de chegar à Copa de 2010, números um pouco mais honrosos: se novamente a "Sereníssima" ficou sem pontos, sofreu "apenas" 47 gols. Até fez um, na derrota para a Eslováquia, em 11 de outubro (a saber, Andy Selva foi o autor).

Óbvio, a equipe sanmarinesa é alvo de constante chacota. Tudo fruto da lógica. A população do país é a menor entre as nações que fazem parte da UEFA (31.918 habitantes). Logo, de uma quantidade já pequena não há de se tirar muita qualidade futebolística. E a maioria dos atletas da seleção ainda é amadora. Resultado: volta e meia, a equipe sofre goleadas acachapantes.

A ponto de quase sofrer uma humilhação adicional: nos lendários 13 a 0 sofridos para a Alemanha, nas eliminatórias da Euro 2008, o goleiro Jens Lehmann quase foi cobrar um pênalti que surgira, no último minuto do jogo em Serravalle. Não o fez porque, na última hora, preferiram que Bernd Schneider o cobrasse, para fechar o placar.

Todo este longo preâmbulo para frisar que, nesta sexta, em Eindhoven, a Holanda fez uma tarefa próxima do obrigatório. Falando no popular: bateu em bêbado. Agora, convém lembrar que o grupo em que a Oranje esteve nas eliminatórias para a Copa de 2010 também era sempre apontado como frágil, permanente motivo para dizer que a equipe de Bert van Marwijk "não era isso tudo". Pode não ser a melhor seleção do planeta, mas o desempenho na África do Sul provou que uma chave de baixo nível nas eliminatórias não é sinônimo de time enganador em momentos decisivos.

E a chave para os 11 a 0 que se viram em Eindhoven também foi fundamental para o vice-campeonato: a concentração. Ter goleado por "apenas" 5 a 0 em Serravalle, na primeira partida das eliminatórias da Euro, ainda se perdoava: a ressaca da Copa ainda persistia. Agora, o cenário era outro. Ainda que vitimada pelas ausências de De Jong e, principalmente, de Robben, o time começou seriamente. Com alguns minutos, já havia tido três escanteios.

E, aos sete minutos, Van Persie fez 1 a 0. Estava iniciado o caminho para aquela que seria uma noite histórica. Continuou aos 12, quando Sneijder fez o segundo. E aos 17, quando, de cabeça, Heitinga fez o terceiro. E nada mais ocorreu por parte da Oranje. O que fazia crer que o time ia passar os 73 minutos restantes apenas administrando o jogo. Nada criminoso, mas iria ser decepcionante.

Não foi. Porque Kuyt fez 4 a 0 logo aos quatro minutos, na etapa final. Porque Huntelaar fez dois gols, continuando a render bem com a camisa laranja. Inclusive, foi com o oitavo gol da partida, feito pelo atacante, que a torcida presente ao Philips Stadion lembrou a cena clássica do Flamengo x Botafogo no Campeonato Carioca de 1981: pôs-se a gritar "Dez! Dez!"

Na verdade, 9 a 0 já bastavam para que a Oranje igualasse seu maior placar a favor, conseguido duas vezes: contra Finlândia, em 1912, e Noruega, em 1972. Só que o ânimo continuou. E Van Persie se mostrou imparável no segundo tempo, marcando mais três e sendo o primeiro jogador a marcar quatro gols pela seleção holandesa desde 1990 - e, naquela ocasião, Van Basten ainda fez mais um, em um 8 a 0 contra Malta, pelas eliminatórias da Euro 1992.

Finalmente, veio o êxtase. Aos 34 minutos, Van Persie fez o 9 a 0. A pressão pelo décimo foi quase irrespirável. E, aos 42, Sneijder pôs Eindhoven abaixo. Era a primeira vez que a Oranje marcava uma dezena de gols em sua história. E o minuto final daquela partida ainda reservava uma surpresa agradável a um jovem: tendo acabado de entrar no lugar de Strootman (e, por tabela, estrear pela Oranje adulta), Wijnaldum fez o 11º gol que fechou uma noite histórica.

Volte-se a frisar: era San Marino, provavelmente a pior seleção da Europa. Só que a principal qualidade deste grupo comandado por Van Marwijk se viu mais uma vez: a grande capacidade de concentração, de foco em um objetivo. Serviu para quebrar um recorde. Pode servir na Euro - alguém duvida que a qualificação é altamente provável? Porque, afinal, como disse Van Persie, "este é um grupo realmente bom."