sábado, 10 de outubro de 2015

Por um fio

A boa estreia de El Ghazi e os gols de Wijnaldum e Sneijder ajudaram a tensa Holanda (ANP/Pro Shots)
A seleção da Holanda já tinha sérios problemas com lesões, suspensões... enfim, tinha sérios problemas com desfalques para enfrentar o Cazaquistão, na primeira das duas partidas fundamentais pelas últimas rodadas das eliminatórias da Euro 2016. E por mais que não fosse personagem fundamental na equipe, Jasper Cillessen foi mais um acréscimo à lista, ao lesionar as costas no aquecimento imediatamente anterior ao jogo na Astana Arena, dando forçosamente lugar entre os titulares a Tim Krul. Mais um revés num jogo já cercado de tensão - por mais que fosse contra o último colocado do grupo A da qualificação.

E essa tensão perturbou visivelmente a seleção holandesa. Não que estivesse sendo sufocada pelos cazaques. Nem que o péssimo gramado da Astana Arena atrapalhasse demais. Era melhor em campo: no 4-3-3 inicial (que mais pareceu um 4-1-4-1 ao longo do jogo), a proximidade entre os jogadores era bem mais notória do que contra Islândia e Turquia. Além disso, sempre que possível, as jogadas de ataque eram aceleradas. Na defesa, embora a saída de bola tivesse sobressaltos, Daley Blind fazia muito bem o papel de proteção à zaga. Porém, o Cazaquistão teve mais posse de bola no início do jogo. Estava mais animado. E isso fazia com que tivesse mais volume de jogo no ataque, no 5-4-1, com bons inícios de Bauryzhan Islamkhan e Ilam Konysbaev. Além disso, a defesa compactada dos anfitriões revelavam que segue o problema holandês de não conseguir se sobressair contra defesas fechadas.

Por isso, mesmo que se vissem bons pontos (como a estreia agradavelmente segura de Kenny Tete e, principalmente, Anwar El Ghazi, que foi constante opção pela direita), a equipe parecia tensa em campo. Não fazia fluir sua superioridade técnica - clara, embora não fosse categórica. Era preciso aproveitar pelo menos uma jogada de ataque para abrir o placar e tranquilizar o jogo. A primeira foi perdida, em chance valiosa que Memphis Depay chutou para fora. A segunda deu certo, no rápido passe de El Ghazi para Georginio Wijnaldum (atuação satisfatória), que chutou rasteiro para abrir o placar. A comemoração de "Gini", com o abraço coletivo, mostrou a importância daquele gol.

Aí, o ânimo cazaque baixou definitivamente. E a Oranje pôs em prática sua superioridade tática. Na defesa, além do auxílio de Blind, Jeffrey Bruma e o estreante Virgil van Dijk cuidavam das coisas para não correrem riscos desnecessários; no meio-campo, Wijnaldum era quem mais atacava, além de El Ghazi sempre procurar jogo e ter espaço para suas tentativas. Quem pecava eram Memphis Depay, individualista em excesso; Wesley Sneijder, que não ia mal, mas não comandava o jogo como se espera; e Klaas-Jan Huntelaar, atuando mais taticamente do que aparecendo para finalizar.

Ainda assim, a Laranja retomou a maior posse de bola. E valeu-se de nova rápida jogada de ataque para fazer 2 a 0, com Huntelaar servindo de pivô para Sneijder concluir e praticamente encaminhar a vitória dos visitantes. Aí houve o problema: pouco a pouco, relaxada por se saber superior, a Holanda foi permitindo a evolução ofensiva dos cazaques, Tete avançava bem e até continha os ataques por seu setor, mas aos poucos os cruzamentos aumentaram sobre a área holandesa. Mais: em saída de gol, Krul caiu de mau jeito, torceu o joelho e teve de ser substituído por Jeroen Zoet. Enquanto isso, Ibrahim Afellay e Robin van Persie (fazendo seu 100º jogo pela seleção) entravam para servirem de referência no time.

Por fim, veio o gol de honra de Islambek Kuat. A vitória holandesa já estava garantida, o jogo já estava nos acréscimos (precisamente no quarto dos cinco minutos dados pelo árbitro francês Clément Turpin), mas o gol foi um último aviso de que a seleção precisa cuidar de sua defesa. Pior: Danny Blind já sabia que teria de fazer novas convocações, com a lesão de Krul e Tete como único lateral direito, e chamou Kenneth Vermeer e Gregory van der Wiel (já com a suspensão cumprida). O capitão Sneijder reconheceu que houve certa sorte ("Foi sorte o juiz ter apitado o final logo depois do 2 a 1") e alertou que sua presença contra a República Tcheca não é certa ("Se o trabalho de parto [da esposa Yolanthe] começar, eu deixo a delegação"). 

De todo modo, embora tenha vencido, sabe-se que a Oranje nada mais fez do que cumprir a obrigação de superar o lanterna Cazaquistão. E a República Tcheca, jogando com um time misto, foi superada por uma Turquia que vê seus destaques (Selçuk Inan, Hakan Çalhanoglu e, principalmente, Arda Turan) crescerem na hora certa. Agora, a única alternativa para o time laranja é vencer os tchecos, na Amsterdam Arena, e torcer pelos islandeses, que enfrentam os turcos, em Konya. Tornou-se ainda mais difícil. A seleção holandesa está por um fio. Para muita gente na torcida e na imprensa, nem adianta mais esperar que o vexame seja evitado.

Como em 2003: em desespero, Oranje aposta nos jovens

Promessa em 2003, Sneijder agora lidera jovens holandeses na última cartada por vaga na Euro (VI Images)
19 de novembro de 2003. Na repescagem das eliminatórias para a Euro 2004, jogando contra a Escócia por uma das últimas vagas no torneio continental, a seleção da Holanda chega para a partida decisiva em sérias dificuldades: perdeu o jogo de ida em Glasgow, por 1 a 0, e o técnico Dick Advocaat está sob uma torrente de críticas, que pedem por um jogo mais ofensivo.

Advocaat decide apostar alto: escala a seleção num 3-4-3, colocando pela primeira vez como titular um meio-campista promissor: Wesley Sneijder, 19 anos, em sua terceira partida na Laranja. O resultado? 6 a 0, com Sneijder como grande destaque: abriu o placar e deu quatro passes para outros gols. Ali o jovem mostrava: poderia marcar época na história da seleção holandesa.

O tempo passou. Hoje, 9 de outubro de 2015, Sneijder se estabeleceu há muito tempo como um dos melhores jogadores holandeses de futebol em todos os tempos. Tem 117 jogos pela Oranje, número só inferior aos 130 jogos de Edwin van der Sar. E se era a aposta em 2003, agora o meio-campista será um dos líderes de uma Oranje que teve de se renovar, à força, para as duas últimas partidas nas eliminatórias da Euro 2016.

Partidas que são duas “decisões”, contra Cazaquistão, neste sábado, e República Tcheca, na próxima terça. Atrás da Turquia no grupo A, a Holanda não pode mais tropeçar – e espera que os turcos falhem. Ou seis pontos mais um mau resultado dos turcos (contra os tchecos ou contra a Islândia) para ir à repescagem, ou o vexame da ausência na Euro será real.

Está certo que, originalmente, nem era a intenção de Danny Blind apostar tanto em garotos para conseguir o que a imprensa do país chama de “Houdini-act” – um milagre, uma mágica, algo digno de Houdini. Mas as circunstâncias forçaram-no a isso. A começar pela defesa. Van der Wiel e Martins Indi estão suspensos, e De Vrij lesionou o joelho. Resultado: Blind repetiu a aposta em Jaïro Riedewald, do Ajax; promoveu o retorno de Karim Rekik (agora está no Olympique de Marselha, mas poderia repetir dupla com Jeffrey Bruma, parceiro no PSV); deu nova chance a Virgil van Dijk, pedido há muito na Oranje e começando bem no Southampton; e chamou para a lateral direita Kenny Tete, 19 anos, do Ajax.

Na entrevista coletiva que deu na segunda-feira passada, Blind reconheceu as poucas opções defensivas, mas voltou a criticar Van der Wiel e Martins Indi, negando-se a chamá-los apenas para o jogo contra a República Tcheca: “Eles não foram convocados porque estão suspensos. Mas não se pode dizer que eles não falharam nas partidas anteriores. Principalmente Martins Indi, mas também Van der Wiel, que errou no pênalti [contra a Islândia]. E a diferença para os outros jogadores não é tão grande a ponto de eu convocá-los só para jogarem a segunda partida”.

Mas desgraça pouca era bobagem: Daryl Janmaat, o substituto de Van der Wiel e titular quase certo, chegou à concentração em Hoenderloo com problemas no joelho. Resultado: foi cortado na terça-feira. O técnico até informou que ligou para Van der Wiel e pediu “que ficasse alerta”, mas é altamente provável que Tete será jogado aos leões contra o Cazaquistão. Até que o lateral está motivado (“Jogar por meu país é um grande sonho. As condições estão difíceis, mas darei tudo o que puder se eu jogar”), mas é de se pensar o impacto que as ausências terão na já frágil defesa da Oranje.

E como uma praga, as ausências se espalharam por outros setores. No meio-campo, Davy Klaassen saiu do clássico entre Ajax e PSV com uma leve concussão. Mais um corte, com outro novato como substituto: o volante Riechedly Bazoer, 18 anos (faz 19 na próxima segunda), companheiro de Klaassen no Ajax. Pior: até Sneijder pode se ausentar. Sua esposa, Yolanthe, espera o nascimento do primeiro filho do casal para qualquer momento. E o camisa 10 já anunciou: caso o bebê venha durante a semana de jogos, larga a seleção para acompanhar o novo rebento.

No ataque, o novato nem chegou por uma convocação de última hora, mas por merecimento: decidido a jogar pela seleção holandesa adulta (não sem um “empurrão” da opinião alheia, é verdade), Anwar El Ghazi mereceu sua primeira convocação, como um dos melhores jogadores do Campeonato Holandês atual. O que não significa que as lesões deixaram em paz os atacantes. Outro destaque da Eredivisie, Luuk de Jong, lesionou o tornozelo há duas semanas e perdeu uma chamada quase certa.

Outro atacante cortado foi Quincy Promes, que poderia ser usado pela ponta esquerda, mas também se machucou defendendo o Dynamo Moscou. Seu substituto, por sinal, foi uma surpresa: bastou um começo relativamente bom pelo Feyenoord para Eljero Elia voltar à Oranje, após três anos de ausência. Elia, claro, comemorou: “Foi por isso que voltei ao futebol holandês”.Mas nem mesmo todas essas adversidades tiraram Danny Blind da mira das críticas. Por duas razões. A primeira, frequência demasiada de jogadores do Ajax na convocação (além de Tete, Riedewald, Bazoer e El Ghazi, Cillessen está na lista), o que talvez indique certa parcialidade do técnico, que atuou pelos Amsterdammers dentro e fora de campo. Além de ser inegável exagero, para um time cujas atuações têm sido medianas. Claro, Blind negou: “Acho que isso é besteira, eu não me importo com o time em que jogam”.

Outra razão para reclamações é a insistência do treinador no 4-3-3, considerado uma das razões para a derrota contra a Turquia, pela desorganização extrema da defesa e pelo excesso de espaço entre os setores do time. Blind foi definitivo: “Vamos jogar no 4-3-3. Se nos classificarmos para a Euro, aí se olha para as outras possibilidades dentro do elenco que permitam outro sistema. Mas ainda há equipes que jogam com três atacantes. São melhores do que nós, mas eu acho que somos melhores do que o Cazaquistão”.

Se era apenas uma promessa naquela repescagem em 2003, Sneijder agora é o veterano que ditará os rumos, junto de Van Persie. E suas declarações são otimistas: “Espero que tenhamos outro final feliz”.  De fato, deu certo há 12 anos. Assim como já deu certo depender de uma vitória da República Tcheca, na fase de grupos da Euro 2004 (fato mencionado no fim deste texto aqui).

Mas agora é outra história, com outro time, em circunstâncias mais difíceis. Além disso, o Cazaquistão trouxe sérias dificuldades ao ser enfrentado em Amsterdã (a derrota por 3 a 1 só veio após os cazaques ficarem com dez). Sem  contar o gramado artificial da Astana Arena, com que a Oranje está desacostumada. Se der certo, e a Turquia “colaborar”, a Holanda segue em busca da Euro. Caso contrário, pelo menos as novas caras já começarão a aparecer. Seja como for, a última cartada foi dada. A partir deste sábado, a sorte está lançada.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 9 de outubro de 2015)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Grandes jogadores holandeses de que você nunca ouviu falar: Coen Dillen

Dillen (camisa listrada) foi um dos primeiros e mais importantes ídolos da história do PSV (Gé van der Werff/fotoleren.nl)
Ah, o Campeonato Holandês... Um dos paraísos máximos para quem quer fazer gols. Jogadores acostumados à artilharia são tão frequentes na Eredivisie que torna-se bastante difícil separar atacantes que tornaram-se reconhecidos pela habilidade e capacidade em colocar a bola nas redes (Cruyff, Van Basten, Romário, Bergkamp, Van Nistelrooy, Suárez... lista grande) daqueles que só fizeram sucesso pela facilidade com que os gols surgem na liga holandesa (Peter Houtman, Wim Kieft, Afonso Alves, Bjorn Vleminckx...).

Em meio a esses dois extremos, pode surgir a pergunta: afinal, quem foi o maior goleador em uma só edição do Campeonato Holandês? O dono da marca teria completado 89 anos nesta segunda-feira, 5 de outubro: Coen Dillen, que marcou 43 gols justamente na primeira temporada do campeonato nacional (1956/57). Até hoje, não houve goleador com mais tentos numa só edição da Eredivisie.

E desde que nasceu, Coen teve seu destino ligado a Eindhoven: nasceu em 1926, em Strijp, distrito da cidade, quinto de onze filhos. Por aí já pode se prever qual foi o clube que abrigou o talento do atacante... mas não foi no PSV que a carreira começou. Foi em 1937, no VV Brabantia, também de Eindhoven. Só que a ascensão foi rápida: já em 1941, Dillen foi para o clube da Philips, onde seria um dos primeiros grandes ídolos de sua história. No entanto, sua primeira passagem pelos Boeren foi esquecível. E em 1944, já na fase final da Segunda Guerra Mundial, ele foi servir voluntariamente a Marinha holandesa, parando a carreira. Encerrados o conflito e o tempo de serviço, o atacante voltou ao Brabantia, em 1947.

Em 1949, mais preparado e experiente, Coen retornou ao PSV. Aí, foi para marcar seu nome na história dos Eindhovenaren: já em 1950, foi o grande destaque na conquista da Copa da Holanda. Na temporada seguinte, 1950/51, o sucesso seguiu no PSV, que conquistou o campeonato holandês, ainda num formato diferente (o clube alvirrubro precisou ganhar a liga regional, para depois conquistar o título nacional em nova liga, com os outros campeões regionais).

Em 1954, mais uma evolução na carreira de Dillen. Com o PSV, ganhou novamente o campeonato regional; e teve sua primeira chance na seleção holandesa, que entrava num regime mais profissional de atuação - como o próprio futebol do país, de resto. E já marcou em seu primeiro jogo pela Laranja, contra a Suíça, em 30 de maio daquele ano, pouco antes da Copa que os helvéticos sediaram (eles venceram o amistoso, aliás, por 4 a 1, de virada). Na segunda partida, Coen... também marcou: de pênalti, num amistoso contra a Bélgica (que ganhou, por 4 a 3). O atacante se recuperou da melhor maneira possível: no ano seguinte, em nova partida contra os rivais belgas, vitória da Oranje por 1 a 0. Gol dele.

Mas o grande salto, inegável, veio em 1956/57. Na primeira temporada em que o Campeonato Holandês teve dimensões nacionais, não tendo fases regionais, Dillen foi o artilheiro, com 43 gols. Repita-se: marca até hoje não igualada, 59 anos depois. Estava totalmente justificado o apelido que até hoje acompanha as lembranças do jogador: "Het kanon" ("O canhão"). Que também deixou boas marcas na seleção: em cinco jogos, quatro gols.

Em 1961, "Coentje" (outro apelido, com o nome no diminutivo) deixou o PSV, agora com seu nome firme nas grandes figuras: em 328 jogos oficiais, 287 gols, segunda maior marca da história do clube. Mais dois anos no Helmondia '55 - um dos clubes que daria origem ao Helmond Sport -, e o já veterano encerrou carreira, em 1963. Depois, ainda tentou uma carreira de treinador, no RKSV Nuenen, time amador. Mas ela não durou muito, e em 1966 Coen deixou o futebol definitivamente.

Desde então, viveu do sustento de uma tabacaria que manteve em Eindhoven. Morreu em 1990, após uma parada cardíaca, aos 63 anos. Mas a tabacaria seguiu até os dias de hoje, comandada pela viúva, na Frederiklaan, mesma rua do Philips Stadion. E foi justamente o PSV que reavivou a memória futebolística de Dillen. Não só com uma estátua, na parte leste do estádio, mas também com várias lembranças no museu do clube. Além disso, em 2000, foi criada a Fundação Coen Dillen, organizando torneios infantis amadores, comandada pelo filho de Coen, Rob. Em 2006, ainda foi lançada uma biografia.

E hoje já se sabe na Holanda: antes de todos os outros grandes artilheiros que a Eredivisie já teve, houve Coen Dillen. Que está acima de todos, de certa forma, pelo recorde ainda não batido.

Coen Dillen

Nascimento: 5 de outubro de 1926, em Strijp, Holanda
Morte: 24 de julho de 1990, em Goes, Holanda
Carreira: VV Brabantia (no infantil, 1937-1941; na fase adulta, 1947-1949), PSV (no infanto-juvenil, 1941-1944; na fase adulta, 1949-1961) e Helmondia '55 (1961-1963)
Seleção: 5 partidas, 4 gols

domingo, 4 de outubro de 2015

810 minuten: como foi a 8ª rodada da Eredivisie



Titular inesperado, o uruguaio Pereiro definiu a vitória categórica do PSV no clássico contra o Ajax (Pics United/psv.nl)

Heracles 2x0 Heerenveen

Na 7ª rodada, um tropeço contra o AZ (derrota por 3 a 1) enfraquecera um pouco a forte impressão que os Heraclieden vinham causando. Afinal de contas, tratava-se do segundo colocado do Campeonato Holandês. Mas... era bom evitar outro revés contra o Heerenveen, para que o embalo não fosse definitivamente encerrado. E o time de Almelo conseguiu. Valendo-se novamente das vantagens que tem no seu estádio - ambiente caloroso e costume maior ao gramado artificial -, a equipe foi mais eficiente no ataque. Enquanto o time da Frísia já chegou pressionado pelos dois jogos sem balançar as redes, e perdeu várias chances, o Heracles foi mais eficiente, com o belo chute de Iliass Bel Hassani que abriu o placar no primeiro tempo. E até poderia ter definido a vitória antes do gol de Wout Weghorst, já no final da partida. A grande surpresa do início de temporada segue em alta, com quatro vitórias nos quatro jogos em casa - somando-se à temporada passada, são seis triunfos em sequência, igualando recorde histórico do clube na Eredivisie (2006 e 2010).

NEC 4x1 ADO Den Haag

Há alguns casos em que um lance define o que será a partida, dali por diante. Foi o que ocorreu no estádio De Goffert, em Nijmegen, no primeiro jogo do sábado. Embora tivesse saído na frente graças a um gol com vinte segundos de jogo, o NEC sofrera o empate, e o ADO Den Haag se animava com uma vitória bastante desejada, para afugentar a crise. Estava tudo indefinido. Até os 18 minutos do segundo tempo, quando Navarone Foor alcançou uma bola que saía pela direita e cruzou para Christian Santos. O venezuelano definiu com uma bela bicicleta, para recolocar os anfitriões na frente. E ali se definiu a partida: animados, os Nijmegenaren partiram para fazer mais dois gols e sacramentar a goleada. Já o time de Haia teve de encarar sua sexta partida seguida sem vitória. O técnico Henk Fräser só não corre risco de demissão porque renovou o contrato por mais um ano, exatamente nesta semana. Todavia, seguem os boatos envolvendo o técnico chinês Gao Hongbo. Mas isso é outra história, que fica para outra vez.

Roda JC 1x1 Cambuur
Até mesmo o Twente, também em situação aflitiva, já conseguira a primeira vitória na temporada, na rodada passada (2 a 1 no Roda JC, justamente o adversário deste sábado). E nada do Cambuur, penúltimo colocado, conseguir um triunfo. Vinha dando certo neste sábado: em um escanteio, a bola foi desviada pelo lateral esquerdo Marvin Peersman, e sobrou para Bartholomew Ogbeche (quem mais poderia ser?) colocar nas redes. E a equipe auriazul segurava a pressão dos mandantes. Que conseguiram o empate em mais uma bonita jogada acrobática da rodada: um voleio de Tom van Hyfte, já aos 27 minutos do segundo tempo, decretou o empate no Parkstad Limburg Stadion. Enquanto o Roda retomou o caminho num início razoável de temporada (é o sétimo colocado), os Leeuwarders seguem à espera de uma vitória. Se serve de consolo: a atuação do sábado deu um pouco mais de esperança.

Willem II 0x1 Zwolle

Muito se tem falado do Heracles como a grande surpresa desta fase inicial da temporada holandesa. E isso é justo. Ainda assim, não há como deixar de fora o Zwolle, que se recusa a parar de surpreender. Mesmo num jogo truncado como o de sábado, fora de casa, a equipe segue paciente, sem fugir de seu velho 4-2-3-1, sem deixar a segurança de lado. Assim, tomando os cuidados necessários na marcação, é possível que os principais destaques ofensivos atuem. Caso do neozelandês Ryan Thomas, criador das principais jogadas de ataque dos Dedos Azuis na partida. Só que o 0 a 0 seguia no placar. Aí apareceu a sorte: aos 43 minutos do primeiro tempo, uma cobrança de falta de Ouasim Bouy desviou em Guus Joppen, e enganou o goleiro Kostas Lamprou, abrindo o placar para os visitantes. No segundo tempo, os Tricolores ainda tentaram atacar mais, porém lhes faltou criatividade. E os Zwollenaren saíram de Tilburg com mais três pontos, pela quinta vitória na temporada, e com a terceira posição da tabela. Já são 17 pontos. Nunca, em sua história na divisão de elite holandesa, o Zwolle tivera pontuação tão grande após oito rodadas. E o conto de fadas continua.

Excelsior 1x0 Utrecht

Willem II x Zwolle já fora um jogo bastante parado. Ainda assim, teve o charme trazido pela vitória dos visitantes, que representou um recorde positivo para o Zwolle, e a continuação de uma ótima campanha. Charme foi exatamente o que faltou no jogo em Roterdã, entre Excelsior e Utrecht: foi uma partida chata, sem muitos lances de perigo. O empate sem gols parecia o destino mais lógico do placar final, até que o meio-campista Jeff Stans sofresse um pênalti. Houve a oportunidade, já que o volante Willem Janssen, do Utrecht, confessou que tocou em Stans: "Não que fosse o caso de dizer que seriam dez pênaltis em dez jogadas iguais a essa, mas realmente houve o contato". E Stans aproveitou, conforme o próprio assumiu à FOX Sports holandesa após o jogo: "Eu senti um contato leve, e acho que [nessas situações] você precisa ser inteligente e cair". O próprio meio-campista bateu, aos 28 minutos da etapa final, e decidiu o jogo. Só que a vitória não significa que tudo anda bem no Excelsior. "Claro que temos muito a melhorar", reconheceu Stans. Mesmo com a derrota, os Utregs seguem numa segura décima posição. Mas também estão devendo, e muito, na temporada.

De Graafschap 1x2 Feyenoord

Mesmo atuando em casa, os Superboeren não dariam a menor dificuldade ao Stadionclub, que disputa a liderança da Eredivisie, certo? Errado. Por incrível que pareça, o lanterna do campeonato foi bem melhor durante o primeiro tempo, e mereceu a vantagem conquistada. Com boas atuações, principalmente dos atacantes Erik Quekel e Youssef El Jebli, a equipe de Doetinchem deu o que suar à defesa dos Rotterdammers. Mal postada, várias vezes ela deixou o goleiro Kenneth Vermeer em apuros. Numa dessas vezes, Quekel chutou, a bola passou por baixo do arqueiro, e o zagueiro Sven van Beek desviou-a involuntariamente para o gol, abrindo o placar no que foi o quarto gol contra de Van Beek com a camisa do Feyenoord. Animado, o De Graafschap teve mais chances, viu um gol do zagueiro Jan Lammers anulado (justamente: Vermeer fora obstruído), e poderia até ter uma vantagem maior. Não teve. E a maior experiência ajudou muito os visitantes na etapa complementar. Se no primeiro tempo as três boas chances foram impedidas pelo goleiro Hidde Jurjus, já no começo do segundo tempo veio o empate, em cabeceio de Michiel Kramer após cruzamento de Simon Gustafson, substituto do lateral direito Karsdorp. Com jogadas melhor trabalhadas, de pé em pé, o trio ofensivo do Feyenoord voltou a funcionar depois: passe de Kramer, chute de Elia, falha de Jurjus, 2 a 1. Vitória difícil, mas valiosa para os Feyenoorders, agora iguais em pontuação ao líder Ajax.

Ajax 1x2 PSV

O grande jogo da oitava rodada chegou a prometer muito: aos dez minutos do primeiro tempo, o placar já era 1 a 1. Tornado titular às pressas, após problemas particulares tirarem Maxime Lestienne do jogo, o uruguaio Gastón Pereiro fizera o primeiro gol dos Eindhovenaren com apenas sete minutos. Pego de surpresa graças aos espaços que a defesa oferecia, sofrendo seu primeiro gol em casa pela Eredivisie nesta temporada, o Ajax teve de correr atrás. Com a velocidade possibilitada por Davy Klaassen, Viktor Fischer e Amin Younes, coube ao alemão empatar já aos nove minutos (embora o zagueiro Joël Veltman tenha assumido depois falta em Joshua Brenet, no lance do gol). Previa-se um clássico bastante empolgante. Só que aí o ritmo caiu, e assim ficou no resto do primeiro tempo. No entanto, já estava clara a principal deficiência dos Ajacieden: o espaço no campo de defesa. Somente Riechedly Bazoer auxiliava mais a linha de quatro marcadores; e nesta, Mitchell Dijks tinha desempenho ruim na lateral esquerda, deixando espaços, e Veltman atuava nervosamente.

Phillip Cocu notou. Os jogadores do PSV também. E os Boeren voltaram ao segundo tempo bem melhores. Jogando ao contrário do estilo tradicional, ficaram com a posse de bola pela maior parte do tempo. E sabiam bem o que fazer com ela. Substituindo Luuk de Jong, ainda lesionado, Jürgen Locadia irritava a zaga do Ajax, com seu temperamento tradicionalmente forte. Mas seu papel tático foi mais importante: mantinha a posse de bola até a chegada de Pereiro, Luciano Narsingh e Davy Pröpper ao ataque. Com isso, o time de Eindhoven criava mais jogadas de ataque. Ao contrário do Ajax, que perdia vários contragolpes pela ausência de gente para acompanhar Fischer e Klaassen. De mais a mais, Jorrit Hendrix ajudava bastante o ainda convalescente Andrés Guardado: mesmo com ambos em campo, era o volante holandês que evitava as chegadas dos Amsterdammers à defesa. Aí também ajudou Jeffrey Bruma, com atuação segura. Mesmo que o Ajax tenha tido até uma bola na trave, em chute de Fischer, o PSV controlava as ações. Bastava aproveitar uma chance que a vitória estaria próxima. Ela foi aproveitada, novamente com Pereiro, no final do jogo, marcando o segundo gol pelo clube em sua primeira chance entre os titulares. E como na temporada passada, o atual dono da Eredivisieschaal saiu da Amsterdam Arena com o triunfo, provando que está firme na disputa do bicampeonato. Ao Ajax, restou ver suas falhas já conhecidas exploradas da pior maneira possível: por um rival, que lhe impôs a primeira derrota pela Eredivisie.

Vitesse 5x0 Groningen

Quando o inglês Dominic Solanke (outro emprestado pelo Chelsea) abriu o placar, após rebote do goleiro Sergio Padt, o jogo em Arnhem já poderia até ter acabado. Afinal de contas, a superioridade dos Arnhemmers estava clara desde que a bola começou a rolar, e dificilmente o apático Groningen conseguiria reverter a desvantagem, ainda que precisasse de recuperação após a segunda derrota na Liga Europa. O segundo tempo só ampliou o desnível entre as duas equipes: o time da província de Zeeland foi descuidado a ponto do segundo gol do Vites, de Valeri "Vako" Qazaishvili, ter saído após recuo mal feito do lateral direito Johan Kappelhof. E bastou um pouquinho de esforço para que os aurinegros chegassem à goleada - com direito ao primeiro gol do brasileiro Nathan pelo clube, o quarto do jogo. Na quinta vitória seguida em casa na temporada, o 5 a 0 do Vitesse ficou até barato.

AZ 3x1 Twente

Mesmo com o otimismo em alta, pela surpreendente vitória sobre o Athletic Bilbao na Liga Europa, a equipe de Alkmaar demorou para sacramentar sua superioridade contra os Tukkers. Até que, novamente, um atacante de finalização apareceu para se destacar na segunda vitória consecutiva dos Alkmaarders na Eredivisie. Se Muamer Tankovic foi o personagem principal  nos 3 a 1 sobre o Heracles, desta vez Vincent Janssen transformou em gols o maior volume de jogo dos anfitriões: já no segundo tempo, aos 15 e aos 25 minutos, fez 2 a 0. Como sempre, o armador Hakim Ziyech se destacou pelo Twente: fez o de honra dos visitantes num belo chute. Mas Guus Hupperts encarregou-se de fazer 3 a 1, manter o embalo que os AZ'ers ensaiam na temporada - e, claro, de deixar inalterada a situação difícil do Twente, antepenúltimo colocado.

sábado, 3 de outubro de 2015

O Ajax está bom. Mas está ruim

Fischer ressurge e ajuda o Ajax no lado bom. Mas há a parte ruim... (fcupdate.nl)
Já estava claro: algo aconteceria no Ajax. Após o vexame contra o Rapid Viena, na terceira fase preliminar da Liga dos Campeões, sabia-se que a equipe teria de engolir em seco e adotar um estilo de jogo mais conservador. Não era desejado nem pelo próprio técnico da equipe. Ainda assim, Frank de Boer sabia que os Amsterdammers precisavam de mais cuidado na defesa, para alcançarem os objetivos traçados na temporada: o título holandês e uma vaga nas semifinais da Liga Europa (!).

Com relação ao Campeonato Holandês, tudo bem até o momento. A equipe já ensaia abrir vantagem na liderança da Eredivisie: 19 pontos em sete rodadas, três à frente do Feyenoord, segundo colocado. A melhor defesa da liga (dois gols sofridos) e o ataque mais goleador (18 gols). Retrospecto elogiável: seis vitórias e um empate. E isso, sofrendo em pouquíssimos momentos dentro dos jogos. Início promissor, que será colocado à prova no primeiro clássico da temporada, contra o PSV, neste domingo.

E o que Frank de Boer prometeu, está cumprindo: a proteção à defesa está bem mais clara. Ao invés de jogar no 4-3-3 quase dogmático no Ajax (e no futebol holandês como um todo), o que se vê é um 4-2-3-1. E os cuidados já começam na linha de quatro defensores: mesmo que tenham técnica na saída de jogo, Joël Veltman e Jaïro Riedewald só saem com a bola quando a cobertura está formada. Nas laterais, embora Kenny Tete seja promissor no apoio, segue titular principalmente porque não compromete na marcação (ao contrário de Van Rhijn, “efetivado” na reserva). E Mitchell Dijks, pela esquerda, já sabe equilibrar melhor defesa e ataque.

Mas é o meio-campo que prova a mudança fundamental no Ajax. Com três jogadores (na maioria das vezes, ofensivos), a contenção do adversário só era eficiente caso houvesse espaço para troca incessante de passes. Uma bola perdida, e tudo estourava na defesa. A principal “vítima” foi Daley Sinkgraven: na Liga dos Campeões, um dos gols do Rapid Viena saiu após o ponta-de-lança perder uma bola perto da defesa. Isso se repetiu no 2 a 2 contra o Celtic, estreia dos Godenzonen pela Liga Europa: bola perdida, e os Bhoys abriram o placar. Frank de Boer não teve dúvidas: Sinkgraven foi para o banco de reservas.

Enquanto isso, Riechedly Bazoer e Nemanja Gudelj cuidam da proteção à defesa – e têm se saído bem. Ambos dão qualidade à saída de bola, por mais que o sérvio não seja um volante de formação. Aí, é hora do ataque ser fortalecido. Com Klaassen, atuando em seu papel habitual de ponta-de-lança; com El Ghazi, principal jogador do começo de temporada na Eredivisie; com o alemão Amin Younes, que mostra impetuosidade suficiente para torná-lo titular cada vez mais confiável na ponta direita; e com Arkadiusz Milik, talvez o mais deficiente dos atacantes nas últimas partidas (nos 2 a 0 contra o Groningen, sábado passado, o polonês perdeu pelo menos três chances de gol).

E se El Ghazi e Younes já são jogadores notáveis pelas pontas, cada vez mais Viktor Fischer demonstra capacidade de voltar a ser destaque. Recuperado da grave lesão muscular que o tirou de campo por quase um ano, o dinamarquês ainda está na reserva. Mas tem mudado os jogos toda vez que entra. Contra o Twente, na quinta rodada do Holandês, o Ajax perdia, ele entrou em campo, e seu gol empolgou o time até o empate por 2 a 2; contra o Groningen, fez um belo gol para definir a vitória por 2 a 0; finalmente, marcou o gol de empate contra o Molde-NOR, nesta quinta, pela Liga Europa.

Então, o Ajax está pronto para retomar seu papel de gigante europeu? Não. Porque toda essa proteção só dá certo, convenhamos, devido ao nível técnico deficiente da maioria dos times do Campeonato Holandês. As atuações nos dois empates pela Liga Europa mostraram isso. Principalmente no 2 a 2 contra o Celtic, que causou críticas acerbas a Frank de Boer: nem mesmo ter dois volantes protegendo a defesa impediu que o time escocês mostrasse mais força ofensiva. Só quando estiveram atrás no placar (ou com a entrada de Lasse Schöne, que tem sido injustamente colocado na reserva) é que os Ajacieden buscaram os gols. De resto, o que se vê é um time ainda inseguro na defesa. E infrutífero no ataque, por mais chances que crie.

E exatamente este é o problema, talvez insolúvel. Ainda que os cuidados maiores com a defesa sejam claros, o time tem inspiração claramente ofensiva, e barrar isso é até contraditório com a história do clube. Aliás, chegar ao topo da Europa jogando ofensivamente é tudo o que o Ajax quer, desde a metade final de 2010, quando Johan Cruyff pediu e comandou a chamada “revolução de veludo” que mudou o clube da estação Bijlmer Arena dentro de campo (com mais jogadores vindos da base) e também fora dele (com mais ex-jogadores ocupando cargos diretivos).

Só que se passaram exatamente cinco anos, e nada aconteceu. Pior: o Ajax continua sendo apenas exportador de novos talentos. E continua empilhando títulos nacionais para chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões e ser recolocado em seu lugar periférico. O que já começa a fazer pensar se a “revolução” pensada por Cruyff não estourou o prazo de validade. Foi o que escreveu Marco van Basten, em sua coluna na revista “Voetbal International”: “O plano de Cruyff é uma grande comédia”. Além do mais, há dúvidas até sobre os destinos do elenco: contratar mais medalhões (como querem Frank de Boer e o diretor de futebol Marc Overmars) ou seguir respaldando a base (como deseja Wim Jonk, diretor das categorias inferiores)?


Seja como for, o plano continua. Fora de campo, com o projeto de ampliação da Amsterdam Arena e com o ex-goleiro Edwin van der Sar tornando-se diretor técnico do clube a partir de novembro – e com sua promoção para diretor geral já programada para 2016. Dentro de campo, Frank de Boer continua tentando conciliar ofensividade e pragmatismo, com a torcida pressionando. Por isso, dá para dizer que o Ajax está bom (afinal, é líder da Eredivisie), mas está ruim (tropeça na Liga Europa, e não agrada à torcida). Ou dá para dizer que o Ajax está ruim, mas está bom. Fica a gosto do freguês.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 2 de outubro de 2015)