sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Guia do Campeonato Holandês - Parte II (os prováveis de cima)

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 11 de agosto de 2017)

Já começou. Nesta sexta, o Utrecht abriu a temporada 2017/18 do Campeonato Holandês como encerrara a anterior: impondo respeito, com uma categórica vitória por 3 a 0 sobre o ADO Den Haag, fora de casa. Contudo, é difícil (para não dizer impossível) escapar do prognóstico de que o título é assunto apenas para os três grandes: Ajax, PSV e Feyenoord.

Aliás, é possível dizer que o atual campeão holandês também se recompôs a tempo, para poder defender o título da Eredivisie nesta temporada 2017/18. E o próprio Ajax, mesmo vitimado por incidentes inesperados (a demissão de Peter Bosz e a fatalidade com Abdelhak Nouri), parece pronto para competir seriamente pela Eredivisieschaal.

Quem despencou de vez na crise foi o PSV: a vexatória eliminação na Liga Europa pode ter dado início a uma série de saídas, que indicam continuação de uma reformulação já com a temporada iniciada. Pode até dar certo no final, mas as turbulências do começo dificilmente indicam isso.

Ainda assim, dá para notar preparação em pelo menos três clubes médios. AZ, Utrecht e o próprio Vitesse se prepararam bem para a temporada que se iniciou nesta sexta. Talvez seja um deles o mais apto a roubar a cena neste Campeonato Holandês, cuja apresentação se conclui nesta segunda parte do guia. E cuja transmissão de televisão no Brasil, novamente, ficará a cargo dos canais ESPN, nos clássicos - as partidas "normais" serão exibidas no Watch ESPN, serviço on demand da emissora.

Legenda
Jogador (posição, clube)
Transferência definitiva
[Transferência definitiva após empréstimo]
Empréstimo
[retorno de empréstimo]



Jorgensen segue no Feyenoord. E o atual dono da Eredivisieschaal segue preparado para tentar o bicampeonato (feyenoord.nl)

Feyenoord

Cidade: Roterdã
Estádio: De Kuip (capacidade para 51.137 torcedores)
Apelidos: Stadionclub (em holandês, "o clube do estádio" - referência a De Kuip, considerado o mais tradicional estádio do país); Feyenoorders; Rotterdammers
Títulos: 15 Campeonatos Holandeses (merecem citação um título mundial, uma Copa dos Campeões, duas Copas da UEFA e 12 Copas da Holanda)
Patrocínio: Qurrent (empresa de energia renovável)
Técnico: Giovanni van Bronckhorst
Destaque: Nicolai Jorgensen (atacante)
Fique de olho: Tonny Vilhena (meio-campista) e Eric Botteghin (zagueiro)
Brasileiros no elenco: Eric Botteghin (zagueiro)
Temporada passada: Campeão
Copas europeias: Liga dos Campeões (fase de grupos)
Objetivo: Título
Principais chegadas: Kevin Diks (D, Fiorentina-ITA), Jeremiah St. Juste (D, Heerenveen), Ridgeciano Haps (D, AZ), Sofyan Amrabat (M, Utrecht), [Steven Berghuis (A, Watford-ING)] e Jean-Paul Boëtius (A, Basel-SUI)
Principais saídas: Warner Hahn (G, Heerenveen), Rick Karsdorp (D, Roma-ITA), Terence Kongolo (D, Monaco-FRA), Lucas Woudenberg (D, Heerenveen), Marko Vejinovic (M, AZ), Simon Gustafson (M, Roda JC), Dirk Kuyt (A, encerrou a carreira) e Eljero Elia (A, Basaksehir-TUR)

Pronto. Acabou. Após 18 anos, enfim o Feyenoord saberá novamente o que é defender um título no Campeonato Holandês. Pelo menos no começo da preparação, era possível se preocupar com o que o Stadionclub ofereceria à sua torcida – embora a lua-de-mel esteja longe de acabar. Três dias após ser o nome do jogo do título em 2016/17, contra o Heracles Almelo, Dirk Kuyt encerrou a carreira; Eljero Elia preferiu o dinheiro do futebol turco no Basaksehir; e a defesa foi muito atingida com as perdas de Rick Karsdorp e Terence Kongolo. Todavia, a atuação da diretoria na janela de transferências foi a suficiente para repor bem as perdas (claro, levando-se em conta o nível técnico do futebol holandês).

Nas laterais, Kevin Diks e Ridgeciano Haps oferecem velocidade; o jovem Jeremiah “Jerry” St. Juste é promissor reserva para a intocável dupla Eric Botteghin-Jan-Arie van der Heijden; a mesma coisa ocorre com Sofyan Amrabat, boa alternativa para Tonny Vilhena e Karim El Ahmadi no meio-campo; e Jean-Paul Boëtius está pronto para ocupar o lugar deixado por Elia. De quebra, a manutenção definitiva de Steven Berghuis no grupo facilita o entrosamento – bem como a permanência de outros destaques do título (Eric Botteghin, Vilhena, El Ahmadi, Nicolai Jorgensen, Jens Toornstra). Enfim, se nada disso talvez seja suficiente para boa campanha na Liga dos Campeões, o Feyenoord parece pronto para tentar manter o domínio doméstico.


Ajax ainda leva Nouri na lembrança. Mas parece pronto para a temporada (Louis van de Vuurst/Ajax.nl)
Ajax

Cidade: Amsterdã
Estádio: Amsterdam Arena (a partir de 25 de outubro, Johan Cruyff Arena - capacidade para 53.502 torcedores)
Apelidos: Godenzonen (em holandês, "os filhos dos deuses" - apelido dado desde o time campeão europeu em 1994/95, pela torcida, como se o Ajax fosse escolhido pelos deuses para ser o representante do bom futebol no mundo); Ajacieden (nome dado a torcedores e jogadores do clube); Amsterdammers
Títulos: 33 Campeonatos Holandeses (merecem citação dois títulos mundiais, quatro Copas/Ligas dos Campeões, 1 Copa da UEFA e 18 Copas da Holanda)
Patrocínio: Ziggo (empresa de telecomunicações)
Técnico: Marcel Keizer
Destaques: Hakim Ziyech (meio-campista) e Kasper Dolberg (atacante)
Fique de olho: Klaas-Jan Huntelaar (atacante)
Temporada passada: Vice-campeão
Copas europeias: Liga dos Campeões (eliminado pelo Nice-FRA na terceira fase preliminar) e Liga Europa (enfrentará Rosenborg-NOR nos play-offs)
Objetivo: Título
Principais chegadas: Benjamin van Leer (G, Roda JC), Kostas Lamprou (G, Willem II), Luis Orejuela (D, Deportivo Cali-COL), [Mitchell Dijks (D, Norwich City-ING)], [Django Warmerdam (D/M, Zwolle)], [Queensy Menig (M/A, Zwolle)] e Klaas-Jan Huntelaar (A, Schalke 04-ALE)
Principais saídas: Diederik Boer (G, Zwolle), Kenny Tete (D, Lyon-FRA), Heiko Westermann (D, Austria Viena-AUT), Jaïro Riedewald (D, Crystal Palace-ING), Thulani Serero (M, Vitesse), Davy Klaassen (M, Everton-ING), Richairo Zivkovic (A, KV Oostende-BEL), Zakaria El Azzouzi (A, Excelsior) e [Bertrand Traoré (A, Chelsea-ING)]

Finalista da Liga Europa, time entrosado, terminando o campeonato passado tecnicamente ascendente, cheio de jovens promissores... o futuro pertencia ao Ajax, era o que parecia quando a temporada 2016/17 se encerrou. Aí, vieram os fatos inesperados. Primeiro, uma discordância de rumos quanto a métodos de treinamento e estilos de jogo abreviou a permanência de Peter Bosz nos Godenzonen: antes que o racha com a comissão técnica liderada por Dennis Bergkamp ficasse maior e mais sério, ele aceitou a proposta do Borussia Dortmund. Depois, já nos treinos de pré-temporada na Áustria, a fatalidade que transformou a vida de Abdelhak Nouri – obviamente abalando todo o grupo de jogadores.

Mas era preciso continuar. E continuar sem uma das figuras mais marcantes do Ajax em campo, nos últimos anos: o capitão Davy Klaassen, que enfim deu o salto que merecia na carreira. Além do mais, gente como Kenny Tete e Jaïro Riedewald (reservas, mas que poderiam oferecer algo caso necessário) foi descartada. Ficava a dúvida: o que faria Marcel Keizer, técnico promovido do Jong Ajax, com o time? Pelas respostas vistas contra o Nice, na Liga dos Campeões, o cenário é misto. Seguem as fragilidades defensivas, que custaram o sonho do lugar na grande competição europeia de clubes.

Ainda assim, à primeira vista, a base do time que Keizer tem é quase a mesma. Seguem no time Davinson Sánchez, Matthijs de Ligt, Lasse Schöne, Hakim Ziyech, Kasper Dolberg. Donny van de Beek mostrou estar pronto para ocupar o lugar deixado por Klaassen. As promessas Justin Kluivert e David Neres deverão protagonizar disputa interessante pela vaga na direita. Marcel Keizer pediu reforços na defesa – e eles vão chegando (o colombiano Luis Orejuela foi o primeiro). E se Dolberg tropeçar na juventude, Klaas-Jan Huntelaar é nome experimentadíssimo, cheio de vontade para agarrar a chance onde já foi ídolo. O Ajax está se remontando, como em 2016/17. Mas parece num estágio avançado para reagir e ser o grande adversário do Feyenoord. Precisa. Até porque, bem ou mal, já são três anos sem títulos...

Van Ginkel voltou ao PSV já se tornando capitão. Mas sabe que equipe terá muito trabalho (ANP)
PSV

Cidade: Eindhoven
Estádio: Philips Stadion (capacidade para 36.500 torcedores)
Apelidos: Boeren (em holandês, "fazendeiros" - referência ao grande número de fazendas e áreas verdes na região onde fica Eindhoven); Eindhovenaren (nativos de Eindhoven) 
Títulos: 23 Campeonatos Holandeses (merecem destaque 1 Copa dos Campeões, 1 Copa da UEFA e 9 Copas da Holanda)
Patrocínio: Energie Direct (empresa fornecedora de energia)
Técnico: Phillip Cocu
Destaques: Jeroen Zoet (goleiro) e Marco van Ginkel (meio-campista)
Fique de olho: Bart Ramselaar (meio-campista)
Temporada passada: 3º colocado
Copas europeias: Liga Europa (eliminado na terceira fase preliminar, pelo Osijek-CRO)
Objetivo: Título/vaga nas competições continentais
Principais chegadas: Derrick Luckassen (D, AZ), [Marcel Ritzmaier (D, Go Ahead Eagles)], Marco van Ginkel (M, Chelsea-ING), [Adam Maher (M, Osmanlispor-TUR)], Mauro Junior (M, Desportivo Brasil) e Hirving Lozano (A, Pachuca-MEX)
Principais saídas: Remko Pasveer (G, Vitesse), Hidde Jurjus (G, Roda JC), Menno Koch (D, NAC Breda), Héctor Moreno (D, Roma-ITA), Jetro Willems (D, Eintracht Frankfurt-ALE), Andrés Guardado (M, Real Betis-ESP), Davy Pröpper (M, Brighton & Hove Albion-ING), Rai Vloet (M, NAC Breda), [Siem de Jong (A, Newcastle-ING)] e [Oleksandr Zinchenko (A, Manchester City-ING)]

Reformulação? Ora bolas, e qual clube não passa por ela de vez em quando? Se o próprio PSV dependeu de uma dessas, no meio da década, para a reação que levou o clube ao bicampeonato em 2015 e 2016, por que não passar de novo? Esse foi o pensamento que levou a torcida e a diretoria a se desfazer de velhos conhecidos, apostando em novidades. Prova disso foi o que se viu na zaga: Héctor Moreno foi liberado sem a menor dificuldade, abrindo espaço para a contratação promissora de Derrick Luckassen, muito bem no AZ em 2016/17. E a liberação de Jetro Willems foi boa para todas as partes, encerrando clara estagnação na carreira do lateral esquerdo.

O problema é que a reformulação parece ter sido feita sem cuidado, apenas para satisfazer o desejo de abrir espaço para jogadores da base. O grande exemplo está no meio-campo. Mesmo atrapalhado por lesões, o volante Jorrit Hendrix mostra grande capacidade na marcação e certo espírito de liderança. Além do mais, é cria do PSV. Com Bart Ramselaar também sendo merecedor de confiança – e o novo empréstimo de Marco van Ginkel, que outra vez chegou para o returno e outra vez ganhou destaque na equipe -, os Boeren não pestanejaram em ceder Andrés Guardado ao Real Betis, sem muito drama.

Mas a eliminação inominável contra o Osijek, na Liga Europa, revelou: ainda falta muito ao time, para se refazer. Principalmente no ataque, que não tem nenhum jogador acima de qualquer suspeita. Locadia foi perturbado por lesões; Luuk de Jong há muito não é mais a garantia de gols que já foi, e nem impõe respeito (tanto que perdeu a braçadeira de capitão para Van Ginkel, antes mesmo da temporada começar); Gastón Pereiro não consegue “explodir”; Sam Lammers e a contratação Hirving Lozano são apostas. Para piorar, a falta do dinheiro das competições europeias já causa consequências. A venda rápida de Davy Pröpper ao Brighton foi uma delas. Talvez Luuk de Jong também viva o mesmo caso (interessa ao Hannover 96). E os Eindhovenaren chegam à Eredivisie sem um rumo na reformulação. Cenário nada recomendável. A ver se o time chega a algum lugar.

Dessers começou bem a temporada. O Utrecht também (Tom Bode Multimedia/VI Images)
Utrecht

Cidade: Utrecht
Estádio: De Galgenwaard (capacidade para 23.750 torcedores)
Apelido: Utregs
Títulos: nenhum Campeonato Holandês (3 Copas da Holanda e 1 Supercopa da Holanda)
Patrocínio: Zorg van de Zaak (empresa de auxílio profissional)
Técnico: Erik ten Hag
Destaque: Gyrano Kerk (atacante)
Fique de olho: Urby Emanuelson (lateral esquerdo/meio-campista) e Cyriel Dessers (atacante)
Temporada passada: 4º colocado 
Copas europeias: Liga Europa (enfrentará o Zenit-RUS, nos play-offs)
Objetivo: vaga direta na Liga Europa/vaga nos play-offs pela Liga Europa
Principais chegadas: Nick Marsman (G, Twente), Dario Dumic (D, NEC), Urby Emanuelson (D/M, Sheffield Wednesday-ING), Anouar Kali (M, Willem II), Bilal Ould-Chikh (A, sem clube), Simon Makienok (A, Palermo-ITA), Lukas Görtler (A, Kaiserslautern-ALE) e Cyriel Dessers (A, NAC Breda)
Principais saídas: Robbin Ruiter (G, Sunderland-ING), Jeff Hardeveld (D, Heracles Almelo), Wout Brama (M, Central Coast Mariners-AUS), Sofyan Amrabat (M, Feyenoord), Nacer Barazite (M, Malatyaspor-TUR), [Richairo Zivkovic (A, Ajax)] e Sébastien Haller (A, Eintracht Frankfurt-ALE)

À primeira vista, os Utregs entram enfraquecidos na temporada. Destaques pontuais do grupo comandado por Erik ten Hag foram perdidos. No gol, mesmo recuperado da séria concussão sofrida no fim de 2016, Robbin Ruiter desejava sair – e foi atendido; entre uma partida e outra do duelo contra o Valletta, de Malta, na Liga Europa, Wout Brama foi negociado; mais séria foi a perda repentina de Nacer Barazite, que também quis deixar o clube; e acima de tudo, a torcida demorará a se acostumar com um time sem Sébastien Haller, o jogador estrangeiro com mais gols na história do Utrecht. Se serve de consolo, os reforços também são grandes o suficiente para que o time continue sendo um dos mais atraentes do futebol holandês, pelo estilo tático mais variado que apresenta.

A defesa seguirá entrosada, sem perdas entre os titulares na linha de quatro zagueiros – e mesmo o dinamarquês David Jensen, titular no gol desde o returno, é seguro a ponto de até já ser convocado para a seleção de seu país. No meio-campo, Anouar Kali tem tudo para dar na armação das jogadas a qualidade que Barazite dava – sem contar a experiência de Urby Emanuelson, enfim com chances para refazer a carreira. No ataque, Gyrano Kerk já era preparado para se tornar titular, e Cyriel Dessers, herói do acesso do NAC Breda na repescagem, se encaixa rapidamente no time (a ponto de ter feito o primeiro gol da Eredivisie). E por enquanto, Yassin Ayoub fica no clube, após ter considerada como certa uma transferência para o Bursaspor-TUR. Assim como o campeão Feyenoord, o Utrecht sofreu perdas sérias – mas foi rápido e preciso para se refazer e seguir com nível aceitável. Nem mesmo o sonho encerrado de repatriar Wesley Sneijder faz falta.

Bruns (à direita) terá a função de criar os ataques do Vitesse (vitesse.nl)
Vitesse

Cidade: Arnhem
Estádio: GelreDome (capacidade para 21.248 torcedores)
Apelidos: Vites, Arnhemmers 
Títulos: nenhum Campeonato Holandês (1 Copa da Holanda) 
Patrocínio: Swoop (revendedora de eletrônicos usados)
Técnico: Henk Fräser
Destaque: Milot Rashica (atacante)
Fique de olho: Thomas Bruns (meio-campista)
Temporada passada: 5º colocado
Copas europeias: Liga Europa (fase de grupos)
Objetivo: vaga nos play-offs pela Liga Europa
Principais chegadas: Remko Pasveer (G, PSV), Fankaty Dabo (D, Chelsea-ING), Thulani Serero (M, Ajax), Thomas Bruns (M, Heracles Almelo), Charlie Colkett (M, Chelsea-ING), Bryan Linssen (A, Groningen), [Mukhtar Ali (A, Chelsea-ING)], Tim Matavz (A, Augsburg-ALE) e Luc Castaignos (A, Sporting-POR)
Principais saídas: [Kevin Diks (D, Fiorentina-ITA)], Kelvin Leerdam (D/M, Seattle Sounders-EUA), Marvelous Nakamba (M, Club Brugge-BEL), [Lewis Baker (M, Chelsea-ING)], [Nathan (M, Chelsea-ING)], Valeri Qazaishvili (A, San Jose Earthquakes-EUA) e Ricky van Wolfswinkel (A, Basel-SUI)

Eis aí um caso de equipe que não só não perdeu muito com a janela de transferências, mas também se reforçou eficientemente para o nível técnico (baixo) do Campeonato Holandês. “Como assim? O Vitesse perdeu Ricky van Wolfswinkel!” De fato, o herói do título da Copa da Holanda, líder técnico do elenco, deverá fazer alguma falta – assim como Lewis Baker, destaque no meio-campo (que até merecia uma aposta no grupo principal do Chelsea). Alguns jogadores que saíram também tinham utilidade, como “Vako” Qazaishvili ou Marvelous Nakamba. Mas... oras, para quê serve a parceria oficiosa do Vitesse com o Chelsea? Exatamente para esses casos: ceder jogadores que possam ganhar ritmo de jogo em Arnhem. Os casos da vez são o lateral direito Fankaty Dabo e o meio-campista Charlie Colkett, ambos titulares na decisão da Supercopa da Holanda.

De mais a mais, de nada adiantaria a relação próxima com os Blues se a diretoria não buscasse contratações precisas. Foi o caso no gol: com Eloy Room pensando na saída, o experiente Remko Pasveer chegou do PSV. No meio-campo, Thomas Bruns, destaque do Heracles Almelo, terá respaldo para criar as jogadas. Para marcar, ainda no meio, Thulani Serero é tão esforçado (e tem tanta velocidade) quanto Nakamba. E no ataque, para suprir a falta de Van Wolfswinkel, há dois atacantes experimentados em Eredivisie: Tim Matavz, mais goleador, e Luc Castaignos, tentando se recuperar na carreira. Sem contar os destaques que continuam. Na zaga, o ídolo Guram Kashia; no ataque, Milot Rashica. Essa mescla de permanências com reforços que conhecem a Eredivisie, mais a “cota Vit-Chelsea”, pode valer outra boa temporada. Mais um time que merece atenção.

Stengs é a grande aposta de um AZ que pouco mudou (az.nl)
 AZ

Cidade: Alkmaar
Estádio: AFAS (capacidade para 17.023 torcedores)
Apelido: Alkmaarders
Títulos: 2 Campeonatos Holandeses
Patrocínio: AFAS (empresa desenvolvedora de softwares)
Técnico: John van den Brom
Destaque: Wout Weghorst (atacante)
Fique de olho: Calvin Stengs (atacante)
Temporada passada: 6º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: vaga nos play-offs pela Liga Europa
Principais chegadas: Marco Bizot (G, Racing Genk-BEL) e Marko Vejinovic (M, Feyenoord)
Principais saídas: [Tim Krul (G, Newcastle-ING)], Sergio Rochet (G, Sivasspor-TUR), Fernando Lewis (D, Willem II), Derrick Luckassen (D, PSV), Ridgeciano Haps (D, Feyenoord) e Muamer Tankovic (A, Hammarby-SUE)

Sabe-se que o AZ é um dos clubes médios mais tradicionais do futebol holandês – junto do Twente, talvez só esteja abaixo do Trio de Ferro. Até por isso, o time de Alkmaar sempre mostra equipes promissoras, com algumas revelações. Até por isso também, a decepção causada pela campanha em 2016/17: embora o sexto lugar não seja de se envergonhar, era possível voltar à Liga Europa – até para apagar a memória de outro ponto baixo do ano passado, a eliminação vexatória para o Lyon. Então, o que a diretoria fez? Continuar apostando no que já é conhecido.

O grupo continua praticamente o mesmo, a não ser em posições nas quais reforços eram indispensáveis. Cite-se como exemplo o gol: com a previsível devolução de Tim Krul ao Newcastle, Marco Bizot foi bom reforço trazido do Racing Genk. De resto, são os mesmos protagonistas: Ron Vlaar como o capitão experiente na zaga, Joris van Overeem se encarregando de criar no meio-campo (tendo o auxílio de Marko Vejinovic, presente no histórico título de 2008/09, emprestado pelo Feyenoord), Wout Weghorst responsável pelos gols, Alireza Jahanbakhsh acelerando o jogo na ponta – e a promessa em Calvin Stengs, que se destacou no play-off pela Liga Europa. Um voto de confiança foi dado. Caberá aos jogadores do AZ – e ao técnico John van den Brom – justificá-lo.

Odegaard (à direita) terá de aparecer mais em seu segundo semestre no Heerenveen (Andy Zuidema Fotografie/VI Images)
Heerenveen

Cidade: Heerenveen
Estádio: Abe Lenstra (capacidade para 26.100 torcedores)
Apelido: Fean (corruptela de "Hearrenfean", nome do time no idioma frísio - falado na província de Frieslândia, onde fica a cidade de Heerenveen), Frísios, Time da Frísia, "De Superfriezen" ("os superfrísios")
Títulos: nenhum Campeonato Holandês (1 Copa da Holanda)
Patrocínio: Groenleven (empresa de energia renovável)
Técnico: Jürgen Streppel
Destaques: Sam Larsson (atacante) e Reza Ghoochannejhad (atacante)
Fique de olho: Martin Odegaard (meio-campista)
Temporada passada: 9º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: vaga nos play-offs pela Liga Europa
Principais chegadas: Warner Hahn (G, Feyenoord), [Maarten de Fockert (G, VVV-Venlo)], Denzel Dumfries (D, Sparta Rotterdam), Lucas Woudenberg (D, Feyenoord) e Marco Rojas (M, Melbourne Victory-AUS)
Principais saídas: Erwin Mulder (G, Swansea-ING), Maarten de Fockert (G, Go Ahead Eagles), Stefano Marzo (D, Lokeren-BEL), [Shay Facey (D, Manchester City-ING)], Jeremiah St. Juste (D, Feyenoord), [Wout Faes (D, Anderlecht-BEL)], Lucas Bijker (D, Cádiz-ESP), Younes Namli (M, Zwolle), Branco van den Boomen (M, FC Eindhoven) e Luciano Slagveer (A, Lokeren-BEL)

Isso já foi falado na análise da temporada, mas merece ser ressaltado: diante do começo fulgurante no primeiro turno, o Heerenveen decepcionou no returno. Foi o penúltimo colocado, considerando-se apenas as 17 rodadas finais da temporada regular. E nem mesmo a presença de bons jogadores no ataque evitou a decepção entre os torcedores, na província da Frísia. Mas se a mudança viesse, ela seria principalmente na defesa, com a saída de destaques do setor (Erwin Mulder, Stefano Marzo, Jeremiah St. Juste...).


Foi o que ocorreu. Se Mulder era um dos goleiros mais confiáveis do Campeonato Holandês, Warner Hahn enfim ganha espaço para comprovar se irá além de uma promessa. Na lateral direita, Denzel Dumfries traz maiores porte físico e segurança na defesa. De resto, a única novidade é a vinda do meio-campista neozelandês Marco Rojas, presente na Copa das Confederações. E os destaques seguem os mesmos: Reza “Gucci” Ghoochannejhad, Stijn Schaars para a marcação no meio-campo, Arber Zeneli na ponta-de-lança – e, por enquanto, Sam Larsson (o atacante sueco quer sair do clube, mas até agora nada concreto). E Martin Odegaard segue sendo aposta, em seu segundo ano de empréstimo pelo Real Madrid. Só se espera que a regularidade seja maior.

Mahi chama a responsabilidade no Groningen (Peter Lous/VI Images)

Groningen

Cidade: Groningen
Estádio: Noordlease (capacidade para 22.550 torcedores)
Apelido: Groningers, "Trots van het Noorden" (em holandês, "Orgulho do Norte")
Títulos: nenhum Campeonato Holandês (1 Copa da Holanda)
Patrocínio: Payt (empresa de softwares)
Técnico: Ernest Faber
Destaque: Mimoun Mahi (atacante)
Fique de olho: Sergio Padt (goleiro) e Ritsu Doan (meio-campista)
Temporada passada: 8º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: vaga nos play-offs pela Liga Europa
Principais chegadas: Mike te Wierik (D, Heracles Almelo), Django Warmerdam (D/M, Ajax), Todd Kane (D, Chelsea-ING), Ritsu Doan (M, Gamba Osaka-JAP) e Lars Veldwijk (A, Kortrijk-BEL)
Principais saídas: Stefan van der Lei (G, Willem II), Tom Hiariej (D, Central Coast Mariners-AUS), [Jason Davidson (D, Huddersfield Town-ING)], Desevio Payne (D, Excelsior), Hedwiges Maduro (M, Omonia Nicosia-CHP), Simon Tibbling (M, Brondby-DIN) e Bryan Linssen (A, Vitesse)

Entre os médios que sonham em surpreender, o time alviverde vive numa corda bamba. Quase nunca sofre com ameaças de rebaixamento ou mesmo de repescagem de acesso/descenso. Ainda assim, os Groningers ainda parecem distantes de um salto rumo a posições até melhores, como já fazem AZ, Vitesse e Utrecht. Até difícil compreender o porquê disso, já que o time tem jogadores talentosos, como o atacante Mimoun Mahi. De todo modo, a equipe recomeça sua tentativa do salto supracitado.


Reforçou a defesa com o zagueiro Mike te Wierik e o lateral Django Warmerdam, para proteger o goleiro Sergio Padt, um dos melhores da Holanda (a ponto de já ser convocado para a seleção). A aposta no desconhecido japonês Ritsu Doan surpreende. Gente que já não tinha mais para onde ir no clube foi liberada, como Hedwiges Maduro e Simon Tibbling. Ainda assim, só o início da temporada revelará mais concretamente quais são as reais perspectivas do Groningen: o meio ou a parte posterior da tabela.

Armenteros comemorando um gol que marcou: a torcida do Heracles espera por essa cena (Peter Lous/VI Images)

Heracles Almelo

Cidade: Almelo
Estádio: Polman (capacidade para 12.080 torcedores)
Apelidos: Heraclieden, Almelöers 
Títulos: 2 Campeonatos Holandeses, conquistados antes da era profissional
Patrocínio: Asito (empresa de limpeza)
Técnico: John Stegeman
Destaque: Samuel Armenteros (atacante)
Fique de olho: Brandley Kuwas (atacante)
Temporada passada: 10º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: vaga nos play-offs pela Liga Europa
Principais chegadas: Harm Zeinstra (G, Cambuur), Dries Wuytens (D, Willem II), Jeff Hardeveld (D, Utrecht), Jamiro Monteiro (M, Cambuur), Sebastian Jakubiak (M, SV Rödinghausen-ALE) e Paul Gladon (A, Wolverhampton Wanderers-ING)
Principais saídas: Justin Hoogma (D, Hoffenheim-ALE), Mike te Wierik (D, Groningen), Robin Gosens (D/M, Atalanta-ITA), Mark-Jan Fledderus (M, encerrou carreira) e Thomas Bruns (M, Vitesse)

A rigor, os Heraclieden só tinham uma preocupação neste começo de temporada: a defesa. Quase todos os destaques do setor saíram do clube: Justin Hoogma, Mike te Wierik, Robin Gosens (o goleiro Bram Castro quase saiu – estava acertado com o Racing Genk, mas problemas posteriores melaram a transferência). Por isso, a preocupação maior foi com reforços para a parte de trás. Eles vieram, e podem preencher as lacunas abertas.


O zagueiro Dries Wuytens já tem ritmo de jogo, pela titularidade no Willem II, enquanto Jeff Hardeveld será titular na lateral esquerda. De resto, o clube de Almelo tem condição de seguir tranquilo na Eredivisie. Mesmo com as perdas no meio-campo (Mark-Jan Fledderus e Thomas Bruns), os remanescentes (Reuven Niemeijer, Peter van Ooijen) podem manter o nível razoável. E no ataque, o alívio está na permanência de Samuel Armenteros, cujos gols já ajudaram muito o Heracles – e podem continuar ajudando, se ele seguir em Almelo (quer sair, para um centro maior do futebol, pensando em possível ida à Copa do Mundo caso a Suécia se classifique).


Parte das várias mudanças do Twente para esta temporada, Tom Boere treina para ser a referência no ataque (Ron Jonker/fctwente.nl)
Twente

Cidade: Enschede
Estádio: De Grolsch Veste (capacidade para 30.205 torcedores)
Apelido: Tukkers (gíria para nativos do Twenthe, região da província de Overijssel onde fica a cidade de Enschede)
Títulos: 1 Campeonato Holandês
Patrocínio: Pure Energie (empresa fornecedora de energia)
Técnico: René Hake
Destaque: Hidde ter Avest (lateral esquerdo)
Fique de olho: Tom Boere (atacante) e Danny Holla (meio-campista)
Temporada passada: 7º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Jorn Brondeel (G, Lierse-BEL), Haris Vuckic (Newcastle-ING), Alexander Laukart (M, Borussia Dortmund-ALE), Danny Holla (M, Zwolle), Isaac Buckley-Ricketts (A, Manchester City-ING) e Tom Boere (A, FC Oss)
Principais saídas: Nick Marsman (G, Utrecht), Sonny Stevens (G, Go Ahead Eagles), Kamohelo Mokotjo (M, Brentford-ING), Mateusz Klich (M, Leeds United-ING), [Bersant Celina (M/A, Manchester City-ING)], [Yaw Yeboah (A, Manchester City-ING)] e [Enes Ünal (A, Manchester City-ING)]

Estes têm sido anos estranhos para o Twente. Em 2015/16, o rebaixamento inicial, como punição da federação por maquiar balanços financeiros – e a surpreendente revogação posterior. Ficando na Eredivisie pela porta dos fundos, esperava-se uma equipe desesperada, apenas querendo a permanência na primeira divisão. Até porque ela não poderia querer mais nada: mesmo se terminasse na zona do play-off por vaga na Liga Europa, não poderia disputá-lo, punido que foi (três anos sem disputar competições continentais). Porém, de onde menos se esperava, o Twente fez bonito. Não só pelo digno sétimo lugar, mas também pelas boas atuações de alguns jogadores – Enes Ünal foi apenas o maior destaque.


Porém, entre uma temporada e outra, a necessidade de reformulação financeira para cobrir o rombo no cofre se fez sentir novamente. Dois dos grandes destaques técnicos do ataque (Ünal e Bersant Celina) eram emprestados do Manchester City – e foram obviamente devolvidos. Três protagonistas que pertenciam ao time (Nick Marsman, Kamohelo Mokotjo e Mateusz Klich) foram vendidos a preço baixo. E René Hake terá o mesmo dever da temporada passada: fazer papel digno com um time de jovens e alguns mais velhos. Ficam as apostas em gente como o goleiro Jorn Brondeel e os atacantes Isaac Buckley-Ricketts e Tom Boere (este, goleador da segunda divisão holandesa na temporada passada). Vivendo como um “café com leite” – pode participar, mas sem perspectiva a não ser escapar do rebaixamento -, repetir a temporada passada já será  um grande feito.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Guia do Campeonato Holandês - Parte I (os prováveis de baixo)

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 4 de agosto de 2017. Revista e ampliada)

O despertador de uma nova temporada já toca no futebol holandês. Aliás, já tocou no final de semana passado: a Supercopa da Holanda abriu os trabalhos, quando Vitesse (campeão da Copa da Holanda) e Feyenoord definiram a Johan Cruyff Schaal em De Kuip. O uso do "árbitro de vídeo" no gol do Vitesse chamou a atenção (lembre-se: os jogadores do Vites reclamavam de pênalti, a sequência da jogada revelou gol impedido de Nicolai Jorgensen, e só aí o juiz Danny Makkelie foi conferir - anulou o gol e marcou o penal que Alexander Büttner conferiu para o 1 a 1 do tempo normal). Ainda assim, a festa foi do Feyenoord, que ganhou nos chutes da marca fatal - 4 a 2 - e comemorou mais um troféu.

O retorno da temporada tinha tudo para ser um momento de celebração no futebol holandês, mais falado do que a média no final da temporada passada. Pela relativa novidade que foi o final do calvário Feyenoorder na Eredivisie, com o título após 18 anos de jejum. Mas principalmente, pela surpreendente chegada do Ajax à final da Liga Europa. Enfim: era momento de se ter esperança. Mas o tempo passou. O sonho foi acabando aos poucos. A lua-de-mel da torcida do Feyenoord irá longe, mas clube já se reforçou e parece pronto para a temporada. 

O problema é notar que, para outros clubes, a hora de acordar para o novo ano parece não ter chegado. O Ajax até fez isso à força, com o lamentável incidente que vitimou para sempre Abdelhak Nouri. E até teve esperanças de seguir sonhando com a Liga dos Campeões. Mas a invencível tendência à ingenuidade e à ofensividade cobraram seu preço, com um gol tardio sofrido e a eliminação pelos gols fora de casa. Talvez nem adiante criticar o Ajax, que parece querer isso, parece não desejar largar seu “DNA ofensivo”. 

De todo modo, foi melhor essa eliminação honrosa do que a vergonha inominável que o PSV cometeu contra o Osijek-CRO, na terceira fase preliminar da Liga Europa, ao perder duas partidas (e merecendo perdê-las, ao contrário do Ajax, que fez o que podia nos jogos equilibrados contra o Nice). Só mesmo o Utrecht compensou nas competições europeias, ao superar arbitragem danosa - validou um gol em impedimento – para superar o Lech Poznan-POL nos gols fora de casa. 

Assim, o futebol holandês de clubes se prepara para a temporada com a incômoda sensação de que a carruagem relativamente bonita do final de 2016 voltou a ser a insípida abóbora de sempre. Só resta começar este tradicional guia, com os clubes que têm como principal objetivo apenas a tranquilidade na tabela.

Legenda
Jogador (posição, clube)
Transferência definitiva
Empréstimo
[retorno de empréstimo]

O NAC Breda agradece a permanência do promissor Manu García. O Manchester City também, para vê-lo ganhando ritmo (Maurice van Steen/VI Images)
NAC Breda

Cidade: Breda
Estádio: Rat Verlegh (capacidade para 19.000 torcedores)
Apelido: "A pérola do sul" (em holandês, "De Parel van het zuiden")
Títulos: 1 Campeonato Holandês (em 1921, antes da fase profissional da Eredivisie)
Patrocínio: CM (empresa de telecomunicações corporativas)
Técnico: Stijn Vreven
Destaque: Manu García (atacante)
Fique de olho: James Horsfield (meio-campista)
Temporada passada: 5º colocado da segunda divisão (promovido na repescagem, ao superar o NEC)
Copas europeias: nenhuma 
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Nigel Bertrams (G, Willem II), Menno Koch (D, PSV), Angeliño (D, Manchester City-ING), Pablo Marí (D, Manchester City-ING), Rai Vloet (M, PSV), James Horsfield (M, Manchester City-ING), Thomas Agyepong (M, Manchester City-ING) e Manu García (A, Manchester City-ING)
Principais saídas: [Jorn Brondeel (G, Lierse-BEL)], Danny Verbeek (A, Den Bosch), Cyriel Dessers (A, Utrecht)

Você simpatiza com o Manchester City? Talvez fosse bom prestar atenção aos jogos do NAC Breda – de volta à divisão de elite holandesa, após dois anos de ausência -, para talvez ver futuros jogadores dos Citizens. Afinal de contas, a parceria da “Pérola do Sul” com o clube inglês é oficial. E como a equipe aurinegra andava precisando, muitos novatos foram cedidos pelo primo rico para ganharem ritmo de jogo na Eredivisie. Dois deles, os emprestados Thomas Agyepong e Manu García, já haviam sido muito úteis na campanha do acesso em 2016/17 – e ganharam mais um ano em Breda. Podem ganhar ainda mais espaço no ataque, porque o principal destaque na repescagem (Cyriel Dessers, autor de sete gols nos quatro jogos que valeram a promoção) se foi rumo ao Utrecht. Assim como outro atacante, Giovanni Korte.

Da frente para trás, quem veio do City foi para ficar em definitivo no NAC: o meio-campista James Horsfield, que terá a função primordial de armar o jogo, enquanto Rai Vloet, vindo do PSV, será o principal marcador. Outros emprestados pelo time de Eindhoven, o goleiro Nigel Bertrams e o zagueiro Menno Koch, terão a função de estruturar a defesa. E assim, num híbrido de PSV e Manchester City, o NAC Breda tem a missão de evitar o bate-e-volta, mantendo a longa tradição que tem na Eredivisie (antes de cair, haviam sido 15 anos na elite). 

O VVV-Venlo subiu, contratou gente, mas o destaque não muda: Ralf Seuntjens, em quem a torcida confia para ver gols (Pro Shots)
VVV-Venlo

Cidade: Venlo
Estádio: De Koel (capacidade para 8.000 torcedores) - também chamado "Seacon Stadion", pelo patrocínio do clube
Apelido: Venlonaren
Títulos: nenhum Campeonato Holandês (1 Copa da Holanda, em 1958/59)
Patrocínio: Seacon (empresa de logística)
Técnico: Maurice Steijn
Destaque: Ralf Seuntjens (atacante)
Fique de olho: Lennart Thy (atacante)
Temporada passada: Campeão da segunda divisão
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Lars Unnerstall (G, Fortuna Düsseldorf-ALE), Leroy Labylle (D, MVV Maastricht), Lennart Thy (A, Werder Bremen-ALE) e Tarik Tissoudali (A, Le Havre-FRA)
Principais saídas: [Maarten de Fockert (G, Heerenveen)], Cendrino Misidjan (D, não renovou contrato) e [Joey Sleegers (M, NEC)]

Mesmo após ser rebaixado, em 2012/13, o time de Venlo seguiu fazendo campanhas regulares na segunda divisão. Em 2014/15 e 2015/16, inclusive, chegou à repescagem de acesso, mas fracassou. Pois bem: enfim com um time apropriado para a segunda divisão, os aurinegros dominaram a Eerste Divisie na temporada passada, e conseguiram o merecido título – e, claro, o retorno à divisão de elite. E pelo menos neste começo, o VVV sonha em concretizar a tarefa da permanência com mais facilidade.

Para começo de conversa, os jogadores fundamentais na campanha do acesso continuam à disposição do técnico Maurice Steijn, em sua maioria – e mesmo a saída do goleiro De Fockert (emprestado pelo Heerenveen) foi plenamente reposta pelo alemão Lars Unnerstall. A defesa continua entrosada, com Jerold Promes, Nils Röseler e Roel Janssen. E no ataque, não bastasse Ralf Seuntjens (garantia de gols nos tempos de segunda divisão), merecem atenção o reforço Lennart Thy, emprestado pelo Werder Bremen, e o habilidoso Johnatan Opoku. Além do mais, vencer a Real Sociedad num amistoso de pré-temporada já leva a crer que a preparação está bem adiantada. Enfim, se não cometer ousadias, o VVV tem time capaz de encarar de igual para igual seus concorrentes na disputa contra o rebaixamento. Para um clube pequeno da Holanda, é algo promissor.

A torcida do Roda JC espera temporada mais regular, e Rosheuvel será importante na busca disso (Pro Shots)
Roda JC

Cidade: Kerkrade
Estádio: Parkstad Limburg (capacidade para 19.979 torcedores)
Apelido: Koempels (gíria da região de Kerkrade, significando "camarada" ou "amigo" - corruptela do alemão "kumpel"), "Orgulho do Sul" (em holandês, "Trots van het zuiden")
Títulos: nenhum Campeonato Holandês (2 Copas da Holanda)
Patrocínio: Mascot (produtora de uniformes de trabalho)
Técnico: Robert Molenaar
Destaque: Mikhail Rosheuvel (atacante)
Fique de olho: Hidde Jurjus (goleiro) e Simon Gustafson (meio-campista)
Temporada passada: 17º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Hidde Jurjus (G, PSV), Filip Kurto (G, Excelsior), Simon Gustafson (M, Feyenoord) e Mario Engels (A, Werder Bremen-ALE)
Principais saídas: Benjamin van Leer (G, Ajax), Marcos Gullón (M, não renovou contrato), [Abdul Ajagun (M, Panathinaikos-GRE)] e Tom van Hyfte (A, Beerschot-BEL)

Já há algumas temporadas, o Roda flerta com o perigo do rebaixamento. E diante de um fim de temporada tão turbulento quanto o da passada, conseguir a manutenção foi quase um milagre. O roteiro para a queda estava escrito. Novamente, contratações de baciada na intertemporada; um mecenas que prometeu mundos e fundos, mas está detido em Dubai (o suíço-russo Aleksandr Korotaev); terminar a temporada regular em penúltimo lugar; um técnico que acertou sua saída antes mesmo do fim do campeonato, e antecipou-a em plena repescagem de acesso/descenso (Yannis Anastasiou, rumo ao Kortrijk belga)... e mesmo com tudo isso depondo contra, os Koempels conseguiram superar o MVV Maastricht e manter o lugar na Eredivisie.

O mais impressionante: pelo menos aparentemente, os reforços do time de Kerkrade foram mais pontuais e aumentaram o nível técnico da equipe, para os padrões do futebol holandês. Nem tanto pelo técnico: Robert Molenaar está acostumado com equipes da segunda divisão holandesa. Mas sim pelos jogadores. Emprestado pelo PSV, Hidde Jurjus pode ser considerado um dos mais promissores goleiros holandeses da atualidade, e terá espaço para ganhar ritmo de jogo. A mesma coisa com Simon Gustafson: o meio-campista sueco, que perdeu importância no Feyenoord, pode aproveitar seu empréstimo para exibir novamente a capacidade de armar e também finalizar. Mesmo com algumas saídas importantes (principalmente, Benjamin van Leer e Tom van Hyfte), o Roda JC ganhou mais condições técnicas para, quem sabe, fazer a torcida respirar mais. Precisa.

Com mais saídas na pré-temporada, cresce a importância de Craig Goodwin para evitar sofrimentos ao Sparta (ANP)
Sparta Rotterdam

Cidade: Roterdã
Estádio: Het Kasteel (capacidade para 11.026 torcedores)
Apelido: Kasteelheren (em holandês, "Donos do Castelo" - referência ao nome do estádio, "o castelo" em holandês)
Títulos: 6 Campeonatos Holandeses (apenas um na era profissional, em 1958/59)
Patrocínio: Centric (empresa que desenvolve softwares)
Técnico: Alex Pastoor
Destaque: Craig Goodwin (meio-campista)
Fique de olho: Mathias Pogba (atacante)
Temporada passada: 15º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Alexandro Craninx (G, Real Madrid-ESP), Julian Chabot (D, RB Leipzig-ALE), Franck-Yves Bambock (M, Huesca-ESP), George Dobson (M, West Ham-ING),  e Dalibor Volas (A, NK Celje-ESN)
Principais saídas: Denzel Dumfries (D/M, Heerenveen), Rick van Drongelen (D, Hamburgo-ALE), Florian Pinteaux (D, não renovou contrato), David Mendes da Silva (M, encerrou carreira), Iván Calero (M, Elche-ESP), [Martin Pusic (A, Midtjylland-DIN)], Mathias Pogba (A, rescindiu contrato) e [Jerson Cabral (A, Bastia-FRA)]

Na temporada passada, o Sparta viveu um fim de temporada dramático. A rigor, pode-se se dizer que só não disputou a repescagem de acesso/descenso porque o Roda JC conseguia estar em situação ainda pior e o NEC viveu uma queda brusca e sem escalas no returno. Porém, dá para dizer que o time de Roterdã precisou demais da ajuda de alguns jogadores. Principalmente no ataque, onde Martin Pusic fez gols salvadores. E se os fez, foi só pelo auxílio de gente como Mathias Pogba, Loris Brogno, Craig Goodwin, Denzel Dumfries etc.

Pois bem, muitos dos que ajudaram já não estão mais no Sparta, como Pusic, Dumfries e até o lateral esquerdo Rick van Drongelen (cuja transferência para o Hamburgo teve algo de surpreendente). Nem mesmo Mathias Pogba ficou: o irmão mais velho de Paul rescindiu o contrato, descontente com a reserva. Assim, restará aos “Donos do Castelo” apostarem tanto em quem já conhecem (Goodwin, Brogno, Thomas Verhaar, Paco van Moorsel) quanto nos raros reforços, como o atacante Dalibor Volas. Parece pouco para evitar, de novo, sofrimento na fuga da zona de repescagem/rebaixamento.

Sem Falkenburg, Fran Sol liderará o Willem II na técnica. Mostrou capacidade para fazê-lo (Gerrit van Keulen/VI Images)
Willem II

Cidade: Tilburg 
Estádio: Koning Willem II (capacidade para 14.500 torcedores)
Apelidos: Tilburgers, Tricolores
Títulos: 3 Campeonatos Holandeses
Patrocínio: Tricorp (produtora de uniformes profissionais)
Técnico: Erwin van de Looi
Destaque: Fran Sol (atacante)
Fique de olho: Daniel Crowley (meio-campista)
Temporada passada: 13º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Timon Wellenreuther (G, Schalke 04-ALE), Stefan van der Lei (G, Groningen), Fernando Lewis (D, AZ), Bartek Urbanski (M, Legia Varsóvia-POL), Daniel Crowley (M, Arsenal-ING) e Pedro Chirivella (M, Liverpool-ING)
Principais saídas: Nigel Bertrams (G, NAC Breda), Kostas Lamprou (G, Ajax), Dries Wuytens (D, Heracles Almelo), Dico Koppers (D, Zwolle), Pele van Anholt (D, Los Angeles Galaxy-ING), Derick Tshimanga (D, OH Leuven-BEL), Funso Ojo (M, Scunthorpe United-ING), Anouar Kali (M, Utrecht), Erik Falkenburg (M, não renovou contrato) e [Obbi Oularé (A, Watford-ING)]

É possível colocar o Willem II no mesmo caso do Zwolle: uma equipe que tinha grupo e nível técnico suficiente para não ter passado tanto sufoco nas últimas rodadas de 2016/17. Seja como for, o clube da cidade de Tilburg foi mais competente para se salvar com menos drama. Até porque tinha jogadores capazes de assumir a responsabilidade técnica. Ao longo da temporada passada, ogadores como Kostas Lamprou (dos melhores goleiros da Eredivisie passada), Erik Falkenburg, Fran Sol e Thom Haye ajudaram bastante na conquista de resultados bons aqui e ali.

De certa forma, as várias vendas dos Tricolores na janela de transferências provaram como o time não era de se jogar fora. Por exemplo: Lamprou, Wuytens, Koppers e Kali foram para equipes maiores no cenário holandês. O problema é que, agora sim, os Tilburgers estão enfraquecidos. Restará ao técnico Erwin van de Looi tentar remontar uma espinha dorsal com os bons que ficaram, como Fran Sol e Haye, junto das caras novas, como o goleiro alemão Timon Wellenreuther ou Daniel Crowley e Pedro Chirivella, cedidos por gigantes ingleses e já com tempo de jogo na Eredivisie (Crowley em definitivo, Chirivella por empréstimo). Será um desafio considerável. Mas se conseguir cumpri-lo, o Willem II pode se manter novamente na primeira divisão.

No meio da reformulação por que o Zwolle passa, o retorno do experiente goleiro Diederik Boer dá confiança à torcida (peczwolle.nl)
Zwolle

Cidade: Zwolle
Estádio: Mac³Park (capacidade para 13.250 torcedores)
Apelidos: Zwollenaren, Dedos Azuis (em holandês, "Blauwvingers" - 
Títulos: nenhum, no Campeonato Holandês (uma Copa da Holanda e uma Supercopa da Holanda)
Patrocínio: Molecaten (empresa organizadora de acampamentos)
Técnico: John van’t Schip
Destaque: Ryan Thomas (atacante)
Fique de olho: Younes Namli (meio-campista)
Temporada passada: 14º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Diederik Boer (G, Ajax), Dico Koppers (D, Willem II), Erik Bakker (M, Cambuur), Younes Namli (M, Heerenveen) e Piotr Parzyszek (A, De Graafschap)
Principais saídas: Ted van de Pavert (D, NEC), [Django Warmerdam (D/M, Ajax)], Danny Holla (M, Twente), [Queensy Menig (M/A, Ajax)], Anass Achahbar (A, NEC) e [Nicolai Brock-Madsen (A, Birmingham City-ING)]

Em 2016/17, o Zwolle passou mais sustos do que devia. Algumas peças mudaram, mas os Zwollenaren tinham a obrigação de mostrar um desempenho tão sólido quanto o de temporadas passadas. Pelo menos, no segundo turno, alguns jogadores cresceram de produção (com destaque para Queensy Menig e Nicolai Brock-Madsen), e alguns resultados pontuais e positivos conseguiram manter a equipe na Eredivisie. Todavia, estava claro: algo precisava mudar. Não era necessariamente o técnico, mas mesmo assim Ron Jans preferiu deixar o clube, após quatro anos comandando o time e fazendo os “Dedos Azuis” darem vários passos adiante no projeto do presidente Adriaan Visser – transformar o Zwolle numa equipe média dentro do futebol holandês. Emprestados, Menig e Brock-Madsen também deixaram o clube. Assim como vários outros. 

Poderia parecer que o ex-jogador John van’t Schip, o novo técnico, teria terra arrasada para começar a trabalhar. Mas aí veio a notável habilidade da direção para buscar jogadores encostados em clubes grandes/médios, ou de clubes pequenos. Prova disso foi a volta do experiente goleiro Diederik Boer, que teve dois anos no Ajax e agora continuará a bela história que tem no clube em que começou (com 339 jogos entre 2001 e 2014, Boer é o segundo jogador a atuar mais na história do Zwolle). Na linha, Younes Namli, subutilizado no Heerenveen, terá espaço para armar o jogo, junto a Stef Nijland. E se o 4-2-3-1 comum precisa de uma referência de ataque para funcionar, a terá em Piotr Parzyszek, experimentado na segunda divisão holandesa. Enfim, de novo, o Zwolle parece pronto para causar dores de cabeça a clubes maiores. A não ser que decepcione.

Com a bola nos pés, Koolwijk dá alguma segurança ao Excelsior (ANP/Pro Shots)
Excelsior

Cidade: Roterdã
Estádio: Van Donge & De Roo (capacidade para 4.000 torcedores)
Apelido: Kralingers (referência a Kralingen, bairro de Roterdã onde o clube fica)
Títulos: nenhum
Patrocínio: DSW (seguradora de saúde)
Técnico: Mitchell van der Gaag
Destaques: Ryan Koolwijk (meio-campista)
Fique de olho: Zakaria El Azzouzi (atacante)
Temporada passada: 12º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Desevio Payne (D, Groningen), [Wout Faes (D, Anderlecht-BEL)], Lorenzo Burnet (D, Slovan Bratislava-ESQ), Ali Messaoud (A, Vaduz-LIE), [Zakaria El Azzouzi (A, Ajax)] e Jinty Caenepeel (A, FC Eindhoven)
Principais saídas: [Warner Hahn (G, Feyenoord)], Khalid Karami (D, não renovou contrato), Bas Kuipers (D, ADO Den Haag), Terell Ondaan (A, não renovou contrato), Nigel Hasselbaink (A, Kiryat Simona-ISR) e Fredy (A, Belenenses-POR)

Parecia que o Excelsior iria ter dificuldades, novamente, para escapar do rebaixamento em 2016/17. Mas o time de Roterdã mostrou evolução no ataque, conseguiu resultados até surpreendentes (o Feyenoord que o diga...), e alcançou a manutenção com maior facilidade do que se esperava. Porém, a pré-temporada e a janela de transferências revelaram a necessidade de remontar o time para o técnico Mitchell van der Gaag. Dois dos principais personagens da campanha passada, Nigel Hasselbaink e Khalid Karami, já não estão mais no clube do bairro de Kralingen. Assim como o zagueiro Bas Kuipers.

A sorte do treinador (e da torcida) é que os contratados parecem ter capacidade de manter o nível técnico mediano do Excelsior. No ataque, merecem atenção Zakaria El Azzouzi (novamente emprestado pelo Ajax, habilidoso na ponta) e Jinty Caenepeel (boas atuações pelo FC Eindhoven, na temporada passada da segunda divisão). A defesa ganhou opções para substituir Karami, tanto com Desevio Payne quanto com Lorenzo Burnet. Some-se a isso quem permaneceu e é capaz de dar alguma técnica (Ryan Koolwijk, Jurgen Mattheij), e quem sabe outra vez, o Excelsior possa ter sucesso ao buscar uma temporada mais calma.

Num ADO Den Haag sempre sob risco de confusão, cabe a Duplan se manter como destaque da equipe auriverde (ANP)

ADO Den Haag

Cidade: Haia
Estádio: Cars Jeans (capacidade de 15.000 espectadores)
Apelido: Hagenaren, Den Haag
Títulos: 2 (na fase amadora do Campeonato Holandês)
Patrocínio: Cars Jeans
Técnico: Alfons “Fons” Groenendijk
Destaque: Édouard Duplan (atacante)
Fique de olho: Dennis van der Heijden (atacante)
Temporada passada: 11º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Bas Kuipers (D, Excelsior), Nick Kuipers (D, MVV Maastricht), Lex Immers (M, Cardiff City-GAL), [Ludcinio Marengo (A, Go Ahead Eagles)], [Dennis van der Heijden (A, Volendam)] e Elson Hooi (A, Vendsyssel-DIN)
Principais saídas: Ernestas Setkus (G, Hapoel Haifa-ISR), Tom Trybull (D/M, não renovou contrato), Kevin Jansen (M, NEC), [Nasser El Khayati (M, Queens Park Rangers-ING)], Mike Havenaar (A, Vissel Kobe-JAP) e Ruben Schaken (A, não renovou contrato)

O desespero foi grande. Num certo momento da temporada, pensou-se até que o ADO Den Haag cairia, tal era a desordem fora de campo – e o desespero dentro dele. Mas um novo técnico chegou, os jogadores passaram a se dedicar mais, os resultados vieram, e o clube de Haia passou a viver um período de armistício interno. Tanto pela manutenção na Eredivisie, que acalmou a torcida, quanto pela presença maior do mecenas chinês Hui Wang, dando ao Conselho Deliberativo (e aos adeptos) a esperança de que estará mais continuamente perto do Den Haag, de que não sumirá. Nem seu dinheiro.

Pelo menos por enquanto, segue a esperança de dias mais tranquilos. Primeiro, por causa da janela de transferências. Se gente importante na reação deixou o clube (El Khayati, Havenaar, Schaken), a torcida tem razão para ficar contente com o retorno de Lex Immers, ídolo dela. E Elson Hooi tem nível técnico suficiente para o futebol holandês. Em segundo lugar, os resultados de pré-temporada foram satisfatórios: vários amistosos contra clubes amadores, um jogo na China, outro contra o MVV Maastricht... e o Den Haag só venceu. Além do mais, a manutenção de gente como Tom Beugelsdijk e Wilfred Kanon (na zaga) e Édouard Duplan (no ataque) dá a esperança de que este ano não será igual àquele que passou. Pelo menos até a próxima briga entre diretoria e mecenato no clube...

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Para acompanhar a Eredivisie: curiosidades

Quem acompanha este Espreme a Laranja habitualmente (e o autor destas linhas obviamente agradece a audiência pouca, mas fiel) sabe que o assunto aqui é futebol holandês - masculino ou feminino, de clubes (menos) ou seleção (mais). Todavia, se o assunto ficasse restrito apenas ao campo, a abordagem seria mais pobre. Afinal de contas, futebol nunca é formado apenas pelo que ocorre dentro das quatro linhas. Há toda uma cultura em torno dele, que às vezes até justifica por que as coisas são como são.

E assim o blog abre a apresentação do Campeonato Holandês para a temporada 2017/18. Antes mesmo de falar dos 18 times que estarão na Eredivisie, é bom dar ao leitor uma apresentação de algumas características importantes (como o modo de transmissão das partidas do campeonato, bem como para onde vai o dinheiro investido pela televisão). E também comentar aquelas curiosidades que parecem inúteis - até são -, mas que agradam a todo amante de futebol. Curiosidades que formam os ambientes com os quais a torcida holandesa está acostumada quando acompanha a Eredivisie. Segue, então, uma abertura antes da análise dos 18 clubes, a partir desta quinta.

A FOX Sports gasta para dominar a transmissão do futebol holandês (TLG)
Televisão - e a divisão do dinheiro da televisão

Quem deseja assistir ao Campeonato Holandês na própria Holanda precisa ter tevê a cabo. A única emissora que exibe todos os jogos da Eredivisie é fechada: a FOX Sports holandesa, detentora exclusiva dos direitos. Entre 2008 e 2013, os direitos de tevê pertenciam aos próprios clubes, e os jogos eram transmitidos pela Eredivisie Live, emissora a cabo da Eredivisie CV (equivalente holandês ao antigo Clube dos 13, no Brasil). Em 2013, a FOX comprou a Eredivisie Live, transformando-a em FOX Sports, exibindo não só o Campeonato Holandês, mas também os jogos da segunda divisão e da Copa da Holanda. Em canal aberto, desde então, somente um compacto noturno das partidas da rodada, exibido às sextas, sábados e domingos, pela NOS, emissora pública de tevê.

Para ter a exclusividade, a FOX paga 70,7 milhões de euros à Eredivisie CV. Tal renda começa a ser dividida em função da classificação final das equipes, na temporada. O campeão leva 18 pontos, enquanto o último colocado ganha apenas um. Essa classificação é feita levando em conta as dez temporadas mais recentes, com o campeonato imediatamente anterior recebendo "peso 10" na divisão, enquanto a edição mais distante da Eredivisie (no caso atual, a de 2007/08) é considerada com "peso 1". O primeiro colocado nessa "classificação" ganha 13% do dinheiro da televisão; o segundo ganha 12%; o terceiro, 11%, e assim gradativamente. Desnecessário dizer quais são os clubes que ficam com a parte maior do dinheiro da televisão... mas para constar, o Ajax ganha atualmente cerca de 9 milhões de euros; o PSV, 8,5 milhões; e o Feyenoord, terceiro nessa tabela, 7,5 milhões.


"DENNIS BERGKAMP! DENNIS BERGKAMP!" Já ouviu esta narração? O dono da voz é o cidadão aí da foto, descrito abaixo (Mark van der Zouw)
Cobertura da imprensa

Em tevê, já foram citadas a FOX Sports (tevê fechada - além do futebol holandês, exibe o Campeonato Alemão e a Liga Europa) e a NOS (emissora pública, detentora dos direitos de transmissão de Copa do Mundo e Eurocopa para a tevê aberta holandesa). Na tevê fechada, a grande desafiante da FOX Sports é a Ziggo Sport, propriedade da Ziggo, empresa de telecomunicações - e sim, a patrocinadora do Ajax. A Ziggo Sport possui os direitos de mais campeonatos prestigiosos: Campeonato Inglês, Campeonato Espanhol e Liga dos Campeões. Com relação à seleção holandesa, na tevê aberta, se a NOS mostra os jogos válidos por torneios importantes, os amistosos da Laranja são o trunfo da SBS 6.

Assim como no Brasil, os jornalistas acabam se popularizando: é possível citar como exemplos o narrador Frank Snoeks, da NOS, o âncora Kees Jansma, da FOX Sports, e Jack van Gelder, âncora da Ziggo Sport (com longo passado no rádio: foi Van Gelder o autor da famosa narração cheia de gritos para o gol de Dennis Bergkamp, contra a Argentina, nas quartas de final da Copa de 1998).

No rádio, não há muitos segredos: as grandes competições futebolísticas holandesas são acompanhadas pela divisão de rádio da NOS. Na imprensa escrita, a popularidade é dividida entre dois grandes diários, o De Telegraaf ("O telégrafo", maior do país, sediado em Amsterdã - e como previsível, mais dedicado às coisas do Ajax) e o Algemeen Dagblad ("Diário Geral", localizado em Roterdã - obviamente focando mais as coisas do Feyenoord). Cada um tem colunistas que denotam bem o clube de destaque: se o Telesport, caderno de esportes do De Telegraaf, tem de vez em quando textos de Edwin van der Sar - e periodicamente, contava com Johan Cruijff -, o AD Sportwereld (caderno do Algemeen Dagblad) conta com as colunas de Willem van Hanegem como seu maior chamariz.

No tocante a revistas, a Voetbal International é dos mais tradicionais veículos esportivos do país: circulando ininterruptamente desde 1965, a revista semanal ainda se mantém. No entanto, nunca sua concorrência esteve tão forte: duas de suas antigas concorrentes, a ELF e a Voetbal Magazine, fundiram-se formando a ELF Voetbal, também conhecida. Além disso, há revistas menores que também têm seu público, como a 90 Minutes. Ainda assim, com as tiragens de todas elas diminuindo, a Voetbal International aposta no fortalecimento de seu site - contando com a supervisão do jovem Pieter Zwart, cujo trabalho jornalístico tem causado discussões (a favor e contra) na Holanda por ser apegado demais a táticas.

Aprenda com o blog: A (de Alkmaar '54) com Z (de FC Zaanstreek) dá AZ

Fusões

Falar em fusões entre clubes não é nada absurdo, no futebol brasileiro. Basta lembrar o exemplo do Paraná Clube. Na Holanda isso é ainda mais disseminado, saiba. Basta citar dois dos médios mais tradicionais. Na cidade de Enschede, havia dois times: o Sportclub Enschede e o Enschedese Boys. Aquele passava por dificuldades, e a partir de 1961 se falava numa fusão, confirmada em 11 de fevereiro de 1965, com os dois clubes se tornando o FC Twente. Quase simultaneamente, em Alkmaar, havia dois clubes profissionais: o Alkmaar '54 (fundado em 1954, como o nome indica) e o FC Zaanstreek (que herdou a licença do antigo Kooger Football Club a partir de 1964). Três anos depois, os clubes se fundiram: com o "A" do Alkmaar '54 e o "Z" do Zaanstreek surgiu o AZ'67 - hoje, o conhecido AZ.

AZ e Twente não foram os únicos a se fundirem para evitarem a decadência. Em 1º de julho de 1970, concluía-se um processo incentivado pela prefeitura de Utrecht: a fusão entre três clubes médios da Eredivisie (DOS, Elinkwijk e Velox). Até havia tradição entre eles - o DOS fora campeão na segunda temporada profissional da Eredivisie, em 1957/58 -, mas nada que resistisse ao passar dos anos: o DOS contentava-se em escapar do rebaixamento, enquanto Elinkwijk e Velox iam e vinham da elite. Assim, na data citada de 1970, uniram forças para fundar o FC Utrecht.

Anos antes, ainda houvera a "fusão de fusões". Volte-se à década de 1950: na cidade de Kerkrade, em 1954, quatro clubes transformaram-se em dois. O SV Bleijerheide (de 1914) uniu-se ao Kerkrade Football Club (de 1926), dando origem ao Roda Sport, enquanto o Juliana SV (primeiro clube de Kerkrade, fundado em 1910) juntou-se ao então recém-fundado Rapid 54 para juntos formarem o Rapid JC (Rapid Juliana Combinatie - "combinação Rapid e Juliana"). Não demorou muito, e, em 1962, dois viraram um: Rapid JC e Roda Sport consolidaram a fusão final em 27 de junho, para começarem o Roda JC (Roda Juliana Combinatie). Combinação maluca? Isso porque não falou-se aqui do...
Faltaria espaço no distintivo do NAC Breda, se as siglas dos clubes fundidos fossem citadas... (Wikipédia)

"O maior nome do mundo"

Este é um apelido que poderia ser dado ao NAC Breda, sem prejuízo nenhum. Não que a fusão tivesse ocorrido simultaneamente às tantas citadas no tópico posterior: ela já datava de 19 de setembro de 1912. Todavia, impressionavam as siglas dos dois nomes que formaram o clube da cidade de Breda. Ainda mais porque as siglas traziam ainda frases.

O "N" vinha do NOAD, para "Nooit Opgeven, Altijd Doorzetten" (em holandês, "nunca desistir, sempre continuar"). E o "A" era advento do ADVENDO ("Aangenaam Door Vermaak En Nuttig Door Ontspanning", cuja tradução é "Agradável pelo entretenimento, e útil pela descontração". E em 1912, surgia o NAC - claro, "NOAD Advendo Combinatie", a combinação entre o NOAD e o Advendo. Não se sabe de nenhum outro nome tão longo para um clube na história do futebol. Pelo menos, as siglas não foram consideradas...

O profissionalismo

Até 1953, o futebol na Holanda era amador. E a KNVB ("Federação de Futebol do Reino dos Países Baixos") não dava impressão de querer mudar isso em curto prazo, principalmente pela vontade de seu presidente, Karel Lotsy. O que desagradava a alguns clubes, que desejavam abertamente a adoção do profissionalismo - até por causa do mau estado do futebol holandês naquela época. Dez desses clubes (dos quais o único existente na atualidade é o De Graafschap) fundaram a NBVB - Nederlandse Beroep Voetbalbond, "federação holandesa de futebol profissional". A NBVB organizou sua própria liga, da qual o primeiro jogo profissional da história do futebol holandês ocorreu em 31 de julho de 1954: Alkmaar '54 2x2 BVC Amsterdam.

Vendo que corria sérios riscos de perder adeptos, a KNVB não demorou para entrar em negociações com a NBVB, visando uma fusão. E também não demorou para a solução final: em 25 de novembro de 1954, as duas entidades que comandavam o futebol holandês anunciavam não só a fusão, mas uma adaptação rumo ao profissionalismo. Na temporada 1955/56, o campeonato nacional ainda seria disputado nos moldes amadores: ligas regionais, cujos vencedores disputavam o título numa "miniliga" final. E a partir de 1956/57, começou a Eredivisie profissional, como a conhecemos.

A torcida do PSV já decorou, mesmo que nem todos gostem de Tina Turner: "You're simply the best/Better than all the rest" (worldoftina.com)

Música para tudo

Tina Turner no PSV? Pois é o que manda o protocolo da entrada em campo do time de Eindhoven, quando joga em seu Philips Stadion: sempre que a equipe dos Boeren entra, ao lado do seu adversário, "Simply the best" soa nos alto-falantes do estádio. É hábito haver música para todos os ritos, nos estádios do futebol holandês. A Amsterdam (futura Johan Cruyff) Arena já sabe: quando o Ajax entra em campo, primeiro soa o hino do clube, para depois haver "Bloed, zweet en tranen" ("Sangue, suor e lágrimas"), grande sucesso de André Hazes (1951-2004), cantor popular na Holanda. "I will survive", por sua vez, é motivo de alegria para os torcedores do Feyenoord: um trecho da canção de Gloria Gaynor é tocado sempre que há um gol do Stadionclub em De Kuip.

Almanaque

Quem fez mais jogos pela Eredivisie: Willem "Pim" Doesburg (goleiro), com 687 jogos por Sparta Rotterdam e PSV, entre 1962 e 1987
Quem fez mais gols pela Eredivisie: Willy van der Kuylen (atacante), com 311 gols por PSV e MVV Maastricht, entre 1964 e 1982
Qual a maior goleada da história da Eredivisie: Ajax 12x1 Vitesse (22 de maio de 1972, jogo final da campanha na temporada 1971/72)
Qual o jogo com mais gols na história da Eredivisie: Feyenoord 9x4 Ajax (29 de novembro de 1964, na temporada 1964/65)
Jogador mais jovem na história da Eredivisie: Wim Kras (Volendam), que tinha 15 anos, 9 meses e 17 dias em 1959
Jogador mais velho na história da Eredivisie: Jan Jongbloed (goleiro), que tinha 44 anos, 9 meses e 14 dias em 1985.
Jogador a ter marcado mais gols num só jogo pela Eredivisie: Afonso Alves (Heerenveen), que marcou sete gols em Heerenveen 9x0 Heracles Almelo (7 de outubro de 2007, na temporada 2007/08).
Goleiro com maior tempo de invencibilidade: Heinz Stuy (Ajax), que ficou 1082 minutos sem sofrer gols em 1971.

domingo, 6 de agosto de 2017

A Euro (é) delas

Van den Berg e Spitse erguem a taça da Euro: Holanda superou as desconfianças para fazer história (Getty Images)

"#OnsEK". Em holandês, "nossa Euro". Este era o lema da federação holandesa, convertido em hashtag, para a Eurocopa feminina que o país sediava. Não se tratava de profecia, claro; era apenas um chamariz de audiência para o torneio. Uma tentativa de capitalizar em cima da simpatia crescente de torcida e imprensa pela seleção da Holanda. Jamais se poderia prever que a Euro seria realmente delas, das holandesas. Mas foi. Não faltaram provações durante a final deste domingo, contra a Dinamarca, para que as "Leoas Laranjas" confirmassem a ascensão irresistível que protagonizaram durante a Euro, com a vitória final por 4 a 2 e o primeiro título da história da seleção feminina.

Como se disse, a ascensão holandesa durante o torneio continental foi sólida. Uma primeira fase na conta do chá, preocupando-se mais com as vitórias do que com boas atuações; a vitória que mudou o status da seleção da casa, com o 2 a 0 categórico que eliminou a Suécia e serviu para a aparição definitiva do trio de protagonistas - Vivianne Miedema, Lieke Martens e Shanice van de Sanden; na semifinal contra a Inglaterra, que também vinha 100% na Euro, um triunfo por 3 a 0 com uma atuação, enfim, brilhante. Motivos para otimismo, torcida e imprensa tinham. A tal ponto que o Grolsch Veste de Enschede tinha nas tribunas gente como o primeiro-ministro Mark Rutte, Marco van Basten e Louis van Gaal.

O favoritismo era claro. Até porque a Dinamarca vinha de uma semifinal extenuante, física e psicologicamente, contra a Áustria. Todavia, se a Holanda tinha suas protagonistas, as adversárias danesas também tinham as delas. E foram elas que começaram melhor a final no estádio do Twente: enquanto Katrine Veje fazia o serviço sujo de abrir espaços, Sanne Troelsgaard ajudava, e Pernille Harder e Nadia Nadim traziam perigo sempre que tinham a bola nos pés, pressionando a defesa, que começou desatenta. O que culminou no pênalti cometido por Kika van Es em Troelsgaard, logo aos seis minutos, convertido por Nadim para o 1 a 0 dinamarquês.

Miedema pôde extravasar em lágrimas no fim: após o mau começo, os gols decisivos na final (ANP)
Era a primeira vez que a Holanda saía em desvantagem, em toda a sua campanha na Euro. Ficava a dúvida: as "Leoas" reagiriam ou sucumbiriam a tal pressão? Reagiram do melhor jeito possível: empatando rapidamente, aos 10', com as protagonistas aparecendo, como sempre. A precisão de Jackie Groenen, no lançamento; a velocidade embasbacante de Van de Sanden, pela direita, para fazer o cruzamento rasteiro; e a eficiência de Vivianne Miedema, enfim confiante, distante das atuações tímidas da fase de grupos, para concluir e fazer 1 a 1.

Faltavam ainda dois destaques. Com a melhora holandesa após o empate, elas apareceram. Daniëlle van de Donk, como sempre, se desdobrando na criação das jogadas, e até no auxílio ao ataque. E, finalmente, Lieke Martens, com a técnica sempre na hora certa. A técnica que permitiu à camisa 11 dominar a bola após o passe de Van de Sanden, para finalizar com precisão, no canto esquerdo da goleira Stina Lykke Petersen, aos 28', chegando à virada que fortalecia ainda mais a autoconfiança crescente e inquebrantável da equipe laranja.

Como sempre, a técnica de Martens foi valiosa para as holandesas. E fez dela a melhor da Euro (Getty Images)
Todavia, com a empolgação, a defesa holandesa avançou demasiadamente - e em linha. Não foi difícil achar espaços para lançamentos em profundidade. Como aos 30', logo após a virada holandesa, quando Nadim só não fez o gol porque Sari van Veenendaal espalmou a bola na hora certa, após ser driblada. Mas aos 32', não houve jeito: saída rápida para o contra-ataque, defesa aberta, e Harder finalizou com precisão para o 2 a 2. O gol chocou. Motivada, a Dinamarca terminou o primeiro tempo até mais perto do gol.

Estava claro: mesmo mais cansada, a Dinamarca tinha técnica suficiente para conseguir o título e frustrar novamente a Holanda. Já a equipe holandesa continuava com suas protagonistas a postos. Quem aproveitasse a chance, poderia definir o título europeu. Para a sorte das Leoas, a chance foi aproveitada com inteligência, aos 51': em cobrança de falta na entrada da área, uma jogada ensaiada iludiu a barreira. Van de Donk passou na frente, e a capitã Sherida Spitse bateu no canto esquerdo de Lykke Petersen, com perfeição, fazendo 3 a 2. Era o gol necessário para a Holanda tomar o controle do jogo.

Spitse comemora o gol de falta: momento decisivo para a Holanda entrar na rota do título (ANP)
A Dinamarca continuou perigosa. Nadim e Harder continuaram jogando bem - principalmente a primeira, trazendo perigo pela esquerda (aproveitando até a má entrada de Dominique Janssen, que não preencheu bem o lugar deixado pela lesionada Desirée van Lunteren). No entanto, o cansaço dos 120 minutos de semifinal na quinta passada se fazia sentir. Os ataques já não eram tão velozes. E o ritmo ficava à feição para a Holanda se impor. Se o caso era atacar, que se mantivesse a bola no campo ofensivo, de preferência com Van de Sanden. Se o caso era defender, o meio-campo ajudava a defesa a conter as bolas aéreas, cada vez mais frequentes. 

Por mais que o 3 a 2 deixasse a equipe bem perto do título, nada estava garantido. Era esperar a oportunidade de um contra-ataque para ser eficiente, como tantas vezes a Holanda fora na Euro. A chance veio, aos 89'. Miedema aproveitou, para seu segundo gol na final - e quarto no torneio. Na hora, a emoção foi forte demais para a jovem camisa 9: "Eu comecei a chorar logo depois que marquei o quarto gol".

Mais alguns minutos, e a torcida pôde dar vazão total à festa que ainda era tímida. O que parecia apenas um sonho virava realidade, como ficou claro nas palavras da goleira Sari van Veenendaal ("Todas sonhávamos com o título europeu, mas não ousávamos dizer que ele viria"). Nas palavras de Lieke Martens, a melhor jogadora da Euro com toda justiça ("Nós somos campeãs, é sério mesmo? Trabalhamos duro, como leoas"). Até nas da técnica Sarina Wiegman, premiada pela firmeza nas escolhas táticas ("Não é normal, somos campeãs. Nós somos campeãs, não eu"). Todavia, quem melhor resumia a sensação ali era Anouk Dekker: "Merecíamos isto. Melhoramos jogo a jogo". A união ficou comprovada num gesto simbólico: Spitse, feita capitã durante a Euro, e Van den Berg, capitã que teve de ir para a reserva por lesão, ergueram juntas o troféu.

A festa no vestiário e na zona mista, as visitas de Van Basten e do premiê Mark Rutte às campeãs, a celebração da torcida, o recorde de público num jogo feminino no país novamente batido (28.182 pagantes)... tudo isso mostra: o nível de exigência cresceu a partir de agora. A Holanda campeã europeia não poderá mais se contentar em estar uma vez ou outra numa Copa do Mundo, ou num torneio olímpico. Só a continuidade trará o direito de ser vista como "grande".

Mas que não se esqueça: se um dia a seleção feminina holandesa for grande, se o futebol feminino for popular no país (e ganhou impulso decisivo para isso), um capítulo decisivo para esses fins ocorreu neste 6 de agosto de 2017. O dia em que a "nossa Euro" se transformou na Euro delas. Com louvor e distinção.

Euro feminina 2017 - final
Holanda 4x2 Dinamarca
Data: 6 de agosto de 2017
Local: Estádio De Grolsch Veste, em Enschede
Juíza: Esther Staubli (Suíça)
Gols: Nadia Nadim (pênalti), aos 6', Vivianne Miedema, aos 10' e 89', Lieke Martens, aos 28', e Pernille Harder, aos 33'; Sherida Spitse, aos 51'

Holanda
Sari van Veenendaal; Desirée van Lunteren (Dominique Janssen, aos 57'), Anouk Dekker, Stefanie van der Gragt e Kika van Es (Mandy van den Berg, aos 90' + 4); Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk e Sherida Spitse; Shanice van de Sanden (Renate Jansen, aos 90'), Vivianne Miedema e Lieke Martens. Técnica: Sarina Wiegman

Dinamarca
Stina Lykke Petersen; Theresa Nielsen, Simone Boye Sorensen (Line Roddik, aos 77'), Stine Larsen e Cecilia Sondvej; Sanne Troelsgaard, Maja Kildemoes (Frederikke Thogersen, aos 62'), Sofie Pedersen (Nanna Christiansen, aos 82') e Katrine Veje; Pernille Harder e Nadia Nadim. Técnico: Nils Nielsen

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Cada vez melhor

As reservas não se contiveram ao final do jogo: Holanda chegou à final da Euro com atuação notável (Reuters)

No sábado passado, a seleção da Holanda já provara que estava a sério na Euro feminina que sedia. Fora precisa e eficiente para eliminar a Suécia, uma das favoritas. O talento de Lieke Martens aparecera na hora certa, bem como a capacidade de Vivianne Miedema na finalização. Todavia, ainda ficara a impressão de que as "Leoas Laranjas" precisariam de algo mais, se quisessem superar nas semifinais a Inglaterra, que também só trazia vitórias na campanha. Tanto pelo presente (algumas falhas defensivas foram vistas contra as suecas) quanto pelo passado (a Inglaterra fora a carrasca laranja nas semifinais da Euro feminina 2009). Pois bem: a equipe holandesa provou, com inapeláveis 3 a 0 nas inglesas. Por isso, chegou onde poucos imaginavam: à final da Euro.

Quando a partida em Enschede começou, o que se viu foi o mesmo enredo das quartas de final: a Holanda permitindo que a adversária ficasse com a posse de bola, para tentar sair nos rápidos contragolpes. Em parte, dava certo: outra vez, Shanice van de Sanden era opção sempre confiável para a velocidade,  na direita. Em parte, era extremamente arriscado, porque Jodie Taylor, a goleadora da Euro, também estava a postos para aproveitar qualquer falha da defesa. Para que a bola chegasse a Taylor, as jogadoras inglesas apostavam nos cruzamentos. Aí se viu um bom sinal: não dava certo, pela ótima atuação da dupla de zaga formada por Anouk Dekker e Stefanie van der Gragt.

Aos poucos, veio um sinal ainda melhor: a Holanda começou a chegar ao ataque repetidamente, ficando mais com a bola nos pés. Mais: não era só Van de Sanden que se apresentava para as jogadas. Como poucas vezes nesta Euro, as armadoras holandesas chegavam do meio-campo. Como Daniëlle van de Donk, brilhando a ponto de ofuscar Lieke Martens, bem marcada pela esquerda. Ou, finalmente, Jackie Groenen, enfim auxiliando Van de Sanden na direita. Tanto que foi dela o cruzamento para que, aos 22', Miedema aparecesse novamente, com um cabeceio preciso, no contrapé da goleira Siobhan Chamberlain, fazendo 1 a 0. Era a vantagem que a equipe laranja buscava, para poder suportar os ataques da Inglaterra.

E esses ataques vieram. A metade final do primeiro tempo foi um momento de perigo para a equipe anfitriã. Também útil na lateral, Lucy Bronze começou a criar jogadas. Algumas vezes, a defesa falhou: como aos 25', quando Van der Gragt errou numa saída de bola, deixando-a nos pés de Taylor, que só não empatou porque Desirée van Lunteren fez o corte na hora exata, prensando a bola para escanteio - no qual, outra vez, o empate só não ocorreu porque Sherida Spitse (pouco falada, muito firme em campo) estava bem posicionada na primeira trave para desviar, em cima da linha, a bola vinda do cabeceio de Jade Moore. Que ainda bateu na trave, só para assustar mais.

O começo do segundo tempo foi ainda pior. Aos 49', enfim com espaço para se mover, Taylor quase empatou, driblando Van der Gragt, mas chutando fraco para Van Veenendaal defender. No minuto seguinte, foi a vez da própria goleira falhar na saída de bola, entregando-a de graça a Francesca Kirby (pelo menos, Van Veenendaal voltou a tempo para se posicionar bem e defender). Mais engraçado ainda foi o erro que quase ajudou a Inglaterra: aos 58', quando Kirby tentou passar para o meio da área, Van der Gragt chutou fraco, e a bola bateu em cima de Ellen White, quase à queima-roupa, indo direto para Van Veenendaal. Era urgente: a Holanda precisava sair para o ataque, novamente.

Justo quando Holanda mais sofria, gol de Van de Donk (à frente) tranquilizou seleção feminina de vez (Reuters)
O que não se supunha era que um erro da defesa inglesa tranquilizaria definitivamente as coisas para a seleção holandesa. Foi aos 62': Fara Williams recuou a bola de cabeça para Chamberlain agarrar e recomeçar a jogada, mas saiu curta demais. À feição para Van de Donk se antecipar, entrar no meio da área e tocar na saída da goleira inglesa para o 2 a 0 que colocou um sorriso na boca de quem quer que acompanhasse o jogo. Dali por diante, nada mais que a Inglaterra tentou fazer perturbou uma Holanda de confiança inabalável. Até mesmo os raros chutes (Taylor, aos 82', e White, aos 87') foram defendidos por uma Van Veenendaal cada vez mais firme como a melhor goleira da Euro até agora.

E o gol contra de Bright, nos acréscimos, após chute de Martens, foi o fecho merecido para uma vitória categórica da Holanda. Que foi comemorada como se devia: com as reservas invadindo o campo para comemorar o gol e a vaga na primeira final de Euro da história da seleção feminina holandesa. Um orgulho indisfarçável foi notado nas palavras de todas as jogadoras: Jackie Groenen ("Nosso plano de jogo deu certo"), Daniëlle van de Donk - o nome do jogo ("Eu nunca esperava vitória por 3 a 0, estou tão orgulhosa, tivemos uma performance coletiva, minhas colegas de Arsenal terão de ouvir muito"), Lieke Martens ("O sucesso não veio por acaso, trabalhamos para isso"). Os elogios vieram às carradas, claro - destaque para o de Marco van Basten, no Twitter.

Agora, na final, a Dinamarca. Há alguma vantagem para a Holanda, como Miedema reconheceu na zona mista: "Será muito difícil, mas elas precisaram jogar por 120 minutos [na semifinal contra a Áustria]". De mais a mais, há o apoio quase incondicional da torcida. O otimismo expresso nas palavras da técnica Sarina Wiegman, à NOS: "Tivemos uma ótima performance, e podemos repeti-la no domingo. Vamos rumo ao título". E, acima de tudo, a crença de que a Holanda não é só um time organizado. Tem jogadoras que podem decidir: Martens, Van de Sanden, Miedema, Groenen, Van de Donk... enfim, a Holanda está cada vez melhor. E sonha com a apoteose suprema.

Euro feminina 2017 - semifinais
Holanda 3x0 Inglaterra
Data: 3 de agosto de 2017
Local: Estádio De Grolsch Veste, em Enschede
Juíza: Stéphanie Frappart (França)
Gols: Vivianne Miedema, aos 22'; Daniëlle van de Donk, aos 62', e Millie Bright (contra), aos 90' + 3

Holanda
Sari van Veenendaal; Desirée van Lunteren, Anouk Dekker, Stefanie van der Gragt (Kelly Zeeman, aos 70) e Kika van Es; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk (Jill Roord, aos 90' + 1) e Sherida Spitse; Shanice van de Sanden (Renate Jansen, aos 89'), Vivianne Miedema e Lieke Martens. Técnica: Sarina Wiegman

Inglaterra
Siobhan Chamberlain; Lucy Bronze, Stephanie Houghton, Millie Bright e Demi Stokes; Jade Moore (Karen Carney, aos 76') e Fara Williams (Toni Duggan, aos 67'); Jordan Nobbs, Francesca Kirby e Ellen White; Jodie Taylor. Técnico: Mark Sampson