sexta-feira, 6 de novembro de 2015

À procura da tática perfeita

Fischer voltou a jogar bem. Mas isso não é o suficiente num incerto Ajax (Olaf Kraak/ANP)
Durante algumas vezes nesta temporada, o Ajax viveu momentos de turbulência em campo. Lidera o Campeonato Holandês, mas não dá confiança alguma à sua torcida – e ela tem lá suas razões, tendo em vista a campanha ruim dos Amsterdammers na Liga Europa. Além do mais, várias vitórias conseguidas na temporada foram bem ilusórias. E quando a equipe enfrentou adversários de maior nível técnico, saiu de campo com empate ou derrotada. Foi assim contra o PSV, no primeiro clássico deste Campeonato Holandês; contra o Feyenoord, pela Copa da Holanda; e contra Celtic e Fenerbahçe, pela fase de grupos da Liga Europa.

Agora, neste final de semana, enfim os Ajacieden têm nova chance para comprovarem a justiça de sua primeira posição na Eredivisie. Enfrentam o Feyenoord, na segunda edição do Klassieker em onze dias, agora pela 12ª rodada da liga. E se valerão de uma boa rodada passada: goleando o Roda JC por 6 a 0, viram no domingo o Stadionclub novamente ter seu embalo quebrado, por uma atuação ruim e pela derrota para o ADO Den Haag (1 a 0) – aliás, comprovando o “dedo podre” desta coluna, que elogiara o Stadionclub e destacava Dirk Kuyt, no texto da sexta anterior. Com isso, abriram três pontos de vantagem na liderança. 

Ainda assim, não se sabe direito a cara tática com que o Ajax irá a campo. E essa indecisão se deve até à própria irregularidade dos resultados. Nesta temporada, o Ajax já jogou no 4-3-3 velho de guerra – e os resultados não agradaram, principalmente com a eliminação vexatória na terceira fase preliminar da Liga dos Campeões. Então, Frank de Boer decidiu fortalecer um pouco mais a defesa, mesmo seguindo no 4-3-3. Começou bem (basta lembrar dos quatro jogos sem sofrer gols no Holandês), mas a derrota no clássico contra o PSV – e a má atuação, deixando os Boeren dominarem o jogo em plena Amsterdam Arena – também deu sinais de que aquele esquema não poderia ser usado a ferro e fogo.

Assim, contra o Roda JC, Frank de Boer decidiu arriscar. E a equipe foi a campo num 3-4-3, esquema que não era visto no time Ajacied havia muito tempo. Pois deu muito certo: tudo bem que era contra o 10º colocado do Campeonato Holandês, mas a velocidade exibida nos ataques e, principalmente, nos contra-ataques do Ajax foi bastante elogiável. Bastou mostrar um pouco de técnica nas finalizações, e estava feito o 6 a 0 – maior goleada da temporada na Eredivisie, igualando o mesmo placar do PSV contra o Cambuur.

Mas o que aconteceu para essa mudança, ainda mais lembrando que a vitória anterior (3 a 1 no Vitesse, pela 10ª rodada) fora suada? Provavelmente, uma pista foi a mudança no meio-campo. O volante Riechedly Bazoer até chega ao ataque e mostra mais técnica, mas também tem mais lentidão. Assim, foi trocado por Thulani Serero. E o sul-africano, com seu estilo “motorzinho” já conhecido, jogou mais à frente da defesa e deu mais tranquilidade para que Nemanja Gudelj e Davy Klaassen chegassem ao ataque, oferecendo mais opções de jogada e de finalização.

O que não quer dizer que Bazoer está condenado ao banco. Exatamente pelos fatores supracitados (poder chegar ao ataque e mostrar mais técnica com a bola nos pés), o camisa 6 já se destacou em algumas partidas, como nas vitórias contra Heracles e Vitesse – nesta, foi o melhor em campo, ao marcar o gol da virada e participar da maioria das jogadas de ataque. Pode-se dizer, até, que Bazoer desponta como outra grande revelação do campeonato, além de Anwar El Ghazi. A ponto de já ter sido chamado por Danny Blind para a seleção holandesa, ainda nas eliminatórias da Euro - e de estar novamente na relação de jogadores da Oranje para os amistosos contra País de Gales e Alemanha.

Outra pista para responder as perguntas sobre a razão do sucesso do 3-4-3 no Ajax está nos atacantes. Principalmente em Viktor Fischer. Enfim livre da séria lesão muscular que o tirou de grande parte das duas últimas temporadas, Fischer rapidamente recuperou o ritmo de jogo e o destaque que ganhava quando apareceu, na temporada 2012/13. Com três gols nas últimas duas rodadas, além da velocidade que traz pela esquerda do ataque, o dinamarquês já desponta como protagonista no ataque da equipe, apagando até o bom começo de Anwar El Ghazi. Não impressiona que Morten Olsen já o tenha convocado para a seleção dinamarquesa que disputará as duas partidas da repescagem pela vaga na Euro 2016. Continuando assim, o camisa 7 Ajacied rapidamente voltará a ser cobiçado em janelas de transferências.

É bom destacar também que a maior chance que os meio-campistas de ataque têm para avançar ameniza aquela que ainda é a principal lacuna ofensiva: a falta de um atacante confiável, de um “finalizador” nato. Arkadiusz “Arek” Milik até começou bem em sua chegada, mas já perdeu o crédito de confiança que a torcida lhe dava, tanto que até já frequentou o banco de reservas. O polonês até voltou a marcar contra o Roda JC, por duas vezes, mas ainda tem o que recuperar. Outros dois atacantes que tiveram o espaço diminuído nas últimas partidas foram Amin Younes (previsível demais pela esquerda) e Daley Sinkgraven (já no olho do furacão, após as falhas que cometeu ao ajudar a defesa, resultando em alguns gols contra o Ajax, em partidas anteriores).

Aliás, a defesa também foi “ajudada” nos últimos tempos. Joël Veltman já não é tão afoito em suas saídas para o ataque; enfim, cumpre bem a função primordial de um zagueiro. Com isso, dá mais segurança até ao parceiro de zaga, Jaïro Riedewald. Kenny Tete também tem dosado melhor seus avanços ao ataque. Bastou Mitchell Dijks ter algumas boas atuações para que os danos defensivos fossem menores. E mesmo com os problemas físicos de Dijks, Riedewald foi deslocado para a esquerda com sucesso, com Nick Viergever formando a zaga com Veltman.

Todavia, nem mesmo essas evoluções fizeram as desconfianças sumirem da Amsterdam Arena. Afinal de contas, pela Liga Europa, nesta quinta passada, o empate sem gols contra o Fenerbahçe voltou a mostrar a falta de um finalizador confiável: Milik novamente passou em branco, sumindo do jogo aos poucos. E se a defesa conseguiu controlar os perigos trazidos pelo time turco, novamente o 4-3-3 mostrou seu problema crônico no Ajax. Não só houve falta de gente que pudesse finalizar, mas também se viu um espaçamento excessivo entre meio-campo e ataque. Prato cheio para a defesa mais compactada do Fener. Além disso, as lesões de Fischer e El Ghazi atrapalharam, e às vezes o egoísmo matou jogadas promissoras: caso exemplar ocorreu com Younes, que preferiu chutar para fora a cruzar para um Klaassen que estava livre, já no final da partida. E a má atuação jogou o time à beira da eliminação na fase de grupos do torneio continental. 

No domingo, o Ajax irá a De Kuip ainda tendo em mente a dura derrota no Klassieker da terceira fase da Copa da Holanda, quando o Feyenoord marcou o gol da vitória no último lance do jogo. Além disso, não terá El Ghazi, que lesionou o tornozelo e ficará fora por algumas semanas. Mesmo assim, uma vitória em Roterdã lhe dará vantagem de seis pontos na frente. E aí os Ajacieden poderão começar a pensar em despontar como os favoritos definitivos à Eredivisieschaal. Isso, com Frank de Boer ainda à procura da tática perfeita.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 6 de novembro de 2015)

domingo, 1 de novembro de 2015

810 minuten: como foi a 11ª rodada da Eredivisie

Livre das lesões, Fischer já desponta novamente. Foi o destaque na goleada do Ajax (ajax.nl)
Heracles Almelo 2x1 Willem II

Os Heraclieden até tiveram um revés inesperado antes do jogo: adoentado, o meio-campista Mark-Jan Fledderus ficou de fora da equipe. Sem problemas: não só o entrosamento seguiu, como o time de Almelo mostrou atenção e perspicácia suficientes para vencer sua oitava partida. Isso ficou claro no primeiro gol, logo aos três minutos do primeiro tempo: Thomas Bruns cobrou falta rapidamente, quando a defesa dos Tricolores ainda se organizava na barreira, e mandou a bola para Jaroslav Navrátil, livre, tocar na saída do goleiro Kostas Lamprou. Bruns apareceu de novo no segundo gol, cobrando escanteio para Ramon Zomer fazer 2 a 0. Na etapa complementar, o Willem II ainda fez seu gol, com Erik Falkenburg, e até teve maior posse de bola. Mas a maior esperteza possibilitou aos Almelöers seguirem como a mais agradável surpresa do 1º turno do Campeonato Holandês, até agora.

Groningen 2x0 Zwolle

As alterações do técnico Ron Jans no time visitante surpreenderam: os Dedos Azuis começaram o jogo com os dois goleadores do clube na temporada (o ponta-de-lança Sheraldo Becker e o atacante Lars Veldwijk) no banco. Não deu certo: na primeira jogada de ataque dos anfitriões, Michael de Leeuw cabeceou para as redes, abrindo o placar logo aos cinco minutos de jogo. A eficiência dos Groningers continuou: segunda jogada de ataque, e o lateral esquerdo Lorenzo Burnet fez 2 a 0. Para o segundo tempo, Becker voltou a campo junto de outro meia-atacante, Wouter Marinus. Desde então, o Zwolle manteve mais posse de bola e até chutou mais a gol. Mas ou parou no goleiro Sergio Padt, ou teve azar - como no último lance do jogo, quando o lateral direito Bram van Polen mandou a bola, de cabeça, para a trave. Com a vitória, o "Orgulho do Norte" alcançou em pontos o adversário deste sábado. E o Zwolle amargou a terceira derrota seguida, se afastando mais e mais dos ponteiros.

Excelsior 0x3 Vitesse

Mais uma partida cujo resultado ficou bem claro ainda nos minutos iniciais. Precisamente, no quinto minuto do primeiro tempo, quando o zagueiro Sander Fischer cometeu pênalti ao colocar a mão na bola. Dominic Solanke bateu, fez 1 a 0 para os Arnhemmers, e praticamente definiu o rumo do jogo. Mesmo que as chances de gol tenham rareado durante boa parte dos 90 minutos, o Vites não correu mais riscos no estádio Woudestein. Até que Kevin Diks aliviou de vez o perigo de um empate dos Kralingers, fazendo 2 a 0 em chute de longe, com falha do goleiro belga Tom Muyters. Posteriormente, Milot Rashica ainda fez mais um gol, para confirmar a vitória que manteve o time aurinegro na quinta posição da Eredivisie, encerrando sequência do Excelsior: três jogos sem derrotas.

Ajax 6x0 Roda JC

Seguindo à procura de um esquema com o qual o Ajax possa decolar, Frank de Boer escalou a equipe num 3-4-3, com Riechedly Bazoer dando lugar a Thulani Serero, enquanto Arkadiusz "Arek" Milik voltou ao centro do ataque. A julgar pelo início do jogo, a aposta do treinador Ajacied deu muito certo: aos cinco minutos do primeiro tempo, o Ajax já vencia por 2 a 0. E cada jogada ofensiva dos donos da casa, além de veloz, tinha opções à farta para seguir: pelas pontas, Anwar El Ghazi ou Viktor Fischer (que abriu o placar, aproveitando rebote de cabeceio de Joël Veltman). Pelo meio, Milik, que fez 2 a 0. E do meio-campo vinham Nemanja Gudelj e Davy Klaassen - este, autor do terceiro gol, surgido em falha do lateral Henk Dijkhuizen que abriu o contra-ataque.

Jogo definido, o Ajax até relaxou mais no segundo tempo. A ponto de poder, enfim, colocar em campo John Heitinga: até este sábado frequentador assíduo do banco de reservas, o zagueiro substituiu Gudelj e jogou seus primeiros minutos no Campeonato Holandês desde a transferência para o Atlético de Madrid, em 2008. Com o Roda JC oferecendo espaços à vontade pelas laterais, os Amsterdammers aceleraram o jogo de novo, chegando até com facilidade à maior goleada do torneio nesta temporada, com mais dois gols em contra-ataques (Fischer e Klaassen), além do gol de falta de Milik. Numa semana com eliminação traumática para o arquirrival Feyenoord na Copa da Holanda, o triunfo manteve a liderança da liga e reanimou o time para a semana árdua que terá (na quinta, recebe o Fenerbahçe, pela Liga Europa; no domingo, reencontra o Feyenoord, pela 12ª rodada).

De Graafschap 3x6 PSV

O jogo no estádio De Vijverberg, em Doetinchem, parecia repetir as vitórias de Ajax e Vitesse: resultado já definido no começo. Já aos três minutos, após falha da defesa do De Graafschap na saída de bola, o meio-campista Davy Pröpper fez 1 a 0 para o PSV. Numa cobrança de falta perfeita, Andrés Guardado marcou o segundo; e aproveitando rebote do arqueiro Hidde Jurjus, após chute de Jürgen Locadia, Pröpper fez outro gol, justamente contra o time onde joga seu irmão, o zagueiro Robin Pröpper. No final do primeiro tempo, o escocês Andrew Driver ainda diminuiu para o último colocado da Eredivisie, após lance polêmico: ficou claro um empurrão de Driver em Guardado durante o desarme, antes de chutar. 3 a 1 estava de bom tamanho, né? Não, bem longe disso.

Num começo frenético e arrasador na etapa final, os Superboeren empataram em casa. No segundo gol, após grande jogada de Nathan Kabasele pela esquerda, Alexander Bannink aproveitou rebote de grande defesa de Jeroen Zoet, aos cinco minutos; finalmente, Kabasele escorou cruzamento - a bola mais bateu no belga, a bem da verdade - e fez 3 a 3, aos 19 minutos, enlouquecendo os torcedores em Doetinchem. Mas a alegria durou pouco, porque aí os destaques do PSV entraram em cena: já aos 22 minutos, em bonito voleio, Luuk de Jong fez 4 a 3. O De Graafschap seguiu pressionando, o que incluiu incrível bate-rebate na área, aos 30 minutos. Mas depois o time da casa cansou. E em dois contra-ataques, com Luciano Narsingh e Gastón Pereiro (este, nos acréscimos), os Eindhovenaren garantiram uma vitória maluca. Novamente, o De Graafschap mostrou uma garra elogiável. Novamente, não merecia a derrota. Mas novamente, também, perdeu para um time que tem mais gente capaz de fazer a diferença. E segue sem vitórias no Campeonato Holandês.

ADO Den Haag 1x0 Feyenoord

Em crise (desde a segunda rodada estava sem vitórias), o ADO Den Haag recebeu o Feyenoord apostando numa defesa populosa e em ataques esparsos, principalmente pelas pontas, onde está a grande fragilidade defensiva dos Rotterdammers. E conseguiu o que desejava. Escalada num 4-3-3, não raro os Hagenaren passavam para um 4-4-2 - em determinados momentos, até para um 5-4-1. Congestionando o meio-campo, evitaram os ataques do Feyenoord. Que também teve falhas próprias: desde o jogo contra o PSV o ataque não fazia jogo tão ruim. Eljero Elia foi discretíssimo na ponta esquerda; na direita, Dirk Kuyt foi ainda pior; pelo meio, nem Michiel Kramer nem seu substituto, Colin Kazim-Richards, fizeram coisa melhor. Simon Gustafson e até o zagueiro Jan-Arie van der Heijden tentavam avançar, mas ficavam presos na forte marcação do time auriverde. Este, por sua vez, não esteve muito melhor em campo. Ainda assim, trazia perigos esporádicos, vez por outra. Pelas pontas, com Ruben Schaken e Édouard Duplan; pelo meio, com Mike Havenaar.

E assim ele chegou ao gol, que teve dois momentos de sorte. Primeiro, o auxiliar mal posicionado não flagrou o claro impedimento de Schaken, que cruzou para a área. E aí, após duas disputas aéreas, o zagueiro Sven van Beek tentou afastar, mas pegou tão mal na bola que seu chute de "rosca" mandou-a para as próprias redes, num gol contra bizarro (o quinto de sua carreira!). Nem mesmo jogando com um a mais, após a expulsão de Duplan, o Feyenoord conseguiu ameaçar a segunda vitória do Den Haag no campeonato. Atuação ruim a ponto de merecer farpas afiadas do técnico Giovanni van Bronckhorst ("Eu achava que nosso nível técnico estaria maior, mas vi que não é assim. (...) Dizer que merecemos a derrota hoje ainda é pegar leve", criticou à FOX Sports holandesa). Agora três pontos atrás do Ajax na vice-liderança, o Stadionclub precisa vencer o confronto direto, no Klassieker da próxima semana, para não ver o arquirrival de Amsterdã disparar na ponta.

Utrecht 4x2 Twente

Tanto Utregs como Tukkers não jogaram tão bem assim para proporcionar uma partida agradável no estádio De Galgenwaard, como pode parecer pelos seis gols marcados. Estes vieram principalmente de falhas das duas defesas. No gol de Thomas Agyepong, que abriu o placar para o Twente, o guarda-metas Robbin Ruiter poderia ter ido melhor na bola; no empate do zagueiro Timo Letschert para os donos da casa, os marcadores na área deixaram a bola aérea passar facilmente; na virada do Utrecht, duas falhas do goleiro dos Tukkers. Primeiro, Joël Drommel repôs mal a bola, nos pés do lateral direito Sean Klaiber, e depois desviou para dentro o chute de Nacer Barazite que saiu da jogada subsequente. No segundo tempo, o Twente até empatou com Hakim Ziyech (quem mais?), só que Barazite marcou pela segunda vez na partida, após boa jogada com Yassin Ayoub. No fim, o atacante Sébastien Haller fez seu quarto gol nas últimas três partidas. E enquanto o Utrecht comemora sua segunda vitória extravagante na semana (na quarta, fez 5 a 3 e eliminou o Groningen da Copa da Holanda), além de se aproximar de Zwolle e Groningen, o Twente segue sua via-crúcis na liga holandesa.

Heerenveen 2x0 Cambuur

Ainda em fase de recuperação interna (o presidente Jelko van der Wiel e toda a diretoria renunciaram durante a semana), o Heerenveen esperava vencer o "Clássico da Frísia" para manter a pressão da torcida em níveis ainda aceitáveis. E superou o Cambuur, de maneira até mais fácil do que se esperava. Já aos três minutos da etapa inicial, um gol contra de Wessel Dammers abriu o placar para o Fean. Os visitantes de Leeuwarden ainda criaram uma boa chance com Sander van de Streek, mas seus atacantes tiveram um dia ruim. Assim, o time da casa nem precisou de muito esforço para fazer o 2 a 0 no estádio Abe Lenstra, em pênalti convertido por Mitchell te Vrede. A 14ª posição ainda inspira cuidados, mas em campo o Heerenveen começa a exibir novamente lampejos do time razoável que ainda é, a despeito dos problemas fora das quatro linhas. Já o Cambuur segue na penúltima posição, sofrendo com um time que parece se perder quando não tem Bartholomew Ogbeche em campo.

AZ 2x4 NEC

Marcando a volta ao AZ do atacante Mounir El Hamdaoui (grande destaque do título holandês do clube em 2008/09), o último jogo da rodada engrenou a partir da metade do primeiro tempo. Rapidamente os gols vieram, dali por diante: aos 29 minutos, Anthony Limbombe abriu o placar para os visitantes em bela cobrança de falta. Aos 33, num chute colocado, não menos bem feito, Markus Henriksen empatou para os Alkmaarders. Só que no minuto seguinte, o venezuelano Christian Santos recolocou os Nijmegenaren na frente. A partir daí, forçosamente, o ritmo caiu: a neblina espessa encobriu grande parte do AFAS Stadion, impedindo a torcida de ver o jogo. No intervalo, a coisa se resolveu com a troca de bolas: entrou a laranja, normalmente usada em casos assim. E aí, no segundo tempo, bastaram dois gols, de Lucas Woudenberg e Limbombe, para a vitória se definir, mesmo com Henriksen diminuindo para os AZ'ers. Importante triunfo, que coloca o NEC em sexto lugar e começa a delinear uma campanha mais de acordo com o respaldo que a ótima campanha do título na segunda divisão lhe deu. Ao AZ, resta consertar a irregularidade que o seu algoz desta rodada parece ter encerrado.


sábado, 31 de outubro de 2015

O símbolo da esperança

Kuyt, o líder do Feyenoord em campo - e o alvo principal da confiança do torcedor (fr-fans.nl)
O Feyenoord teve ídolos nos últimos anos? Teve. Bem, talvez não teve ídolos, mas teve destaques. Precisamente dois jogadores se encaixaram neste papel: John Guidetti, protagonista no vice-campeonato holandês da temporada 2011/12, ponto inicial da “ressurreição” do clube de Roterdã. E Graziano Pellè, que não só foi figura central de outras boas campanhas do Stadionclub – com ênfase para outro vice no Holandês, em 2013/14 -, mas também soube erguer a própria carreira a partir das boas atuações, para virar o que é hoje: jogador fundamental tanto no Southampton quanto na seleção italiana.

Mas Guidetti e Pellè eram jogadores oriundos de outros clubes, que foram para outros clubes. Ou seja: embora ambos tenham tido importantes momentos de suas carreiras nos Rotterdammers, a equipe foi “apenas” o cenário para uma boa fase. Por isso, volte-se ao trecho inicial: foram, provavelmente, mais destaques do que ídolos. Para reafirmar que o Feyenoord é, sim, um clube grande da Holanda, faltava um personagem com identificação e com história inquestionáveis para turbinar a confiança do elenco e da torcida. Não falta mais: Dirk Kuyt foi contratado exatamente para isso. E é exatamente o que está fazendo.

Se havia dúvidas sobre a importância do nativo de Katwijk nesta temporada, elas foram dissipadas nas últimas semanas. Na 9ª rodada do Campeonato Holandês, há quase três semanas, o Feyenoord visitou o Heerenveen. Num primeiro tempo primoroso, fez 5 a 0 (o jogo terminaria 5 a 2): três gols de Kuyt. No domingo passado, um jogo até mais difícil, pela 10ª rodada, contra o AZ, em casa. 3 a 1. Outro hat-trick de Kuyt. Mas o grande desafio era na última quarta, pela terceira fase da Copa da Holanda: De Klassieker, o mais tradicional clássico do país, contra o Ajax. 

O jogo foi tenso, truncado, nervoso. E os Ajacieden até jogaram melhor. Mas sabe-se: se falta alguma habilidade a Kuyt, sobra a ele espírito de luta. E este se espalhou por toda a equipe, que batalhou até os acréscimos. Teve o prêmio mais delicioso que podia imaginar: aos 49 minutos do segundo tempo, último dos descontos, falta à esquerda da área. Eljero Elia cobrou, e Joël Veltman desviou acidentalmente para as redes defendidas por Jasper Cillessen, fazendo gol contra no último lance do jogo. Loucura na Het Legioen, como a ensandecida (para o bem e o mal) torcida é conhecida: desde janeiro de 2012, o Feyenoord não vencia um Klassieker. Tratou-se de uma poderosa injeção de ânimo, menos de duas semanas antes de novo duelo contra os arquirrivais, pela 12ª rodada da Eredivisie, em 8 de novembro. A comemoração no estádio seguiu ainda por vários minutos depois do fim do jogo (confira a prova aqui).

Então, o Feyenoord é Kuyt e mais dez? Nem tanto. Há coadjuvantes valiosos na equipe. Um deles está no meio-campo: campeão europeu sub-21, o sueco Simon Gustafson mal chegou e recebeu a aposta do técnico Giovanni van Bronckhorst. E corresponde à confiança: colocou Jens Toornstra e Lex Immers no banco, acelera as jogadas de ataque, mostra sabedoria para definir a melhor hora do passe e já é o líder de assistências da equipe na temporada (4).

No ataque, os outros titulares ajudam Kuyt. Pela ponta-esquerda, Eljero Elia parece entrar num momento já vivido por outros jogadores holandeses: após rodar pelo futebol europeu, volta ao país natal, e lá reencontra-se com a boa fase. Elia impressionou com a boa atuação no difícil 3 a 2, fora de casa, contra o De Graafschap. E até já foi convocado por Danny Blind para os dois jogos finais da seleção da Holanda nas eliminatórias da Euro 2016. Convém não descartá-lo para o trabalho com vistas à qualificação para a Copa de 2018.

Já o centroavante Michiel Kramer ocupou o lugar de Colin Kazim-Richards, como se pedia. Produz menos do que prometia no início da temporada, mas pelo menos é o segundo maior goleador do Stadionclub na Eredivisie (4 gols). E mostra, digamos, a “malícia” que os atacantes precisam ter: não são raras as confusões que arruma com zagueiros adversários. A tal ponto que quase pegou quatro jogos de suspensão, por suposta cotovelada num zagueiro do De Graafschap – foi absolvido.

Ainda assim, o destaque inegável do Feyenoord é Kuyt. Primeiramente, claro, pelas boas atuações que fizeram dele o goleador do campeonato: em dez rodadas, dez gols. Mais do que os oito gols pelo Fenerbahçe, em 32 jogos, na temporada 2014/15; exatamente a mesma quantidade de tentos anotados em 2012/13, também em 32 jogos; enfim, desde os 13 gols marcados pelo Liverpool em todo o Campeonato Inglês 2010/11 o atacante não prometia enfiar tantas bolas nas redes.

Mas é razoável supor que a facilidade se dê pelo próprio nível técnico baixo da Eredivisie, que permite a um veterano de 35 anos, como Kuyt, fazer tantos gols e conseguir ser titular, o que ele já não era nem seus últimos tempos no Liverpool, nem no Fener. Então, por que tamanha importância? Pela dedicação e raça inesgotáveis. Tanto nos gols, quanto nas comemorações: invariavelmente, o camisa 7 vai celebrar próximo à placa de publicidade, punhos cerrados, braços levantados e gritos de júbilo junto à torcida. 

Sem contar que quase sempre é Kuyt quem dá a cara para bater nas declarações à imprensa. Nas horas más, como após a derrota para o PSV, no primeiro clássico da temporada, quando falhou no gol de Santiago Arias, lateral dos Eindhovenaren: “Foi um momento crucial. Estou muito chateado, isso não me acontece sempre”. E também nas horas boas, como após a vitória recente no Klassieker: “É gostoso demais. Queríamos vencer a qualquer custo. Nesse tipo de jogo não importa quem joga melhor, vimos isso na temporada passada. Ganhar é o mais importante, e mostramos isso. Essa vitória é legal para os jogadores, e mais legal ainda para Het Legioen”.

Já tendo sido goleador máximo da Eredivisie na temporada 2004/05, e eleito melhor jogador do campeonato por duas vezes (2002/03 e 2005/06) nem parece que Kuyt passou tanto tempo longe de De Kuip, após sua primeira passagem (entre 2003 e 2006). E sua identificação com o clube é tamanha que as negociações para a renovação do contrato atual já preveem sua transformação em técnico, começando nas categorias de base – como ocorreu com Van Bronckhorst, outro ídolo que retornou a Roterdã no fim da carreira. Só fortalece a ideia de que o atacante está cumprindo sua tarefa de ser o líder do Feyenoord, transformando-se num dos grandes ídolos da história do clube. E que a equipe, enfim, está motivada como nunca para encerrar o jejum de 16 anos sem conquistar a Eredivisie. 

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 30 de outubro de 2015)

domingo, 25 de outubro de 2015

810 minuten: como foi a 10ª rodada da Eredivisie

Kuyt não para: segundo hat-trick consecutivo, e destaque em mais uma vitória do Feyenoord (Perfil oficial do clube no Twitter)
Antes de mais nada, o destaque da 10ª rodada do Campeonato Holandês vai para as torcidas holandesas. Sem nada oficial, aos 14 minutos de cada partida, os presentes nas arquibancadas e cadeiras batiam palmas. Tudo para homenagear e fortalecer Johan Cruyff, após as revelações de que o "Nummer 14" está com câncer no pulmão, nesta semana.

Zwolle 1x2 Utrecht

A agradável partida no estádio Ijsseldelta já vinha empatada em 1 a 1: Wouter Marinus aproveitara rebote e abrira o placar ainda no início, enquanto Sébastien Haller afastava a má fase de vez, marcando pelo segundo jogo seguido para os Utregs. Até que vieram os pontos culminantes, no final da partida. Aos 38 minutos, o zagueiro Mark van der Maarel derrubou o atacante Lars Veldwijk na área. Pênalti, e Van der Maarel expulso. Era a grande chance para os Zwollenaren passarem à frente. Stef Nijland cobrou. E mandou a bola por cima do gol. O preço do erro veio aos 49 minutos: Haller foi empurrado na área por Trent Sainsbury. Novo penal. E o próprio Haller converteu, decretando a segunda vitória seguida de um time visitante contra o Zwolle. Com dois gols, o atacante francês segue como grande destaque do Utrecht. Será difícil que ele fique na Eredivisie na próxima temporada, e pode até sair no período de transferências em janeiro.

Willem II 2x2 Heerenveen

Havia grande curiosidade: como o Heerenveen reagiria à semana altamente turbulenta que teve, com o técnico Dwight Lodeweges deixando o clube e os problemas na diretoria cada vez mais aprofundados? Em sua primeira partida como interino, Foppe de Haan fez cinco mudanças no time titular. Duas delas: trouxe Joey van den Berg para a zaga, e no meio-campo improvisou o zagueiro Jeremiah "Jerry" St. Juste. Não deram muito certo no início, até porque Richairo Zivkovic abriu o placar para os Tricolores. Mas aos poucos o time da Frísia encontrou seu caminho no ataque, e com Henk Veerman chegou ao empate. Depois, Lucas Andersen recolocou o Willem II na frente, mas Luciano Slagveer igualou as coisas. De todo modo, com os anfitriões perdendo um pênalti nos acréscimos (Erwin Mulder espalmou a bola cobrada por Stijn Wuytens), dá para dizer que o Fean escapou de uma derrota que aprofundasse o buraco em que está. Não é muito bom, mas poderia ser pior. Cabe a Foppe de Haan ajudar o time até a pausa de inverno, prazo que estipulou para seu período como técnico.

Twente 1x3 PSV

O primeiro tempo em Enschede foi curioso. O PSV ganhou gradualmente o domínio maciço em campo, com maior posse de bola, mas criou poucas chances de gol (e quando as criou, ou Luciano Narsingh foi ineficiente na ponta direita, ou Luuk de Jong apareceu pouco para finalizá-las). O Twente até iniciou o jogo com mais velocidade, mas aos poucos preocupou-se com o adversário, e só ia para o ataque com as investidas de Hakim Ziyech, despontando mais e mais como o grande (e único) destaque dos Tukkers. 

No início do segundo tempo, logo após pênalti claro de Héctor Moreno não dado pelo árbitro Kevin Blom, De Jong abriu o placar. Pouco depois, em mais uma jogada própria, Ziyech empatou e ampliou um dado que dá a mostra de sua importância atual no Twente: dos últimos 29 gols do time no Campeonato Holandês, o meio-campista atuou em 27, fazendo o gol ou dando o passe para ele. Só que a ingenuidade e o mau posicionamento da defesa dos Enschedese cobraram a conta no fim do jogo: duas jogadas velozes de ataque, com Jürgen Locadia participando de ambas (marcando o segundo, aos 39 minutos, e dando o passe para Gastón Pereiro completar, aos 41), e os Eindhovenaren garantiram a vitória no 2000º jogo de sua história na Eredivisie. contra a mais jovem equipe da história do Twente já escalada em uma partida da liga (média de idade: 21,1 anos).

De Graafschap 0x1 Heracles

Às vezes, a ineficiência também colabora para a má fase de um time. Lanterna da liga, com dois pontos em nove rodadas, o De Graafschap até foi melhor durante boa parte do jogo em Doetinchem. Jogou com segurança na defesa e impediu que os Heraclieden, grande surpresa desta primeira fase de campeonato, acelerassem o ataque como normalmente fazem. No segundo tempo, até tiveram mais chances de gol. Conquistar, no mínimo, o terceiro ponto no campeonato era uma possibilidade real dos Superboeren. Só que os visitantes foram encontrando gradualmente o espaço deles em contra-ataques. E deram o castigo final aos 38 minutos da etapa complementar: cruzamento do tcheco Jaroslav Navrátil, e Iliass Bel Hassani completou para as redes, consolidando-se como o outro grande destaque do time de Almelo na temporada (além de Oussama Tannane, que não jogou). Em quarto lugar, segue a ótima campanha do Heracles na Eredivisie, graças a uma vitória relativamente fortuita.

Roda JC 1x2 Excelsior

Dois escanteios mostraram boa preparação dos times nas jogadas de bola parada, no jogo em Kerkrade  - e também deficiências dos goleiros nas saídas de gol. Aos 13 minutos do primeiro tempo, Richmond Boakye cobrou córner, e Tomi Juric completou para as redes, abrindo o placar para os donos da casa. Ainda na etapa inicial, história repetida no empate dos Kralingers: aos 41 minutos, escanteio cobrado por Jeff Stans, má saída de gol do arqueiro Benjamin van Leer, e o zagueiro Sander Fischer fez 1 a 1. Stans, aliás, fez até melhor nas bolas paradas: na etapa final, aos 22 minutos, em cobrança de falta primorosa, mandou a bola no ângulo direito, virando o jogo para o Excelsior (na comemoração, o atacante Nigel Hasselbaink levou na cabeça uma lata de cerveja, jogada por um torcedor, mas não teve grandes ferimentos, por sorte). O autor do gol da vitória até teve a chance de marcar em mais uma bola parada - pênalti, aos 38 minutos -, mas chutou por cima, na terceira cobrança perdida da 10ª rodada. De todo modo, posteriormente foi garantida a boa vitória dos visitantes de Roterdã - aliás, primeira derrota em casa do Roda na temporada 2015/16.

Cambuur 1x1 ADO Den Haag

Com duas equipes francamente necessitadas da vitória, o jogo em Leeuwarden foi bastante truncado. Valendo-se da única qualidade maior que mostrou até agora no campeonato (o trio de ataque, de qualidade razoável para os padrões da Eredivisie), o Den Haag abriu o placar, com Mike Havenaar completando escanteio, aos cinco minutos do segundo tempo. Como o Cambuur perdera sua grande referência de ataque - Bartholomew Ogbeche, lesionado ainda no primeiro tempo -, a segunda vitória dos visitantes auriverdes na temporada parecia próxima. Até os 22 minutos, quando o lateral esquerdo Aaron Meijers perder a bola facilmente para Furdjel Narsingh, que chegou livre à área e decretou o placar final. Que não aliviou a vida de nenhuma das duas equipes na tabela: os Hagenaren seguem em 14º lugar, e o Cambuur, na 17ª e penúltima posição.

NEC 1x1 Groningen

O primeiro tempo do jogo em Nijmegen foi bastante chato. Principalmente para os anfitriões: já aos nove minutos, em chute de longe, Albert Rusnák fez o primeiro gol do Groningen em jogos fora de casa na atual temporada do Campeonato Holandês. Mas não houve muitas emoções, fora o gol. Coube a Christian Santos empolgar de novo a torcida e a partida: no início da etapa final, logo aos dois minutos, após mão na bola do lateral direito Hans Hateboer, Santos converteu pênalti e empatou o jogo. Animado, o NEC foi para cima, e quase virou com o próprio venezuelano, mas a defesa do Groningen impediu. Depois o ritmo desacelerou, e o placar ficou no 1 a 1 bem razoável para duas equipes já em posições razoáveis e confortáveis na tabela (7º e 8º lugares, respectivamente).

Vitesse 1x3 Ajax

Por mais que se tratasse do líder do campeonato, sabia-se que o Ajax sofreria bastante no jogo contra os Arnhemmers, pela velocidade e variação de posições destes no ataque. Foi exatamente o que aconteceu, principalmente no primeiro tempo: com Valeri "Vako" Qazaishvili chegando do meio-campo para ajudar o trio de atacantes, e Dominic Solanke cada vez mais à vontade entre os titulares, com muita habilidade pela ponta esquerda, o Vitesse esteve bem mais perto do gol. Que, afinal, veio, já no início do segundo tempo, contando com o azar do Ajax: Qazaishvili chutou colocado, a bola bateu em JoëlVeltman e encobriu Jasper Cillessen rumo às redes. Sem Anwar El Ghazi (doente, nem viajou a Arnhem) e sem Davy Klaassen (em disputa aérea de bola com Guram Kashia, teve a nuca atingida, sentiu dores leves e foi substituído no intervalo), os Amsterdammers poderiam ter sérios problemas no ataque. 

Mas conseguiram a virada. Primeiro, num lance confuso: falta cobrada para a área, bola chutada por Veltman na trave, o goleiro Eloy Room rebateu, mas Viktor Fischer enfim mandou para as redes, aos 26 minutos. Nem bem se passaram dois minutos, e num chutão da defesa o Ajax achou o segundo gol: Riechedly Bazoer dominou, passou fácil por Maikel van der Werff e tocou na saída de Room. Gol importante para premiar a evolução de Bazoer (é o centro de todas as jogadas do Ajax, no meio-campo, com bons passes e velocidade) e para abater o moral dos anfitriões. No final, em contra-ataque, Lasse Schöne definiu uma vitória difícil, mas animadora para o Ajax. pela dificuldade que o adversário lhe ofereceu.

Feyenoord 1x3 AZ

O Stadionclub também completava 2000 jogos em sua história pela Eredivisie, a exemplo de PSV e Ajax, seus dois "colegas" no Trio de Ferro. E também como os arquirrivais de Amsterdã, tinha um adversário desafiador no AZ, que poderia lhe pregar peças nada agradáveis, nesta fase em que os Rotterdammers se mantêm no encalço do líder. Mas Dirk Kuyt não se cansa de justificar a cada rodada as razões de tanta idolatria por ele: abriu o placar. De quebra, o entrosamento do Feyenoord no ataque é cada vez maior. Eljero Elia mostra rapidez pela esquerda; Michiel Kramer serve de referência no ataque (e mesmo quando não faz gols, abre espaços para Kuyt e Elia); o sueco Simon Gustafson vai se firmando como ponta-de-lança, iniciando jogadas quando tem a posse de bola e mostrando talento para saber a hora de arriscar o chute e de passar a alguém mais bem colocado. Só que tamanha velocidade do Feyenoord no ataque não é compensada na hora de voltar para a defesa. As laterais são costumeira opção de jogo para os ataques adversários.

Como o AZ não tem um time inepto nem bobo, aproveitou isso ainda na etapa inicial: num rápido contra-ataque, em que o goleiro Kenneth Vermeer ainda deixou Dabney dos Santos sem ângulo, Joris van Overeem aproveitou o rebote do chute do supracitado Dabney e empatou o jogo. Pior: no começo do segundo tempo, os Alkmaarders continuaram chegando à frente com perigo. E justamente quando o Feyenoord precisava, Dirk Kuyt apareceu de novo. Aos 13 minutos, contou com a sorte: em chute do lateral direito Bart Nieuwkoop, Kuyt desviou a bola e enganou o goleiro Gino Coutinho, recolocando o time da casa na frente. E aos 33 minutos, após pênalti corretamente marcado por Bjorn Kuipers, o camisa 7 bateu e garantiu seu décimo gol na temporada (o que faz dele artilheiro do campeonato). Seu segundo hat-trick seguido (!). A vitória do Feyenoord. E, principalmente, garantiu o prosseguimento da boa sensação de embalo que a torcida começa a sentir em De Kuip, com o time igual em pontos ao Ajax. O Klassieker desta semana, pela terceira fase da Copa da Holanda, promete fortes emoções. E ainda há o Klassieker da Eredivisie, daqui a duas rodadas...

Heerenveen: crise dentro e fora de campo

Foppe de Haan coloca histórico respeitável à prova em volta imprevista ao Heerenveen (Nic Bothma/ANP)

Sabe-se que Ajax, PSV e Feyenoord são os grandes clubes do futebol holandês. Mas não é o caso de se dizer que há três grandes e vários pequenos. Há certa gradação no país: abaixo do trio, há AZ e Twente, que já tiveram boas atuações em torneios continentais e conquistaram títulos na fase moderna do Campeonato Holandês. E finalmente, antes dos pequenos, há aqueles clubes médios. Que não aspiram a títulos na liga, mas fazem boas campanhas, periodicamente aparecem na Liga Europa, ganham uma copa nacional aqui e outra ali...

E um dos principais representantes desta casta está em crise aberta. É o Heerenveen. Tendo disputado uma vaga na Liga Europa desta temporada, via play-offs (perdeu-a para o Vitesse), o clube da Frísia continua sob crise interna, já deflagrada há algumas temporadas. Mas só agora esses problemas estão sendo seguidos pela má sequência dentro de campo: passadas nove rodadas da Eredivisie, a equipe está no 15º lugar, só tendo vencido a primeira partida no campeonato, contra o lanterna De Graafschap. De resto, quatro empates e quatro derrotas.

A última delas foi o verdadeiro estopim da crise esportiva: um 5 a 2 sofrido em casa para o Feyenoord. Com uma atuação pavorosa no primeiro tempo, vendo a rapidez do meio-campo do Stadionclub criar jogadas a granel, e vendo a eficiência de Dirk Kuyt, autor de três gols. A equipe saiu do primeiro tempo já com um 5 a 0 para os visitantes, e uma torcida irritadíssima. Mesmo com os dois gols de Henk Veerman, estava claro: algo teria de mudar.

E o técnico Dwight Lodeweges decidiu se sacrificar, anunciando a demissão voluntária na última terça, no site do clube: “A coisa não está saindo do jeito que eu quero, agora. Os resultados estão muito ruins, e o futebol [da equipe] também. Decidi sair, para que outra pessoa consiga salvar as coisas”. O interino já foi escolhido: num caso extremo, voltou ao cargo Foppe de Haan, técnico mítico em Heerenveen. Treinou a equipe duas vezes (entre 1985 e 1988, e entre 1992 e 2004), e mesmo quando ficou fora, era o diretor técnico. De Haan organizou o clube interna e tecnicamente a ponto de levá-lo à fase de grupos da Liga dos Campeões, na temporada 1999/2000. E o trabalho impressionou a ponto de levá-lo a treinar a seleção holandesa sub-21, que foi bicampeã europeia com ele no cargo, em 2006 e 2007.

Então Foppe é o salvador da pátria? Dentro de campo, pode ajudar. Fora, nem tanto. Fazendo parte da vida interna do clube desde seu trabalho com a equipe, o técnico foi um dos principais apoiadores da gestão que agora naufraga no comando. Mas como ela chegou ao poder? Hora de descrever a “Fean revolutie”, que agora encara sua derrocada. (Para constar: “Fean” é o apelido do clube, corruptela de “Hearrenfean”, como o clube se chama no dialeto frísio).

Tudo começou em 2013, quando Robert Veenstra era o presidente do Heerenveen. Ao final da temporada 2012/13, os resultados do time foram decepcionantes, para o padrão esperado: embora Alfred Finnbogason tenha sido o goleador da Eredivisie, a equipe ficou na 8ª posição, ficou pelo caminho nos play-offs por vaga na Liga Europa e foi apenas às oitavas de final na Copa da Holanda. Nada que perturbasse os clubes maiores, como o Fean costuma fazer às vezes.

Bastou para que começasse uma tremenda pressão, de vários setores dentro do clube. Vinda principalmente de empregados do clube, de patrocinadores e dos dois maiores grupos de torcedores do Heerenveen (não confundir com torcidas organizadas – na Holanda os grupos de torcedores servem mais para mediar relações entre torcida e clube), ela levou à organização de um relatório de apuração do que ocorria na gestão de Robert Veenstra. Feito por Jos Vaessen, dirigente experiente no futebol holandês, e Lense Koopmans, economista, o relatório encontrou más condutas suficientes para forçarem a destituição de Veenstra, de sua direção e do Conselho Deliberativo.

Após um período de transição, com o interino Gaston Sporre dirigindo o clube, enfim consumou-se a mudança pretendida com a “revolução Fean”. Jelko van der Wiel (nenhum parentesco com o lateral direito) tornou-se presidente. E favoreceu o fortalecimento de seu “padrinho político”: Riemer van der Velde, dirigente histórico no clube da Frísia, que presidiu entre 1983 e 2006.

Van der Wiel, então, prometeu uma gestão democrática, com dez diretores a lhe auxiliarem. Mas a boa intenção resultou numa troca incessante de “fogos amigos”. De um lado, Van der Wiel e o diretor comercial Wim van Dijk; do outro, os supervisores Egon Diekstra, Geert-Pieter Vermeulen, o diretor de patrocínio Anne Hettinga e Joost Jetten, antecessor de Van Dijk.

E os incidentes só se avolumam com essa divisão: Hettinga e Jetten indicaram a proposta de uma empresa chinesa, a Beijing Succesful International Management, para controlar o clube; Van Dijk e Van der Wiel negaram, com o presidente dizendo que a oferta era “conversa mole”. Restou à torcida agir. Primeiro, com uma faixa agressiva: “A todos os dirigentes e patrocinadores: coloquem o interesse do clube acima de tudo! O Heerenveen não é uma prostituta!”. Depois, indo à frente da casa de Anne Hettinga e pressionando-o com gritos, a ponto do diretor de patrocínio se demitir.

Não bastasse Hettinga, fala-se que é iminente a renúncia de Van der Wiel e de todo o seu gabinete, exatamente pela desunião que minou o ambiente interno. E que influi em campo, ao contrário do que ocorria em temporadas anteriores. Fica a pressão para que Foppe de Haan consiga reanimar uma equipe que tem nível técnico mais do que aceitável para os padrões do Campeonato Holandês (o goleiro Erwin Mulder, o meio-campista Joey van den Berg e os atacantes Luciano Slagveer e Sam Larsson são os destaques). Até porque há o clássico da Frísia contra o Cambuur, daqui a duas rodadas.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 23 de outubro de 2015)