sábado, 9 de abril de 2016

Goleadores aparecem (ainda mais) na Eredivisie

Janssen se destaca, na interessante disputa pela artilharia na Eredivisie (Tom Bode/VI Images)

Na edição de fevereiro da revista inglesa World Soccer, o jornalista Jonathan Wilson (talvez o grande especialista mundial da atualidade em análise tática, entre a imprensa dedicada ao futebol, em todo o mundo) citou em sua coluna um fenômeno da atual temporada europeia. Pode até parecer absurdo, mas é bem plausível: novamente, algumas equipes estão escalando mais atacantes “de ofício”, para que eles tenham um papel predominantemente finalizador. Não que eles possam ficar parados ali durante os 90 minutos, apenas esperando que a bola chegue à grande área. Mas precisam estar sempre à espreita para fazer o que deles se espera: colocar a esférica de couro na casinha adversária. 

Basta citar a coqueluche mundial, o Leicester City: de nada adiantaria a rapidez de N’Golo Kanté na saída de bola, nem a qualidade de Riyad Mahrez na criação de jogadas, não fosse a prontidão de Shinji Okazaki e, principalmente, de Jamie Vardy para transformar essas jogadas em gols. Há outros exemplos. Se ainda tem esperança (cada vez menor) de alcançar os Foxes na disputa do título inglês, o Tottenham deve grande parte dela à referência confiável que Harry Kane tem sido. Se o Barcelona não abre mão do 4-3-3, e isso abriu espaço para o entrosamento esbanjado pelo famoso trio de ataque, também é verdade que sempre se espera a presença de Luis Suárez na área, para marcar os gols. Há Robert Lewandowski e Thomas Müller no Bayern Munique, há Pierre-Emerick Aubameyang no Borussia Dortmund, há Gonzalo Higuaín no Napoli, há a frequência maior de times escalados no 4-4-2 ou até no 4-3-3 (e em suas variações)... enfim, os exemplos estão aí.

E o que diabos isso tem a ver com futebol holandês? Várias coisas. Para começo de conversa, sabe-se que o campeonato nacional da Holanda é um verdadeiro paraíso para quem tenha talento mediano em deixar a bola na rede “pelo lado de dentro”. A ponto de somente experiências em centros mais competitivos revelarem definitivamente se o goleador da vez na Eredivisie é um jogador que terá sucesso inegável no futebol (Johan Cruyff, Romário, Dennis Bergkamp, Ruud van Nistelrooy, Luis Suárez...) ou se viveu apenas uma temporada de sonho (Nikos Machlas, Mateja Kezman, Afonso Alves, Mounir El Hamdaoui, Bjorn Vleminckx, Alfred Finnbogason...).

E se a atual temporada vive essa revalorização dos atacantes de ofício, seja ela um fenômeno temporário ou algo destinado a se tornar novamente habitual, o Campeonato Holandês está testemunhando uma disputa das mais interessantes pelo posto de goleador. Basta dizer que entre o líder da tábua de artilheiros e o sétimo colocado, há cinco gols de distância. Mais do que isso: os cinco primeiros colocados da tabela da Eredivisie têm seus “homens-gol” em ótima forma nas rodadas recentes do torneio.

Claro, talvez o maior símbolo disso seja o ocupante momentâneo do posto de goleador da liga holandesa: Vincent Janssen. Desde que 2016 começou, o atacante do AZ é destaque na ascensão vertiginosa do clube de Alkmaar na temporada. Foram 14 jogos e 14 gols de Janssen no ano, pelos Alkmaarders. Somados aos seis que marcara em 2015, lhe renderam a artilharia da liga, com 20 gols. Sua convocação para a seleção holandesa que disputou os amistosos contra França e Inglaterra, no mês passado, não surpreendeu. O que impressionou é que o atacante também mostrasse segurança a ponto de ser escalado entre os titulares contra a Inglaterra – e que marcasse gol, em seu segundo jogo pela Oranje. Janssen deixou Wembley consolidando-se como a nova esperança holandesa de ataque.

Na 29ª rodada da Eredivisie, no fim de semana passado, Janssen tinha até a chance de abrir vantagem no posto de goleador. Afinal, o AZ enfrentava justamente o PSV onde joga seu principal adversário na disputa do galardão: Luuk de Jong. Claramente, ele é a referência ofensiva dos Boeren. Tanto para segurar a bola e passá-la a quem vem de trás (o que tem feito muito bem) quanto para finalizar (principalmente em seus cabeceios). O irmão de Siem vive na volta à Eredivisie um fenômeno semelhante ao de Klaas-Jan Huntelaar, quando este chegou à Alemanha: após fracasso em centros competitivos (no caso de Luuk, Alemanha e Inglaterra), ele voltou a um campeonato de nível técnico mais, digamos, “acessível”. Não só recuperou a confiança na volta à Holanda, mas também voltou a ser convocado para a seleção – e até marcou gol, contra a França, ainda que o tento tenha sido irregular.

Só que houve uma decepção: nem Janssen, nem Luuk de Jong marcaram em AZ x PSV. Sorte de Arkadiusz “Arek” Milik: nos 3 a 0 contra o Zwolle que mantiveram o Ajax na liderança, o polonês marcou dois gols, chegando definitivamente na disputa pela artilharia - agora, Milik tem 18 gols. Mais do que isso: ele marcou pela sexta rodada seguida, o que não acontecia com um jogador do Ajax pelo Holandês desde... Luis Suárez (o uruguaio marcou em seis rodadas entre março e abril de 2009). E é o primeiro Ajacied a passar dos 14 gols numa só temporada, desde Suárez e o sérvio Marko Pantelic, na Eredivisie 2009/10. Pode-se dizer: enfim, Milik diz a que veio em Amsterdã, desde sua chegada no meio de 2014, ainda emprestado pelo Bayer Leverkusen (só foi contratado em definitivo no ano passado).

Há mais exemplos. Mesmo escalado vez por outra no meio-campo, o velho e ainda bom Dirk Kuyt continua marcando pelo Feyenoord: como Milik, tem 18 gols (dois deles na rodada passada, no 3 a 0 sobre o Excelsior). No Twente, o ponta-de-lança Hakim Ziyech é a “exceção que confirma a regra”: vindo de trás, num time em fase mediana, já fez 17 gols. O Utrecht tem o francês Sébastien Haller, 16 gols. Finalmente, há no NEC o venezuelano Christian Santos, autor de 15 tentos.

Mais notável é ver que Janssen e Luuk de Jong (sem esquecer Bas Dost, jogando fora da Holanda) já ameaçam os atacantes veteranos na Oranje. A ponto de Huntelaar não ter jogado nenhum minuto nos amistosos, e de Robin van Persie sequer ser convocado. Aliás, a revista Voetbal International noticiou que "Hunter" se abateu com a ausência nos jogos recentes da seleção, e está pensando seriamente sobre sua continuidade com a camisa laranja. Esse crescimento de outras opções é um inegável sinal de renovação. Mas ela poderia ser mais representativa: por mais gols que estejam marcando, nenhum desses citados mostrou, ainda, nível técnico suficiente para ir além da finalização, criar jogadas, vir com a bola dominada desde o meio-campo. Se algum deles o fizesse, poderia se iniciar um novo projeto tático para a Laranja, usando bons armadores, como Davy Klaassen.

Seja como for, o futebol holandês tem comprovado como a temporada atual do futebol europeu está pródiga no prestígio aos “homens-gol”. Se isso vai durar, não se sabe. Resta continuar vendo quem será o goleador que levantará a Eredivisieschaal no final das 34 rodadas. Afinal, se bola na rede vale, troféu no clube vale muito mais.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 8 de abril de 2016)

domingo, 3 de abril de 2016

810 minuten: como foi a 29ª rodada da Eredivisie

A torcida do Ajax queria um gol aos 14 minutos, por Cruyff. Schöne marcou já aos dois minutos (Stanley Gontha/ANP)

De Graafschap 2x2 Cambuur (sábado, 2 de abril)

No jogo direto entre último e penúltimo colocado do Campeonato Holandês, cada ocorrência poderia ser decisiva. Uma delas foi, para o azar do Cambuur: com dores no fêmur, o goleiro titular Leonard Nienhuis não pôde ser relacionado, dando lugar ao reserva Harm Zeinstra nos titulares. Eis que Zeinstra falhou nos dois gols do De Graafschap. O primeiro deles, aos 23 minutos da etapa inicial: Andrew Driver cruzou da direita, e o atacante Vincent Vermeij completou fracamente de cabeça. Ainda assim, Zeinstra deixou passar a bola para as redes. Surpreendentemente, a desvantagem fez com que os visitantes de Leeuwarden (de ânimo combalido antes do jogo) fossem à frente. E conseguissem o empate rapidamente: aos 26 minutos, Jack Byrne cruzou, e o lateral esquerdo Calvin Mac-Intosch foi outro a fazer gol de cabeça no jogo em Doetinchem.

Desde então, os Leeuwarders foram superiores em campo. E mereceram a virada, na etapa final: aos 16 minutos, de falta, Kevin van Veen mandou a bola diretamente para as redes, sete minutos após entrar em campo. Era a vitória que os auriazuis mereciam, e que os tiraria da última posição, jogando o adversário nela. Mas isso não durou muito: aos 30 minutos, outra falha de Zeinstra deu o empate até inesperado ao De Graafschap. Ao tentar cortar cruzamento, o goleiro socou a bola pretendendo mandá-la para a esquerda. Errou a força, e deixou-a nos pés do zagueiro Ted van de Pavert, que fez o segundo gol dos Superboeren em casa. Um gol salvador, que deixou tudo como estava: Cambuur na última colocação, com 17 pontos; De Graafschap logo à frente, com 18. Mas o que se viu inverteu as expectativas: os visitantes é que mereceram o triunfo.

Heracles Almelo 1x1 Utrecht (sábado, 2 de abril)

Outro importante jogo no sábado. Afinal, Heracles e Utrecht estão na zona de classificação aos play-offs por vaga na Liga Europa: uma vitória não só deixaria o dono dela mais firme na região da tabela, menos dependente dos resultados do domingo, mas até poderia aproximá-lo mais do AZ e do Feyenoord. Porém, o que se viu no gramado sintético do estádio Polman foi decepcionante: nenhuma das duas equipes criou muitas chances ao longo da primeira etapa, mesmo com o estilo tático claramente ofensivo de ambas. Fora um cabeceio do zagueiro Ramon Zomer, mandando a bola no travessão, nada de emocionante ocorreu na partida.

Isso só mudou no segundo tempo, com os gols. Logo aos 10 minutos, o Heracles fez 1 a 0: Robin Gosens lançou para Jaroslav Navratil, e o atacante tcheco finalizou com um bonito voleio, abrindo o placar para os Heraclieden. Novamente, vantagem curta: aos 13 minutos, após triangulação com Nacer Barazite e Bart Ramselaar, o meio-campista Andreas Ludwig finalizou e empatou para os Utregs. Só aí os visitantes assumiram o controle do jogo: passaram a pressionar mais, e a entrada de Ruud Boymans fortaleceu o ataque, trazendo mais chances de virar o jogo contra os Almelöers. Mas o placar ficou mesmo sem mudanças. E as duas equipes seguem como começaram: com lugares nos play-offs por Liga Europa. Mesmo derrotado, o AZ agradece.

Van Ginkel brilhou na vitória do PSV: dois gols e vários avanços (ANP/Pro Shots)
AZ 2x4 PSV (sábado, 2 de abril)

Se queria fazer sua parte e manter-se firme na disputa contra o Ajax pelo título da Eredivisie, o PSV teria um importante desafio: enfrentaria um AZ ofensivo, que segue bem no returno. E um dos duelos chamava a atenção: pelo posto de goleador do campeonato, estariam frente a frente Vincent Janssen (o dono do lugar, com 20 gols) e Luuk de Jong (logo atrás, com 19 gols). Pois bem: o início do jogo indicou que os mandantes iriam à frente, principalmente pelas pontas. Tanto o trinitário Levi Garcia quanto Dabney dos Santos davam trabalho à defesa do PSV - Dabney quase marcou nos primeiros segundos de jogo. Pouco depois, Thom Haye quase surpreendeu: substituindo o lesionado Ron Vlaar na zaga, Haye arriscou encobrir o goleiro Jeroen Zoet quase do meio-campo, e mandou a bola no travessão.

Mas se criava chances na frente, o AZ abria espaços atrás. E se há um time holandês talhado para aproveitar espaços em rápidos contragolpes, este é o PSV. Aí se fez a goleada. No primeiro tempo, aos 13 minutos, Santiago Arias chegou pela direita e cruzou. Luciano Narsingh tentou escorar, o zagueiro Derrick Luckassen rebateu, mas a sobra ficou com Gastón Pereiro: o uruguaio chutou, a bola resvalou em Luckassen e deixou o goleiro Sergio Rochet sem ação, no 1 a 0 dos Boeren. Doravante, os visitantes equilibraram mais as ações após a blitz inicial dos Alkmaarders. Quase fizeram aos 42, quando De Jong chutou para ótima defesa de Rochet, que espalmou para escanteio. E aos 43, enfim ampliaram, em rápido ataque: De Jong lançou Marco van Ginkel em profundidade, e o meio-campista tocou na saída do goleiro, marcando seu quarto gol pelo campeonato.

Na etapa final, o AZ voltou a pressionar no início. Mas novamente descuidou das laterais. E por elas o PSV chegou rapidamente ao terceiro gol: aos 15 minutos, Davy Pröpper lançou Narsingh, e este coroou a boa semana que teve, fazendo pelo PSV o que fizera pela seleção holandesa, ao chutar por baixo de Rochet e marcar o 3 a 0. De quebra, aos 19 minutos, em cobrança perfeita (com uma falha de Rochet, verdade), Van Ginkel marcou pela segunda vez, configurando o 4 a 0. Só aí o AZ tentou algo. E dois jogadores colocados no decorrer do jogo deram até uma esperança. Colocado no lugar de Dabney dos Santos para fortalecer a defesa, o zagueiro Jop van der Linden diminuiu aos 36, de cabeça; e aos 39, após rápida triangulação com Markus Henriksen e Ben Rienstra, o atacante Muamer Tankovic fez o segundo dos mandantes em Alkmaar. Mas já era tarde para evitar a vitória que manteve o PSV firme na disputa do título holandês - e que garantiu a ele, no mínimo, o vice-campeonato holandês (são 17 pontos de vantagem para o Feyenoord, 3º, a cinco rodadas do fim).

Ziyech (à direita) assumiu de novo a responsabilidade. E o Twente agradeceu: virada sobre o Willem II (Maurice van Steen/VI Images)
Willem II 2x3 Twente (sábado, 2 de abril)

Com o empate entre De Graafschap e Cambuur, mais a derrota do Excelsior (que ocorria simultaneamente), o Willem II vivia o dia perfeito para se afastar mais da zona de repescagem/rebaixamento. Até porque os Tricolores começaram a partida em casa fazendo 1 a 0 aos 17 segundos de jogo: o brasileiro Bruno Andrade deixou a bola com Erik Falkenburg, e o meio-campista chutou cruzado, no ângulo oposto ao do goleiro Nick Marsman, marcando o tento mais rápido desta Eredivisie. E os Tilburgers foram francamente superiores durante todos aqueles 45 minutos iniciais, merecendo o 2 a 0 que lhes veio aos 42 minutos. Lançado em profundidade, o atacante Lucas Andersen tocou na saída de Marsman, ampliando a vantagem. E assim as coisas seguiram, até os 10 minutos do segundo tempo. Aí entrou em ação aquele a quem o Twente deve quase todas as esperanças (e mais algumas) que teve na temporada: Hakim Ziyech.

Naquele minuto, Ziyech fez o primeiro gol dos Tukkers, em cobrança de falta. Aos 28, o meio-campista fez jogada individual e chutou: o goleiro Kostas Lamprou rebateu, e Chinedu Ede garantiu o empate para os Tukkers. Finalmente, aos 34 minutos, em falta até mais distante do que a do primeiro gol, o marroquino cobrou com precisão ainda maior, e virou o jogo. Animadora vitória dos visitantes, que saltaram para uma 10ª posição muito honrosa, enquanto o Willem II segue a apenas uma posição da região perigosa da tabela. Está provado: se a situação do clube de Enschede é aflitiva, isso não é culpa dos briosos jogadores. Muito menos de Ziyech, e sua importância para o time, clara nos 15 gols e 10 assistências que fez pelo Twente na temporada. São mais do que justificadas as palavras do técnico do Twente, René Hake ("É para vê-lo que as pessoas vêm a campo"), e do zagueiro Jordens Peters, do Willem II ("Por sorte, não é toda semana que precisamos jogar contra Ziyech").

Mesmo jogando mais recuado, Kuyt fez dois gols na fácil vitória do Feyenoord (ANP/Pro Shots)

Feyenoord 3x0 Excelsior (sábado, 2 de abril)

"Assim é que se começa um jogo. Não se dá nunca ao adversário a sensação de que ele terá algo." As palavras do técnico Giovanni van Bronckhorst à FOX Sports holandesa, após a contenda em De Kuip, deram a medida de sua satisfação. Pela primeira vez em muito tempo, o Feyenoord deixou sua torcida tranquila desde o começo: com velocidade nos ataques e solidez no meio-campo, a defesa não correu risco algum no clássico de Roterdã contra o Excelsior. Uma mudança tática colaborou para isso: Dirk Kuyt foi recuado para o meio-campo, enquanto Jens Toornstra veio para a ponta direita do ataque. Dois efeitos notáveis: rapidez nas jogadas e marcação mais forte, graças ao esforço conhecido de Kuyt.

O que não quer dizer que o capitão do Stadionclub se esqueceu de sua tarefa primordial: fazer gols. Aos 21 minutos, ele abriu o placar, de cabeça, após cruzamento de Toornstra. Este também participou do segundo gol, aos 33, deixando Eljero Elia livre para bater no canto direito do goleiro Tom Muyters (que até tentou tocar na bola). Já no segundo tempo, aos 14 minutos, a terceira assistência de Toornstra no jogo deu a Kuyt a chance para marcar pela 17ª vez na temporada. Chances não faltaram para ampliar e transformar a vitória confortável em goleada, mas Muyters impediu que isso acontecesse. Ainda assim, a torcida do Feyenoord já estava certa da quinta vitória consecutiva dos Stadionclub, que abriu cinco pontos de vantagem em relação ao AZ.

NEC 2x1 Vitesse (domingo, 3 de abril)

No "dérbi da Géldria", entre dois clubes vindos dessa província holandesa (Arnhem e Nijmegen), o primeiro tempo foi até equilibrado. Pelo lado do Vitesse, o atacante Dominic Solanke teve duas oportunidades, mas em ambas parou no goleiro Brad Jones; o NEC teve a sua vez com Anthony Limbombe, mas o arqueiro Eloy Room saiu bem do gol e manteve o placar sem gols. O que não aconteceria no minuto final do primeiro tempo: após lançamento do lateral Lucas Woudenberg, Limbombe dominou, driblou o zagueiro Maikel van der Werff e finalizou com um belo chute colocado nas redes de Room.

O segundo tempo, então, foi menos empolgante. O NEC apenas controlava a vantagem; e o Vitesse não ameaçava muito. Nem mesmo a entrada do goleador dos aurinegros na temporada, Valeri "Vako" Qazaishvili, deu trabalho à defesa do time mandante. Por falar nela, foi justamente um zagueiro o autor do gol que praticamente definiu o triunfo dos Nijmegenaren no clássico regional: aos 38 minutos, após escanteio, Limbombe desviou, Room rebateu (levemente obstruído por Wojciech Golla, diga-se de passagem) e Dario Dumic chutou a sobra para o 2 a 0. Aos 40, Lewis Baker até reanimou o Vitesse, com um belo gol de falta. Mas ele foi insuficiente para impedir a vitória do NEC, que conseguiu igualar sua pontuação à do rival (43). O saldo do Vitesse é bem maior (21 contra 0), e isso o mantém na sétima posição, última dos play-offs pela Liga Europa. Mas convém não bobear mais.


Rasmus Lindgren comemora o gol do Groningen: vitória surpreendente (Gerrit van Keulen/VI Images)
ADO Den Haag 0x1 Groningen (domingo, 3 de abril)

O jogo em Haia já estava difícil para o Groningen desde o início do primeiro tempo. Basta dizer que, logo aos quatro minutos, Mike Havenaar cabeceou a bola rente ao gol, após cruzamento de Ruben Schaken. Não demorou muito, e aos onze, Havenaar voltou a trazer perigo: em outro cabeceio, desviou falta cobrada por Édouard Duplan e forçou o goleiro Sergio Padt a fazer grande defesa. Só que o drama do Groningen se consumou aos 27 minutos: Michael de Leeuw, principal destaque ofensivo do time do norte holandês, deu uma cabeçada no zagueiro Tom Beugelsdijk. Mesmo que para muitos a cabeçada não tenha sido tão forte, o juiz Bas Nijhuis não quis saber: expulsou De Leeuw. Os Groningers teriam 63 minutos de tempo regulamentar com um homem a menos. E não era qualquer jogador, mas o seu destaque.

Lógico, a pressão dos donos da casa aumentou desde então. Aos 38 minutos, Kevin Jansen cabeceou, para outra defesa de Padt. Já no segundo tempo, aos seis minutos, Havenaar testou de novo, à queima-roupa, e novamente o arqueiro do Groningen fez intervenção importantíssima, impedindo o gol. E de repente, numa bola parada, os visitantes inverteram as expectativas: aos 30 minutos, o zagueiro Rasmus Lindgren cobrou falta no ângulo de Martin Hansen, abrindo o placar com o terceiro gol de falta do time na temporada. Dali em diante, os visitantes nortistas seguraram a pressão para conseguirem a vitória que encerrou a sequência aziaga de seis derrotas. Triunfo tão inesperado quanto emocionante, pelo esforço despendido em campo para compensar a inferioridade numérica. Ao Den Haag, resta lamentar as várias chances perdidas.

Roda JC 1x2 Heerenveen (domingo, 3 de abril)

Do jeito que a partida em Kerkrade começou, parecia que o Roda JC assumiria o protagonismo: logo aos 15 segundos, Mike van Duinen escorou na área, e o goleiro Erwin Mulder teve de fazer grande defesa para evitar o precoce gol dos Koempels. Mas foi alarme falso dos mandantes. Mesmo num primeiro tempo desanimado, o Heerenveen é que tentou mais coisas. A maior chance dos frísios veio aos 21 minutos: Kenny Otigba cruzou, e Mitchell te Vrede tentou um voleio sem ângulo, defendido pelo arqueiro Benjamin van Leer. Depois, aos 39, o sueco Arber Zeneli quase marcou, mas Van Leer impediu novamente. Mas no segundo tempo, Zeneli enfim conseguiu. Aos cinco minutos, após receber passe de Luciano Slagveer, o camisa 13 chutou e abriu o placar para o Fean.

Porém, o domínio dos visitantes é que começou a ser lentamente superado a partir do gol. E coube a um destaque habitual do Roda JC empatar o jogo: aos 20, Kristoffer Peterson recebeu a bola, chutou-a na trave, e Tom van Hyfte estava a postos para aproveitar o rebote e igualar o placar. Aos 35, Van Hyfte até poderia ter virado o placar, mas seu arremate de fora da área foi por cima do gol de Mulder. E o Heerenveen continuou tentando, até conseguir, nos acréscimos: aos 47, Branco van den Boomen cobrou falta e mandou a bola nas redes de Van Leer. Um 2 a 1 até merecido para os visitantes da Frísia, que embora ainda estejam na 13ª posição, abriram seguros 12 pontos de distância para a zona de repescagem/rebaixamento.

A comovente homenagem da torcida do Ajax a Cruyff já fazia crer num bom dia (reprodução de tevê)
Ajax 3x0 Zwolle (domingo, 3 de abril)

A 29ª rodada do Campeonato Holandês ainda foi cheia de homenagens a Johan Cruyff - prova disso foram os minutos de silêncio obrigatórios e impecavelmente cumpridos nas partidas da Eredivisie (e nas da segunda divisão também, diga-se de passagem). Mas esperava-se o que o Ajax teria a oferecer em memória do grande jogador de sua história. E o clube ofereceu muita, muita coisa. A começar pela torcida: cerca de 1,5 mil adeptos fizeram uma caminhada para o jogo, da Akkerstraat (rua onde Cruyff nasceu, no bairro de Betondorp) até a Amsterdam Arena.

Nos preparativos propriamente para o jogo, os atletas Ajacieden usaram camisas com o tradicional número 14 no aquecimento - e o uniforme da partida tinha uma pequena efígie do "Nummer 14" na camiseta. Mas nada foi tão bonito quanto o mosaico visto antes da entrada dos jogadores: todos os presentes ao estádio formaram "Johan Cruyff, 1947-2016", além de um grande cartaz com a imagem do ídolo maior e a presença de 114 ex-jogadores do Ajax (a maioria, ex-colega do homenageado; mas estiveram lá Siem de Jong, Jan Vertonghen e Marko Pantelic). E três grandes camisas com o 14 estavam no gramado - obviamente, camisas da Oranje, do Barcelona e do Ajax. Não impressionaram os olhos justificadamente marejados do filho Jordi Cruyff, presente à Amsterdam Arena. Ah, claro: também não faltaram o minuto de silêncio e os aplausos no minuto 14. Em vídeo divulgado no telão do estádio, Jordi agradeceu pelo "dia maravilhoso".

A torcida do Ajax teria ainda mais a agradecer. Havia o desejo unânime de um gol do Ajax aos 14 minutos. Ele veio bem mais cedo: logo aos dois minutos do primeiro tempo, Nick Viergever cruzou da esquerda, e Lasse Schöne cabeceou, mandando a bola para as redes defendidas por Mickey van der Hart. Jogando com toda a pressão imaginável, o Ajax comprimia a defesa do Zwolle: os jogadores do time visitante só podiam sonhar com avanços infrutíferos de Kingsley Ehizibue, pela direita. Tanto é que Jasper Cillessen, jogando com uma máscara a proteger seu nariz fraturado, não precisou fazer nenhuma defesa difícil.

Diante do claro domínio Ajacied, o segundo gol até demorou: aos 29 minutos, Riechedly Bazoer tabelou rápido com Davy Klaassen pela direita, e cruzou para a área. Lá estava Arkadiusz Milik, e o polonês desviou para marcar seu 17º gol na temporada - o 14º (opa, olha a homenagem!) nos jogos do Ajax em casa. Ainda no primeiro tempo, "Arek" fez o 3 a 0: aos 40 minutos, recebeu passe de Mitchell Dijks (ótima atuação) e chutou cruzado, no canto esquerdo de Van der Hart. Pela sexta rodada seguida, o atacante polonês deixava o dele nas redes; não acontecia no Ajax desde Luis Suárez, entre março e abril de 2009. De quebra, Milik quase marcou aos 44: cabeceou na trave.

No segundo tempo, o técnico Ron Jans tentou proteger mais a defesa do Zwolle, ao colocar o volante Rick Dekker na vaga do meia-esquerda Wouter Marinus. Não saiu muito a contento: aos três minutos, após cruzamento, Mike van der Hoorn escorou e Milik mandou por cima do gol, de voleio. Depois, o Ajax apenas administrou a vitória, jogando mais lentamente. Aí, os Zwollenaren foram levados ao ataque: com a entrada do ponta-de-lança Stef Nijland no lugar do zagueiro Thomas Lam, o time foi para o 3-4-3. Mas não trouxe o menor perigo aos Ajacieden, que garantiram a manutenção da liderança do Campeonato Holandês, num dia bom fora de campo (pelas homenagens a Cruyff) e dentro (pelas ótimas atuações).

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Agora a decisão é contra o rebaixamento

As boas atuações do goleiro Jurjus são fundamentais na evolução do De Graafschap para fugir da lanterna (Erik Pasman/ANP)

A morte de Johan Cruyff abalou tanto a Holanda – e, claro, o futebol holandês – que até os amistosos da seleção ficaram um pouco em segundo plano. E mesmo a ocorrência deles (tanto a desalentadora derrota para a França quanto a vitória surpreendente contra a Inglaterra) fez com que torcida e imprensa “se esquecessem” que há um Campeonato Holandês em disputa.

Pois bem, ele volta a partir deste sábado, com a 29ª rodada. E terá outra partida decisiva. Mas é na parte de baixo da tabela: se o Ajax virou a disputa pelo título ao vencer o PSV em pleno Philips Stadion na rodada anterior (agora, os Ajacieden é que têm dois pontos de vantagem em relação aos Boeren), agora De Graafschap e Cambuur farão o jogo direto para tentarem escapar da 18ª posição, também conhecida como “lanterna”, a única a causar o rebaixamento direto à segunda divisão.

De fato, aparentemente, não causaria grande interesse – cá entre nós, talvez nenhum interesse – a partida entre o último (Cambuur, 16 pontos) e o penúltimo (De Graafschap, 17 pontos) colocados desta Eredivisie. Todavia, os rumos das duas equipes tornaram mais interessante o jogo de abertura da rodada, neste sábado, às 13h30 de Brasília, no estádio De Vijverberg, na cidade de Doetinchem. E pode-se dizer que o De Graafschap, mandante do jogo, é o “responsável” por isso. Afinal de contas, comparado ao turno, o returno dos “Superboeren” mostra uma mudança admirável.

Claro que essa mudança não ocorreu de uma hora para outra. Mesmo nas 17 rodadas iniciais, quando a equipe de Doetinchem conseguiu ridículos 5 pontos, havia mostras de talento aqui e ali. Para começo de conversa: até pela constante exigência de serviço a que é submetido, o goleiro Hidde Jurjus mostra talento, ao somar explosão nas defesas à queima-roupa e calma no posicionamento. Sua média de gols sofridos (1,96 por jogo – foram 55 em 28 jogos) é alta, mas menor do que a dos dois arqueiros do Cambuur na temporada (o titular Leonard Nienhuis sofreu 2,21 gols por partida; seu reserva, Harm Zeinstra, tem a pior média entre os guarda-metas da temporada da Eredivisie – 2,87 gols sofridos por jogo). E mesmo ao sofrer tantos gols, Jurjus ainda mostra capacidade suficiente para ser constantemente mencionado como um dos melhores da posição neste campeonato – e provável reforço para algumas equipes.

E também há gente promissora nos jogadores de linha. Na zaga, Robin Pröpper (irmão de Davy, o meio-campista do PSV) mostra algum talento na saída de bola. E no meio-campo, cuja importância é potencializada para o time no 4-4-2 “em losango”, o inglês Andrew Driver mostra força física – e sua habilidade, mesmo mediana, já é suficiente para ajudar os atacantes Cas Peters e Vincent Vermeij, dois outros destaques do De Graafschap na temporada. No banco, o belga Nathan Kabasele é costumeira opção vinda do banco de reservas, trazendo velocidade pelas pontas do ataque.

As atuações da equipe contra o trio de ferro no turno mostravam as possibilidades claras de reação: três derrotas vendidas duramente. Contra o Feyenoord, um 1 a 2 apertado; contra o PSV, o De Graafschap levara 3 a 0 no primeiro tempo, mas chegou a conseguir o empate antes de levar o 6 a 3 final; contra o Ajax, chegaram a empatar também, e a vitória dos Amsterdammers (2 a 1) teve algo de injusta.

Com algum tempo para trabalhar na pausa de inverno, veio a “reação” no returno. Entre aspas, obviamente: afinal, são cinco derrotas nos 11 jogos pela Eredivisie em 2016 - entre elas, quedas para PSV (4 a 2) e Feyenoord (3 a 1). Todavia, as três vitórias e os três empates já serviram para os Superboeren conseguirem algo que parecia impossível pela baixíssima pontuação no primeiro turno: deixar a última posição e, pelo menos, ganhar a esperança de permanência na primeira divisão, mesmo que pela repescagem para a qual vão 16º (antepenúltimo) e 17º (penúltimo) colocados do campeonato. 

Por sua vez, a torcida em Doetinchem já era elogiada pela fidelidade, pela animação e pela presença maciça nos jogos. E isso só aumentou com a ligeira ascensão dos alviazuis. Um bom exemplo veio na 27ª rodada, quando a equipe venceu o Roda JC por 3 a 0: a certa altura do primeiro tempo, uma das placas eletrônicas de publicidade ao lado do gramado caiu, forçando a interrupção do jogo por alguns minutos. A torcida não só se prontificou a ajudar os comissários na remontagem da placa, mas também continuou incentivando a equipe enquanto fazia isso. Esse cenário de otimismo justifica plenamente as renovações anunciadas dos contratos com o técnico Jan Vreman e sua comissão técnica, e com o atacante Vermeij, goleador da equipe na Eredivisie (ambos, até 2017). De quebra, Jurjus e Vermeij foram convocados para a seleção holandesa sub-21 que disputou amistosos contra Noruega e Sérvia nesta semana, vencendo ambos (dois 1 a 0 – aliás, Vermeij fez o gol contra os sérvios).

Se a animação no De Graafschap é crescente, o cenário no Cambuur é inverso. Não que a situação no turno estivesse boa: afinal, o time de Leeuwarden o terminou na zona de repescagem/rebaixamento. Além do mais, oferecia menor resistência aos três grandes do país: levou 6 a 0 do PSV em casa, e sofreu 5 a 1 do Ajax (contra o Feyenoord, derrota por “apenas” 2 a 0). Ainda assim, estava em 16º lugar, com 13 pontos, oito acima da última posição. Parecia possível até sair do fundo da tabela: ao começar a pausa de inverno, os Leeuwarders estavam a três pontos do Roda JC, na 15ª posição, primeira a garantir a permanência na Eredivisie. De quebra, havia um protagonista em quem a equipe podia confiar: o atacante nigeriano Bartholomew Ogbeche. Com passagens por Paris Saint Germain, mais futebol inglês e espanhol, sem contar uma Copa do Mundo na carreira (2002), Ogbeche era garantia de gols ao Cambuur: marcara 9 vezes em 15 jogos, no primeiro turno.

Só que 2016 está diminuindo drasticamente as perspectivas de salvação. Primeiro, Ogbeche deixou o clube em janeiro, rumo ao Willem II, um concorrente na disputa para sair das últimas posições (o Willem II é o 15º colocado). Uma sequência de cinco derrotas consecutivas fez o técnico Henk de Jong pagar pela crise com a demissão, dando lugar a Marcel Keizer, vindo do Emmen, da segunda divisão. Por fim, em 11 jogos no ano até agora, uma vitória (1 a 0 no Zwolle, na 25ª rodada) e dez derrotas: é a pior campanha do returno. Sem referências técnicas dentro dos titulares, o Cambuur caiu para a última posição, e agora está a nove pontos da salvadora 15ª colocação. Dentro de campo, cabe ao ponta-de-lança irlandês Jack Byrne e ao atacante Martijn Barto tentarem assumir o protagonismo que Ogbeche suportava sozinho.

Por essa queda, o Cambuur acabou permitindo a aproximação do De Graafschap. Nas últimas rodadas, ambos se alternam na última posição, tentando escapar dela. E assim como Ajax e PSV fizeram na rodada passada, jogarão por um triunfo que pode garantir a salvação na elite ao vencedor, ainda que temporária. Certo, o nível técnico não será lá essas coisas. Mas diga isso aos ansiosos torcedores de ambos…

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 1º de abril de 2016)

quarta-feira, 30 de março de 2016

Luzes (fracas) no fim do túnel

O pênalti convertido pelo promissor Janssen animou a Holanda na vitória honrosa diante da Inglaterra (ANP/Pro Shots)
Só de não ter tomado um gol aos dois minutos de jogo, como ocorrera no amistoso da sexta passada, contra a França, já era possível dizer que a seleção da Holanda jogava melhor contra a Inglaterra, nesta terça, no estádio de Wembley. E se a vitória por 2 a 1 teve algo de sorte, também foi possível ver na atuação da Oranje algumas coisas que, se bem trabalhadas, indicam possibilidade de melhora para a base da equipe que Danny Blind tenta formar, com vistas às eliminatórias para a Copa de 2018.

E se já fora difícil tentar formar uma base antes do jogo contra os Bleus, com tantas lesões em convocados/possíveis convocados, ficou ainda mais árduo para o duelo com o English Team. Já na partida de sexta, Wesley Sneijder lesionou o músculo superior da coxa e foi cortado (ficará um mês fora dos campos). No treino de domingo, mais dois desligamentos foram necessários. Ao sair do gol para evitar chute de Klaas-Jan Huntelaar, Jasper Cillessen teve o rosto atingido involuntariamente pelo pé do atacante: nariz fraturado e goleiro cortado. Pouco depois, Davy Klaassen sentiu dores na coxa, e foi mais um dispensado.

Com tantas adversidades, nem mesmo as convocações rápidas de dois substitutos para Cillessen (Michel Vorm) e Klaassen (Marco van Ginkel) minoravam os problemas de Danny Blind para formar o esquema tático da equipe, que seguiria no 4-3-3 de certo êxito no segundo tempo contra a França. Restou colocar Ibrahim Afellay como principal armador, trazendo de volta aos titulares Georginio Wijnaldum como volante, em papel semelhante ao feito na Copa de 2014. 

No ataque é que veio a grande surpresa: ao invés da prevista escalação de Huntelaar, Vincent Janssen já começaria como titular em seu segundo jogo pela Laranja. Falando à SBS, emissora holandesa de tevê que mostrou o jogo, Danny Blind reconheceu e explicou: "Naturalmente, Huntelaar não ficou feliz, pois queria jogar. Mas eu já defini o papel dele. Sei como joga, e como funciona. Quero ver como os outros atacantes atuam. Em novembro [no amistoso contra País de Gales], eu vi Bas Dost. No jogo passado, vi Luuk de Jong. Agora, quero ver Janssen".

Pelo primeiro tempo, até deu certo. Meio-campo e ataque criaram mais jogadas, e tiveram mais velocidade do que contra a França. Wijnaldum e Riechedly Bazoer protegeram melhor a defesa, e Afellay assumiu bem a responsabilidade de pensar o jogo. Se bem que nem foi o meio-campo o responsável por trazer mais perigo, e sim os jogadores pelas pontas: tanto Quincy Promes (destaque, na soma dos dois amistosos) quanto  Memphis Depay mostraram rapidez para avançar e proteger os laterais - algo necessário, com as atuações temerosas de Joël Veltman e Jetro Willems.

Porém, a rapidez ofensiva não se viu na defesa. Prova disso foi o gol inglês que abriu o placar. Havia ampla superioridade numérica de holandeses na área de defesa: cinco contra quatro. Nem isso impediu que Adam Lallana, Kyle Walker e o autor do gol, Jamie Vardy, trocassem passes com velocidade, envolvendo facilmente o miolo de zaga da Oranje para o 1 a 0 do English Team. Foi o 14º gol sofrido pela seleção, em sete jogos sob o comando de Danny Blind: sem dúvida, a insegurança da defesa é o grande problema do trabalho. Seja no 5-3-2 ou no 4-3-3.

Ainda assim, veio a virada no segundo tempo. Com sorte, como já se disse: o gol de empate saiu de pênalti - ou seja, bola parada -, e foi clara a falta cometida por Janssen na jogada que levou ao gol de Luciano Narsingh. Ainda assim, os méritos holandeses foram inegáveis. A começar pelo goleiro: sempre que foi exigido, Jeroen Zoet se mostrou seguro, e vai se firmando como reserva imediato de Cillessen (por enquanto...). Na zaga, mesmo com a lentidão que possibilitou o gol da Inglaterra, Daley Blind mostrou espírito de liderança e até algum senso de posicionamento, suficientes para justificarem a braçadeira de capitão que ostentou no jogo. No meio-campo, Afellay dava velocidade na criação; e no ataque, enquanto Memphis Depay seguiu com a boa atuação, Narsingh teve um dia de "sim". Irregular no PSV, o ponta-direita entrou bem no lugar de Promes, com velocidade e sem individualismos, e mereceu fazer o gol da vitória.

Mas é inegável: o destaque do dia em Wembley foi Vincent Janssen. Tanto pela coragem em bater o pênalti e empatar o jogo, em seu primeiro gol pela seleção ("Quando marcaram o pênalti, eu pensei 'essa é minha, não vou mais deixar escapar', descreveu Janssen após o jogo, lembrando da chance perdida na jogada imediatamente anterior ao penal), quanto pela participação "decisiva" no gol de Narsingh, ao fazer a falta sem que fosse marcada e ainda cruzar para a finalização. Com 16 gols em 15 jogos no ano, juntando clube e seleção, o nativo de Heesch agarrou bem a sua chance. Impressionou Danny Blind ("Ele não se impressionou, não ficou nervoso", comentou o técnico), e certamente será observado bem mais de perto no restante da temporada. Por Danny Blind, por Fred Grim (técnico da seleção sub-21), por clubes de centros maiores do futebol europeu... nada mal para alguém que só estivera em Wembley a passeio, como Janssen falou à imprensa.

Enfim, a vitória sobre a Inglaterra foi até surpreendente. Pelo que os ingleses haviam apresentado no segundo tempo sobre a Alemanha - e pelo que a Holanda NÃO apresentara contra a França. Valeu pela alegria vista em jogadores e comissão técnica após o jogo. Danny Blind assumiu: "Precisávamos disso, o time e a comissão técnica. Precisamos tentar trazer de volta a vontade". Só ela não basta: é preciso melhorar a fragilidade da defesa e os espaços entre os setores do time holandês. Contudo, é inegável: a vitória em Wembley trouxe as luzes (fracas) no fim do túnel que a Oranje precisa para acreditar numa reação, na nova fase do trabalho.

sexta-feira, 25 de março de 2016

O pior dos dois mundos

O comovente tributo a Cruyff foi a única coisa a se guardar, em mais um dia ruim da Oranje (Rene Bouwman)

Já era um dia doloroso. Afinal de contas, a lembrança de Johan Cruyff, o maior futebolista da história de seu país, falecido nesta quinta, estava presente em cada número 14 que se via na Amsterdam Arena nesta sexta, antes, durante e depois do amistoso da seleção holandesa contra a França - e eram muitos "números 14" presentes, até na manga das camisas laranjas vestidas hoje. Depois da partida, além de doloroso, o dia também ficou desalentador. A derrota da Oranje, por 3 a 2, deixa claro que a equipe tem falhas defensivas (e até ofensivas) gritantes. E há sérias dúvidas sobre a capacidade que os jogadores têm para resolvê-las, a meses do início de uma campanha que deve ser duríssima, nas eliminatórias para a Copa de 2018.

Na defesa, a menção de que os franceses já venciam por 2 a 0 aos 13 minutos do primeiro tempo já basta para descrever o início pavoroso da Laranja no jogo. Mesmo atuando no 5-3-2, supostamente mais seguro, ficou clara a falta de entrosamento entre Jeffrey Bruma, Virgil van Dijk e Daley Blind. Certo, o primeiro gol saiu em bola parada, na falta cobrada com perfeição por Antoine Griezmann já aos dois minutos do primeiro tempo. Mas o segundo dos Bleus não deu desculpas: mesmo num escanteio, com quase todos os jogadores laranjas dentro da área de defesa, não havia posicionamento inteligente o suficiente para evitar que Blaise Matuidi estivesse livre para aproveitar a sobra - muito menos para evitar a finalização acertada de Olivier Giroud, também sozinho na área.

O curioso é que, no meio-campo e no ataque, até havia alguma velocidade a mais, em comparação com as atuações nas eliminatórias da Euro 2016 e nos amistosos anteriores. Mas... era só. No meio, Davy Klaassen e Jordy Clasie falhavam na saída de bola - e Wesley Sneijder vivia um dia apagado, como de costume nos últimos anos de sua carreira. Somente havia algum lampejo de ataque holandês nos avanços de Joël Veltman e Jetro Willems, pelas laterais, e pelo esforço de Quincy Promes, que até justificava os elogios do técnico Danny Blind, chegando até a voltar para buscar a bola e partir com ela dominada, tentando acelerar, criar alguma jogada digna de nota, sair da pasmaceira. 

Mas eram movimentos previsíveis, facilmente marcados pelos franceses, muito melhor entrosados e muito melhor preparados, no caminho para disputarem a Euro que sediarão. Além disso, com a crônica e irritante lentidão dos holandeses na recomposição da defesa sem a bola, era muito mais fácil para os Bleus escaparem da marcação e contra-atacarem com velocidade. Quase sempre, a bola sobrava com Dimitri Payet - que justificava a confiança repetindo na seleção as boas atuações desta temporada pelo West Ham, com chutes perigosos (um deles, logo no primeiro minuto, antes mesmo do gol de Griezmann). Ou sobrava com o próprio Griezmann, o melhor do jogo enquanto esteve em campo, veloz e criativo. Sem contar a opção sempre válida de Blaise Matuidi, melhor até do que o (justamente) badalado Paul Pogba: Matuidi chegava constantemente como alternativa para finalização, quando não criava ele mesmo as jogadas.

Ao final dos 45 primeiros minutos, a sensação de completo desalento era indisfarçável para os holandeses. A ponto de o jornalista Pieter Zwart ter colocado em seu perfil no Twitter três imagens que comprovavam como é alarmante a atuação da defesa da seleção holandesa. Na primeira imagem, uma linha de três marcadores, no meio-campo, deixando um francês livre entre a linha do meio e a defesa. Na segunda, Bruma deixava a linha de marcação da defesa e ia dar o primeiro combate. O que abria espaço para um rápido toque do meio-campista francês, acelerando mais um ataque dos Bleus contra um meio-campo aberto e uma defesa fragilizada, como se pôde notar na terceira foto que Zwart postou. Não só explicava o 2 a 0; aumentava o desânimo, a ponto de se exagerar aqui e ali dizendo que era a pior seleção holandesa de todos os tempos. De quebra, a lesão muscular que tirara Sneijder do jogo ainda no primeiro tempo (e também o tirará do jogo contra a Inglaterra, na próxima terça) aprofundava a apatia.

Pelo menos neste momento, Danny Blind mereceu os elogios. Com a entrada de Memphis Depay (na vaga de Virgil van Dijk, mal de novo) e Ibrahim Afellay (na vaga de Clasie, lento no jogo), o 5-3-2 mudou para o 4-3-3 velho de guerra na Oranje. Até aí, só uma mudança de números - bem lembrou Klaassen após a partida, à FOX Sports holandesa: "Contra o País de Gales [amistoso em novembro passado], o 5-3-2 tinha funcionado". Só que a velocidade aumentou no ataque, e a seleção holandesa criou mais jogadas. Já aos dois minutos, conseguiu o gol, em bola parada - e contando com a sorte do tento não ter sido anulado, já que o braço de Luuk de Jong claramente tocou a bola no desvio para as redes defendidas por Mandanda.

Com a melhora, não só jogadores que já estavam em campo subiram de produção (caso de Willems, Klaassen, Promes e Riechedly Bazoer - substituto de Sneijder), mas também os que entraram ajudaram, casos de Georginio Wijnaldum e Vincent Janssen. Com isso, o empate tardio de Afellay foi até merecido. Só que o lance seguinte ao 2 a 2 foi mais justo ainda: quando Payet se viu com a bola em ataque francês, Veltman foi tentar o desarme, e deixou seu lado livre na área. Payet viu e lançou Matuidi; entrando em profundidade pela área, o meio-campista chutou e fez o gol da vitória justa dos franceses.

Os números negativos se avolumam: foi a quarta derrota da Oranje sob o comando de Danny Blind, a quarta derrota seguida em casa (não acontecia desde 1933!). Mas pior do que novo revés é saber que... é isso que a Holanda tem a apresentar, atualmente. O treinador reconheceu, na coletiva após a partida: "Pode-se aprender com um bom adversário. E eu posso conviver com esta derrota, porque em muitos aspectos de jogo eles estão bem mais avançados do que nós". De fato, não há comparação entre uma seleção francesa cada vez mais afinada para tentar seu terceiro título europeu e uma seleção holandesa que tenta juntar os cacos e fazer a transição de gerações. 

Mas ficou claro: será difícil ver rápida melhora da Holanda, com um time excessivamente espaçado, que une o pior de dois mundos: uma defesa que não se define entre marcar por zona ou por homem, e um ataque que fracassa quando é bem marcado. Um jogo para (quase) esquecer. A não ser pela belíssima homenagem no 14º minuto do primeiro tempo, lembrando Johan Cruyff, o símbolo de tempos melhores na história da seleção holandesa.