quarta-feira, 1 de junho de 2016

Dá para melhorar

Janssen e Berghuis comemoram o primeiro gol: símbolos da melhora contra a Polônia (Reuters)

Após o empate contra a Irlanda, na sexta passada, o desânimo era latente em torcida e imprensa, ao comentar a atuação apática e desorganizada da Holanda. De fato, parecia que nem mesmo todo o trabalho feito em Portugal poderia apagar a má qualidade técnica da Laranja - e até havia (e há, ainda) certa razão em se pensar assim. E achava-se que o resultado do amistoso contra a Polônia, nesta quarta, no estádio Energa, em Gdansk, haveria de comprovar isso. A prova da rabugice foi a frase dita por Ronald de Boer, no início da transmissão da tevê holandesa para o jogo: "É melhor pensarmos em 2022". Ou seja, não havia esperança de classificação para a Copa de 2018, justamente o objetivo principal da nova fase do trabalho do técnico Danny Blind.

Claro, achar que a Oranje virou o mais promissor dos times pela vitória de 2 a 1 sobre os poloneses é exagerar um pouco. É tão exagerado quanto o clima de "terra arrasada" que ficou após o empate por 1 a 1. Além do mais, nos dias finais de preparação rumo à Euro 2016, a seleção polaca não tinha obrigação nenhuma de se dedicar ardentemente no amistoso diante de sua torcida. Dito tudo isso, a Oranje merece os reconhecimentos pela boa vitória. Antes de mais nada, porque jogadores e técnicos parecem ter aprendido as lições deixadas pelo jogo contra os irlandeses.

E a prova disso veio já na escalação que Danny Blind mandou a campo para o início. Tanto Marco van Ginkel, no meio-campo, quanto Steven Berghuis, no ataque, tiveram boas atuações contra a Irlanda, dando enfim a rapidez que o lado ofensivo da Oranje precisava então. Foram premiados com a titularidade... e foram melhores ainda nesta quarta. Principalmente Berghuis: na primeira vez em que começou jogando com a camisa laranja, o atacante foi muito bem pela esquerda, se apresentando costumeiramente como opção de jogadas. Com a maior aceleração na troca de passes no meio-campo (o que melhorou as atuações de Riechedly Bazoer e, principalmente, Georginio Wijnaldum), a Laranja chegou muitas vezes mais à área polonesa para tentar o chute.

Basta dizer que, nos 45 minutos iniciais, foram nove chutes, sendo três deles ao gol de Wojciech Szczesny. Índices maiores do que em TODO O JOGO contra a Irlanda. Pelos lados, o já citado Berghuis e Quincy Promes (este, pela direita) chegavam bastante com a bola nos pés. E além dos meio-campistas, há Vincent Janssen, um caso à parte. Enfim podendo participar do jogo, sendo acionado, o atacante apareceu com a qualidade que já começa a despontar Europa afora. Janssen voltava para buscar jogo, fazia tabelas, trazia perigo. Primeiro, aos 14 minutos, quando chutou cruzado exigindo boa defesa de Szczesny. E finalmente, aos 33 minutos, quando fez o primeiro gol, de cabeça, após cruzamento de Berghuis. Em apenas três jogos, Janssen já tem dois gols pela Oranje. Sem dúvida, já se credencia como candidato sério à vaga de titular, até mais badalado do que Luuk de Jong ou Bas Dost.

Porém (ai, porém), mesmo com meio-campo e ataque aparecendo bem mais no jogo, com velocidade e constância, a defesa holandesa continuou cometendo alguns erros. Não foram costumeiros, é verdade, e os próprios atacantes poloneses se pouparam: tanto Robert Lewandowski quanto Arkadiusz Milik não chutaram nenhuma vez ao gol defendido por Jasper Cillessen. Só que bastava uma aceleração maior do jogo dos anfitriões, para colocar a zaga em apuros. Prova disso foi a primeira chance de gol da partida, aos três minutos do primeiro tempo, quando uma rápida troca de passes foi interrompida com falta de Jeffrey Bruma em Lewandowski - e com a vantagem dada pelo árbitro tcheco Miroslav Zelinka, Milik ficou livre e bateu no travessão.

Depois, no segundo tempo, com a Holanda já em vantagem, a Polônia reagiu um pouco com as alterações. Não só Bartosz Kapustka acelerou mais a armação, como as jogadas pelos lados apareceram mais - tanto com o lateral esquerdo Thiago Ciolek, brasileiro de ascendência polonesa, como com Kamil Grosicki, pela direita. E assim, novamente na bola aérea, veio o empate em Gdansk, aos 15 minutos da etapa complementar, quando Milik cobrou escanteio e o zagueiro Artur Jedrzejczyk chegou correndo para empatar, de cabeça. Ali, a falha foi dupla: Van Ginkel foi facilmente superado por Jedrzejczyk, e Patrick van Aanholt (substituto de Jetro Willems na lateral esquerda) se preocupou mais em cobrir a segunda trave do que em ir na bola. E a defesa se consolidou como motivo de preocupação: já são nove jogos seguidos com a seleção sendo vazada.

Van Ginkel foi facilmente superado por Jedrzejczyk na bola aérea, no gol polonês (Maurice van Steen/VI Images)

Temeu-se a volta do marasmo visto na sexta passada. Não aconteceu. A Oranje foi até inteligente: concentrada na defesa, permitia a chegada polonesa e sabia sair rapidamente para os contra-ataques - favorecidos pelas entradas de Kevin Strootman e Luciano Narsingh. Num deles, saiu o belo chute de Wijnaldum que virou o jogo, aos 31 minutos. Era um prêmio para a equipe, que manteve o razoável e inesperado nível técnico mesmo após o gol de empate polonês. Já mais preocupada em se poupar para a Euro, a Polônia sequer buscou nova igualdade com sofreguidão.

Como já se disse, a vitória não deve significar que os problemas acabaram. E o próprio Danny Blind alertou isso, cauteloso, à FOX Sports holandesa: "Não estou aliviado, estou envolvido para fazer o time melhorar. O primeiro tempo teve boa organização, Promes e Berghuis escaparam bem das linhas de marcação, fizeram passes em profundidade, e a defesa também não deu chances, fora a bola na trave. No segundo tempo, tivemos muitas dificuldades num período: eles [Polônia] aproveitavam a maioria das sobras de bola, e usaram mais os passes em profundidade".

Mas quem concluiu melhor foi o autor do gol da vitória, Wijnaldum: "Acho que aprendemos com o jogo passado. Estivemos sem liberdade na sexta passada, e hoje fizemos isso - se não em todo o jogo, em grande parte dele. Atuamos com coragem, e vencemos". Mais do que isso: provaram que a seleção holandesa tem jogadores de qualidade suficiente para fazer a torcida e a imprensa acreditarem que dá para melhorar.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

Órdináááária!

Nem o empate no fim apaga a sensação de decepção que a seleção traz à torcida atualmente (Joep Leenen/ANP)
Ordinário. Na edição de 1986 do dicionário Aurélio, uma das definições da palavra indica: "Habitual, useiro, comum". Outra definição: "De má qualidade; inferior". Pois bem: esses significados indicam perfeitamente o que foi a seleção holandesa e sua atuação no empate por 1 a 1 contra a Irlanda, nesta sexta, no Aviva Stadium de Dublin. Novamente, a Laranja mostrou o que tem sido "habitual" e "comum" nela, nos últimos meses: um jogo "de má qualidade, inferior". A falta de criatividade foi o principal defeito da equipe renovada que foi a campo. 

Claro, no começo houve até a aceleração do jogo - principalmente pelas pontas, com Memphis Depay (menos) e Quincy Promes (mais). Mas aos poucos, um velho erro da Oranje foi novamente cometido: a transição lenta entre a defesa e o ataque. Na transmissão da FOX Sports holandesa para o jogo, o ex-jogador Ronald de Boer apontou uma jogada ocorrida ainda nos primeiros minutos: após um escanteio cuja bola foi tirada da área por Jeffrey Bruma, Georginio Wijnaldum tentou acelerar a saída para o ataque... e não havia opção. Resultado: o passe do meio-campista do Newcastle foi para trás, e logo a Irlanda retomou a bola.

Aos poucos, essa falha crônica foi expondo os outros sérios problemas da seleção holandesa. Sem opções, o meio-campo não podia criar jogadas. Sem criação de jogadas, restava o avanço infrutífero dos laterais (pela direita, Jöel Veltman; pela esquerda, Jetro Willems), que quase sempre rendia apenas cruzamentos inócuos e facilmente defendidos pelo goleiro irlandês, Darren Randolph. E sem jogadas saindo do meio e com a bola passando apenas pelo alto, Vincent Janssen mal apareceu na partida para finalizar. Pior: em todos os primeiros 45 minutos, apenas dois chutes foram dados pela Oranje. Nenhum deles a gol. Índice baixo assim não era visto desde o amistoso contra a Itália, em setembro de 2014.

No meio do deserto de ideias, havia apenas um oásis: Kevin Strootman. No seu retorno à Oranje, o volante da Roma diminuiu o temor de uma contusão: entrou em divididas, foi atingido em faltas, mas seguiu bem nos 68 minutos em que esteve no campo do Aviva Stadium. Mais do que isso: sempre que recebia a bola, mostrava a precisão que o fazia nome certo e habitual nas escalações da Laranja, antes das lesões que atravancaram e atrapalharam seu caminho. Também comentando para a FOX Sports holandesa, o ex-jogador dinamarquês Kenneth Perez esclareceu: "Veja os passes de Strootman: não são só para o lado, são para a frente, ampliam as opções de jogada". Enfim: no que foi possível, o camisa 8 cumpriu seu papel e justificou o apelido de "Lavadora". A tal ponto que, dos 73 passes que deu na partida, Strootman completou 88% deles, de acordo com o site OptaJohan. Mal jogou, e já se credenciou como um nome fundamental para o futuro da equipe, se continuar em forma, sem lesões.

Strootman: volta promissora (Maurice van Steen/VI Images)
Mas Strootman era só um, de onze jogadores. E não só os atletas ofensivos desaceleraram, como a defesa continuou exibindo erros gritantes de posicionamento e de ações. Dois desses causaram o gol de Shane Long que abriu o placar para os irlandeses, aos 19 minutos do primeiro tempo: o zagueiro Virgil van Dijk cedeu escanteio de graça, a uma equipe que tem na bola aérea uma de suas qualidades. E na cobrança do córner, Van Dijk (1,93m) perdeu a disputa do rebote para Long (1,80). Isso, sem contar a primeira entrada, em que John O'Shea apareceu livre no meio para testar, forçando a defesa de Jasper Cillessen, o consequente rebote e o gol.

O pior é que tudo isso seguiu durante boa parte do segundo tempo. A falta de alguém que realmente pensasse o jogo, criasse alternativas (Strootman, apesar de bom volante, não é um criador), aumentou a força do ponto de interrogação sobre um futuro sem Wesley Sneijder - e sem o fortalecimento de Davy Klaassen ou Jordy Clasie, opções imediatas para a posição. E aí, sem a criação, não havia como os da frente atuarem. E se eles ficavam com a bola, tentavam infrutíferas jogadas individuais. Principalmente Memphis Depay, cuja atuação foi merecidamente criticada e recebeu conselhos de Danny Blind, após o jogo: "O potencial dele segue presente, mas nota-se que a temporada não foi boa e isso o afetou. Assim, é melhor jogar o mais simples possível". De quebra, nas bolas aéreas irlandesas (e elas eram muitas), seguia o "quem é que sobe?": a tal ponto que Bruma quase cometeu gol contra, aos nove minutos.

A situação só melhorou levemente para a Holanda com a entrada de Steven Berghuis, em lugar de Memphis. Estreando pela Laranja, o atacante do Watford (atuando 27 anos após seu pai, Frank Berghuis, fazer um jogo pela seleção, contra o Brasil, em amistoso) acelerou mais as coisas. E após ter ocupado melhor o campo, mais compactada e sabendo o que fazer com a bola nos pés no 4-4-2 pensado por Martin O'Neill, a Irlanda desacelerou - natural, já que ela pensa na Euro que está próxima. As entradas de Bas Dost e Luuk de Jong, levando a Holanda do 4-3-3 para o 4-4-2, deram mais referências na frente, ainda que tenham transformado o jogo num festival de "chuveirinhos". E Marco van Ginkel, entrando no meio-campo, pôde armar um pouco mais o jogo e chegar ao ataque.

A leve evolução foi clara: aos 31 minutos da etapa final, enfim a Holanda mandou um arremate ao gol (um cabeceio de Dost mandou a bola perto da meta defendida por Randolph). E aos 40, uma jogada muito vista no returno desta Eredivisie resultou no empate: Willems cruzou da esquerda, e Luuk de Jong cabeceou para as redes. Só que este gol salvador não apagou as pesadas e corretas críticas sobre mais uma atuação apática, apagada, ordinária da seleção holandesa. Danny Blind reconheceu, falando após o jogo: "No intervalo, minha primeira frase [aos jogadores] foi: 'Como pode?!' É difícil explicar. Tivemos uma boa semana de treinos, e de novo saímos atrás, como pode ser assim?". 

Blind não sabe. Mas é sua obrigação achar uma resposta. A melhora rápida da Oranje depende disso.

Oranje: agora é dentro de campo

Strootman olha para a frente. Como a seleção da Holanda precisa olhar (Erwin Spek/ANP/Pro Shots)
Há tempos a Holanda não tinha de encarar essa dura realidade. Mas o fato é que, nesta sexta, às 15h45, no Aviva Stadium de Dublin, quando a Laranja entrar em campo para mais um amistoso, será sua adversária, a Irlanda, que estará se preparando para a Euro 2016. A mesma coisa com o adversário da próxima quarta, a Polônia, em Gdansk. E também será assim no sábado, 3 de junho, quando o oponente será a Áustria, em Viena. Todas essas equipes nacionais, na reta final rumo ao torneio europeu.

E a Holanda? Resta a ela foco total no próximo estágio: as eliminatórias para a Copa de 2018. Exatamente por isso é que o técnico Danny Blind tem dado tanta importância, mais do que aos amistosos, à temporada de treinos que os 25 jogadores convocados estão fazendo no balneário português de Lagos (cidade conhecida: ali o elenco da Copa de 2014 fez a reta final da preparação para o torneio). Pode-se dizer que ali estão sendo definidos os pontos básicos de uma nova fase no trabalho de Blind pai.

Aliás, tais pontos básicos já podem ser delineados ao se observar os auxiliares do treinador. Se Marco van Basten, um ex-comandante da Oranje, já estava ao lado de Blind no banco de reservas, o novo auxiliar Dick Advocaat traz até mais definição sobre a identidade tática que a seleção pensa em ter para tentar chegar a 2018. Com a inegável experiência de duas passagens como o técnico principal, Advocaat substituirá Ruud van Nistelrooy – e poderá ajudar o treineiro da vez a ter mais cuidados com a defesa.

Dos treinadores holandeses que alcançaram algum êxito em suas carreiras, Advocaat é de longe o mais cuidadoso em questões táticas. Cuidadoso até demais: é famosa sua alteração criticadíssima contra a República Tcheca, na fase de grupos da Euro 2004 (a Oranje vencia por 2 a 0, Advocaat tirou um imparável Robben e colocou o meio-campista Bosvelt, chamou os tchecos para o jogo, e eles viraram para 3 a 2).

No entanto, se sua vinda servir para auxiliar Blind na formação de uma defesa mais compacta e de um jogo acelerado, já será útil. E aos 68 anos, Advocaat parece mais motivado do que esteve em seus últimos trabalhos, até para dar um fim honroso à sua longa carreira no banco: “Eu não esperava o convite, fui surpreendido. Mas significa fechar minha carreira com chave de ouro. Comecei na KNVB como auxiliar [Advocaat era o braço-direito de Rinus Michels na Euro 1992], e terminarei como auxiliar. Tenho plena certeza de que chegaremos à Copa de 2018, e uma Copa na Rússia [cuja seleção ele treinou na Euro 2012] completaria o círculo”.

Só que de nada adianta um triunvirato de experiência comprovada no banco de reservas, com dois ex-técnicos da seleção ajudando um “seminovato”, se os jogadores não corresponderem em campo. Afinal de contas, se a renovação no elenco da Laranja era necessária e até urgente, ela está sendo feita. Basta dizer que apenas sete dos convocados que treinam em Portugal estiveram na Copa passada (Jasper Cillessen, Joël Veltman, Daley Blind, Georginio Wijnaldum, Wesley Sneijder e Memphis Depay).

Advocaat e Daley Blind terão papéis importantes na nova fase da seleção: um fora de campo, o outro dentro (Remko de Waal/ANP)

E a renovação está cada vez mais profunda: tanto na pré-convocação como na lista definitiva de Blind, não estavam nem estão Robben, Sneijder, Van Persie ou Huntelaar. Ficaram todos de fora, por lesão (Robben) ou opção (Van Persie, Huntelaar). E o pedido de dispensa de Sneijder, por dores nas costelas, logo após ser campeão da Copa da Turquia com o Galatasaray, confirmou: será a primeira vez em que a seleção da Holanda jogará sem nenhum dos quatro veteranos entre os titulares desde 2013, num amistoso contra a Colômbia.

Sem os destaques de sempre, se há um destaque entre os convocados por Danny Blind, ele é Kevin Strootman: depois do sofrimento com as renitentes lesões nos dois joelhos, bastou uma volta ainda leve pela Roma para o meio-campo conseguir seu retorno à Oranje, dois anos após o aziago 5 de março de 2014, em que sofreu uma primeira lesão no joelho em amistoso contra a França (no domingo seguinte, jogando pela Roma, Strootman rompeu pela primeira vez o ligamento cruzado anterior do joelho, no início de sua via-crúcis).

Motivo mais do que suficiente para que o volante volte com cuidado, certo? Errado: Strootman não só voltará, mas deverá ser titular contra a Irlanda. Mais do que isso: será o capitão da seleção. Razões não faltam para as palavras aliviadas, mas ainda reticentes, do jogador: “Foi para isso que trabalhei duro nesses dois anos. Para mim, estar aqui é um bônus. Não estou 100 por cento, mas justamente por isso é que preciso continuar treinando e também preciso atuar nas partidas. Jogar os 90 minutos em todas elas talvez seja demais, mas estou à disposição”.

Outra prova de que a renovação vai se consolidando na seleção holandesa é o fato de que, entre os convocados, o jogador com mais partidas pela Laranja é… Daley Blind (estará fora contra a Irlanda, lesionado), com “apenas” 36 atuações. Seguem-no Ron Vlaar (32), Jasper Cillessen (27), Wijnaldum (27), o próprio Strootman (25), Memphis Depay (23) e Jetro Willems (18). Cabe a eles, jogadores ainda relativamente novos (Vlaar é a exceção que confirma a regra, com 31 anos), começarem a criar um ambiente com novas lideranças a guiar os mais neófitos em seleção: Riechedly Bazoer, Tonny Trindade de Vilhena, Davy Pröpper, Marco van Ginkel... e, principalmente, Quincy Promes e Vincent Janssen: prestigiados pela temporada que fizeram e pelas atuações nas oportunidades que tiveram na seleção, Promes e Janssen devem ser titulares nos amistosos.

E, principalmente, caberá aos jogadores da seleção holandesa vencerem as desconfianças sobre suas capacidades para fazer a Oranje reagir – desconfianças muito justificadas, diga-se de passagem. Por mais que mereça críticas, Danny Blind está trabalhando e se esforçando. Agora, é dentro de campo, no 4-3-3 (provável escalação: Cillessen; Veltman, Bruma, Van Dijk e Willems; Strootman, Wijnaldum e Bazoer; Promes, Janssen e Memphis Depay). O futuro começa com os amistosos.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 27 de maio de 2016)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Play-offs de acesso: quem ganhar, sobe, mesmo?

Ten Rouwelaar vai parar de jogar. E quer deixar na Eredivisie o NAC Breda em que é ídolo (Maurice van Steen/VI Images)

Enfim, o mata-mata para definir o acesso e o descenso entre a primeira e a segunda divisão holandesas chegou à sua decisão. Depois daquele regulamento intrincado, com campeões de período e tudo o mais, enfim sabe-se quais são os quatro times, divididos em duas chaves, que disputarão os dois lugares restantes no Campeonato Holandês 2016/17, com jogos de ida nesta quinta, e os de volta, no domingo. E se a Nacompetitie é originalmente destinada a determinar acesso ou descenso, nesta temporada ela decidirá acesso ou manutenção: afinal de contas, tanto Willem II quanto De Graafschap, antepenúltimo e penúltimo colocados da Eredivisie, têm a chance de ficar na elite, enfrentando NAC Breda e Go Ahead Eagles - estes, dois dos melhores colocados da Eerste Divisie sem conquistarem "períodos".

Porém, a polêmica recomendação da federação holandesa pelo rebaixamento do Twente à segunda divisão em 2016/17 colocou um tremendo ponto de interrogação sobre o play-off. Afinal de contas, pela decisão, o Willem II já tem garantida a sua manutenção, seja qual for o resultado de suas partidas contra o NAC Breda. Se os Bredanaren ganharem, sobem à Eredivisie junto dos adversários Tricolores. Em De Graafschap x Go Ahead Eagles, não há mistério: quem for o melhor no placar agregado, sobe (caso do time de Deventer) ou se mantém (caso dos Superboeren). Entretanto, se os dois vindos da Eredivisie conseguirem a permanência, quem subirá para a vaga restante é o... Cambuur, lanterna e rebaixado da primeira divisão.

Claro, os clubes da Jupiler League ficaram furiosos com a sugestão - uma nota já foi divulgada nesta quinta, anunciando a oposição ao rebaixamento dos Tukkers, reclamando da péssima hora em que a comissão de licenças da KNVB divulgou sua decisão sobre o Twente, e também da falta de consulta a eles sobre o rebaixamento. De fato, parece inapropriado que a vaga restante aberta pelo clube de Enschede não seja disputada entre NAC Breda e Go Ahead Eagles, caso estes não consigam superar Willem II e De Graafschap. O mais complicado: o parecer da federação ainda pode ser ratificado (ou revogado) pelo Conselho Central de Jogadores, entidade vinculada à KNVB. Dependendo da decisão final, o Twente certamente recorrerá da decisão na Justiça. O que pode prejudicar o Willem II, em tese já salvo, que também teria todo o direito de ir aos tribunais...

Enfim, não se sabe mesmo se quem ganhar no play-off subirá à primeira divisão do futebol holandês na próxima temporada. De todo modo, é melhor focar no aspecto dentro de campo. A partir de agora, uma análise rápida dos quatro times - bem, três e meio... - que disputam a Nacompetitie pela promoção ou permanência na Eredivisie.

Willem II x NAC Breda

Jogo de ida: 19 de maio, às 13h30 (de Brasília), em Breda
Jogo de volta: 22 de maio, às 11h45 (de Brasília), em Tilburg

Willem II

Durante toda a temporada, a equipe de Jurgen Streppel sofreu no Campeonato Holandês. Por dois motivos: empataram demais na temporada (11), e foram o segundo pior time do returno, só melhores do que o rebaixado Cambuur. Assim, a Nacompetitie foi inevitável. Pelo menos nela, a equipe tricolor acordou: entrando na segunda fase do play-off, não teve a menor dificuldade para frustrar o sonho do primeiro acesso do Almere City: 1 a 0 na ida, 5 a 2 na volta. E a curiosidade é que o destaque não foi o habitual Erik Falkenburg, mas Lucas Andersen, autor de dois gols no jogo de retorno contra o clube de Almere. Os Tricolores contam com os gols de ambos, e uma performance mais concentrada da defesa, para se manterem na Eredivisie - e para dar uma despedida mais alegre ao técnico Jurgen Streppel, de saída para o Heerenveen. Além do mais, convém não contar com uma manutenção supostamente garantida: o Twente pode recorrer do rebaixamento, e aí as consequências são imprevisíveis... melhor manter o lugar dentro de campo.

NAC Breda

A ambição da "Pérola do Sul" é grande. Para começo de conversa, tiveram o terceiro lugar na temporada regular da Eerste Divisie, e conseguiram chegar ao final do play-off, para tentar o retorno rápido à Eredivisie, após a queda na temporada passada. E voltar à primeira divisão seria a coroação para um projeto já anunciado: a parceria com o Manchester City, que começará a emprestar mais jogadores ao clube de Breda (dois titulares na campanha, o meia ganês Divine Naah e o atacante turco Enes Ünal, são cedidos pelos Citizens). De quebra, seria a despedida perfeita para o goleiro Jelle ten Rouwelaar: desde 2008 no clube, ídolo da torcida, passando por um momento pessoal difícil (e homenageado lindamente por isso), ele está jogando as últimas duas partidas de sua carreira profissional. No entanto, os aurinegros levaram um susto na segunda fase: perderam o jogo de ida para o FC Eindhoven (1 a 0), e só na volta restabeleceram a superioridade (2 a 0). Com um elenco razoável para os padrões da Eredivisie, têm a obrigação de serem adversários duros para o Willem II.

De Graafschap x Go Ahead Eagles

Jogo de ida: 19 de maio, às 14h45, em Deventer
Jogo de volta: 22 de maio, às 7h30, em Doetinchem

De Graafschap

Muito se falou da "mala branca" que foi a promessa de um iPhone 7 aos jogadores dos Superboeren, feita pela PHC (empresa de telefonia que auxilia o PSV, junto da Philips), para que eles vencessem o Ajax e possibilitassem o bicampeonato holandês ao clube de Eindhoven. Pois bem: como a promessa falava em "vitória", até agora, ninguém sabe se ganhará modelo nenhum do smartphone. E independentemente disso, tratar o De Graafschap como um time péssimo que só surpreendeu o Ajax por um acaso é injustiça das grossas. É um time fraco, claro. Mas tem jogadores talentosos, como o goleiro Hidde Jurjus e o atacante Vincent Vermeij (ambos, na seleção holandesa sub-21). De quebra, sair da lanterna ao final do turno, com apenas cinco pontos, para ganhar a perspectiva de manutenção via play-off, é um feito merecedor de algum respeito. Entrando na segunda fase, a equipe treinada por Jan Vreman até levou um susto do MVV Maastricht no jogo de volta, mas venceu as duas partidas (1 a 0 na ida, 2 a 1 na volta). E é até favorita a conseguir segurar a vaga na Eredivisie. Nem precisa de iPhone ou qualquer traquitana para isso.

Go Ahead Eagles

Na temporada 2014/15, foi o Go Ahead Eagles que precisou disputar a Nacompetitie de acesso/descenso vindo da Eredivisie: fora o 17º colocado. Mas teve a comodidade tradicional a quem vinha da primeira divisão: entrou na segunda fase, onde enfrentaria o... De Graafschap. Que surpreendeu: duas vitórias por 1 a 0, e GAE rebaixado, enquanto os Superboeren seguiam rumo à promoção. E nesta temporada, o Kowet sofreu na Eerste Divisie: vinha irregular até fevereiro, quando uma derrota por 1 a 0 para o amador Achilles'29 pôs fim ao comando do treinador Dennis Demmers. Aí, após uma rodada com o interino Harry Decheiver, foi a vez de Hans de Koning chegar para treinar o time de Deventer. Um período de adaptação, e o time aurirrubro cresceu na hora certa: invicto nas últimas dez rodadas da temporada regular (quatro empates, seis vitórias), garantiu a quinta posição e a vaga na segunda fase dos play-offs. Nela, superou o VVV-Venlo, segundo colocado regular (1 a 0 na ida; 2 a 2 na volta, fora de casa). E tem a chance da revanche contra o De Graafschap, contando com alguns remanescentes daquela temporada passada na Eredivisie: o atacante Leon de Kogel, os zagueiros Xandro Schenk e Bart Vriends, e o meio-campista Sander Duits.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Novela à vista


A tristeza do Twente no rosto do diretor Onno Jacobs: e agora, o que será dos Tukkers? (Vincent Jannink/ANP)

Após a rodada final do Campeonato Brasileiro de 2013, esperava-se que a Portuguesa (48 pontos) permanecesse na Série A e que o Fluminense, com 46 pontos, estivesse rebaixado à Série B, por estar na 17ª posição. Esperava-se, não fosse a descoberta da entrada irregular do volante Héverton (suspenso) no jogo derradeiro da Lusa no campeonato, contra o Grêmio. O clube das Laranjeiras aproveitou a chicana que se abrira, entrou com recurso no STJD, a agremiação paulistana foi punida com a perda de quatro pontos, foi a rebaixada, até hoje não se sabe qual a razão do erro da Portuguesa (ou até se sabe, mas não há como provar por enquanto)... e tudo isso foi seguido por uma gigantesca onda de críticas de imprensa e torcida, pela supressão sumária do que se decidira dentro de campo.

Pois bem: críticas semelhantes estão ocorrendo na Holanda. Porque o Twente, 13º colocado ao final das 34 rodadas do Campeonato Holandês 2015/16, conseguiu permanecer na divisão de elite... mas teve seu rebaixamento "sugerido" pela KNVB, a federação holandesa, nesta quinta. Não é uma decisão definitiva: a federação indicou tal solução, e o Central Spelersraad (Conselho Central de Atletas, órgão vinculado à entidade) poderá confirmá-la ou recusá-la. Ainda assim, o processo que levou ao virtual rebaixamento do clube de Enschede teve um final tão desastrado que quase ninguém o está aceitando. Nem beneficiados, nem prejudicados.

Cabe lembrar: a situação financeira do Twente foi aflitiva durante boa parte da temporada. Com uma dívida de 32 milhões de euros, e mais sanções da FIFA e da KNVB pela cessão irregular dos direitos de jogadores ao fundo de investimentos maltês Doyen (processo semelhante ao ocorrido com o Santos, no Brasil), o clube de Enschede viveu toda a temporada sob o fantasma de mais punições - e o Espreme a Laranja já até comentara sobre isso. O pior é que o rebaixamento à Eerste Divisie (segunda divisão) ameaçava vir sem punição: os Tukkers terminaram o primeiro turno da liga na zona de repescagem/rebaixamento.

O tempo passou, a equipe se recuperou no returno, conseguiu chegar à 13ª posição, teve no meio-campista Hakim Ziyech um dos grandes destaques do campeonato... mas não se livrou das punições. Em abril, a KNVB anunciou que o Twente perdera três pontos, por descumprir etapas do plano de reestruturação financeira apresentado à entidade. Era a terceira vez que tal sanção era aplicada ao clube - que já perdera seis pontos na temporada passada. Pelas regras da federação, o passo seguinte era a perda da licença profissional - o que forçaria o Twente a ter de recomeçar sua história na Topklasse, a quarta divisão holandesa.

Mas era necessário reconhecer: a nova direção ia atrás das soluções. Fez acordo com empresários da região do Twenthe (daí o nome do clube), onde fica a cidade de Enschede, para que ajudassem no pagamento da dívida. Conseguiu renegociar as dívidas com os ex-presidentes Joop Munsterman e Aldo van der Laan. Resultado: teve mantida a licença profissional. E a federação reconheceu o esforço. Mas premiou-o do pior jeito possível: nesta quarta, em nota oficial, a KNVB anunciou a decisão tomada pela comissão de licenças com relação ao caso dos Tukkers. Que começava explicando: "Durante a reunião, a comissão concluiu que o passado do Twente dava a ela o direito de tirar a licença. Por outro lado, a comissão acha que os esforços feitos para 'limpar a casa' davam o direito de manter a licença".

Seguiam-se as alternativas: "Com base no regulamento de licenças, a comissão tinha duas opções. A primeira era uma multa de 45.250 euros. Aos olhos da comissão, isso parecia uma pena desproporcionalmente leve. A segunda opção era a retirada da licença, que seria justificada pelo passado do clube. Com base no bom trabalho [para diminuir a dívida] feito neste meio ano, a comissão acha uma pena desproporcionalmente dura." Qual foi a decisão, então? "A comissão, então, cede ao Twente uma nova licença, já que o clube está 'limpando a casa'. Com essa nova licença, o clube tem o direito de começar na mais baixa divisão profissional, que é a Jupiler League [nome patrocinado da segunda divisão]".

Bert van Oostveen, da KNVB, comemorou a punição indicada ao Twente. Foi o único (Gerrit van Keulen/VI Images)
A recepção à decisão da KNVB foi unânime: nenhuma das partes gostou. Até porque ela interfere no play-off contra o rebaixamento, cuja decisão começa na quinta. Com a sugestão do rebaixamento do Twente, o Willem II (antepenúltimo colocado da Eredivisie) estaria garantido na primeira divisão, qualquer que fosse o resultado de seu jogo contra o NAC Breda - que, se ganhar no placar agregado, obviamente voltaria à elite do futebol holandês. Enquanto isso, De Graafschap e Go Ahead Eagles decidirão a outra vaga. E em caso de vitória dos Superboeren (penúltimos colocados na liga), junto de triunfo do Willem II - ambos vindos da Eredivisie -, quem ficaria na divisão principal do futebol holandês seria... o Cambuur, lanterna do torneio, rebaixado diretamente.

O pior é que a perda da licença profissional (punição prevista no regulamento) causaria mudanças até no título holandês. Afinal, assim o Twente teria seus resultados anulados. Com duas vitórias sobre os Tukkers nesta temporada do Holandês, o PSV perderia seis pontos - de 84, iria a 78; com uma vitória e um empate, a pontuação do Ajax cairia de 82 a 78. E com a pontuação igual, o saldo de gols maior daria o título aos Ajacieden. Talvez o temor das reações a essa "leve" mudança nos destinos da Eredivisieschaal tenha motivado a KNVB a decidir-se por essa via de punição branda-mas-nem-tanto, comemorada pelo diretor de futebol Bert van Oostveen: "O Twente é um grande clube, com um grande passado, e a KNVB acha ótimo que o clube tenha uma segunda chance".

Mas só Van Oostveen comemorou. De resto, só críticas. Obviamente, o Twente foi o primeiro a lamentar. Em declaração pública à imprensa, o diretor Onno Jacobs opinou: "Estamos tristes, perplexos e incrédulos. É um duro golpe. Pensávamos que poderíamos participar da próxima temporada [do Campeonato Holandês], não contávamos com essa variante". Diretor da segunda divisão, Marc Boele foi até mais longe, lembrando a Nacompetitie de acesso/descenso: "Ninguém ouviu a Jupiler League [antes de tomar a decisão], não sabíamos de nada. Amanhã traremos uma posição mais concreta, mas não estamos felizes. E os play-offs? Por qual objetivo os clubes jogarão?".

O repúdio veio até mesmo de clubes eventualmente favorecidos que disputam a promoção ou a manutenção na primeira divisão. Às vésperas de deixar o Willem II, o técnico Jurgen Streppel mostrou-se incerto: "Enquanto não houver definição [sobre o rebaixamento do Twente], para nós é uma situação desumana". Diretor geral do Go Ahead Eagles, Edwin Lugt criticou a federação em seu perfil pessoal no Twitter: "A KNVB rasgou o próprio regulamento. Estamos avaliando medidas jurídicas. A comissão de licenças tinha duas opções: tirar definitivamente a licença ou manter o Twente na Eredivisie. E essa segunda opção é que tinha de acontecer". Finalmente, nem o Cambuur, rebaixado que pode ser içado de volta, comemorou a eventualidade que pode lhe favorecer: "Desportivamente falando, não temos o direito à salvação, isso tem de ficar bem claro".

Agora, é esperar pela decisão do Central Spelersraad, que terá um mês para confirmar ou revogar o rebaixamento do Twente. E essa decisão deverá levar o clube de Enschede aos tribunais - briga jurídica já encampada pela torcida. Ou seja: há uma novela arrastada à vista no futebol holandês. Bem disse o jornalista Michel Abbink, do site nu.nl: "Neste verão europeu, todos os outros países assistirão a um torneio entre seleções. Nós assistiremos a uma incompreensível novela sobre o Twente". Como se não bastasse a ausência da Oranje na Euro 2016...