sexta-feira, 18 de maio de 2018

Copa de 1978: caminho diferente para um fim igual

Em pé: Rep, Jongbloed, Haan, Brandts, Neeskens e Krol. Agachados: Jansen, Poortvliet, Willy van de Kerkhof, René van de Kerkhof e Rensenbrink. Após turbulências no caminho, esta Holanda poderia ter ganho a Copa de 1978. Poderia... (ANP Archief)
“A Laranja Mecânica encantou o mundo, na campanha dos vice-campeonatos mundiais, nas Copas de 1974 e 1978.” Frases como essa já foram escritas e lidas inúmeras e inúmeras vezes. De fato, com relação à Copa sediada na Alemanha, não há contestações em relação ao teor da opinião. Todavia, o Mundial ocorrido há 40 anos entra de lambuja sem poder. Porque, sim, a Holanda foi vice-campeã mundial em 1978. Com vários dos jogadores que haviam marcado época havia quatro anos. Mas fez um caminho totalmente diferente para chegar ao mesmo fim.

Nas eliminatórias, ainda Cruyff

Totalmente diferente porque, para começo de conversa, não haveria em 1978 o galvanizador da equipe que impressionara quem gostava de futebol. A rigor, desde 1974 Johan Cruyff já anunciava que aquela fora sua primeira e última Copa do Mundo. Para muitos, em razão de uma história para sempre presente no anedotário holandês de futebol: a reportagem publicada pelo diário alemão Bild, dias antes da decisão de 1974, dando conta de uma festa na piscina do Waldhotel Krautkrämer, em Hiltrup, concentração da Oranje naquele torneio, envolvendo jogadores (Cruyff entre eles) e prostitutas. No dia seguinte, Bild publicado, a esposa Danny Cruyff teria ligado ao marido e o feito prometer que nunca mais jogaria outro torneio. Uma das teorias, entre tantas ligadas à reportagem.

Também vigorou a teoria de que o “Nummer 14” não aceitaria ir à Argentina como protesto pelo regime militar que comandava o país-sede a partir de 1976. Ou então, que um prêmio menor da federação holandesa caso viesse o título mundial foi o estopim para a recusa. Não adiantou Cruyff revelar a razão real, em 2012 - um sequestro-relâmpago sofrido pela família, na própria residência de Barcelona, em setembro de 1977, que o fez preferir manter a segurança com Danny e os filhos Jordi, Chantal e Susila: sempre haverá quem faça boatos sobre o porquê de Cruyff não ter tido a sua segunda chance em 1978.

Pelo menos, o símbolo maior do futebol holandês esteve na campanha tranquila das Eliminatórias da Copa. Por sinal, tranquilidade necessária, após as turbulências da Euro 1976 (uma outra história, que fica para outra vez). No grupo 4 da qualificação europeia, seis jogos – contra Bélgica, Irlanda do Norte e Islândia -, cinco vitórias, um empate e liderança absoluta. A base era a mesma de 1974: lá estavam Arie Haan, Wim Jansen, Wim Rijsbergen, Ruud Krol, Wim Suurbier, Johan Neeskens, Willem van Hanegem, Robert Rensenbrink, os irmãos Willy e René van de Kerkhof, Johnny Rep... mais alguns destaques domésticos de então, como Jan Peters, Hugo Hovenkamp e Kees Kist, trio que fazia sucesso no AZ. Sem contar Ruud Geels, goleador como sempre no cenário interno - fora artilheiro da Eredivisie por quatro vezes seguidas, entre 1974/75 e 1977/78.

A única nota destoante na segura campanha holandesa rumo à Copa fora a briga já mencionada neste blog, que retirou definitivamente da seleção outra dupla de sucesso em seu clube: o goleiro Jan van Beveren e o atacante Willy van der Kuylen, símbolos do PSV que seria não só campeão holandês, mas também da Copa Uefa. De resto, até que um time cheio de talentos temperamentais havia sido bem conduzido pelo técnico Jan Zwartkruis, que chegara após a Euro, vindo da seleção de militares, e conseguia ajudar a seleção holandesa a manter um nível técnico elogiável.

Tudo isso mudou em 1978. Zwartkruis comandara a seleção meio interinamente, durante as Eliminatórias. E a federação holandesa decidiu que um técnico de pulso mais firme comandaria a Holanda na Copa. De fato, o nome escolhido inspirava respeito: o austríaco Ernst Happel, técnico do Feyenoord campeão europeu e mundial em 1969/70, que acumularia o comando da Laranja ao comando do Club Brugge. A Zwartkruis, caberia apenas auxiliá-lo. Happel não era lá técnico muito afeito a debates com os jogadores sobre os rumos a seguir – um dos lemas do treinador austríaco era “kein geloel, maar fussball”, em alemão mesmo (a tradução, em português coloquial: “sem mimimi, jogue bola”).

Começou a pagar o preço disso durante a preparação para o torneio, com o ataque perdendo opções. Sem espaço nas convocações, Ruud Geels ficou de fora da lista preliminar de 26 jogadores – assim como Kees Kist. Lesionado no AZ, Jan Peters também não foi à Copa. Johnny Rep ameaçava: ou era titular na frente, ou preferia deixar a seleção. No gol, havia certa indefinição: optar por Piet Schrijvers, reserva em 1974, melhor debaixo das traves, ou manter Jan Jongbloed, 37 anos, mais afeito ao jogo com os pés? Com todas essas dúvidas, a dupla Happel-Zwartkruis convocou os 22 nomes que viajaram à Argentina, numa mescla dos remanescentes do Mundial anterior com alguns nomes novos - alguns vindos do campeão PSV, como o zagueiro Ernie Brandts e o lateral direito Jan Poortvliet.

A foto oficial dos 22 que viajaram à Argentina para a Copa. Mas Van Hanegem (primeiro em pé, na fileira do meio) foi e voltou, dias antes da Copa (Arquivo ANP)
A decepção na primeira fase

Mas aí veio o pior: a pouco mais de duas semanas do início da Copa, Van Hanegem, dos melhores e mais experientes remanescentes de quatro anos antes, deixou a delegação holandesa. Pelo mesmo motivo da ameaça de Rep: Ernst Happel não lhe garantira um lugar entre os titulares. Jovem que poderia ser aposta, Hovenkamp se lesionou nos treinos e ficou inutilizado para a Copa. Ah, sim: para não perder o costume, por falta de maior pagamento, três jogadores exigiram jogar com as camisas da Adidas sem as famosas três listras, como Cruyff fez em 1974: os irmãos Van de Kerkhof, mais o atacante Dick Nanninga. Restou a Happel adiantar Arie Haan para o meio-campo, sua posição original. E apostar numa escalação conhecida para a estreia, contra o Irã, em Mendoza, no dia 3 de junho de 1978: os 11 jogadores que foram a campo haviam estado na Alemanha. A única exceção seria Nanninga, substituto de René van de Kerkhof no segundo tempo.

 

Se a estreia contra o Uruguai em 1974 mesmerizara o mundo, contra os iranianos o cenário foi diferente. Mesmo diante de uma equipe estreante em Copas, mesmo com remanescentes tecnicamente capazes, o time holandês decepcionou. Ganhou jogando por 3 a 0, sem a menor velocidade. Valeu para que um destaque despontasse: Rensenbrink, autor dos três gols, dois de pênalti. Tentando acelerar mais o time, Happel mudou do 4-3-3 para o 3-4-3 o esquema tático para o segundo jogo – contra o Peru, em Mendoza, no dia 7 de junho -, possibilitando a entrada de Poortvliet. Mas a Holanda fracassou: de novo, morosidade preocupante. Até houve algum trabalho ao goleiro Ramón Quiroga, mas o empate sem gols deu a mostra de como, pelo menos naquela fase, o Peru era um time respeitável: a equipe contou com os pilares Héctor Chumpitaz, César Cueto e Teófilo Cubillas a perturbar a defesa holandesa. A Laranja decepcionava. Ou, para usar a manchete da revista Veja na notícia sobre as expectativas frustradas com os holandeses, “o carrossel enguiçou”.



Com três pontos, liderando o grupo pelo melhor saldo de gols, a Holanda até estava em boas condições para se classificar, mas convinha não bobear contra a Escócia, em Mendoza, no dia 11 de junho. Pois a Oranje quase bobeou. O adversário começou melhor, já mandando uma bola na trave aos nove minutos – Bruce Rioch, de cabeça. Além disso, com dores abdominais, Neeskens teve de ser substituído, no minuto seguinte. Pelo menos, Rensenbrink fez história com a classe que tinha nas cobranças de pênalti, justificando porque tomara de Neeskens o posto de batedor oficial: fez 1 a 0 sobre os escoceses ainda na etapa inicial, marcando o milésimo gol da história das Copas.

A partir daí, quase nada mais deu certo para os holandeses. Com alguma velocidade e mais habilidade nas jogadas de ataque, a Escócia empatou com Kenny Dalglish. Já no segundo tempo, Archibald “Archie” Gemmill roubou a cena: virou o jogo, e ainda fez 3 a 1 com um belo gol, driblando vários defensores. Com o Peru superando o Irã e indo à primeira posição do grupo 4, a seleção do uniforme azul sonhava: ia a três pontos, e se fizesse 4 a 1, eliminaria a vice-campeã mundial no saldo de gols, que ficaria 1 a 0 a favor dos escoceses. Aí surgiu o talento: na forma de um chute forte de Johnny Rep, no ângulo esquerdo do goleiro Alan Rough, marcando o gol salvador. A Laranja perdera por 3 a 2, mas estava salva na Copa. Todavia, a manchete de um jornal holandês dizia tudo: “A Laranja avança a despeito de uma atuação de lixo”.



Ficava claro: algo teria de mudar. E mudou. A falta de paciência e ponderação de Ernst Happel – com jogadores e dirigentes - já irritava Wim Meuleman, presidente da federação holandesa. Observando tudo isso, o auxiliar Jan Zwartkruis. Que contou o que aconteceu, em sua biografia, lançada em 2008. Falecido em 2013, ele revelou na publicação: “Já haviam cochichos de que ‘talvez seria melhor se Zwartkruis fosse o técnico principal’. De minha parte, não era o caso, mas Happel sentia que isso poderia acontecer. E entendo por quê: eu tinha mais liberdade com os rapazes”.

Para Meuleman, a gota d’água veio após um encontro com Happel, no saguão do hotel em que a delegação estava hospedada. O presidente havia feito uma sugestão de escalação para o primeiro jogo da segunda fase – contra a Áustria, em Córdoba, a 14 de junho de 1978 -, contando com mais sugestões: do diretor de futebol Jacques Hogewoning, do segundo auxiliar Arie de Vroet, do chefe de delegação Herman Chouffoer. O treinador austríaco foi inflexível: “Você é o presidente e eu sou o técnico. Certo? Obrigado”.

O nervosismo era demais até para Happel, fumante inveterado. E partiu dele a decisão: um dia antes de enfrentar a seleção de seu país natal, após o treino, ele se aproximou de Zwartkruis – coisa que nunca fizera até então naquela Copa, segundo o auxiliar – e comunicou: “Amanhã, você faz a preleção. E também fica responsável pelas alterações”. Na prática, o jogo de poder na comissão técnica mudava ali: Zwartkruis passaria a ter tanta autoridade quanto (ou até mais do que) Happel.

Na segunda fase, a arrancada para a final

Se foi por pressão da KNVB sobre Happel ou se foi pela vontade própria do técnico, nunca se soube. Mas o fato é que a Holanda mudou da água para o vinho, em sua estreia num dos quadrangulares semifinais daquela Copa. Zwartkruis fez três mudanças na escalação: lesões de Neeskens, Suurbier e Rijsbergen levaram às entradas de Poortvliet, Brandts e do lateral Piet Wildschut. Além disso, Schrijvers substituía Jongbloed no gol. Tudo isso serviu para uma atuação muito mais animadora. Arie Haan, enfim, engrenou na armação das jogadas. Rensenbrink mostrou classe no ataque, enquanto a velocidade ficou com Willy van de Kerkhof, e a precisão na área, com Johnny Rep. Na defesa, Krol assumia a responsabilidade: se convertia num zagueiro altamente técnico, até mesmo se convertendo em "líbero" caso necessário, para virar um dos melhores defensores daquele torneio. Resultado: uma goleada por 5 a 1. A Laranja voltava a ser respeitada na Copa de 1978.

 

Melhor augúrio, impossível. Afinal, o jogo seguinte era justamente um reencontro com a Alemanha, algoz na final de 1974. Era uma equipe em reformulação, mediana, a alemã: acumulava o surgimento de Karl-Heinz Rummenigge à permanência de gente como Sepp Maier e Berti Vogts. No entanto, ainda se mostrava capaz de crescer em clássicos. Foi o que aconteceu: contra a vice-campeã mundial, a campeã abriu o placar logo aos três minutos, com Rüdiger Abramczik.

A Oranje sentiria o baque? Haan diria não: o meio-campista começou a mostrar a habilidade impressionante nos chutes de longe, empatando aos 27 minutos, num arremate que deixou Maier apenas olhando a bola entrar, no ângulo direito, encerrando o que até então era a maior invencibilidade de um goleiro na história das Copas (475 minutos). Pareceu até verdadeiro o que o camisa 9 comentou, à revista Voetbal International, na edição posterior àquele jogo: “Naquele chute foram quatro anos de ódio”.

O equilíbrio seguiu no segundo tempo. Dieter Müller recolocou os alemães na frente aos 25 minutos. Mas a Holanda mandou uma bola na trave, acelerou a troca de passes, não descansou até René van de Kerkhof empatar, aos 37 minutos. No fim de jogo, Nanninga ainda foi expulso. Mas o empate valeu para provar o espírito de luta holandês.

 

Quanto mais dificuldades encarava na segunda fase, mais a Holanda crescia. Sob o comando implícito de Zwartkruis, os destaques ofensivos melhoravam: Haan assumia de vez o destaque no meio-campo, Rensenbrink e Rep se convertiam nos goleadores de que a Holanda precisava, os irmãos Van de Kerkhof eram velozes, Neeskens seguia como o coadjuvante valioso que sempre foi naquela geração. Se havia alguma dúvida da capacidade, ela acabou na emocionante partida que levou a equipe laranja à sua segunda final seguida de Copa, contra a Itália, em 21 de junho, no Monumental de Núñez. Nada pior do que a jogada do primeiro gol da Azzurra, para fazer crer que a Holanda se renderia às decepções: ainda no primeiro tempo (19 minutos), numa falha de Ernie Brandts (pressionado pela marcação, o zagueiro “chutou” para o próprio gol), no azar de Schrijvers (o goleiro se chocou com Brandts, e o choque rendeu uma lesão que o fez ser substituído por Jongbloed, chegando assim à segunda final de Copa).

A Itália abriu o placar na decisão pela vaga na final. No mesmo lance, Schrijvers (deitado, à esquerda) se machucou. Mas a Holanda partiu dali para a decisão da Copa - e Brandts, autor do gol contra, fez a favor (ANP Archief)
Se no primeiro tempo Brandts ficou ameaçado de ser o vilão, na etapa final o zagueiro afastou tal perigo da melhor maneira possível: empatando o jogo. E empatando bonito: num chute forte, tirando logo a perna para evitar a chegada dos zagueiros italianos, mandando a bola no ângulo direito de Dino Zoff. O empate já tranquilizava a Laranja: pelo saldo de gols, ele já a garantia na decisão. Mas faltava um lance que simbolizasse como aquela equipe melhorara na reta final do Mundial. Este lance veio aos 32 minutos do segundo tempo: como contra a Alemanha, Haan avançou com a bola pelo meio. Também como contra a rival, o meio-campista arriscou o chute, até de mais longe. E a bola tomou o caminho das redes de Zoff, ainda batendo na trave, antes de sacramentar a virada, a vitória, a vaga holandesa na final, e se tornar um dos mais bonitos gols em chutes de fora na história da Copa. Só não foi o tento mais belo daquele torneio porque Nelinho faria o que faria, na decisão do 3º lugar.

 

A final: violência, uma pitada de técnica, e o "quase"

25 de junho de 1978. De novo, a Holanda tentaria seu primeiro título mundial – e de novo, contra a seleção anfitriã. Porém, desde o começo da preparação naquele dia, os holandeses tiveram a impressão de que seriam testados psicologicamente, diante de um país que parecia não aceitar outro resultado que não fosse o título mundial. Em primeiro lugar, o ônibus da delegação demorou a chegar ao Monumental de Núñez, preso pela torcida argentina que lotava as ruas. Nos vestiários, a preleção de Ernst Happel foi curta e grossa: “Meus senhores, [ganhem] dois pontos”.

Depois, pouco antes do começo do jogo, um fato muito lembrado pelos holandeses. Com a mão quebrada, René van de Kerkhof jogara com o local coberto de gesso durante toda a segunda fase – sem problema nenhum. Até a final da Copa: com os protestos do capitão argentino Daniel Passarella, o árbitro italiano Sergio Gonella obrigou Van de Kerkhof a cobrir o gesso. Aí, a irritação foi dos holandeses: Ernst Happel chegou até a ameaçar retirar o time de campo. Antes que o início da decisão atrasasse mais, o gesso foi coberto por ataduras, e enfim a partida começou.

E quando começou, pareceu dar razão ao que Ruud Krol disse, anos depois: “Foi o jogo mais duro da história das Copas”. Cada dividida simples era motivo para discussões – ou até para mais perigo: no intervalo, não faltaram manchas de sangue nas camisas laranjas, ou mesmo lábios inchados, ou até dois dentes perdidos por Neeskens, após uma cotovelada de Passarella. No que se viu de bola correndo, a Holanda até começou aproveitando mais o nervosismo argentino – Ubaldo Fillol fez milagre, espalmando chute de Rep à queima-roupa -, só que aos poucos a Albiceleste uniu talento e velocidade, para abrir o placar com Mario Kempes, já no final do primeiro tempo.

O ritmo do jogo foi parecido no segundo tempo. A Argentina pressionava, mas também buscava se impor fisicamente, fosse qual fosse o efeito. E se a Holanda buscava atacar mais, com a entrada de Dick Nanninga para fortalecer o jogo aéreo, também não fugia das divididas. Até uma linha de impedimento mal feita pelos argentinos, aos 36 minutos. René van de Kerkhof cruzou da direita, Nanninga entrou de cabeça e completou para a meta vazia – por mais que a câmera tenha focado a comemoração de Poortvliet após o gol, foi do atacante do Roda JC, falecido em 2015, o 1 a 1.

Foi o melhor momento da Holanda no jogo. A Argentina se abalara naquele final de jogo, temerosa de que pudesse perder a Copa em casa. E foi nos acréscimos que um lance fortuito se converteu, até hoje, como o maior símbolo do “quase” que persegue a Laranja nas Copas do Mundo - talvez só o gol perdido por Arjen Robben, no segundo tempo da final de 2010, chegue perto de simbolizar a mesma coisa.

Aos 45 minutos, já caminhando para os 46, um chute alto levou a bola para a área. Rensenbrink – “De Slangeman”, o homem-cobra, apelidado assim pela magreza e pela habilidade nos movimentos – chegou pela esquerda, indo dividir a bola com Fillol e um zagueiro. Aí, o camisa 12 laranja foi o primeiro a colocar o pé. Parecia uma jogada sem perigo. Tempos depois, o próprio atacante afirmou: “Aquilo não era uma chance propriamente dita. Foi até engraçado eu ter mandado a bola na trave”. Pois é: o pé de Rensenbrink mandou a esférica na trave direita de Fillol. Se tivesse entrado, seria praticamente o gol a levar a Holanda ao panteão dos campeões mundiais. Para o escritor inglês David Winner – autor do seminal Brilliant Orange (2000), livro a traçar relações entre o futebol e a cultura holandeses -, o gol que faria Rensenbrink virar um dos nomes mais conhecidos da história do país. Mas o que até hoje ecoa nos ouvidos de quem viu aquele jogo é o do narrador Theo Reitsma, da NOS, emissora pública holandesa: “Rensenbrink! Tegen de paal!” (“Rensenbrink! Na trave!”).

 

O gol da virada não veio. Imediatamente depois, Sergio Gonella apitou o final do tempo regulamentar. A Argentina pôde usar a pausa rumo à prorrogação para recobrar o ânimo e a calma perdidos momentaneamente após o empate holandês. Antes do fim da primeira parte do tempo extra, Kempes também encarou uma dividida, após driblar Jongbloed, mas conseguiu superá-la e acertou o que devia: o gol. A partir dali, a Holanda já sabia: a Copa estava perdida. O gol de Daniel Bertoni, sacramentando o primeiro título mundial argentino, só confirmou isso.

 

E uma Copa que poderia ter refletido uma admirável reação holandesa às adversidades – a saída precoce de Cruyff, a deserção inesperada de Van Hanegem, as atuações decepcionantes da primeira fase – resultou num vice-campeonato mundial pouco lembrado, 40 anos depois. Talvez até “comemorado” pelos holandeses, que pensam no que poderia acontecer em uma Argentina incendiária, caso não fosse ela a campeã mundial. Ficou apenas a memória do “futebol numa guerra suja”, como foi batizado um livro sobre a campanha holandesa naquela Copa. E talvez por isso, por esse anticlímax tão bem simbolizado por aquela bola de Rensenbrink na trave, a Copa de 1978 virou apêndice da de 1974. Mesmo que o final igual tenha sido alcançado de modo diferente.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 18 de maio de 2018)

sábado, 12 de maio de 2018

Melhor do que a Eredivisie

Mount (à esquerda) foi o destaque de uma das surpresas das repescagens: a fácil vitória do Vitesse (vitesse.nl)
Sabe-se que a temporada de futebol não acaba na Holanda com a 34ª e última rodada do Campeonato Holandês. Já nesta semana, estão acontecendo as duas repescagens. Uma em cima: pela vaga na segunda fase preliminar da Liga Europa, a última à disposição do país nas competições continentais, entre o quinto e o oitavo colocados da Eredivisie - a rigor, entre o quarto e o sétimo colocados, mas o Feyenoord, ocupante da quarta posição, já tinha seu lugar, campeão da Copa da Holanda que é. A outra é mais dramática, na qual Roda JC (antepenúltimo colocado) e Sparta Rotterdam (penúltimo) jogam a salvação contra outros seis times, vindos da segunda divisão. Pois bem: as duas começaram de modo surpreendente. Para muitos, até mais do que a temporada toda.

Buscando o lugar na Liga Europa, estão Utrecht, Vitesse, ADO Den Haag e Heerenveen. E as partidas que fizeram, na quarta recente, já esquentaram inesperadamente o clima que parecia morno. Vitesse e ADO Den Haag abriram a disputa, com o jogo de ida, em Haia. Mesmo terminando uma posição abaixo (7º lugar), o Den Haag parecia num crescimento mais promissor: com o atacante Bjorn Johnsen marcando muitos gols – foram dois do norueguês de ascendência americana nos 3 a 2 contra o Roda JC, na última rodada, ficando como vice-goleador da temporada –, Nasser El Khayati chamando a responsabilidade na criação das jogadas e uma zaga extremamente esforçada e fisicamente forte, o favoritismo leve pendia para os auriverdes, contra um Vitesse meio irregular, tentando se refazer em meio à reta final, até com troca de técnico (já com demissão anunciada, Henk Fräser deixou o time rodadas antes do fim da Eredivisie, e o auxiliar Edward Sturing assumiu).

Só que, mesmo numa montanha-russa de desempenho em campo, o Vites possui bons jogadores, também. O defeito no gol, com as falhas do veterano Remko Pasveer, foi minorado: o reserva Jeroen Houwen substituiu Pasveer nas oito rodadas finais e não decepcionou. No ataque, os gols são tarefa cumprida tanto por Tim Matavz quanto por Bryan Linssen. Finalmente, do meio-campo do time de Arnhem saiu o homem que definiu o jogo de ida. Emprestado pelo Chelsea, como se espera: Mason Mount. O armador inglês de 19 anos fez três gols, Matavz e Linssen ajudaram com um tento cada, o Vitesse abriu 4 a 0 já no primeiro tempo... e o 5 a 2 deixa o time aurinegro em excelentes condições para a volta, neste sábado, em seu GelreDome. 

Se o primeiro jogo para definir o finalista do play-off “de cima” surpreendeu pela facilidade, o segundo surpreendeu duplamente. Afinal, o Utrecht não é considerado só franco favorito contra o Heerenveen, mas também à própria vaga na Liga Europa (quando nada, porque decidiu a repescagem nas duas últimas temporadas – e ganhou a vaga, na passada). Pois bem: no primeiro tempo da ida, mais eficiente e sortudo, o Heerenveen fez 2 a 0, com um gol de falta contando com desvio (Yuki Kobayashi) e outro com erro dos Utregs na saída de bola (Reza “Gucci” Ghoochannejhad). Mais do que isso: fez 3 a 0 no início do segundo tempo (Daniel Hoegh).

Utrecht batido? Nada disso: o time visitante diminuiu para 3 a 1 logo após sofrer o terceiro gol, com Zakaria Labyad. Veio um revés até pior: a expulsão de Yassin Ayoub, exatamente um minuto depois do gol da esperança, de modo tolo (Ayoub fez falta, levou o primeiro amarelo, aplaudiu ironicamente o juiz Ed Janssen, e levou o segundo amarelo). Mas os Utregs cresceram... e empataram, com dez jogadores: Labyad fez de falta, e um arremate de Urby Emanuelson com desvio na zaga rendeu o 3 a 3. Aí, tentando manter um resultado que seria até admirável, o quinto colocado da temporada se fechou na defesa. Mas não adiantou: o Heerenveen fez 4 a 3 no final do jogo, com Denzel Dumfries. Seja como for, a partida de volta, neste sábado, em Utrecht, para definir o outro “finalista” pelo lugar na Liga Europa é altamente promissora.

O Dordrecht quebrou a banca nos play-offs pela vaga na Eredivisie: reverteu a grande vantagem do Cambuur (Pro Shots)
Se um mata-mata mais “normal” como o da parte superior da tabela já rendeu duas partidas empolgantes, o da definição de promovidos/mantidos/rebaixados tem fornecido momentos dignos das melhores finais de campeonato – como é comum na repescagem para tal fim, diga-se de passagem. Tome-se por exemplo a primeira fase, na qual Cambuur e Dordrecht fizeram uma das partidas. Na ida, fora de casa, o Cambuur pareceu encaminhar sua classificação à segunda fase, goleando os mandantes por 4 a 1. 

Como se não bastasse, no primeiro tempo da partida de volta, sábado passado, a equipe de Leeuwarden abriu o placar. O que aconteceu? Isso mesmo: o Dordrecht protagonizou uma emocionante reação. No segundo tempo, em 25 minutos, os “Cabeças de Cabra” viraram exatamente para 4 a 1, causando a necessidade de prorrogação, de disputa por pênaltis... e nela fizeram o impressionante: 5 a 3 nas cobranças, e classificação merecidamente comemorada.

As dificuldades do Dordrecht seguem na segunda fase: afinal, o time pega o Sparta Rotterdam, vindo da Eredivisie. E mesmo em casa, a equipe era superada até com facilidade pelo adversário de Roterdã, que fazia 1 a 0 e controlava o jogo... até o “golaço contra” de Stijn Spierings, dando o 1 a 1 de graça aos mandantes em Dordrecht. Pelo menos, o Sparta consertou as coisas, com o 2 a 1 que lhe devolveu vantagem para a volta, no que pode ser o jogo final da carreira do técnico Dick Advocaat, em caso de rebaixamento dos “Spartanen” (pelo menos, é o que o próprio promete).

Também mereceu destaque a alta movimentação das coisas em Telstar x De Graafschap. Há 40 anos sem jogar a Eredivisie, o Telstar fez 2 a 0 no primeiro tempo – e ainda ficou com um homem a mais. Novamente, outro jogo que parecia definido tomou o caminho inverso: em dois minutos da etapa final, entre os 27 e os 29 minutos, os visitantes da cidade de Doetinchem empataram. O Telstar ainda fez 3 a 2, mas já se anseia pelo que poderá vir do estádio De Vijverberg, no próximo domingo.

Assim como certamente será cercado de tensão o Roda JC x Almere City da volta, com o empate sem gols que se viu na cidade de Almere. E até mesmo o FC Emmen, que nunca jogou na elite, e viu o sonho de disputar uma das vagas aumentar com a goleada sobre o experiente NEC (4 a 0 num time que jogou a Eredivisie em 2016/17!), deve manter cautela. É o que também recomendou Edward Sturing para a repescagem pela Liga Europa, ao Vitesse que comanda: “O Cambuur também pensava que estava tudo definido”. Razões para essas precauções, não têm faltado.

E é por isso, até, que a “Nacompetitie” (nome que os holandeses dão às repescagens) tem empolgado. A ponto de haver quem brinque, mídias sociais afora, que ela está sendo melhor do que a própria Eredivisie. Ou quem sugira a adoção do mata-mata...

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 11 de maio de 2018)

terça-feira, 8 de maio de 2018

Play-offs pela Liga Europa: reação para quem?

Haller se despediu do Utrecht colocando o time na Liga Europa, via repescagem. E os Utregs estão lá de novo (Gerrit van Keulen/VI Images)
Como já se sabe, para seis clubes do Campeonato Holandês, a temporada ainda não acabou. Sparta Rotterdam e Roda JC começarão a disputar sua sobrevivência, na repescagem de acesso/manutenção/descenso. Mas o que ainda chamará alguma atenção no futebol do país são os play-offs que rendem a última vaga da Holanda num torneio continental: na segunda fase preliminar da Liga Europa, em 2018/19.

E curiosamente, de um modo ou de outro, a decisão envolvendo do quinto ao oitavo colocado (originalmente do quarto ao sétimo, mas o Feyenoord, quarto lugar, já está na Liga Europa) terá várias equipes tentando consolidar a recuperação que experimentam, na reta final da temporada. Há uma exceção - por sinal, justamente a equipe que venceu a repescagem continental em 2017/18. Mas ela pode ser vitimada, por essas reações. Elas serão descritas no miniguia a seguir.

Utrecht x Heerenveen

Jogo de ida: nesta quarta, às 15h45, em Heerenveen
Jogo de volta: sábado (15h45), em Utrecht

Ayoub está de saída para o Feyenoord. Mas pode se destacar, ajudando o Utrecht a ir à Liga Europa outra vez (Pieter Stam de Jonge/VI Images)
Utrecht (5º colocado na Eredivisie regular)

Quando Erik ten Hag tomou o caminho do Ajax, por vontade própria, em janeiro, durante a pausa de inverno, ficou a pergunta: faria diferença no bom caminho que o Utrecht fazia até aquele momento, em quarto lugar? A resposta? Não fez. Principalmente, por causa do ótimo início de returno feito sob o técnico promovido: Jean-Paul de Jong, auxiliar de Ten Hag (foram oito jogos de invencibilidade - quatro empates e quatro vitórias). A regularidade foi mantida - apenas três derrotas. Os destaques seguiram jogando bem, com Yassin Ayoub e Zakaria Labyad. Outros cresceram de produção, como Sander van de Streek e o "reserva habitual", Cyriel Dessers. E os Utregs voltaram a um cenário que conhecem: a repescagem pela Liga Europa. De novo, como favoritos a pegarem a vaga.

Numa temporada irregular, o Heerenveen pode consertar tudo. E os gols de Reza podem ajudar nisso (Ronald Bonestroo/VI Images)
Heerenveen (8º colocado na Eredivisie regular)

Eis que, por linhas tortas, o Heerenveen acabou escrevendo certo. Não faltaram irregularidades no desempenho técnico do time, na temporada. O trabalho de Jürgen Streppel no banco pareceu estagnado - a tal ponto que o treinador anunciou sua saída com o returno em andamento. Para piorar, as lesões que tiraram da temporada dois personagens importantes: Martin Odegaard e Stijn Schaars. Pelo menos, alguns jogadores se mantiveram bem, como Denzel Dumfries, na lateral direita, e Reza Ghoochannejhad, no ataque. E a queda brusca de desempenho do Zwolle permitiu que o Fean chegasse à repescagem, mesmo com duas derrotas nas duas rodadas finais. De novo, o adversário na "semifinal" será o Utrecht, como em 2017/18. De novo, o clube entra como azarão.

Vitesse x ADO Den Haag

Jogo de ida: nesta quarta, às 13h30, em Haia
Jogo de volta: sábado (12.05), às 13h30, em Arnhem

Linssen foi garantia de gols nos bons momentos do Vitesse. Pode ajudar a equipe a fechar bem temporada irregular (Ronald Bonestroo/VI Images)
Vitesse (6º colocado na temporada regular)

Outro time que terá nos play-offs a chance de dar um final honroso a uma temporada irregular. Afinal de contas, o Vitesse é o mesmo time que venceu por duas vezes o Ajax (2 a 1 em Amsterdã, 4 a 2 em Arnhem) e caiu para uma equipe amadora na Copa da Holanda. É o mesmo time que viu a saída antecipada do técnico - Henk Fräser não só já anunciara deixar o clube quando a temporada acabasse, como saiu antes mesmo do fim da Eredivisie - e viu boas atuações em campo, como as dos atacantes Bryan Linssen e Tim Matavz. O interino Edward Sturing ainda fez outras alterações na equipe, como efetivar Viacheslav Karavaev na lateral direita e Jeroen Houwen no gol, tornando a defesa mais segura. Deu para se manter na zona da repescagem. Será suficiente para a vaga?

Johnsen (à esquerda) marca os gols; El Khayati faz as jogadas; e o ADO Den Haag sonha vê-los brilhando na repescagem (Gerrit van Keulen/VI Images)
ADO Den Haag (7º colocado na temporada regular)

Eis, talvez, o caso mais notável de reação na Eredivisie. Não que o ADO Den Haag tenha patinado em posições inferiores e subido irresistivelmente: o time de Haia sempre frequentou a zona segura da tabela durante a temporada. No entanto, o único nome digno de destaque era Nasser El Khayati, criador das jogadas no meio-campo - junto a outros ídolos da torcida, como o goleiro Robert Zwinkels e o zagueiro Tom Beugelsdijk (este, mais pela fidelidade ao clube do que pelo nível técnico). Aos poucos, os atacantes melhoraram. Bjorn Johnsen, então, começou a marcar até se tornar vice-artilheiro da Eredivisie. E o Den Haag alcançou os play-offs, contando com a força individual para superar o Vitesse.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

810 minuten: como foi a última rodada da Eredivisie

O êxtase de Alireza: três gols para frustrar o Zwolle, impulsionar a goleada do AZ e se tornar o goleador máximo da Eredivisie na temporada (Ed van de Pol/az.nl)
AZ 6x0 Zwolle (domingo, 6 de maio)

O Zwolle era o segundo pior time do returno do Campeonato Holandês. Mas ainda tinha uma chance de evitar a decepção: caso ganhassem do AZ, em Alkmaar, os Zwollenaren garantiriam a vaga na repescagem pelo lugar na Liga Europa. Não foram necessários mais do que treze minutos para que o AZ mostrasse a inevitabilidade da tristeza para os "Dedos Azuis". Por outro lado, Alireza Jahanbakhsh começou a brilhar: chutou forte, o goleiro Diederik Boer deixou a bola passar, e os Alkmaarders fizeram 1 a 0. Era o 19º gol do iraniano, na disputa para ser o goleador da Eredivisie - e  o 20º quase veio aos 21', quando Guus Til lançou a bola e ele perdeu por pouco. Independentemente do destaque, a superioridade do terceiro colocado da Eredivisie era gigante ao final do primeiro tempo: muitas chances criadas com os 72 por cento de posse de bola.

Mas na etapa final, a atuação melhor do AZ ficaria indiscutivelmente clara. Aos 52', Alireza marcou o segundo no jogo - e o 20º na temporada -, ao completar cruzamento de Teun Koopmeiners. Mais dez minutos, e numa jogada de noruegueses, veio o 3 a 0: Jonas Svensson tocou, e Fredrik Midtsjo conferiu para o filó adversário. Totalmente atarantado e abatido em campo, o Zwolle foi ferido de morte por Wout Weghorst: com dois gols em dois minutos (aos 76' e aos 77'), o atacante levou o placar a 5 a 0. Mas faltava o toque final na boa vitória do time da casa, o golpe final no decepcionante Zwolle, fora das competições europeias. Não faltou mais, aos 88': Alireza marcou o terceiro gol no jogo. O sexto da goleada do AZ. O 21º gol do iraniano, o primeiro asiático artilheiro da história da Eredivisie.

Johnsen (à esquerda) cumpriu sua tarefa: fazer gols. E mesmo com a pressão no fim, o ADO Den Haag tentará um lugar na Liga Europa (ANP/Pro Shots)
Roda JC 2x3 ADO Den Haag (domingo, 6 de maio)

O lance do primeiro gol do Den Haag, logo aos três minutos de bola rolando, deixou claro como o dia seria bom para Bjorn Johnsen. Afinal, o primeiro tento do norueguês no jogo veio na sorte: o goleiro Hidde Jurjus demorou para repor a bola em jogo - e quando a repôs, ela ricocheteou em Johnsen e foi direto às redes, colocando-o na disputa pela artilharia: era seu 18º gol no campeonato. O Roda JC até trouxe perigo aos 20' - Dani Schahin cabeceou, e a bola foi rente à trave do goleiro Indy Groothuizen. Mas o Den Haag já encaminhou o triunfo que lhe daria o lugar na repescagem pela Liga Europa: aos 23', Lex Immers cabeceou escanteio de Nasser El Khayati para o 2 a 0, e Johnsen marcou o 19º gol na temporada aos 34', fazendo 3 a 0 ao completar a bola cruzada por Sheraldo Becker.

Parecia garantido um dia tranquilo para os visitantes de Haia. Mas os Koempels mandantes foram atrás dos gols, para trazer mais perturbação. Aos 56', Schahin errou e acertou na sequência: o alemão primeiro mandou a bola no travessão, para depois fazer o primeiro gol do Roda JC, completando passe de Tsiy William Ndenge com um toque, encobrindo Groothuizen. Mais cinco minutos, e o Roda trouxe o placar para 3 a 2: Simon Gustafson, de pênalti. Pouco depois, Becker e Johnsen foram substituídos. E o ADO Den Haag se concentrou em conter a pressão dos mandantes na fase final do jogo, em busca do empate. Conseguiu. E a temporada continua para os Hagenaren, sétimos colocados, que pegam o Vitesse na primeira fase da repescagem por um lugar na Liga Europa.

Berghuis tentou chegar à artilharia da Eredivisie, com seus dois gols. Não conseguiu. Mas mereceu os cumprimentos, de qualquer jeito: destaque em outra vitória do Feyenoord (ANP/Pro Shots)
Heerenveen 2x3 Feyenoord (domingo, 6 de maio)

Ao contrário do habitual, este jogo envolvendo um grande na Holanda foi animado. O Feyenoord buscou rápido o gol: logo aos dois minutos, Jean-Paul Boëtius finalizou duas vezes em sequência - a primeira foi rebatida pelo goleiro Martin Hansen, a segunda saiu. O Heerenveen ainda tentou aos 9', quando Arber Zeneli driblou para o meio, bateu, e Justin Bijlow (de novo tendo chance no gol Feyenoorder) rebateu. Mas seriam os visitantes que sairiam na frente, aos dez minutos, por obra e graça do destaque deles na temporada. Bijlow chutou para longe, Kevin Diks ajeitou, Berghuis dominou e decidiu arriscar de fora da área. No alvo: canto esquerdo de Hansen, bola nas redes, 1 a 0 Feyenoord - 17º gol do camisa 19 na liga.

O Fean só reagiu aos 19 minutos, quando Yuki Kobayashi mandou a bola na trave. Pois aos 26', Berghuis tratou de mostrar porque estava na disputa pela artilharia: em alguns segundos, mandou a bola na trave direita de Hansen (num chute colocado), e ainda forçou o goleiro dinamarquês a rebater outra tentativa, na área. Seguiu-se um momento de equilíbrio no jogo, até que, aos 41', a lei da vantagem ajudou Berghuis a marcar pela segunda vez no jogo - e pela 18º na Eredivisie. Amrabat passou a bola,  sendo derrubado após choque. Mas o juiz Danny Makkelie mandou seguir a jogada, pela esférica já estar com Vente, na direita. E foi do atacante que ela passou para Berghuis, que vinha pelo meio e concluiu no canto esquerdo para o 2 a 0 do Stadionclub.

Em dois minutos, no final do jogo, o Heerenveen ainda se animou com o empate. Mas ainda tomou mais um gol (sc-heerenveen.nl)
O Heerenveen voltou do intervalo com duas mudanças mais ofensivas: Doke Schmidt, para acelerar o jogo na lateral esquerda, e Jordy Bruijn, para dar mais mobilidade na frente. E até que deu certo: Zeneli quase marcou aos 65' - seu chute mandou a bola rente à trave direita de Bijlow. Mas o Feyenoord seguia tranquilo, e também buscou fortalecer o ataque, com as entradas de Bilal Basaçikoglu e Robin van Persie (este, aplaudido por toda a torcida, pela expectativa sobre a possibilidade de ter sido o último jogo da carreira do atacante). Só que a tranquilidade acabou com o primeiro gol do Heerenveen, aos 79'. Zeneli recebeu a bola de Kobayashi na esquerda, cruzou, e Bruijn entrou de carrinho, sozinho, para diminuir. Estava iniciado o frenético final de jogo no estádio Abe Lenstra. Que só ficaria mais incendiário com o empate do Fean, só dois minutos depois: Denzel Dumfries mandou a esférica para a área, e Jan-Arie van der Heijden tentou desviar para escanteio. Desviou para as próprias redes, tirando as chances de defesa de Bijlow no 2 a 2.

Já no contra-ataque seguinte, o Feyenoord quase passou à frente, com Hansen defendendo chutes de Berghuis e Basaçikoglu em sequência. Finalmente, aos 82', o ponto culminante dos minutos eletrizantes: Haps derrubou Bruijn na área, e Danny Makkelie marcou o pênalti. Poderia ser a virada consagradora do Heerenveen (mesmo que nem precisasse, com a goleada que o Zwolle sofria). Mas Bijlow negou: o goleiro do Feyenoord defendeu a cobrança de Zeneli. Foi a vez do Feyenoord se reanimar. Aos 83', quase Basaçikoglu marcou - Daniel Hoegh tirou a bola na pequena área, após o turco finalizar. Aos 88', Van Persie quase coroou sua entrada, ao completar passe encobrindo Hansen, mandando por cima do gol. E no último minuto, os visitantes conseguiram o 3 a 2 da vitória, com Basaçikoglu fazendo até melhor do que na chance anterior: um arremate colocado, no canto esquerdo de Hansen, que só ficou olhando. Mas mesmo com a derrota, até o Heerenveen teve razão para festejar: afinal, com a derrota do Zwolle, garantiu a última vaga na repescagem por Liga Europa.

Ritsu Doan (à direita) foi dos raros a criar chances, num 0 a 0 em clima de férias entre PSV e Groningen (Pro Shots)
PSV 0x0 Groningen (domingo, 6 de maio)

O jogo em Eindhoven teve a alegria típica do fim de temporada. Pelo menos antes do começo - e no intervalo, quando Davy Pröpper e Jürgen Locadia se despediram da torcida no Philips Stadion. Dentro, o começo teve pouco de animação. Só impressionaram mesmo as duas alterações forçadas que o PSV teve de fazer - a primeira, aos 21', quando Bart Ramselaar, golpeado na cabeça numa dividida aérea, deu lugar a Mauro Júnior. O Groningen ainda tentou algo aos 25', quando Tommie van de Looi cruzou da direita, e a bola passou pouco à frente de Tom van Weert na área, saindo pela linha de fundo. A resposta dos Boeren veio aos 28': Joshua Brenet mandou a bola para a área, e Steven Bergwijn tentou o domínio, mas a defesa conseguiu evitar.

Mais perigoso foi o que se viu no contra-ataque aos 29': Mauro Júnior lançou do meio, Brenet pegou na direita, cruzou, e Hirving Lozano desviou, mandando a bola em cima do goleiro Sergio Padt - no escanteio seguinte, Derrick Luckassen cabeceou rente à trave direita. Aos 34', de novo, Brenet mandou a bola do lado, e Jorrit Hendrix cabeceou no contrapé de Padt, que ainda se esticou para espalmar a bola, em boa defesa. Todavia, aos 41', o próprio Hendrix foi mais um do time campeão holandês a sair cedo: com lesão muscular, dando lugar a Pablo Rosario. De todo modo, o fim da etapa inicial teve uma boa chance dos Eindhovenaren, no último minuto: Mauro Júnior arriscou o que parecia um cruzamento - e se tornou chute perigoso, encobrindo Zoet e saindo sobre o gol.

Phillip Cocu teve de mudar duas vezes o time ainda no primeiro tempo, com as lesões de Ramselaar (foto) e Hendrix. Pelo menos, não havia muita coisa em disputa (Jeroen Putmans/VI Images)
No segundo tempo, até que as chances apareceram mais. Os visitantes do norte holandês tiveram boa oportunidade aos 51': Ritsu Doan chegou à área com a bola, pela direita, e chutou, mas Zoet saiu providencialmente para o rebote. Dois minutos depois, o PSV devolveu: Mauro Júnior cruzou, e Bergwijn escorou à direita do gol, sem equilíbrio. A partir de então, os Eindhovenaren cresceram em busca do gol. Aos 58', Kenneth Paal cruzou, e Pereiro completou desviando. Padt só pôde olhar, mas a bola saiu sobre o travessão, passando perto. E depois, aos 65', Brenet alçou a bola, e Mauro Júnior completou de primeira, quase sem ângulo - para Padt espalmar, resultando em escanteio.

A partir daí, foi a vez do Groningen pressionar, até com mais perigo. Aos 73', após cobrança de escanteio, Van Weert desviou de cabeça, e Zoet foi buscar no canto direito - ainda ajudado por Lozano, que bloqueou a bola em cima da linha antes da defesa definitiva. Cinco minutos depois, um chute de Ritsu Doan, defendido por Zoet em dois tempos. E a última chance para tirar o zero do placar foi para o dono da Eredivisieschaal: aos 87', Pereiro ajeitou para Mauro Júnior, mas o brasileiro arrematou para fora, à direita de Padt. Só aí, os times puderam celebrar o que pareceram desejar durante os noventa minutos: a chegada das férias. Que sejam boas.

Provavelmente tendo Ziyech pela última vez, o Ajax encarou dificuldades, pelo azar de um gol contra. Mas conseguiu virar para 2 a 1 contra Excelsior e teve sossego (ANP/Pro Shots)
Excelsior 1x2 Ajax (domingo, 6 de maio)

O ambiente do Ajax anda tenso: críticas à diretoria, a alguns jogadores, ao técnico... mas era o último jogo. Ocasião propícia para estreias tranquilas - como a de Kostas Lamprou, substituindo André Onana no gol, e de Azor Matusiwa, titular pela primeira vez no meio-campo. E o time de Amsterdã mostrava o de sempre: mais posse de bola, diante de um rival fechado. Mas que também ousava avançar: aos 7', Hicham Faik chutou de primeira, após receber bola do lado esquerdo. Mas o arremate em diagonal saiu pela linha de fundo. Os Ajacieden trouxeram mais perigo na primeira vez em que se aproximaram do gol. Aos 15', do meio-campo, Ziyech lançou a bola em profundidade. Kluivert pegou, já na área, e concluiu para a boa defesa do goleiro Ögmundur Kristinsson.

Porém, uma falha de comunicação rendeu ao Excelsior o surpreendente 1 a 0. Aos 20 minutos, após um lançamento alto da direita, Matthijs de Ligt dominou, e recuou a bola visando Lamprou. Só que o arqueiro grego já saía do gol. Resultado: tentou voltar correndo, para pegar a esférica que ia rumo ao gol vazio. Não conseguiu, e ela entrou lenta nas redes, no gol contra involuntário de De Ligt. Começava aí nova onda de protestos da torcida que saiu de Amsterdã a Roterdã, com Erik ten Hag como o principal alvo: o técnico do Ajax tinha de ouvir coros como "Erik, rot op" ("Erik, f***-se") e "Nooit zo'n slechte team gezien" ("Nunca vimos um time tão fraco"). Para piorar, Klaas-Jan Huntelaar já tivera de sair no primeiro tempo: lesionado, o atacante deu lugar a David Neres.

O Excelsior sequer chutou a gol no primeiro tempo. Mas um recuo de De Ligt, que pegou o goleiro Lamprou saindo do gol... e 1 a 0 para o Kralingers (Den Breejen/VI Images)
Para resolver a situação preocupante, tão logo a partida recomeçou, o Ajax se mostrou mais acelerado. Já aos 47', David Neres fez a triangulação com Van de Beek, recebeu já na área, e tentou finalizar mesmo sem ângulo. Mas Kristinsson rebateu para fora. Segundos depois, veio o empate Ajacied. De novo, graças a um primor de lançamento de Ziyech: da direita, o marroquino cruzou para a área. A bola foi com precisão na cabeça de Justin Kluivert, que estava bem colocado para cabecear e fazer 1 a 1. Depois, aos 51', Ziyech tentou ele mesmo finalizar, aos 51', mas o arremate saiu à esquerda de Kristinsson. Mais dois minutos, e a blitz ofensiva dos visitantes rendeu a virada. Kasper Dolberg arriscou o chute, e Kristinsson rebateu; na sobra, David Neres tentou, e Jürgen Mattheij tirou em cima da linha; aí, Ziyech foi derrubado na área, e o juiz Bas Nijhuis marcou o pênalti. Escalado como titular para ganhar ritmo de jogo (quem sabe, rumo a uma eventual convocação para a seleção da Dinamarca que jogará a Copa do Mundo), Dolberg bateu e fez 2 a 1.

A partir de então, o jogo teve algum equilíbrio. Aos 56', dois lances mostraram algum equilíbrio. Justin Kluivert finalizou em cima de Jürgen Mattheij - para muitos, a bola bateu no braço do zagueiro. Na sequência, o Excelsior contra-atacou, e Van Duinen cabeceou para a defesa de Lamprou. Depois, o Ajax chegou mais perto do terceiro gol. Dolberg ainda tentou aos 70': dominou a bola vinda de Ziyech e completou, para Kristinsson rebater com os pés. E aos 74', Donny van de Beek tentou encobrir o goleiro islandês do Excelsior, mas este ainda espalmou por cima do gol. Nos dez minutos finais, os Kralingers mandantes é que tiveram boas chances para empatar - aos 88', num cabeceio de Mattheij, que Lamprou agarrou em cima da linha, e no minuto seguinte, quando Mike van Duinen cabeceou e Ziyech evitou o gol junto à trave. Mas o Ajax conseguiu segurar a vitória para encerrar a campanha. Agora, é lidar com os problemas - como as virtuais saídas de Ziyech e Kluivert. O Excelsior, pelo menos, se despediu tranquilamente do técnico Mitchell van der Gaag. Afinal, fazia tempo que o time não se livrava do rebaixamento com algum sossego.

O Heracles Almelo ficou duas vezes atrás no placar, mas ainda correu atrás da goleada no Sparta (Harry Broeze/heracles.nl)
Sparta Rotterdam 2x5 Heracles Almelo (domingo, 6 de maio)

Já sabendo que jogará tudo na repescagem, em busca da manutenção na Eredivisie, o Sparta abriu o placar aos 25 minutos: Miquel Nelom cruzou da direita, e Fred Friday completou para o 1 a 0 dos "donos do Kasteel". O Heracles demorou apenas 60 segundos para empatar: Kristoffer Peterson fez jogada individual antes de finalizar para o gol. Já na etapa complementar, os Spartanen passaram novamente à frente aos 50', quando Stijn Spierings completou após bate-rebate na área.

Aí, os Heraclieden acabaram com a brincadeira em Roterdã. Vincent Vermeij saiu do banco para o ataque aos 60' - e aos 61', já justificava sua entrada com o 2 a 2, também depois de disputa pela bola na área. E aos 78', Tim Breukers mandou a esférica no barbante adversário com um chute forte. Estava virado o placar para os visitantes de Almelo, que ainda transformaram a vitória em goleada com dois gols nos acréscimos (Vermeij, de novo, e Paul Gladon) para terem um final tranquilo.

A interrupção do jogo no segundo tempo foi o símbolo da triste interrupção do caminho do Twente na Eredivisie (Tom Bode/VI Images)
Twente 1x1 NAC Breda  (domingo, 6 de maio)

A despedida do Twente da primeira divisão já era carregada de certa melancolia no Grolsch Veste. Correu-se o risco de ficar pior ainda aos 16 minutos: Mitchell te Vrede deixou a bola a Menno Koch, e o volante arriscou chute forte para fazer 1 a 0. Só então o Twente partiu para buscar o empate: Ryan Trotman (estreante) e Adam Maher tentaram o gol em arremates distantes, mas o goleiro Nigel Bertrams estava a postos. Só não foi possível impedir o empate, aos 39': Manu García perdeu a bola para Maher, e o meio-campista cruzou para Dylan George colocar o 1 a 1 no placar.

Porém, a melancolia voltou a ser vista na volta do intervalo. E carregada de tensão: com a torcida da Vak-P (setor atrás de um dos gols do Grolsch Veste) atirando bombinhas e sinalizadores no gramado, o juiz Edwin van de Graaf parou o jogo por cerca de cinco minutos, ainda no início do segundo tempo. Na volta, o único momento de mais perigo foi o chute de Pablo Marí na trave. E o único time a comemorar algo no empate foi mesmo o visitante, que ficará mais um ano na elite, enquanto o Twente verá como é a segunda divisão. Pelo menos, a torcida terá desconto no sócio-torcedor.

O Utrecht ainda garantiu mais uma vitória antes da repescagem pela vaga continental (Maurice van Steen/VI Images)
Utrecht 1x0 VVV-Venlo (domingo, 6 de maio)

O Utrecht corria um pequeno risco: perder a quinta posição, caso fosse derrotado pelos Venlonaren, somando-se a eventual vitória do Vitesse. Passou longe de ser o caso. No primeiro tempo, os Utregs mandaram duas bolas na trave - a primeira num cabeceio de Dario Dumic, a segunda num chute de Cyriel Dessers, após jogada individual.

A superioridade seguiu no segundo tempo, mas só aos 71' veio o gol da vitória, com Mateusz Klich assegurando três pontos e a quinta posição. Assim, os Utregs seguirão a Heerenveen, para tentarem chegar à Liga Europa via play-offs pela segunda temporada seguida. E o VVV-Venlo passou mais sustos do que o necessário: com seis derrotas e um empate nas sete últimas rodadas, terminou na 15ª posição, primeira acima da zona de rebaixamento.

O Willem II até começou melhor no jogo, mas o Vitesse conseguiu empatar duas vezes (ANP/Pro Shots)
Willem II 2x2 Vitesse (domingo, 6 de maio)

O Willem II já poderia ter aberto o placar aos três minutos, se o goleiro do Vitesse fosse menos ágil: após arremate de Elmo Lieftink, Jeroen Houwen soltou a bola perto da linha, e ela quase entrou, mas o arqueiro conseguiu agarrar firme antes do gol. Mas aos 29', não houve como evitar: Ismail Azzaoui veio pelo lado e chutou na trave, mas Konstantinos Tsimikas estava perto o suficiente para aproveitar o rebote e colocar os mandantes na frente em Tilburg.

Já depois do intervalo, poderia ter vindo o segundo gol: Lieftink chegou à área em condições de chute, mas preferiu passar a Fran Sol, que buscava o posto de goleador. E o espanhol finalizou em cima de Houwen. Azar: aos 63', o Vitesse empatou, num cabeceio de Matt Miazga. Aos 70', Ben Rienstra ainda recolocou os Tricolores na frente, num bonito chute. Porém, aos 83', após Mason Mount tocar, Tim Matavz saiu da marcação e decretou o empate no Willem II Stadion, rendendo um ponto ao Vites antes de iniciar a repescagem pela Liga Europa. 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Os últimos atrativos desta Eredivisie

Alireza é carregado na comemoração de um gol: o artilheiro da Eredivisie é que tem levado o AZ nas costas (Pro Shots)
Ser artilheiro do Campeonato Holandês é um galardão traiçoeiro. Cabe repetir o porquê disso: para cada Marco van Basten, Dennis Bergkamp, Romário, Ronaldo ou Luis Suárez que saem da Holanda para ganharem respeito mundial, há quem tenha ficado famoso apenas dentro das fronteiras do país (Ruud Geels ou Willy van der Kuylen são goleadores admirados só nos Países Baixos), ou quem tenha se provado apenas razoável (Klaas-Jan Huntelaar, Bas Dost), ou quem tenha carbonizado a boa imagem pelas atuações abaixo da crítica em centros maiores (Mateja Kezman, Afonso Alves, Wilfried Bony). Talvez seja isso que vá acontecer com o artilheiro a sair da última rodada desta Eredivisie, neste domingo. Mas a disputa pelo posto de goleador ganhou atratividade, com o equilíbrio inesperado. 

Se durante boa parte da temporada Hirving Lozano pareceu destinado a ser aquele que mais colocou a bola nas redes, alguns percalços (como a suspensão de três jogos que o mexicano recebeu por uma expulsão contra o Heerenveen, no returno) e o crescimento de produção dos contendentes à artilharia resultou no cenário atual: apenas três gols separam o líder da tabela – Alireza Jahanbakhsh, do AZ, que marcou 18 vezes – dos 15 de Bryan Linssen, do Vitesse. Isso para nem falar de gente um pouco mais atrás, mas que mostrou talento ao colocar a esférica no filó adversário: aqui entra, por exemplo, David Neres e seus 14 gols, tornando o paulistano quem mais fez gols pelo Ajax na temporada inteira. O que torna tal disputa pela artilharia ainda mais peculiar é que cada competidor que buscará o posto na última rodada pode dizer que merecerá a artilharia. 

Para começo de conversa, cite-se Alireza Jahanbakhsh. Se o AZ ainda pode se orgulhar da temporada que fez (em que pese o péssimo desempenho contra os grandes – confirmado com a derrota para o Ajax, domingo passado – e a derrota na final da Copa da Holanda), grande parte do mérito vai para Alireza: o iraniano mostra velocidade pela direita, técnica nas finalizações, e se tornou mais regular à medida que a Eredivisie chegava ao fim. Prova disso foram os três gols feitos contra o Vitesse, há duas rodadas, levando-o aos 18 que lhe dão a liderança da tábua de goleadores. Garantir a posição ao marcar contra o Zwolle, no jogo derradeiro do time de Alkmaar na temporada, será um prêmio ao atacante, que já mostra talento desde os tempos de NEC – e também será uma consolidação de sua importância para o Team Melli que disputará a Copa do Mundo.

Logo abaixo de Alireza, com 17 gols, dividem a segunda posição entre os artilheiros dois jogadores. Um deles quase dispensa comentários: Lozano é um dos protagonistas no título do PSV, insinuante nos avanços pela esquerda, mostrando velocidade e até certa raça, “Chucky” certamente será um dos alvos para contratações em Eindhoven (alvo até mais ressaltado, dependendo do que faça na Copa do Mundo, virtual titular do México que será). No entanto, exatamente ao fazer seu 17º gol – semana passada, no 3 a 3 contra o ADO Den Haag -, Lozano teve um susto: caiu de mau jeito dentro do gol, após o cabeceio para as redes, e sentiu dores na clavícula, saindo de campo poucos minutos depois. A lesão foi leve e sua convocação certa para o Mundial não corre riscos, mas talvez ele seja poupado na despedida dos Boeren, contra o Groningen. O azar de Lozano seria a possível sorte de outro com 17 gols: Bjorn Johnsen, do ADO Den Haag, que logo será esmiuçado.

Com 16 gols, também sonhando com a última rodada, estão três nomes. Um deles é Steven Berghuis: dos raros pontos positivos na temporada decepcionante do Feyenoord, o atacante destoou da própria equipe em que atua. Assim como Alireza, a regularidade foi o ponto forte do ponta-direita do Stadionclub: Berghuis não sofreu com lesões como Nicolai Jorgensen ou Sam Larsson, tornou-se fundamental na equipe de Giovanni van Bronckhorst (coisa que Jens Toornstra não conseguiu ser). Por isso, sempre que a oportunidade se apresentou, o camisa 19 estava a postos para marcar. E pode muito bem fazê-lo neste domingo, contra o Heerenveen, fora de casa.

Hirving Lozano segue à espreita, mas Bjorn Johnsen foi outro atacante a brilhar na arrancada final da temporada (Aaron van Zandvoort/Soccrates)
Todavia, a história mais respeitável entre os candidatos à artilharia vem de outro com 16 gols: Fran Sol. O espanhol pode ser considerado o protagonista de uma das histórias mais tocantes da temporada europeia. O atacante do Willem II já começara bem a temporada, mas teve descoberto um tumor nos testículos, em outubro. Precisou desfalcar a equipe de Tilburg por alguns jogos, recebeu apoio da torcida, teve a aliviante notícia de que o tumor era benigno, voltou aos campos... e seguiu marcando gols – com destaque para o antológico 5 a 0 no PSV, em que pespegou três nas redes dos Eindhovenaren. Se os Tricolores estão livres da repescagem/do rebaixamento, Fran Sol é o grande responsável por isso dentro de campo – e por tudo que passou na temporada, já é um ídolo do clube. Ser o goleador do campeonato, com o Willem II pegando o Vitesse, seria um prêmio merecido.

Ainda há Wout Weghorst. Outro a marcar 16 gols, Weghorst compensa o nível técnico mediano com um porte físico respeitável e um senso de posicionamento bom o suficiente para transformá-lo no “homem-gol” do AZ, junto a Alireza. Porém, superou todos esses, na rodada passada, um aparente azarão. Que pode influir na outra grande história da última rodada, além da artilharia: a disputa pelas duas últimas vagas, na repescagem que rende um lugar na segunda fase preliminar da Liga Europa, disputada entre quinto e oitavo lugares da Eredivisie. Por ela se esforçarão Heerenveen (7º lugar, com 46 pontos), Zwolle (8º, com 44) e ADO Den Haag (9º, também com 44). O Zwolle foi considerada uma das equipes de estilo mais agradável no campeonato, pela ofensividade, mas o terrível desempenho no returno – segundo pior time, só à frente do rebaixado Twente – fez com que os “Dedos Azuis” ficassem seriamente a perigo de perderem um lugar que parecia certo nos play-offs pela vaga continental.

Sorte do Den Haag. Que além de mostrar mais solidez, vê o crescimento de Bjorn Johnsen na mais própria das horas. Não que o atacante norueguês de ascendência norte-americana já não se destacasse: se Nasser El Khayati armava as jogadas, era Johnsen quem as finalizava. Mas isso ganhou um novo patamar na rodada passada: o atacante fez os três gols do time de Haia, no empate com o PSV. E foi dividir a vice-artilharia com Hirving Lozano. Além de dividir com ele, Alireza, Fran Sol, Berghuis e Weghorst o sonho de ser o goleador da Eredivisie ao final das 34 rodadas – para, a partir daí, tentar provar o talento em estágios mais avançados.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 4 de maio de 2018)