terça-feira, 14 de junho de 2022

Valeu, mas...

As falhas da defesa quase colocaram uma vitória da Holanda a perder. Mas de novo, houve tempo para a salvação nos acréscimos - com Memphis Depay (à direita) (Pro Shots)

Os jogadores da seleção da Holanda se cansaram. Muitos tiveram de prolongar a temporada com os jogos da Liga das Nações. O técnico Louis van Gaal precisou alternar as escalações - mais titulares contra Bélgica e Polônia, mais opções alternativas contra o País de Gales. Assim foi, de novo, contra Gales, nesta terça-feira, em Roterdã. E a impressão ao final destas duas semanas de datas FIFA foi positiva, com ressalvas. Sim, ao buscar a vitória por 3 a 2 nos acréscimos diante dos galeses - de novo, como no 2 a 1 de Cardiff! -, a Laranja indicou que tem qualidade em sua equipe decente. Porém, como indicou a digna (de novo) atuação da equipe visitante em De Kuip, há problemas a serem consertados até a Copa. 

Tais problemas demoraram um pouco a aparecer, ainda. Porque, se o caso era testar de novo os jogadores mais jovens, Noa Lang e Cody Gakpo aproveitaram bem a oportunidade. Noa pela esquerda, Gakpo pela direita, os dois atacantes mostraram velocidade e ofensividade - tendo até a referência com Vincent Janssen, voltando a ser titular da seleção após cinco anos, numa atuação de mais ajuda que talento. Os dois gols, um de cada ponta, que abriram vantagem para a Holanda no placar - destaque para o bonito gol de Lang - prometiam o começo de uma atuação mais tranquila do que a vista contra a Polônia, sábado passado.

Porém, novamente, a defesa colocou tudo isso em risco. Novamente, Jordan Teze falhou - desta vez, com consequências: uma perda de bola do zagueiro, no meio-campo, abriu caminho para Brennan Johnson (jogara bem em Cardiff, voltou a jogar bem em Roterdã) diminuir a vantagem neerlandesa logo depois que ela fizera 2 a 0. Foi um sinal de que a Holanda, de fato, continua sofrendo com seus zagueiros - ainda mais quando Virgil van Dijk não está em campo. Stefan de Vrij no sábado, Matthijs de Ligt no domingo, ambos jogaram como comandantes do trio de zagueiro, mas nenhum deles com o mesmo controle e liderança dos colegas de zaga como o capitão da seleção.

A falha de Teze (camisa 2) no gol de Brennan Johnson foi o primeiro indício: a zaga holandesa ainda tem falhas notáveis (Perry vd Leuvert/NESImages/DeFodi Images via Getty Images)

Para tentar minorar essas falhas, Van Gaal já colocou mais titulares no segundo tempo: De Vrij e Denzel Dumfries já vieram a campo no começo dele. E as chances de ataque continuaram: um chute de Noa Lang cujo rebote Gakpo não conseguiu aproveitar aos 59', uma tentativa de Gakpo aos 72'. Pouco depois, Memphis Depay e Steven Bergwijn foram mais dois destaques a virem ao campo - e tentaram atacar, como Bergwijn, aos 76'. Porém, nenhuma delas foi ao local que deveriam ir: o gol de Wayne Hennessey.

Além do mais, mesmo voltando, a defesa deixava espaços suficientes para o time de Gales atacar. A boa atuação de Brennan Johnson ampliava os perigos. Aaron Ramsey veio a campo no segundo tempo. Mais alguns minutos, e veio Gareth Bale. Aos poucos, a defesa foi sendo acuada. Até um lançamento pelo alto, já aos 89', no qual Malacia acertou a cabeça de Connor Roberts, numa disputa aérea. Pênalti marcado, cobrança de Gareth Bale já nos acréscimos - e a Holanda parecia jogar fora uma vitória que parecia garantida, pelo demérito de sua defesa.

Só não jogou porque a história se repetiu: de novo, um gol neerlandês após tomar o empate. Agora, com Memphis Depay, aproveitando desatenção da zaga e contra-ataque rápido para o 3 a 2, também nos acréscimos. Um fim até merecido: a Laranja teve bom desempenho nessas datas FIFA, teve avanços, fez por onde para terminar em alta. Ou seja, valeu. Mas ficaram as falhas, como uma lembrança de que há muito trabalho a fazer até a Copa do Mundo. E poucos "treinos" serão melhores do que as rodadas finais da Liga das Nações, contra Polônia e Bélgica, em setembro.

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 4

Holanda 3x2 País de Gales
Data: 14 de junho de 2022
Local: De Kuip (Roterdã)
Árbitro: Horatiu Fesnic (Romênia)
Gols: 
Noa Lang, aos 17', Cody Gakpo, aos 23', Brennan Johnson, aos 26', Gareth Bale, aos 90' + 2, e Memphis Depay, aos 90' + 3

Holanda
Jasper Cillessen; Jordan Teze (Stefan de Vrij, aos 46'), Matthijs de Ligt e Bruno Martins Indi; Hans Hateboer (Denzel Dumfries, aos 46'), Teun Koopmeiners, Frenkie de Jong e Tyrell Malacia; Cody Gakpo, Vincent Janssen e Noa Lang. Técnico: Louis van Gaal

País de Gales
Wayne Hennessey; Ben Davies, Chris Mepham, Joe Rodon (Chris Gunter, aos 67') e Wesley Burns (Connor Roberts, aos 46');  Harry Wilson, Matthew Smith (Aaron Ramsey, aos 63'), Ethan Ampadu e Sorba Thomas; Daniel James (Gareth Bale, aos 70') e Brennan Johnson. Técnico: Rob Page

sábado, 11 de junho de 2022

Enfim, um teste

A Holanda sofreu no começo contra a Polônia, buscou o empate rapidamente... mas o erro de Depay num pênalti deixou um gosto ruim. Ainda assim, valeu (Pro Shots)

Se já vencera seus dois primeiros jogos pela Liga das Nações da UEFA, a seleção masculina da Holanda teria mais facilidade contra uma Polônia goleada pela Bélgica e sem Robert Lewandowski (poupado para jogar em casa, contra a Bélgica), certo? Errado, muito errado. Enfim, a Laranja teve um teste que mostrou sua real capacidade nesta Nations League. E o 2 a 2 em Roterdã exibiu muitas coisas dignas de serem valorizadas para a Laranja. Para o bem e para o mal. Até em termos de Copa do Mundo.

É até possível dizer que as coisas ruins foram mais visíveis, deixando o "gosto de derrota" descrito por Memphis Depay no fim da partida em De Kuip. A começar pelo primeiro tempo. A Oranje repetiu um problema crônico: teve mais a bola, ficou mais perto da área, pressionou, tentou chutes aqui e ali (Davy Klaassen, aos 7', Steven Berghuis, aos 15'). Porém, bastou um erro defensivo numa inversão de jogo polonesa para a partida ficar difícil. Daley Blind cedeu espaço a Matty Cash, e o lateral direito - inglês filho de mãe polonesa - chutou bonito, sem chances de defesa para Mark Flekken, titular no lugar de um lesionado Jasper Cillessen.

Eram somente 18 minutos do primeiro tempo. Mas já ali os problemas vistos se tornaram mais graves. A equipe dos Países Baixos teve chances - Blind perdeu gol aos 22', Steven Bergwijn arriscou aos 27' para o goleiro Lukasz Skorupski defender -, mas preferiu demais a troca de passes no meio, diante de uma equipe visitante bem fechada e compactada entre meio-campo e defesa, a tentar chutes de fora. Além do mais, seguido de perto por Piotr Zielinski, Frenkie de Jong não tinha o mesmo espaço para ditar o jogo, como costuma fazer. Era necessário um pouco mais de rapidez no segundo tempo.

A Polônia causou dificuldades defensivas até inesperadas para a Holanda, mesmo sem Lewandowski. E Blind virou o "bode expiatório", mesmo não sendo o único a falhar (Pro Shots)

E ela veio, no começo do segundo tempo. Assim como os espaços que a defesa começou a deixar, já que Jurriën Timber, Stefan de Vrij e Nathan Aké (boa atuação) tinham campo livre para avançar. Bastou a Polônia ser eficiente de novo no ataque para fazer 2 a 0, já aos 50': com um passe alto, Grzegorz Krychowiak deixou a dupla Przemyslaw Frankowski-Zielinski pronta para ampliar. Frankowski teve espaço para avançar, tocou, e Zielinski completou para o gol vazio - o juiz Halil Umut Meler ainda invalidara, julgando impedimento, mas o VAR lhe informou que a jogada fora válida. Era um 2 a 0 surpreendente e decepcionante para os neerlandeses.

Só não ficou pior porque o lado bom da Holanda apareceu no jogo. Na forma de um espírito de luta admirável e da velha pressão no ataque. Esperto desta vez, Blind cruzou e Klaassen fez o primeiro gol laranja em De Kuip, sem nem um minuto passado após o segundo gol polonês. Mais dois minutos, Denzel Dumfries (cada vez mais indisctuível na lateral direita holandesa) chutou forte, e um desvio levou ao gol de empate - também anulado a princípio, por suposto impedimento de Dumfries, também validado após revisão do árbitro de vídeo.

Com mais mudanças, os jogadores da Holanda reduziram o ritmo. Mas nem por isso deixaram de atacar - principalmente Cody Gakpo, bem nas jogadas pela direita. E nem por isso a defesa deixou de assustar - como aos 72', quando de novo a defesa deixou espaço livre para os avanços, e Zielinski só não marcou porque Flekken antecipou a saída do gol. Porém, o final pareceria feliz aos 89': logo após Memphis Depay finalizar para ótima defesa de Skorupski, na pequena área, Matty Cash desviou a bola com a mão. O juiz demorou, o VAR alertou... e o pênalti afinal foi marcado. Para Depay perdê-lo: o camisa 10 chutou forte... na trave. De quebra, logo depois, um cabeceio seu rendeu outra excelente defesa de Skorupski.

E no fim, ora bolas, nada mudou em termos práticos. A Holanda segue líder em seu grupo (País de Gales e Bélgica empataram), segue em boas condições, mostrou capacidade de reação elogiável. Mas o empate mostrou os pontos negativos, de modo até inesperado. E talvez útil: o teste deixou claro que ainda há muitas coisas a melhorar na Laranja até a Copa, sempre o foco principal.

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 4

Holanda 2x2 Polônia
Data: 11 de junho de 2021
Local: De Kuip (Roterdã)
Árbitro: Halil Umut Meler (Turquia)
Gols: 
Matty Cash, aos 18', Piotr Zielinski, aos 50', Davy Klaassen, aos 51', e Denzel Dumfries, aos 54'

Holanda
Mark Flekken; Denzel Dumfries, Jurriën Timber (Jordan Teze, aos 65'), Stefan de Vrij, Nathan Aké e Daley Blind; Steven Berghuis (Teun Koopmeiners, aos 65'), Davy Klaassen (Cody Gakpo, aos 65') e Frenkie de Jong; Steven Bergwijn (Wout Weghorst, aos 77') e Memphis Depay. Técnico: Louis van Gaal

Polônia
Lukasz Skorupski; Matty Cash, Jan Bednarek, Jakub Kiwior e Bartosz Bereszynski; Przemyslaw Frankowski (Kamil Glik, aos 84'), Jacek Goralski (Szymon Zurkowski, aos 58'), Grzegorz Krychowiak e Nicola Zalewski; Piotr Zielinski e Krzysztof Piatek. Técnico: Czeslaw Michniewicz

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Mudanças importantes

A Holanda teve dificuldades no 1º tempo contra o País de Gales. Mudou, melhorou... mas precisou de esforço adicional para a segunda vitória na Liga das Nações (Pro Shots)


A Liga das Nações tem lá seu caráter competitivo. Ganhar suas partidas tem lá sua importância. Contudo, pelo menos neste momento da seleção masculina da Holanda, é mais importante manter as experiências para formar o grupo dos (provavelmente) 26 convocados que irão à Copa do Mundo. A partida desta quarta, contra o País de Gales, foi prova disso: uma escalação completamente diferente da vista na goleada contra a Bélgica. A princípio, ela teve problemas. Mas antes mesmo que os titulares fossem a campo nas substituições, algumas mudanças abriram o caminho da Holanda para a vitória. E mesmo com um susto final, a busca neerlandesa foi recompensada com o 2 a 1 que a mantém na liderança de seu grupo.

Entre os nomes que começaram jogando em Cardiff, numa tática alternada (laterais ora mais avançados, configurando um 3-4-3, ora mais recuados, para o 5-3-2 que o técnico Louis van Gaal tem em mente), os escalados do lado direito foram os que deram mais problemas. Na zaga, Jordan Teze - estreando pela Laranja - já levava cartão amarelo aos três minutos, e errava mais do que o recomendável na saída de bola. Na lateral destra, Hans Hateboer cedia espaços para os avanços dos galeses. Além disso, no gol, Mark Flekken deu pelo menos um susto, ao errar uma saída de bola aos 20' (Harry Wilson chutou para fora). 

No meio-campo e no ataque, a coisa não melhorava muito. Nem Teun Koopmeiners, nem o estreante Jerdy Schouten tinham espaço para lançamentos. Com isso, Noa Lang e Cody Gakpo ficavam sem conseguir atacar, diante de uma defesa galesa forte, com até cinco jogadores. Só no decorrer do primeiro tempo as coisas progrediram para os holandeses. No fim, a primeira chance dos visitantes apareceu, num chute de Gakpo aos 45', sem contar uma tentativa desastrada de voleio de Stefan de Vrij. Mesmo com as dificuldades do começo, havia um caminho para a Holanda.

Jerdy Schouten agradou em sua estreia na seleção, ajudando bastante no meio-campo (Michael Bulder/NESImages/DeFodi Images via Getty Images)


As mudanças importantes escancararam esse caminho. Ao invés de atuar mais na ponta, Noa Lang foi recuado no segundo tempo, para ajudar na criação de jogadas. Schouten teve a boa atuação potencializada pela liberdade maior para avançar. Bastaram cinco minutos para essas alterações sutis surtirem o efeito desejado: Lang fez a jogada, Schouten passou, Koopmeiners chutou com precisão para o seu primeiro gol pela seleção. 

Iniciava-se ali o melhor momento holandês no jogo. As falhas de Hateboer e Teze foram minoradas pela boa atuação de Schouten, pelo crescimento de Koopmeiners, pela técnica de Gakpo e Noa Lang, e até pelo esforço de Wout Weghorst: mesmo sem grandes chances, o atacante se esforçava para manter a posse de bola e para ganhar as divididas, ajudando muito a equipe. Aqui e ali, entradas como a de Frenkie de Jong e Steven Bergwijn faziam crer que a equipe dos Países Baixos manteria o controle do resultado, na reta final.

Poucos sustos poderiam ser maiores, então, do que o empate de Rhys Norrington-Davies, já nos acréscimos. Em mais uma falha de marcação pela direita (Hateboer deixou o meio-campista livre para cabecear), surgiu o empate - que seria até merecido se fosse o placar final, pelo esforço galês, principalmente no primeiro tempo. Todavia, De Jong justificou de novo porque é, atualmente, o "maestro da Laranja", como a revista Voetbal International estampou em sua capa desta semana. O meio-campo da camisa 21 teve calma para achar Tyrell Malacia livre na esquerda. O lateral foi preciso no cruzamento. E livre na área, Weghorst foi premiado, fazendo o gol da vitória.

Se golear os belgas na estreia distorceu um pouco a visão, o difícil triunfo desta quarta deixou claro que a Holanda ainda tem muito a melhorar. Ainda assim, é bem melhor seguir o caminho com vitórias. Elas aumentam a sequência invicta da Laranja sob o comando de Van Gaal - nenhuma derrota nos 11 jogos desta terceira passagem. Mantêm alguma paz para o trabalho rumo à Copa. E, por último (mas também importante), conserva a liderança na Liga das Nações, rumo a dois jogos em casa. Não é uma Copa do Mundo, mas... é um torneio.

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 4

País de Gales 1x2 Holanda
Data: 8 de junho de 2021
Local: Cardiff City Stadium (Cardiff)
Árbitro: Glenn Nyberg (Suécia)
Gols: 
Teun Koopmeiners, aos 50', Rhys Norrington-Davies, aos 90' + 2 e Wout Weghorst, aos 90' + 4

País de Gales
Danny Ward (Adam Davies, aos 46'); Connor Roberts, Ben Davies, Chris Mepham e Joe Rodon; Rhys Norrington-Davies, Harry Wilson, Joe Morrell (Rubin Colwill, aos 60') e Dylan Levitt (Matthew Smith, aos 68'); Daniel James (Rabbi Matondo, aos 77') e Brennan Johnson (Gareth Bale, aos 77'). Técnico: Rob Page

Holanda
Mark Flekken; Hans Hateboer, Jordan Teze, Stefan de Vrij, Matthijs de Ligt (Bruno Martins Indi, aos 84') e Tyrell Malacia; Noa Lang (Guus Til aos 90' + 1), Teun Koopmeiners, Jerdy Schouten (Frenkie de Jong, aos 67') e Cody Gakpo (Steven Bergwijn, aos 67'); Wout Weghorst. Técnico: Louis van Gaal

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Suportando primeiro e brilhando depois

As caras podem ser sérias, mas a Holanda mereceu aplausos na estreia da Liga das Nações: suportou o começo melhor da Bélgica, para se impor e chegar à goleada (Jeroen Meuwsen/Orange Pictures/BSR Agency/Getty Images)


Por melhores que sejam os jogadores atuais da seleção masculina da Holanda, os nomes da seleção da Bélgica ainda são mais badalados. Mesmo com atletas das duas seleções vindos esfalfados pelo fim de temporada, era justo imaginar uma vitória belga no 128º encontro entre ambas, na estreia pela Liga das Nações da UEFA. Contudo, a Laranja mostrou seu valor técnico da melhor maneira possível. Soube se aguentar no começo do jogo, no estádio Rei Balduíno. Rival conhecido, os neerlandeses o neutralizaram perfeitamente, para dar mais uma mostra de capacidade e de evolução: 4 a 1, a primeira vitória holandesa fora de casa num "Dérbi dos Países Baixos" desde 1996.

Para suportar a pressão belga no começo, o trio de zagueiros holandeses teria de funcionar quase à perfeição. Ainda mais porque seria a única partida de Virgil van Dijk nesta sequência de datas FIFA - e, desgastado pela final de Liga dos Campeões, o capitão da seleção jogaria mais na sobra. Além disso, no começo da partida, as laterais tinham espaços - pela esquerda, por exemplo, chegou Timothy Castagne para acertar a trave, aos 12'. Mas logo os problemas diminuíram, pelas atuações seguras de Jurriën Timber e, principalmente, de Nathan Aké. Pela esquerda, o zagueiro já começou controlando Romelu Lukaku, e o duelo só não foi adiante pelo azar do belga: tentando alcançar um lançamento, na disputa física, o holandês caiu primeiro, acidentalmente em cima do tornozelo do belga. Sentindo dores, Lukaku teve de ser substituído.

A bem da verdade, antes mesmo disso a seleção visitante já começava a se firmar em campo. Se a defesa belga estava fechada até ali, tratava-se de pressionar, de acelerar as trocas de passe. No primeiro caso, Steven Berghuis aproveitou perda de bola de Kevin de Bruyne para quase fazer, aos 15' - só não fez pela defesa de Simon Mignolet. No segundo caso, paulatinamente as tabelas fizeram a Holanda se aproximar do gol, criando chances com Daley Blind (chute rente à trave, aos 28', após passe de Memphis Depay), com Berghuis (chute por cima, aos 33'), até o gol sair numa tabela: de Frenkie de Jong para Steven Bergwijn, e o chute no canto esquerdo de Mignolet.

Bergwijn até apareceu mais no ataque. Mas Memphis Depay ajudou na goleada, se aproximando mais e mais do recorde de gols pela Laranja (Eric Verhoeven/Soccrates/Getty Images)


Àquela altura, qualquer falha da Holanda já tinha sido minorada. Os laterais já tinham pleno espaço para avançar, diante da cansada defesa da Bélgica - assim quase surgiu um pênalti (chegou a ser marcada bola na mão de Castagne, após cruzamento de Dumfries, mas a bola batera no rosto do belga). No meio, Frenkie de Jong vivia um grande dia: não só anulando De Bruyne, como iniciando frequentemente as jogadas de ataque, tendo Davy Klaassen como grande ajudante nisso. Foi assim no segundo gol holandês, já no começo do jogo: um erro de Dedryck Boyata na saída de bola, Klaassen roubou e lançou Memphis, para que este fizesse 2 a 0. 

Isso, porque o camisa 10 nem era o melhor atacante da Holanda no dia. Este era Bergwijn: sempre perigoso, imparável nos dribles, tentando os chutes sem medo. Com tantas chegadas - Dumfries, Blind, Klaassen, Berghuis, Bergwijn, Depay -, com a fragilidade da Bélgica na marcação, logo se alcançou uma goleada inesperadamente satisfatória. Isso ficou claro nos dois gols que levaram aos 4 a 0: Dumfries completou cruzamento sozinho, e Memphis Depay fez seu segundo gol na partida (42 pela seleção, se isolando como terceiro maior goleador dela na história), ao ficar livre depois de um chutão-que-virou-lançamento de Van Dijk, ajeitado por Blind. Se os donos da casa tentassem algo no ataque, Jasper Cillessen estava aproveitando sua chance no gol, com boas defesas.

Claro, a goleada não significa nem de longe que a Holanda esteja pronta para o que quer que seja. O time ainda está sendo ajeitado até a melhor escalação para a Copa do Mundo - prioridade, em detrimento da Liga das Nações. Nada impede, por exemplo, que o País de Gales vença os holandeses em De Kuip, na próxima quarta, tão equilibrado está o futebol de seleções. Ainda assim, ser tão imponente contra uma adversária mais comentada é um sinal bem vindo de que a Laranja está fazendo bem sua preparação para o Mundial.

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 4

Bélgica 1x4 Holanda
Data: 3 de junho de 2021
Local: Rei Balduíno (Bruxelas)
Árbitro: José María Sánchez (Espanha)
Gols: 
Steven Bergwijn, aos 40', Memphis Depay, aos 51' e aos 65', Denzel Dumfries, aos 61', e Michy Batshuayi, aos 90' + 3

Bélgica
Simon Mignolet; Toby Alderweireld, Dedryck Boyata e Jan Vertonghen; Thomas Meunier (Yannick Carrasco, aos 67'), Kevin de Bruyne, Axel Witsel 
(Michy Batshuayi, aos 46'), Timothy Castagne e Hans Vanaken (Amadou Onana, aos 46'); Eden Hazard (Dries Mertens, aos 46') e Romelu Lukaku (Leandro Trossard, aos 25'). Técnico: Roberto Martínez

Holanda
Jasper Cillessen; Denzel Dumfries, Jurriën Timber, Virgil van Dijk, Nathan Aké (Matthijs de Ligt, aos 73') e Daley Blind; Frenkie de Jong, Davy Klaassen e Steven Berghuis (Teun Koopmeiners, aos 83'); Steven Bergwijn e Memphis Depay. Técnico: Louis van Gaal

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Os testes aumentam, a pressão também

Com o novo auxiliar Davids a seu lado, Van Gaal já teve de dar mais satisfações sobre escolhas polêmicas. Tudo para seguir os testes rumo à Copa (Jeroen Meuwsen/BSR Agency/Getty Images)

 
Desde que os trabalhos da seleção masculina da Holanda começaram em 2022, o técnico Louis van Gaal ressalta: sem muito tempo para treinos, cada data FIFA da fase inicial do ano servirá para testes, testes e mais testes. Tudo para que a Laranja tenha um time titular bem treinado (e alternativas táticas) quando chegar o 21 de novembro - agora se sabe, o dia da estreia na Copa do Mundo, contra Senegal, no grupo A, abrindo o torneio na prática. E neste ciclo de junho, os testes serão até mais exigentes do que já foram os razoáveis amistosos contra Dinamarca (vitória por 4 a 2) e Alemanha (empate em 1 a 1). Afinal, vêm aí quatro rodadas de Liga das Nações. Por mais que o peso seja menor, enfrentar Bélgica (a estreia, nesta sexta, em Bruxelas), Polônia (dia 11, em Roterdã) e País de Gales (dia 8, em Cardiff, e dia 14, em Roterdã), em jogos oficiais, já aumenta um pouco a intensidade dos testes.

Por isso, também já começam ponderações mais incisivas sobre algumas escolhas de Van Gaal na lista dos 26 convocados. O técnico até ganhou muitos pontos com a opinião pública pela coragem ao expor o tratamento por que passa contra um câncer na próstata - a primeira fase do tratamento já se encerrou ("Preciso lidar com muita coisa, mas felizmente tenho energia para isso", definiu o treinador na coletiva da segunda passada). No entanto, pela primeira vez desde seu retorno à Oranje, Louis teve de explicar mais suas escolhas. Principalmente aquela que deixou de fora da convocação Georginio Wijnaldum, um dos jogadores mais importantes da seleção masculina nos últimos anos.

Van Gaal tinha seus motivos, e os explicou a seu modo: aberta e seriamente. "Wijnaldum não entregou desempenho. A seleção não é um centro de reabilitação, eu preciso dos melhores aqui, de gente que esteja bem em seu clube. E ele não andou no seu melhor, por todos os problemas no PSG". Inclusive, o técnico indicou que o meio-campista já não andava bem há um certo tempo. "Nas eliminatórias [da Copa], eu estive em seis jogos, ele jogou em cinco e foi substituído em três. (...) Já nas partidas anteriores, eu não o escalei, mas eu ainda o chamei. Já era uma tentativa de alertá-lo". E mesmo exigente, fez questão de deixar a porta aberta: "Se ele vai à Copa? Não sei, não sei se ele vai melhorar a forma. Se ele melhorar, eu o convoco imediatamente, e ele vai jogar comigo, porque gosto muito do estilo dele".

Wijnaldum (no amistoso contra a Alemanha, em março) ficou de fora da convocação, desta vez. E se não melhorar, a vaga na Copa pode correr riscos (David Streubel/Getty Images)


De fato, Van Gaal tinha um ponto: Wijnaldum ficou do lado das contratações do Paris Saint-Germain que decepcionam até aqui, mais ficou na reserva do que jogou, e já mostrou certa lentidão nos amistosos do começo do ano. Ainda assim, sua ausência calou fundo. E foi criticada. A revista Voetbal International trouxe um artigo do jornalista, apontando incoerências do treinador da seleção - Van Gaal gosta de trabalhar levando em conta o que chama de totalemens principe, o princípio do homem total, abordando a pessoa além do jogador: "Após uma temporada difícil no Paris Saint-Germain, Wijnaldum precisava de uma abordagem calorosa. Um técnico que demonstrasse confiança, porque sabe que esse jogador de alto nível será importante no futuro da seleção. Van Gaal não fez isso: ele afastou o jogador". E durante os treinos no centro da federação, na cidade de Zeist, Memphis Depay opinou com franqueza: "Eu o teria chamado. Acho que ele [Wijnaldum] mostrou muito aqui. Convocar é uma coisa e ser titular é outra, mas acho que Wijnaldum cabe na seleção. Não tenho dúvidas de que ele voltará".

Pois é: cinco anos depois, mesmo com uma passagem apagada pelo Monterrey, Vincent Janssen está de volta à seleção (Azael Rodriguez/Getty Images)

A ausência de Wijnaldum até eclipsou outra polêmica escolha de Van Gaal. Afinal de contas, está de volta à seleção, após cinco anos, um atacante cujo desempenho é discutível: Vincent Janssen. Jogando pelo Monterrey-MEX, Janssen se alterna entre reserva e titularidade - e mesmo titular, raramente faz gols: no Clausura mexicano deste ano, foram só três gols em 18 jogos pelos Rayados. O holandês sequer foi relacionado para o grupo do Monterrey que disputou o Mundial de Clubes, no começo do ano. E de resto, ainda ecoa sua passagem desastrosa pelo Tottenham, quando fracassou em dar sequência ao fulgurante começo no AZ. Ainda assim, querendo um atacante de área na seleção ("Memphis Depay e Bergwijn voltam demais para buscar jogo, e não quero isso"), Van Gaal decidiu apostar em Janssen. Com base nas observações de um nome da comissão técnica que o convocou bastante quando treinou a seleção, entre 2016 e 2017 - não Edgar Davids, estreando como auxiliar técnico da seleção, mas Danny Blind. "Blind foi o responsável [pela sugestão]. Ele o convocou, e então Janssen fez muitos gols. Temos uma lista de 40 a 50 nomes a observar, Danny está acompanhando, Malen está machucado, e eu tinha espaço para um novo atacante". 

Atacante que chegará só depois do jogo contra a Bélgica: a convocação era tão inesperada que Janssen marcara seu casamento para o dia 3 de junho, e manteve a cerimônia mesmo depois de ser chamado. A surpresa chegou até mesmo no México: o comentarista Heloi Doroh falou que ele "é o jogador mais sortudo de toda a Holanda", e o diário Noticias Pamboleras foi curto e grosso na manchete: "Não dá para acreditar". Na Holanda, o ex-jogador Kenneth Perez, comentarista da ESPN holandesa, assoprou e mordeu: "Acredito que ele deve ter um plano magistral para Janssen. Se fosse Frank de Boer fazendo isso...". Em coluna no jornal Algemeen Dagblad, o antológico Willem van Hanegem também evocou o contestado antecessor de Van Gaal para completar a frase e criticar a convocação do atacante: "Se Frank de Boer tivesse feito isso, o país seria pequeno para tanta crítica". A pressão fica para Janssen, sete gols em 17 jogos pela seleção entre 2016 e 2017.

Diante dessas duas convocações, outras experiências até foram eclipsadas. Como outro retorno: desde 2017 o zagueiro Bruno Martins Indi estava fora da Laranja, mas foi incluído nesta lista. De certa forma, uma lembrança de Van Gaal ao bom desempenho e ao bom entendimento que teve com Bruno na Copa de 2014 - e um prêmio às boas atuações pelo AZ, na temporada: "Ele melhorou na construção de jogadas, e tem experiência em Copas. Agora, tem a chance de mostrar isso na seleção. Veremos todos se ele agarra essa chance". Chance que também terá uma novidade: o estreante volante Jerdy Schouten, também reconhecido pela boa temporada que fez no Bologna-ITA, com eficiência nos desarmes - opção válida para Marten de Roon, também machucado.

Van Dijk chegou, mas só joga contra a Bélgica - e depois irá para as férias (ANP)


Além das lesões, Van Gaal ainda lida com o cansaço pós-temporada dos jogadores. Que o diga Virgil van Dijk: vindo de uma final de Liga dos Campeões (sem contar a temporada inglesa), o capitão da seleção somente jogará na estreia contra a Bélgica, e depois será desligado da delegação para ter férias antecipadas: "Ele jogou 60 partidas na temporada. De todos os que jogam na Premier League, ele foi quem atuou mais. Claro que ele está nas últimas. Nós conhecemos Virgil: se você deixar, ele quer jogar tudo, mas é óbvio que é melhor ele ser liberado mais cedo".

Fora essas lesões, fora as convocações controversas, a Holanda ainda lida com as alternâncias de esquemas táticos - o 4-3-3 pode ser preferido de imprensa, torcida e até de jogadores, mas Van Gaal já deixou claro: apostará no 5-3-2, com três zagueiros, para tentar ir longe na Copa. Lida também com a falta de confiabilidade em algumas posições. O gol, por exemplo. Mark Flekken ainda tem de se estabelecer como titular, mesmo vindo de boa temporada no Freiburg-ALE; Jasper Cillessen sofreu demais com lesões no Valencia-ESP; e Tim Krul, falhando aqui e ali, amargou o rebaixamento do Norwich City em que joga no Campeonato Inglês.

Mas os testes seguem. E seguirão, como Van Gaal indicou: "Precisamos fazer o máximo possível no tempo disponível. Enfatizo: todo mundo está no meu radar, mesmo jogadores que não foram convocados". No entanto, o caráter mais competitivo da Liga das Nações aumentará a intensidade desses testes. E aumentará a pressão sobre a seleção da Holanda. Até porque ela já precisará chegar pronta para começar a Copa do Mundo no 21 de novembro que virá.

Os convocados da Holanda

GOLEIROS: Mark Flekken (Freiburg-ALE), Jasper Cillessen (Valencia-ESP) e Tim Krul (Norwich City-ING)

LATERAIS: Denzel Dumfries (Internazionale-ITA), Hans Hateboer (Atalanta-ITA), Daley Blind (Ajax) e Tyrell Malacia (Feyenoord)

ZAGUEIROS: Virgil van Dijk (Liverpool-ING), Jurriën Timber (Ajax), Matthijs de Ligt (Juventus-ITA), Stefan de Vrij (Internazionale-ITA), Nathan Aké (Manchester City-ING), Jordan Teze (PSV) e Bruno Martins Indi (AZ)

MEIO-CAMPISTAS: Frenkie de Jong (Barcelona-ESP), Steven Berghuis (Ajax), Davy Klaassen (Ajax), Teun Koopmeiners (Atalanta-ITA), Guus Til (Feyenoord) e Jerdy Schouten (Bologna-ITA)

ATACANTES: Memphis Depay (Barcelona-ESP), Steven Bergwijn (Tottenham-ING), Cody Gakpo (PSV), Noa Lang (Club Brugge-BEL), Wout Weghorst (Burnley-ING) e Vincent Janssen (Monterrey-MEX)