sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O lado bom da vida

Janssen (à esquerda) e Vlaar: cada um no seu setor, mas ajudando no crescimento do AZ (Jeroen Putmans/VI Images)
Quando começou o Campeonato Holandês da atual temporada, era justo supor que o AZ estava talhado para fazer uma campanha muito elogiável. Estar na zona dos play-offs por vaga na Liga Europa era o mais razoável, mas dava para pensar alto. Pensar em vaga na fase preliminar da Liga dos Campeões, como vice-campeão. Ou até em título. Por isso, a decepção ao final do primeiro turno era tão grande quanto as expectativas no início da Eredivisie: em 12º lugar, o time de Alkmaar perdera-se após as saídas de gente importante (Simon Poulsen, Nemanja Gudelj, Áron Jóhannsson), patinando na irregularidade.

De fato, tinham capacidade de fazer mais do que estavam fazendo. Pois bem: agora o AZ está fazendo esse “mais”. Se a sequência péssima do returno dizimou as esperanças de título para o Feyenoord, fazendo-o perder até a terceira posição, o alvirrubro de Alkmaar vive exatamente a sensação contrária: aquela gostosa impressão de que “está tudo dando certo”, de que a fase é boa. O time encaixou no returno, alguns jogadores cresceram de produção (até surpreendentemente, aliás), e o que se vê é uma equipe que terminara o turno em 12º lugar e... já está em 6º, tendo vencido todas as últimas cinco partidas, chegando aos 34 pontos. São quatro abaixo do Heracles Almelo, novo ocupante da terceira posição – justamente o adversário da 23ª rodada, neste sábado. Ou seja, o AZ chegou firme à disputa em que era cotado para estar no início da temporada: na zona para os play-offs de vaga à Liga Europa. Enfim, na parte superior da tabela. E disputando firme o posto de “melhor do resto”, já que PSV e Ajax ficaram com a disputa do título só para eles.

Mas, afinal, há razões para essa melhora vertiginosa do AZ? Fora de campo, só se pode elucubrar: afinal de contas, ninguém faz a menor ideia do que o técnico John van den Brom conversou com o elenco durante a intertemporada na cidade espanhola de Estepona. Mas dentro de campo, as razões são claras. Primeiro, os Alkmaarders se fixaram taticamente. Se as atuações do turno mostravam sérias incertezas (o time jogava no 3-5-2, no 4-3-3, no 4-4-2... e não se decidia por nenhum esquema básico), agora Van den Brom escala o time num 4-3-3. Claro, há as devidas alterações de acordo com as necessidades que cada partida traz, mas os jogadores já sabem como iniciar.

E alguns jogadores simbolizam claramente a ascensão irresistível que a torcida vê. O principal deles, a bem da verdade, já era até o destaque durante a primeira metade da temporada: Vincent Janssen. O atacante de 21 anos decolou de vez em 2016: em cinco partidas - quatro pela Eredivisie, uma pela Copa da Holanda -, sete gols, só tendo passado em branco nos 3 a 0 contra o NEC, há duas rodadas. Exemplo da boa fase foi o bonito gol que definiu o 1 a 0 sobre o Vitesse, na rodada passada: Janssen pegou a bola nas proximidades da área, driblou dois e encobriu o goleiro Eloy Room. Na lista de goleadores da liga holandesa, o camisa 18 do AZ já chegou a 13 gols – mesma quantidade de Christian Santos (NEC) e Dirk Kuyt (Feyenoord), só atrás de Luuk de Jong.

Em termos de seleção, Janssen já é titular da Jong Oranje, a seleção sub-21, que k. Continuando assim, pode muito bem entrar na relação que Danny Blind fará para os amistosos contra França e Inglaterra, mês que vem. Acertadamente, Janssen comporta-se com serenidade em relação à boa fase: “Eu queria fazer dez gols nesta temporada. Já cheguei a essa marca. Que continue tudo bem assim”. Aliás, cabe um parêntese: some-se Janssen com a boa fase de Luuk de Jong (sem desconsiderar Bas Dost), e dá para pensar se alguns atacantes holandeses de área não estão, enfim, convertendo-se em alternativas a Klaas-Jan Huntelaar e Robin van Persie. Mas esse assunto já é outra história.

Voltemos ao AZ, que não vive só de Janssen, claro. De nada adianta ter um finalizador que anda em estado de graça se outro atacante não lhe ajudasse, com movimentação veloz. E Janssen tem isso em um colega de time que já era cotado como revelação: Dabney dos Santos, que acelera as jogadas pelas pontas e quase sempre serve os passes ao destaque. Assim, a dupla Dabney-Janssen superou facilmente a defesa do Feyenoord, nos 4 a 2 impostos ao time de Roterdã. De quebra, nos últimos jogos, o iraniano Alireza Jahanbakhsh também subiu de produção, só aumentando a efetividade dos Alkmaarders.

O meio-campo talvez tenha sido o maior beneficiado pela permanência habitual do 4-3-3. Agora, os jogadores do setor sabem melhor o papel e o modo de jogar, sendo mais ofensivos ou defensivos. Assim, potencializou o crescimento de outra revelação, Joris van Overeem, que melhorou na criação. O que, por sua vez, só ajudou o crescimento de um jogador que já costuma se destacar, não só armando, mas até chegando à frente para finalizar: Markus Henriksen (não à toa, vice-goleador do AZ na temporada, com 9 gols). E enfim, Ben Rienstra repete o que fazia no Zwolle: protege a zaga com segurança. Sem contar que lhe ajuda a chegada de Stijn Wuytens, vindo do Willem II.

Falando na zaga, talvez esteja nela o outro grande destaque da reação do AZ. Ron Vlaar viveu dias de Cinderela na Copa de 2014: protegido pelo esquema com três zagueiros na seleção da Holanda, ele mostrou bom tempo de bola como líbero, sendo quase unanimemente apontado como um dos melhores defensores da competição. Mas Vlaar voltou a ser “gato borralheiro” no Aston Villa após o torneio: teve problemas na panturrilha e no joelho, durante a temporada 2014/15. Operado no menisco de um dos joelhos, decidiu recusar a renovação de contrato que os Villans lhe ofereceram. E passou metade desta temporada sem clube. 

Aí, no final de 2015, Vlaar foi convidado para recuperar a forma no AZ. Exercícios físicos ali, um treino sem bola com o elenco ali, e ocorreu o inevitável: uma oferta de contrato com o clube onde iniciou a carreira profissional, há 12 anos. O zagueiro assinou até o fim da temporada, estreou no fim do primeiro turno... e o time não perdeu ainda com seu novo contratado. Já está claro: não só Vlaar anulou qualquer problema eventual com a saída de Jeffrey Gouweleeuw, titular na quarta-zaga (recém-chegado ao Augsburg-ALE), mas também deu mais calma aos novatos, como o lateral esquerdo Ridgeciano Haps. E a evolução do jogador já até provocou o seguinte comentário de John van den Brom: “Ele pode voltar rápido à seleção, está em boa forma”. Com Jaïro Riedewald fora da temporada e Stefan de Vrij ainda em recuperação de lesão, Vlaar vê reaberto o caminho para um eventual retorno à Oranje.

Obviamente, o AZ tem coisas a consertar. Por exemplo, a irregularidade de seus goleiros: o uruguaio Sergio Rochet começou a temporada, mas falhou seguidas vezes. Vindo do Excelsior, Gino Coutinho tornou-se titular no resto do turno, mas também não saiu a contento. Rochet está de volta ao gol, atualmente, mas não se sabe até quando. Tanto que já se planeja a contratação de Robbin Ruiter, arqueiro do Utrecht (até tentada já nesta janela de transferências). Além do mais, é óbvio que a sequência invicta não durará para sempre. Vincent Janssen reconheceu: “Vamos perder um jogo novamente".

No entanto, é evidentemente reconfortante para os Alkmaarders saber que a situação já é cômoda a ponto de Van den Brom poder dar chance a novatos, como o lateral direito Levi Opdam (19 anos), o volante Thomas Ouwejan (19 anos) e o atacante Levi Garcia (trinitário de 18 anos - o mais jovem nativo de Trinidad & Tobago a estrear numa liga europeia, mais jovem até do que gente como Dwight Yorke ou Russell Latapy). Além do mais, Janssen também preconizou: "Devemos alcançar [a zona dos] play-offs, e jogar competições europeias é nossa meta final”. O AZ parece muito mais próximo dessa meta do que no primeiro turno. Já não era sem tempo.

(Coluna originalmente publicada na Trivela.com, em 12 de fevereiro de 2016)

domingo, 7 de fevereiro de 2016

810 minuten: como foi a 22ª rodada da Eredivisie

Bazoer agradece pelo seu belo gol. E o Ajax lhe agradeceu pela vitória num bom Klassieker (Laurens Lindhout Photography/VI Images)
 Excelsior 0x0 Willem II (sexta-feira, 05.02)

Ainda que fosse um jogo entre duas equipes ameaçadas pela repescagem/pelo rebaixamento, havia uma das equipes que precisava mais da vitória: o Excelsior, sem vencer havia nove partidas e já na zona perigosa, em 16º lugar. Sendo assim, os Kralingers obviamente começaram o jogo atacando mais - até porque o Willem II tinha uma zaga remendada, com o atacante Nick van der Velden improvisado na lateral direita (o titular da posição, Frank van der Struijk, estava suspenso) e com o lateral esquerdo Dico Koppers deslocado para a zaga (Jordens Peters estava lesionado). E a bem da verdade, assim o jogo seguiu. O Excelsior teve as chances mais perigosas e frequentes ao longo dos 90 minutos. 

No primeiro tempo, aos 21 minutos, a primeira oportunidade foi também a mais perigosa: Brandley Kuwas, destaque dos Rotterdammers no atual momento, recebeu em profundidade de Adil Auassar e entrou livre na área, mas tocou em cima do goleiro Kostas Lamprou, que saiu bem do gol e salvou os visitantes. Pouco depois, Daan Bovenberg cruzou da direita e Kuwas escorou para Tom van Weert, que bateu em cima da zaga. E ainda houve um cabeceio de Rick Kruys, após escanteio, tirado em cima da linha por Bartholomew Ogbeche. Na etapa final, vieram até mais chances: com Auassar, Kuwas, Bovenberg, Van Weert... mas todas elas foram perdidas na ineficiência. Já os Tricolores só tiveram um chute a gol de real perigo: aos 15 minutos, quando Robbie Haemhouts forçou a defesa de Filip Kurto em arremate de longe. Mas o jogo ficou mesmo no 0 a 0. O terceiro empate sem gols consecutivo do Excelsior, que pelo menos saiu momentaneamente da zona de repescagem/rebaixamento. Zona cujo bafo segue no cangote do Willem II, em 14º.

ADO Den Haag 2x2 Roda JC (sábado, 06.02)

O ADO Den Haag tem melhor time, vinha de vitória respeitável contra o Feyenoord... enfim, tinha tudo para conter os Koempels visitantes, ainda mais por jogar em casa. E até foi ajudado por eles na abertura do placar: aos 20 minutos, o lateral direito Martin Milec recuou errado para o goleiro Benjamin van Leer. Este tentou recomeçar a jogada com os pés, mas não pegou bem no chute. E a bola ficou limpa para Kevin Jansen completar para o gol vazio, marcando pela segunda rodada consecutiva. Vitória fácil? Ora, se o Ajax abrira 2 a 0 contra o Roda JC e tomara o empate, correr atrás do Den Haag seria bem mais fácil. E o time de Kerkrade correu atrás, de fato, conseguindo o empate no minuto final do primeiro tempo, em outra falha defensiva: o espanhol Marcos Gullón cruzou, e o zagueiro Vito Wormgoor bobeou no domínio. Tom van Hyfte foi esperto, tirou a bola de Wormgoor e tocou na saída do goleiro Martin Hansen para o 1 a 1.

Na etapa complementar, o Den Haag tratou de impor novamente sua superioridade técnica: aos oito minutos, Édouard Duplan cobrou escanteio, e Timothy Derijck subiu bem na área para, de cabeça, recolocar os auriverdes na frente em Haia. Mas o Roda JC também tratou de buscar o empate: o técnico Darije Kalezic deixou a opção ofensiva clara ao colocar em campo dois atacantes recém-chegados: Maecky Ngombo, o destaque das últimas duas partidas, e o sueco Kristoffer Peterson. E foi justamente este Peterson, cedido pelo Utrecht até o fim da temporada, a novamente premiar os aurinegros com o empate na parte final do jogo: aos 36 minutos, um belo chute de fora da área foi no ângulo e decidiu o empate. Jogando sua 700ª partida em casa pela Eredivisie (e a 1400ª em toda a sua história na elite), o ADO Den Haag caiu para a 12ª posição. Já o Roda JC vê a baciada de contratações do meio de temporada dando resultado: invicto há quatro rodadas, chegou a 13º, ganhando respiro maior na disputa contra a queda. O espírito de luta deixa os Koempels mais perto da segurança do limbo do que do calor perigoso da zona de repescagem/rebaixamento.

De novo Janssen marcou, de novo o AZ venceu (elfvoetbal.nl)
AZ 1x0 Vitesse (sábado, 06.02)

A ascensão do AZ no returno do Holandês é das histórias promissoras mais irresistíveis da temporada. E tinha uma ótima oportunidade para continuar neste sábado: jogando em casa, vencer o Vitesse significaria não só manter a sequência admirável, mas também tirar pontos de um time colocado acima, entrando em definitivo na zona de play-offs por Liga Europa. E a torcida dos Alkmaarders teve o prazer de ver sua equipe repetindo a boa história das últimas rodadas: ataque veloz e confiável, sem descuidar da defesa. Contra um Vites vitimado pela estranha escolha tática do técnico Rob Maas (um 5-3-2 no qual a equipe de Arnhem nunca atuara na temporada), ficou até mais fácil. Nem tanto no primeiro tempo, quando a chance mais perigosa veio até dos visitantes (Lewis Baker chegou livre na área, mas bateu em cima do goleiro Sergio Rochet).

Mas no segundo tempo, definitivamente o AZ mostrou por que está reagindo. Primeiramente, os dois destaques ofensivos dos AZ'ers na volta da temporada participaram da mesma jogada: Vincent Janssen chutou, o arqueiro Eloy Room salvou, e Dabney dos Santos fracassou no rebote, aos 12 minutos. Pouco depois, Room apareceu bem de novo: o meio-campo Markus Henriksen cabeceou exigindo grande defesa do goleiro curaçalino. Mas aos 15 minutos, Janssen se destacou de novo: numa tentativa individual, driblou o volante Sheran Yeini, o zagueiro Arnold Kruiswijk, e encobriu Room com um leve toque. Golaço do atacante, seu 13º no campeonato (sétimo nos últimos cinco jogos): de fato, Janssen é o símbolo da reação. Depois do gol, o Vitesse até tentou alguns chutes no ataque, e fortaleceu o lado ofensivo com as entradas de Nathan e Denis Oliynyk. Mas o AZ segurou a sua quinta vitória consecutiva desde o início do returno. Já é o sexto colocado, na zona dos play-offs, e não dá sinais de que vai parar. O Vitesse, sem vencer há quatro jogos, caiu para a oitava posição. E precisa reagir. Urgentemente.

Heerenveen 1x3 Twente (sábado, 06.02)


Só o fato de não ter perdido Hakim Ziyech num encerramento da janela de transferências já era animador para o Twente encarar o jogo contra o Fean com mais otimismo. Seria difícil: afinal, os frísios já não perdiam havia três rodadas. E um fato sensível foi lembrado pelo elenco na entrada em campo: com camisetas brancas, homenageavam o zagueiro alemão Stefan Thesker. Tendo iniciado na base do Twente, mas seguido carreira, Thesker foi cedido ao clube de Enschede pelo Greuther Fürth até o fim da temporada. Jogara na rodada passada, contra o Utrecht, mas já sabia: tinha um tumor a ser removido, tendo decidido atuar por opção própria. De fato, o tumor foi extirpado em cirurgia durante a semana. E o defensor alemão (cuja recuperação ainda tem duração incerta) foi homenageado pelos colegas de clube.

Nunca se saberá, mas o fato é que os visitantes estiveram desatentos nos primeiros 45 minutos. E essa desatenção até deu a vantagem ao Heerenveen: aos 29 minutos, após escanteio, o goleiro Nick Marsman saiu do gol, mas trombou com o zagueiro Bruno Uvini, e Henk Veerman ficou livre para colocar os mandantes na frente, no estádio Abe Lenstra. Só que um lance no minuto final reanimou os Tukkers: aos 45, Ziyech cobrou falta e Bruno Uvini refez seu nome da melhor maneira possível, empatando o jogo. Depois do intervalo, o ânimo seguiu no time de Enschede. Já o Heerenveen viu a vida ainda mais dificultada aos 24 minutos da etapa final, quando o zagueiro Joost van Aken cometeu falta em Zakaria El Azzouzi, e levou o segundo amarelo - por consequência, foi expulso. Ainda demorou um pouco, mas enfim o Twente conseguiu a vitória buscada quando a partida já se encerrava. Aos 44 minutos, Jerson Cabral chutou meio estranho, mas virou o jogo. E nos acréscimos, como não poderia deixar de ser, Ziyech apareceu, marcando seu 12º gol no Campeonato Holandês e garantindo a vitória que deu um respiro maior ao Twente na busca da fuga do perigo de queda: agora, o time é o 14º colocado.

A menos que algum clube chinês apareça (a janela de lá só fecha em 25 de fevereiro), a permanência de Ziyech é o maior "reforço" que o Twente poderia desejar.

Comemoração do gol de Bel Hassani: Heracles reage e chega à 3ª posição (ANP/Pro Shots)
Heracles Almelo 2x0 Zwolle (sábado, 06.02)

Para o Heracles, vencer significava minorar as dúvidas sobre o desempenho da equipe após a saída de Oussama Tannane - e também superar o Feyenoord, ficando momentaneamente com a terceira posição, pelo menos até o Klassieker contra o Ajax. Mas o Zwolle sempre oferece algum tipo de perigo a seus adversários, pela solidez dos Dedos Azuis na defesa. Pelo menos no sábado, não foi o que aconteceu. Desde o princípio da partida, os Heraclieden trouxeram mais perigo ofensivo. Wout Weghorst foi o principal personagem: tanto num chute suave quanto num cabeceio, tentou o gol, mas parou no arqueiro dos Zwollenaren, Mickey van der Hart. Já os visitantes reclamaram de pênalti no lateral direito Bart Schenkeveld - e o árbitro do jogo, Pol van Boekel, reconheceu o erro de não marcá-lo, após a partida.

Seja como for, o Heracles teve o que merecia logo no início do segundo tempo: aos oito minutos, Brahim Darri tentou um passe, Rick Dekker falhou na interceptação, e Iliass Bel Hassani dominou, chutando forte, no canto baixo de Van der Hart, para abrir o placar. A partir daí, a partida ficou ainda mais tranquila para os de Almelo, que só controlavam a vantagem sem que o Zwolle trouxesse muito perigo. Finalmente, aos 38, o reserva Jaroslav Navrátil resolveu definitivamente as coisas: com um toque, encobriu o goleiro, fez 2 a 0 e colocou o Heracles na terceira posição do Campeonato Holandês. Merecidamente.

Ajax 2x1 Feyenoord (domingo, 07.02)

Por um lado, o Ajax arriscou mudar. Com o desempenho insatisfatório de Ricardo van Rhijn contra o Roda JC, Frank de Boer voltou a improvisar Joël Veltman na lateral direita, enquanto Mike van der Hoorn fez a parceria com Jaïro Riedewald no miolo de zaga. E no ataque dos Ajacieden, Anwar El Ghazi começou no meio, enquanto Lasse Schöne voltou a ser titular, jogando pela direita. No Feyenoord, nem 5-3-2, nem 4-3-3: o 4-1-4-1 foi o esquema para proteger mais a defesa. Azar de Michiel Kramer e Eljero Elia, que começaram no banco, enquanto Bilal Basaçikoglu foi o encarregado de dar mais velocidade ao ataque dos visitantes no Klassieker da Amsterdam Arena. E Renato Tapia, estreando pelo Stadionclub, ficou com a função de primeiro volante, minorando os trabalhos da zaga formada por Eric Botteghin e Sven van Beek.

E após uma cerimônia tocante para homenagear John Heitinga, que encerrou carreira nesta semana que passou, o jogo começou acelerado. Talvez mais até por parte do Feyenoord, que começou trazendo mais perigo. O Ajax tentava, mas não conseguia entrar na defesa bem fechada do arquirrival. Pior: aos 9 minutos, Riedewald tentou lançar a bola do meio-campo, mas chutou o gramado e lesionou o tornozelo, forçando Frank de Boer a gastar a primeira alteração com Nick Viergever. Justamente nesses minutos de readaptação da defesa dos Amsterdammers, o Feyenoord abriu o placar: aos 13, Jens Toornstra (substituto do gripado Simon Gustafson) carregou a bola do meio-campo até as proximidades da área, e passou a Tonny Trindade de Vilhena. Este devolveu a Toornstra, que bateu cruzado, no canto esquerdo baixo, para abrir o placar.

Por alguns minutos, o Ajax baqueou. Mas liderado pelas boas atuações de Riechedly Bazoer, Davy Klaassen e Amin Younes, no ataque, os Ajacieden logo se recompuseram para tentar o empate. Conseguiram-no rapidamente: aos 21 minutos, Klaassen foi inteligente, e indicou a Younes as posições em que ele deveria estar para receber a bola. O ponta-esquerda obedeceu, recebeu, deu dois belos cortes em Van Beek e Botteghin, quase na linha de fundo, e tocou com precisão máxima no canto oposto. A bola ainda bateu na trave antes de entrar, premiando a precisão do atacante alemão de ascendência libanesa - e a perspicácia de Klaassen, que cantou a jogada. A partir daí, o jogo esquentou. No aspecto técnico e psicológico. No primeiro, Van Beek teve chances (cabeceou a bola, e Veltman tirou em cima da linha), e o Ajax respondeu aos 41, num erro de Botteghin (o brasileiro recuou curto, El Ghazi dominou pela direita, tentou driblar Vermeer, mas o goleiro do Feyenoord conseguiu cortar com os pés para a linha de fundo).

No psicológico, já na etapa final, havia olhares feios aqui e acolá, principalmente entre Klaassen e alguns do Feyenoord, como Karim El Ahmadi e Basaçikoglu. Ainda assim, o jogo permanecia agradável, com bons ataques e aquela tensão típica de grandes clássicos. Não dava para dizer quem ganharia. Quer dizer, não até os 20 minutos do segundo tempo. Aí apareceu a habilidade de Bazoer em chutes de fora da área: Younes tentou entrar na área com a bola dominada, mas Van Beek cortou. Só que o meio-campista pegou o rebote de primeira e bateu no ângulo, marcando mais um golaço para o Ajax. A vitória poderia ter sido definida aos 24, quando Klaassen foi derrubado na área por Vermeer, e o juiz Kevin Blom marcou o pênalti. Só que Nemanja Gudelj bateu muito mal, mandando a bola por cima do gol (gramado, de novo?). Com as entradas de Elia e Kramer, o Feyenoord voltou a ter três atacantes, e até pressionou. Mas o Ajax saiu-se bem, e conseguiu nova e importante vitória no Klassieker. Aos Rotterdammers, restou amargar a sexta derrota seguida, perdendo definitivamente a terceira posição para o Heracles. De fato, a disputa do título é coisa apenas para PSV e Ajax.

De Graafschap 1x1 NEC (domingo, 07.02)


Sabe-se que o venezuelano Christian Santos é o grande destaque do NEC na temporada, e que foi cortejado durante a janela de transferências recém-encerrada. O que ainda não se sabe é por que diabos Santos foi colocado no banco de reservas, onde ficará o restante da temporada. Por mais que seu contrato esteja se encerrando, era de se esperar um melhor tratamento dos Nijmegenaren com seu mais confiável goleador (gols na temporada). Pois bem: o lanterna De Graafschap, de certa forma, puniu a opção dos visitantes. Estes até começaram melhor: num escanteio, o romeno Mihai Roman (substituto de Santos) desviou para o zagueiro Wojciech Golla completar, exigindo boa defesa de Hidde Jurjus, em dois tempos e à queima-roupa. Todavia, num contra-ataque já aos 10 minutos, pouco depois, o De Graafschap fez 1 a 0: Andrew Driver dominou a bola após passe de Tolgahan Ciçek, e bateu quase sem ângulo para abrir o placar aos Superboeren.

Só diante das dificuldades - iniciadas já aos cinco minutos da etapa inicial, quando Mohamed Rayhi precisou ser substituído após uma dividida em jogo aéreo - o NEC apelou para seu destaque: Santos entrou logo após o intervalo, e a ofensividade dos Nijmegenaren aumentou. Meio-campo e ataque ganharam ainda mais espaço com a expulsão de Karim Tarfi, aos 24 minutos, tornando mais difícil para os Superboeren conterem o NEC. Finalmente, veio o empate, aos 34: após escanteio, Navarone Foor desviou, Jurjus deu o rebote, e Marcel Ritzmaier conferiu. Se o NEC perdeu a chance de também passar o Feyenoord na tabela, ao De Graafschap ficou a esperança: a desvantagem para o Cambuur, penúltimo colocado, é de apenas um ponto.

Groningen 2x0 Cambuur (domingo, 07.02)

Desde que a partida no Euroborg começou, não houve a menor dúvida sobre a melhor equipe em campo. O time do norte impôs facilmente sua superioridade diante do penúltimo colocado do Holandês, e aos 20 minutos fez 1 a 0 em bonita triangulação: Danny Hoesen lançou Bryan Linssen, e o atacante driblou bonito o zagueiro para cruzar da direita e ver Michael de Leeuw abrir o placar, de cabeça. Do lado dos visitantes, nenhum dos dois estreantes (o volante Rai Vloet e o atacante Kevin van Veen) conseguiu fazer coisa que valesse para os Leeuwarders.

Assim, sem correr riscos, o Groningen definiu sua vitória já na parte final do segundo tempo, em outro bonito gol. Aos 30, em jogada individual, Oussama Idrissi (que substituíra Hoesen) driblou o lateral direito Tom Hiariej e bateu colocado, mandando a bola no ângulo do gol de Leonard Nienhuis. Vitória categórica do time da casa, que manteve o sétimo lugar e a permanência na zona de play-offs por Liga Europa. Ao Cambuur, resta amargar não só ficar na penúltima posição da Eredivisie, mas também ver a aproximação crescente do lanterna De Graafschap. O perigo do rebaixamento direto só cresce.

Van Ginkel mal entrou e já se entrosou no PSV: foi o autor do segundo gol contra Utrecht (ANP/Pro Shots)
Utrecht 0x2 PSV (domingo, 07.02)

O PSV já estava experimentado contra o Utrecht. Para o mal: afinal, os Utregs se impuseram com um jogo ofensivo em pleno Philips Stadion, na quinta passada, fazendo 3 a 1 nos Eindhovenaren e se classificando às semifinais da Copa da Holanda. E para o bem: exatamente pelo que se vira havia três dias, Phillip Cocu pôde fazer algumas alterações nos titulares entre um jogo e outro. Na defesa, Héctor Moreno voltou a ser improvisado na esquerda, com Nicolas Isimat-Mirin fazendo a dupla de zaga com Jeffrey Bruma - Jetro Willems, titular na derrota de quinta, ficou no banco. No ataque, Florian Jozefzoon começou um jogo pela primeira vez após a grave lesão no ligamento cruzado anterior do joelho, e Gastón Pereiro retornou à titularidade no lugar de Luciano Narsingh. Sem Andrés Guardado, ainda em recuperação, Marco van Ginkel já estreou, após seu empréstimo nesta semana.

E tais alterações deram resultado. Com o Utrecht jogando no 4-4-2, tendo seus dois destaques isolados no ataque (Sébastien Haller e Ruud Boymans), o PSV foi francamente superior na etapa inicial. Enquanto Jeroen Zoet foi "espectador privilegiado" do jogo em sua meta, os Boeren rapidamente se impuseram, esbanjando entrosamento e rapidez nos contragolpes. Num deles, aos 14 minutos, veio o primeiro gol: Van Ginkel tocou a Luuk de Jong, e este apenas desviou para a direita, deixando Santiago Arias livre. E o colombiano apenas entrou na área e tocou na saída do goleiro Robbin Ruiter, que até resvalou na bola, sem evitar o 1 a 0. Aos 20, liderança ampliada em outra jogada: novo lançamento alto, De Jong tocou de cabeça e Pereiro desviou com a perna. Foi a sorte dos Boeren: esse desvio serviu como "corta-luz" informal para Van Ginkel entrar chutando e fazer 2 a 0, marcando logo em seu primeiro jogo com a camisa do clube de Eindhoven.

No segundo tempo, enquanto Willems recebeu nova chance no PSV, o Utrecht corrigiu os erros dos primeiros 45 minutos. Se antes Haller e Boymans ficaram inativos demais na frente, não só passaram a ser mais acionados via cruzamentos, mas também receberam auxílios de Nacer Barazite, vindo do meio-campo. Não demorou muito para a primeira chance, a mais perigosa dos Utregs: aos 10 minutos, em escanteio da esquerda, Ruud Boymans chegou na primeira trave e cabeceou. Zoet saiu mal, e a bola foi no travessão. Aos 18, Christian Kum cruzou da direita, e Haller também testou firme, mas o goleiro dos PSV'ers agarrou a bola com firmeza dessa vez. Mesmo com alguns bons chutes de Barazite, fora da área, aos poucos os visitantes de Eindhoven retomaram o controle, e até trouxeram perigos em contragolpes no fim do jogo. A entrada de Stijn Schaars no lugar de Jozefzoon fechou mais o meio-campo. E o PSV garantiu sua sexta vitória consecutiva, sinalizando: não vai deixar escapar tão fácil a liderança que conquistou.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Feyenoord: não é crise, é um velho hábito

O desencanto da torcida com o Feyenoord vitimou injustificadamente Vejinovic (à esquerda) (ANP/Pro Shots)

Talvez o meio-campista Marko Vejinovic, do Feyenoord, tenha encarado a pior marcação de sua vida no fim de semana passado. Não no gramado de De Kuip, enfrentando o ADO Den Haag, no domingo, pela 21ª rodada do Campeonato Holandês. Mas, infelizmente, por algo ocorrido antes mesmo da partida: sete “idiotorcedores” invadiram a casa do volante Feyenoorder e ameaçaram-no de morte, junto de sua esposa. Coisa pior só não aconteceu porque ela acionou a polícia de Roterdã, que deteve os sete (jovens entre 18 e 21 anos), e viu um deles confessar a insensatez. 

E no meio da semana passada, antes ainda dos momentos tensos que Vejinovic viveu, outro grupo de torcedores do Feyenoord passara de carro, em frente à casa do atacante Michiel Kramer, e o mandara fazer algo impublicável. Esses dois momentos, absolutamente dramáticos e desnecessários, mereceram as duras palavras de Eric Gudde, diretor técnico do clube: “É escandaloso, horrível, insano demais para descrever. Embora o time esteja atuando mal – e acreditem, todo mundo aqui lamenta muito isso -, isso não dá o direito de invadir o espaço privado de um jogador”.

A insensatez contra Vejinovic e Kramer só ampliou a dimensão do que se chama de “crise” no Stadionclub. Crise até justificável, a princípio: afinal de contas, com cinco derrotas consecutivas na Eredivisie (quatro delas após a pausa de inverno), estacionado na terceira posição, com 36 pontos, o Feyenoord viu sua esperança de título nacional ser demolida cruelmente. Não é apenas questão de ver o PSV, novo líder do torneio, 14 pontos à frente, com o vice-líder Ajax um ponto abaixo – logo, 13 à frente. É também correr o risco de perder a terceira posição na liga: o Heracles Almelo, quarto colocado, está um ponto abaixo dos Rotterdammers, e o NEC, quinto, está a dois pontos. E há o Vitesse, três pontos abaixo; o Utrecht, quatro pontos... 

Enfim, a pressão sobre o Feyenoord aumentou. Até compreensivelmente. Trata-se de um clube que já não conquista títulos nacionais há 17 anos, e que fez investimentos admiráveis para conseguir sair da fila na atual temporada. Aumentou o elenco em todos os setores. Na zaga, chegaram Jan-Arie van der Heijden e Eric Botteghin; o meio-campo recebeu o sueco Simon Gustafson; no ataque, Eljero Elia e Michiel Kramer ladearam a estrela maior da relação de contratações, o ídolo Dirk Kuyt. Tudo isso, sem contar o elenco que já estava no clube, mais a expectativa sobre o primeiro trabalho de Giovanni van Bronckhorst como técnico.

Todavia, falar em crise talvez seja um pouco demasiado. Afinal de contas, na expressão fria dos números, o Feyenoord não está tendo um desempenho muito diferente do mostrado nas temporadas mais recentes. O jornalista Ramon Min, da revista Voetbal International, levantou em seu perfil no Twitter todas as pontuações do time após 21 rodadas, de 1999/2000 (primeira temporada do jejum) até agora. Em 2014/15, o Feyenoord tinha 38 pontos, apenas dois acima dos 36 de atualmente; em 2013/14, eram 37 pontos após 21 rodadas; em 2012/13, eram 41 pontos. Ou seja, as pontuações não revelam queda brusca de desempenho. Ao contrário, indicam até regularidade.

Mas outro dado, também regular, não é nada positivo para o clube: nas últimas dez temporadas, o Feyenoord historicamente “morreu” no início do returno, mesmo que não disputasse diretamente o título. Nos jogos de janeiro, foram cinco vitórias, sete empates e 14 derrotas. Ou seja, por mais promissora que seja a campanha no turno, a pausa de inverno quebra o ânimo, e o time de Roterdã não consegue retomar ou manter o bom ritmo nas primeiras rodadas da volta, perdendo chances de alcançar objetivos mais promissores. Ou seja: talvez não seja uma “crise” o que a equipe de De Kuip vive, mas sim a repetição de um velho e mau hábito. 

Porém, o hábito foi potencializado pelo péssimo desempenho visto no returno: o Feyenoord é uma das duas únicas equipes do Campeonato Holandês a só ter derrotas após a pausa de inverno. Pior: as cinco derrotas consecutivas marcam a pior sequência negativa que o clube já teve em sua longa história na divisão de elite. Nem mesmo no seu ponto baixo mais conhecido (o 10 a 0 sofrido para o PSV, na temporada 2010/11) o retrospecto recente era tão negativo – a sequência daquela época foi de quatro derrotas e um empate, contando com a goleada dos Eindhovenaren. Para se ter mais uma dimensão, em toda a temporada passada, o Feyenoord teve... nove derrotas.

Mas por que, afinal de contas, essa queda brusca que eliminou o sonho de pôr fim ao tabu? Não é difícil explicar: se tem um ataque dos melhores no futebol holandês (Elia dá velocidade pela ponta esquerda, enquanto Kramer e Kuyt são bons finalizadores) e se o meio-campo tem crescimento de produção em Tonny Trindade de Vilhena (o único ponto positivo das rodadas recentes), a defesa deixa muito a desejar. São crônicos os espaços deixados pelos laterais – tanto na direita, com Rick Karsdorp, como na esquerda, com Miquel Nelom. Jogando adiantada, a linha de quatro defensores é facilmente surpreendida. Bastam contragolpes rápidos e eficientes para colocarem os atacantes adversários na cara do gol de Kenneth Vermeer. 

Assim aconteceu na última rodada do primeiro turno, quando o rápido ataque do NEC conseguiu a virada para 3 a 1. Assim foi no início do returno, no fundamental jogo contra o PSV: bastou ao atual campeão conter a pressão no primeiro tempo, fora de casa, para fazer 2 a 0 numa bola aérea (Héctor Moreno) e num contra-ataque no fim do jogo (Luciano Narsingh). Assim foi contra o AZ, quando Vincent Janssen e Dabney dos Santos marcaram a saída de bola, forçando erros que levaram ao 4 a 2 dos Alkmaarders. Assim foi contra o Heerenveen: dois avanços agudos dos frísios deram-lhes o 2 a 1 em pleno De Kuip. E assim foi na rodada passada, contra o ADO Den Haag: o trio de ataque insinuante dos visitantes de Haia trouxe perigo pelos lados desde o começo, e mereceu o 2 a 0.

O pior é que o ataque também rateou seriamente nessas partidas sem vitória. Primeiramente, pelo turbulento fim da passagem de Colin Kazim-Richards pelo Feyenoord. Desde o final de 2015, o turco nascido na Inglaterra era criticado pelo seu comportamento fora de campo, além de ter caído de produção dentro, perdendo a titularidade para Kramer. Em janeiro, o diário Algemeen Dagblad publicou reportagem comentando sobre as queixas a Kazim-Richards por parte de funcionários do clube, durante a intertemporada, na cidade portuguesa de Albufeira. O atacante decidiu resolver tudo com as próprias mãos, de modo desastrado: a dois dias do clássico contra o PSV, Kazim encontrou Mikos Gouka, o autor da matéria do Algemeen Dagblad, que esperava o início de uma entrevista coletiva de Van Bronckhorst. O jogador empurrou Gouka e ameaçou: "Eu vou te arrebentar". Aí, não houve mais como defendê-lo: ele foi suspenso pela diretoria, e ficou completamente desambientado no Feyenoord. Restou negociá-lo rapidamente com o Celtic, no último dia da janela de transferências.

Todavia, isso diminuiu demais as opções do elenco para o ataque. Porque Kramer lesionou-se durante a partida contra o Heerenveen - e mesmo antes dela, já não tinha bom desempenho. E os reservas Anass Achahbar e Bilal Basaçikoglu ainda são jovens demais para darem plena confiança. Achahbar é o grande exemplo: é capaz de entrar num jogo e incendiá-lo, com jogadas como o belíssimo gol de bicicleta no supracitado jogo contra o Heerenveen, mas não é confiável para resolver tudo em 90 minutos.

Pelo menos, ainda há a Copa da Holanda. E para minorar a pressão, jogou de modo tenso contra o Roda JC, nas quartas de final: escalado no 5-3-2, sem correr riscos nem levar muito perigo, só conseguiu a vitória na prorrogação, com um gol de cabeça de Eric Botteghin. E o zagueiro Sven van Beek já recomenda que o time entre com três zagueiros na próxima rodada (talvez até dando a chance de estreia a uma contratação da janela recém-encerrada: o peruano Renato Tapia, vindo do Twente). Nada mais ajuizado.

Afinal de contas, o Feyenoord tentará evitar a sexta derrota seguida tendo “só” um Klassieker contra o Ajax. Em Amsterdã. Será duro conter a paciência da torcida – e mais ainda, a de bagrecéfalos (criminosos, até, como os qualificou Bert van Oostveen, diretor da KNVB) como os que cometeram os atos contra Vejinovic e Kramer.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 5 de fevereiro de 2016)

domingo, 31 de janeiro de 2016

810 minuten: como foi a 21ª rodada da Eredivisie

Luuk de Jong e Pröpper comemoram a tarefa cumprida: o PSV é o novo líder no Holandês (ANP/Pro Shots)

Willem II 0x0 Heracles Almelo (sexta-feira, 29.01)

Para tentar se livrar da proximidade perigosíssima da zona de repescagem/rebaixamento, o Willem II foi às compras de última hora na janela de transferências. E conseguiu um bom reforço para o ataque: o nigeriano Bartholomew Ogbeche, adquirido junto ao Cambuur, que já vem com nove gols marcados na atual temporada. Mal chegou, Ogbeche já estreou como titular contra o Heracles. No entanto, nem apareceu muito: apenas uma chance real, no primeiro tempo, escorando cruzamento de Guus Hupperts, bola facilmente defendida pelo goleiro Bram Castro. Ainda na etapa inicial, um voleio de Lucas Andersen foi a outra jogada de perigo dos Tricolores em Tilburg.

No segundo tempo, então, os visitantes fizeram valer o time mais entrosado e a melhor campanha no Campeonato Holandês. E conseguiram a melhor chance do jogo: aos 35 minutos, Iliass Bel Hassani fez ótima jogada individual, passou por vários defensores do Willem II e arriscou chute de fora da área. A bola foi no travessão defendido por Kostas Lamprou. E o jogo ficou mesmo no segundo empate seguido sem gols para os Heraclieden - que, pelo menos, retomaram momentaneamente a quarta posição. Já o Willem II segue na metade de baixo da tabela, esperando que o talento já visto no meio-campo e no ataque (entre outros, com Andersen e Erik Falkenburg) ganhe a referência que falta com Ogbeche.

Vitesse 0x0 Excelsior (sábado, 30.01)

Se vencer o Cambuur na primeira rodada do returno fazia crer que o Vitesse subiria de vez para a disputa contra o Heracles Almelo pelo posto de "melhor do resto" na Eredivisie, as partidas posteriores diminuíram este ímpeto. Primeiro, a derrota para o Ajax; no meio da semana, o empate com o Zwolle; e nesta 21ª rodada, os Arnhemmers tiveram desempenho ofensivo fraco novamente, contra um rival muito menos capacitado. Basta dizer que, no primeiro tempo, quem mais arriscou chutar a gol entre os jogadores do Vites foi... um zagueiro (Maikel van der Werff). E ainda assim, a única oportunidade realmente perigosa do time da casa foi um chute de Renato Ibarra; aos 30 minutos, após tabelar com Marvelous Nakamba, o atacante equatoriano mandou a bola perto do gol defendido por Filip Kurto.

No segundo tempo, Ibarra voltou a aparecer: logo aos cinco minutos, arrematou no travessão. Porém, a ineficiência e morosidade ofensivas do Vitesse voltaram a se fazer notar, a ponto da torcida iniciar uma vaia e gritos de "voetballen, voetballen" (o "vamos jogar bola" dos holandeses). E o Excelsior - que, neste returno, não ficou na frente do placar em seus jogos por nem um segundo que fosse - se animou mais a atacar, principalmente com Brandley Kuwas, que já se destacara contra o PSV. Ainda assim, o único momento de real chance dos Kralingers veio aos 35 minutos, quando Henrico Drost aproveitou escanteio e bateu para defesa de Eloy Room, em cima da linha. E o 0 a 0 final foi ruim para ambos os times: o Vitesse perdeu a chance de superar Heracles e NEC, enquanto o Excelsior continua sem vencer no returno, e já está na zona de repescagem/rebaixamento.

Zwolle 1x3 Groningen (sábado, 30.01)

Ainda que o returno esteja apenas começando, o clima melancólico já estava em alta no Groningen. Tanto pelos três jogos sem vitória - dois empates, uma derrota -, quanto pelo anúncio de que o técnico Erwin van de Looi deixará o time após esta temporada. Contudo, o jogo contra o Zwolle começou promissor para os Groningers: aos 24 minutos, em bola cruzada da área, o goleiro Mickey van der Hart falhou ao tentar agarrar, e a bola sobrou para Alexander Sorloth fazer 1 a 0 para os visitantes. Mas a alegria (do time) do norte durou pouco, porque Sorloth lesionou-se no lance do gol - fraturou um osso da mão -, e teve de dar lugar a Danny Hoesen.

Ficaria pior ainda: no segundo tempo, aos 11 minutos, o volante Wout Brama cruzou, e Thomas Lam cabeceou para as redes, empatando para o Zwolle. Aí foi a vez de Hoesen evitar novo destino cruel para os visitantes nortistas: aos 17 minutos, ele ajeitou bola cruzada do lateral direito Hans Hateboer com o calcanhar, deixando limpa para Michael de Leeuw chutar e recolocar o Groningen na frente. Finalmente, aos 32 minutos, Hoesen aproveitou cruzamento de Oussama Idrissi e desviou para fazer 3 a 1, confirmando a primeira vitória do Groningen no returno. Pelo menos, um pouco de ânimo em Euroborg.

PSV 4x2 De Graafschap (sábado, 30.01)

Ao vencer o ADO Den Haag e ficar apenas a três pontos do Cambuur, penúltimo colocado, o De Graafschap viajou a Eindhoven cheio de ânimo. Só que seu adversário era o atual campeão holandês. No papel, um time francamente superior. E nos primeiros 45 minutos, o PSV demonstrou essa superioridade de modo tão inquestionável que só mesmo as boas defesas do goleiro Hidde Jurjus (destaque dos Superboeren, sem dúvida) impediram o encaminhamento de uma goleada. Isso, sem contar que Jürgen Locadia perdeu um pênalti, aos 37 minutos - sétimo penal perdido pelo time de Eindhoven na temporada!

Ainda assim, os Boeren fizeram 3 a 0 sem muito esforço. Aos 17 minutos, em rápido contra-ataque dos anfitriões, Davy Pröpper lançou Luciano Narsingh; da direita, este cruzou a Luuk de Jong, que apareceu livre, tocou e conseguiu aproveitar o rebote de Jurjus para marcar seu 16º gol na temporada. Aos 31, Pröpper recebeu de Locadia nas proximidades da área e bateu colocado, no canto esquerdo do goleiro, para fazer 2 a 0. O supracitado pênalti perdido aconteceu, mas aos 44, Narsingh fez 3 a 0. Como na rodada passada, em bonito lance individual: pela esquerda, uma ginga de corpo do atacante enganou dois defensores, e ele pôde chutar cruzado, no ângulo canhoto de Jurjus, para ampliar. Se continuasse aproveitando bem as chances em contragolpes e impusesse seu poderio ofensivo contra o último colocado do Holandês, a goleada certamente viria para o PSV na etapa final. Só que os Eindhovenaren claramente relaxaram - por sinal, como haviam feito no jogo contra o De Graafschap, no primeiro turno, quando também fizeram 3 a 0 no primeiro tempo.

E o espírito de luta dos visitantes lhes rendeu recompensas promissoras no final do jogo. Aos 23 minutos, o zagueiro Ted van de Pavert avançou ao ataque, recebeu passe de Andrew Driver pela esquerda e bateu forte para diminuir. Aos 35, o lateral direito Bart Straalman chutou de fora da área, e um desvio em Jorrit Hendrix mandou a bola no ângulo, ainda que Jeroen Zoet tentasse a defesa: o time de Doetinchem deixara o placar em 3 a 2. Para o PSV, a coisa ainda piorou: ao tentar dominar uma bola, Andrés Guardado lesionou o músculo da coxa, e teve de ser substituído (fala-se em dúvida até para as oitavas de final da Liga dos Campeões). Mas quando crescia o temor de repetir o filme do jogo do turno - o De Graafschap transformara o 3 a 0 em 3 a 3, antes de levar o 6 a 3 final -, Gastón Pereiro tranquilizou o PSV: em rápido contra-ataque aos 39 minutos, a bola foi cruzada ao uruguaio, que driblou Jurjus e fez 4 a 2. Porém, mesmo passando a noite de sábado como líder da Eredivisie, o PSV sabe: venceu passando um certo sufoco. Desnecessário, a essas alturas do campeonato. E ainda pode perder Guardado...

NEC 0x3 AZ (sábado, 30.01)

De um lado, o campeão da segunda divisão, invicto no returno - três vitórias, um empate - somando-se ao turno, cinco jogos de invencibilidade -, podendo chegar à terceira posição em caso de vitória. De outro, um AZ renascido: três vitórias nas três mais recentes partidas, começando a vislumbrar os play-offs por vaga na Liga Europa como uma meta ainda alcançável nesta temporada. Com os dois times ascendentes, poderia haver um jogo bem animado no estádio De Goffert, em Nijmegen. Poderia... mas Markus Henriksen não deixou: logo aos 33 segundos de jogo, um lançamento de Dabney dos Santos deixou o armador sueco livre para colocar o AZ na frente. E aos 15 minutos da etapa inicial, Alireza Jahanbaksh (justo ele, um dos destaques da campanha do título na segunda divisão!) ampliou a vantagem dos Alkmaarders.

Desde então, a vitória dos visitantes ficou encaminhada. Mérito de um time que conseguiu se acertar com as contratações (o veterano Ron Vlaar trouxe mais confiança ao miolo de zaga, mesmo com a saída de Jeffrey Gouweleeuw para o Augsburg-ALE), e que viu gente já promissora decolar de vez (Vincent Janssen é o principal caso, já buscando Luuk de Jong na artilharia do campeonato). Com um NEC também elogiável do meio para frente, mas ainda buscando entrosamento na defesa - o zagueiro Rens van Eijden, capitão do time, foi-se para o Dinamo Moscou -, os Alkmaarders não só conseguiram manter a vantagem, mas ampliaram-na: aos 30 minutos, o trinitário Levi Garcia, 18 anos (mais jovem nativo de Trinidad & Tobago a estrear na Europa, mais até do que Dwight Yorke), marcou seu primeiro gol no time adulto, em sua segunda partida nele. E o AZ manteve-se como um dos únicos times do Campeonato Holandês a só vencer no returno. Ao NEC, ficou para a próxima rodada a tentativa de superar o Heracles e o Feyenoord.

Ngombo novamente alegrou a torcida do Roda JC. Ao Ajax, restou a decepção (fotos: Proshots/Montagem: ad.nl)
Roda JC 2x2 Ajax (domingo, 31.01)


Enfim, a pressão chegou para o Ajax. Após o tropeço contra o Heracles Almelo - mais as duas vitórias do PSV -, o time da estação Strandsvliet teria de começar a vencer, se quisesse manter a liderança da Eredivisie. Afinal, a vantagem é de apenas um ponto. Contra o Roda JC, a coisa começou difícil para os visitantes. Não que os mandantes oferecessem perigo: nos primeiros minutos da etapa inicial, Jasper Cillessen mal apareceu no jogo. Mas o 4-4-1-1 com que os Koempels foram a campo fechava os espaços para o toque de bola do Ajax. Só aos 13 minutos veio uma chance considerável, num chute de Riechedly Bazoer bem defendido pelo arqueiro Benjamin van Leer. Se não dava na troca de passes, deu nas jogadas de bola parada: aos 24 minutos, Mitchell Dijks cobrou escanteio da esquerda, e Arkadiusz Milik apareceu na primeira trave para se antecipar, cabecear e fazer 1 a 0 para os Godenzonen.

E o Ajax conseguiu aproveitar o abatimento do Roda JC após o gol para ampliar a vantagem rapidamente: já aos 27 minutos, Bazoer aproveitou passe errado do lateral Martin Milec, dominou e lançou Anwar El Ghazi. E o atacante bateu cruzado, no canto direito de Van Leer, para marcar o segundo gol Ajacied. Jogo definido? Não, porque o Roda se animou. Aos 35 minutos, jogada rápida pela direita, Kristoffer Peterson superou a marcação e cruzou forte para Rydell Poepon (chegou bem ao time) entrar veloz e escorar, marcando o primeiro dos anfitriões. O gol acelerou o final dos primeiros 45 minutos: Daley Sinkgraven chegou a evitar um gol em cima da linha, em chute de Ugur Inceman.

No segundo tempo, o Roda JC voltou menos ativo no ataque. Prato cheio para o Ajax tentar colocar em prática o que tenta fazer sempre nesta temporada: controlar a vitória, com o miolo de zaga dando os botes certos e contendo os avanços. As entradas de Viktor Fischer e do recuperado Davy Klaassen tentaram dar mais qualidade na troca de passes no meio-campo. Mas atacar, nada: o Ajax não deu um chute a gol sequer na etapa complementar. Aí, a equipe aurinegra se animou: aos 26 minutos, Maecky Ngombo, autor do gol da vitória contra o Utrecht, foi novamente colocado em campo. Os ataques do Roda JC cresceram de intensidade e perigo: aos 39 minutos, Poepon quase marcou pela segunda vez no jogo, mas chutou na rede pelo lado de fora. Só que a inclinação ofensiva dos donos da casa foi premiada da maneira mais gostosa de se imaginar: aos 47 minutos, nos acréscimos, em escanteio, Ngombo subiu sozinho e cabeceou para empatar o jogo, salvando o Roda pela segunda vez na semana. Azar do Ajax, que confiou demais na sua defesa - boa, mas irregular - e entregou a ponta do campeonato ao PSV.

Com o gol de Jansen, o ADO Den Haag começou a calar novamente o Feyenoord (Laurens Lindhout Photography/VI Images)
Feyenoord 0x2 ADO Den Haag (domingo, 31.01)

Já que o sonho do título está praticamente acabado, restava ao Feyenoord tentar acabar com a sequência de partidas sem vitória. E as circunstâncias forçaram algumas mudanças no time titular: lesionado, Michiel Kramer ficou de fora, e Dirk Kuyt foi para o meio da área no trio de ataque, enquanto Bilal Basaçikoglu ganhou sua chance na direita. Na defesa dos Rotterdammers, o brasileiro Eric Botteghin, recuperado de lesão, tomou o lugar de Sven van Beek. Até aí, tudo bem. Só faltou combinar com o ADO Den Haag: jogando no 4-1-4-1, a equipe de Haia ficou muito compactada na defesa, impedindo duas das principais opções ofensivas do Stadionclub (os avanços de Eljero Elia pela esquerda, e os passes em profundidade de Simon Gustafson). E também aproveitou os espaços nas pontas para fazer suas jogadas de ataque.

Com isso, o Den Haag quase abriu o placar com rapidez, nos primeiros cinco minutos de jogo. Começou até contando com a sorte: numa bola lançada para a área, aos três minutos, Kuyt tentou recuar de cabeça a Kenneth Vermeer, e quase pegou o goleiro Feyenoorder no contrapé. Aos cinco, Ruben Schaken veio veloz pela direita, cruzou alto, e Aaron Meijers apareceu pela esquerda da área, batendo de voleio e mandando a bola na rede pelo lado de fora, rente ao gol. O Feyenoord só aparecia momentaneamente no ataque, mas de modo infrutífero. Se bem que a única chance real de gol até entrou nas redes, aos 28 minutos, mas foi anulada incorretamente (Gustafson teve o tento anulado por impedimento após passe de Kuyt, mas estava em posição legal). Sorte dos visitantes auriverdes, que aproveitaram outra chance da ponta para conseguir a vantagem merecida, aos 41 minutos: o lateral Gianni Zuiverloon trocou passes com Schaken, cruzou da direita, e Mike Havenaar escorou de cabeça na segunda trave para Kevin Jansen, que só teve o trabalho de completar para o gol vazio e fazer 1 a 0. Kuyt quase empatou no minuto seguinte, de cabeça, mas a bola saiu por pouco.

No segundo tempo, mais relaxado, o ADO Den Haag pôde até se dar ao luxo de mudar o esquema para o 4-3-3, dando mais opções em caso de acelerar os contragolpes. O Feyenoord tentou o que já vinha tentando: cruzamentos para a área, além de tentativas de jogada iniciadas com Tonny Trindade de Vilhena (o único ponto positivo do Stadionclub nas últimas rodadas). Mas o ânimo já baleado dos mandantes sofreu golpe pior aos 13 minutos, em um lance de azar: Danny Bakker veio da direita e tocou para o meio. Elia, ajudando na marcação, tentou desarmar, mas tocou acidentalmente para Zuiverloon, e o lateral ficou livre para entrar na área e tocar na saída de Vermeer, ampliando a vantagem dos Hagenaren. De resto, mesmo com a entrada de Anass Achahbar, autor do golaço contra o Heerenveen, o Feyenoord só teve capacidade para chutar sem sucesso de fora da área, várias vezes - o único perigo veio numa sequência de cabeceios, muito bem defendidos por Martin Hansen. Quinta rodada seguida de derrotas, marca inédita na história do clube. Único time da Eredivisie a só perder no returno. Gols contrários sucessivos de gente que já passou pela base do clube (cinco, dos últimos sete). O que mais pode acontecer para o Feyenoord, novamente em queda livre após o returno?

Cambuur 0x1 Heerenveen (domingo, 31.01)

O clássico da província da Frísia trazia duas obrigações. Para o Cambuur, óbvio, vencer, e tentar abrir novamente seis pontos de vantagem para o lanterna De Graafschap, minorando um pouco o peso da penúltima colocação; para o Heerenveen, cabia obter a segunda vitória seguida após o bom triunfo contra o Feyenoord, mantendo assim os play-offs pela Liga Europa na zona de mira. Essas tensões tornaram o primeiro tempo em Leeuwarden bem truncado, sem grandes chances. A única delas foi para o Cambuur, aos 22 minutos: após chegar nesta semana ao clube, cedido pelo PSV até o final da temporada, o volante Rai Vloet quase lustrou sua estreia nos Leeuwarders, ao entrar na área chutando, mas a bola foi por cima do gol.


Mais cauteloso nos primeiros 45 minutos, o Heerenveen teve mais sorte. Logo na primeira tentativa no segundo tempo, veio o gol do time da Frísia: aos dois minutos, Arber Zeneli fez bonito gol, vindo pela direita, cortando o zagueiro e batendo colocado no canto esquerdo do arqueiro Leonard Nienhuis. Pouco depois, aos 13, Erwin Mulder ainda apareceu bem para o Fean: fez defesa extraordinária em cabeçada à queima-roupa de Marvin Peersman, a ponto da bola ainda ter batido na trave. E os visitantes saíram do clássico provinciano com o triunfo desejado (primeiro em Leeuwarden, em 15 anos), mantendo a zona dos play-offs como objetivo alcançável. 

Utrecht 1x3 Twente (domingo, 31.01)


Duas equipes em situações diferentes na tabela. O Utrecht precisava da vitória para se recuperar do revés contra o Roda JC, voltando a disputar a posição de "melhor do resto" contra Heracles, NEC e Vitesse; ao Twente, a vitória significava sair da zona de repescagem/rebaixamento, deixando o Excelsior nela. Pois pelo menos nesta rodada, os Tukkers pareceram estar nos bons tempos dentro de campo, quando não havia perigo de queda, nem problemas financeiros na diretoria. Foram superiores desde o começo contra os Utregs, vitimados pela ausência de Ramon Leeuwin na defesa. A vitória foi praticamente definida no primeiro tempo. Logo aos três minutos, Hakim Ziyech cobrou escanteio, e Bruno Uvini subiu de cabeça para fazer 1 a 0 (primeiro gol do brasileiro na temporada). Aos nove, Ziyech apareceu de novo: o camisa 10 lançou Zakaria El Azzouzi, que dominou e bateu para ampliar, marcando pela primeira vez no clube em que ficará até o fim da temporada, emprestado pelo Ajax.

Depois de dois gols surgidos das frequentes colaborações de Ziyech (na temporada, onze gols e sete assistências), o Twente relaxou um pouco. Mas justamente quando o Utrecht parecia se recuperar e tentar uma reação, os Enschedese garantiram o terceiro gol, ainda na etapa inicial: aos 35, lançado em profundidade, o chileno Felipe Gutiérrez bateu forte e fez 3 a 0. Na etapa final, o Utrecht ainda teve a entrada de dois atacantes: o estreante Giovanni Troupée e Ruud Boymans. E foi justamente este, frequentemente útil à equipe, que tentou ajudar, diminuindo a vantagem aos 35 minutos. Mas já era tarde para o Utrecht evitar a segunda derrota seguida. Pela primeira vez desde a 13ª rodada, o Twente está fora da zona de repescagem/rebaixamento. Enfim, algo a comemorar. Se Hakim Ziyech terminar o dia final da janela de transferências ainda em Enschede, tanto melhor.

sábado, 30 de janeiro de 2016

O "Mister PSV" Romário mostrou suas facetas em Eindhoven

As alegrias que Romário deu à torcida do PSV compensavam plenamente os questionamentos (Arquivo ANP)
Julho de 2011. Um grupo é guiado por uma visita ao Philips Stadion, estádio do PSV. Na sala de troféus, está tudo lá: a réplica da taça da Copa/Liga dos Campeões 1987/88, a taça da Copa Uefa 1977/78, e as 21 (na época) salvas de prata pela conquista dos campeonatos holandeses. A certa altura, entre perguntas dos visitantes e explicações do guia, este fica sabendo da presença de um brasileiro. Na saída da sala, uma foto de Romário. O guia aponta para ela, olha para o compatriota do ex-jogador presente ali e comenta: “Ele só não gostava de treinar... mas com o que jogava, nem precisava”.

Nem se sabe mais se o formato da visita é o mesmo. Afinal de contas, o PSV reformou internamente seu estádio e inaugurou um museu propriamente dito, em 2013, ano de seu centenário. Não importa: Romário sempre terá destaque gigantesco na história do clube. Pelos cinco anos passados ali em Eindhoven (foi o clube europeu em que ficou por mais tempo), pelos gols marcados (dependendo das listas de gols e dos critérios delas, sua média passa de 1 gol por jogo – pelo critério de Romário, auxiliado pelo PSV, foram 165 gols em 163 jogos, média de 1,01; outras fontes falam em 165 gols em 167 jogos), e até pela personalidade sempre marcante, o atacante que completa 50 anos nesta sexta é tido e havido como o grande atleta da história dos Boeren. Talvez só o ex-atacante Willy van der Kuijlen, cria da base do PSV, que passou 17 anos no clube e conquistou a supracitada Copa Uefa, se aproxime do filho de Edevair e Manoela (“Lita”), em termos de importância e admiração da torcida.

O curioso é pensar que, de parte a parte, a história brilhante do brasileiro esteve muito perto de não sair da imaginação. Primeiro, porque o próprio atacante mal ouvira falar em PSV. Na biografia escrita pelo jornalista Marcos Vinícius Rezende de Morais, lançada em 2009, o próprio comentou: “Minha transferência para o exterior poderia ter sido para um clube da segunda divisão da Itália, que fez a primeira proposta. (...) Fui ao Eurico [Miranda, na época diretor de futebol do Vasco] pedir que ele me vendesse, mas ele não quis, alegando que eu não era jogador para atuar na segunda divisão. Disse-me que ficasse tranquilo que surgiria outro clube. Fiquei possesso”.

Segundo, porque Romário também passava longe de ser a primeira opção da direção do clube. No documentário “Samba in Eindhoven”, lançado em 2013 pela emissora VPRO para celebrar os 100 anos do PSV e lembrar Romário, Adrie van Kraay (presidente do PSV em 1988) e Kees Ploegsma (diretor geral do clube na mesma época) justificaram: era necessário ter um atacante para fortalecer o time, que só avançara na Copa dos Campeões 1987/88 na base dos empates fora de casa – 0 a 0 em Eindhoven, 1 a 1 fora -, e só ganhara a final nos pênaltis. Pois bem: a escolha primordial era pelo atacante belga Marc Degryse.

Ploegsma foi à Bélgica negociar com o Club Brugge, que pediu uma quantia gigante por Degryse. Negócio fracassado, Ploegsma voltou a Eindhoven. Segundo comentou no documentário, “não havia nenhum evento especial ocorrendo no futebol então, só o torneio olímpico”. Era outubro de 1988. Por mera curiosidade, o diretor perguntou a seu filho homônimo quem estava se destacando nos Jogos de Seul. E Kees Ploegsma Jr. respondeu: “Romário! Esse cara está fazendo um gol atrás do outro nos Jogos Olímpicos”.

Kees pai viu os jogos do time olímpico brasileiro que terminaria com a prata. E o que viu de Romário – goleador máximo do torneio olímpico, com 7 gols – foi o suficiente para chegar a Adrie van Kraay, pedir a contratação o mais rápido possível e obter a resposta: “Muito bem, você vai para o Rio de Janeiro”. E Ploegsma sênior viajou ao Rio para negociar com o Vasco, junto de Guus Hiddink, treinador dos Eindhovenaren na época. Lá chegando, ambos falaram com um funcionário da filial brasileira da Philips, em São Paulo. Segundo a revista “Placar” noticiou à época, ele ligou para o Vasco e comunicou: “Dois holandeses estão aqui. Eles querem levar Romário”.

Romário comentou em sua biografia que soube da oferta, novamente, por Eurico Miranda: “Pouco depois apareceu o PSV, ele me chamou e disse: ‘Agora você pode ir. Está indo para um grande time’. O PSV tinha sido campeão da Europa”. E as negociações com o procurador de Romário, André Cardoso, definiram: por 6 milhões de dólares, mais algumas exigências – passagens aéreas, eletrodomésticos da Philips, cursos de inglês e holandês, intérprete -, Romário se tornava o segundo jogador brasileiro a ir para o futebol holandês (ao contrário do que a coluna informou em 2013: Romário não foi o primeiro, já que Reinaldo fizera algumas partidas pelo Telstar, no início de 1988).

Não demorou muito para Romário mostrar aos holandeses como as coisas seriam. Estreou pelo novo clube em 30 de outubro de 1988, no 3 a 0 contra o Twente, pela 11ª rodada do Campeonato Holandês. Duas rodadas depois, em 6 de novembro, marcou o primeiro de seus 165 gols pelo PSV: o único do 1 a 0 sobre o Roda JC. Na final do Mundial Interclubes de 1988, em 11 de dezembro, contra o Nacional-URU, Romário fez o gol de empate no tempo normal (o jogo terminou 2 a 2 ao fim dos 120 minutos). A atuação estupenda do goleiro Jorge Seré na disputa de chutes da marca do pênalti deu o terceiro título mundial ao Bolso, mas o carioca da favela do Jacarezinho já estava provando: estava ali para ser protagonista, superando todos os destaques que haviam estado no título europeu.

A prova veio ao final da temporada 1988/89: o PSV comemorava a Copa da Holanda e o primeiro tetracampeonato holandês de sua história, e Romário já brilhava como o máximo goleador da Eredivisie, com 19 gols – dois a mais do que Wim Kieft, colega de equipe, artilheiro da temporada anterior da Liga. No meio de 1989, ainda veio o destaque na campanha do título da Seleção Brasileira na Copa América. E a temporada 1989/90 consolidou o brilhantismo do brasileiro: mais uma vez, liderou a lista de goleadores do Holandês ao final das 34 rodadas, com 23 gols. Ainda foi artilheiro da Copa dos Campeões (6 gols, junto de Jean-Pierre Papin, do Olympique de Marselha). Sem contar mais uma conquista na Copa da Holanda. 

E algumas partidas só ampliavam a fama junto à torcida do PSV. Um bom exemplo foram as oitavas de final da Copa dos Campeões 1989/90: em 18 de outubro de 1989, o Steaua Bucaresti superara os Eindhovenaren na Romênia, por 1 a 0, com gol de Marius Lacatus. Em 1º de novembro, o time romeno abriu o placar no jogo de volta, em Eindhoven, de novo com Lacatus. O PSV precisava vencer por três gols de diferença, se quisesse a vaga nas quartas. Resultado: 5 a 1 para o time de Guus Hiddink. Três gols de Romário. Tal atuação é tida como a maior dos cinco anos que o atacante passou no clube. Outra partida que deixou a cotação de Romário na ionosfera para a torcida do PSV foi o 2 a 0 sobre o Ajax, na sexta rodada do primeiro turno da Eredivisie: o irmão de Ronaldo e Zoraide marcou os dois gols do triunfo. 

Só que aquela temporada teve um fim abrupto para Romário, que começou a mostrar as rachaduras que sempre existiram em sua relação com o PSV. Ele veio em 4 de março de 1990: já tendo marcado dois gols na goleada que terminaria 9 a 2 sobre o então FC Den Haag (o mesmo que hoje é ADO Den Haag), o atacante fraturou a tíbia, ao tentar um chute e ser atingido pelo zagueiro Marco Gentile (não confundir com o jogador italiano da Copa de 1982, que é Claudio. Aqui, o lance da fratura). A presença praticamente certa na Copa do Mundo daquele ano tornava-se possibilidade remota. Pior: engessado pelos médicos do PSV, o jogador tirou o gesso da tíbia por conta própria, para jogar uma partida promocional em Roma. Jogou, mas o local ficou inchado, o que piorou sua relação com os médicos. 

Aí, em abril de 1990, Romário decidiu chamar um médico de fora para ajudar na recuperação, já que o tempo corria. Tentou Clóvis Munhoz, com quem trabalhara no Vasco, mas este recusou. Aí, seguindo conselho do amigo Maurício dos Santos, Romário teve o primeiro contato com Nilton Petrone, que prometeu recuperá-lo em 40 dias. Na biografia de Romário, Nilton comentou: “Os médicos holandeses foram contra o tratamento. Acreditavam que aquele trabalho não teria efeito e era coisa de louco. Romário, apesar de falar holandês, chamou o tradutor e disse: 'Manda esses caras aí tomarem no cu, manda eles se foderem e fala que esse cara vai ficar aqui comigo que eu vou garantir'”.

Petrone garantiu, ganhou o apelido que o segue desde então (num dia de tratamento em piscina, Romário o viu de sunga, mandou um “parece um filé de borboleta” e Petrone estava rebatizado como “Filé”), Romário se recuperou e foi para a Copa de 1990. Mas sua relação com os médicos do PSV estava esgarçada. Não só com eles, aliás: antes do início da temporada 1990/91, Guus Hiddink deixou o PSV. E o inglês Bobby Robson chegou a De Herdgang, mas não saberia lidar com o histórico apreço de Romário pela noite – e o apego pelo Brasil, como comentou Maurício dos Santos na biografia: “Tanto no PSV quanto no Barcelona, nas folgas, ele viajava 24 horas para passar 12 no Rio”.

O gosto pelas festas (outro amigo, Wilson Mussauer, comentou na biografia: “Quando conseguia uma folga, no PSV, no final de semana, lá estávamos nós, nas noitadas!”) foi irritando alguns colegas de clube. Outros mantinham a boa relação, como o atacante Twan Scheepers – talvez o grande amigo que Romário fez no futebol holandês, a ponto de viajar com ele para o Rio algumas vezes – e o lateral direito Berry van Aerle (que dizia aos que reclamava: “Se ele não vem treinar a semana inteira, mas ganha o jogo para nós, recebo o bicho do mesmo jeito”). E Scheepers esclareceu, no documentário “Samba in Eindhoven”: “Ele não fumava, nem bebia. A única coisa que tomava era um copo de refrigerante”.

Assim, a temporada 1990/91 foi de mais uma dobradinha no Campeonato Holandês: título e artilharia - 25 gols, junto a Dennis Bergkamp, que estava no Ajax. Mas ficava mais difícil calar os pedidos de mais aplicação fora de campo. O que foi irritando Romário, como se viu mais na temporada seguinte, 1991/92: contra o Besiktas, na primeira fase da Copa dos Campeões, Bobby Robson o substituiu, colocando o amigo Scheepers em seu lugar. E o brasileiro não só aplaudiu ironicamente a substituição, mas também fez um gesto obsceno ao sair de campo.

No fim de 1991/92, mais um título de Eredivisie, além da conquista de uma Supercopa da Holanda. Mas as coisas iam piorando. Bobby Robson deixou o PSV, e em seu lugar foi contratado Hans Westerhof. Que também não teve a melhor das relações com o “Peixe”. E durante a temporada 1992/93, Romário decidiu deixar Eindhoven. Ainda fez mais um lance de pura genialidade: contra o Milan, na fase de grupos da Liga dos Campeões, virou-se contra três zagueiros e marcou outro gol que simboliza o seu brilhantismo em Eindhoven. Antes da temporada 1993/94, o apogeu de sua carreira, Romário foi para o Barcelona, embora Guus Hiddink tenha querido trazê-lo para o Valencia.

23 anos após sair do PSV, está claro que a lembrança de Romário em Eindhoven é indelével. Até hoje, vez por outra, ele vai à cidade reencontrar os amigos. E se resta dúvida de como Romário marcou época em Eindhoven, basta saber que surgiu nas categorias de base do PSV, em 2008, um atacante nascido em 1989, na cidade holandesa de Haarlem, cujo nome era... Romario Sabajo (hoje, este Romario está sem clube). Ou então, ouvir a canção “Ja, daar is Romario”, samba estilizado lançado em compacto simples, até hoje hit da torcida do PSV para lembrar o maior jogador de sua história.

“Ja daar is Romario (sim, lá está Romário)
Ster uit Rio de Janeiro (a estrela que veio do Rio de Janeiro)
Hij kan draaien, hij kan kappen (ele pode gingar, ele pode driblar)
Het is bijna niet te snappen (quase nem dá pra pegá-lo)
Ja, die jongen steelt de show (sim, aquele cara rouba a cena)”


(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 29 de janeiro de 2016)