sábado, 10 de junho de 2017

O São Paulo x Ajax de 1997: lembranças nebulosas

Há exatamente 20 anos, o estádio Cícero Pompeu de Toledo - claro, o popular Morumbi - recebeu um jogo que passaria em brancas nuvens. Aliás, pelo aspecto técnico, até passou, visto que foi um esquecível empate em 1 a 1 entre São Paulo e Ajax, num jogo amistoso. Mas se houve um motivo para aquela partida realizada em 10 de junho de 1997 ficar na memória dos 7.342 espectadores que estavam no Morumbi, este foi a neblina espessa que tomou conta do ambiente, por volta dos 35 minutos do segundo tempo.

Certo, o Ajax vivia um tempo em que a euforia causada pelo time campeoníssimo da temporada 1994/95 diminuíra. A equipe de Amsterdã perdera o Campeonato Holandês para o PSV; na Liga dos Campeões, vira o sonho da terceira final consecutiva parar numa derrota para a Juventus, nas semifinais; e finalmente, não vinha tendo bons resultados no périplo sul-americano que vinha fazendo para fechar aquela temporada 1996/97. Ao passar pelo Chile, caiu para a Universidad Católica (1 a 0); na Argentina, o Boca Juniors conteve os Ajacieden (3 a 2).

Finalmente, quando chegou a São Paulo, ficou claro que o grupo de jogadores não seria o que de melhor o Ajax teria para oferecer. Alguns destaques remanescentes dos títulos de 1995 até figuravam na equipe, como Marc Overmars ou Danny Blind, mas a maioria do time era formada por reservas - e Louis van Gaal vivia seus últimos dias como treinador daquela equipe que formara, antes de se transferir a peso de ouro para o Barcelona. Trabalhando no jornal Folha de S. Paulo à época, o jornalista Rodrigo Bueno ainda lembrou mais uma ausência: "Van der Sar era o famoso titular, mas a Holanda estava disputando o Nelson Mandela Challenge (venceu a África do Sul por 2 a 0 em Joanesburgo) [amistoso jogado em 4 de junho de 1997]. No entanto, ele veio para São Paulo e distribuiu fotos autografadas para crianças e fãs no Morumbi [contra a África do Sul, aliás, Van der Sar ficou na reserva; o titular holandês foi Ed de Goey]".

O São Paulo também não estava muito alegre: curtia as feridas do título estadual perdido para o Corinthians, cinco dias antes. Ainda assim, a impressão não era melancólica como a do Ajax, mas otimista: no Campeonato Paulista, começara a aparecer uma geração que explodiria no título paulista do ano seguinte, com gente como Fábio Aurélio e Dodô, que jogaram a partida amistosa (Denílson estava na Seleção Brasileira que disputara o Torneio da França e ganharia a Copa América). Assim, a equipe treinada por Darío Pereyra foi com força máxima, contra um Ajax que entrava para sua 13ª partida contra uma equipe brasileira - a segunda em território nacional (a primeira também fora no Morumbi: goleada da Seleção Brasileira em amistoso, 5 a 0, em 1979).

Durante o jogo, com ritmo mais acelerado, o São Paulo pressionou mais durante o primeiro tempo, na fria noite daquela quarta-feira. Porém, sem muita pontaria, deu pouco trabalho ao goleiro Fred Grim, reserva de Van der Sar (o mesmo Grim que comandou a seleção holandesa interinamente em três partidas, neste 2017). No segundo tempo, o ritmo foi diminuindo. E mesmo sem se esforçar muito, o Ajax conseguiu um gol, aos 73': Grim cobrou tiro de meta longo, a bola foi escorada, e o reserva Nordin Wooter dominou pela esquerda, driblou Bordon e chutou rasteiro, no canto direito de Rogério Ceni.

(Abaixo, a reportagem sobre São Paulo 1x1 Ajax, feita por Wagner Lima para o programa "Gazeta Esportiva", da TV Gazeta paulistana, na edição de 11 de junho de 1997)


Isso foi o que se viu. Porque, logo após o gol dos visitantes holandeses, por volta dos 30 minutos daquela etapa complementar, uma neblina espessa tomou conta do Morumbi, e quase nada mais se viu. Presente no Morumbi (tanto a trabalho, pela Folha, quanto para ver o Ajax de que é simpatizante), Rodrigo Bueno lembrou: "Só nessa fria noite eu vi uma neblina interromper um jogo". Não foi o único: na transmissão ao vivo que o SBT fazia, o narrador Silvio Luiz e o comentarista Juarez Soares começaram a passar certos apuros para descrever o que ocorria. No início, os repórteres Luiz Ceará e Antônio Petrin até podiam ajudar; depois, nem mesmo eles, no gramado, conseguiam ver os lances. Restou a Silvio e a Juarez dar um jeito, como em tantas outras transmissões da dupla, nos tempos de TV Bandeirantes ou no mesmo SBT:

- "Eu trouxe vela. E você, trouxe vela, Juarez?"
- "Silvio, não dá para enxergar nada. Quero ver o que os jogadores vão fazer."
- "Então canta aquele tango de Gastón e Le Pera 'Por la noche que me quieras todo se perdió'"

Assim, quase invisível, a partida transcorria. Até que, aos 80', Silvio Luiz teve uma das narrações mais pitorescas de sua vitoriosa carreira:

"Eu não tô vendo nada... ih, foi gol! Ééééééé do São Paulo! Eu não vi quem é que fez, mas foi do São Paulo!"

Quem fizera tinha sido França: numa bola fortuita cruzada para a área, o atacante são-paulino escorou para as redes defendidas por Grim, aos 81'. Foi a deixa mais do que adequada para o juiz Oscar Roberto de Godói aproveitar o adiantado da hora e encerrar a partida antecipadamente, já que a neblina seguia espessa. Mas Rodrigo Bueno seguiu no Morumbi. E tentando entrevistar os jogadores do Ajax, o atual comentarista da FOX Sports conseguiu uma ótima lembrança das mãos do volante Martijn Reuser: "Fui tentar algumas entrevistas e, quem sabe, levar alguma recordação. O Reuser foi o último jogador a entrar no vestiário, creio, e pedi a ele uma camisa. Ele estranhou que eu o chamei pelo nome. Ele ficou surpreso, acho, com o fato de alguém reconhecê-lo no Brasil. O Ajax tinha muitas figuras conhecidas, como Overmars, mas Reuser só compunha elenco mesmo. Ele ficou lisonjeado por ser lembrado e me deu a camisa que os jogadores do Ajax usam por baixo do uniforme, uma camisa branca diferenciada mesmo. É algo que não se acha em lojas".

Uma das raras lembranças nebulosas daquele 10 de junho de 1997, no Morumbi.

São Paulo 1x1 Ajax
Amistoso Internacional
Data: 10 de junho de 1997
Estádio: Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi)
Público: 7.342
Árbitro: Oscar Roberto de Godói
Gols: Wooter, aos 73', e França, aos 81'.
São Paulo: Rogério Ceni; Cláudio (Alberto), Rogério Pinheiro, Bordon e Serginho; Axel, Belletti, Luis Carlos (Edmílson) e Fábio Aurélio; Marques (França) e Dodô. Técnico: Dario Pereyra.
Ajax: Fred Grim; Mario Melchiot, Danny Blind (Nordin Wooter), Arno Splinter e Winston Bogarde; Richard Knopper, Richard Witschge, Martijn Reuser e Dennis Schulp (Kizito "Kiki" Musampa); Marc Overmars e André Hoekstra (Dave van den Bergh). Técnico: Louis van Gaal

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Esperanças e desesperanças

Robben (à esquerda) ajudou, Sneijder viveu um dia marcante... e a Holanda cumpriu o esperado: goleou (Reuters)
Após muito tempo, havia relativo prazer em ver uma partida da seleção holandesa. Nada que estivesse enchendo realmente os olhos de torcida e imprensa, mas, ora bolas, pela primeira vez desde 1983 a Laranja vencia dois jogos em sequência por 5 a 0. E ainda que o adversário fosse a seleção de Luxemburgo, extremamente frágil (pior até do que na atuação honrosa tida na derrota por 3 a 1 para os holandeses, em novembro passado), tratava-se de um jogo pelas eliminatórias da Copa de 2018. E nelas, cada ponto conta para evitar que a Oranje outra vez fique ausente de um torneio importante.

E havia razão para ver um certo otimismo. Se a seleção holandesa não ofereceu brilhantismo em De Kuip (longe disso), cumpriu à perfeição o que Dick Advocaat preconizara na entrevista coletiva em que foi apresentado, na terça-feira passada: o importante seria o resultado. Enquanto tiveram mais espaço e motivação, os visitantes luxemburgueses até atacaram vez por outra - como em chutes de Vincent Thill, aos 16', e Christopher Martins, aos 19'. Todavia, quando achava espaço entre as linhas compactadas para atacar, a Holanda atacava. Às vezes, até com alguma "ajuda" do adversário - como aos 9', quando Vincent Janssen ficou livre com a bola após erro na saída, mas não conseguiu passar pelo goleiro Ralph Schön - que fez boa defesa em novo arremate do atacante, aos 14.

Porém, por essa atenção e as boas atuações dos veteranos Arjen Robben e Wesley Sneijder, era fácil supor que o gol aconteceria. Aconteceu aos 21', quando outra falha de Luxemburgo na saída de bola foi aproveitada por Wesley Hoedt (boa e segura atuação), que tabelou com Sneijder antes de lançar em profundidade para o capitão Robben dominar e fazer 1 a 0. O jogo estava praticamente ganho - e a impressão só aumentou aos 34', com o gol que aumentou a bonita festa por Wesley Sneijder, se isolando como recordista de aparições com a camisa laranja - 131, desde 2003 -, finalizando com precisão bela triangulação envolvendo Janssen e Memphis Depay, que ajeitou a bola de calcanhar para o camisa 10 marcar o segundo gol. Nada mais merecido para abrilhantar as homenagens a Sneijder, que teve tudo o que quis: celebração da torcida (até com bandeira estampando seu rosto), saudações variadas (de Edwin van der Sar, antigo detentor do recorde de partidas, a um vídeo com quase todos os técnicos que o comandaram na seleção), a presença da família (a esposa Yolanthe e os filhos).

Com o momentâneo empate entre Suécia e França e a surpreendente vitória de Belarus sobre a Bulgária, ficava a boa impressão de que a sorte poderia sorrir à Laranja - como fechara a cara, na aziaga derrota para os búlgaros em março. Impressão ampliada no segundo tempo, quando Luxemburgo deixou de lado a compactação defensiva e passou a ser apenas o sparring esperado, com uma defesa fraca e, às vezes, até violenta - cinco cartões amarelos no jogo. Aí, foi só esperar os gols. Que vieram - com Georginio Wijnaldum, com Quincy Promes (que segue aproveitando as chances que tem e se fixando no grupo de convocados habituais), com Janssen convertendo pênalti surgido de mais uma bobeada dos visitantes na saída de jogo. Isso, sem contar as várias chances perdidas (enquanto esteve em campo, Robben perdeu duas chances). A goleada por 5 a 0 era até previsível, e ninguém se empolgaria com ela. Mas diante de tudo que a seleção holandesa passou nos últimos meses, era um afago no ego.

Afago que perdeu boa parte da graça com o gol de Ola Toivonen (belíssimo, aliás) que deu a vitória à Suécia contra a França. Gol que levou os suecos à liderança do grupo A, embolando de vez a situação. E aumentando tanto a dificuldade da situação batava quanto a dimensão da obrigação: vencer todos os jogos, se quiser no mínimo uma vaga para a repescagem da qualificação europeia para a Copa. Vaga quase impossível, para alguns. Ainda assim, o capitão Robben mostrou a altivez de sempre à televisão pública holandesa: "Naturalmente, esperávamos por uma vitória francesa. Mas não se pode influir em outros jogos. Positivamente falando, também podemos chegar à liderança do grupo". De fato. 

Será muito difícil, pelo que a seleção da Holanda não mostra. Mas se tampouco a França, suposta favorita da chave, anda jogando bem, e se Suécia e Bulgária serão recebidas em casa para os outros jogos decisivos, também não parece impossível ver a Oranje chegar à Rússia. Torcida e imprensa seguem divididas entre esperanças e desesperanças. Mas sonhar ainda não custa nada.

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Holanda 5x0 Luxemburgo
Data: 9 de junho de 2017
Local: Estádio Feijenoord (De Kuip), em Roterdã
Juiz: Bartosz Frankowski (Polônia)
Gols: Arjen Robben, aos 21'; Wesley Sneijder, aos 34'; Georginio Wijnaldum, aos 62'; Quincy Promes, aos 70'; Vincent Janssen, aos 84'.

Holanda
Jasper Cillessen; Joël Veltman, Stefan de Vrij, Wesley Hoedt e Daley Blind; Georginio Wijnaldum, Kevin Strootman e Wesley Sneijder (Nathan Aké, aos 82'); Arjen Robben (Jeremain Lens, aos 73'), Vincent Janssen e Memphis Depay (Quincy Promes, aos 66'). Técnico: Dick Advocaat

Luxemburgo
Ralph Schön; Laurent Jans,  Maxime Chanot (Ricardo Delgado, aos 26'), Enes Mahmutovic e Kevin Malget; Christopher Martins; Stefano Bensi, Gerson Rodrigues (Florian Bohnert, aos 85'), Vincent Thill (Lars Gerson, aos 54') e Sébastien Thill; David Turpel. Técnico: Luc Holtz

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Gato Borralheiro


Mesmo com o excelente fim de temporada, Peter Bosz já entrava em rota de colisão com a diretoria do Ajax. O Borussia Dortmund caiu como uma luva (Sascha Steinbach/EFE)
No começo, o interesse alegado do Borussia Dortmund em Peter Bosz parecia mais um desses boatos que pululam ininterruptamente imprensa afora, durante a janela de transferências da pré-temporada europeia. Até porque havia outros concorrentes sendo falados. Do final de semana passado em diante, porém, jornalistas holandeses começaram a falar que o boato tinha se transformado em realidade, com grande possibilidade de concretização. Já na noite de segunda, pelo horário holandês (tarde, no Brasil), cravava-se a saída de Bosz do Ajax. E enfim, os dois clubes confirmaram na manhã de terça: o treinador de 55 anos iria para o seu quarto clube em dois anos, encarando o maior desafio da carreira com a chegada ao Signal Iduna Park.

Obviamente, o clima não ficou nada bom em Amsterdã. Houve certa sensação de desamparo, já que a saída do treinador era inesperada, ainda mais após o final esplendoroso de temporada que os Godenzonen fizeram. Em meio aos treinamentos com o resto da seleção holandesa, Davy Klaassen e Matthijs de Ligt fizeram comentários parecidos. Do meio-campista, ouviu-se: “Acompanhei tudo pela imprensa, e aconteceu a mesma coisa com meus colegas. Naturalmente, a saída dele é um golpe sensível para nós. Na temporada passada, ele nos fez alcançar algumas coisas, e é chato ver isso quebrado agora”. Do jovem zagueiro, as palavras foram: “Naturalmente, é triste, mas é um grande passo para ele”.

Além da tristeza, veio o espanto, como demonstrado por Kasper Dolberg à tevê pública holandesa: “Há conversas aqui e ali sobre jogadores que talvez saiam, mas eu não esperava que o técnico fosse o primeiro. Foi uma grande surpresa”. Bem, na verdade, após tudo que se soube desde a terça-feira passada, foi quase uma grande surpresa. Porque a saída revelou uma discordância que era quase secreta: a diferença entre Peter Bosz (e seu auxiliar, o ex-jogador Hendrie Krüzen, que também vai com ele para o Borussia Dortmund) e a comissão técnica fixa do Ajax.

Tal discordância recebeu ares até de conflito aberto, desses em que uma faísca basta para explodir o conflito. À revista Voetbal International, o diretor geral Edwin van der Sar negou que fosse tão sério assim – mas reconheceu que havia discordância: “A situação não era algo impossível de se trabalhar. Queríamos ficar com Peter, mas a partir do momento que o Borussia Dortmund chegou [com a proposta], tudo veio à tona. Conversamos duas vezes, e ficou claro que havia uma diferença inegável de visões”.

Mas diferença em quê, afinal de contas? Diferença no modo de trabalho. Dentro de um clube tão cioso de suas tradições táticas, nada mais lógico que o Ajax tenha uma comissão técnica fixa. Esta consiste no auxiliar técnico Hennie Spijkerman, no treinador de goleiros Carlo L’Ami, no fisioterapeuta Björn Rekelhof e, acima de tudo, em Dennis Bergkamp – antes auxiliar no banco, atualmente quase um “diretor técnico”, embora tal cargo não exista no organograma Ajacied.

Pois bem: já no início da temporada recém-encerrada, Bergkamp decidiu que Spijkerman ficaria descolado do time principal, concentrando-se mais no Jong Ajax, a equipe B. Abrir-se-ia uma vaga na comissão, e Bosz interessou-se em ocupá-la com alguém de sua confiança. A comissão técnica não quis, e Bergkamp acabou ficando incumbido do papel de supervisionar como iam os trabalhos da equipe adulta.

Bosz ficou descontente, mas segurou-se. Por dois motivos: as discordâncias eram meramente profissionais (comissão técnica e a dupla Bosz-Krüzen trabalhavam normalmente, falavam-se com frequência, definitivamente não havia animosidades), e, obviamente, pela ascensão inesperada do trabalho, no final da temporada, deixando a impressão de que o trabalho estava avançando. Impressão interrompida logo que o Borussia Dortmund virou suas baterias para a contratação do treinador, após Lucien Favre declinar do convite. 

Por mais honroso que tenha sido o desempenho em 2016/17, o Ajax seguiu sem ganhar títulos, com os vices no Campeonato Holandês e na Liga Europa. E isso pesou para a dupla que comanda o clube, Van der Sar e Marc Overmars (diretor de futebol). Pelas discordâncias supracitadas, era de se imaginar que a comissão técnica, no mínimo, não ficaria triste com a saída de Bosz. E imaginando que nos aurinegros terá mais liberdade para escolher como e com quem quer trabalhar, o treinador decidiu aceitar a proposta da equipe alemã. E mostrou-se aliviado na entrevista coletiva de apresentação, com declarações como “Não acho que traí o Ajax ao deixar o clube”.

Enquanto isso, o Ajax fica tentando assimilar o duro golpe – se é que foi um duro golpe, já que as consequências só serão conhecidas com a nova temporada. Em meio às especulações do sucessor (provavelmente será Marcel Keizer, treinador da equipe B, credenciado pelo bom trabalho que a levou ao vice-campeonato na segunda divisão), ainda é difícil evitar a impressão resumida por Van der Sar: “Só houve perdedores nesse caso”. E a sensação é de que a “Cinderela” que o Ajax foi no final da temporada passada voltou a ser a Gata Borralheira.

Só a Copa interessa

“Jogaremos somente pelo resultado. Vamos nos organizar bem, dividir as tarefas e cumpri-las bem”. Em sua entrevista coletiva de apresentação para sua terceira passagem como treinador da seleção da Holanda, Dick Advocaat deixou claro que a Laranja, de fato, jogará tudo nas partidas que lhe restam, para alcançar (no mínimo, e se possível) a repescagem das eliminatórias europeias para a Copa de 2018. O auxiliar Ruud Gullit seguiu na mesma linha: “Nós não precisamos jogar bonito sempre”.

Talvez dê certo. Nos amistosos contra Marrocos e Costa do Marfim, a Holanda foi pouco brilhante, seguiu lenta, seguiu contando com os destaques para vencer (2 a 1 nos marroquinos, 5 a 0 nos marfinenses). Mas, se isso trouxer a segurança de que a equipe tanto tem sentido falta nos últimos tempos, já valerá um pouco a pena.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 9 de junho de 2017)

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A perda da inocência

O Ajax jogou bem. Mas nunca pareceu acreditar que o título da Liga Europa fosse para seu bico (Pieter Stam de Jonge/VI Images)
“Serei honesto: vencer a final não era algo provável para nós”. Se já era difícil supor que o Ajax pudesse superar o Manchester United antes mesmo que a final da Liga Europa começasse, tal declaração, dada pelo técnico Peter Bosz à FOX Sports holandesa, logo após a decisão em Estocolmo, deixava claro como a primeira conquista de um torneio continental para o país desde 2001/02 era algo quase inatingível. De certa forma, por culpa do próprio Ajax. 

É óbvio que só o fato de ter voltado a decidir uma competição europeia já devia ser comemorado por todos que simpatizam com a história riquíssima dos Ajacieden, gigantes europeus para todo o sempre. Ainda assim, há uma grande diferença entre chegar à decisão e se contentar com isso. Foi exatamente o que se viu no gramado da Friends Arena: o Ajax parecia contente só por enfrentar o Manchester United. Mais do que isso: sempre pareceu uma equipe ingênua. Não necessariamente medrosa, mas ingênua.

Arriscado falar que a mais jovem equipe da história das decisões de torneios europeus (média de idade de 22,2 anos) “tremeu”. Se tremesse, provavelmente o Manchester United teria vencido por vantagem até maior. Além do mais, se houve um jogador do Ajax merecedor de elogios por sua atuação, foi justamente o mais jovem dos onze escalados – aliás, o segundo mais jovem jogador a ter atuado em qualquer final europeia: aos 17 anos e 285 dias, Matthijs de Ligt fez vários desarmes, comandou a defesa, mostrou senso de antecipação elogiável, enfim, mostrou que é promessa muito grande para a zaga, posição carente na Holanda. 

Sem contar que o outro jovem zagueiro, Davinson Sánchez, também escapou relativamente ileso da derrota: mesmo que em sua perna tenha resvalado a bola chutada por Paul Pogba para o primeiro gol (e mesmo que seu talento para armar o jogo tenha se revelado, no mínimo, deficiente), o colombiano também mostrou segurança nos desarmes e rapidez na recomposição – os desarmes de carrinho, em tentativas de Pogba e Marcus Rashford, no segundo tempo, foram precisos. 

Ou seja: os Godenzonen tentaram. Merecem respeito por isso. Mas o problema do Ajax em Estocolmo, definitivamente, não foi a falta de controle emocional. Foi ingenuidade. Ingenuidade demais de achar que José Mourinho, dos mais experientes e laureados técnicos de sua geração, não era capacitado para fazer exatamente o que fez: um jogo tático, neutralizando com facilidade os pontos fortes dos Amsterdammers (velocidade, marcação por pressão, jogadas partindo do meio-campo, troca de passes). Ingenuidade demais pensar que o time dos Red Devils não tinha capacidade de decidir a final a partir de um lance isolado, como foi o arremate de Pogba. Ingenuidade demais pensar que um time formado de jogadores experientes – não inquestionáveis, mas experientes – tentaria definir o jogo na pressa, e não usando dessa experiência. 

Assim, por exemplo, Marouane Fellaini foi dos melhores da decisão, controlando facilmente Lasse Schöne no meio-campo. Ander Herrera controlou Hakim Ziyech aos poucos no jogo. E o que falar de Kasper Dolberg, completamente sumido em campo? Certo, a inação do meio-campo acabou deixando o atacante dinamarquês isolado no meio da defesa dos Mancunians, perfeitamente postada. Ainda assim, cabia a Dolberg mostrar mais iniciativa – como Rashford tentou fazer no ataque do United, por mais que o melhor daquele setor na partida tenha sido Henrikh Mkhitaryan, opção sempre válida de jogadas. Mas Dolberg “aceitou passivamente” a marcação previsível que viria sobre ele. E não prever que isso ocorreria foi... ingenuidade.

Esta ingenuidade talvez seja um grande problema do futebol holandês em geral – que a atuação do Ajax expôs de modo exemplar na quarta-feira passada. Por mais que evolua, por mais que tenha aparecido, a equipe de Amsterdã é vítima da sua qualidade mais incensada: seu ideário tático. O 4-3-3 com pontas, a troca incessante de passes, a mudança de posições, a confiança nesses dogmas todos cria uma certa “camisa-de-força”. Quando dá certo, é o show que se viu contra Schalke 04 e Lyon, nos jogos de ida de quartas de final e semifinais, em Amsterdã. Mas quando dá errado, o Ajax simplesmente não tem alternativas. Pior: nega-se a tê-las, em nome de um certo “espírito ofensivo”, deixado claro por Peter Bosz.

Bom dizer, antes de mais nada: ótimo que um time tenha uma ideia de jogo e sempre prefira jogar de acordo com ela. No entanto, futebol é competição. E quando a ideia inicial não dá certo, é preciso ter o “plano B”. Só recentemente a Holanda teve esfregada em sua cara tal necessidade: com a ausência da Euro 2016 e a dificuldade grande nas eliminatórias da Copa de 2018, sabe-se que o 4-3-3 com pontas precisa ter variantes. Peter Bosz até tentou algo assim no Ajax, com o esporádico 4-1-4-1. E Louis van Gaal fez campanha primorosa na Copa de 2014 exatamente porque engoliu em seco suas crenças, arriscando um 5-3-2 que protegeu a frágil defesa e potencializou o talento de quem precisava aparecer.

Sim, deixar de lado ideias às quais se é muito apegado dói. Parece a perda da inocência. No entanto, se o Ajax quiser voltar de vez a ter espaço no cenário europeu, precisará dessa “perda”, em alguns aspectos. Em termos teóricos e práticos – como no mercado de transferências, em que já se fala em algumas saídas, embora sem muito alarido.  O emprestado Bertrand Traoré certamente voltará ao Chelsea – e se for vendido, não será para o Ajax; Dolberg, no mínimo, quer ouvir as sondagens que lhe fizeram; Davy Klaassen já é grande demais para a Eredivisie; e fala-se que o Borussia Dortmund olha com carinho para Amin Younes. 

De outro modo, será o que se viu na quarta: elogios, respeito à história, até carinho pelo Ajax. Mas no final, a taça fica com quem olha para o futebol holandês e diz que ele ainda precisa comer muito arroz com feijão, se quiser ser realmente grande. Foi mais ou menos o que Mourinho indicou, quando falou: “Há muitos poetas no futebol, mas eles não ganham muitos títulos. Sabíamos que éramos melhores, e usamos as fragilidades deles”. Com perfeição.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 26 de maio de 2017)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Homens com uma missão. Cumprida

O Feyenoord tinha um conjunto de nomes experientes para tentarem lavar a alma de uma sofrida torcida. Liderados por Kuyt (à frente, em destaque), eles conseguiram: trouxeram o título da Eredivisie, após 18 anos (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)
Certo, a dor dos anos de crise já estava relativamente cicatrizada no Feyenoord. Depois dos 10 a 0 sofridos para o PSV, na temporada 2010/11 do Campeonato Holandês, o Stadionclub tivera John Guidetti e seus gols, mais uma jovem legião de promessas e o técnico Ronald Koeman, que levaram ao vice-campeonato em 2011/12. Guidetti saiu, chegou Graziano Pellè, os gols continuaram... e seguiram-se campanhas boas, com o 3º lugar na Eredivisie 2012/13 e outro vice-campeonato, em 2013/14. Aí, mais gente saiu: Daryl Janmaat, Stefan de Vrij, Bruno Martins Indi, os próprios Pellè e Koeman... E não houve como evitar certa queda, vista no 4º lugar de 2014/15.

Isto é: embora o clube de Roterdã já se houvesse restabelecido como um dos três grandes holandeses, ainda faltava algo. Para trazer isso, alguns homens começaram a chegar, com uma missão: trazer esse “algo”, o título que faltava, o título que encerraria um longo jejum, que faria o Feyenoord ser definitivamente respeitado de novo, na Holanda e no mundo. Enfim, neste final de semana que se passou, esses homens cumpriram o que se pedia deles: após 18 anos, enfim o Feyenoord pode gritar, de novo, que é o maior da Eredivisie.

O primeiro desses homens já estava no clube desde sua carreira de jogador, a bem da verdade: lateral esquerdo nascido e criado futebolisticamente em De Kuip, Giovanni van Bronckhorst correu mundo (Rangers, Arsenal, Barcelona), ganhou títulos notáveis, fez uma carreira elogiável... e voltou ao Feyenoord em 2007. Lá ficou até terminar a carreira, em 2010 – e fazendo seu último jogo profissional numa final de Copa do Mundo. Logo que se despediu, Gio passou imediatamente ao banco de reservas. Primeiro, trabalhando as categorias de base por alguns meses; depois, em maio de 2011, passando a auxiliar Ronald Koeman, junto de outro ex-jogador marcante no Feyenoord, Jean-Paul van Gastel (presente no título de 1998/99). 

Van Bronckhorst ainda trabalhou junto de Fred Rutten, durante grande parte da temporada 2014/15. Porém, com a crise vivida pela equipe no final daquele ano, o terceiro lugar que parecia garantido foi perdido, e Rutten também perdeu algo: seu emprego. Assim, uma transição precisou passar abruptamente ao seu último capítulo, já nos play-offs por vaga na Liga Europa, em 2014/15, com Van Bronckhorst sendo promovido a técnico principal, às pressas, tendo a seu lado Van Gastel como auxiliar. O técnico novato (e novo: tinha 40 anos, completos em fevereiro de 2015) fracassou em seu primeiro desafio: não conseguiu levar o Feyenoord à Liga Europa na temporada 2015/16. Contudo, sabia-se: até pelo status respeitável perante a torcida, Van Bronckhorst tinha salvo-conduto para começar seu trabalho. 

Porém, de nada adianta um técnico sem jogadores. E o outro homem com uma missão chegou a Roterdã justamente na metade de 2015. Assim como o técnico, Dirk Kuyt já tinha história na “banheira”: mesmo vindo de outro clube (começara a carreira no Utrecht), Kuyt já conseguira virar ídolo graças à primeira passagem pelo Feyenoord, entre 2004 e 2006, quando até goleador da Eredivisie foi (fez 29 gols em 2004/05), além de receber o prêmio de melhor jogador do campeonato em 2005/06. Deixara saudades, e fora fazer carreira tão elogiável quanto a de Van Bronckhorst: seus inquestionáveis profissionalismo e dedicação em campo tornaram o nativo de Katwijk figura querida em Liverpool e Fenerbahçe – sem contar o coadjuvante valioso que foi nas campanhas da seleção holandesa nas Copas de 2010 e 2014. Aos 35 anos, o atacante aceitou voltar. Para, quem sabe, ser o que Guidetti e Pellè já foram: um símbolo. Talvez um símbolo maior, com a salva de prata da Eredivisie nas mãos.

Havia mais alguns homens que foram se juntando. Como o zagueiro brasileiro Eric Botteghin, de postura séria em campo e carreira cuidadosamente construída na Holanda (do pequeno Zwolle para um pequeno-médio, o NAC Breda; de lá para um médio, o Groningen; e do Groningen para De Kuip). Como Tonny Trindade de Vilhena: considerado uma promessa talentosa desde que se destacou no título europeu sub-17 de 2011, ganho pela seleção holandesa, o jovem de ascendência angolana enfim ganhava espaço a partir de 2015/16. Como Eljero Elia: promissor na época em que integrou o elenco vice-campeão mundial na Copa de 2010, Elia decidiu voltar à Holanda em 2015 para recomeçar, após ter o filme chamuscado pelas passagens (no mínimo) discretas por Juventus, Werder Bremen e Southampton. Eles se somaram a gente que já estava lá: Jan-Arie van der Heijden, Karim El Ahmadi, Jens Toornstra, Michiel Kramer... Ah, sim: no banco, para ajudar a dupla Van Bronckhorst-Van Gastel, um personagem experimentado no campo e no banco: Jan Wouters.

Parecia que a redenção do Feyenoord na Eredivisie viria já na temporada 2015/16, com boas atuações no turno. Todavia, já no encerramento daquele ano, havia a perigosa tendência de queda – confirmada na volta da pausa de inverno, em janeiro e fevereiro de 2016: oito jogos sem vitória (sete derrotas e um empate). A missão não seria cumprida. Claro, a frustração foi gigante. Mas a missão continuava. Para aprender mais, Van Bronckhorst engoliu a contratação temporária de Dick Advocaat, para umas semanas de conversas e acompanhamento conjunto dos treinos. Bastou para ganhar mais conceitos, reerguer o moral do grupo, conseguir treze partidas sem perder na Eredivisie (garantindo a terceira posição) e, mais do que isso, conquistar o primeiro título do clube desde 2007/08: a Copa da Holanda. Era um bom prêmio de consolação, mas não era o que a torcida queria. Ainda.

Era preciso consertar os erros, nesta temporada. Para isso, veio da Dinamarca mais um homem com uma missão: Nicolai Jorgensen, artilheiro da temporada 2015/16 pelo Kobenhavn. Também chegou da Inglaterra, por empréstimo, um daqueles holandeses que surge bem mas se sai discretamente num grande centro: Steven Berghuis, bom por Twente e AZ, apagado no Watford. Simultaneamente, perdeu-se um personagem importante: o goleiro Kenneth Vermeer, tirado de combate pelo rompimento do tendão de Aquiles. Por sorte, o experiente australiano Brad Jones estava solto após o fim do contrato com o NEC -  veio de graça para o Feyenoord. 

E assim começou a temporada. Com tudo: nove vitórias seguidas – incluindo 1 a 0 sobre o PSV, em Eindhoven. Mas as dúvidas continuaram. Continuariam com a primeira derrota, 1 a 0 para o Go Ahead Eagles. Continuariam sempre. Ainda mais quando combinadas com os problemas de cada um daqueles homens. Como Vilhena, que passou tempos dificílimos com a morte da mãe, Jeannette, que o tirou de campo por algumas rodadas – sem contar as suspensões que o afastavam algumas vezes. Como Dirk Kuyt, até: se a ausência do capitão em campo era inimaginável no turno, aos poucos fez-se necessário colocá-lo no banco durante a maior parte do returno, com a maior velocidade que Toornstra oferecia. Kuyt deixava clara sua discordância. Mas nunca arranjou uma briga. Afinal, havia uma missão maior.

As vitórias seguiam-se. Com brilhantismo (6 a 1 no Sparta Rotterdam, 8 a 0 no Go Ahead Eagles) ou com dificuldades (que virada foi o 2 a 1 no Heerenveen, fora de casa, na 27ª rodada... e a arbitragem eletrônica decidindo o 2 a 1 no PSV, na 25ª?). Desde a primeira rodada, o Stadionclub jamais se descolou da primeira posição. Mas as dúvidas também continuavam: qualquer derrota (do magro 1 a 0 imposto pelo Sparta no returno ao duro impacto do 2 a 1 para o Ajax no Klassieker) bastava para fazer crer que o Feyenoord fracassaria, que de novo não daria, que o ascendente Ajax atropelaria. Como capítulo final das desconfianças, o 3 a 0 inapelável do Excelsior na penúltima rodada. 

Então, o Feyenoord se focou. O fim do calvário estava perto demais para que se permitisse qualquer erro contra o Heracles Almelo. E foi o que se viu: De Kuip se transformando em “De Kuyt”, com uma das maiores atuações da carreira do veterano. O nível de concentração altíssimo, como visto na maior parte da temporada. E um 3 a 1 para confirmar o inquestionável título, que foi festejado pela torcida do começo ao fim. Aliás, foi festejado, não: está sendo, como mostram as 150 mil pessoas presentes à avenida Coolsingel nesta segunda, quando o sonho da exibição da salva de prata foi realizado.

O que será? Ninguém sabe. Apesar de já ter certa experiência, Van Bronckhorst possui apenas dois anos de carreira como técnico; tem muito o que aprender antes de saltos mais ambiciosos. Vilhena renovou contrato até 2020 – e ofereceu o título “a toda a torcida, e a uma pessoa em especial”, lembrando a mãe que lhe falta. Toornstra não sabe o que fará: se renova ou se deixa o clube. Brad Jones tem várias opções: pode até ficar, mas com a recuperação do titular original Vermeer, clubes da Inglaterra ou Turquia são alternativas a serem consideradas. O emprestado Berghuis quer ficar. Já Elia quer sair: “Quero atuar num nível mais alto”. E Kuyt, entronizado na galeria de grandes ídolos do Feyenoord, é enigmático: pode seguir ou pode terminar a carreira, em alta. Seja como for, Martin van Geel, diretor geral do Feyenoord, já declarou: o clube conta com ele.

E seja como for, agora não é hora disso. É hora de ver Van Bronckhorst, Kuyt, Vilhena, Elia, Jorgensen, Brad Jones, Berghuis, todos eles voltarem as costas e caminharem rumo ao horizonte, com o sol poente, como no fim de um filme de faroeste. Como velhos pistoleiros seguros. Afinal, eles tinham uma missão. E a cumpriram.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 15 de maio de 2017)