sexta-feira, 13 de abril de 2018

Rumos diferentes para o "clássico final"

Luuk de Jong, Hendrix e Lozano já sabiam: a esfuziante virada sobre o AZ deixou o PSV perto de ganhar o título no clássico contra o Ajax, para confirmar a virada (Tom Bode/VI Images)
Quando a temporada 2017/18 começou, tanto Ajax quanto PSV foram responsáveis por dois dos maiores vexames que o futebol holandês vivenciou nesta década, em relação aos clubes. Por mais vergonhas que o país tenha vivido nos torneios continentais (e viveu), ver a equipe de Eindhoven cair para o Osijek-CRO já na terceira fase preliminar da Liga Europa era desalentador – tanto quanto ver os Ajacieden, menos de cem dias após decidirem a Liga Europa contra o Manchester United, caírem na 3ª fase preliminar da Liga dos Campeões (para o Nice-FRA) e nos play-offs da Liga Europa (para o Rosenborg-NOR). No final da temporada, só o PSV parece ter aprendido a lição. Por isso, pode ser campeão holandês na 32ª rodada, neste final de semana, caso vença justamente... o clássico contra o Ajax, neste domingo, em casa.

E os Boeren só chegaram à situação atual – liderança absolutamente confortável no Campeonato Holandês, com sete pontos de vantagem em relação ao Ajax – porque a equipe soube aguentar o solavanco e se acertar com as mudanças decorrentes dele. Por nível técnico (como no caso das quedas de Luuk de Jong e Gastón Pereiro) ou por necessidade (no caso das saídas de Andrés Guardado e Davy Pröpper), o treinador Phillip Cocu precisou fazer o time voltar a jogar como dera certo, no bicampeonato de 2015 e 2016: cuidar coletivamente da defesa, apostando em rápidos contra-ataques.

Demorou um pouco para que tais medidas dessem certo. Mesmo com um primeiro turno quase perfeito (só duas derrotas em dezessete jogos), o time ainda mostrava fragilidades. Ao mesmo tempo, engrenava paulatinamente no campeonato. Para isso colaboravam as ótimas atuações de Santiago Arias, na lateral direita; a melhor fase que Jürgen Locadia viveu na carreira, enfim tendo a oportunidade para ser goleador; e a fulgurante aparição de Hirving Lozano, desde o começo da temporada provando merecer cada centavo gasto para trazê-lo após disputa com clubes cujas propostas eram até maiores. E algumas vitórias obtidas nos minutos finais davam motivação extra, ao revelarem como este PSV nunca, jamais, em tempo algum desistia da vitória.

A intertemporada no início deste ano mostrou: as falhas podiam até ser individuais, mas a força coletiva dos Boeren as compensava plenamente. Locadia foi liberado para o Brighton sem dramas: afinal, tanto Luuk de Jong já parecia mais tranquilo para retomar seu posto de “homem-gol” quanto os novatos já estavam a postos para colaborar (nas figuras de Sam Lammers, Albert Gudmundsson e Mauro Júnior, todos aprovados na Florida Cup). A mesma coisa ocorria na marcação, com oriundos dos times de baixo enfim sendo mais utilizados no time de cima – casos de Pablo Rosario e Armando Obispo, ora na zaga, ora no meio-campo.

Nem sempre dava certo, claro. Periodicamente o PSV recebia e recebe críticas, por seu estilo altamente recuado – e às vezes até as mereceu, como na derrota por 3 a 0 para o Ajax, ainda no primeiro turno. Sem contar as falhas renitentes da defesa, só compensadas pelas atuações que têm feito de Jeroen Zoet o melhor goleiro da Eredivisie. Tudo isso ficou muito claro numa mancha que a campanha sempre haverá de ter: os 5 a 0 do Willem II fora de casa, há quatro rodadas. Só que a garra, o entrosamento que se formou, a vontade de provar alguma coisa superou todos esses percalços. Tudo isso exemplificado na rodada passada: perdendo por 2 a 0 para o AZ, fora de casa, já na etapa final, o PSV foi atrás e conseguiu a virada para 3 a 2, que o colocou diante de um cenário apoteótico, como preconizou Luuk de Jong, 11 gols no campeonato, símbolo da reação na temporada: “Fechar a questão contra o Ajax, em casa, naturalmente é o cenário dos sonhos”.

Esbanjando cada vez mais técnica, Ziyech é uma das únicas e últimas esperanças do Ajax para ainda tentar o título (René Bouwman)
Mas se o PSV confiará no poder coletivo para que seus destaques se sobressaiam – Marco van Ginkel, Lozano, Luuk de Jong – e rendam mais uma Eredivisieschaal, o Ajax terá de apostar no cenário inverso. Numa temporada que começou e está terminando caótica, cada vez mais os Amsterdammers têm uma sensação: só o talento individual poderá evitar a derrota e a perda do título no clássico a ser realizado no Philips Stadion. Porque é exatamente este talento que evitou a perda mais precoce do título.

Também por fatores externos variados – como o drama de Abdelhak “Appie” Nouri, ou a inesperada inconstância no banco de reservas, graças à briga que levou à saída de Peter Bosz e o mau trabalho de Marcel Keizer -, os Ajacieden tiveram uma temporada para se esquecer. Nem mesmo a torcida parece entusiasmada com as chances de título que ainda restam. E não há como culpá-la: vindo a partir do returno, o técnico Erik ten Hag dá a impressão de que só em 2018/19 poderá fazer um time à sua imagem e semelhança, como fez no Utrecht. Por enquanto, parece apenas fazer o que pode, evitando maiores danos. Nem sempre consegue. A defesa do Ajax mostra muito mais fragilidade do que na temporada passada, como provou a derrota para o Vitesse (3 a 2, há cinco rodadas) e o fato de também há cinco rodadas o clube sempre sair vazado de campo. 

As vitórias, embora aconteçam, chegam até a surpreender. Foi o caso da virada para o 2 a 1 sobre o Groningen, há dois finais de semana: os Amsterdammers saíram atrás, tiveram um pênalti contrário, foram piores tecnicamente, mas chegaram aos gols em contra-ataques, no segundo tempo – um deles, aos 43 minutos. E mesmo quando se consegue o triunfo, ele surge a muito custo, pela dificuldade que o ataque tem para superar defesas fechadas. Foi assim na rodada anterior, com o 1 a 0 sobre o Heracles Almelo. Somente Erik ten Hag ainda mantém alguma esperança ("Precisamos frustrar aquela festa [do PSV], e faremos isso", prometeu o técnico na entrevista coletiva). Então, como o Ajax ainda consegue vencer? Por causa do talento de seus jogadores para definir resultados adversos e buscar viradas (foram oito vezes nesta temporada em que o time precisou mudar um resultado adverso no Campeonato Holandês). 

Talento personificado em Hakim Ziyech: cada vez melhor no meio-campo, líder de passes para gol na temporada (13), o marroquino é o mais regular jogador do clube da estação Bijlmer Arena, e parece já ter atingido aquele status em que se é grande demais para a Eredivisie. O mesmo acontece com Matthijs de Ligt, talvez o único ponto de segurança em uma zaga que tem sofrido ultimamente – embora se deva destacar o crescimento de produção de André Onana, no gol. No ataque, se David Neres anda mais coletivo e menos brilhante do que no primeiro turno, Justin Kluivert enfim aproveita a chance que tem, mostrando regularidade e destaque, parecendo querer provar seu desejo quase declarado: uma transferência para o exterior. Ainda há a capacidade técnica de Donny van de Beek, auxiliando bem no meio-campo. Por último, mas não menos importante, a experiência de Klaas-Jan Huntelaar, fazendo aquilo para o que foi contratado: gols (12 – é o goleador do Ajax na Eredivisie). E Lasse Schöne, sempre perigoso nas cobranças de falta.

O PSV aprendeu sua lição, baseado no coletivo. O Ajax aposta na qualidade individual para surpreender, manter as remotas esperanças de título e salvar a temporada. O cenário está colocado para se ver o que acontecerá no clássico que finalizará a 31ª rodada – e pode finalizar a Eredivisie.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 15 de abril de 2018)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

810 minuten: como foi a 30ª rodada da Eredivisie

O Willem II teve mais um gol de Fran Sol, mas o Excelsior foi atrás da virada, para voltar a vencer em casa (Pro Shots)
Excelsior 2x1 Willem II (sexta-feira, 6 de abril)

Parecia que o Willem II conseguiria um ótimo resultado no jogo de abertura da rodada. Não só pelo retrospecto ruim do Excelsior em casa, mas porque novamente Fran Sol se apresentou na hora que o time de Tilburg precisava dele: o espanhol completou para as redes o cruzamento de Fernando Lewis. E não só fez 1 a 0, mas também se converteu como o espanhol que mais gols marcou na história da Eredivisie: 16, superando os 15 de Manuel Torres Sánchez pelo Twente em 1981/82 - o que, não menos importante, manteve Fran Sol no topo dos goleadores da Eredivisie.

Só que o início promissor dos visitantes tricolores foi por água abaixo aos 26 minutos da etapa inicial. Na zaga, Darryl Lachman dominou a bola, mas permitiu que Mike van Duinen a roubasse e fosse à área. Lachman o empurrou, o juiz Edwin van de Graaf marcou o pênalti, expulsou o zagueiro, e Luigi Bruins cobrou bem para fazer 1 a 1. Foi a senha para o Excelsior crescer. A virada poderia ter vindo ainda na etapa inicial, aos 44', mas Konstantinos Tsimikas tirou a bola em cima da linha. No segundo tempo, já no primeiro minuto, não houve salvação: Khalid Karami cruzou, Stanley Elbers desviou, e veio a virada para a primeira vitória dos Kralingers em casa no ano de 2018.

Angeliño (à esquerda) e Ambrose comandam a comemoração do NAC Breda: outra vitória, e a salvação fica mais perto (Pro Shots)
NAC Breda 1x0 Vitesse (sábado, 7 de abril)

Na teoria, esperava-se uma resposta do Vitesse, após a derrota em casa para o Roda JC na rodada anterior. Na prática, desde o começo do jogo em Breda, o time anfitrião revelou superioridade. Já aos nove minutos criou chance, com Thierry Ambrose chutando para fora. Aos 15', Sadiq Umar foi quem teve a grande oportunidade, após cobrança de falta de Angeliño, mas finalizou muito acima do gol. Só aos 35' a mira do NAC foi correta - contando com uma ajuda da sorte: Angeliño cobrou outro tiro livre, a bola desviou na barreira e enganou o goleiro Jeroen Houwen, indo para as redes. Era o 1 a 0.

A melhor e mais esforçada atuação da "Pérola do Sul" seguiu no segundo tempo: já aos 52', Mounir El Allouchi até fez gol, mas este foi anulado, por impedimento do meio-campista ao desviar o chute de Paolo Fernandes. Apático em campo, o Vites só tentou algo aos 70', quando Angeliño evitou o gol de Mason Mount em cima da linha, e aos 73', quando Thomas Buitink mandou a bola na trave. De resto, o NAC Breda seguiu concentrado, para garantir outra vitória importante em busca da permanência na Eredivisie. No Vitesse, já há quatro partidas sem vencer, ficam dúvidas sobre eventual antecipação da saída do técnico Henk Fräser.

A comemoração de Van Ginkel, após o terceiro gol, foi tão empolgante quanto a reação do PSV: a três pontos do título (ANP)
AZ 2x3 PSV (sábado, 7 de abril)

Jogando com cinco homens na defesa - Ricardo van Rhijn e Ron Vlaar entraram na zaga -, o AZ se protegeu mais. Para poder fazer o que sabe de melhor, contra o PSV líder: atacar. Logo aos sete minutos, quase marcou. Alireza Jahanbakhsh ganhou a dividida com Joshua Brenet, chegou à área pela direita e cruzou, na saída de Jeroen Zoet. A bola bateu em Daniel Schwaab, e sobrou para Teun Koopmeiners, no meio da área - mas o zagueiro do PSV teve agilidade para se levantar e estender a coxa, evitando na pequena área o gol do AZ. Pouco depois, em escanteio, Weghorst cabeceou à queima-roupa, e Luuk de Jong afastou a bola. Ainda aos 9', Van Rhijn chutou por cima do gol. O PSV só achou algum espaço para chegar aos 14', quando Hirving Lozano recebeu a bola na direita, chegou à área, mas finalizou acima do gol de Marco Bizot.

Um minuto depois, o gol dos Boeren ficou mais próximo: Joshua Brenet cruzou da esquerda, Luuk de Jong escorou para o meio, e Bart Ramselaar completou por cima, em grande chance perdida. Aos 18', Luuk de Jong chegou a colocar a esférica no filó do AZ, mas o lance foi corretamente anulado - o atacante estava impedido. Só então, os Alkmaarders retornaram, com chutes de Guus Til (23') e Jonas Svensson (34'), ambos para fora. Mas os visitantes de Eindhoven deixaram uma última impressão mais forte na etapa inicial. Aos 38', Lozano alçou a bola à área em cobrança de falta. E Luuk de Jong, mesmo desequilibrado pela marcação de Vlaar, desviou cruzado, mandando a bola vagarosamente à trave de Bizot (houve quem alegasse pênalti do experiente zagueiro).

Weghorst poderia ter sido o herói do AZ, com seus dois gols e outra ótima atuação. Mas o PSV... (Stanley Gontha)
No começo do segundo tempo, outra vez Luuk de Jong ficou próximo de simbolizar a eficiência do PSV - e outra vez a arbitragem o frustrou: aos 48', após cruzamento de Lozano, o camisa 9 escorou para as redes na saída de Bizot - mas estava impedido, e de novo o gol foi anulado. Mas o AZ voltou ao ataque da melhor maneira possível: já deixando a bola nas redes. Aos 53', Alireza lançou em profundidade, e Til já pegou a bola entrando na área. Santiago Arias ainda impediu a finalização, mas a bola sobrou para Weghorst bater forte, no gol vazio após a saída de Zoet, e fazer 1 a 0. Começava o melhor momento dos mandantes no jogo. Ofensivos, tentaram aos 60', num chute de Alireza, por cima do gol. Mais um minuto, e em rápido contra-ataque, o domínio Alkmaarder foi consolidado com o 2 a 0. Fredrik Midtsjo desviou de cabeça para Alireza. O iraniano teve caminho livre pela direita, e cruzou para a área. No outro lado, estava Weghorst, para finalizar como gosta: cabeceio sobre Zoet, na segunda trave, e bola nas redes. Jogo acabado? Não para o PSV, que começou a tentar. Aos 65', Bizot rebateu após falta cobrada para a área. Aos 73', Marco van Ginkel cobrou escanteio, Luuk de Jong ajeitou na área, e Gastón Pereiro entrou completando na pequena área para excelente defesa de Bizot, evitando o gol com a perna.

Aí, começou a reação marcante. Aos 74', a bola parada foi do outro lado, mas aí deu certo. Van Ginkel mandou a bola para a área, Pereiro dominou na esquerda e finalizou em diagonal, no canto esquerdo de Bizot, para fazer o primeiro gol dos Boeren. E a sorte começou a andar do lado de Eindhoven. Numa jogada aparentemente controlada pela defesa do AZ, uma falha incrível de Bizot rendeu o empate, aos 76'. O goleiro recebeu a bola num recuo de Jan Wuytens, mas permitiu que Lozano chegasse num carrinho para a dividida. Resultado: bola indo vagarosamente para as redes, e o 2 a 2 consumado. Parecia pouco? Pois bem, então que se consumasse a virada impensável, aos 80'. Num escanteio, Vlaar agarrou De Jong na área, e Kevin Blom marcou o pênalti. Van Ginkel partiu e cobrou: bola na esquerda, Bizot na direita, e comemoração eletrizada de time e torcida para o 3 a 2. Mais emoção ainda? Não faltou. Aos 83', Van Rhijn chegou a marcar, mas Kevin Blom anulou, por impedimento quase imperceptível. E a expulsão de Vlaar - aos 89', por puxar Lozano em contra-ataque sendo último homem - foi o ponto final das tentativas do AZ, para evitar a empolgante virada. Ao PSV, a semana demorará a passar antes do esperado clássico contra o Ajax, que pode confirmar seu título.

Alívio de Jurjus: o Roda JC teve a vitória sob risco, mas a conseguiu, e ainda pode ficar na Eredivisie sem repescagem (Pro Shots/rodajckerkrade.nl)
Roda JC 3x2 Zwolle (sábado, 7 de abril)

Após os triunfos sobre NAC Breda e Vitesse, o Roda JC entrou em campo para ampliar esperanças até de garantir permanência direta na Eredivisie. E começou muito bem o serviço para mantê-las: já aos 3', Simon Gustafson lançou Donis Avdijaj, e o atacante emprestado pelo Schalke 04 bateu colocado para o 1 a 0 dos Koempels. Mais cinco minutos, e Gustafson foi quem finalizou para o segundo gol, completando cruzamento de Mikhail Rosheuvel. Aos 24', Avdijaj chegou a colocar a bola nas redes pela terceira vez, mas o juiz Bjorn Kuipers anulou, por impedimento.

Azar do Roda. Porque, apenas um minuto depois, em falta, Younes Namli surpreendeu o goleiro Hidde Jurjus, cobrando no canto aberto e diminuindo a vantagem. Ognjen Gnjatic (chute para fora aos 35') e Dani Schahin (cabeceio rente à trave, aos 38') quase marcaram. No segundo tempo, os mandantes seguiram criando chances, sem aproveitá-las. Poderiam ter tido o castigo aos 85': Sepp van den Berg deixou a bola para Queensy Menig empatar a partida. Mas não tiveram: aos 87', Rosheuvel completou à queima-roupa para extasiar a torcida aurinegra da casa. Três vitórias consecutivas, e quatro pontos atrás do NAC Breda: ainda é possível para o Roda JC.

O Sparta Rotterdam já se via lamentando uma derrota de virada. Mühren foi o salvador, nos dez minutos finais (Gerrit van Keulen/VI Images)
Sparta Rotterdam 3x2 VVV-Venlo (sábado, 7 de abril)

Novamente, o Sparta viveu um dia de altos e baixos dentro de campo. Começou no alto: aos 4', Paco van Moorsel mandou a bola na trave. E aos 19', Soufyan Ahannach deu a vantagem merecida, completando para o gol após cruzamento de Frederik Holst. Quando o goleiro Jannik Huth defendeu o pênalti de Clint Leemans, aos 40' (Lennart Thy sofrera falta), dava para acreditar que a sorte estava do lado dos "Donos do Castelo". Aí vieram os baixos para desmentir. Começando pelo empate, aos 43': o próprio Leemans arrematou, e Huth falhou ao tentar defender.

Só para aumentar o drama que o penúltimo colocado da Eredivisie vive, o VVV-Venlo já virou logo no início dos 45 minutos finais: aos 52', Leemans cobrou falta, a bola desviou na barreira, e era a virada dos visitantes de Venlo. Torino Hunte e Romeo Castelen tiveram chances de assegurar a vitória dos Venlonaren, e a crença era de que o Sparta não escaparia. Até os 81'. Aí, Robert Mühren se converteu no herói da vez: empatou, em chute da entrada da área. E Mühren completou sua saga ao virar para 3 a 2 no último minuto, após Michiel Kramer escorar. E o time de Roterdã segue com a esperança acesa na "segunda chance" da repescagem, quatro pontos acima da última posição.

ADO Den Haag fizeram um jogo equilibrado em todos os sentidos: gols, disputas pela bola, chances criadas... (ANP/Pro Shots)
Utrecht 3x3 ADO Den Haag (domingo, 8 de abril)

De tantas chances criadas, é impressionante que os gols no estádio Galgenwaard só tenham começado a saír no fim do primeiro tempo. Houve possibilidades de um lado e de outro. Aos 4', Zakaria Labyad tentou encobrir o goleiro Indy Groothuizen (substituto do lesionado Robert Zwinkels), mas a bola saiu baixa. E aos 15', Thijmen Goppel cruzou, para o cabeceio de Nasser El Khayati mandar a esférica perto do gol. Assim seguiu o ritmo acelerado, com chances de parte a parte. Até os 43', quando Sander van de Streek acertou o alvo: com um chute forte, colocou o Utrecht na frente.

Na etapa complementar, o Den Haag é que voltou bem mais preciso. Logo aos 54', o empate: Bjorn Johnsen driblou Ramon Leeuwin e mandou a bola no ângulo de Groothuizen. Os Utregs pressionaram com bolas na trave, na sequência (aos 65', Mateusz Klich e Labyad). Mas os visitantes de Haia fizeram 2 a 1, aos 69', com Tom Beugelsdijk marcando de cabeça. Só não comemoraram mais porque, aos 73', quem cabeceou para o gol foi Gyrano Kerk, empatando de novo. E os acréscimos revelaram a emoção final. Primeiro, aos 90', Elson Hooi pareceu dar a vitória aos Den Haag, com o 3 a 2. Mas só pareceu: aos 90' + 4, Labyad enfim marcou o gol que tanto tentara, completando a partida mais animada da rodada.

Van Weert apareceu para marcar de novo. E o Groningen saiu com um ponto contra o Heerenveen (ANP/Pro Shots)
Heerenveen 1x1 Groningen (domingo, 8 de abril)

Mesmo atingido pelas lesões que tiraram Martin Odegaard e Stijn Schaars do resto da temporada, o Heerenveen se refez delas do melhor jeito possível: buscando a vantagem e sendo superior no primeiro tempo. Foi assim aos quatro minutos, quando o arremate de Arber Zeneli saiu fraco demais. Foi melhor aos 30', quando o cabeceio de Michel Vlap forçou Sergio Padt a fazer ótima defesa. E aos 31', Vlap fez o que a torcida na Frísia desejava: completou o cruzamento de Denzel Dumfries com um chute colocado e preciso, fazendo 1 a 0.

Até ali, o Groningen mal aparecera no campo de ataque. E mal apareceria até os 43 minutos, quando Ajdin Hrustic tentou de longe, para a defesa do arqueiro Martin Hansen. Só que na volta do intervalo, o time visitante contou com a eficiência de Tom van Weert: na terceira finalização nas últimas três rodadas, mais um gol para a conta do atacante, aos 55', de cabeça, após Mimoun Mahi mandar a bola para a área. Van Weert teve mais duas chances para a virada - numa delas, aos 68', até acertou a trave. Mas ficou mesmo no placar o empate em um gol, que mantém o Groningen em 13º, ainda acima da zona de repescagem/rebaixamento - com chances de encaminhar a salvação contra o Roda JC.

O toque sutil de calcanhar de Jorgensen deu o toque final na vitória do Feyenoord - e aprofundou a depressão do Twente (Pro Shots)
Twente 1x3 Feyenoord (domingo, 8 de abril)

No estágio atual da temporada, só vitórias salvam o Twente da última posição e do consequente rebaixamento. E os Tukkers iniciaram pressionando na marcação (pressionando tanto que Tom Boere levou o amarelo mais rápido da temporada, aos nove segundos de jogo). Chances de gol viriam aos seis minutos, quando Stefan Thesker completou escanteio de cabeça, e Tonny Vilhena evitou o gol em cima da linha. O Feyenoord foi aparecendo aos poucos - começando num chute de Steven Berghuis, para fora, aos 8'. Mas a eficiência dos visitantes de Roterdã foi bem maior. Aos 18', da esquerda, Ridgeciano Haps inverteu o jogo com Jens Toornstra. Este dominou, começou a jogada trazendo a bola para o meio, dominou-a de volta após um primeiro passe ser rebatido pela defesa, tabelou com Nicolai Jorgensen e recebeu de volta. E de Toornstra a bola partiu para a área, chegando para o voleio de Jean-Paul Boëtius. Saiu meio desajeitado, mas tomou o caminho desejado: as redes de Joël Drommel, no 1 a 0 do Feyenoord.

O Stadionclub parecia ter tomado o jogo nas mãos. Mas o perderia só quatro minutos depois, graças a mais um erro de Brad Jones na saída de bola, nesta temporada. Após recuo, o goleiro australiano ficou com a esférica nos pés, na área, esperando opções de jogada. Escolheu uma, deu o passe... e a bola foi interceptada por Adam Maher. Jones saiu desesperado tentando evitar o gol, mas o meio-campista do Twente foi rápido e tocou para o gol vazio, empatando o jogo. O erro do arqueiro quase foi compensado já aos 24': Toornstra cobrou falta, e Sven van Beek desviou de cabeça, para Drommel salvar o Twente, rebatendo a bola. Mas a equipe de Enschede conseguiu equilibrar a partida. E teve a chance da virada com Oussama Assaidi, aos 40', mas o atacante demorou demais ajeitando a bola antes de chutar - quando chutou, já haviam três defensores à sua frente, e a bola bateu num deles (Van Beek).

O Twente se esforçou, empatou, criou chances para virar no segundo tempo... mas cada vez mais a queda está perto (Pro Shots)
O começo da etapa final seguiu com tentativas das duas equipes. Aos 53', o Twente buscou o gol da virada: em cobrança de falta, Thesker desviou com a cabeça, mas a bola saiu à esquerda de Brad Jones. Aos 56', o Feyenoord respondeu: Toornstra apareceu pela direita, cruzou rasteiro, e Jorgensen chegou livre à pequena área. Só que o dinamarquês escorou o cruzamento por cima do gol, em grande chance desperdiçada. Aí, houve um momento de mais pressão dos mandantes no Grolsch Veste. Aos 62', Drommel cobrou tiro de meta, e a bola foi até a área. Lá, ficou quicando até Boere tentar o domínio. Não conseguiu: Brad Jones dominou e a tirou. Cinco minutos depois, Adnane Tighadouini recebeu nas proximidades da área, e arriscou de média distância, mas Jones pegou.

Na sequência, o Feyenoord é que teve a chance num chute rasteiro. E a aproveitou. Aos 67', Berghuis dominou a bola na direita, tabelou com Karim El Ahmadi, e arrematou num chute colocado, com a bola ainda batendo na trave de Drommel antes de entrar, consumando o 2 a 1. E qualquer esperança que o Twente tivesse para minorar sua aflição acabou aos 75', com o terceiro gol do Feyenoord. Novamente, com Berghuis começando a jogada: o camisa 19 tabelou com Robin van Persie, entrou na área, tocou para o meio, e El Ahmadi ajeitou para o toque de calcanhar de Jorgensen, na pequena área, mandando a bola lentamente para as redes - e assegurando a sequência de um fim tranquilo de campanha na Eredivisie. Ao Twente (que teve última chance em chute de Assaidi defendido por Jones, aos 88'), segue o drama. Com poucas chances de final feliz.

David Neres completa para fazer 1 a 0. E mantém o Ajax com as remotas esperanças antes do "clássico" contra o PSV (Louis van de Vuurst/Ajax.nl)
Ajax 1x0 Heracles Almelo (domingo, 8 de abril)

Nestas rodadas, só resta ao Ajax uma coisa: vencer, para esperar tropeços do PSV. Na Amsterdam Arena, o time da casa tentou fazer isso desde os quatro minutos, quando teve a primeira grande chance de gol: David Neres fez jogada individual pela direita, cruzou, e Donny van de Beek completou de primeira, na trave esquerda do goleiro Bram Castro. Depois, aos 13', Justin Kluivert passou da esquerda, Hakim Ziyech fez o corta-luz, e Lasse Schöne arriscou de fora da área, forçando Castro a espalmar para fora. O miolo de zaga do Heracles trabalhou aos 20': David Neres tabelou com Rasmus Kristensen, e o lateral dinamarquês cruzou. Porém, Wout Droste conseguiu afastar a bola na pequena área, impedindo o complemento do atacante brasileiro. Só aos 28 minutos os Heraclieden deram algum trabalho aos defensores: num rápido contra-ataque, Jaroslav Navrátil deu a bola a Brandley Kuwas, mas o atacante bateu muito acima do gol de André Onana.

Mas o Ajax já reapareceu aos 31 minutos: David Neres chegou com a bola pela direita, cruzou, mas o arremate de Klaas-Jan Huntelaar saiu fraco, e a defesa pôde tirá-lo pela linha de fundo. Aos 34', mais um susto, quando Kuwas mandou a bola para a área em cobrança de falta, mas Onana saiu bem do gol e espalmou. E seguiu a pressão. Aos 37', dois lances em sequência: no primeiro, após troca de passes, a bola foi parar com Kristensen, que acertou a trave com seu chute, na entrada da área. A jogada seguiu, e Kluivert terminou arrematando da entrada da área, para Castro fazer outra intervenção, espalmando. Finalmente, aos 39', Schöne cobrou falta com o perigo habitual - e na primeira trave, Matthijs de Ligt desviou pouco acima do travessão, trazendo perigo.

Na única vez que o Heracles buscou o gol, Onana saiu para afastar a bola (ANP/Pro Shots)
Ziyech deu a primeira estocada do Ajax no segundo tempo - um chute de fora da área, por cima do gol. Aos 51', mais uma amostra de como o time da casa tinha a bola mas não tinha espaço: Kluivert ficou com a esférica dentro da área, ajeitando-a até chutar. Não achou lugar, deixou a pelota com Van de Beek, e este finalizou rasteiro, em cima de um defensor. Mas se não estava dando certo pelo chão, o Ajax chegou ao gol necessário pelo alto, aos 63'. No caso, com um cruzamento primoroso de Ziyech, da esquerda. David Neres entrou no meio da área, e de primeira, completou para o filó adversário.

Mais tranquilos, os Amsterdammers tiveram oportunidades até de ampliarem. Aos 70', David Neres roubou a bola na direita da grande área, cruzou rasteiro, e Justin Kluivert completou no contrapé, por cima do gol. O brasileiro apareceu de novo aos 78', deixando com Kluivert na área - e o camisa 45 dominou e bateu, para ótima defesa de Castro, espalmando por cima do gol. A última possibilidade veio aos 86', quando Siem de Jong desarmou Sebastian Jakubiak na meia-lua, e deixou a bola para Huntelaar chutar muito por cima da meta. Mesmo com essas chances perdidas, o Ajax conseguiu manter os três pontos. E a desvantagem para o PSV estará em sete pontos no clássico da próxima rodada. Os Ajacieden já sabem: irão a Eindhoven como franco-atiradores. Só o brilho individual dos destaques pode evitar a perda do título para o rival, justamente no confronto direto. De todo modo, o Ajax segue tendo apenas uma obrigação: vencer.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Emoção de sobra

O Fortuna Sittard mantém a turbulência do lado de fora do campo: está perto do título e do retorno à primeira divisão (Gerrit van Keulen/VI Images)
Na primeira divisão do Campeonato Holandês, o PSV já se prepara timidamente para a festa do título que se aproxima (timidamente por causa de razões que serão explicadas no final deste texto). Então, acabou-se a emoção que o futebol holandês possa ter para oferecer em 2017/18? Muito longe disso. Porque, na segunda divisão, também restando apenas cinco rodadas, Fortuna Sittard, Jong Ajax e NEC protagonizam uma disputa pelo título – e pelo consequente acesso direto – como havia tempos a Eerste Divisie não via. Apenas um ponto separa as três equipes.

A equipe B Ajacied está na terceira posição, com 64 pontos e saldo de gols menor do que o time de Nijmegen, rebaixado na temporada passada, atual ocupante da segunda posição, com pontuação igual. E ambos estão abaixo do Fortuna Sittard, que viu a sorte lhe sorrir há duas rodadas, na sexta passada: não só viu derrotas dos adversários diretos – no “clássico dos times B”, o Jong PSV fez 3 a 0 no Jong Ajax, enquanto o NEC sucumbiu ao FC Eindhoven (3 a 2) -, mas cumpriu sua tarefa ao golear o Almere City (4 a 1) para voltar à primeira colocação. E a situação se manteve como tal na 33ª rodada, ocorrida na segunda passada, quando todos venceram. O NEC fez 3 a 0 no Telstar; o Jong Ajax superou o Dordrecht (3 a 2); e o Fortuna também ostentou 3 a 0, no Helmond Sport.

Conseguir a liderança na reta final, ainda que longe de ser definitiva, é bastante surpreendente para o Fortuna. Não pelo clube ter vivido uma ascensão vertiginosa: como a coluna citou no fim de janeiro, já então o time auriverde de Sittard estava presente na disputa pela liderança, sonhando com a volta à Eredivisie após 16 anos. Porém, coincidentemente, naquela semana a equipe fora derrotada pelo Dordrecht (3 a 0). E o nigeriano Sunday Oliseh, ainda técnico, já começara a pedir mais apoio da diretoria – o que incluía contratações.

Foi o início da fase mais turbulenta que o Fortuna Sittard viveu em sua campanha. Primeiro, porque no começo de fevereiro, alguns jornais e sites divulgaram suposta demissão de Oliseh, por suas declarações criticando a diretoria. O clube rapidamente desmentiu – e, de fato, o ex-jogador seguiu comandando a equipe. Mas estava claro que o clima era o pior possível entre as partes. Seguiram-se mais dois jogos sem vitória. E aí, sim, não só Oliseh foi demitido, no meio de março, como o conflito se tornou aberto.

O nigeriano deu a primeira estocada, à revista Voetbal International: “Eu não queria continuar. Não queria fazer parte de práticas ilegais”. O clube – leia-se o proprietário Isitan Gün – quis ouvir quais eram tais práticas. E levou o ex-comandante à Justiça Comum holandesa, onde ambas as partes estão até agora. Em audiência acalorada no dia 20 de março, Oliseh acusou o clube de pagar irregularmente jogadores e treinadores; Gün vociferou contra os métodos e comportamentos do técnico. O veredito veio nesta sexta: a comissão independente decidiu que a razão estava com o Fortuna Sittard, e Oliseh ficou sem direito a indenização pela demissão.

Em meio a tal tormenta, parece incrível que o português Cláudio Braga, que passou de técnico dos juvenis a interino do principal sem escalas, conseguisse blindar a equipe. Blindou. Paralelamente, os destaques voltaram a se sobressair, em figuras como Finn Stokkers e Lisandro Semedo. E mesmo após a demissão, o Fortuna se manteve próximo da primeira posição. Está invicto desde então, com três empates e sete vitórias. Na última, como já dito, retomou a liderança. Não que as dificuldades tenham cessado. Longe disso – no supracitado triunfo contra o Almere City, o clube perdeu um dos destaques na campanha, o atacante Djibril Dianessy, fora da temporada após romper o ligamento cruzado anterior. Mas está claro que o sonho do retorno à Eredivisie segue muito vivo.

Assim como segue vivo para o NEC, também disputando firmemente a liderança. Como ocorreu com outros campeões da segunda divisão, o clube de Nijmegen tenta retornar rapidamente à primeira divisão com a mesma base que sofreu o rebaixamento. Ainda seguem no time treinado por Pepijn Lijnders o goleiro Joris Delle, o zagueiro Wojciech Golla, o volante Janio Bikel, o atacante Mohamed Rayhi. Uma contratação até inesperada – Anass Achahbar, que era promissor no Feyenoord – também tem mostrado talento: é o goleador da equipe na temporada.

Além do mais, jovens que eram apenas promessas em 2016/17 já amadureceram suficientemente para tomarem conta de suas posições e se destacarem na campanha. É o caso do meio-campista Ferdi Kadioglu e do atacante Arnaut Groeneveld. Todavia, um hábito da segunda divisão holandesa bem conhecido de brasileiros tem perturbado a campanha: a ausência de paralisação do campeonato nas datas Fifa. Há três rodadas, com Kadioglu e Groeneveld na seleção holandesa sub-21, o NEC tropeçou contra o De Graafschap (1 a 1). A derrota para o FC Eindhoven devolveu a ponta ao Fortuna Sittard. E agora, os Nijmegenaren apenas esperam tropeços – possíveis – do primeiro colocado.

E o terceiro colocado da Eerste Divisie poderia estar muito tranquilo na disputa. Afinal, o Jong Ajax não será promovido caso seja campeão, por motivos óbvios. Porém, a temporada decepcionante da equipe principal coloca uma certa pressão na equipe B dos Amsterdammers. Pressão que às vezes prejudica, como na derrota para o Jong PSV. De mais a mais, os jogadores às vezes sofrem com o vai-e-volta entre o banco do time de cima e a titularidade absoluta na equipe B. É o caso de vários jogadores: Luis Orejuela, Noussair Mazraoui, Carel Eiting e, acima de tudo, Mateo Cassierra, goleador da equipe na temporada. Além do mais, até pelo investimento que o Ajax faz em sua base (muito mais alto que o dos rivais, obviamente), considera-se que ganhar a segunda divisão seria um 
certo prêmio de consolação. E perdê-la, mais uma decepção.

Está certo que Fortuna Sittard e NEC, mesmo perdendo o título, continuariam na disputa pelo acesso – afinal, como “campeões de período”, estão garantidos na repescagem. Ainda assim, a mobilização na disputa pelo título da segunda divisão os faz esquecer tal possibilidade. Afinal, viria o acesso direto junto da taça. E a ansiedade da reta final foi expressa justamente por quem tem menos “obrigação” de ser campeão: Michael Reiziger, técnico do Jong Ajax. “Está uma competição legal. E está surpreendente, todo mundo pode perder pontos”. Após a 34ª rodada ser jogada nesta sexta, a vitória do Jong Ajax sobre o NEC (2 a 0) fortaleceu o time de Amsterdã - e também o Fortuna, que venceu o Go Ahead Eagles (1 a 0) e segue na ponta. Mas quem garante que isso durará?


Se há um time que pode impedir o sonho apoteótico do PSV, é o AZ, com a dupla Alireza-Weghorst (Tom Bode/VI Images)
PSV: a decisão antes da decisão

Sete pontos à frente do Ajax, com cinco rodadas para o final do Campeonato Holandês: a torcida do PSV já esfrega as mãos pensando em comemorar o título. Se tudo der certo para os Boeren, a comemoração seria deliciosa: precisando de duas vitórias, os três pontos decisivos viriam justamente no clássico contra o vice-líder de Amsterdã, na 31ª rodada, no próximo dia 15. Aí mora o perigo. Porque, antes do clássico, neste sábado, a partida da 30ª rodada traz justamente uma visita contra... o AZ, terceiro colocado. E não será nada fácil vencer a equipe altamente ofensiva e rápida que vem de Alkmaar.

Seja nas laterais, com Jonas Svensson e Thomas Ouwejan; no meio, com Guus Til e Teun Koopmeiners; no ataque, com Alireza Jahanbakhsh, Wout Weghorst e Oussama Idrissi; as opções ofensivas não faltam a John van den Brom. E a organização tática dá aos Alkmaarders franca superioridade sobre a maioria dos rivais – como provou o fácil 3 a 0 sobre o ADO Den Haag, na rodada passada. Não à toa, o AZ chega à final da Copa da Holanda pela segunda temporada consecutiva. Menos à toa, sonha até com o vice-campeonato – desvantagem ainda reversível de cinco pontos, para o Ajax, que será enfrentado na penúltima rodada. Menos à toa ainda foi ver alguns destaques (o goleiro Marco Bizot, Til, Weghorst) lembrados por Ronald Koeman na convocação da seleção.

Se há algum álibi com que os Eindhovenaren podem contar, é o péssimo retrospecto do AZ na temporada contra os grandes. Ao enfrentar o Feyenoord, o mais decepcionante do trio, foram duas derrotas – incluindo aí um 4 a 0 em plena Alkmaar. Contra o Ajax, numa partida que poderia dar a vice-liderança, fez-se o 1 a 0, mas foi tomada a virada. E contra o PSV, na primeira rodada, o AZ até saiu na frente, mas levou o 3 a 2. Ainda assim, num momento decisivo da temporada, e diante de um time elogiável tecnicamente (nem que seja para chegar na Liga Europa e passar vexame – quem esquece os 7 a 1 do Lyon?), o PSV precisa de atenção. Afinal, ainda há esta decisão contra o AZ antes da sonhada “decisão” contra o Ajax.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 6 de abril de 2018)

terça-feira, 3 de abril de 2018

810 minuten: como foi a 29ª rodada da Eredivisie

Parzyszek sai comemorando após a esperteza no segundo gol: Zwolle foi rápido para definir a vitória (Henry Dijkman/VI Images)
Zwolle 2x0 Sparta Rotterdam (sábado, 31 de março)

Com apenas dois minutos, o Zwolle já se colocou no bom caminho da vitória: Kingsley Ehizibue começou a jogada, Younes Namli cruzou sob medida e Youness Mokhtar completou para o primeiro gol dos mandantes. Impacto tão considerável que Piotr Parzyszek quase ampliou a vantagem dos Zwollenaren logo depois (chutou em cima do goleiro Jannik Huth). O que não quer dizer que o Sparta se abateu com a desvantagem. Os visitantes de Roterdã tiveram ótima chance aos 29': Thomas Verhaar finalizou, o goleiro Diederik Boer rebateu, e Michiel Kramer errou o rebote.

O segundo tempo começou como o primeiro: com o Zwolle assustando. Aos 54', um cruzamento de Ryan Thomas que parecia despretensioso foi mandar a bola no travessão de Huth. E o goleiro alemão, por sinal, foi o bode expiatório da jogada do segundo gol, aos 64': trocava passes com os zagueiros Sander Fischer e Julian Chabot, até um toque curto demais ser interceptado por Parzyszek, que completou. A partir daí, o Zwolle se assenhorou da partida, e pôde comemorar a sua primeira vitória no campeonato desde 6 de fevereiro. Ao Sparta, voltou o temor do rebaixamento direto. Até pelo que ocorreria com o Roda JC.

O entusiasmo de Vansteenkiste e Schahin na comemoração se justifica: ninguém esperava a surpresa do Roda (Broer van den Boom/VI Images)
Vitesse 0x3 Roda JC (sábado, 31 de março)

E o que ocorreria com o Roda JC? Muitos esperavam uma derrota para o Vitesse, em Arnhem. Só que os Koempels se agigantaram para conseguir uma vitória importante na disputa para, pelo menos, tentar se salvar na repescagem de acesso/descenso. O Vites começara com algumas oportunidades - como um cabeceio de Guram Kashia, com a defesa do goleiro Hidde Jurjus, aos 21' -, mas na primeira chance que tiveram, aos 24', os visitantes de Kerkrade já colocaram a esférica no filó adversário: Jannes Vansteenkiste cruzou e Dani Schahin completou de cabeça para marcar seu primeiro gol desde 28 de janeiro. De quebra, aos 34', Donis Avdijaj quase fez o segundo, mas mandou para fora.

O Vitesse? Depois de ficar atrás no placar, só tentou algo num arremate de Mason Mount, para fora, ainda durante o primeiro tempo. Saiu para o intervalo debaixo de fortes vaias no Gelredome de Arnhem. E já aos 57', o técnico Henk Fräser decidiu tirar a aposta que fizera no ataque, Luc Castaignos, trazendo de volta o titular Tim Matavz. Não dera e não daria certo. Aos 70', o Roda JC é que faria 2 a 0: Simon Gustafson lançou em profundidade, e desta vez Avdijaj conferiu. Mais dez minutos, e Schahin foi premiado com o segundo gol do dia, confirmando um triunfo extremamente valioso para o Roda - e decepcionante para o Vitesse, que sonhava em chegar perto da quarta posição, mas se vê ainda em perigo até de não garantir sua vaga na repescagem por Liga Europa.


A torcida já se assanha: mais uma vitória, o PSV segue líder absoluto, e a perspectiva de garantir a conquista no clássico contra o Ajax é cada vez mais palpável (ANP/Pro Shots)
PSV 5x1 NAC Breda (sábado, 31 de março)

No começo, o NAC Breda até tentou ousar em Eindhoven. Aos 4', por exemplo, Sadiq Umar saiu com a bola, e chegaria bem à área para o chute, não fosse o desarme providencial de Daniel Schwaab, na hora certa. Foi a senha para o PSV começar a dominar. Aos 6', Santiago Arias deixou a bola com Marco van Ginkel, e da entrada da área, o camisa 10 arrematou para a defesa do goleiro Nigel Bertrams. O chute de Bart Ramselaar, aos 10', foi mais perigoso: ao invés de agarrar, Bertrams o espalmou para a linha de fundo. Aos 19', Steven Bergwijn arriscou sozinho, em chute de fora - e para fora. Dois minutos depois, Luuk de Jong cabeceou à queima-roupa, em cima de Bertrams, na pequena área - embora desequilibrado ao ser segurado por Pablo Marí, verdade.

Aos 28', na falta de uma, foram duas chances: primeiro com o chute de Jorrit Hendrix, mandando a bola no travessão, e na sequência com o arremate baixo de Bergwijn, que Bertrams mandou para escanteio.Mas só numa bola parada é que veio o gol, aos 37'. Outra vez, Pablo Marí agarrou Luuk de Jong na área - mas desta vez foi mais acintoso, o juiz Pol van Boekel marcou o pênalti, e Van Ginkel bateu no canto direito de Bertrams, deslocando o goleiro para fazer 1 a 0. O placar poderia ter sido ampliado já aos 44', até: Arias subiu sozinho em escanteio, cabeceando fortemente a bola. Mas Bertrams pegou em cima da linha.

Sadiq Umar foi o monstro e o médico para o NAC Breda: cometeu gol contra, mas trouxe certo perigo e até fez gol (Maurice van Steen/VI Images)
Tão logo o segundo tempo começou, o NAC Breda tentou mostrar que não estava morto: aos 47', Sadiq Umar cruzou da esquerda, e a bola sobrou na área com Thierry Ambrose, livre. Mas Jeroen Zoet foi perfeito: saiu bem, fechou o ângulo e pegou firme a finalização do atacante francês. Um cruzamento de Jorrit Hendrix, no minuto seguinte, já normalizou as coisas. Depois, Van Ginkel quase fez de cabeça aos 52', completando escanteio. Aos 58', foi a vez de Hirving Lozano forçar Bertrams a espalmar para escanteio, numa tentativa de fora. E no escanteio da sequência, veio o segundo gol: Lozano cobrou, Daniel Schwaab cabeceou, a bola desviou em Sadiq Umar e tirou as chances de defesa do arqueiro - e o atacante nigeriano do NAC Breda recebeu, "contra", o crédito do 2 a 0 dos Boeren. Porém, coube justamente a Sadiq Umar devolver alguma esperança aos visitantes de Breda, com o gol que marcou aos 64' - contando com a "ajuda" de Joshua Brenet: o recuo do lateral esquerdo a Zoet foi curto demais, o atacante interceptou a bola e tocou na saída do goleiro para fazer.

Todavia, após um período de chances esparsas aqui e ali, foram os Eindhovenaren que encaminharam o resultado. Luuk de Jong fez 3 a 1 aos 76', dominando a bola após escanteio e a concluindo no canto esquerdo. Sadiq Umar ainda tentou um último chute, aos 80', mas outro gol contra transformou a vitória praticamente garantida dos Eindhovenaren em goleada: Bergwijn veio pela esquerda, cruzou, e o caminho da bola até as redes foi encurtado pelo desvio acidental na cabeça de Karel Mets, em mais um gol contra no 4 a 1. Imediatamente após participar do segundo gol contra do jogo, Bergwijn deu lugar a Gastón Pereiro. E foi o uruguaio que marcou o quinto gol, aos 84', num chute colocado, no canto direito de Bertrams. Estava consolidada a goleada. E apenas um tropeço contra o AZ, fora de casa, na próxima rodada, impedirá o PSV de ter o cenário ideal para garantir o título: em casa, no clássico contra o Ajax, daqui a duas semanas.

De fato, motivos não faltaram para o sorriso no AZ: atuação imperiosa contra o ADO Den Haag (ANP/Pro Shots)
ADO Den Haag 0x3 AZ (sábado, 31 de março)

O AZ já sabe: no mínimo, já tem a terceira posição do campeonato praticamente garantida. E jogou em Haia como o time seguro que normalmente tem sido na temporada. Já aos 18', começou a garantir a vitória contando com dois de seus principais destaques: Alireza Jahanbakhsh cruzou, e Wout Weghorst completou para as redes (como de costume nesta temporada). Aos 26', já poderia ter vindo o segundo, mas Guus Til chutou para fora. Tudo bem: aos 30', em estonteante troca de passes, Jonas Svensson passou a Weghorst, este fez o pivô, Oussama Idrissi bateu de longe, a bola desviou, e era o 2 a 0 dos visitantes de Alkmaar.

Se ainda houvesse qualquer dúvida do time que sairia ganhador, Alireza acabou com ela aos 43', completando cruzamento de Teun Koopmeiners para o 3 a 0. No segundo tempo, mesmo já apenas administrando a vitória, o AZ até teve chances, vez por outra - como aos 53', num chute forte de Weghorst bem defendido por Robert Zwinkels. Já o ADO Den Haag só teve leves esperanças de ter o gol de honra em tentativas de Bjorn Johnsen e Lex Immers. Passou longe de fazê-lo - e passou longe de impedir mais um estupendo dia do AZ, que ainda sonha até com o vice-campeonato. Aliás, o vice-líder Ajax é que conta com o time de Alkmaar para perturbar o PSV, na próxima rodada.

A chuva foi tão forte quanto as emoções entre Willem II e Utrecht. E o golaço de bicicleta do ajoelhado Tsimikas foi a maior delas (ANP/Pro Shots)
Willem II 3x2 Utrecht (sábado, 31 de março)

Talvez para compensar o tanto de chuva que caiu em Tilburg - tanta que até houve dúvidas se o jogo aconteceria -, Willem II e Utrecht fizeram um jogo extremamente animado. Nem parecia que seria assim, já que os Utregs visitantes dominaram a parte inicial. Aos 8', Sander van de Streek até marcara, mas o gol foi anulado por falta prévia de Gyrano Kerk durante a jogada. Então, substituto do lesionado Yassin Ayoub, Urby Emanuelson disse a que veio por duas vezes. Foi dele o cruzamento para Kerk fazer 1 a 0, aos 19'. E foi dele o passe para o fortíssimo chute de Van de Streek, resultando num belo segundo gol aos 31'. Vitória garantida para os visitantes? O Willem II mostrou que não, com uma reação vertiginosa. E merecida, pelos belos gols.

Aos 39', Thom Haye - que não ficará para a temporada 2018/19 - diminuiu com cobrança de falta perfeita. Mais dois minutos, e o que Konstantinos Tsimikas fez para empatar foi melhor ainda: uma bicicleta para ninguém botar defeito. Já no segundo tempo, aos 50', Fran Sol recebeu passe de Mohamed El Hankouri e, com um toque sutil, pespegou mais um gol para sua conta - o 15º na temporada, que o torna o artilheiro momentâneo do campeonato. Com as entradas de Lukas Görtler e Cyriel Dessers, o Utrecht foi à frente para buscar o empate. Ganhou esperanças ao ficar com um homem a mais aos 77' (Freek Heerkens agarrou Dessers e foi expulso). Mas o Willem II segurou a virada, a vitória e três pontos que aumentam a esperança de ficar diretamente na primeira divisão.

Tentar contra o VVV-Venlo, o Twente até tentou. Mas gol, que é bom e cada vez mais necessário... (ANP/Pro Shots)
VVV-Venlo 0x0 Twente (domingo, 1º de março)

Os olhos de quem viu o jogo em Venlo estavam no Twente - e em como o lanterna da Eredivisie se sairia após a demissão de Gertjan Verbeek. Bem, nada mudou muito. Sob o comando do interino Marino Pusic, os Tukkers tiveram oportunidades com Tom Boere (rebote para fora, aos 11'), Fredrik Jensen (chute agarrado pelo goleiro Lars Unnerstall, aos 17') e Danny Holla (que bateu pouco acima do gol, aos 22'). O VVV-Venlo se redimiu aos 26': Clint Leemans cobrou falta com precisão, e o goleiro Joël Drommel foi buscar a bola, em grande defesa. Mas as emoções no primeiro tempo ficaram nisso.

O segundo tempo foi um pouco mais animado. Já aos 49', o Twente teve uma de suas grandes chances: Adnane Tighadouini chutou, e Unnerstall ainda desviou na bola antes dela atingir a trave - no rebote, novamente Tom Boere perdeu. Depois, após tabelar com Luciano Slagveer, Fredrik Jensen completou num chute baixo, e o goleiro alemão do VVV-Venlo novamente fez intervenção decisiva. Pararam aí as chances de ambas as equipes. E ficou mesmo o 0 a 0 que mantém difícil a vida do Twente - afinal, a vitória do Roda JC aumentou a distância para três pontos.

Bastaram três minutos, abertos com o gol de Thorsby (à direita). E o Heerenveen segurou a vitória (ANP/Pro Shots)
Heracles Almelo 1x2 Heerenveen (domingo, 1º de março)

O Heracles até vinha tentando trazer perigo, por meio de chutes de média e longa distância. Contudo, em três minutos, o Heerenveen encaminhou sua vida na partida. Aos 37', Arber Zeneli cobrou escanteio, e Morten Thorsby desviou levemente para fazer 1 a 0. Mais três minutos, e uma boa jogada de ataque dos visitantes da Frísia terminou com Reza Ghoochannejhad sendo derrubado por Robin Pröpper na área. Ed Janssen marcou o pênalti, e o próprio Reza queria bater, mas o capitão Stijn Schaars deu a bola a Zeneli. O kosovar justificou a escolha: cobrança precisa para o 2 a 0.

No intervalo, o técnico John Stegeman fortaleceu o ataque dos Heraclieden, com as entradas de Lerin Duarte e Paul Gladon. Aos 50', inclusive, Gladon chegou a marcar, mas o gol foi anulado. Depois, aos 63', Kristoffer Peterson teve a chance para marcar, mas tocou por cima da meta defendida por Martin Hansen. Três minutos depois, Peterson voltou a tentar, Hansen rebateu, e Brandley Kuwas tocou por cima. Mesmo tentando, o gol de honra dos mandantes veio só nos acréscimos, com Gladon. Sorte do Heerenveen, que comemorou sua primeira vitória fora de casa após sete partidas.



Até Huntelaar marcar, o Ajax não tivera motivo nenhum para alegria. Mas ele fez, garantiu a vitória de virada e fez o vice-líder rir por último (ANP/Pro Shots)
Groningen 1x2 Ajax (domingo, 1º de março)

Os Groningers começaram o jogo com franca superioridade. Evitavam a troca de passes do Ajax, mantinham a posse de bola, eram bem mais rápidos no ataque - principalmente pela direita, com Ritsu Doan e Deyovaisio Zeefuik. O Ajax ainda tentou num chute de Justin Kluivert, à direita do gol de Sergio Padt, aos 11'. Mas os mandantes do norte estavam bem melhores em campo. E aos 14', veio o merecido gol: Mahi mandou a bola rasteira para a área, da esquerda, e Van Weert se antecipou à marcação de Matthijs de Ligt para completar, bem no alto, sem chances para Onana sequer se mexer a tempo de evitar o 1 a 0. Enquanto só Joël Veltman, De Ligt e Nicolás Tagliafico tinham tempo e espaço para terem a bola no campo de defesa, os anfitriões pressionavam. Poderia ter ficado pior ainda aos 24': após erro de Lasse Schöne na saída de bola, Juninho Bacuna a deixou com Mahi, na área. O marroquino tentar devolvê-la, e Veltman impediu com o braço, levando o cartão amarelo. Prontamente, Kevin Blom marcou o pênalti.

Aí apareceu o primeiro "salvador" do Ajax: André Onana. O goleiro camaronês pulou no canto direito e espalmou a cobrança rasteira de Mahi, em ótima defesa para evitar o segundo gol. Mas nem mesmo escapar da desvantagem ampliada deixou o Ajax mais ligado no jogo. Chances para os visitantes de Amsterdã no primeiro tempo, só aos 30', num cabeceio de Rasmus Kristensen bem defendido por Padt. Sorte do Groningen, que teve mais oportunidades de gol. Como aos 37', num cruzamento de Doan que passou por baixo de Onana e só não entrou por leve desvio do arqueiro. Ou já no minuto seguinte - um escanteio, e Mahi desviou na pequena área, para o camisa 1 Ajacied pegar firme. Ou aos 40', quando Onana rebateu chute de Bacuna. O primeiro tempo terminou deixando a dúvida: como o Groningen estava ganhando só de 1 a 0, diante de um Ajax apático na frente (só Justin Kluivert tentava algo) e inseguro atrás?

O Groningen criou chances, teve pênalti a favor, jogou melhor por boa parte da peleja... mas parou em Onana (ANP/Pro Shots)
A torcida do vice-líder continuou tendo sérios motivos para preocupação no começo da etapa final. Aos 48', Bacuna chegou até a fazer gol, anulado por impedimento (justo). Aos 50', Mahi bateu de fora da área para Onana encaixar a bola em seus braços. No Ajax, seguia o marasmo: sem espaço para sair da defesa, sem bola para jogadas no ataque. Só aos 53' os Amsterdammers começaram a ter possibilidades de gol - precisamente, num chute de Hakim Ziyech, para fora. Na sequência, só para mostrar qual o melhor time, Bacuna quase marcou - a bola foi em cima de Veltman, e depois Onana saiu para impedir. Nem a entrada de Siem de Jong, no lugar de Schöne, havia alterado muito as coisas. Até os 64'. Do nada, dois dos destaques ofensivos Ajacied enfim acharam espaço. Ziyech cruzou da direita, Kluivert cabeceou do lado oposto na saída de Padt, e o Ajax inesperadamente fazia 1 a 1.

Igualdade no placar, parecia que nela o resultado ficaria. O Ajax seguiu sem pressionar muito - tentou apenas em arremates de Nicolás Tagliafico (aos 68') e Ziyech (aos 72'), ambos para fora. Com menos espaço - e menos volúpia ofensiva, também -, o Groningen só trouxe perigo aos 73', num chute colocado de Mahi, que saiu à esquerda do gol. Tagliafico apareceu de novo, num cabeceio aos 82', mas nada. E como que piorando a situação Ajacied, Veltman levou seu segundo cartão amarelo aos 86', sendo expulso de campo. Mas de repente, não mais que de repente, quando tudo levava a crer num empate que deixaria ainda pior a situação do Ajax, veio o inacreditável: a virada. Aos 89', David Neres segurou a bola na direita. Cruzou-a para Huntelaar, que ajeitou para Kluivert. O camisa 45 cruzou de novo para o veterano, que dominou no meio da área, bateu e fez. 2 a 1, para incredulidade no estádio Noordlease. O Ajax segue na disputa. A última que morre, essas coisas.



Pelo menos isso: ao golear Excelsior, Feyenoord ganha respiro na quarta posição (Pro Shots)
Feyenoord 5x0 Excelsior (domingo, 1º de março)

O bom retrospecto fora de casa do Excelsior (quarto melhor visitante) nesta temporada até poderia assustar o Feyenoord no começo do clássico da cidade. Mas o susto durou pouquíssimo: já aos dois minutos, Jean-Paul Boëtius chutou, perto da trave direita do goleiro Theo Zwarthoed. Mais dois minutos se passaram, e o próprio Boëtius abriu o caminho da vitória para o time da casa em De Kuip: Jens Toornstra passou a bola, Tonny Vilhena fez o corta-luz, e o camisa 7 bateu colocado, no canto esquerdo de Zwarthoed, para o 1 a 0. As jogadas ofensivas se avolumavam. Na sequência, Toornstra cruzou baixo, e Zwarthoed ainda conseguiu pegar. No minuto seguinte, o mesmo meio-campista arrematou de voleio após um cruzamento de Ridgeciano Haps, mandando a esférica bem acima do gol. O Excelsior? Só apareceu aos 10', num cruzamento de Mike van Duinen, que Brad Jones pegou sem problemas.

Mantendo a posse de bola, o Feyenoord só precisava criar mais jogadas para impor a clara superioridade diante do rival citadino. Uma possibilidade foi na bola parada: aos 18', Steven Berghuis cobrou falta, e a bola só foi parar na linha de fundo, espalmada por Zwarthoed. Aos poucos, os cruzamentos foram sendo a opção preferencial, sendo repelidos principalmente pelo zagueiro Wout Faes. Até que, aos 27', Boëtius foi preciso: mandou a bola na cabeça de Toornstra, que apenas desviou a bola, sozinho, para as redes, fazendo 2 a 0. Estava fácil para o Stadionclub, e mais fácil ficaria a partir dos 42'. Em outro desarme no meio, Karim El Ahmadi deu a bola a Berghuis. De novo o ponta chegou até à área pela direita sem ninguém marcá-lo forte, mandou a bola para o meio, e lá estava Vilhena para dominar e concluir no canto direito de Zwarthoed, marcando o terceiro gol.

Já aos quatro minutos de jogo, Boëtius brilhou: abriu o placar com o que seria o gol mais bonito da goleada (Pro Shots)
Na etapa complementar, continuou muito fácil. El Ahmadi poderia ter marcado aos 49', num voleio - mas pegou pessimamente na bola, e ela veio fraca para Zwarthoed. A sorte poderia ter dado um "empurrão" aos 52': Berghuis cruzou, e Faes desviou acidentalmente - Zwarthoed evitou o gol contra graças ao bom posicionamento. Mais um minuto, e Berghuis teve seu chute desviado para fora. Finalmente, aos 55', o quarto gol, numa jogada que mesclou beleza e aceleração. Beleza no toque de letra dado por Vilhena, iniciando a jogada no meio-campo. Aceleração no toque rápido de El Ahmadi, no círculo central. E também na corrida de Berghuis, com a bola dominada, até chutar nas proximidades da área, no canto direito, balançando as redes.

A partir de então, o jogo passou a ter ritmo de treino. A entrada de Sofyan Amrabat, no lugar de Vilhena, foi apenas para evitar que o alquebrado Excelsior superasse o meio-campo. Depois, Sam Larsson e Bilal Basaçikoglu ganharam algum tempo de jogo no ataque. A torcida já festejava mais as brincadeiras com as bolas que iam à arquibancada do que o próprio jogo. Pelo menos, aos 76', a sorte rendeu o 5 a 0: Basaçikoglu cruzou, e o zagueiro Jordy de Wijs desviou para o filó, cometendo gol contra. Estava fechado o placar que deu um respiro ao Feyenoord, agora três pontos à frente do Utrecht. É o que resta, à espera da final da Copa da Holanda, para salvar a temporada. 

sexta-feira, 30 de março de 2018

O problema do Twente chega ao campo


As demissões do técnico Verbeek (à esquerda) e do diretor técnico Van Halst foram mais um capítulo no drama do Twente. Que tem seis rodadas para resolver sua situação no Campeonato Holandês (Emiel Muijderman)

Durante esta semana, quem acompanha futebol na Holanda prestou mais atenção na seleção. E até que foram muitos os comentários sobre ela, tanto pela derrota para a Inglaterra (reações mistas ao 1 a 0, pela atuação promissora da defesa e pelo desalento que o ataque causou), quanto pela vitória em cima de Portugal (3 a 0 relativamente animador, em que pese o time reserva dos Tugas, por novo destaque dos zagueiros, De Ligt à frente, e pela maior mobilidade dos avantes). Com tudo isso, passaram quase despercebidas as demissões no Twente. Sim, no plural: tanto o técnico Gertjan Verbeek quanto o diretor técnico Jan van Halst viram o fim de suas passagens. É mais um capítulo da crise gigantesca que vivem os Tukkers. Enfim, com dramáticas consequências vistas no gramado – mais precisamente, com a última colocação no Campeonato Holandês. 

É até surpreendente que só agora o clube de Enschede esteja aflito com a ameaça de rebaixamento, a seis rodadas do fim desta Eredivisie. Afinal, os problemas vêm fortes há pelo menos três anos, quando se descobriu o custo que teriam as parcerias feitas pelo antigo presidente Joop Munsterman. Aqui mesmo já foram citados o enorme prejuízo deixado pelas transações envolvendo o fundo de investimentos Doyen (neste blog, no final de 2015), a imposição do rebaixamento ao clube, como punição da federação às falhas nos balanços financeiros (em maio de 2016), e finalmente a discutível decisão de restringir as sanções apenas no campo esportivo, proibindo o Twente de disputar competições continentais pelos próximos três anos (em junho, pouco depois).

Talvez animado por essa decisão, o clube vermelho teve uma atuação surpreendentemente elogiável em 2016/17. Obviamente, para minorar a sangria dos cofres, vendeu quem pudesse vender, pelo máximo que conseguisse – Hakim Ziyech e Felipe Gutiérrez à frente. Buscou empréstimos camaradas, alguns até com clubes de ponta (caso do Manchester City). E das trevas fez-se a luz: com as boas atuações de Bersant Celina e Mateusz Klich no meio-campo, o esforço habitual dos defensores e, acima de tudo, com os gols de Enes Ünal – foram 19, disputando a artilharia até o final da temporada -, o Twente alcançou o 7º lugar na liga. Deixou os torcedores imaginando o que poderia ter sido não fosse a punição que o tirava dos torneios da Uefa: afinal, estaria na repescagem que dá direito a uma vaga na Liga Europa.

Só que o tempo passou. Enes Ünal voltou ao Manchester City – e de lá foi vendido ao Villarreal -, Bersant Celina e Yaw Yeboah também... e o técnico René Hake precisou começar a temporada com um time ligeiramente refeito. Nem tanto na defesa, onde ainda figurariam jogadores como o zagueiro Stefan Thesker e o lateral direito Hidde ter Avest. Mas no meio-campo, setor em que o time precisaria ser reconstruído em torno de Fredrik Jensen e Mateusz Klich. E no ataque, também dizimado pelos fins de empréstimos, restaria apostar em Oussama Assaidi para dar a habitual velocidade nas pontas – e em Tom Boere, de bom desempenho na segunda divisão, para marcar os gols. 

Aparentemente, daria certo, já que a atuação contra o Feyenoord, na primeira rodada, foi honrosa: sim, houve derrota por 2 a 1, mas o Twente jogou bem, viu um golaço de Jensen e mostrou que, talvez, quem sabe, poderia continuar desafiando os três grandes – e brigando de igual para igual com os médios do mesmo tamanho, como Heerenveen e AZ. Pois é: não aconteceu. Foram quatro derrotas nas quatro primeiras rodadas, já despertando os primeiros temores de uma temporada na parte de baixo da tabela. Uma goleada sobre o Utrecht – 4 a 0, na quinta rodada – deu a impressão de que tudo se acalmaria, e tal impressão se fortaleceu com a vitória sobre o Heracles Almelo, que faz junto do Twente o “clássico” da região (Almelo e Enschede, as cidades respectivas, são muito próximas, na região do Twenthe, dentro da província do Overijssel), na sétima rodada. 

Contudo, na 8ª rodada, o revés para o Willem II (3 a 1) rendeu aquela que é, provavelmente, a decisão mais desastrada no caminho do Twente rumo à queda: a demissão do técnico René Hake. Claro, Hake fazia um trabalho longe de ser perfeito. Mas a torcida ainda tinha por ele grande respaldo, pela surpresa positiva de 2016/17. E há longo tempo trabalhando com os jovens nas categorias de base, o treinador conquistara o respeito dos jogadores. A diretoria ainda tentou contemporizar, dizendo que a demissão era apenas um “rebaixamento” de Hake às categorias de base, mas o próprio se negou e preferiu deixar o clube de vez. Para a torcida, a impressão era de que a escolha do bode expiatório fora a errada. Ali a crise financeira do Twente começava a ter, enfim, as consequências dentro de campo.

A torcida até apoia o Twente, mas sua pressão está cada vez mais forte (Marco Munnink)

Gertjan Verbeek foi contratado, com apostas na sua experiência e nos seus bons trabalhos em Heracles Almelo e AZ. No começo, a garra que não falta ao grupo de jogadores se fazia sentir – e dois jogos contra grandes foram a prova disso. Na estreia de Verbeek, contra o líder PSV, na 11ª rodada, por três vezes o Twente ficou atrás no placar, e nas três vezes buscou o empate, antes de sofrer o 4 a 3 nos acréscimos. Contra o Ajax, na 14ª rodada, foi até mais honroso: os Tukkers chegaram a ficar com uma desvantagem de 3 a 1, mas correram atrás do empate. E os avanços na Copa da Holanda (com direito a eliminação do Ajax) davam a impressão de que o time conseguiria ficar acima da zona de repescagem/rebaixamento. Contratações na janela de transferências do começo do ano, como as vindas de Adam Maher, Mounir El Hamdaoui e Luciano Slagveer (este por empréstimo, davam mais esperança de fortalecimento técnico, para debelar o impacto de perdas como Mateusz Klich, que se foi para o Utrecht.

Tudo isso caiu por terra tão logo a temporada foi retomada. Fosse no 4-3-3 ou no 5-3-2, o Twente seguia com a defesa fragilizada, mesmo com o esforço de sempre. Escalado como titular no gol, Joël Drommel mostra deficiências crônicas. No meio-campo, Maher falhava na criação das jogadas, e restava apenas a Assaidi vir buscar a bola para iniciar as jogadas de ataque. Na Copa da Holanda, ainda houve como mascarar tais falhas, chegando às semifinais. Mas no Campeonato Holandês, a crise ficou a nu: até agora, com onze rodadas transcorridas no returno, o Twente espera por vitórias. Foram cinco empates e seis derrotas. E a partir da 22ª rodada, o clube caiu na zona das três últimas posições para não mais sair dela, até agora.

Irritando ainda mais a torcida, Verbeek escondia a fragilidade do Twente em campo atrás de críticas aos adversários – como o célebre uso do termo “schijtbakkenvoetbal” (“futebol de m****”, citado aqui), em referência à aposta do PSV nos contra-ataques, que rendeu o 2 a 0 do líder do campeonato em Enschede. Enquanto isso, avolumavam-se as derrotas: 4 a 0 para o AZ nas semifinais da Copa da Holanda, o dramático 2 a 1 para o Heracles Almelo na 27ª rodada – neste revés, a torcida perseguiu nas arquibancadas o diretor técnico Jan van Halst, que saiu do estádio para evitar males maiores.

Assim, não surpreendeu a demissão da dupla nesta semana. Verbeek saiu com a marca péssima de ser o único técnico da história do Twente sob cujo comando o time teve menos de 22% de vitória na Eredivisie. Para Van Halst, então, a demissão foi um alívio, conforme ele reconheceu: “Algumas vezes eu pensei em me demitir pessoalmente”. A decisão simboliza a desordem desalentadora no clube, conforme comentou Gerard Marsman, diretor técnico da associação holandesa de treinadores: “Demitir dois treinadores numa só temporada: nunca pensei que veria isso na Holanda. Parece o Palermo, que contrata quatro técnicos por ano”. Para piorar, já havia a fratura no tornozelo que tirou Ter Avest do resto da temporada - e nos treinos desta semana, o meio-campo Haris Vuckic rompeu o ligamento cruzado anterior, sendo mais um desfalque definitivo nas seis partidas restantes.

Agora, sob o interino Marino Pusic – que já prometeu um estilo mais ofensivo -, o Twente jogará tudo nas próximas seis rodadas. Para sair da última posição e tentar se salvar na repescagem de acesso/descenso, evitando uma queda que não lhe ocorre desde a temporada 1983/84. Uma queda que seria o fim melancólico de um sonho de grandeza, que teve o apogeu no título histórico de 2009/10. Uma queda que, acima de tudo, provaria como, em busca de tal sonho, o Twente está pagando o mais caro dos preços.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 30 de março de 2018)