quarta-feira, 27 de maio de 2026

A Holanda na Copa 2026: Brobbey

Da promessa que quase foi à Copa de 2022, Brobbey teve uma queda na carreira, ficando até distante da seleção da Holanda (Países Baixos). Mas tem crescido com novas chances. E por este crescimento, enfim, chegou a um Mundial (KNVB Media/Divulgação)

Ficha técnica
Nome: Brian Ebenezer Adjei Brobbey
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 1º de fevereiro de 2002, em Amsterdã
Clubes na carreira: Ajax (2018 a 2021 e 2022 a 2025), RB Leipzig-ALE (2021 a 2022) e Sunderland-ING (desde 2025)
Desempenho na seleção: 10 jogos e 1 gol, desde 2023
Torneios pela seleção: Euro 2024 (1 jogo, nenhum gol) e Liga das Nações (2024/25)

Desde que começou a ter passagens pelas categorias de base, Brian Brobbey foi apontado por muitos na Holanda (Países Baixos) como um atacante de futuro. Aliás, trouxe essa boa impressão nas aparições pelas seleções de base, antes mesmo de jogar pelo Ajax, clube ao qual sua carreira esteve ligada por muito tempo. Só que suas virtudes (bom poder de finalização, calma no domínio de bola, força física para ser referência no meio da área) decaíram em meio às inconstâncias da fase inicial da carreira. A tal ponto que Brobbey andou até mesmo sem espaço em clube e seleção. Entretanto, ao mudar de ares nesta temporada, já mostrou alguma reação. Foi o suficiente para que recuperasse as boas expectativas e estivesse entre os 26 convocados da Holanda para a Copa do Mundo - ainda tendo a benevolência de quem pode obter êxito nos anos subsequentes.

Descendente de ganeses, Brobbey foi mais um convocado a ter irmãos seguindo o mesmo caminho dele, no futebol: nada menos do que três irmãos também são jogadores (Samuel Brobbey, lateral esquerdo; Kevin Luckassen, atacante; e o mais conhecido, o zagueiro Derrick Luckassen, que chegou a jogar pelo PSV). No caso de Brian, seu caminho com a bola nos pés se iniciou já na infância. Como quase sempre, por um clube amador - no caso, o AFC, tradicional agremiação de Amsterdã. Lá Brobbey ficou até 2010: ainda criança, foi mais um escolhido para ser criado futebolisticamente no Ajax.

Foi nos times de base do clube de Amsterdã que Brobbey se estabeleceu como atacante. E ganhou chances nas seleções holandesas inferiores antes mesmo das promoções finais no Ajax. já em 2017, ele atuou nas equipes sub-15 e sub-16 da Holanda, meses antes de ter suas primeiras atuações pela equipe sub-19 dos Ajacieden. Em 2018/19, a evolução pelo clube alcançou o mesmo estágio do que ele já vivia defendendo as seleções. Além de ter a primeira aparição no futebol adulto, em 15 de outubro de 2018, jogando 31 minutos contra o time B do PSV, na 9ª rodada da segunda divisão dos Países Baixos, o atacante seguiu no Ajax sub-19 - já despontando com gols, agora: foram quatro na Liga Jovem da UEFA, em que o time holandês foi às oitavas de final.

Antes mesmo de ter chances reais no Ajax, Brobbey já causava boa impressão na seleção sub-17 da Holanda: ele foi uma das caras do bicampeonato europeu da categoria (Brendan Moran/Sportsfile/Getty Images)

Porém, a mostra real do talento de Brobbey seria mesmo vestindo laranja. Mais precisamente, pela seleção sub-17. Em 2018, a Holanda conquistou o título europeu da categoria - e tendo ao lado colegas como Jurriën Timber e Ryan Gravenberch, o atacante marcou três gols na campanha. A dose foi repetida em 2019: bicampeonato europeu sub-17 para a Holanda, e Brobbey foi novamente titular absoluto, marcando três gols. Só uma lesão impediu que ele pudesse confirmar esse destaque no Mundial sub-17 de 2019, no Brasil.

Lesões: elas impediram Brobbey de desabrochar na temporada 2019/20. Problemas no tornozelo, no fim de 2019; e outros problemas físicos, na reta final da temporada, limitaram seu desempenho pelo Jong Ajax a 13 jogos e sete gols, na Eerste Divisie, a segunda divisão holandesa. Mas quando ele voltou, foi para, enfim, aparecer no time principal do Ajax. E o atacante já deu seu cartão de visitas na estreia: vindo de nove jogos e cinco gols pela Eerste Divisie 2020/21, Brobbey veio a campo já aos 25' do jogo contra o Fortuna Sittard, pela 9ª rodada do Campeonato Holandês - de quebra, já deixou um gol, nos 5 a 2 do Ajax. Responsabilidade maior ainda viria na última rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões, quando o atacante começou como titular o jogo contra a Atalanta, decisivo para que o time avançasse às oitavas de final. O Ajax foi eliminado ao perder por 1 a 0, mas Brobbey não comprometeu em 2020/21, sua temporada de estreia.

As chances de Brobbey no Ajax demoraram um pouco. Chegaram em 2020/21. Mas ainda foram inferiores ao que ele queria (Maurice van Steen/ANP Sport/Getty Images)

Só que desejava jogar mais do que os 12 jogos e três gols marcados pela Eredivisie, os nove gols em 17 partidas pela segunda divisão, as seis partidas em que veio do banco no mata-mata da Liga Europa (incluindo um gol, no jogo de volta contra a Roma, na queda pelas quartas de final). Com isso, o atacante começou a sinalizar ao Ajax - junto a seu agente, o ítalo-neerlandês Mino Raiola (1967-2022): ou jogava mais partidas, até como titular, ou deixaria Amsterdã. O Ajax negou garantir tais chances. E Brobbey foi procurar seu caminho em outro clube. Antes mesmo da temporada acabar, assinou contrato com o RB Leipzig alemão, em março - para chegar a ele em junho. Teria o respaldo da dupla coroa - campeonato e copa holandeses - que ajudara o Ajax a ganhar. E até da participação na fase de grupos da Euro sub-21, em março de 2021, sua estreia pela Laranja Jovem.

No entanto, pior do que ter menos chances do que julgava merecer no Ajax era nem ter chances. Foi quase o que aconteceu em Leipzig, na primeira metade da temporada 2021/22: só nove jogos pelo Campeonato Alemão, só cinco pela Liga dos Campeões (e só um como titular). Foi um tempo suficiente para o jovem entender: queria voltar ao Ajax. E voltou, por empréstimo, tão logo 2022 começou. A mudança de ares já trouxe dividendos em campo: no primeiro jogo após o retorno, dois gols nos 3 a 0 sobre o Utrecht, em 16 de janeiro, pela Eredivisie. Mais sete dias, e até mesmo lesionado Brobbey marcou: segundos após sofrer uma lesão num ligamento do joelho, mesmo mancando, ele abriu o placar da vitória no clássico contra o PSV (2 a 1). Pelo menos, dois meses depois, Brobbey voltou, a tempo de marcar ainda mais presença em mais um título holandês do Ajax.

A discretíssima passagem de Brobbey pelo RB Leipzig deixou a forte impressão de ter sido passo maior do que as pernas (Jan Woitas/picture alliance/Getty Images)

O retorno que lhe fizera bem foi consolidado antes da temporada 2021/22: o Ajax trouxe Brobbey em definitivo junto ao RB Leipzig. Mais do que isso: o atacante se consolidou como titular do ataque do Ajax, ainda na fase inicial do Campeonato Holandês. De quebra, também consolidou o posto de titular na seleção sub-21 da Holanda. Feitos que fizeram Louis van Gaal, técnico da Laranja então, já chamá-lo para uma convocação às pressas (Memphis Depay tinha se machucado), ficando no banco contra a Bélgica, no último jogo da fase de grupos da Liga das Nações. Era um "gostinho" de seleção principal. Mesmo que Brobbey tenha ficado ausente da convocação para aquela Copa, já era uma indicação de que a estreia pela Laranja não demoraria muito.

Brobbey surgiu na base do Ajax, mas sua volta definitiva custou muito ao clube. Ele compensou isso com boa fase (Michael Bulder/NESImages/DeFodi Images/Getty Images)

Mesmo com o Ajax já começando a viver crise dentro de campo, com trocas de técnico, Brobbey cumpriu seu papel na temporada 2022/23: foram 13 gols pelo Campeonato Holandês, sendo o principal goleador Ajacied naquela temporada da Eredivisie. Por seleções, mantendo-se titular da equipe sub-21 da Holanda (Países Baixos), foi presença certa na Euro da categoria, no meio de 2023. Se a Laranja Jovem decepcionou, caindo na fase de grupos, Brobbey pelo menos deixou um gol nas redes (no 1 a 1 contra Portugal). Seguia a impressão de que seu começo na seleção principal era questão de tempo.

E esse tempo se acabou ao longo da temporada 2023/24. Num Ajax já sofrendo com trocas constantes de técnicos e falta de foco em campo, Brobbey foi sinônimo de gols. Recebendo a confiança de Maurice Steijn, técnico contratado para aquela temporada, começou como titular. Steijn foi demitido, vieram outros treinadores - Hedwiges Maduro, John van't Schip -, e Brobbey continuou como um dos raros nomes confiáveis em campo, marcando gols. Até mesmo em momentos baixos da trajetória Ajacied, como a eliminação para o amador USV Hercules, na segunda rodada da Copa da Holanda, o atacante deixou gols (fez um, na derrota por 3 a 2). Chegou, mesmo, a ter uma sequência de oito gols - um pela Copa da Holanda, sete pelo Campeonato Holandês - em cinco jogos. Com tal desempenho, ajudou o Ajax a, pelo menos, garantir vaga na Liga Europa. Com 18 gols pela Eredivisie (22, somadas todas as competições), disputou a artilharia da liga até as últimas rodadas, e foi o principal goleador do Ajax na temporada. E teve, pelo menos, o reconhecimento da torcida, mesmo na fase difícil: foi eleito em votação pública o Jogador da Temporada no Ajax.

Em 2023/24, o Ajax esteve mal, mas Brobbey (em primeiro plano) esteve bem: com gols e ajuda tática, superou a crise do clube e foi até escolhido pela torcida o melhor da temporada (ProShots/Icon Sport/Getty Images)

Com isso, enfim, o momento da seleção principal da Holanda (Países Baixos) chegou para Brobbey. Mais precisamente, em 16 de outubro de 2023, pela sexta rodada das Eliminatórias da Euro 2024: convocado para aquelas datas FIFA, o atacante veio a campo aos 62', substituindo Wout Weghorst contra a Grécia, fora de casa. E foi útil, usando uma de suas qualidades para a vitória por 1 a 0 que pôs a Laranja na rota da vaga na Euro: nos minutos finais, ajeitou a bola dentro da área, para Denzel Dumfries dominá-la, ser derrubado, e sofrer o pênalti que Virgil van Dijk converteu no gol único daquele jogo. Tal desempenho convenceu Ronald Koeman. Que, se não fez de Brobbey titular da Laranja, nunca mais o tirou da lista de convocados. Nem de amistosos pré-Euro, já em 2024, e nem da própria Euro. Nela, contudo, teve apenas alguns minutos apressados: na semifinal, tão logo a Inglaterra fez 2 a 1 na Holanda, aos 44 minutos da etapa final, Brobbey foi chamado para ir a campo, substituindo Xavi Simons apenas para tentar algum milagre nos acréscimos. Entrada malograda, claro.

Brobbey enfim chegou à seleção principal da Holanda (Países Baixos). Porém, na Euro 2024, seu primeiro torneio grande pela Laranja, teve só os parcos minutos de acréscimo contra a Inglaterra (ProShots/Getty Images)

Ainda assim, Brobbey seguiu tendo seu espaço na Laranja, no segundo semestre de 2024. Teve pelo menos uma atuação elogiada, nos 2 a 2 com a Alemanha (fase de grupos da Liga das Nações), ajudando bastante como "pivô" no ataque. Até mesmo marcou seu primeiro gol pela seleção, também na Nations League, abrindo o placar contra a Bósnia, em novembro de 2024. Contudo, a manutenção do espaço na seleção não foi acompanhada no clube: paulatinamente, Brobbey perdeu espaço no Ajax, sob o comando do técnico italiano Francesco Farioli, ao longo da temporada 2024/25. Pela Eredivisie, fez apenas quatro gols em 30 jogos, mesmo predominantemente titular. Na Liga Europa, só dois gols em oito partidas. Costumeiramente, era substituído por Farioli. E por mais que um suposto desleixo com a forma física fosse criticado aqui e ali, Brobbey nunca chegou a brigar com o treinador Ajacied. Apenas não entendia por quê tantas alterações. Neste 2026, perguntado sobre o momento, refletiu: "É coisa de Farioli, ele sempre faz isso".

Pela perda de espaço no Ajax ou pela queda física, o fato é que Brobbey começou 2025 também tendo suas convocações pela Holanda (Países Baixos) ameaçadas: em todo o ano, só jogou os 19 minutos finais da prorrogação contra a Espanha, na volta das quartas de final da Liga das Nações, substituindo Memphis Depay. Não mais lembrado por Koeman ao longo das Eliminatórias da Copa do Mundo, em baixa crescente no Ajax (e a perda traumática do título holandês foi um fator prejudicial a mais)... era hora de trocar de ares, novamente. E na reta final da janela de transferências para a temporada 2025/26, Brobbey se foi para o Sunderland.

Em baixa no último ano de Ajax, Brobbey rumou para o Sunderland. Levou ainda algum tempo, mas no clube inglês, voltou à boa fase (Martin Swinney/Sunderland/Getty Images)

Nos Black Cats, tendo compatriotas como Lutsharel Geertruida e Robin Roefs, o atacante ainda teve começo discreto. Só a partir de outubro ganharia mais espaço na equipe inglesa. Mas ao ganhá-lo, enfim Brobbey retomou o círculo virtuoso de sua carreira. Logo, começou a fazer mais gols - foram seis, ao longo da temporada da Premier League, ajudando o Sunderland a fazer campanha estável no meio da tabela. Além de fazer mais gols, Brobbey melhorou fisicamente, circulando mais pelo campo. Fazendo isso, começou 2026 já voltando ao radar de Ronald Koeman. Que enfim o convocou novamente para a Holanda (Países Baixos), em março passado, após um ano de afastamento, para os amistosos contra Noruega e Equador, justificando abertamente: "Ele melhorou a sua forma".

A forma física, sim. A forma técnica ainda atrai desconfianças de torcida e imprensa holandesas: no 1 a 1 contra o Equador - jogo difícil para a Laranja, com um a menos -, ele teve grande chance de gol no segundo tempo, mas a desperdiçou. Ainda assim, Brobbey conseguiu recuperar ao longo da temporada 2025/26 a confiança e a boa vontade que ameaçava perder. Por isso, enfim, está na Copa. E pode ter alguns minutos em campo.

(Pieter van der Woude/Marcel ter Bals/DeFodi Images/Getty Images)

A Holanda na Copa 2026: Noa Lang

Noa Lang ainda não teve lá muitos jogos pela seleção da Holanda (Países Baixos). Mas a personalidade que mostra em campo - às vezes levada ao lado ruim - abriu espaço para a segunda Copa de sua carreira (KNVB Media/Divulgação)

Ficha técnica
Nome: Noa Noell Lang
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 17 de junho de 1999, em Capelle aan den Ijssel
Clubes na carreira: Ajax (2017 a 2021), Twente (2019 a 2020, por empréstimo) e Club Brugge-BEL (2020 a 2023), PSV (2023 a 2025), Napoli-ITA (2025 a 2026) e Galatasaray-TUR (desde 2026, por empréstimo)
Desempenho na seleção: 15 jogos e 3 gols, desde 2021
Torneios pela seleção: Copa de 2022 (1 jogo, nenhum gol) e Liga das Nações (2022/23, 2024/25)

(Versão revista e ampliada do texto escrito para o guia da Copa de 2022)

Pela carreira que tem, já com certo tempo, é possível dizer que Noa Lang é daqueles jogadores de personalidade. Para o bem, em campo, seu talento é indiscutível: ponta-direita driblador, com boa finalização, Noa viveu bons momentos em Club Brugge e PSV. Além do mais, é daqueles jogadores que não se amedronta quando recebe responsabilidades, e nem se inibe ao ser provocado. Para o mal (e isso tem vindo à tona, principalmente, nos dois anos recentes), Noa tem um temperamento que lhe coloca em enrascadas vez por outra. Pelo menos defendendo a seleção da Holanda (Países Baixos), tem conseguido controlar isso. Em 2022, já valeu para ter uma vaga entre os convocados da Laranja na Copa do Mundo. Agora, já valeu também para manter a confiança de Ronald Koeman - e para garantir a presença no segundo Mundial de sua carreira.

Por sinal, a ousadia de Lang começou antes mesmo da carreira engrenar. Iniciado no futebol pelo RSV HION, clube amador de Roterdã, o talento já o fez chegar ao Feyenoord, aos seis anos de idade. No Stadionclub ele faria sua formação como jogador, junto a companheiros de geração como Tyrell Malacia - e teria até experiências por clubes de fora dos Países Baixos (o Nantes francês, entre 2006 e 2007, e o Besiktas turco, em 2010). Porém, partiria do rapaz, na adolescência, uma decisão arriscada: trocar Feyenoord pelo Ajax (clube do seu coração na infância), sem escalas, ainda nas categorias de base, em 2013. Foi o suficiente: Noa Lang já teve de aguentar críticas - e até ameaças - da torcida do Stadionclub. Mas conseguiu o que desejava: se desenvolver ainda mais. A ponto de chegar à primeira seleção de base da Holanda: a sub-16, em 2014.

Alguns anos depois, Lang teve jornada "dupla" na hora de chegar à fase adulta da carreira. Na temporada 2016/17, ao mesmo tempo em que ainda seguia no time sub-19 do Ajax (que disputava a Liga Jovem da UEFA), o jovem teve sua primeira aparição no time B, estreando na reta final da segunda divisão - 32ª rodada, fazendo os nove minutos finais da vitória contra outro time B, o do Utrecht. De quebra, ainda subiu de nível nas equipes de base dos Países Baixos, tendo partidas pela seleção sub-19 em 2017. Na temporada seguinte, a "jornada dupla" seguiria a mesma, mas os times seriam diferentes: o atacante foi efetivado no Jong Ajax (14 jogos e dois gols na campanha do título da equipe B Ajacied pela segunda divisão), e na reta final do Campeonato Holandês, começaria a ficar no banco de reservas da equipe principal.

Lang mostrou talento aqui e ali no Ajax, mas nunca recebeu no time a chance que partes da torcida julgavam que ele merecia (Eric Verhoeven/Soccrates/Getty Images)

Na temporada 2018/19, mesmo mais ligado ao Jong Ajax (com um bom desempenho: 21 jogos e cinco gols), Noa Lang estreou pelo time principal, jogando o segundo tempo da goleada contra o amador Te Werve, pela segunda fase da Copa da Holanda. Além do mais, alcançou as primeiras partidas pela seleção sub-21 da Holanda, último estágio antes da seleção adulta. Finalmente, em 2019/20, o técnico Erik ten Hag atendeu o que já era um desejo de parte da torcida do Ajax: efetivou o jovem no grupo principal do time de Amsterdã.

E Noa Lang teve alguns momentos agradáveis. Estreou pelo Campeonato Holandês principal (atuou nos 12 minutos finais contra o Sparta Rotterdam, pela 5ª rodada), teve suas atuações na Liga dos Campeões (três jogos na fase de grupos)... e pelo menos um jogo para colocar a torcida do Ajax em polvorosa. Na 15ª rodada da Eredivisie, contra o Twente, o Ajax chegou a ficar com desvantagem de 2 a 0 fora de casa. Coube a Noa Lang, 20 anos então, chamar a responsabilidade: como titular na Eredivisie pela primeira vez, ele acelerou ainda mais as jogadas pela esquerda. Driblou, finalizou, fez o primeiro gol Ajacied ainda na etapa inicial, empatou o jogo, e ainda marcaria um terceiro gol na virada para a goleada por 5 a 2. Por mais que Erik ten Hag colocasse ponderações sobre necessidades de Noa Lang - melhorar na marcação, por exemplo -, a torcida estava empolgada.

A atuação contra o Twente, no Campeonato Holandês 2019/20, foi um momento em que Noa Lang deixou um "gosto de quero mais" não concretizado no Ajax (ANP Sport/Getty Images)

Empolgação que mudou de lado no returno daquela temporada: com o Ajax preferindo apostar no empréstimo de Ryan Babel, Lang também foi cedido ao Twente - justamente ao Twente -, até o fim da temporada. E foi titular dos Tukkers, enquanto a temporada 2019/20 durou. Entretanto, ela durou pouco: de janeiro a março, quando a pandemia de COVID-19 se impôs. Só lhe restou voltar ao Ajax. Mas a continuação de sua carreira não seria em Amsterdã: numa opção questionada na época (nunca se entendeu muito a falta de confiança de Erik ten Hag no atacante), Lang foi emprestado ao Club Brugge da Bélgica, com a temporada 2020/21 já em andamento - houve ainda uma atuação pelo Ajax no Campeonato Holandês.

No Club Brugge, enfim Noa Lang teve a sequência que buscava. E virou o destaque do bom momento que o clube bicampeão belga vive na atualidade (Joris Verwijst/BSR Agency/Getty Images)

Na equipe belga negra e azul, enfim, Lang teve a sequência de jogos que buscava. Seu desempenho cresceu tanto que ele não se restringia mais à ponta-direita, sabendo jogar mais recuado e até criando jogadas. Resultado: 16 gols e sete passes para gol, ao longo da temporada 2020/21 que terminou com o título nacional do Club Brugge. 2021/22 seria melhor ainda para ele: no bicampeonato belga do Club Brugge, atuação menos goleadora (7 gols), porém mais constante (37 partidas) e mais hábil no meio (foram 12 passes para gol). No meio de um clube com muitos holandeses - de Ruud Vormer a Bas Dost -, Noa Lang era o mais badalado de todos. Para o bem e para o mal: flagrado cantando coros antissemitas em maio de 2021, ao lado de torcedores do Club Brugge - para ofender o arquirrival Anderlecht, vinculado à comunidade judaica -, o atacante precisou pedir desculpas publicamente para aliviar sua situação.

E sua impetuosidade foi notada em termos de seleção. Com a equipe sub-21 da Holanda classificada para a Euro, o atacante começou como titular absoluto, mas foi forçado a ser cortado ainda na fase de grupos, em razão de uma lesão muscular. Recuperado, enfim, veio a convocação para a Laranja principal: Lang estreou substituindo Steven Berghuis, aos 62' do 1 a 0 sobre a Letônia pelas eliminatórias da Copa, e já foi titular na rodada seguinte, nos 6 a 0 sobre Gibraltar. Viria mais uma partida na qualificação para o Mundial, e em 2022, na Liga das Nações, Lang não só começou jogando as duas partidas contra o País de Gales, como também marcou seu primeiro gol, no triunfo holandês sobre os galeses em Roterdã (3 a 2). E recebeu um conselho afetuoso mas sério de Van Gaal: "Eu tive uma conversa boa com ele. Eu fiz um alerta para que ele não fizesse provocações". 

Na época, Noa Lang piscou: "Faz parte, um pouco, de quem eu sou. Seria chato se todo mundo fosse igual. Só preciso levar para o lado positivo". Pelo menos em 2022, Noa levou: mantendo o nível técnico no Club Brugge, garantiu vaga entre os 26 convocados da Holanda para a Copa do Mundo. Nela, na maior parte do tempo, ficou no banco de reservas. Mas para alguém com seu temperamento forte, nem foi de se impressionar tanto assim que o atacante - vestindo a camisa 12 laranja naquele Mundial - tenha tido seus únicos minutos em campo no torneio justamente nas quartas de final, contra a Argentina, jogo cheio de conflitos: ele substituiu Cody Gakpo, aos oito minutos do segundo tempo da prorrogação, e passou os sete minutos restantes tentando manter mais a bola com a Holanda, num período de superioridade argentina. Sem muito sucesso.

Convocado para a Copa de 2022, Noa Lang acompanhou a campanha da Holanda (Países Baixos) no banco de reservas. Mas entrou justamente num momento apropriado para sua personalidade quente: a prorrogação das quartas de final, contra a Argentina (Lionel Hahn/Getty Images)

Noa Lang terminou a temporada 2022/23 rendendo novamente bem pelo Club Brugge - 9 gols, oito passes para gol, na campanha que terminou com a quarta posição no Campeonato Belga. Ainda assim, conforme deixou claro depois, ainda queria retornar ao futebol da Holanda (Países Baixos) para mostrar definitivamente seu valor. Por isso, aceitou a proposta do PSV, para o qual rumou em julho de 2023. Não sem antes ter o que poderia ser um grande momento pela seleção holandesa. Chamado para as fases finais da Liga das Nações, em junho de 2023, saiu do banco aos 85', substituindo Denzel Dumfries, na semifinal contra a Croácia, àquela altura perdida por 2 a 1. Pois, nos acréscimos, foi a vez de Lang ser o nome da reação: da área, de bate-pronto, empatou aquela semifinal em 2 a 2. Porém, como acontecera na Copa do Mundo de 2022, foi apenas adiar a derrota holandesa, que veio na prorrogação. Pelo menos, o ponta-esquerda ainda teve chances como titular contra a Itália, dias depois, na decisão de 3º e 4º lugares.

Mesmo bem no Club Brugge, Noa Lang quis voltar ao país natal. No PSV, já começou bem, só que as lesões atrapalharam o início (ProShots/Icon Sport/Getty Images)

De volta ao PSV, sim, é que Lang viveria o grande impulso de sua carreira, mesmo cercado de problemas. Já começaria na Supercopa da Holanda, abrindo a temporada 2023/24: em seu primeiro jogo oficial pelo time de Eindhoven, foi dele o gol do título, na vitória por 1 a 0. Enquanto pôde jogar naquela temporada, colaborou bem: titular na ponta-esquerda dos Boeren, fez quatro gols, deu passe para um... até um primeiro problema muscular, sofrido em outubro, tirá-lo dos campos por dois meses. De volta em dezembro, o atacante vinha na reserva do PSV - que contava então com Johan Bakayoko e Hirving Lozano para as pontas -, entrava aos poucos... até que, em 27 de janeiro de 2024, seu primeiro jogo como titular, contra o Almere City, novamente saiu machucado, com o problema muscular na coxa mais grave, daquela vez. Mesmo com o PSV campeão holandês, Noa Lang celebraria fora de campo. Em seleção, sua presença ficaria restrita a dois jogos nas Eliminatórias da Euro, ainda 2023: no torneio final, sua convocação estaria inviabilizada.

Pois Noa Lang - àquela altura também "Noano", seu alter ego musical, com o qual desenvolve carreira - reverteu tudo na temporada 2024/25. Se os problemas musculares iniciais o forçaram a ser coadjuvante, daquela vez o jogador conseguiu ser o que desejava ao voltar à Holanda (Países Baixos): protagonista. Numa campanha inconstante do PSV, foi bem tanto no começo pelo Campeonato Holandês, quando os Eindhovenaren ensaiaram encaminhar o bicampeonato, quanto na reta final, quando a equipe conseguiu reverter uma queda de produção, superou o Ajax na reta final e ainda buscou o bicampeonato. Com 11 gols e dez passes para gol, Noa Lang foi um dos nomes da conquista marcante. 

Em 2024/25, sim, Noa Lang ajudou bastante o PSV. Foi protagonista numa vitória decisiva para o bicampeonato holandês, num clássico contra o Feyenoord. E aproveitou a chance para provocar a torcida adversária... (Bart Stoutjesdijk/ANP/Getty Images)

Aliás, foi protagonista em momento de alta importância: na 32ª e antepenúltima rodada, o PSV estava atrás do Feyenoord, num clássico - perdia por 2 a 0, fora de casa, o que o deixava longe do título. Pois Noa Lang catalisou os Boeren para a virada: empatou o jogo aos 73', provocou a torcida do Feyenoord em pleno De Kuip, e nos acréscimos (54 minutos do segundo tempo, mais precisamente), fez o gol da virada do PSV para 3 a 2, um dos mais lembrados gols daquela campanha. Claro, para não fugir à personalidade forte, comemorou em frente à torcida do Feyenoord. De quebra, conseguira voltar a jogar pela seleção holandesa: dois jogos em 2024, pela fase de grupos da Liga das Nações, mais uma participação na queda para a Espanha, na volta das quartas de final, já em 2025.

Noa Lang já dera o "passo para trás", se impulsionando com o retorno ao país natal. Em 2025, já tinha sido aprovado pela torcida do PSV. Era hora de "dar dois passos para frente": isto é, tentar ousar num centro mais competitivo da Europa. Foi o que o atacante fez, rumando para o Napoli, embalado então pelo título italiano. Porém, ali sua personalidade se manifestou do jeito errado. Vindo do banco de reservas no começo de sua passagem pelos Partenopei, o holandês começou a perder a paciência com o técnico Antonio Conte. Com números "magros" na primeira metade da temporada 2025/26 - um gol e dois passes para gol, titular só em sete das 18 partidas que fez pelo Campeonato Italiano, aparições discretas na Liga dos Campeões -, Lang perdeu a paciência com Conte, em outubro, após o Napoli tomar 6 a 2 do PSV pela Champions: "Estou treinando duro, mas não sei mais o que fazer. Eu não tenho escolha, tenho? Eu assinei contrato aqui e tenho que aceitar". Conte respondeu prontamente: "Ele é um cara legal. Gosta de música, canta e dança também. Mas preciso que ele seja um bom jogador. Ele tem que se adaptar". 

A chegada ambiciosa ao Napoli foi atrapalhada pelos problemas de Noa Lang com Antonio Conte (Elianton/Mondadori Portfolio/Getty Images)

Sem muito espaço também na seleção da Holanda (Países Baixos) - só dois jogos nas Eliminatórias da Copa do Mundo, ambos começados na reserva, ainda que com um gol nos 8 a 0 sobre Malta, mais aparição nos 12 minutos finais dos 4 a 0 na Lituânia, o jogo da vaga na Copa -, estava claro: Noa Lang precisaria de um novo "passo para trás" nesta temporada. Este veio com o empréstimo ao Galatasaray, em janeiro deste 2026. No campeão turco, já chegou acarinhado pela torcida, começou a ser titular na liga do país... mas foi na Liga dos Campeões que teve momentos marcantes pelo Gala. Um deles, pelo bem: na segunda fase, contra o Juventus, fez dois gols na goleada por 5 a 2, na ida, que encaminhou a vaga da equipe turca nas oitavas de final. 

Justamente nelas veio o mau momento. Um enorme susto, num azar: na derrota da eliminação, para o Liverpool, Lang participou de uma jogada, correu até a linha de fundo tentando alcançar a bola, e enganchou um de seus dedos polegares num prendedor de ferro, mínimo, servindo apenas para fixar as grades que separam campo de torcida em Anfield. Na velocidade do lance, o impacto quase decepou o topo do polegar do holandês, prontamente substituído - e atraindo enorme temor.

No Galatasaray, Noa Lang aprumou suas atuações na temporada e conseguiu manter forma para ir à Copa - mas carregou um enorme susto (Richard Sellers/Sportsphoto/Allstar/Getty Images)

O temor logo foi amenizado pelos exames. A tal ponto que Noa Lang conseguiu ainda se integrar à convocação para os amistosos da Holanda em março passado, contra Noruega e Equador. Até mesmo fez piada com o susto: "Como sou destro, não estou conseguindo jogar com o PlayStation, e fica difícil ir ao banheiro. Mas o dedo está aqui, conseguiram costurar a parte de cima”. Mesmo sem participação em ambos, o atacante teve lá sua participação no título turco do Galatasaray.

Serviu para garantir presença na convocação para a Copa. Nela, Noa Lang terá mais espaço para buscar as chances que ainda não teve pela seleção da Holanda (Países Baixos). E tentará mostrar a personalidade que tem na carreira. Para o lado bom, bem entendido. 

(Stefan Koops/EYE4images/NurPhoto/Getty Images)




A Holanda na Copa 2026: Weghorst

Weghorst pode nem ter técnica para ser titular da Holanda (Países Baixos). Mas pela dedicação e pelos gols que entrega em alguns momentos, o experiente atacante ganhou respeito - e a vaga na convocação para a segunda Copa da carreira (KNVB Media/Divulgação)

Ficha técnica

Nome: Wout François Maria Weghorst
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 7 de agosto de 1992, em Borne
Clubes na carreira: RKSV NEO (2008 a 2010), DETO (2010 a 2011), Emmen (2012 a 2014), Heracles Almelo (2014 a 2016), AZ (2016 a 2018), Wolfsburg-ALE (2018 a 2022), Burnley-ING (2022 a 2024), Besiktas-TUR (2022 a 2023, por empréstimo), Manchester United-ING (2023, por empréstimo), Hoffenheim-ALE (2023 a 2024, por empréstimo) e Ajax (desde 2024) 
Desempenho na seleção: 51 jogos e 14 gols, desde 2018
Torneios pela seleção: Copa de 2022 (4 jogos, 2 gols), Euro 2020+1 (4 jogos, 1 gol), Euro 2024 (6 jogos, 1 gol) e Liga das Nações (2022/23, 2024/25)

Há quatro anos, quando foi convocado para a primeira Copa do Mundo de sua carreira, Wout Weghorst era considerado apenas um atacante esforçado, bom para compor elenco. Até aí, o colega de geração Luuk de Jong - também presente na convocação da Holanda (Países Baixos) para 2022 - também o era, talvez até com um pouco mais de técnica. Só que Weghorst roubou a cena, até surpreendentemente, naquele Mundial. Com Luuk decidindo encerrar sua trajetória na Laranja logo após aquele Mundial, o atacante seguiu deixando todo o esforço que pudesse em campo. Paralelamente, fez gols importantes pela Laranja, aqui e ali. Por tudo isso, mesmo num momento de baixa no clube em que joga, o atacante alto e experiente (fará 34 anos em agosto) tem seu "sacrifício" reconhecido: está convocado para a segunda Copa do Mundo de sua carreira.

De certa forma, Weghorst já indicou esse talento para marcar gols em clubes desde que começou a jogar futebol. Ainda no RKSV NEO, clube amador da cidade natal em que se iniciou, foi o principal goleador do clube nas categorias de base. No segundo clube amador em que foi se formando, o DETO Twenterand, Weghorst não chegou a ser artilheiro, mas mostrou capacidade de finalização na área (e só nela, diga-se de passagem) suficiente para ser trazido ao Willem II, e lá terminar seu trajeto na base. 

Porém, Weghorst não teve espaço no time de Tilburg. Sequer estreou pelo time principal na temporada passada lá (2011/12), ficando restrito à equipe B. Assim, sua carreira só começou para valer a partir da metade de 2012. E num passo bem modesto: o atacante tomou o caminho do Emmen, então ainda na segunda divisão da Holanda (Países Baixos). A atuação pelos Emmenaren teve lá seu êxito: oito gols, em 28 jogos, na temporada 2012/13 - começando por 21 de setembro de 2012, no clássico contra o BV Veendam (clube que já foi extinto, hoje em dia). Em 2013/14, sim, Weghorst teve atuação mais consistente: 11 gols em 34 jogos pelo Emmen. Já valeu para atrair atenção de um clube mais estabelecido na primeira divisão: o Heracles Almelo, que o trouxe na metade de 2014.

No Heracles Almelo, o lado goleador de Weghorst começou a aparecer (Peter Lous)

Nos Heraclieden, Weghorst ainda teve inconstâncias na temporada 2014/15: começou mais no banco de reservas, e só marcou oito gols. Ainda assim, tomou a posição de titular na reta final daquele Campeonato Holandês para não largar mais. De quebra, pelo menos, teve uma única chance na seleção sub-21 da Holanda - e fez gol, ainda que num fracasso da Laranja Jovem (a queda contra Portugal, na repescagem das eliminatórias da Euro sub-21, ficando fora do torneio).

E finalmente, 2015/16 foi o ano em que o atacante embalou. Nem foram tantos gols assim pelo Heracles Almelo: 12, em 33 partidas do Campeonato Holandês. Ainda assim, Weghorst se mostrou mais capacitado para ajudar os pontas nas tabelas de ataque, fazer o popular "pivô" (ou seja, ajeitar a bola para a finalização dos jogadores vindos do meio-campo), além da finalização natural na área. De quebra, se tornou fundamental num excelente fim de temporada do time de Almelo: foram quatro gols nas últimas seis rodadas regulares da Eredivisie. O Heracles foi, então, disputar a repescagem por vaga na Liga Europa. E com dois gols na semifinal dessa repescagem, contra o Groningen, Weghorst teve grande importância para ajudar o time a ganhar a vaga no torneio europeu - primeira experiência da história do Heracles em torneios continentais.

Era hora do próximo passo. E poucos clubes poderiam ser melhores para isso do que o AZ, onde Weghorst chegou na metade de 2016. Em Alkmaar, novamente o mesmo caminho: uma primeira temporada mais discreta (13 gols em 29 jogos pela Eredivisie 2016/17), mas já mostrando alguma importância no time - que chegou à segunda fase da Liga Europa, e à final da Copa da Holanda -, novamente crescendo na reta final. Com o AZ disputando os play-offs por vaga na Liga Europa daquela vez, Weghorst se destacou, marcando contra o Groningen (dois gols na ida, um gol na volta) e contra o Utrecht, que levou a vaga (um gol na ida).

No AZ, Weghorst aprimorou seu estilo de jogo, passando a contribuir com as jogadas. E ficou ainda mais artilheiro (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)

E também de novo, a segunda temporada seria "a boa". No AZ, Weghorst criou uma parceria muito entrosada com o iraniano Alireza Jahanbakhsh. Que deu frutos aos dois: Alireza foi goleador do Campeonato Holandês 2017/18 (23 gols), e Weghorst veio atrás, com 18 gols em 31 jogos. De quebra, além do auxílio aos atacantes nas jogadas, o próprio Weghorst ousou mais: deu seis passes para gol, e aprimorou um pouco sua capacidade no jogo aéreo. Tal desempenho, enfim, valeu para receber uma chance na seleção da Holanda - ou melhor, três: o atacante saiu do banco em três amistosos no começo de 2018 (contra a Inglaterra, em março, na estreia de Ronald Koeman treinando a Laranja; contra a Eslováquia, em maio; e contra a Itália, em junho). Valeu, principalmente, para outra boa chance na carreira: Weghorst tomou o caminho do Wolfsburg, logo após aquela temporada de sucesso.

No clube alemão, Weghorst nem precisou de adaptação, como em Heracles Almelo e AZ. O atacante não só foi titular dos Lobos na primeira temporada, como conseguiu ótima média de gols naquele Campeonato Alemão: 0,5 gol por partida (17 gols em 34 jogos). Mesmo já sem tanta frequência nas convocações da seleção, ainda teve uma chance, contra a Estônia, na última rodada das eliminatórias da Euro. 

Veio 2019/20, e tanto antes da eclosão da pandemia quanto na retomada já sob ela, Weghorst seguiu justificando a confiança do Wolfsburg: 16 gols em 32 jogos, ajudando a levar o clube da Volkswagen às oitavas de final da Liga Europa. Finalmente, na temporada atual, 2020/21, viu-se o melhor do atacante nos Lobos, que garantiram vaga na Liga dos Campeões: 20 gols em 34 jogos, só abaixo de Robert Lewandowski, Erling Haaland e André Silva na tabela de goleadores do Campeonato Alemão. Desde Roy Makaay um "homem-gol" vindo da Holanda (Países Baixos) não se destacava tanto na Bundesliga - Weghorst foi o quinto neerlandês a alcançar 50 gols em sua passagem pela liga germânica.

Weghorst nem demorou para virar o homem-gol do Wolfsburg, nas últimas temporadas (DFL)

Na seleção, por muito tempo Weghorst não passou das listas preliminares de convocados: Luuk de Jong, mais experiente, ganhava a preferência.  Chegou a se dizer "decepcionado" pelo bom desempenho no Wolfsburg passar em branco nas chamadas. Mas o que era dele estava guardado: Frank de Boer opinou que o 2020/21 do atacante era "fantástico", e por fim o incluiu na convocação dos 26 jogadores para a Euro 2020+ 1, adiada pela pandemia em 2020. Convocação tão almejada que, numa entrevista, Weghorst até foi às lágrimas ao comentar o fato, em entrevista.

O esforço foi além. De reserva, Weghorst foi testado como titular no último amistoso antes da Euro, contra a Geórgia. Marcou um gol na vitória por 2 a 0 - e tal desempenho foi suficiente para que ele fosse escalado como titular contra a Ucrânia, na estreia. Foi só? Nada disso: Weghorst marcou o segundo gol, na vitória por 3 a 2, comemorando com seu tradicional deslizar de joelhos no gramado, completado com "unhadas de gato". Ainda começaria como titular no jogo seguinte, contra a Áustria. Depois, com o mais técnico Donyell Malen agradando contra a Macedônia do Norte, ele foi para a reserva. Disputou os 24 minutos finais contra os norte-macedônios, mais os 17 restantes da eliminação para a República Tcheca (Tchéquia). Contudo, de algo sua participação na Euro 2020+ 1 já serviria. Até para o resto de sua carreira.

Weghorst quis muito ir à Euro. Conseguiu. E mesmo que tenha ido para a reserva no decorrer da campanha da Holanda, colaborou (Lukas Schulze/UEFA/Getty Images)

Porque, mesmo com um desempenho modestíssimo na primeira metade da temporada 2021/22 pelo Wolfsburg (em 18 jogos, só seis gols, perdendo algumas boas chances), seu jeito de jogar já o fizera conhecido. O que possibilitou que, mesmo caindo de produção, ele ainda ficasse nas convocações da Holanda, jogando duas partidas pelas eliminatórias da Copa - contra Letônia e Gibraltar, vindo do banco em ambas. Mais do que isso: desejoso de atuar num clube da Premier League, Weghorst teve a chance para isso em janeiro de 2022, quando o Burnley o trouxe para que fosse um dos principais nomes a tentar evitar o rebaixamento na primeira divisão inglesa.

Bem, não deu certo. Na metade final da temporada 2021/22, Weghorst jogou como a principal referência ofensiva do Burnley, mas serviu mais como pivô (ajeitou a bola três vezes para gol) do que como o goleador que fora no Wolfsburg (só dois gols - um de cabeça, outro de pé direito). E o Burnley foi mesmo rebaixado na Premier League. Mais do que isso: com o clube precisando reduzir custos após a queda para a Championship, a principal contratação de janeiro virara um nome que precisava ser emprestado, em julho. Para ter espaço, Weghorst precisava de um clube para atuar. Achou-o no Besiktas: foi emprestado para o clube turco, onde começou a temporada 2022/23 como titular. Contudo, seguiu sem o desempenho esperado: foram só seis gols pelos alvinegros, naquele Campeonato Turco.

A passagem pelo Burnley começou ruim. E com o rebaixamento na Inglaterra, Weghorst foi destinado a recuperar fôlego no Besiktas (Orange Pictures/BSR Agency/Getty Images)

Ainda assim, mesmo reserva no Besiktas, Weghorst seguia como reserva costumeiro e até respeitado na seleção holandesa. Em 2022, o ano da Copa do Mundo, esteve em todas as convocações de Louis van Gaal. E no único jogo em que começou como titular, aproveitou a chance: foi o autor do gol da vitória contra País de Gales (2 a 1), em junho daquele ano, pela Liga das Nações. Retornou às chamadas para as duas últimas partidas pela Nations League, entrando aos 75' no 2 a 0 contra a Polônia. E por fim, foi lembrado entre os 26 convocados da Laranja para a Copa. No Catar, Weghorst quase sempre saía do banco de reservas, nos minutos finais das partidas, para ajudar a segurar a bola no ataque e, se fosse o caso, ser uma referência ofensiva. Assim foi no 1 a 1 com o Equador (substituiu Cody Gakpo nos 11 minutos finais), no 2 a 0 contra o Catar (novamente entrando no lugar de Gakpo, aos 37 minutos do segundo tempo) e nas oitavas de final contra os Estados Unidos (outra vez no lugar de Gakpo, então apenas para os acréscimos).

Só que, nas quartas de final, não foi assim. Com a Holanda (Países Baixos) tendo grandes dificuldades para entrar na defesa da Argentina com passes e bola no chão, já com a desvantagem por 2 a 0 no placar, a eliminação estava muito próxima. Foi aí que Van Gaal decidiu mudar a estratégia, colocando em campo, para a boa e velha "casquinha" de bola na área, Luuk de Jong e... Weghorst, vindo a campo no lugar de Memphis Depay aos 33 minutos da etapa final. Com Weghorst, deu muito certo. Cinco minutos depois de entrar em campo, ele acertou um cabeceio, diminuindo o placar para 2 a 1. Já seria algo. Ficou pequeno diante do que aconteceu no décimo primeiro (!) minuto dos acréscimos. 

Na Copa de 2022, Weghorst (em primeiro plano) já cumpria seu papel como coadjuvante da Holanda (Países Baixos). Pois nas quartas de final, mesmo com a queda para a Argentina, ele roubou a cena dentro e fora de campo (Patrick Smith/FIFA/Getty Images)

Ao longo daquela Copa do Mundo de 2022, durante os treinos dos Países Baixos, Weghorst sugerira a Van Gaal usar uma jogada ensaiada com que já marcara gols no Wolfsburg: uma falta, bola rolada para a área com os colegas holandeses cercando zagueiros adversários, e ele finalizaria. Pois às pressas, naquele minuto, Teun Koopmeiners decidiu por isso em prática, e coube a Weghorst empatar aquelas quartas de final de modo até inacreditável. De quebra, mesmo com eliminação holandesa, na disputa de cobranças da marca do pênalti após o 2 a 2 em 120 minutos, o atacante da camisa 19 acertou a sua. Pronto? Não: no caminho da zona mista do estádio Lusail, logo após o jogo, Weghorst chegou perto de Lionel Messi, fosse por provocação ou por ingenuidade - alegou que só queria a camisa do destaque supremo da Argentina. Pois Messi, ainda no clima fervilhante daquela partida, olhou incomodado e interrompeu uma entrevista para indagar a Weghorst: "¿Qué mirá, bobo? Andá pa allá, bobo. Andá pa allá" ("Está olhando o quê, babaca? Sai fora, babaca. Sai pra lá"). Nascia ali um meme até hoje lembrado por quem viu aquela partida. Weghorst nem seguiu com a briga. Apenas lamentou, naquele 9 de dezembro de 2022: "Era para ser a melhor noite da minha vida".

De certa forma, o "dia de Cinderela" que Weghorst teve nas quartas de final da Copa de 2022 teve sequências nos dias - até nos anos - seguintes. Para começo de conversa, de volta ao Besiktas, fez mais dois gols no Campeonato Turco, nas rodadas da virada de ano (oito gols em 16 jogos, média até razoável). Aí, depois de todo o ocorrido no Mundial, veio a oportunidade gigante: o Manchester United se interessou em tê-lo, por empréstimo de seis meses junto ao Burnley, que convenceu o Besiktas a antecipar o fim da cessão de Weghorst (mediante pagamento de três milhões de libras). E o atacante foi para uma passagem por Old Trafford, em janeiro de 2023. 

No Manchester United, Weghorst teve passagem quase anônima, decaindo aos poucos (Robbie Jay Barratt/AMA/Getty Images)

Começou tendo até a boa vontade da torcida, por seu inegável esforço. Mas, aos poucos, ficou claro que se tratava de um coadjuvante, e que "a carruagem da Cinderela voltara a ser abóbora": mesmo com 17 jogos na Premier League, nenhum gol marcado, apenas uma bola na rede pela Copa da Liga Inglesa (seu único título nos Diabos Vermelhos), mais um gol marcado pela Liga Europa. E no fim da temporada 2022/23, empréstimo encerrado, o United o liberou sem muito esforço para contratá-lo. Pelo menos, a roda-viva ficaria mais sossegada: na temporada 2023/24, o Burnley emprestou o atacante holandês ao Hoffenheim, para volta à Alemanha em que sua carreira tomou impulso.

Se em clubes Weghorst começava a ter idas e vindas inconstantes, contudo, na seleção holandesa sua utilidade foi muito aproveitada no trabalho de Ronald Koeman. Basta dizer, para começo de conversa, que ele esteve em todas as partidas da seleção da Holanda (Países Baixos) em 2023. Se só jogou os 90 minutos em três delas, fez mais gols importantes. Mais precisamente, três gols, nas Eliminatórias da Euro 2024. Um deles, por sinal, até decisivo: foi de Weghorst o gol da vitória por 1 a 0 sobre a Irlanda, na penúltima rodada da campanha de qualificação, resultado que garantiu a classificação da Laranja à Euro.

Weghorst seguiu no mesmo tom ao longo do primeiro semestre de 2024. Pelo Hoffenheim, até foi titular costumeiro na campanha pelo Campeonato Alemão (28 jogos), mas fez apenas sete gols, sem impressionar muito. Só que quando o assunto foi vestir a camisa laranja da seleção neerlandesa, sua utilidade era inquestionável. No primeiro amistoso da Holanda pré-Euro, 4 a 0 na Escócia em 22 de março de 2024, ele entrou aos 77' - fez o gol dele. Claro, mesmo sem ser titular, foi presença confirmada na convocação de Ronald Koeman para a Euro 2024. Mais dois jogos de preparação antes da participação da Laranja no torneio europeu, já em junho, contra Canadá e Islândia; mais duas entradas de Weghorst - aos 62' contra o Canadá, aos 84' contra a Islândia; e mais dois gols dele nas goleadas por 4 a 0. 

Mesmo oscilando no Hoffenheim por que jogava, Weghorst foi convocado garantido na Euro 2024. E novamente, teve lá sua utilidade para a Holanda, sempre vindo da reserva (ProShots/Icon Sport/Getty Images)

Euro 2024 iniciada, na estreia, empate equilibrado entre Holanda e Polônia, muitas chances holandesas perdidas no ataque... até que Weghorst veio a campo, aos 81', substituindo Memphis Depay. Três minutos depois, passe de Nathan Aké, e ele fez o 2 a 1 da vitória neerlandesa - no dia seguinte, o AD Sportwereld, caderno de esportes do diário Algemeen Dagblad, estampava a manchete "De redder van Oranje" ("O salvador da Laranja"). Era o começo de uma Euro em que Weghorst nunca começou como titular, mas era sempre reserva pronto para entrar em todas as partidas. Foi o que aconteceu naquele torneio: esteve em todos os seis jogos da Laranja, vindo do banco. E se vinha apenas para os últimos minutos, Weghorst já entrou no intervalo das quartas de final, contra a Turquia, e da semifinal, contra a Inglaterra.

Se passava sempre impressão digna ao atuar pela seleção da Holanda (Países Baixos), quem sabe voltar ao país natal também não o colocasse nos prumos por clubes? Foi assim que, após terminar seu empréstimo ao Hoffenheim e até jogar algumas partidas pelo Burnley ainda antes da Euro, Weghorst aceitou, em 2024, uma proposta do Ajax, para chegar como a referência ofensiva do clube. Na primeira temporada, teve bons momentos - como nos 4 a 3 no Heracles Almelo, pela 9ª rodada da Eredivisie 2024/25, quando fez dois gols na virada Ajacied. De mais a mais, Weghorst superou a desconfiança de ser um atacante pouco afeito ao estilo mais técnico preferido no clube de Amsterdã, com a dedicação típica em campo conquistando a torcida. Por fim, voltou aos dois dígitos de gols: foram 10 naquela Eredivisie, sem contar mais um na Liga Europa - segundo com mais gols pelo Ajax em 2024/25, apenas abaixo de Kenneth Taylor -, superando até uma fratura num dedo do pé, em fevereiro de 2025. Porém, a traumática perda do título para o PSV, na última rodada daquela liga holandesa, minimizou qualquer colaboração que Weghorst tivesse na campanha.

Se o Ajax tem sofrido com crises, e se Weghorst é considerado um atacante de estilo "anti-Ajax", ganhou o respeito da torcida com a dedicação em campo. E claro, com os gols (Ben Gal/BSR Agency/Getty Images)

Pelo menos, na seleção neerlandesa, o lugar do atacante nas convocações seguiu firme. Assim como sua utilidade em colocar a bola na rede. Ainda no segundo semestre de 2024, foram dois gols na fase de grupos da Liga das Nações. Quando 2025 chegou, por causa da supracitada fratura num dedo do pé, começou fora das quartas de final da Liga das Nações, logo em março. De resto, mesmo mais na reserva, mesmo sem gols, Weghorst figurou em seis dos oito jogos da campanha nas Eliminatórias da Copa do Mundo. Só ficaria de fora nos jogos finais de novembro (1 a 1 contra a Polônia e o jogo da vaga, 4 a 0 na Lituânia). Entretanto, mesmo num Ajax ainda pelejando com a crise que vive nos últimos anos, seu rendimento no ataque não foi de se jogar fora: apesar de sofrer com uma torção no tornozelo que o tirou dos campos no fim de 2025 - e por ela, ter sua titularidade mais alternada com Kasper Dolberg -, Weghorst seguiu com gols. Foram sete no Campeonato Holandês, mais um na Liga dos Campeões.

E neste 2026, mesmo sem gols marcados pelos Países Baixos, Weghorst foi presença certa - vindo do banco - nos amistosos contra Noruega e Equador, em março. Foi presença certa na convocação para a segunda Copa do Mundo na carreira. Mesmo contestado aqui e ali no Ajax, o fim de contrato com o clube já o torna nome cogitado para ser contratado, pela experiência e pelos gols (seja em clubes importantes holandeses, como o Twente, ou em clubes tradicionais da Europa, como o Benfica-POR). Nada mais compreensível. Afinal, se nunca foi um primor de técnica, a dedicação trouxe Weghorst até aqui. Quem sabe a Copa do Mundo de 2026 o traga novamente a um papel de destaque, como nas quartas de final de 2022 - e agora, sem ser "bobo"...

(Marcel ter Bals/DeFodi Images/Getty Images)

A Holanda na Copa 2026: Malen

Malen já poderia ter ido à Copa do Mundo de 2022, mas ficou de fora. No entanto, a experiência e o aprendizado do ciclo recente - coroados com a melhora vertiginosa desde 2025 - abriram caminho, enfim, para o atacante ir ao Mundial agora (KNVB Media/Divulgação)

Ficha técnica
Nome: Donyell Malen
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 19 de janeiro de 1999, em Wieringen
Clubes na carreira: PSV (2018 a 2021), Borussia Dortmund-ALE (2021 a 2025), Aston Villa-ING (2025 a 2026) e Roma-ITA (desde 2026)
Desempenho na seleção: 51 jogos e 13 gols, desde 2019 
Torneios pela seleção:, Euro 2020+1 (3 jogos, nenhum gol), Euro 2024 (4 jogos, 1 gol, 1 gol contra), Liga das Nações (2020/21, 2022/23, 2024/25)

Até a Euro 2020+1, Donyell Malen parecia destinado a ser titular no ataque da seleção masculina da Holanda (Países Baixos). Não era à toa: vinha em ascensão, era o melhor atacante do PSV, era um jovem veloz e habilidoso... mas o tempo passou, as dificuldades apareceram, um mau momento decisivo o prejudicou, ele ficou fora da Copa de 2022, a concorrência aumentou. Foi só a partir dessas dificuldades, contudo, que Malen se fez valer. Mais experiente, começou a reagir gradativamente, voltou às convocações da Laranja, subiu muito de produção desde o ano passado, está em grande fase em seu clube. E enfim, venceu o "atraso" de quatro anos, figurando na lista dos 26 convocados, para a primeira Copa de sua carreira.

Mais um descendente de surinameses na Laranja, Malen teve as primeiras experiências futebolísticas em dois clubes amadores: o VV Succes, de Hippolytushoef, e o HVV Hollandia, de Hoorn. Mas foi aos nove anos de idade que o nativo de Wieringen começou a ter coisa séria nos campos: foi nessa idade que Malen foi levado para o Ajax, na famosa De Toekomst ("O Futuro", em holandês), a escola de formação de jogadores nas categorias de base.

Quando criança, Malen (sétimo sentado, da esquerda para a direita) foi da base do Ajax. E foi colega de um tal De Ligt (segundo em pé com a camisa do Ajax, da esquerda para a direita) (ajax.nl)

E já no Ajax Malen começou a chamar a atenção, mostrando alguma habilidade e alguma velocidade com a bola nos pés, no meio da área, atacando. No clube de Amsterdã, foi titular time após time nas categorias inferiores - tendo como colega de geração e equipes, inclusive, um garoto loiro e até gordinho chamado Matthijs de Ligt. Em 2014, o atacante figurava numa seleção de base holandesa pela primeira vez. Aliás, as primeiras vezes: foram cinco jogos pela seleção sub-15 (um gol), e outros cinco pela seleção sub-16.

Tudo isso bastava para Malen ser considerado um dos adolescentes mais promissores que o Ajax formava, no meio da década passada. Tão promissor que nem ficou em Amsterdã: bem que o clube quis mantê-lo, mas o atacante se encantou com a proposta do Arsenal - clube que tivera, afinal, Thierry Henry e Dennis Bergkamp, ídolos confessos de Malen na infância (Bergkamp, inclusive, o treinara na base do Ajax). E em 2015, muito antes de virar profissional de vez, o jovem se transferiu para os Gunners.

Antes mesmo de chegar à fase adulta da carreira, Malen já causou boa impressão no Arsenal (Getty Images)

Escalado alternadamente em vários times de base do Arsenal, Malen não só já entrou direto para o Campeonato Inglês Sub-23 (em 2015/16, foram 11 jogos e 4 gols), como também participou da campanha do time sub-19 na Liga Jovem da UEFA. No final daquela temporada, foi crescendo de importância. Defendendo a Holanda, também já começava a virar habitual nas seleções de base: era seu momento na equipe sub-17 da Laranja - Malen disputou duas Euros seguidas da categoria, em 2015 (como reserva) e 2016 (titular na campanha que levou os neerlandeses às semifinais).

E o caminho de Malen no Arsenal começava a se abrir. Pelo sub-18 do Arsenal, titularidade bem mais frequente, e uma excelente média de meio gol por jogo na temporada 2016/17 - 18 jogos pela liga inglesa da categoria, nove gols. Pelo sub-23, também na Premier League, foram 11 jogos e três gols. A qualidade na finalização e a velocidade na ponta-esquerda começou a abrir espaço no grupo principal do Arsenal: na pré-temporada para 2017/18, o atacante foi incluído na viagem dos Gunners à China. 

Mas o passo definitivo de Malen para a fase principal na carreira não seria em Londres. Seria em Eindhoven: o PSV ousou, repatriando Malen do Arsenal em agosto de 2017, numa transferência que causou até certo rumor nos Países Baixos - quando nada, porque se tratava de um originado no Ajax. Bastou o atacante começar a ter espaço no time B dos Boeren, que as coisas aconteceram: Malen ainda iniciou a temporada 2017/18 no banco do Jong PSV, mas o meio do campeonato da segunda divisão lhe deu uma sequência notável. Entre a 14ª e a 18ª rodadas, foram sete gols do atacante - sem contar um pela Liga Jovem da UEFA, também pelo PSV. 

Depois dessa sequência, Malen não só virava titular absoluto do time B, como também passou a frequentar o banco de reservas do time principal - pelo qual estreou nos 4 a 0 contra o Zwolle, pela 21ª rodada do Campeonato Holandês que o PSV ganharia. Terminou a segunda divisão holandesa com 13 gols em 22 jogos, marca que fez dele goleador do Jong PSV em 2017/18. Em termos de seleções de base, o atacante começou 2018 na equipe sub-19... e terminou o ano já chamado para a sub-21, a Laranja Jovem, último estágio antes da principal.

E a temporada 2018/19 serviu para Malen ganhar o espaço definitivo no PSV. Podia até ficar na reserva de Gastón Pereiro, Hirving Lozano e Steven Bergwijn, habituais pontas no time de Eindhoven, mas sempre entrava: dos 34 jogos do Campeonato Holandês, entrou em 31, ainda que começando na reserva em 25 desses 31. Tudo bem: Malen já conseguiu marcar dez gols na Eredivisie, e ainda deu passes para quatro. Também participou dos seis jogos do PSV na fase de grupos da Liga dos Campeões. E deixou claro: bastava um dos concorrentes dar espaço, que ele tomaria a posição.

Malen virou protagonista no PSV em 2019. Provou merecer com atuações como contra o Vitesse, em 2019/20: cinco gols, 5 a 0 do time de Eindhoven (BSR Agency)

O espaço surgiu com as saídas de Lozano para o Napoli, e de Luuk de Jong para o Sevilla ao fim da temporada 2018/19. Malen começou 2019/20 como titular do PSV. Fez o possível na eliminação dos Boeren na fase de grupos da Liga Europa: quatro jogos, três gols. Mas foi o que fez naquela primeira metade de Campeonato Holandês que lhe credenciou de vez - mais precisamente, na sexta rodada da Eredivisie: em 14 de setembro de 2019, PSV 5 a 0 no Vitesse, os cinco de Malen. Na rodada seguinte, fez gol no 1 a 1 do clássico contra o PSV. Foi tudo: na convocação seguinte de Ronald Koeman para a seleção principal, o atacante estava presente. E no primeiro jogo pela Laranja, Malen aproveitou a chance do melhor jeito possível: contra a Alemanha, fora de casa, nas eliminatórias da Euro, o jovem substituiu Denzel Dumfries, jogou como ala direito... e fez o último gol nos 4 a 2 sobre os alemães, em Dusseldorf, das grandes atuações da Laranja nos últimos anos. 

Malen faria mais três partidas pela Holanda em 2019. Sem Lozano nem Luuk de Jong, começava a jogar mais no meio da área do que na ponta - o que potencializava sua capacidade de finalização. Mas o caminho do atacante, com 14 jogos e 11 gols na Eredivisie, parou antes mesmo que a pandemia parasse com tudo. Uma torção no joelho, sofrida contra o Feyenoord, na 17ª rodada do Campeonato Holandês, em dezembro de 2019, levou ao diagnóstico temido: rompimento do ligamento cruzado anterior. Seis meses fora para Malen. Dificilmente ele iria à Euro... se a Euro fosse em 2020.

Uma lesão no joelho quase tirou Malen da Euro 2020+1. Veio o adiamento... (VI Images)

Quis a pandemia que não fosse assim. Malen pôde se recuperar sem a pressão de uma competição para disputar. Quando voltou aos campos, em agosto de 2020, voltou direto para a titularidade no PSV. Formando boa dupla de ataque com o israelense Eran Zahavi, teve desempenho razoável na Liga Europa 2020/21 (cinco gols em oito jogos). Mas foi o que fez na Eredivisie daquela temporada que seguiu deixando Malen no radar da seleção: 32 partidas, 19 gols - o que fez dele vice-goleador do campeonato -, oito assistências. Velocidade na ponta, na área, no recuo para buscar a bola e iniciar jogadas: tais qualidades bastaram para o atacante figurar nas rodadas iniciais das eliminatórias da Copa (fez gol nos 7 a 0 sobre Gibraltar). Mais do que isso: bastaram para que ele chegasse à Euro 2020+1.

No torneio continental, Malen começou na reserva, pela mudança tática por que a Holanda passou antes dela começar. Nem por isso ficou de lado na fase de grupos: jogou os acréscimos nos 3 a 2 da estreia contra a Ucrânia, entrou aos 64' nos 2 a 0 contra a Áustria... e com a Laranja classificada às oitavas de final por antecipação, o atacante começou jogando contra a Macedônia do Norte. Não só teve ótima atuação nos 3 a 0, com dois passes para gol, como se entendeu muito bem com Memphis Depay. Bastou para que ele ganhasse a titularidade nas oitavas de final da Euro, contra a República Tcheca (Tchéquia). Poderia ter sido caminho aberto para a consagração, mas o gol perdido no começo do segundo tempo, quando estava livre frente ao goleiro Tomas Vaclik, virou um dos símbolos da derrota por 2 a 0 e da eliminação holandesa na Euro.

Malen começou como reserva na Euro, virou titular e sonhou em roubar a cena. Uma chance perdida contra a República Tcheca, na eliminação, se impôs como dura realidade (Maurice van Steen/ANP Sport/Getty Images)

Pelo menos, o consolo foi generoso: as boas atuações no PSV e as aparições razoáveis na Euro fizeram Malen merecer a aposta do Borussia Dortmund, que o contratou no final de julho de 2021. Mesmo sem conseguir se tornar destaque, numa temporada difícil dos aurinegros, o atacante holandês até ocupou seu espaço, atuando pela ponta-esquerda: foram 27 jogos e cinco gols pela Bundesliga 2021/22, mais três gols em seis jogos na Liga dos Campeões (Dortmund eliminado ainda na fase de grupos), e um gol na Liga Europa. Valeu para manter o lugar habitual nas convocações da Holanda sob Louis van Gaal: Malen esteve em quatro partidas das eliminatórias da Copa do Mundo. Pode ter ficado na reserva, mas quando entrou, foi útil: dois gols na campanha de qualificação. E no começo de 2022, seguiu no radar da Laranja: nos dois amistosos de março, lá estava Malen, contra Dinamarca (foi titular) e Alemanha (veio da reserva).

Malen começou no Borussia Dortmund com seu espaço garantido entre os titulares por lá (Alex Grimm/Getty Images)

Malen poderia até ter disputado mais firmemente a posição no ataque da Holanda com Steven Bergwijn. ao longo de 2022. Aí começaram as lesões. Primeiro, uma distensão muscular sofrida em abril, que o tirou da reta final da temporada 2021/22 - e dos jogos da Holanda em junho daquele ano, na Liga das Nações. Recuperado, voltou para a temporada 2022/23 sendo titular do Borussia Dortmund. Porém, um rompimento fibrilar - mais uma questão nos músculos -, no meio de agosto, deixou-o mais um mês fora dos campos. O atacante voltou, mas, fora da reta final dos grupos da Nations League, ficava difícil imaginá-lo convocado para a Copa do Mundo de 2022. E de fato, por mais que tenha figurado na pré-convocação para o Mundial, Malen ficou mesmo ausente na lista dos 26 convocados. Viu pela tevê os jogos no Catar.

Trauma? Nada disso. Enfim livre das lesões na temporada 2022/23, Malen embalou pelo Dortmund. Seguiu como titular na virada de 2022/23, jogando com muita movimentação pelas duas pontas, o atacante marcou 9 gols naquele Campeonato Alemão - simplesmente o goleador dos aurinegros naquela temporada da Bundesliga, ao lado de Julian Brandt e de Sébastien Haller. Só mesmo a traumática perda do título, em casa, numa "Muralha Amarela" toda lotada, em derrota para o Mainz na última rodada, impediu que a temporada fosse ótima para Malen.

Malen foi um dos destaques do Borussia Dortmund na temporada 2022/23. Mas faltou o título alemão... (Gerrit van Keulen/ANP/Getty Images)

Até porque a ausência na Copa de 2022 não freou nem um pouco seu caminho na seleção. Com a chegada de Ronald Koeman, no princípio de 2023, mais sua boa fase no Borussia Dortmund, sua presença nas convocações da Laranja foi retomada. Vindo do banco, Malen já começou participando dos jogos contra França e Gibraltar, nas eliminatórias da Euro 2024, em março de 2023. No meio daquele ano, nas fases finais da Liga das Nações, com Memphis Depay ausente, começou como titular da Laranja na semifinal contra a Croácia - e ainda abriu o placar dela, no primeiro tempo. Porém, quando foi substituído por Steven Bergwijn, aos 30 minutos do segundo tempo, a Laranja já perdia por 2 a 1 (perderia por 4 a 2, na prorrogação). Na derrota para a Itália, na decisão do terceiro lugar, Malen sairia logo no intervalo.

Mas a temporada 2023/24 manteve Malen em boas condições. No clube, foi ainda melhor: foram 13 gols (e até passe para outro) pelo Borussia Dortmund no Campeonato Alemão - e mais um nos oito jogos que fez pelo Dortmund na Liga dos Campeões, gol inclusive marcado contra o PSV que conheceu bem, no 1 a 1 da ida das oitavas de final. E pela seleção dos Países Baixos, Malen só ficaria de fora de um jogo entre 2023 e 2024. Veio mais do banco de reservas (sete vezes) do que como titular, é verdade. Mas começou 2024, ano de Eurocopa, com tudo: fez gol nos 4 a 0 sobre a Escócia, no amistoso disputado em março. Garantiu presença entre os 26 convocados da Holanda para a Euro. No último amistoso antes do torneio europeu, mais um gol dele, nos 4 a 0 na Islândia. Finalmente, nos quatro jogos que fez pela Laranja na Euro, momentos diversos: se cometeu o gol contra que abriu o placar na derrota para a Áustria (3 a 2), quando começou como titular, o atacante veio a campo no intervalo das oitavas de final, contra a Romênia. E com dois gols, concretizou no placar de 3 a 0 a superioridade da Laranja naquele jogo contra os romenos. No todo, Malen saiu da Euro deixando imagem razoável.

Na Euro 2024, de volta a um grande torneio pela Holanda, Malen começou mal, mas melhorou - e teve nos dois gols contra a Romênia, pelas oitavas, a mostra disso (ProShots/Getty Images)

Contudo, na temporada 2024/25, Malen começou a perder espaço no Borussia Dortmund. Mesmo sem problemas físicos, já começou a se alternar entre campo e banco, fez apenas 14 jogos pelo Campeonato Alemão (3 gols), 5 jogos na Liga dos Campeões (2 gols)... nada que tirasse seu espaço nas convocações holandesas no segundo semestre de 2024 - entrou em cinco dos seis jogos da fase de grupos da Liga das Nações. Nem no primeiro semestre de 2025: o atacante saiu do banco para o empate da volta das quartas de final da Nations League (3 a 3 contra a Espanha - a minutos do fim da prorrogação, perdeu grande chance de gol, e ainda perdeu sua cobrança na decisão perdida). Porém, mesmo com a tranquilidade mantida em termos de Holanda, Malen decidiu mudar de clube para manter o nível competitivo e o ritmo: antes que perdesse mais espaço no Dortmund, tomou o caminho do Aston Villa, para a temporada 2025/26.

Malen tinha seu espaço no Aston Villa. Mas queria mais, e por isso deixou o clube inglês (Visionhaus/Getty Images)

Pelos Villans, mais no meio do ataque do que nas pontas, Malen também colaborou no segundo semestre de 2025. 21 jogos pela Premier League (4 gols), 4 gols também feitos pela Liga Europa... e o bom momento também seguiu ao longo das Eliminatórias da Copa do Mundo. Se ainda começou como reserva - mesmo já fazendo dois gols nos 8 a 0 em Malta -, o atacante se tornou titular na reta final da qualificação. E aproveitou as chances: com velocidade e bom entrosamento com Memphis Depay, deixou seu gol nos 4 a 0 na Finlândia. Finalmente, coroou tudo nos 4 a 0 na Lituânia, na última rodada, marcando dois gols e ajudando a Laranja a assegurar um lugar na Copa de 2026.

Exatamente com o objetivo de manter o embalo na seleção, Malen quis ter o embalo em clubes também: sem a titularidade garantida no Aston Villa, apostou num empréstimo para a Roma, em janeiro deste 2026. Aposta? Malen já começou se pagando: estreando contra o Torino, pela 21ª rodada do Campeonato Italiano, foi titular e fez um gol. Mais alguns dias, Roma 2 a 0 no Cagliari (24ª rodada): dois gols do holandês. No jogo seguinte pela Serie A, 2 a 2 com o Napoli: os dois gols romanistas saíram dos pés do atacante (usando a camisa 14 da Roma). Era só o começo de uma trajetória irresistível de Malen na reta final do Italiano: em 18 jogos, foram 14 gols. Vice-artilheiro da Serie A, Malen "impôs" a contratação definitiva que aconteceu, na véspera da convocação.

Malen chegou à Roma em janeiro de 2026. Pelo goleador que foi no returno da temporada, a torcida desejou que isso tivesse ocorrido bem antes (lianton/Mondadori Portfolio/Getty Images)

Na seleção holandesa, com Memphis Depay machucado, Malen começou como titular nos amistosos de março, contra Noruega e Equador. E finalmente, estará na primeira Copa do Mundo de sua carreira. Seja na ponta-direita - o mais provável, atualmente -, seja no meio do ataque, é o holandês do setor que chega em melhor momento. Melhor para ele, que tem no Mundial a chance de deixar outras memórias vestindo laranja. Memórias mais alegres do que aquele gol perdido nas oitavas de final da Euro 2020+1, as chances perdidas na Liga das Nações...

(Marcel ter Bals/DeFodi Images/Getty Images)