segunda-feira, 7 de setembro de 2020

É boa mas não são duas

A Itália foi bem mais rápida, assumiu o destaque... e deixou a Holanda de Van Dijk para trás, bem para trás (European Press Agency)

A seleção (masculina) da Itália vive sob desconfiança constante, desde a ausência na Copa de 2018. A da Holanda (Países Baixos) também, após as ausências na Euro 2016 e também no Mundial de dois anos atrás. Mas a Laranja conseguiu minorar as desconfianças de lá para cá, porque tem uma boa geração que desabrochou: Virgil van Dijk, Matthijs de Ligt, Frenkie de Jong, Memphis Depay, Steven Bergwijn... só que a Itália também tem uma geração capaz de fazer uma seleção decente. E a Azzurra lembrou isso, da pior maneira possível para os holandeses, sobrepujados até com facilidade no 1 a 0 transalpino em Amsterdã, na segunda rodada da Liga das Nações da UEFA.

Para a partida, o técnico Dwight Lodeweges fez uma alteração pedida por muitos: enfim, Donny van de Beek começaria um jogo como titular, com Georginio Wijnaldum destinado para a ponta-direita, "sacrificando" Steven Bergwijn, iniciando entre os reservas. Poderia ter sido ofensivamente atraente... se desse certo. Porque a Itália começou a partida na Johan Cruyff Arena muito bem definida no que desejava fazer. Primeiro, manteve mais a posse de bola. Se tinha mais a bola, trocava mais passes. E se trocava mais passes, não só impedia os Países Baixos de jogarem como gostam (principalmente em relação a destaques neerlandeses, como Frenkie de Jong), mas também conseguia atacar mais. E estar mais atenta às falhas holandesas - como a que Joël Veltman cometeu na saída de bola, aos 12', dando ao meio-campista Nicolò Barella espaço para dominar e arrematar, para fora (com desvio). Barella, por sinal, já despontava como destaque, chegando com velocidade ao ataque.

Mais perigoso ainda era ver que, na esquerda, com Van de Beek e Wijnaldum - ou mesmo Marten de Roon no lugar de qualquer um dos dois - tendo de acompanhar Manuel Locatelli. Com dois meio-campistas perdendo na marcação e Hans Hateboer mal escalado (o ala da Atalanta vai bem melhor no apoio do que na marcação, coisa que teria de fazer como lateral), havia espaço à farta na esquerda para a Itália atacar. E a dupla Leonardo Spinazzola-Ciro Immobile percebeu isso. Spinazzola, aos 17', cruzando para Nicolò Zaniolo tentar um gol de voleio (para fora); Immobile, aos 19', quando chutou cruzado, perto do gol.

Sem espaço nem tempo para impor a pressão na marcação nem para atacar, a Holanda estava presa. No primeiro tempo, só um lance digno de nota - aos 32', quando Wijnaldum recebeu de Nathan Aké, trouxe a bola até a entrada da área e chutou rasteiro, para Gianluigi Donnarumma pegar. De resto, a superioridade da Itália era clara. Lorenzo Insigne se uniu a Spinazzola, Barella e Immobile como destaque, chutando novamente perto do gol, aos 35'. Nem mesmo a lesão (aparente e lamentavelmente grave) no joelho de Zaniolo, forçando a primeira alteração da Azzurra já aos 42', minorou o ânimo e a superioridade italianos. Que chegaram ao 1 a 0 no fim do primeiro tempo, em jogada que exemplificou como os dois times estavam em velocidades diferentes: a defesa holandesa foi totalmente envolvida pela troca de passes de Immobile e Insigne, e Aké só viu Barella subir sozinho na pequena área para fazer 1 a 0, de cabeça.

Memphis Depay tentou, como sempre tenta. Mas a defesa italiana se aguentou bem (Pro Shots)


Pelo menos no começo do segundo tempo, a Itália continuou francamente superior. Teve pelo menos duas chances boas para ampliar. Uma por erro holandês, aos 53', quando Hateboer errou na saída de bola e Immobile dominou (Hateboer conseguiu voltar à área a tempo e desarmou o "Chuteira de Ouro" na hora certa); outra por mérito italiano, momentos depois (Insigne arriscou chute de fora, e Cillessen espalmou bem). Até que os italianos cansaram, passando a apostar mais nos contra-ataques - natural, num cenário de longa inatividade.

Só por isso a Holanda melhorou. Já aos 55' o empate poderia ter vindo, num desvio de Van de Beek espalmado por Donnarumma. Depois, tentando reeditar a escalação e o jeito de jogar contra a Polônia, Bergwijn veio ao lugar de Van de Beek (meio despercebido neste jogo). Memphis Depay seguiu chamando a responsabilidade, com domínios e chutes (como aos 61', que passou por cima, perto do travessão). Mas a criatividade da Holanda não ia muito longe: nem a entrada de Denzel Dumfries na lateral direita - um pouco melhor do que Hateboer -, nem a força de Luuk de Jong no jogo aéreo, nem a já previsível ida de Virgil van Dijk ao ataque no "abafa final", nada disso perturbou a vitória da Itália. Que até perdeu chances de ampliar - como aos 67' e nos acréscimos, ambas com Moise Kean.

Porque a Itália pode até ter empatado contra a Bósnia, mas tem um time tão promissor quanto a Laranja. Que é capacitada, mas ainda não é uma seleção tão forte quanto possa parecer. Trocando em miúdos: a Holanda é boa, sim. Mas não são duas.

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 1

Holanda 0x1 Itália
Data: 7 de setembro de 2020
Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Árbitro: Felix Brych (Alemanha)
Gols: Nicolò Barella, aos 45'  + 1

Holanda
Jasper Cillessen; Hans Hateboer (Denzel Dumfries), Joël Veltman, Virgil van Dijk e Nathan Aké (Luuk de Jong); Marten de Roon, Donny van de Beek (Steven Bergwijn) e Frenkie de Jong; Georginio Wijnaldum, Memphis Depay e Quincy Promes. Técnico: Dwight Lodeweges

Itália
Gianluigi Donnarumma; Danilo D'Ambrosio, Giorgio Chiellini, Leonardo Bonucci e Leonardo Spinazzola; Nicolò Barella, Jorginho e Manuel Locatelli (Bryan Cristante); Nicolò Zaniolo (Moise Kean), Ciro Immobile e Lorenzo Insigne (Federico Chiesa). Técnico: Roberto Mancini

sábado, 5 de setembro de 2020

Guia da Eredivisie feminina: otimismo, apesar de tudo

Van Veenendaal: a melhor goleira do mundo em 2019 voltou à Holanda. E seu retorno é o grande símbolo da força paulatina que a Eredivisie das mulheres ganha (Divulgação/PSV)

Tristeza, pelas vidas que se foram. Angústia, pelas incertezas que o futuro oferece (será mesmo que eventos adiados para 2021 poderão ocorrer?). Até raiva, pelos planos feitos e deixados de lado. A pandemia da COVID-19 trouxe um cenário de desesperança por vários lugares em todo mundo. Até por isso, tornou-se cada vez mais desejável saber de histórias otimistas, que mostrem que nem tudo está perdido, que não é pelas barreiras da pandemia que se tornou impossível fazer planos e olhar esperançosamente para o futuro. Pois bem: uma dessas histórias começará a se concretizar a partir deste domingo, quando começa mais uma edição do Campeonato Holandês de futebol feminino - com direito a clássico, entre Ajax e Twente, às 7h15 de Brasília. O regulamento da Vrouwen Eredivisie é o já habitual: oito times jogam 14 rodadas regulares, e após elas, em março de 2021, a liga é dividida em dois quadrangulares: os quatro melhores colocados disputam o título, os outros quatro apenas definem posições, sem rebaixamento.

Ajax e Twente fazem o clássico. Mas se há um clube que simboliza este otimismo com que a Vrouwen Eredivisie começa, ele ficará de fora dos campos nesta primeira rodada: o PSV. A equipe feminina de Eindhoven deveria jogar contra o VV Alkmaar, mas alguns casos de COVID-19 no grupo forçaram a quarentena das jogadoras e da comissão técnica - e, consequentemente, o adiamento da estreia. Sem problemas: a ambição dos Boeren supera quaisquer percalços. Para começo de conversa, o PSV liderava a fase de classificação da temporada 2019/20 antes da interrupção do campeonato feminino, pela pandemia. Além disso, exatamente por ser líder, recebeu a vaga direta na Liga dos Campeões das mulheres em 2020/21. Ainda em 2019, veio a agradável notícia de que o Philips Stadion sediará a final da Women Champions League, daqui a três anos.

Esses três fatores aumentaram a vontade dos Eindhovenaren em, cada vez mais, se consolidarem como uma força do futebol feminino nos Países Baixos. E a vontade foi confirmada com duas contratações que mostraram relativa força nos investimentos na modalidade. Apesar de já ter certo espaço no Atlético de Madrid, a goleira Sari van Veenendaal andava saudosa do país natal, onde ficou a família. O PSV chegou com a proposta. Bastou para que Van Veenendaal, eleita a melhor goleira do mundo em 2019 pela FIFA, optasse pelo retorno à Holanda. E a titular absoluta da seleção vice-campeã mundial voltou não só pelas razões familiares: ser um dos símbolos das Leoas Laranjas também pesou, como reconhece a ex-jogadora Kirsten van de Ven, diretora do futebol feminino na federação holandesa: "De fato, é um impulso para a Eredivisie".

E o fortalecimento do PSV não ficou só na vinda de Van Veenendaal. Embora não seja convocada para a seleção feminina da Holanda desde 2017 (começou a Euro como capitã, mas se lesionou, se desentendeu com a técnica Sarina Wiegman, e perdeu espaço), a zagueira Mandy van den Berg é vista como uma das jogadoras mais firmes do futebol holandês, com espírito nato de liderança e força no miolo de zaga. Ainda recuperando a forma no Real Betis espanhol após séria lesão no joelho, Van den Berg estava disposta a negociações. O PSV se atraiu, sondou... e contratou a zagueira. Chegando como um dos pilares do time que a equipe de Eindhoven quer formar, Van den Berg voltou também otimista, falando ao diário Algemeen Dagblad: "As condições estão muito melhores do que eram quando eu comecei, no ADO Den Haag. Agora, não é mais o caso de começar no futebol feminino e, depois, não poder dar o próximo passo na Holanda. Há alguns bons times agora, e essa é a base para um bom campeonato".

Van den Berg: outro retorno ao PSV, que sonha em fazer bonito nos próximos anos. Quem sabe, chegar à final da Liga dos Campeões que Eindhoven sediará em 2023 (Divulgação/PSV)

Claro que, se vindas como as de Van Veenendaal e Van den Berg são notáveis, o PSV também teve perdas a lamentar: a atacante Katja Snoeijs, destaque ofensivo dos Boeren nos últimos anos, tomou o caminho do Bordeaux francês. Mas, em geral, a base à disposição do técnico Sander Luiten continua a mesma da temporada anterior, com nomes conhecidos como a zagueira Aniek Nouwen (esta, pouco a pouco ganhando espaço nas convocações da seleção feminina), a ala Jesslyn Kuijpers e a atacante Joëlle Smits.

A preparação ambiciosa do PSV acabou virando o estopim do fortalecimento de outro grande favorito na Vrouwen Eredivisie. Sem ser campeão desde 2016/17, o Ajax passou ainda mais incólume pelas transferências. E muitas jogadoras com generosa experiência na seleção seguem em Amsterdã: a goleira Lize Kop, a defensora Kelly Zeeman, a lateral direita Liza van der Most, a volante Victoria Pelova, as atacantes Ellen Jansen e Vanity Lewerissa... e mais um retorno conhecido pelo título europeu de 2017 e pelo vice-campeonato mundial em 2019 com a seleção: a zagueira Stefanie van der Gragt, de volta a Amsterdã após dois anos (mais lesionada do que jogando, é verdade) no Barcelona. Conhecida pela força física na defesa, Van der Gragt foi mais uma a ser otimista sobre seu retorno: "Acho que a nossa volta diz algo sobre a ambição que a Eredivisie tem em fazer algo bonito aqui".

Após dois anos de (e no) Barcelona, Van der Gragt retorna ao Ajax: a zagueira titular das Leoas Laranjas amplia a experiência no time feminino (Divulgação/Ajax)

Mas se o PSV se notabiliza pelos reforços tremendos e o Ajax traz a fama, o último campeão holandês no futebol de mulheres foi o Twente, em 2018/19 (considerando que 2019/20 foi liga encerrada sem campeã). E a equipe de Enschede, carregando talvez a maior tradição em investimentos no futebol feminino dentro da Holanda, pouco a pouco avança. Bem ou mal, chegou novamente às oitavas de final da Liga dos Campeões feminina, sendo derrotada pelo Wolfsburg, futuro vice-campeão. E os Tukkers, treinados pelo alemão Tommy Stroot, seguem com um time que mescla bem experiência e juventude. Principalmente no ataque: lá há Renate Jansen, convocada para a Holanda nas duas Copas do Mundo em que as Leoas Laranjas participaram, e há a jovem Fenna Kalma, pouco a pouco entrando nas convocações de Sarina Wiegman.

Se os três favoritos ao título são Ajax, PSV e Twente, há outros times que se valem da tradição. Como o Heerenveen: embora fragilizado pelas más condições financeiras - o clube da Frísia chegou a anunciar o fim da equipe feminina em 2019, mas investimentos de empresários da cidade mantiveram-na -, o time que revelou Vivianne Miedema tem mais uma jovem promessa no ataque: Kirsten van de Westeringh, já titular na seleção sub-19 da Holanda, vinda da base do Ajax. Também regular no futebol feminino, o ADO Den Haag também chega com fama de ser osso duro de roer. Já os outros três participantes do Campeonato Holandês - Zwolle, o amador VV Alkmaar e o Excelsior (agora sem a parceria com o Barendrecht) - devem fazer figuração.

No Twente (tradicional no futebol masculino), Fenna Kalma é a nova promessa de atacante holandesa (BSR Agency)

No entanto, melhor ainda do que qualquer reforço é o investimento que a federação holandesa decidiu fazer em seu campeonato de mulheres. Uma das patrocinadoras da seleção, a seguradora IMG, fez parcerias com os oito times do torneio, ajudando nos custos de manutenção das equipes (e até nos investimentos). A FOX Sports holandesa, exibidora exclusiva da Eredivisie masculina, também mostrará os jogos das mulheres - e a NOS, emissora pública, fará um "resumo da rodada" nas noites de domingo. Em matéria de divulgação do campeonato, foi criado um novo logotipo - e um evento de apresentação teve figuras como Daniëlle van de Donk, Dominique Janssen e Merel van Dongen gravando vídeos de apoio.


Claro, o cenário pandêmico pode fazer com que todo esse apoio que o futebol feminino vem ganhando vire cinzas. Mas, no momento, estão corretas as palavras daquela que talvez seja o maior símbolo da força que a modalidade ganhou na Holanda (Países Baixos) desde 2017: Sarina Wiegman, ainda treinadora da seleção. "A preocupação inicial não deve ser com que todos os clubes tenham um time feminino, mas que o nível dos clubes agora representados seja maior. E as contratações que vieram se encaixam bem nisso". 

É certo que a Vrouwen Eredivisie não é forte quanto a Frauen-Bundesliga alemã, a Women Super League inglesa ou a Division 1 Féminine francesa. Ainda assim, os passos dados fazem crer que, de fato, a Holanda chegou ao futebol feminino para ficar. Na seleção e também nos clubes. O que aumenta os sonhos: já há quem pense em Daniëlle van de Donk no PSV para que torce (a meio-campista do Arsenal foi embaixadora da campanha vitoriosa de Eindhoven para sediar a final da Champions League em 2023), em Jackie Groenen vestindo a camisa 14 de seu ídolo maior Johan Cruyff no Ajax, em Vivianne Miedema voltando para jogar no seu Feyenoord, que começará equipe feminina profissional em 2021. Todas elas servindo de exemplo para as mais novas, como enfatizou Kirsten van de Ven, a diretora da federação: "Precisamos criar novas estrelas, não esperar que as antigas voltem".

Valorizando o passado, com olhos otimistas no futuro. Quem disse que não se pode ficar feliz em 2020?

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

O espaço demorou, mas apareceu

Sempre superior à Polônia, a Holanda só precisava de espaço para o gol. Ele apareceu, Bergwijn aproveitou, vitória na Liga das Nações (ANP)

Era possível dizer: mesmo com o abalo inegável da saída de Ronald Koeman para o Barcelona, a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) estava tranquila para começar a Liga das Nações. Como se fosse um sinal da tranquilidade após o solavanco, o técnico interino Dwight Lodeweges preferiu começar com uma escalação muito semelhante à normalmente usada por seu antecessor, sem dar chances a estreantes como Perr Schuurs e Owen Wijndal. E de certa forma, a Laranja foi tranquila em sua estreia, contra a Polônia. Só o espaço para a finalização demorou, mas logo apareceu. E foi aproveitado, com a vitória por 1 a 0 que já deixa a seleção na liderança do seu grupo, pelo empate entre Bósnia e Itália - adversária da próxima segunda.

A rigor, nenhuma das duas seleções buscou desesperadamente o gol, na Johan Cruyff Arena - seria difícil, com jogadores voltando de uma longa pausa (para a seleção neerlandesa, foram 290 dias sem jogar - desde a Segunda Guerra Mundial a espera não era tão longa). Porém, já era notável que, para a Holanda, bastava achar o espaço para finalizar. Porque, posse de bola e habilidade, ela tinha. Nas boas jogadas de Memphis Depay, muito bom como ponta-de-lança; no domínio de Frenkie de Jong começando as jogadas, com bons passes; nas aparições úteis de Nathan Aké e Hans Hateboer, pelas laterais.

Mas se Memphis comandava o ataque, a movimentação de Quincy Promes e Steven Bergwijn para tentar criar o espaço também era necessária para iludir a defesa polonesa. E esta só deu frutos aos 21 minutos, quando Depay passou a Promes, e este chutou (fraco) para fora. À Polônia, só restavam os raros espaços para contra-ataque, diante de uma defesa bem postada - Joël Veltman cometeu um erro no primeiro tempo, mas sem grandes consequências, enquanto Virgil van Dijk manteve a segurança de sempre nas antecipações. Fazer Jasper Cillessen trabalhar, os poloneses só fizeram aos 32', num rápido contragolpe finalizado por Krzysztof Piatek, de fora da área, espalmado pelo goleiro holandês - ainda houve um chute de Piotr Zielinski, aos 13', para fora.

Junto a Frenkie de Jong, Memphis Depay fez o que já fazia sob Ronald Koeman: comandou as ações ofensivas da seleção (Pro Shots)

Se nem a movimentação de Promes e Bergwijn criava espaços, se nem o ímpeto maior dos holandeses nos desarmes (em todo o jogo foram 11, contra 3 da Polônia) ajudava, só mesmo a qualidade dos destaques do dia fizeram o gol passar perto. Foi na bela jogada que fechou o primeiro tempo, aos 45': Frenkie de Jong começou com um tremendo corta-luz, e se movimentou. Memphis Depay dominou, tocou por cima, e De Jong ajeitou na área antes de chutar na trave. Já era sinal de que o espaço, uma hora, apareceria.

Segundo tempo iniciado, o espaço poderia ter aparecido aos 50' (Memphis Depay só não finalizou o cruzamento de Bergwijn para o gol porque teve pouco ângulo). Ou aos 58', quando Frenkie de Jong lançou, Memphis dominou na esquerda da grande área, mas completou chutando em cima do goleiro Wojciech Szczesny. Mas, enfim, aos 61', ele apareceu, e a Holanda fez 1 a 0, numa jogada que resumiu suas qualidades na partida: o passe preciso de Frenkie de Jong, o bom toque de Hans Hateboer, ajeitando para Bergwijn ter o gol vazio à sua frente e completar para as redes.

E o jogo poderia ter acabado aí. Porque a Holanda, mesmo sem ter grandes chances, dominou plenamente a partida. Mesmo recuando mais, até permitindo os contra-ataques da Polônia vez por outra, os adversários fracassaram (Cillessen não teve de defender uma só bola na etapa final). Van Dijk resumiu bem no pós-jogo: uma vitória adulta, de um time que controlou bem a partida. Será preciso manter essa maturidade na próxima segunda-feira, contra a Itália. Porque aí, sim, o desafio será maior. Contra a Polônia, foi só questão de ter paciência.

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 1

Holanda 1x0 Polônia
Data: 4 de setembro de 2020
Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Árbitro: Georgi Kabakov (Bulgária)
Gols: Steven Bergwijn, aos 61'

Holanda
Jasper Cillessen; Hans Hateboer, Joël Veltman, Virgil van Dijk e Nathan Aké; Marten de Roon, Frenkie de Jong e Georginio Wijnaldum; Quincy Promes (Luuk de Jong), Memphis Depay e Steven Bergwijn (Donny van de Beek). Técnico: Dwight Lodeweges

Polônia
Wojciech Szczesny; Tomasz Kedziora, Kamil Glik, Jan Bednarek e Bartosz Bereszynski; Sebastian Szymanski, Grzegorz Krychowiak, Mateusz Klich e Kamil Jozwiak (Kamil Grosicki); Piotr Zielinski (Jakub Móder); Krzysztof Piatek (Arkadiusz Milik). Técnico: Jerzy Brzeczek

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Mudou muito. Vai mudar mais?

Pelo menos nestas datas FIFA, a seleção masculina da Holanda será treinada por Dwight Lodeweges. Que terá um caminho cheio de encruzilhadas... (Pro Shots)


Quando 2020 começou, a expectativa sobre a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) residia em duas perguntas: como seria seu desempenho na Euro? E como ela conseguiria se recompor de duas prováveis ausências sentidas no ataque - Memphis Depay e Donyell Malen, ambos se recuperando de lesões graves no joelho? Amistosos contra Espanha e Estados Unidos, marcados para março, começariam a responder tais perguntas. A pré-convocação para eles já estava feita. Mas semanas antes dos jogos, a pandemia de COVID-19 eclodiu dramaticamente na Europa. E o mundo mudou. Obviamente, também mudou o cenário para a Laranja: não haveria mais amistosos, a Euro só se dará (a princípio) em 2021, e só agora a seleção de homens voltará aos campos, nas duas primeiras rodadas da Liga das Nações da UEFA, contra Polônia (nesta sexta) e Itália (na próxima segunda), ambos os jogos em Amsterdã, ambos sem público. Já eram mudanças de abalar qualquer alicerce. Mas, bem ou mal, a vida seguia para a Oranje. 

Até 14 de agosto de 2020, quando o Barcelona teve esfregada em sua cara a necessidade de mudanças dentro e fora de campo, com a goleada do Bayern de Munique, por 8 a 2, nas quartas de final da Liga dos Campeões. Era lícito e até óbvio supor: uma das tentativas de mudança do Barça seria voltar à carga para tentar tirar da seleção neerlandesa masculina seu técnico, Ronald Koeman - focado no trabalho com a Holanda, mas que sempre apregoou o sonho de treinar o time catalão onde marcara época como jogador. E surgiu aí a segunda grande mudança que balançou a Oranje. Koeman tinha em seu contrato com a federação neerlandesa uma cláusula: se o Barcelona (e só o Barcelona) chegasse com uma oferta vantajosa, ele seria liberado pela entidade sem problemas para realizar seu sonho de carreira. Antes mesmo de Quique Setién ir treinar a equipe espanhola, Koeman foi sondado, em meados de 2019: não aceitou. Já com Setién contestado, novamente foi cogitado pelo Barcelona no fim do ano passado: balançou, mas preferiu ficar na Holanda, no mínimo, até a Euro. 

O Barcelona sondou Ronald Koeman uma vez, duas vezes... na terceira vez, com as incertezas que a pandemia trouxe para o trabalho na seleção, Koeman preferiu realizar seu sonho (European Press Agency)

Chegou a pandemia. Chegou a terceira oferta do Barcelona, já após os 8 a 2 do Bayern. E às 22h50 (horário de Amsterdã) de 17 de agosto, segunda-feira, Koeman telefonou para Eric Gudde, diretor geral da federação holandesa. Segundo o jornal Algemeen Dagblad, Koeman foi direto: "Eu não vou recusar o Barcelona uma terceira vez". E a KNVB não teve muita saída, a não ser aceitar que perderia o treinador da seleção masculina. Na entrevista coletiva de apresentação, no Camp Nou, Koeman foi novamente honesto sobre os motivos da aceitação: "Muita coisa mudou no mundo. Tudo é incerto. Quem me garante que a Liga das Nações começará em setembro, ou que a Euro terá público?"

Ao mesmo tempo em que anunciava ao Algemeen Dagblad que Dwight Lodeweges, auxiliar de Ronald Koeman, seria o treinador interino contra Polônia e Itália, Eric Gudde se disse surpreso: "Eu nunca tinha me preocupado com as sondagens do Barcelona (...) Na semana anterior, ainda tínhamos nos reunido. Se o placar não tivesse sido 8 a 2 para o Bayern, mas 1 a 0 para o Barcelona com um gol em posição irregular, Koeman ainda seria o nosso técnico". Ainda assim, em geral, até pela honestidade que o treinador da seleção sempre mostrara em relação ao sonho de comandar o Barcelona, o tom geral foi de compreensão. A começar do próprio Gudde: "Respeito a decisão". Continuando até por Theo Pouw, presidente da associação de torcedores da seleção, à emissora de tevê RTL: "Eu o entendo. É seu sonho, um emprego maravilhoso. Seria egoísta querer mantê-lo".

E a aceitação seguiu na apresentação dos jogadores, nesta semana, no centro de treinamentos de Zeist. Presente na entrevista coletiva da segunda-feira passada, o capitão Virgil van Dijk foi também compreensivo: "É chato, claro. Estamos todos tristes por ver um técnico maravilhoso partir, mas desejamos o melhor a ele, de coração. Era o grande sonho dele. Nesses tempos que vivemos, com toda a incerteza do coronavírus, sem saber se a Euro acontecerá... quando uma chance dessas aparece, eu entendo". Ao lado de Van Dijk, Dwight Lodeweges - ao pé da letra, o primeiro estrangeiro a treinar a Laranja em 42 anos (apesar da família holandesa, Lodeweges nasceu no Canadá) - também fechou o "assunto Koeman" com serenidade: "É assim que o mundo do futebol funciona. Ele já tinha dito 'não' duas vezes ao Barcelona, mas na terceira, é hora de entendê-lo".

Só as mudanças trazidas pela pandemia e pela troca inesperada de técnicos já fariam os treinos da Holanda serem vistos com maior curiosidade. Eis que a convocação de 25 jogadores - e o que ocorreu após ela - ampliaram essa curiosidade. Até porque Lodeweges já sinalizou: fará mudanças em relação à escalação habitual que Koeman fazia. Algumas delas já seriam obrigatórias, com as duas ausências mais sentidas da convocação: Matthijs de Ligt, que operou o ombro e só volta em três meses, e Daley Blind, novamente às voltas com dúvidas sobre o rumo da carreira após mais um susto que o coração lhe causou no Ajax.

Sem De Ligt, De Vrij teria a grande chance para mostrar talento entre os titulares da zaga. Uma lesão impertinente o impedirá (Divulgação/KNVB)

Com isso, certamente seriam titulares tanto Nathan Aké - atraindo grandes expectativas na temporada, ao se transferir para o Manchester City - quanto Stefan de Vrij - vivendo a melhor fase da carreira na Internazionale, escolhido como um dos melhores zagueiros do Campeonato Italiano encerrado. Pelo menos para De Vrij, a expectativa virou frustração nesta quinta: lesionado, o defensor foi cortado da relação (Dwight Lodeweges se compadeceu, na entrevista coletiva: "Ele estava muito triste, era a sua chance"). O que aumentou as expectativas justamente sobre dois dos três estreantes na seleção masculina: crescem as possibilidades de escalação imediata tanto para Perr Schuurs, zagueiro de 20 anos que deverá enfim ser titular do Ajax após a "preparação" por que passou em dois anos de time B, quanto para Owen Wijndal, lateral esquerdo de 20 anos, um dos dínamos dos velozes ataques do AZ. Dwight Lodeweges já sinalizou que pode jogar um dos dois às feras, sem medo: "Se fosse para hesitar, eu nem os teria convocado".

Também há pontos de interrogação na lateral direita, que não terá Denzel Dumfries contra a Polônia - Dumfries curtirá o filho recém-nascido. Aí, disputam a vaga Kenny Tete, chamado exatamente pelos compromissos pessoais de Dumfries, e Hans Hateboer, com vantagem para o jogador da Atalanta (por enquanto: Hateboer já anunciou que deseja deixar o clube italiano). No meio-campo e no ataque, por ora, os titulares são mais certos. Mas como ignorar a possibilidade de escalar Mohamed Ihattaren, estreando na seleção que escolheu para defender, podendo ser o armador que ainda falta à equipe dos Países Baixos? E quem sabe uma chance dada a Luuk de Jong como titular, no ataque?

Entre os três estreantes na Laranja, Schuurs e Wijndal podem já estrear de cara - e não dá para descartar Ihattaren, o da foto (Divulgação/Pro Shots/onsoranje.nl)

Todas essas mudanças, e o texto nem citou a pergunta maior: quem, afinal, será o sucessor definitivo de Ronald Koeman? Erik ten Hag já disse que não deixa o Ajax, com o qual tem contrato até 2022 ("Nessa temporada, sem chance"). Peter Bosz também afastou o perigo de deixar o Bayer Leverkusen - seu contrato também vai até 2022 ("Eu só falaria sobre isso se tivessem me procurado, e ninguém me procurou"). Nenhum dos candidatos citados - Frank de Boer e Phillip Cocu à frente - animam plenamente. E só agora cresce, pouco a pouco, a possibilidade que a imprensa sugeriu: Louis van Gaal deixando temporariamente a aposentadoria para ser um "bombeiro", treinando a seleção até a Euro 2021. Segundo o narrador Arno Vermeulen, da emissora NOS, Van Gaal lhe teria dito que pensaria bem na hipótese caso fosse chamado. Mas ainda é uma possibilidade mais no campo dos boatos do que dos fatos. Discretamente, o capitão Van Dijk pediu definição da federação: "Precisamos seguir, a direção precisa achar um substituto. Até fomos ouvidos sobre isso, e gostamos". A chance de continuar nem passa pela cabeça de Dwight Lodeweges: "Nem falei sobre isso. Alguém vai vir". Que tal Van Gaal, Van Dijk? "Eu nunca trabalhei com ele, mas é lógico que é alguém que significa muito para o futebol holandês".

Com mais dúvidas do que certezas, a Holanda volta a aparecer no futebol de seleções masculinas. Muito mudou nela. O que mais mudará? Resultados? Titulares? Respostas a partir desta sexta-feira.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Guia da segunda divisão: a pandemia permitirá o sonho?

O Cambuur liderava a segunda divisão, o De Graafschap era o vice-líder... mas a pandemia (e a decisão da federação) acabaram com o sonho do acesso. Ele recomeça agora para ambos (degraafschap.nl)

Março de 2020. Adiantada em relação à primeira divisão, como sempre, a segunda divisão do futebol na Holanda (Países Baixos) já ia pela sua 29ª rodada - nove antes do final da temporada regular. E dois clubes já se destacavam para ficarem com as vagas de campeão e vice - que dariam, pela primeira vez, direito ao acesso direto à Eredivisie (sem contar a terceira vaga, que seria disputada na repescagem de famigerado regulamento). Eram o Cambuur, líder da Eerste Divisie, e o De Graafschap, então segundo colocado. Faziam por merecer - principalmente o Cambuur, que já contava dez pontos acima do Volendam, o terceiro colocado. Mas a COVID-19, já tomando a Europa à força entre o fim de fevereiro e o começo do citado março, forçou a parada de tudo. 

O futebol não pôde ficar imune a isso: nos Países Baixos, os eventos públicos foram proibidos - a princípio, até setembro - por ordem do governo. A federação "lavou as mãos", deixou aos clubes a responsabilidade da decisão sobre os rumos da temporada interrompida, estes obviamente não quiseram comprometer os futuros dos co-irmãos... e a KNVB retomou a frente para tomar o polêmico caminho: a temporada 2019/20 estava encerrada, em todos os níveis. No caso da segunda divisão, a resolução era ainda mais dramática: sem acesso, sem descenso, os 20 clubes de 2019/20 seriam os mesmos para 2020/21. Claro, a queixa foi gigante por parte de Cambuur e De Graafschap: o sonho do retorno à primeira divisão (para aquele, após quatro anos; para este, o "bate-e-volta" após a queda em 2018/19) estava perto de acontecer... e foi encerrado, pelo menos por enquanto, após a canetada da federação. 

Houve ameaças de protesto aqui e ali - principalmente do Cambuur -, mas aos poucos as ameaças foram diminuindo previsivelmente: afinal, alguma resolução para a temporada 2019/20 a federação tinha de tomar (e ela estava de mãos atadas, pelas medidas do governo holandês). Tomou do jeito errado, mas tomou. E só o tempo permitiu alguma retomada. Antecipada a partir de julho, com a abertura de clubes. Aprofundada com os treinos. E que será completa a partir desta sexta-feira, quando dois jogos - o time B do Utrecht contra o FC Eindhoven, Cambuur contra NEC - abrirão a Keuken Kampioen Divisie, o "nome patrocinado" da Eerste Divisie, a segunda divisão da Holanda. Cinco meses depois da pandemia ser decretada e jogar o futebol (e o mundo) num monte de incertezas, a primeira delas na Eerste Divisie é óbvia: quem são os favoritos ao acesso? 

Robert Mühren era o nome dos gols no Cambuur até a COVID-19 interromper o futebol. Continuará sendo, pelo menos enquanto a segunda divisão puder ocorrer (Pics United)

Os favoritos

De certa forma, nem mesmo a pandemia mudou o cenário. O Cambuur desponta, novamente, como o grande favorito ao título. Não só pela vantagem que a equipe de Leeuwarden já ostentava na temporada passada, mas porque o grupo de jogadores dos Leeuwarders, treinado por Henk de Jong, passou relativamente incólume pela pandemia. Os destaques são os mesmos, com experiência em times menores da Holanda: o goleiro Sonny Stevens, o zagueiro Calvin MacIntosch, o ponta-de-lança Mitchel Paulissen e, principalmente, o atacante Robert Mühren. Autor de 26 gols em 2019/20, Mühren teve seu empréstimo ao Cambuur prolongado pelo Zulte Waregem, da Bélgica, clube ao qual o centroavante pertence. É o centro do time. E se fizer em 2020/21 tantos gols como vinha fazendo, pode ser o dínamo de outra campanha que levaria a um eventual retorno do Cambuur à divisão de elite.

Se o Cambuur tem um time calejado nas profundezas dos pequenos do futebol holandês, o De Graafschap (vice-líder até a parada) aposta num time um pouco mais jovem para conseguir até posição melhor. Os Superboeren tiveram bons resultados na pré-temporada, e se valeram de negócios baratos para fortalecerem o grupo comandado pelo técnico Mike Snoei: chegaram ao clube da cidade de Doetinchem nomes como o goleiro Rody de Boer (emprestado pelo AZ), o lateral Julian Lelieveld (vindo do Vitesse, de graça) e o atacante Joey Konings (vindo do Heracles Almelo). Estes se somam a nomes mais experimentados que também chegaram - os atacantes Ralf Seuntjens e Johnatan Opoku sendo os principais.

Mas como se sabe, as duas primeiras posições não são o único caminho para se chegar à primeira divisão na Holanda: há a temida e emocionante repescagem após a temporada regular, valendo uma vaga. Lembrando rapidamente seu complicado regulamento: as 38 rodadas da Eerste Divisie são divididas em quatro "períodos" de nove rodadas, a partir da 3ª rodada. O melhor time de cada um desses períodos - o periodekampioen, literalmente "campeão de período" - já é garantido na repescagem. Estes quatro times, mais os dois melhores colocados da temporada regular sem terem sido "campeões de período" (podem ser mais, se um dos campeões de período tiver subido direto, como campeão ou vice), vão para a repescagem, esperando o 16º (antepenúltimo) colocado da Eredivisie. Num mata-mata simples, os seis se enfrentam na "primeira fase"; os três ganhadores vão para as "semifinais" junto do egresso da Eredivisie, em dois jogos; e os vencedores definem, enfim, a vaga.

O Volendam poderá contar com Francesco Antonucci por mais uma temporada (Pics United)

E se há times que podem ficar mais atrás na disputa do título da segunda divisão, a briga pelo "título" dos "períodos" tem muito mais concorrentes. Com um time jovem e pregando estilo ofensivo - bem ao gosto do técnico, o ex-volante Wim Jonk -, o Volendam aposta pesadamente no belga Francesco Antonucci, já emprestado na temporada passada, que ficará mais este campeonato na "Outra Laranja" (apelido do Volendam) antes de voltar ao Feyenoord. O NEC Nijmegen, velho conhecido da Eredivisie, tenta o retorno a ela após quatro anos, contando com o retorno de outro velho conhecido: o volante paraguaio Edgar Barreto, 36 anos, que passara pelos Nijmegenaren entre 2003 e 2007 antes de fazer carreira regular na Itália (Reggina, Atalanta, Palermo e Sampdoria). O NAC Breda, bem mais ambicioso, querendo voltar após três anos de ausência, já é mais ambicioso: não só conta com nomes promissores, como o goleiro Nick Olij e o atacante Sydney van Hooijdonk - sim, filho de Pierre -, mas também com vindas experientes, como a do lateral direito Dion Malone, tirado do ADO Den Haag.

E os "times B"?

Vale citar ainda que, mesmo sem direito a promoção para a primeira divisão nem a participação na repescagem de acesso/descenso, por motivos óbvios, os times B têm lá sua atratividade na Keuken Kampioen Divisie. Principalmente o único deles que já foi campeão dela, em 2017/18: o Jong Ajax, que vinha em quarto lugar na temporada suspensa. É até "covardia" citar a relação de nomes promissores que a equipe B dos Ajacieden tem. Os goleiros Daan Reiziger e Calvin Raatsie; os zagueiros Neraysho Kasanwirjo e Devyne Rensch; os meio-campistas Kenneth Taylor e Naci Ünüvar (este, um dos mais valorizados); os atacantes Sontje Hansen e Brian Brobbey... todos eles fizeram parte da geração holandesa bicampeã europeia sub-17 (e quarta colocada no Mundial do ano passado), todos eles marcaram presença no Ajax semifinalista da Liga Jovem da UEFA, todos eles são relacionados vez por outra no time principal. E todos eles jogarão a segunda divisão - com um brasileiro como colega: o atacante Giovanni Manson, vindo do Santos, que até protestou, contra suposto aliciamento do Ajax.

Sontje Hansen na esquerda, Naci Ünüvar na direita: os jovens do Jong Ajax continuam badalados (BSR Agency/Soccrates)

Mas o time B do PSV, outro a disputar a Eerste Divisie, também tem muitos jogadores jovens que se alternam com a equipe principal e também são promissores. O lateral direito Jordan Teze, o volante tcheco Michal Sadílek, o atacante Joël Piröe (retornando de empréstimo ao Sparta Rotterdam): todos eles já tiveram sua experiência no time de cima dos Boeren. E nem recai sobre eles a maior expectativa, mas sim sobre o atacante Noni Madueke, inglês de ascendência nigeriana, que já vinha tendo chances na equipe de Eindhoven antes da pandemia eclodir. Há até um brasileiro no Jong PSV: o zagueiro Luis Felipe, vindo do Coritiba.

O Jong Ajax pode até ser mais badalado, mas Noni Madueke também faz muitos gols pelo time B do PSV (BSR Agency)

Finalmente, há os times B de AZ e Utrecht, dois clubes cada vez mais cuidadosos com suas categorias de base, e cada vez mais ambiciosos em desafiarem o trio de ferro neerlandês. No time de Alkmaar, o meio-campista Mohamed Taabouni foi promovido ao grupo principal, mas há de participar de algumas rodadas - bem como o zagueiro Maxim Gullit (sim, filho de Ruud), 19 anos; nos Utregs B, há nomes como o atacante Tim Pieters, o meio-campista francês Zineddine Bourebbaba... e o zagueiro Ruben Kluivert (sim, filho de Patrick e irmão de Justin). Também podem fazer seu barulho.

Mas todas essas são perspectivas antes do começo da segunda divisão. Porque a pandemia ainda está aí. As incertezas que ela traz, também. Os jogos ainda serão com público diminuto, no mínimo. E os números da COVID-19 na Holanda (Países Baixos) voltam a crescer - ainda em patamares controlados, principalmente no número de internados e mortos, mas crescem, trazendo o temor da "segunda onda". A federação holandesa até já criou procedimentos para resolver o resultado do torneio, em casos extremos como o que se vive. Mas a "segunda onda" certamente interromperia de novo o campeonato. Interromperia o sonho do acesso também?