terça-feira, 16 de julho de 2024

Ela voltou

Pela falta de eficiência no ataque, a Holanda garantiu a duras penas a vaga na Euro feminina. Mas pôde contar com a melhor de suas atacantes, Miedema, na hora necessária (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Foi com emoção que a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) garantiu a sua vaga na Eurocopa feminina, a ser disputada na Suíça, em 2025. Nem tanto por ter jogado mal nas duas últimas rodadas das eliminatórias para o torneio continental de seleção: criou chances, foi ofensiva, foi até mais intensa do que Itália e Noruega. Ainda assim, perdeu todas as oportunidades de gol que criava, e esteve muito arriscada de precisar disputar a repescagem. A rigor, só assegurou o lugar direto na Euro por causa da novidade mais agradável que as Leoas Laranjas tiveram nestas datas FIFA: Vivianne Miedema parece ter voltado definitivamente. E com ela, a equipe nacional neerlandesa fica melhor.

Isso já foi visível no jogo da sexta passada, em Sittard, contra a Itália. Para começo de conversa, o ataque holandês se mostrou um pouco mais intenso, após as semanas de treino. As trocas de passes levaram a chances - como aos 7', na triangulação entre Esmee Brugts, Daniëlle van de Donk e Lineth Beerensteyn (que só não fez o gol porque a zagueira Martina Lenzini bloqueou seu chute). Ou aos 25', quando Brugts cruzou, a goleira Laura Giuliani rebateu, e Miedema ficou em boas condições para o chute, mas perdeu o tempo da bola. Contudo, quando as italianas tinham a bola, traziam mais perigo, se aproveitando da lentidão do trio de defensoras holandesas. Como aos 20', quando Sherida Spitse bloqueou na hora exata o arremate de Arianna Caruso. Ou aos 29', quando Caruso voltou a tentar, superando Dominique Janssen, mas a goleira Lize Kop rebateu - e voltou a pegar, firmemente, o chute de Valentina Giacinti.

E foi até curioso que Miedema começasse a se destacar num lance de... defesa: aos 42', quando Lisa Boattin cobrou escanteio, Barbara Bonansea cabeceou, e a camisa 9 evitou o gol italiano em cima da linha, afastando a bola de cabeça. No segundo tempo, uma alteração melhorou a defesa dos Países Baixos - Lynn Wilms veio para o lugar de Kerstin Casparij, estabilizando mais o trio de zagueiras. E o ataque ficou mais fluido, sem tantas preocupações com a marcação. Foi a hora de Miedema aparecer. Primeiro, aos 49', cabeceando para fora o cruzamento de Chasity Grant (das novatas que melhor aproveitaram as datas FIFA). Depois, aos 55', quando "Viv" bateu de fora da área e Giuliani defendeu. E finalmente, aos 65', na chance mais perigosa que o jogo da sexta passada teve, quando Miedema arriscou e mandou a bola ao travessão. Era o símbolo de que, pelo menos, a Holanda tentava bem mais o gol do que a Itália. E tentou com Wieke Kaptein (cabeceio para fora, aos 79'), com as entradas de Katja Snoeijs e Romée Leuchter... mas faltou o gol. O 0 a 0 decretava: as Leoas Laranjas teriam de conquistar a vaga na Eurocopa de mulheres contra a Noruega - decepcionante, mas difícil -, fora de casa. Ainda assim, ficava um lado doce: notar que Miedema aguentara os 90 minutos em campo. E bem.

Lize Kop teve mais uma partida no gol, com a lesão de Van Domselaar - e fez defesas importantes nestas datas FIFA (Joris Verwijst/BSR Agency/Getty Images)

E de fato, no começo do jogo em Bergen, o ataque norueguês se fez sentir. Lize Kop - digna substituta da machucada Daphne van Domselaar no gol - já pegou a bola aos 5', em chute de Karina Saevik. Aos 15', Kop trabalhou bem de novo, espalmando chute de Caroline Graham Hansen. E aos 19', Frida Maanum (aniversariante deste 16 de julho) só não comemorou o gol que fez porque estava impedida. Só depois é que a Holanda se aprumou em campo. Novamente rápida e intensa no ataque, mas novamente pecando na hora de "tirar o dez" com as finalizações: Van de Donk chutou mal aos 35', após triangulação, Jackie Groenen arriscou de fora - e para fora - aos 42', Casparij também errou sua tentativa aos 44'. De tanto perder gols, a Holanda corria risco de tomá-los, ainda que terminasse o primeiro tempo classificada para a Eurocopa - junto da Itália, que goleou a Finlândia (4 a 0).

E a Noruega "alertou" sobre esses perigos logo que o segundo tempo começou, aos 47', em dois chutes em sequência: primeiro Guro Reiten (dentro da área), depois Frida Maanum (fora da área), ambos impedidos por Lize Kop. Contudo, aos 61', não houve jeito: num escanteio cobrado por Vilde Boe Risa, Casparij rebateu apenas parcialmente, e Graham Hansen fez o gol do 1 a 0 que colocaria a Noruega na Eurocopa - e os Países Baixos, tendo de disputar a repescagem por uma vaga. Só restou ao time laranja - jogando de azul - tentar atacar. Primeiro, com a entrada de Katja Snoeijs. Depois, cercando a seleção norueguesa pelas pontas. Mas faltava... acertar o gol. Quem o acertou? A única jogadora neerlandesa diferenciada da atualidade: Miedema, aos 80', completou cruzamento de Chasity Grant, de cabeça, para fazer seu primeiro gol pelas Leoas Laranjas desde 2022.

E deixar claro: está de volta, pronta para deixar para trás a difícil recuperação da lesão no ligamento cruzado anterior. Uma notícia que talvez seja melhor para a Holanda até do que a própria vaga na Euro.

Eliminatórias da Euro feminina 2025 - Grupo 1 - Liga A

Holanda 0x0 Itália
Data: 12 de julho de 2024
Local: Fortuna Sittard Stadion (Sittard)
Árbitra: Tess Olofsson (Suécia)

HOLANDA
Lize Kop; Kerstin Casparij (Lynn Wilms, aos 46'), Sherida Spitse e Dominique Janssen; Chasity Grant, Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk (Damaris Egurrola Wienke, aos 90' + 7), Wieke Kaptein e Esmee Brugts (Romée Leuchter, aos 90' + 1); Lineth Beerensteyn (Katja Snoeijs, aos 86') e Vivianne Miedema. Técnico: Andries Jonker

ITÁLIA
Laura Giuliani; Lucia di Guglielmo, Martina Lenzini, Elena Linari e Lisa Boattin; Arianna Caruso e Giada Greggi (Giulia Dragoni, aos 62'); Sofia Cantore (Michela Cambiagi, aos 62'), Manuela Giugliano (Emma Severini, aos 84') e Barbara Bonansea (Cecilia Salvai, aos 71'); Valentina Giacinti (Agnese Bonfantini, aos 72'). Técnico: Andrea Soncin


Noruega 1x1 Holanda
Data: 16 de julho de 2024
Local: Brann Stadium (Bergen)
Árbitra: Alina Pesu (Romênia)
Gols: Caroline Graham Hansen, aos 61', e Vivianne Miedema, aos 80'

NORUEGA
Cecilie Fiskerstrand; Thea Bjelde (Maria Thorisdóttir, aos 75'), Guro Bergsvand, Mathilde Harivken e Tuva Hansen (Marit Lund, aos 85'); Frida Maanum, Lisa Naalsand e Vilde Boe Risa (Sophie Haug, aos 86'); Caroline Graham Hansen, Karina Saevik e Guro Reiten. Técnica: Gemma Grainger

HOLANDA
Lize Kop; Kerstin Casparij (Lynn Wilms, aos 71'), Sherida Spitse e Dominique Janssen; Chasity Grant, Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk (Damaris Egurrola Wienke, aos 86'), Wieke Kaptein e Esmee Brugts (Katja Snoeijs, aos 71'); Lineth Beerensteyn e Vivianne Miedema (Romée Leuchter, aos 86'). Técnico: Andries Jonker

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Com emoção ou sem emoção?

A Euro masculina acabou para a Holanda (Países Baixos). Para a feminina, a vaga pode chegar - e as jogadoras esperam que seja o quanto antes... (Soccrates Images)

Se a Eurocopa acabou para os homens (com uma razoável campanha), para as mulheres da Holanda (Países Baixos) ela pode chegar nestas datas FIFA de julho, que trazem as últimas rodadas das eliminatórias do torneio continental de seleções da Europa, contra a Itália (nesta sexta, às 15h45 de Brasília, em Sittard) e a Noruega (na próxima terça, na cidade norueguesa de Bergen, às 14h de Brasília). E as Leoas Laranjas podem chegar de dois modos: com emoção ou sem emoção. Se ganharem da Itália, já estarão na Euro feminina - na Suíça, no ano que vem -, garantindo um dos dois primeiros lugares do grupo 1. Se houver empate ou derrota, contudo, será necessário vencer as norueguesas.

Independente do resultado, a preparação para os jogos foi longa. E irritada. Com um motivo decorrente do outro. O primeiro, mais um drama de lesão no ligamento cruzado anterior do joelho: agora, foi Victoria Pelova a machucada que ficará por longo tempo distante da seleção. Para muitos, dentro e fora do ambiente da seleção de mulheres, foi mais uma vítima do calendário quase incessante do futebol delas. Tão incessante que terá as últimas rodadas em... julho, em meio às férias das jogadoras. Crítico habitual do comportamento da FIFA e da UEFA no assunto, o técnico Andries Jonker foi irônico, à revista Voetbal International: "Jogaremos entre a semifinal e a final da Eurocopa masculina. Bacana...". Antes, tinha sido raivoso ao diário De Telegraaf: "Nos planos da UEFA, eles definiram que teríamos quatro semanas de férias após 4 de junho, em 8 de julho nos apresentaríamos, e quatro dias depois jogaríamos uma partida dura. Mas isso é tão impossível quanto irresponsável! Eu me preocupo com a saúde das jogadoras". Uma delas, por sinal, se uniu às reclamações: Jackie Groenen. "Houve poucas paradas para todas. A gente se lembra disso. Se interfere no mental? Sim, talvez. Nós sabemos bem que ainda temos partidas importantes".

De todo modo, Andries Jonker fez o que podia. Em dois períodos de junho (dias 19 a 21, e 24 a 28), convocou um grande grupo de jogadoras, entre titulares e novatas, para se aclimatarem e se habituarem, em um período de treinos. Na hora da convocação definitiva, algumas estreantes ficaram para os jogos. Na zaga, Veerle Buurman, do PSV; e no ataque, tanto Chanté-Mary Dompig, bem no Milan pelo Campeonato Italiano, quanto Chimera Ripa, ponta do PSV, um dos destaques da seleção sub-21 dos Países Baixos. Tudo isso, sem contar nomes já convocados - algumas das quais, até com partidas jogadas -, mas ainda com ar de novidades: a goleira Daniëlle de Jong, a zagueira Gwyneth Hendriks, a meio-campista Nina Nijstad...

Já nas mais conhecidas jogadoras, as novidades ficam por conta dos novos clubes. Começa por Dominique Janssen, de volta à Inglaterra após a passagem pelo Wolfsburg alemão, chegando ao Manchester United. No meio-campo, a jovem Wieke Kaptein está chegando ao Chelsea-ING, após o começo no Twente ("Estou pronta, como jogadora e como pessoa", prometeu Kaptein à Voetbal International), enquanto Jill Baijings será mais uma holandesa no Aston Villa inglês - talvez a única, com a provável transferência da goleira Daphne van Domselaar para o Arsenal. Mas a surpresa maior vem no ataque: após nove anos, Renate Jansen deixou o Twente, esperava-se que ela tivesse uma experiência no exterior... mas a veterana avante é um reforço do PSV. Sem esquecer Lineth Beerensteyn, de volta ao Bayern de Munique após um tempo na Juventus.

Clube novo: Vivianne Miedema ainda começará seu caminho no Manchester City. E na seleção, vida nova, após tanto sofrimento nos últimos dois anos? (BSR Agency)

Mas é óbvio que a transferência mais comentada viria da jogadora mais conhecida que a Holanda tem. Após uma saída comentada do Arsenal, Vivianne Miedema terá espaço no Manchester City para "encontrar o prazer, e também a forma, de volta", após o joelho perturbá-la nos últimos dois anos, desde o rompimento do ligamento cruzado, em dezembro de 2022. Com Lieke Martens sendo capítulo encerrado nas Leoas Laranjas - e outras experientes, como Jill Roord, machucadas -, Miedema se converteu numa autêntica líder nos treinamentos. Se ela poderá jogar noventa minutos, no mínimo, contra a Itália? O técnico Andries Jonker deixou em aberto: "Faz muito tempo que ela não joga noventa minutos. Mas ela já passou da fase de jogar só dez, ou vinte minutos. Agora é diferente". Quem não jogará nada são dois desfalques: a supracitada Van Domselaar e Caitlin Dijkstra (esta, também mudando de clube, chegando ao Wolfsburg). Bem, talvez "DVD" ainda possa voltar contra a Noruega, se estiver em melhores condições - a cirurgia lombar por que passou ainda inspira cuidados. "Ainda é incerto, mas nesta sexta, ela realmente não pode", esclareceu Andries Jonker.

De um jeito ou de outro, a Holanda tentou minimizar os problemas que o calendário do futebol feminino lhe causa. E deseja garantir seu lugar na Eurocopa de mulheres sem emoção...

As 26 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

Goleiras: Lize Kop (Leicester City-ING), Jacintha Weimar (Feyenoord) e Daniëlle de Jong (Twente)

Defensoras: Kerstin Casparij (Manchester City-ING), Lynn Wilms (Wolfsburg-ALE), Sherida Spitse (Ajax), Dominique Janssen (Manchester United-ING), Gwyneth Hendriks (PSV), Veerle Buurman (PSV), Ilse van der Zanden (Utrecht) e Merel van Dongen (Rayadas de Monterrey-MEX) 

Meio-campistas: Daniëlle van de Donk (Lyon-FRA), Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA), Damaris Egurrola Wienke (Lyon-FRA), Nina Nijstad (PSV), Jill Baijings (Aston Villa-ING) e Wieke Kaptein (Chelsea-ING) 

Atacantes: Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA), Lineth Beerensteyn (Juventus-ITA), Vivianne Miedema (Manchester City-ING), Esmee Brugts (Barcelona-ESP), Chanté-Mary Dompig (Milan-ITA), Renate Jansen (PSV), Katja Snoeijs (Everton-ING), Chimera Ripa (PSV) e Chasity Grant (Ajax)

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Falta quem decida

O começo da semifinal da Euro foi ótimo para a Holanda. O meio, porém, foi terrível. Mas quando parecia que o pior passara, aí é que ele veio: a eliminação, com gol nos acréscimos (Ian MacNicol/Getty Images)

Apoio não faltou à seleção masculina da Holanda (Países Baixos): tanto nas 110 mil pessoas que lotaram as ruas de Dortmund no caminho até o Signal Iduna Park, quanto nas que efetivamente estiveram no estádio. Esforço, também não faltou: para uma seleção que jogou a Euro 2024 praticamente sem o seu meio-campo titular, chegar às semifinais já foi uma campanha digna de aplausos, indicando que se encontrou um caminho. Todavia, ainda falta a esta geração da Laranja o jogador capaz de ser decisivo em momentos importantes. Coisa que a Inglaterra tem, de sobra. Assim como alguma ousadia a mais. E por isso, os ingleses impuseram mais uma decepção à Oranje, eliminada nas semifinais da Euro com um gol nos acréscimos do segundo tempo.

Com Donyell Malen começando como titular, na direita, a Laranja pensava em ter alguma velocidade com a bola nos pés, para tentar aproveitar os espaços que a Inglaterra desse. E tudo isso deu certo, do melhor jeito possível: aos 7', Xavi Simons roubou a bola de Declan Rice, carregou-a um pouco mais, arriscou o chute de fora e... petiscou, acertando o ângulo direito do goleiro Jordan Pickford e fazendo 1 a 0 para o selecionado dos Países Baixos. Um começo tão promissor que parecia bom demais para ser verdade. Até porque o resto da etapa inicial mostrou que não era. Pouco depois, a Inglaterra é que começou a aproveitar mais os espaços que o time holandês lhe dava.E os seus destaques começaram a trazer mais perigo. Começou com Harry Kane, aos 13', num chute de média distância espalmado por Bart Verbruggen. 

Paralelamente, Bukayo Saka tinha muito espaço às costas de Cody Gakpo - e na frente de Nathan Aké, preocupado com o miolo de zaga. Bastou uma jogada dele, aos 18', para que Kane tentasse finalizar de voleio, sendo atingido no tornozelo por Denzel Dumfries. O juiz Felix Zwayer até deixou passar num primeiro momento, mas o VAR, não: pênalti, cartão amarelo para Dumfries, Kane cobrou, 1 a 1. Era só o começo da superioridade inglesa. Além dos dois citados, Phil Foden começou a se impor, quase fazendo o segundo gol aos 23', após passar por Aké, Tijjani Reijnders e Verbruggen (Dumfries salvou rigorosamente em cima da linha). Após um rápido sinal de vida holandês - Dumfries cabeceou a bola no travessão aos 30' -, os espaços e a posse de bola ingleses seguiam. Assim como os chutes colocados de Foden. O primeiro, aos 32', na trave; o segundo, aos 39', defendido por Verbruggen. Para piorar a situação holandesa, as dores crônicas de Memphis Depay no músculo posterior da coxa voltaram, na mais imprópria das horas. Já aos 35', ele precisou ser substituído, com Joey Veerman tentando recompor o meio-campo, tirando indiretamente as capacidades ofensivas já pequenas da Holanda.

A Laranja vinha sem lesões no decorrer da Euro... mas os problemas de Memphis Depay com o músculo posterior da coxa voltaram, na pior hora possível. E o ataque sofreu (Koen van Weel/ANP/Getty Images)

Seria uma partida "longa". Ainda mais porque Wout Weghorst já veio a campo, no intervalo, substituindo Malen e indicando: a Holanda seria bem mais reativa. Esperaria as chances para que Weghorst aproveitasse. Seria bem mais... lenta. A tal ponto que, por boa parte do segundo tempo, parecia até que a Laranja tivera um jogador expulso, de tão retraída que estava em campo. Contudo, a Inglaterra também não pressionava tanto quanto no primeiro tempo, com o meio-campo mais fechado - e, faça-se destaque, Jerdy Schouten foi quem mais ajudou nisso, evitando que muitos ataques chegassem à defesa. Com isso, em algumas poucas chances, até que a Holanda teve esperanças. Como aos 64', quando Joey Veerman cobrou falta, Virgil van Dijk desviou, e Jordan Pickford teve de espalmar para escanteio. Ou mesmo aos 78', quando Weghorst ajeitou um cruzamento com a cabeça, e Xavi Simons chutou de voleio - mas chutou fraco, sem trazer muitos problemas.

Entretanto, outro problema que a Holanda tem apareceu na pior das horas: a falta de ousadia de Ronald Koeman nas substituições. Na reta final do jogo, o técnico neerlandês manteve o time sem alterações. Já Gareth Southgate, mesmo contestado, mesmo vendo a Inglaterra ter no segundo tempo a lentidão que mostrou na maior parte da Euro... arriscou. Tirou Kane e Foden, talvez seus dois melhores jogadores na partida, para acelerar o ataque com Cole Palmer, no meio, e Ollie Watkins, na frente. Foi premiado. Porque coube a Palmer fazer o lançamento em profundidade, já nos acréscimos (90' + 1). E coube a Ollie Watkins ser mais rápido do que Stefan de Vrij para chutar cruzado e fazer o gol tardio que colocou a Inglaterra na segunda final seguida de Eurocopa.

Porque, no fim das contas, a Holanda se esforçou, fez uma Euro até além das expectativas... mas lhe faltou nomes decisivos. Nomes que a Inglaterra tem. Por isso ela está classificada.

UEFA Euro 2024 - Semifinal

Holanda 1x2 Inglaterra
Local: Signal Iduna Park/BVB Stadion (Dortmund)
Data: 10 de julho de 2024
Árbitro: Felix Zwayer (Alemanha)
Gols: Xavi Simons, aos 7', Harry Kane, aos 18', e Ollie Watkins, aos 90' + 1

HOLANDA
Bart Verbruggen; Denzel Dumfries (Joshua Zirkzee, aos 90' + 3), Stefan de Vrij, Virgil van Dijk e Nathan Aké; Jerdy Schouten e Tijjani Reijnders; Donyell Malen (Wout Weghorst, aos 46'), Xavi Simons (Brian Brobbey, aos 90' + 2) e Cody Gakpo; Memphis Depay (Joey Veerman, aos 35'). Técnico: Ronald Koeman

INGLATERRA
Jordan Pickford; Bukayo Saka (Ezri Konsa, aos 90' + 3), Kyle Walker, John Stones, Marc Guéhi e Kieran Trippier (Luke Shaw, aos 46'); Declan Rice, Kobbie Mainoo (Conor Gallagher, aos 90' + 3), Phil Foden (Cole Palmer, aos 81') e Jude Bellingham; Harry Kane (Ollie Watkins, aos 81'). Técnico: Gareth Southgate

sábado, 6 de julho de 2024

Aproveitando a sorte

A Holanda começou ameaçando decepcionar contra a Turquia, nas quartas de final da Eurocopa. Mas a sorte apareceu, a Laranja aproveitou... e está na semifinal (Image Photo Agency/Getty Images)

Numa das entrevistas coletivas após passar das quartas de final da Eurocopa, Daley Blind reconheceu que a seleção da Holanda (Países Baixos) teve sorte em seu caminho, eliminando a Romênia nas oitavas de final... e tendo a Turquia, adversária aparentemente acessível, nas quartas de final. Pois bem: contra os turcos, em Berlim, a Laranja teve problemas. Num momento, pareceu que a decepção seria novamente seu destino. Contudo, a sorte presente reapareceu. E a Holanda, de novo, a aproveitou. E premiou seu inegável esforço - e a aparição dos destaques, em horas importantes - com uma virada por 2 a 1, que a leva à semifinal da Euro, após 20 anos, já configurando uma campanha satisfatória.

No começo da partida, a Laranja conseguiu o que Ronald Koeman queria: controlar a posse de bola, até pressionar a Turquia na defesa, comandar o rumo do jogo. No primeiro minuto, até houve uma chance: após vir da esquerda, Memphis Depay chutou para fora. De quebra, Memphis, Xavi Simons e Cody Gakpo cercavam bem os laterais turcos - principalmente Mert Müldür, pela direita, impedindo que a Turquia saísse. Só mesmo Ferdi Kadioglu era um "desafogo" turco, carregando a bola para alguém finalizar - como aos 11', quando entregou a bola para Salih Özcan (substituto do suspenso Ismail Yüksek) mandar para fora. Entretanto, foi só. 

Ao cansar da pressão, a Holanda "entregou" a bola para a Turquia. Que não criava muitas chances, mas começava a cercar mais a defesa holandesa. Hakan Çalhanoglu começou arriscando aos 21' (chute que desviou em Virgil van Dijk e saiu para escanteio - na cobrança, Bart Verbruggen pegou). Se só a esquerda era opção de jogadas, Arda Güler trocou de lugar com Baris Yilmaz e começou a aparecer pela direita, mais do que Mert Müldür conseguia. E de tanto cercar, a Turquia conseguiu o gol como queria, e como é a maior fragilidade da Laranja: bolas aéreas. Aos 35', Arda Güler cruzou, Verbruggen demorou para sair... e por trás, o zagueiro Samet Akaydin fez 1 a 0, de cabeça. E nem mesmo ficar atrás no placar fez com que o selecionado dos Países Baixos voltasse a acelerar mais o jogo. Ou voltasse a criar chances, mesmo diante de uma Turquia fechada, com os constantes recuos de Kaan Ayhan do meio para a defesa. Era preciso mudar.

Weghorst entrou, e mesmo sem fazer gols, conseguiu ser uma referência de que o ataque da Laranja, estéril até ali, precisava para virar o jogo (Boris Streubel/UEFA/Getty Images)

E Ronald Koeman até mudou, colocando Wout Weghorst no lugar de Bergwijn, dando uma referência que o ataque holandês precisava. A tal ponto que logo veio uma chance, aos 52', num cabeceio após Nathan Aké cruzar (quase Memphis Depay alcançou). Ainda assim, o jogo tinha ficado mais rápido, mais veloz. Justamente como a Turquia queria. Era Aké levando amarelo ao derrubar Arda Güler (ótima atuação), aos 55', originando falta que o próprio Güler mandou à trave direita; era Virgil van Dijk também tomando cartão amarelo, aos 64' (falta em Baris Yilmaz)... por mais que a Holanda tentasse, num chute de Memphis Depay aos 63', ainda parecia pouco.

Deixou de ser pouco aos 70': quando a Holanda apenas começava a querer cruzar, já aproveitou uma oportunidade: Memphis Depay cruzou, Stefan de Vrij (que já rondava mais o ataque) cabeceou firme e livre, 1 a 1. E aí a partida seguiu acelerada, mas como a representação dos Países Baixos preferia: com mais confiança, mais ataque, mais pressão. E a sorte, aquela do começo deste texto, reapareceu pouco depois, aos 76', quando Denzel Dumfries enfim cruzou. Ninguém interceptou. E... não se sabe se Cody Gakpo finalizou - seria seu quarto gol nesta Euro -, se Mert Müldür (dia infeliz do lateral) completou contra o patrimônio, como a UEFA creditou... mas era a virada da Holanda. Que passou por testes de resistência com os atacantes que Vincenzo Montella empilhou na Turquia. Nela já estavam Arda Güler e Baris Yilmaz. Vieram Cenk Tosun, Keren Akturköglu e Semih Kiliçsoy. Coube a Akturköglu ajudar no primeiro susto turco, aos 85', num chute rebatido por Micky van de Ven na área, sem goleiro. Coube a Kiliçsoy mostrar que a Holanda encontrou seu arqueiro, nos acréscimos: se errou no gol sofrido, Verbruggen defendeu a bola do jogo, rebatendo desvio à queima-roupa do atacante turco.

E aí está a Holanda. Que aproveitou bem sua sorte. E está nas semifinais da Euro. A Inglaterra tem mais nomes que despontam, mas... como bem alertou Ronald Koeman, "quem chegou à semifinal, quer chegar à final". E a Holanda, depois desta virada, mostrou que quer. Muito.

UEFA Euro 2024 - Oitavas de final

Holanda 2x1 Turquia
Local: Estádio Olímpico (Berlim)
Data: 6 de julho de 2024
Árbitro: Clément Turpin (França)
Gols: Samet Akaydin, aos 35', Stefan de Vrij, aos 70', e Mert Müldür (contra), aos 76'

HOLANDA
Bart Verbruggen; Denzel Dumfries, Stefan de Vrij, Virgil van Dijk e Nathan Aké (Micky van de Ven, aos 73'); Jerdy Schouten e Tijjani Reijnders (Joey Veerman, aos 73'); Steven Bergwijn (Wout Weghorst, aos 46'), Xavi Simons (Jeremie Frimpong, aos 87') e Cody Gakpo; Memphis Depay (Joshua Zirkzee, aos 87'). Técnico: Ronald Koeman

TURQUIA
Mert Günok; Mert Müldür (Zeki Çelik, aos 82'), Kaan Ayhan (Semih Kiliçsoy, aos 89'), Samet Akaydin (Cenk Tosun, aos 82'), Abdülkerim Bardakci e Ferdi Kadioglu; Baris Alper Yilmaz, Salih Özcan (Okay Yokuslu, aos 77'), Hakan Çalhanoglu e Kenan Yildiz (Keren Akturköglu, aos 77'); Arda Güler. Técnico: Vincenzo Montella

terça-feira, 2 de julho de 2024

Melhorou e pode mais

Gakpo no primeiro tempo, Malen no segundo: os símbolos de uma atuação convincente da Holanda, que está nas quartas de final da Eurocopa ( sportinfoto/DeFodi Images/DeFodi/Getty Images)

"Não vou mudar muita coisa. Não é necessário tanto pânico por causa de um jogo só." Assim o técnico Ronald Koeman minimizou a necessidade de mudanças pedidas na seleção masculina da Holanda (Países Baixos) para o jogo desta terça, contra a Romênia, pelas oitavas de final da Eurocopa. De certa forma, a Laranja comprovou isso em campo. Porque só uma posição passou por grandes mudanças. E porque, após um começo preocupante, um gol bastou para a equipe nacional neerlandesa se agigantar, dominar a partida na Allianz Arena de Munique e conseguir um 3 a 0 tão convincente que poderia até ter vindo antes - e eis aí um ponto a melhorar para as quartas de final que vêm aí, no sábado, em Berlim, contra a Turquia.

Quando a partida começou em Munique (com Steven Bergwijn como um surpreendente titular), aparentemente, haveria mais pontos a melhorar. Pressionando a saída de bola, a Romênia deixou os Países Baixos sem muito espaço para avançar, criar jogadas, chegar ao ataque. É certo que o único chute a gol romeno foi aos 14' (Dennis Man, arriscando por cima do gol), mas a equipe laranja - jogando de azul, como "visitante" que era - jogava no limite: um erro, e um gol contrário poderia acontecer. Mas aconteceu o inverso: a Romênia amenizou a pressão na saída de bola, e numa das primeiras oportunidades com espaço para atacar, Xavi Simons passou a Cody Gakpo, e ele fez o que melhor sabe. Corte para o meio, chute de pé direito, 1 a 0 Holanda, terceiro gol de Gakpo nesta Euro, seu sexto num grande torneio pela seleção neerlandesa. Nada mal.

Começava aí a melhor fase holandesa. Enfim, se via em campo a intensidade que torcida e imprensa pediam. A começar pela dupla de volantes: atentos, raramente perdendo bolas, sempre acertando passes (100% de acerto para cada um no primeiro tempo), Tijjani Reijnders e Jerdy Schouten foram muito seguros. E distribuíam a bola para Xavi Simons ou Gakpo criarem. Resultado: chances, muitas chances. Tantas que o placar poderia estar mais definido no intervalo. Aos 26', cabeceio de Stefan de Vrij, na rede pelo lado de fora, após escanteio; aos 31', o lançamento em profundidade de Reijnders, cruzado por Denzel Dumfries, e o gol só não saiu porque Radu Dragusin afastou na pequena área. Dumfries, então, fazia o que sempre faz quando tem espaço: uma tremenda ajuda ofensiva. Vasile Mogos precisou sair na Romênia já no 1º tempo (após dividida com... Dumfries), Bogdan Racovitan entrou e sofreu ainda mais ao tentar marcar o camisa 22. A começar aos 44': Dumfries acreditou em jogada, roubou a bola de Racovitan já na área e cruzou, mas Xavi Simons demorou para finalizar. Quando o fez, errou.

Calmo, acertando passes no meio, até avançando ao ataque: Reijnders teve atuação firme que ajudou muito a Laranja. Assim como seu parceiro Schouten (Sebastian Widmann/UEFA)

Até que a Romênia tentou trazer algum tipo de pressão de volta, no segundo tempo. Ainda assim, logo a Holanda neutralizou. E voltou a atacar, apostando na velocidade de Donyell Malen, substituindo um Bergwijn ainda em recuperação de problema muscular. Só que a Laranja também voltou a perder gols: a sorte do goleiro Florin Nita aos 54' (Memphis Depay tentou duas vezes, mas Andrei Ratiu e Racovitan bloquearam antes de Nita defender), Virgil van Dijk cabeceando bola na trave aos 58', Nita espalmando chute de Cody Gakpo aos 62'... e quando a bola enfim balançava as redes, o gol era anulado. Foi o que aconteceu com Gakpo, de fato, impedido ao finalizar aos 63'. Depois, Memphis Depay ainda cobrou falta mandando a bola rente à trave, aos 68'. E Joey Veerman (de volta, substituindo um Schouten em ótimo dia) teve sua chance aos 73', finalizando em diagonal para fora.

Não que a Romênia ameaçasse muito, mas convinha não brincar com a sorte. Mas justamente quando Wout Weghorst, a aposta de gols sempre esperada, era preparada para sair da reserva, Donyell Malen apagou os traumas vividos na eliminação na Euro passada (então, perdeu grande chance de gol contra a Tchéquia, nas oitavas de final). Coube a ele completar para o 2 a 0, na pequena área, em jogada na qual Gakpo teve o mérito de acreditar, driblando dois na linha de fundo; e coube a Malen fazer o terceiro, já nos acréscimos, puxando rápido contra-ataque.

Sim, mais intensidade era pedida, e a Holanda trouxe isso em campo. Claro que há pontos a aprimorar, como a quantidade de gols perdidos, que poderiam ter resolvido o jogo muito antes. Ainda assim, a primeira partida eliminatória vencida pela Laranja numa Eurocopa desde 2000 deixou claro: ela melhorou, e pode mais. Tem a tarefa de continuar mostrando, pois, na partida do próximo sábado.

UEFA Euro 2024 - Oitavas de final

Romênia 0x3 Holanda
Local: Allianz Arena/Football Arena (Munique)
Data: 2 de julho de 2024
Árbitro: Felix Zwayer (Alemanha)
Gols: Cody Gakpo, aos 20', e Donyell Malen, aos 83' e aos 90' + 3

HOLANDA
Bart Verbruggen; Denzel Dumfries, Stefan de Vrij, Virgil van Dijk e Nathan Aké (Micky van de Ven, aos 69'); Jerdy Schouten (Joey Veerman, aos 69') e Tijjani Reijnders; Steven Bergwijn (Donyell Malen, aos 46'), Xavi Simons e Cody Gakpo (Wout Weghorst, aos 84'); Memphis Depay (Daley Blind, aos 90' + 2). Técnico: Ronald Koeman

ROMÊNIA
Florin Nita; Andrei Ratiu, Radu Dragusin, Andrei Burca e Vasile Mogos (Bogdan Racovitan, aos 38'); Marius Marin (Alexandru Cicaldau, aos 72'); Dennis Man, Nicolae Stanciu (Darius Olaru, aos 88'), Razvan Marin e Ianis Hagi (Denis Alibec, aos 72'); Dennis Dragus (Valentin Mihaila, aos 72'). Técnico: Edward Iordanescu