quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Guia da segunda divisão: maior, sim, melhor, nem tanto

O De Graafschap do recém-chegado Danzell Gravenberch já passou duas temporadas seguidas de decepção. Quer acabar com isso e, enfim, superar a segunda divisão (Pro Shots)


NAC Breda, Excelsior, Volendam, Roda JC, De Graafschap... sobram clubes tradicionais na segunda divisão do futebol dos Países Baixos. Quis o destino que clubes como ADO Den Haag e VVV-Venlo também fossem rebaixados para a Eerste Divisie. Bastou para que despontasse o discurso comum nessas situações, dando conta de que a temporada 2021/22 do campeonato de acesso seria "o maior", ou "o melhor" da história da Eerste Divisie. Maior, no sentido de esbanjar tradição, ele pode até ser. Mas no sentido de ser o melhor, de indicar uma disputa ainda mais empolgante do que já existe pelas duas vagas diretas à primeira divisão (campeão e vice), talvez não seja bem assim. Há favoritos claros. Dois deles são clubes que tiveram a pior decepção que se pode imaginar no futebol neerlandês: chegar perto do acesso à Eredivisie, via repescagem, e morrer na praia. São eles De Graafschap e NAC Breda

O De Graafschap talvez seja o principal candidato ao título da segunda divisão holandesa. Até pela vontade de superar o drama: já são duas temporadas seguidas de decepções. Em 2019/20, os Superboeren vinham perto do acesso, na vice-liderança, quando a pandemia de COVID-19 eclodiu, tornando impossível que o campeonato continuasse. Na temporada passada, foi ainda pior para o clube de Doetinchem. Por 37 das 38 rodadas, ficou na segunda posição, que garantia a subida à elite. Porém, tropeços nas rodadas finais permitiram a chegada do Go Ahead Eagles - e na última rodada, o drama absoluto: o Go Ahead Eagles o superou em pontos, virou o vice-campeão. Ficaria pior: logo na primeira fase da repescagem de acesso/descenso, o Roda JC o eliminou. Sobrou para o técnico Mike Snoei, treinador nessas duas decepções, demitido. Caberá a Reinier Robbemond treinar um time que tem dois símbolos do De Graafschap (o goleiro Hidde Jurjus e o zagueiro Ted van de Pavert), mais alguns bons reforços - principalmente no ataque, com Danzell Gravenberch, Joey Konings e Giovanni Korte.

O NAC Breda perdeu dois destaques. Passou por turbulências. Mas tem um time sólido, que tentará de novo o acesso (Pro Shots)

O NAC Breda também foi outro clube a sentir a dor de perder a chance de voltar à Eredivisie, após dois anos: perdeu a decisão da vaga para o NEC, em casa. Depois, perdeu até mais destaques da equipe: o meio-campista Lex Immers encerrou sua carreira, e o atacante Sydney van Hooijdonk (sim, filho de Pierre) conseguiu a transferência que tanto desejava - no caso, para o Bologna-ITA. Além do mais, a decepção da torcida foi tamanha que a virulência dos protestos levou o técnico Maurice Steijn e o diretor técnico Ton Lokhoff (ídolo do clube enquanto jogador) a deixarem o clube aurinegro do sul neerlandês. Ex-jogador da equipe, Edwin de Graaf receberá no NAC Breda sua primeira chance como treinador. E terá uma base relativamente inalterada para dar uma das duas vagas na elite ao time de Breda: o goleiro Nick Olij, o meia Thom Haye, o atacante Mario Bilate. Além do mais, alguns reforços trazem qualidade técnica - como o atacante Ralf Seuntjens, tirado do... De Graafschap.

E dos times que caíram? Segundo questionamento da revista Voetbal International com os técnicos dos 18 clubes da segunda divisão, o Emmen é o maior candidato ao bate-e-volta rumo à primeira divisão. É até compreensível que se pense assim, pela ótima impressão que o time causou nas três temporadas em que ficou na Eredivisie. De mais a mais, o técnico Dick Lukkien, considerado o maior responsável pela boa fase dos Emmenaren, segue por lá. Mas o grupo de jogadores se reformulará à força: afinal, destaques como Michael de Leeuw e Sergio Peña já não estarão mais lá. Assim, convém não ter muitas expectativas com o time alvirrubro. 

Pior ainda é a situação do ADO Den Haag: o importante para o clube tradicional de Haia nem é disputar o acesso, mas continuar existindo. E nem se sabe qual será o comprador do clube, já que a empresa chinesa United Vansen quer vendê-lo. Enquanto um grupo norte-americano e um grupo de advogados (liderados por Martin Jol, bandeira do clube, ex-jogador e ex-treinador) disputam o comando, nomes como Michiel Kramer e Nasser El Khayati deixaram o clube de Haia. Restará a nomes como o goleiro Luuk Koopmans e o atacante Vicente Besuijen manterem as esperanças.

Por enquanto, o VVV-Venlo segura Giakoumakis. Se o grego ficar, pode ser muito útil na tentativa de voltar à Eredivisie (Pro Shots)

Se há um clube rebaixado da Eredivisie que tem mais chance de subir imediatamente, é o VVV-Venlo. Não só por ter um técnico acostumado a trabalhar em campanhas de acesso na Alemanha (Jos Luhukay, que chegou já nas últimas rodadas do Holandês passado), mas também por manter nomes experientes, como o meio-campista Danny Post. Principalmente, talvez, por ter segurado o grande destaque na campanha do rebaixamento. Não que falte vontade de vender Georgios Giakoumakis, mas enquanto ninguém chega com dinheiro, os Venlonaren mantêm o grego, artilheiro da primeira divisão no ano passado, com 26 gols. 

Robert Mühren foi o destaque do campeão Cambuur em 2020/21. Ficará na segunda divisão para tentar o destaque de novo, no Volendam (fcvolendam.nl)

Por falar em artilheiro, um goleador é o principal candidato a catapultar o Volendam a, enfim, conseguir o retorno à elite, após 13 anos. Desde a temporada passada, a "Outra Laranja" é considerada um dos times mais agradáveis de serem vistos na segunda divisão, pelo estilo ofensivo pregado pelo técnico Wim Jonk. Aí, não bastassem nomes como o zagueiro Micky van de Ven (cogitado pelo... Olympique de Marselha) e o meio-campo Kevin Visser, quem chegou foi simplesmente o goleador da Eerste Divisie passada. E não é um simples goleador: Robert Mühren foi o segundo jogador a deixar mais bolas na rede numa só temporada, em toda a história da segunda divisão neerlandesa, com 38 gols em 37 jogos. Preferiu deixar o Cambuur na Eredivisie e retornar ao Volendam, para tentar levá-lo de volta à primeira divisão, para possibilitar que o apelido "Heen-en-Weer" (mal traduzindo, "clube iô-iô", sobe e desce) pelo menos possa ser lembrado. Nessas possíveis surpresas, também são passíveis de serem citados Excelsior - em que pese ter perdido seu destaque, Elias Mar Ómarsson - e Roda JC, que jogou a repescagem de acesso.

Nos times B dos clubes grandes, Van Nistelrooy terá a primeira chance como treinador, com a equipe de aspirantes do PSV (psv.nl)

E os times B? De certa forma, os técnicos deles são mais badalados do que os jogadores. Que o digam Jong Ajax e Jong PSV, tendo como respectivos treinadores John Heitinga e Ruud van Nistelrooy, no que será a primeira experiência de ambos no comando de uma equipe profissional. No time B Ajacied, os destaques - Calvin Raatsie, Youri Regeer, Kenneth Taylor, Kian Fitz-Jim, os brasileiros Danilo e Giovanni - devem se alternar com o grupo do time principal. Na equipe de aspirantes em Eindhoven, convirá prestar atenção em nomes como o zagueiro brasileiro Luis Felipe e o atacante Fodé Fofana. Sem contar os times B de AZ e Utrecht, também em disputa.

No entanto, até por serem proibidos de jogar a primeira divisão, os times B de clubes grandes são meros coadjuvantes da segunda divisão. E mesmo na disputa do título e do acesso, em que pesem os vários clubes tradicionais, a possibilidade é menos democrática do que parece. Será a maior "segunda divisão", sim. A melhor, nem tanto.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Van Gaal, terceira vez: o desempate por um sonho

Mesmo longe, Louis van Gaal manteve a seleção masculina da Holanda perto do coração - como nesta visita ao amistoso pré-Euro, contra a Escócia, em Portugal. Agora, ele a trouxe para perto de vez, voltando para tentar realizar o sonho de fazer dela campeã mundial (Pro Shots)

Desde a demissão do Manchester United, em 2016, Louis van Gaal vivia tranquilo, de certa forma. Cumpria a promessa feita à esposa Truus van Gaal, companheira fiel há 13 anos: diminuiria o ritmo de trabalho, daria mais tempo de convivência a ela, curtiria com Truus a casa onde vivem, no Algarve, região de balneário em Portugal. Até mesmo indicou que, sim, o clube inglês tinha sido seu último trabalho. Mas sempre deixava uma porta entreaberta para voltar a treinar. Ainda mais se fosse treinar uma seleção. Pois bem, por desacertos do destino e desorganizações da federação dos Países Baixos, a chance reapareceu. E Van Gaal aceitou voltar a comandar a seleção masculina de seu país natal, pela terceira vez, para desempatar um cenário que incluiu a péssima primeira passagem e a ótima volta. Tudo para tentar realizar um sonho, o maior sonho de sua carreira: fazer da Laranja uma seleção campeã mundial.

A bem da verdade, Louis tinha esse sonho de fazer dos Países Baixos uma equipe nacional campeã desde sua primeira passagem pelo comando, a partir de 2000. Ali, tinha até mais respaldo: vinha das marcantes passagens por Ajax e Barcelona, comandaria uma geração na qual muitos destaques (Edwin van der Sar, Frank e Ronald de Boer, Edgar Davids, Clarence Seedorf, Marc Overmars....) haviam começado sob ele nos Ajacieden, enfim, parecia o técnico certo na hora certa. Mais: Van Gaal parecia ter carta branca para comandar os destinos do futebol neerlandês - a ponto de criar um plano de ação para todas as seleções masculinas, que deveria ser posto em prática, com a intenção de fazer a Laranja furar a barreira que nunca furou. A tal ponto que ele mesmo, Van Gaal, foi o técnico da equipe que foi ao Mundial sub-20 em 2001.

Tanto domínio era perigoso demais nas mãos de alguém que sempre se definiu como "arrogante e dominador, mas também compreensivo". E deu muito errado. Van Gaal não notara: a geração que era novata sob ele no Ajax já estava em clubes de centros mais competitivos, já tinha experiência, já não aceitava mais certas ordens tão docilmente. Sua inflexibilidade contra um grupo de jogadores que se sentia acuado (havia até reclamações sobre seguranças contratados) foi uma das razões que fez a Holanda fracassar nas eliminatórias da Copa de 2002 - ausência mais comentada aqui neste link.

A dor do fracasso na primeira passagem, em 2000 e 2002 (Reprodução)

Só o fato de sua demissão, ainda em 2001, ter se dado numa entrevista coletiva que mostrou Van Gaal com os olhos marejados indicava o quanto o nativo de Amsterdã desejava fazer da Holanda uma seleção mundial, talvez como nunca tenha desejado fazer qualquer outra coisa dentro do futebol. Mas ainda era imaturo demais para tanto. O tempo passou. Van Gaal teve mais experiências. Reconstruiu sua carreira com as ótimas passagens por AZ (fazer de um clube médio campeão holandês é sempre um feito) e Bayern de Munique (em que pese um fim turbulento). E a fada madrinha do destino lhe deu a segunda chance: à disposição após o vexame laranja na Euro 2012, Van Gaal era, de novo, o nome mais apropriado.

E aí, quase deu certo. É unânime entre jornalistas: o Van Gaal excessivamente autoritário da primeira passagem foi mais adequado na segunda. Queria controle total, sim. Mas sabia ouvir os jogadores, sabia ser mais maleável aos desejos deles, sabia ser mais paciente. Até porque a maioria dos convocados para a Laranja entre 2012 e 2014 teve sua primeira chance na seleção principal pelas mãos dele (só para citar três: Jasper Cillessen, Daley Blind e Memphis Depay). De quebra, Louis sabia ser firme com os mais experientes, sem desrespeitá-los. Basta citar que, antes da Copa de 2014, deu um ultimato a Wesley Sneijder: ou ele melhorava sua forma física, ou corria risco até de perder lugar entre os titulares na seleção. Sneijder chegou perfeitamente preparado à reta final dos treinos para aquela Copa - e foi elogiado pelo técnico.

Em 2014, mais maleável sem perder o comando jamais, Van Gaal fez trabalho altamente elogiável com a Laranja (Getty Images)

O respeito que tinha dos mais velhos e o comando adequado que tinha sobre os mais jovens fez com que Van Gaal tivesse mais êxito até para mudanças drásticas e emergenciais, como a que fez pouco antes daquele Mundial há sete anos: colocar a Holanda jogando com três zagueiros. Era necessário, diante da lesão no joelho que tiraria Kevin Strootman da Copa (e diante de um grupo que tinha uma Espanha ainda campeã do mundo e um Chile com uma geração no auge). O técnico foi firme aos 23 convocados, sem exagerar na autoridade: ou aquilo era testado, ou a Laranja teria estadia curta no Brasil. Os jogadores tiveram boa vontade. Van Gaal foi reconhecido por todos como um treinador de comando adequado (duro sem ser autoritário, tolerante sem ser frouxo). Houve a sorte do time ter se entrosado rapidamente - e de Arjen Robben ter tido na Copa algumas das melhores atuações de sua carreira. E a Holanda voltou para casa com um terceiro lugar surpreendente e aplaudido.

De lá para cá, as duas partes tiveram um caminho errante. Van Gaal teve no Manchester United uma passagem como outras tantas em sua carreira: começou bem, mas seus personalismos o fizeram terminar mal. A seleção masculina da Holanda dispensa descrições mais profundas de seus descaminhos: a defasagem de Guus Hiddink e a inexperiência de Danny Blind nas eliminatórias da Euro 2016, um Dick Advocaat resultadista para tentar a vaga na Copa de 2018 (chegou tarde demais), um trabalho consistente de Ronald Koeman que só foi interrompido pela terceira sondagem do Barcelona, sempre o sonho da carreira de Koeman; e o voto de confiança dado a Frank de Boer, que não fez jus a ele - quando a Laranja se viu em situação difícil na Euro 2020(+1), desmoronou.

Simultânea e espertamente, Van Gaal sempre se dizia afastado do futebol sem fechar a porta de vez. Entre a saída de Koeman e a vinda de Frank de Boer, chegou a ser sondado pela federação para a volta - até pensou em nomes para a comissão técnica, mas o temor sobre a dominação que faz questão de exercer o afastou do cargo. Agora, a federação não tinha alternativa. Louis foi escolhido o melhor treinador holandês de todos os tempos, empatado com Rinus Michels, em edição da revista Voetbal International. Ele se envaidecia da receptividade do público (celebrou ao L'Équipe:"Quando Koeman saiu para o Barcelona, as pesquisas de opinião davam 30% para o meu nome. Agora, dão 80%"). Dava declarações mais ousadas sobre o que via de errado ou certo na Laranja (ao entregar um prêmio a Sarina Wiegman, criticou a falta de coletividade vista na Euro masculina: "Um time de estrelas não conseguiu nada"). Talvez por saber: ele era o nome, pela falta de confiabilidade dos técnicos holandeses da atualidade e pelo pouco tempo que um estrangeiro teria para se aclimatar ao país e ao elenco.

A escolha de Van Gaal deixa claro: a federação dos Países Baixos deixará reformulações e novidades para depois. Agora, o mais importante é fazer a tradicional seleção voltar a disputar uma Copa do Mundo. Por isso, foi dada carta branca a Van Gaal, que trouxe velhos conhecidos de 2014 para a comissão técnica (Danny Blind para auxiliar técnico, Frans Hoek como treinador de goleiros) e convidou uma possível aposta (Henk Fräser, de trabalho elogiável no Sparta Rotterdam, acumulará o cargo de auxiliar). 

E Van Gaal aceitou tentar realizar seu sonho, pela terceira vez. Tentará superar as desconfianças de que está velho e defasado. Tentará justificar porque é um dos grandes comandantes do futebol da história dos Países Baixos. Tem "casca" para aguentar a pressão. Até porque recebeu a permissão: poderá continuar morando em Portugal, com a companheira Truus ao lado...

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Ainda não dá

No futebol feminino olímpico, a Holanda mostrou mais valor diante dos Estados Unidos. Superou as falhas da defesa, com um ataque personificado na fenomenal Miedema. Mas errou na hora decisiva, e foi eliminada pelas experientíssimas americanas (Pim Ras)


A boa participação na fase de grupos do torneio olímpico de futebol feminino animou a Holanda (Países Baixos). A ponto do sonho de poder superar os Estados Unidos nas quartas de final ter motivado até palavras mais otimistas - Lieke Martens dizia que "tinha chegado a hora de tirá-las do torneio". E as Leoas Laranjas até que se esforçaram: se a defesa continuou falhando, o ataque (mais precisamente, Vivianne Miedema) deu problemas ao Team USA. Só que os momentos decisivos do jogo mostraram: as neerlandesas ainda têm o que aprender na hora da pressão. Por isso, estão eliminadas.

Poderiam ter sido eliminadas até durante o tempo normal, a bem da verdade. O que se esperava - até se temia - aconteceu: as norte-americanas começaram mostrando a força e a intensidade habitual em campo, pressionando uma zaga reconhecidamente frágil, deixando as atacantes da Holanda isoladas. Tanto que Tobin Heath até fez um gol anulado, aos 10', e quase marcou de cabeça, aos 14', sendo impedida por Sari van Veenendaal (e a trave). Porém, na primeira vez em que a Holanda escapou da pressão, aos 18', veio o gol. Com Miedema mostrando seu talento habitual: o domínio para cima de Abby Dahlkemper, o giro, o chute preciso no canto.

Seria notável manter uma vantagem no placar. Ainda mais diante do que os Estados Unidos seguiam mostrando no jogo, com os avanços de Samantha Mewis, a experiência de Tobin Heath, e principalmente, a habilidade de Lynn Williams, que renasceu no torneio olímpico. Titular pela primeira vez, coube a ela traduzir a superioridade ampla do Team USA ao fazer o cruzamento para que Mewis empatasse o jogo, aos 28', de cabeça, e marcar ela mesma o gol da virada, aos 31'. Diante de um miolo de zaga totalmente atarantado, com Stefanie van der Gragt dando muitos sustos e Dominique Janssen sendo superada por Williams na esquerda, era possível que houvessem mais gols estadunidenses.

A Holanda perdeu, mas Miedema ganhou: causou problemas à seleção norte-americana, com uma tremenda atuação, totalmente dominante no ataque (Pro Shots)

Não houve. Mais do que isso: houve a sequência da excepcional atuação que Miedema fazia no ataque. Mantinha a posse de bola, era marcada de perto (e superava a marcação), dava dores de cabeça às norte-americanas. Quase marcou antes do intervalo, aos 43', num cabeceio defendido por Alyssa Naeher. E logo no começo do segundo tempo, aos 54, num momento que parecia desanimado em Yokohama, o chute da camisa 9 entrou, após falha de Naeher. Era seu décimo gol em quatro jogos no torneio olímpico. Estava justificada a opinião da maioria holandesa que assistia ao jogo: "Miedema 2, Estados Unidos 2".

E o jogo ficou sério, muito sério. De um lado, Lineth Beerensteyn entrou no lugar de Van de Sanden, e foi enfim uma opção válida para fazer jogadas com Miedema. Do outro, as veteranas vieram a campo nos Estados Unidos, para resolver a parada: Christen Press, Alex Morgan, Megan Rapinoe... e vieram bem, atormentando a defesa laranja - tanto que Press fez mais um gol anulado, aos 63'. O jogo ficou muito igual. Poderia ter sido desempatado na bola do jogo, aos 81', quando Beerensteyn foi puxada por Dahlkemper. Lieke Martens bateu para aproximar os Países Baixos da consagração... mas bateu mal. Naeher pegou.

O drama até seguiu nos nove minutos restantes - e nos 30 minutos da prorrogação. De um lado, já no tempo extra, Miedema começou com duas chances nos dois primeiros minutos, e Martens chegou a um gol anulado. Do outro, mesmo com Aniek Nouwen melhorando na marcação, os espaços da Holanda na defesa eram um convite a ataques perigosos dos Estados Unidos: dois gols anulados no tempo extra (Press aos 109', Morgan aos 111'), e só Nouwen impediu um gol de Rapinoe no fim.

Porém, o pênalti perdido no tempo normal já dera um sinal: nos momentos agudos, a Holanda não teria frieza para fazer o que desejava diante dos Estados Unidos. E o time norte-americano, extremamente calejado em decisões, esperaria até o momento de resolver isso. Foi o que se viu na decisão por pênaltis: Naeher, contestada no gol, se transformou no destaque da partida, pegando as cobranças de Miedema (grande pena para a melhor holandesa em campo, incontestavelmente) e Nouwen. Cobranças perfeitas de Lavelle, Heath, Morgan e Rapinoe.

E Estados Unidos classificados às semifinais, encerrando os cinco anos de Sarina Wiegman no comando da seleção feminina, mergulhando holandesas como Martens, Miedema e Jackie Groenen em lágrimas. Porque a Holanda cresceu no futebol feminino, sim. Mas ainda não dá para superar as grandes seleções.

Jogos Olímpicos - futebol feminino - quartas de final

Holanda 2x2 Estados Unidos - Estados Unidos 4x2 nas cobranças de pênalti

Data: 30 de julho de 2021
Local: Estádio Internacional (Yokohama)
Árbitra: Kate Jacewicz (Austrália)
Gols: Vivianne Miedema aos 18' e 54', Samantha Mewis, aos 28', e Lynn Williams, aos 31'

Holanda
Sari van Veenendaal; Lynn Wilms, Stefanie van der Gragt, Aniek Nouwen e Dominique Janssen; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk e Jill Roord (Victoria Pelova); Shanice van de Sanden (Lineth Beerensteyn), Vivianne Miedema e Lieke Martens. Técnica: Sarina Wiegman

Estados Unidos
Alyssa Naeher; Kelley O'Hara, Abby Dahlkemper, Becky Sauerbrunn, e Crystal Dunn; Lindsey Horan, Julie Ertz e Samantha "Sam" Mewis (Christen Press); Lynn Williams (Rose Lavelle), Carli Lloyd (Alex Morgan) e Tobin Heath (Megan Rapinoe). Técnico: Vlatko Andonovski 

terça-feira, 27 de julho de 2021

Chegou a hora de se superar

A Holanda preferiu terminar a fase de grupos sem medo, mostrando mais uma vez a capacidade de fazer gols. Precisará manter isso, diminuindo as fragilidades para superar o desafio dos Estados Unidos (Pro Shots)

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) tinha mais condições de terminar como líder do grupo F do torneio olímpico de futebol feminino, mesmo antes da última rodada começar. Mas também tinha mais riscos de enfrentar os Estados Unidos, enfraquecidos, mas sempre respeitáveis e perigosos. Entre a liderança e um caminho mais suave no mata-mata dos Jogos Olímpicos, as Leoas preferiram a primeira opção. A goleada por 8 a 2 sobre a China foi mais uma confirmação do poderio ofensivo - e, bem, da fragilidade defensiva também. São dois pontos importantes, diante de uma constatação: chegou a hora da Holanda superar seus limites, para tentar chegar às semifinais olímpicas.

De certa forma, o jogo foi uma repetição do que se viu contra Zâmbia e Brasil, mesmo com duas alterações no time - Merel van Dongen na zaga, no lugar da "pendurada" Stefanie van der Gragt; Lineth Beerensteyn começando no lugar da poupada Vivianne Miedema. O começo foi de força ofensiva, com Shanice van de Sanden personificando isso, graças à sua velocidade e, principalmente, ao primeiro gol, aos 12', após lançamento em profundidade de Jackie Groenen. Os espaços sobravam. E a boa atuação de Groenen e Daniëlle van de Donk no meio-campo só aumentava a capacidade holandesa de construir outra vitória tranquila, diante de uma China que teve até mudança na defesa, ainda no primeiro tempo (Wang Ying), para tentar estancar a sangria.

Todavia, aos poucos, o relaxamento holandês foi tamanho que permitiu à China chegar um pouco mais ao ataque, pelo esforço de Wang Shuang e Wang Shanshan, as únicas duas que traziam mais criatividade a um time ofensivamente fraco. Tanto que o gol do empate, aos 28', veio após troca de passes que envolveu o miolo de zaga, de novo lento em excesso. De quebra, aos 35', Shanshan teve até chance de virar, num chute de média distância. Só que esse período de melhoria chinesa foi encerrado abruptamente pelo bom momento que Beerensteyn viveu no jogo. Se estava discreta no meio do ataque, a atacante consertou isso fazendo dois gols, ainda no primeiro tempo - o 3 a 1, aliás, foi muito bonito.

Miedema nem precisou jogar 90 minutos para fazer história de novo: nunca ninguém fez tantos gols numa só edição dos Jogos Olímpicos (Pim Ras)

A vantagem já permitiu que Sarina Wiegman colocasse mais jogadoras em campo, para poupar outras. Algumas delas foram bem úteis. Primeiro, Kika van Es: a lateral esquerda cruzou com precisão na cabeça de Lieke Martens para o 4 a 1, já no começo do segundo tempo. Depois, Victoria Pelova: novamente entrando bem em campo, novamente marcando um gol. Todavia, o destaque vindo do banco foi uma velha conhecida: Miedema. Nem mesmo vir do banco só aos 17 minutos da etapa complementar evitou que ela se destacasse, com mais dois gols, que a tornaram a recordista de gols numa só edição do torneio olímpico de futebol feminino. Martens também apareceu mais nos 45 minutos finais, fazendo até boas jogadas com a tradicional parceira de ataque. Houve, é verdade, uma falha no segundo gol chinês, de Wang Yanwen - outra troca de passes em meio às zagueiras holandesas.

21 gols na fase de grupos. Uma marca que até surpreendeu Sarina Wiegman ("Eu não esperava, esse tipo de resultado não acontece nos Jogos Olímpicos"). Mas que foi justificada, pelo volume ofensivo holandês - e, principalmente, pelas esplendorosas atuações de Vivianne Miedema. Porém, a defesa deixa preocupações: apenas as laterais têm saído mais contento, com Lynn Wilms e Dominique Janssen aparentemente mais firmes no setor. E o meio-campo sofre também com desarmes adversários. A treinadora também sabe disso: "Às vezes erramos na construção das jogadas, e abrimos espaços para contra-ataques".

Ainda assim, o ânimo para pegar as norte-americanas é visível. Nas palavras de Jackie Groenen ("Elas que venham"), nas de Van de Donk ("Elas não estão tão fortes"), até nas de Sarina Wiegman ("Acredito numa surpresa"). Pois bem, será necessário que esse ânimo signifique uma Holanda com as qualidades ofensivas, sem os defeitos defensivos, com concentração total para superar um Team USA que pode reagir da mediana fase de grupos num piscar de olhos, e que ainda chega como leve favorito, tantos são os talentos ali. Chegou a hora das Leoas Laranjas se superarem em campo, se querem mostrar mesmo que são candidatas a medalha.

Jogos Olímpicos - futebol feminino - fase de grupos

Holanda 8x2 China

Data: 27 de julho de 2021
Local: Estádio Internacional (Yokohama)
Árbitra: Salima Mukansanga (Ruanda)
Gols: Shanice van de Sanden, aos 12', Lineth Beerensteyn, aos 37' e 45' + 2, Lieke Martens, aos 47' e 70', Vivianne Miedema, aos 65' e 76', e Victoria Pelova, aos 72'; Wang Shanshan, aos 28', e Wang Yanyen, aos 68'

Holanda
Sari van Veenendaal; Lynn Wilms (Victoria Pelova), Merel van Dongen, Aniek Nouwen e Dominique Janssen; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk (Vivianne Miedema) e Jill Roord (Kika van Es); Shanice van de Sanden (Renate Jansen), Lineth Beerensteyn e Lieke Martens. Técnica: Sarina Wiegman

China
Peng Shimeng; Li Mengwen, Lin Yuping, Wang Xiaoxue e Guiping (Wang Ying); Yang Lina e Wang Yan (Wang Yanwen); Xiao Yuyi (Li Jing), Wang Shuang e Zhang Xin; Wang Shanshan. Técnico: Jia Xiuquan

sábado, 24 de julho de 2021

Fazendo e desfazendo

Contra o Brasil, a seleção feminina da Holanda provou que tem um ataque digno de respeito. E também uma defesa que sofreu ainda mais (Sam Robles/CBF)

No torneio olímpico de futebol feminino, a seleção da Holanda (Países Baixos) chegou para o esperado confronto contra o Brasil sabendo: tinha um cenário parecido com o da Seleção. Forças inquestionáveis no ataque, desconfianças pesadas na defesa. E o empolgante empate por 3 a 3 em Miyagi só reforçou essa impressão. Ainda mais em relação às Leoas Laranjas. Porque o que a parte da frente do time fez, a parte de trás desfez. E a parte da frente nem produziu tanto em relação às brasileiras, que impressionaram positivamente no segundo tempo - e até saíram de campo com uma melhor sensação.

Na parte da frente, sem surpresas: Vivianne Miedema continuou muito eficaz, esbanjando capacidade para ser o principal destaque neerlandês neste torneio olímpico. A começar pela belíssima jogada com que abriu o placar, logo aos três minutos: um drible direto em Érika, e a finalização precisa (Daniëlle van de Donk já levantou o braço antes mesmo da finalização: sabia que a bola entraria...). Ainda teve a "ajuda" da falha de Bárbara, no cabeceio que rendeu o segundo gol. Mas não só: com a bola nos pés, Miedema seguiu com movimentação constante, com toques técnicos, novamente sendo o nome do jogo vestindo laranja.

Porém, de certa forma, a camisa 9 foi a única atacante a aproveitar plenamente as fragilidades da defesa brasileira - principalmente nas laterais, com Bruna Benites ainda improvisada na direita e Tamires dando certos espaços na esquerda. Shanice van de Sanden foi apontada por quem acompanhou o jogo nos Países Baixos como a pior da equipe: apenas correu com a bola, sem criar jogadas, sem ser efetiva nos momentos de contra-ataque. Lieke Martens até fez o que pôde, teve pelo menos uma boa chance de gol (aos 23'), mas também não aproveitou os espaços que Bruna Benites deu. No meio-campo, só Van de Donk teve alguma preponderância: Jackie Groenen se preocupou mais em ditar o ritmo do jogo (e mesmo assim, com dificuldades pelas boas atuações de Andressinha e Angelina), e Jill Roord não teve espaço para ajudar.o ataque como fez contra Zâmbia.

Miedema segue sendo celebrada. Com toda a justiça: mais dois gols, e novamente a melhor das Leoas Laranjas em campo (ANP)

Se o meio-campo holandês foi bloqueado com sucesso pelas brasileiras - ainda mais após as boas alterações de Pia Sundhage no intervalo -, claro que a defesa sofreria. Sofreu: os únicos nomes a saírem a contento foram Sari van Veenendaal (fez o que pôde, e não teve culpa nos gols) e Lynn Wilms (escalada na direita, a jovem agradou: fez o passe para o primeiro gol, e até que trabalhou bem para conter Andressinha e Marta). Se as laterais foram a fonte das dores de cabeça contra Zâmbia, agora o miolo de zaga deu problemas com suas desatenções. Se Stefanie van der Gragt foi bem na etapa inicial, tirando muitos cruzamentos de cabeça, falhou logo após o segundo gol de Miedema, ao cometer a falta em Ludmila, que virou pênalti, convertido por Marta para o 2 a 2. E Aniek Nouwen também foi vítima da atacante: recuou curto demais para Van Veenendaal, sem se tocar da rapidez da brasileira, que foi esperta para o 3 a 2. Dominique Janssen também teve lá suas dificuldades, pela esquerda. Mas pelo menos, compensou na bela cobrança de falta com que empatou o jogo, 

Um ponto que deu algum alívio à Holanda. Mas que aumentou o alerta. Só restou a Sarina Wiegman esta frase, após o jogo: "Melhor que as falhas tenham ocorrido agora do que em fases posteriores". Agora, é enfrentar a China. Quem sabe poupando nomes como Miedema, que saiu com leves dores na virilha. Tentando vencer. Mais importante, tentando se fortalecer para o jogo dificílimo que se avizinha nas quartas de final, seja contra Suécia ou contra Estados Unidos. Porque, até agora, na Holanda, o que o ataque faz, a defesa desfaz.

Jogos Olímpicos - futebol feminino - fase de grupos

Holanda 3x3 Brasil

Data: 24 de julho de 2021
Local: Miyagi Stadium (Miyagi)
Árbitra: Kate Jacewicz (Austrália)
Gols: Vivianne Miedema, aos 3' e aos 60', e Dominique Janssen, aos 79'; Debinha, aos 17', Marta, aos 65', e Ludmila, aos 68'

Holanda
Sari van Veenendaal; Lynn Wilms, Stefanie van der Gragt, Aniek Nouwen e Dominique Janssen; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk e Jill Roord; Shanice van de Sanden (Lineth Beerensteyn), Vivianne Miedema (Victoria Pelova) e Lieke Martens. Técnica: Sarina Wiegman

Brasil
Bárbara; Bruna Benites, Érika, Rafaelle e Tamires; Duda (Ludmila), Formiga (Angelina), Andressinha e Marta (Geyse); Bia Zaneratto (Andressa Alves) e Debinha. Técnica: Pia Sundhage