quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Achou-se um caminho

A Holanda ainda teve dificuldades contra a Itália. Mas a expressão de Van de Beek exemplifica bem a evolução da Laranja, mais valente e ofensiva no empate (Getty Images)

Enfrentar a Itália - ofensiva, motivada, entrosada, há 18 jogos sem perder - era algo temerário para uma seleção da Holanda (Países Baixos) lenta e desatenta, como se mostrara nos dois primeiros jogos sob o comando de Frank de Boer. E obviamente, o técnico da Laranja sabia disso. Arriscou mudanças importantes para o quarto jogo pela Liga das Nações, fora de casa, contra um adversário de respeito. E se a vitória ainda não veio sob o novo técnico, pelo menos a seleção neerlandesa mostrou no 1 a 1 desta quarta-feira que nem tudo está perdido para ela.

Está certo que a principal mudança no esquema holandês de jogo - voltar a usar três zagueiros, com cinco homens na defesa, algo que não acontecia desde 2018 - causou algumas dificuldades no começo. Havia espaço para a Itália avançar. Isso se viu já no primeiro minuto, quando Jasper Cillessen já teve de trabalhar, num chute de Lorenzo Pellegrini. Viu-se, principalmente, na jogada do gol da Azzurra, aos 16', quando um lançamento perfeito de Nicolò Barella (outra boa partida) pegou Nathan Aké e Stefan de Vrij mal posicionados, e Pellegrini ficou livre para entrar na área e fazer 1 a 0. Viu-se pouco depois, aos 23', quando Cillessen fez defesa até mais difícil, num chute de Ciro Immobile.

Entretanto, se se viam problemas, também se notavam crescimentos na Holanda, à medida que a etapa inicial progredia. Frenkie de Jong fazia mais uma de suas ótimas atuações, saindo sempre com segurança e dando o passe certo para desenvolver contra-ataques. Se Georginio Wijnaldum começou falho, Donny van de Beek enfim justificou uma escalação sua, chegando ao ataque como sempre fazia. Até mesmo Daley Blind, "liberado" para avançar com a escalação de Aké (melhorou após o lance do gol italiano), foi opção mais visível no jogo. E o gol do empate sintetizou tudo isso: Frenkie de Jong "achou" Blind na esquerda, este cruzou, Memphis concluiu, e Van de Beek conseguiu acertar o rebote de Gianluigi Donnarumma nas redes.

Se a Holanda chegou mais ao ataque em Bérgamo, boa parte disso se deveu às saídas de bola sempre precisas de Frenkie de Jong. Só faltou acertar as chances de gol (BSR Agency)


Porém, é claro, houve coisas a consertar, mesmo numa atuação promissora como a que viu da Oranje em Bérgamo. Na defesa, Hans Hateboer novamente deixou a desejar: lento, o lateral direito errou muito em suas tentativas de ajudar a defesa - o pior erro, no segundo tempo, deixou Immobile na cara do gol aos 57', e a Itália só não fez 2 a 1 pela providencial saída de Cillessen, que defendeu com os pés. Aliás, com esta e mais duas boas defesas no primeiro tempo (aos 39', em chutes de Leonardo Spinazzola e Danilo D'Ambrosio), o goleiro valorizou um pouco seu nome, que andou questionado. No ataque, Luuk de Jong até apareceu mais do que contra a Bósnia. Mas aparecer mais não quis dizer "jogar bem": quis dizer apenas que o De Jong "mais velho" perdeu boas chances de gol - principalmente no primeiro tempo, de cabeça, aos 36'.

Finalmente, houve os momentos que fizeram crer que nem tudo está perdido para a Holanda. O início do segundo tempo foi um desses, com chances se empilhando (Wijnaldum aos 49', Depay aos 55') e um time com muita gente no ataque. A Holanda conseguiu trocar passes, ser perigosa, pressionar a Itália. Faltou só a "eficiência", um velho problema neerlandês: ter gente capaz de acertar o gol - algo necessário, diante de outra atuação segura dos destaques italianos na zaga (Gianluigi Donnarumma e, principalmente, Giorgio Chiellini). E, na reta final do jogo, talvez tenha faltado mais ambição de Frank de Boer para ganhar um jogo que poderia ter sido ganho. O técnico demorou para mudar - e quando o fez, preferiu proteger a defesa com a entrada de Joël Veltman. Ryan Babel só entrou quando já quase não havia tempo para mais nada.

E ficou no placar o 1 a 1. Que dificulta a Holanda de repetir o vice-campeonato na Liga das Nações. Que faz crescer ainda mais a importância dos jogos contra Bósnia (em casa) e Polônia (fora), em novembro, nos quais nem mesmo vencer pode ser suficiente, tendo em vista a superioridade da Itália na tabela do embolado grupo 1 da Liga A. Mas a médio prazo, pelo menos o empate em Bérgamo deu a aliviante impressão de que a Laranja achou um caminho promissor de jogo. Que invista nele, então. 

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 1

Itália 1x1 Holanda
Data: 14 de outubro de 2020
Local: Atleti Azzurri d'Italia (Bérgamo)
Árbitro: Anthony Taylor (Inglaterra)
Gols: 
Lorenzo Pellegrini, aos 16', e Donny van de Beek, aos 25'

Itália
Gianluigi Donnarumma; Danilo D'Ambrosio, Leonardo Bonucci, Giorgio Chiellini e Leonardo Spinazzola; Marco Verratti (Manuel Locatelli), Jorginho e Nicolò Barella; Federico Chiesa (Moise Kean), Ciro Immobile e Lorenzo Pellegrini (Alessandro Florenzi). Técnico: Roberto Mancini

Holanda
Jasper Cillessen; Hans Hateboer, Virgil van Dijk, Stefan de Vrij, Daley Blind (Joël Veltman) e Nathan Aké; Donny van de Beek, Frenkie de Jong e Georginio Wijnaldum; Luuk de Jong e Memphis Depay (Ryan Babel). Técnico: Frank de Boer

domingo, 11 de outubro de 2020

Um medo previsível

Frenkie de Jong avançou bem, mas o ataque holandês segue mal. Dzeko entrou, e a Bósnia assustou vez por outra. E a Holanda preocupa cada vez mais (BSR Agency)

Já no intervalo do jogo entre Bósnia e Holanda, terceira partida da seleção masculina dos Países Baixos pela Liga das Nações, um comentário resumiu o tamanho do desânimo que começa a tomar conta de quem acompanha a Laranja. Tal comentário veio de Jan Beuving, no programa "Langs de Lijn", a jornada esportiva da emissora de tevê NOS: "Nós estamos vendo um futebol no estilo de Frank de Boer. Mas isso não é maluquice, porque Frank de Boer é o técnico da seleção". E de fato, no 0 a 0 em Zenica, que começa a dificultar a situação holandesa na Nations League, viu-se um dos piores erros com que o ex-zagueiro costuma treinar suas equipes desde os tempos de Ajax: lentidão. E outros erros vieram: incompetência na finalização, fragilidade na defesa a contra-ataques... há muito a criticar.

Parecia que não haveria, quando a partida começou. Porque a Laranja começou como se esperava de um time superior (em nomes) à Bósnia: pressionando a saída de bola, adiantando meio-campistas, tentando criar chances. A primeira delas já veio aos cinco minutos, quando Stefan de Vrij cabeceou torto uma bola cruzada por Quincy Promes em cobrança de falta. Além do mais, avançando bastante pela direita, Denzel Dumfries poderia fazer jogadas com Donyell Malen (uma escolha até surpreendente), cujo entrosamento já vem do PSV.

Não foi o que aconteceu. Pior: a Bósnia começou a entender o jogo da Holanda. E ao entendê-lo, começou a ameaçar de um jeito até esperado: fechar-se na defesa, evitando troca de passes, e saindo rapidamente para o contragolpe. Foi assim que o time bósnio começou a ter espaço para avançar. Só faltou uma conclusão adequada: Milan Djuric foi desarmado por Virgil van Dijk aos 19', e furou o voleio, aos 28'. Já a Holanda só reagiu no fim dos primeiros 45 minutos. Aos 42', De Vrij novamente cabeceou perto do gol; no minuto seguinte, após troca de passes, Promes "atrapalhou" o chute de Marten de Roon.

No segundo tempo, a repetitividade continuou. Na frente, a Holanda tinha posse de bola, tinha nomes avançando (Frenkie de Jong, por exemplo, jogou à frente de uma maneira incomum para seu estilo)... mas nada de velocidade, nem de chances - a única foi num arremate de Georginio Wijnaldum, aos 51'. Atrás, a Oranje seguia deixando lacunas perigosas. Com as entradas de Sead Kolasinac e, principalmente, de Edin Dzeko, a Bósnia tinha gente que retivesse a bola para os contra-ataques. E assustou forte aos 69': Dzeko passou por De Roon (que piorou no decorrer da partida), puxou o contragolpe, passou a Miralem Pjanic, que estava sozinho na área. O 1 a 0 bósnio só não saiu porque Jasper Cillessen estava atento para espalmar.

Com avanços como os de Wijnaldum (foto) e a entrada de Berghuis, Holanda até ficou perto do gol no fim. Parou na incompetência - e nas boas defesas de Sehic (Pro Shots)

Só na reta final vieram algumas mudanças que tornaram o ataque holandês menos estéril. A mais importante delas, Steven Berghuis: no lugar de Malen, o atacante do Feyenoord mostrou que está a fim de aproveitar oportunidades. Berghuis foi o centro da pressão final neerlandesa em busca da vitória, criando duas ótimas chances - aos 78', quando cruzou para Luuk de Jong cabecear e exigir grande defesa de Sehic, e aos 85', quando recuou a bola rasteiro para Frenkie de Jong completar e ter o gol impedido por Darko Todorovic, bloqueando na pequena área. Vários foram avançando: Frenkie de Jong (perdeu chance aos 77', num chute após passe de Quincy Promes), Wijnaldum, até mesmo Virgil van Dijk, nos últimos minutos.

E talvez, o gol perdido de maneira bisonha por Ryan Babel, já nos acréscimos, ao chutar torto a bola que sobrou após cruzamento de Frenkie de Jong, seja o melhor símbolo dos erros que a Holanda já tem sobre Frank de Boer. A falta de eficiência nas finalizações; a falta de uso de determinados jogadores (Luuk de Jong, "homem-gol" por excelência, mal foi acionado nos 90 minutos); a lentidão na troca de passes curtos, sem uma tentativa de algo que vença a defesa adversária. Já cresce o medo de que a Laranja continuará assim, não só tornando difícil igualar o vice-campeonato na Liga das Nações passada, mas também diminuindo drasticamente as expectativas para a Euro-2021-que-era-2020, se ela acontecer. 

Mas com a escolha por Frank de Boer, todos estavam avisados, de certa forma.O benefício da dúvida vai se esgotando, com dois jogos sem gols marcados. Poucos se surpreendem. É um medo previsível. 

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 1

Bósnia 0x0 Holanda
Data: 11 de outubro de 2020
Local: Bilino Polje (Zenica)
Árbitro: Istvan Kovacs (Romênia)

Bósnia
Ibrahim Sehic; Darko Todorovic, Dennis Hadzikadunic, Sinisa Sanicanin e Advan Kadusic (Sead Kolasinac); Miralem Pjanic (Stjepan Loncar), Gojko Cimirot e Rade Krunic (Armin Hodzic); Benjamin Tatar (Amir Hadziahmetovic), Milan Djuric (Edin Dzeko) e Amer Gojak. Técnico: Dusan Bajevic

Holanda
Jasper Cillessen; Denzel Dumfries (Hans Hateboer), Virgil van Dijk, Stefan de Vrij e Daley Blind (Nathan Aké); Marten de Roon, Georginio Wijnaldum e Frenkie de Jong; Donyell Malen (Steven Berghuis), Luuk de Jong e Quincy Promes (Ryan Babel). Técnico: Frank de Boer

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Desconfianças justificadas

Frank de Boer tentou experimentar algumas coisas no amistoso contra o México. Mas a Holanda só deu mais razões para desconfiança e temor (ANP)

Podia ser apenas um amistoso sem mais coisas a valer. Mas Frank de Boer sabia: o resultado (e o que se visse em campo) contra o México, em Amsterdã, já traria uma pesada primeira impressão sobre seu trabalho iniciante na seleção masculina da Holanda (Países Baixos). Pois bem: as desconfianças já grandes sobre o que seria a Laranja sob seu comando aumentaram bastante, com a vitória mexicana por 1 a 0. Claro, perder sempre traz algo errado a ser consertado. Mas a atuação neerlandesa na Johan Cruyff Arena trouxe um formigueiro inteiro atrás da orelha de quem acompanha com atenção a seleção holandesa.

Pelo menos antes da partida, até que a escalação merecia algum otimismo. Afinal, vários nomes pedidos receberam chance entre os titulares: Tim Krul no gol, Owen Wijndal na lateral esquerda, Teun Koopmeiners no meio-campo e Steven Berghuis no ataque. Além disso, retomou o 4-3-3 habitual da seleção: Memphis Depay ficou bem mais adiantado - e circulou bem menos - do que costumava fazer sob Ronald Koeman. Entretanto, tão logo a partida começou em Amsterdã, notou-se a volta de duas características preocupantes da Holanda em seus péssimos tempos vividos entre 2015 e 2017: lentidão e erros defensivos. Foi o que começou a abrir caminho para o México: um erro de Hans Hateboer na frente da área, aos 12', deixou Jesús "Tecatito" Corona livre com a bola - El Tri só não fez 1 a 0 porque Raúl Jiménez errou o chute após Corona passar. Aos 15', quem errou foi Krul: o goleiro repôs a bola nos pés de Corona, que arrematou rente à trave direita, num chute cruzado.

Só então a Laranja acelerou um pouco mais o seu ataque. Está certo que focou as jogadas exageradamente na esquerda, com Wijndal esforçado nos avanços. Mais esforçado ainda foi Berghuis - que fez o goleiro Alfredo Talavera trabalhar seriamente, num chute rebatido na pequena área aos 19', logo após Memphis Depay também arriscar, de fora da área. De quebra, Ryan Babel também teve sua vez de buscar o gol, aos 26'. Ainda assim, não era uma pressão confiável. O meio-campo auxiliava pouco nos ataques, com duas más atuações de Donny van de Beek e Georginio Wijnaldum.

O México se segurou na defesa, com até cinco nomes na fila - e saía rapidamente para o ataque, graças às boas atuações de "Tecatito" Corona e Raúl Jiménez. Some-se a isso a fragilidade defensiva nas laterais - Wijndal errou aos 34', dando chance a Rodolfo Pizarro, enquanto Hateboer foi superado com facilidade por Corona aos 35' -, e o México, aí sim, começou a trazer perigo real ao gol de Krul. Nem tanto no primeiro tempo, quando só Andrés Guardado tentou o gol de novo, num chute aos 42'. Mas na etapa final, com o miolo de zaga mudado (Joël Veltman e Nathan Aké vieram para o jogo), o desentrosamento neerlandês foi o que os mexicanos precisavam para serem superiores definitivamente.

Desentrosamento, lentidão e desatenção: todos esses erros da Holanda abriram caminho para o México se impor e chegar à vitória (Pim Ras Fotografie)

O espaço com que Luis Rodríguez cruzou uma bola perigosa, aos 51', já sinalizava isso. Corona quase marcou o gol que merecia, aos 55', aproveitando passe de Héctor Herrera, só sendo evitado pela defesa de Tim Krul. Mas até o lance do pênalti (um pênalti, como na Copa de 2014...) que deu a vitória a El Tri indicou a desorganização que tomou conta da defesa: aos 59', bola aérea, e Aké derrubou Raúl Jiménez - que converteu a cobrança com categoria.

As mudanças em sequência até fizeram da Holanda um time mais ofensivo. Afinal, ela terminou a partida com quatro nomes na frente - Calvin Stengs, Luuk de Jong, Quincy Promes e o próprio Memphis Depay. Ainda assim, os ataques holandeses não eram construídos, mas apenas tentados, na base do "abafa". Foi assim que o empate quase veio, aos 88', quando Luuk de Jong cabeceou em cima de Talavera - e no rebote, Memphis Depay chutou no travessão. Mas de resto, com um ataque desarvorado e um meio-campo sem intensidade nem força, o México teve facilidade para manter a sua terceira vitória jogando em Amsterdã na história - nunca uma seleção não-europeia conseguira isso.

E Frank de Boer já sabe: já entrará sob pressão nos jogos da Liga das Nações, a começar pela partida contra a Bósnia, no próximo domingo. Se antes ainda merecia o benefício da dúvida, a julgar pelo amistoso, as desconfianças pesadas sobre seu trabalho estão cada vez mais justificadas.

Amistoso

Holanda 0x1 México
Data: 7 de outubro de 2020
Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Árbitro: Srdjan Jovanovic (Sérvia)
Gol: Raúl Jiménez, aos 60' 

Holanda
Tim Krul; Hans Hateboer, Virgil van Dijk (Joël Veltman), Stefan de Vrij (Nathan Aké) e Owen Wijndal (Quincy Promes); Georginio Wijnaldum (Marten de Roon), Donny van de Beek e Teun Koopmeiners; Steven Berghuis (Calvin Stengs), Memphis Depay e Ryan Babel (Luuk de Jong). Técnico: Frank de Boer

México
Alfredo Talavera; Luís Rodríguez, Edson Álvarez (Luis Romo), Héctor Moreno (Néstor Araújo), César Montes e Jesús Gallardo; Andrés Guardado (Jonathan dos Santos), Héctor Herrera (Omar Govea) e Rodolfo Pizarro (Orbelín Pineda); Jesús Manuel Corona e Raúl Jimenez (Henry Martín). Técnico: Gerardo "Tata" Martino

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Com todo o cuidado

Frank de Boer começa a treinar a seleção holandesa para valer - tentando alterar o mínimo possível, pelo menos neste início (ANP)


No fundo, Frank de Boer sabe o tamanho da pressão que atrai para si ao ser técnico da seleção masculina da Holanda (Países Baixos), que vai para mais três datas FIFA ao longo desta e da próxima semana - há amistoso nesta quarta, contra o México, em Amsterdã, além de mais dois jogos pela Liga das Nações (dia 11, contra a Bósnia, em Zenica, e dia 14, contra a Itália, em Bérgamo). Mais do que isso: De Boer sabe o tamanho da desconfiança que tem sob o seu trabalho. Por tudo isso, o técnico que começará seu trabalho à frente da Laranja fez questão de alertar, na entrevista coletiva da segunda-feira passada, logo após a apresentação dos 24 convocados na cidade de Zeist: "Primeiro, quero ter uma visão panorâmica, como se eu estivesse num helicóptero. Acho lógico que, se você acabou de chegar, não faz tantas experiências". 

Trocando em miúdos: pelo menos neste começo de trabalho, Frank de Boer cumprirá exatamente o critério principal que norteou a federação holandesa na escolha do sucessor de Ronald Koeman - não mexer excessivamente na base que Koeman deixou pronta. Tanto que, entre os 24 convocados (eram 25, antes dos cortes de Mohamed Ihattaren e Steven Bergwijn, ambos lesionados), a única novidade digna de nota era a estreia de Teun Koopmeiners, promissor volante do AZ, nas convocações da Laranja. Nem mesmo nomes contestados, como Kevin Strootman ou Ryan Babel, ficaram de fora. E Frank de Boer deixou claro, na entrevista coletiva, que ambos têm certa importância: "Por que chamá-los? Ora, continuam jogando, continuam sendo importantes dentro e fora de campo". Por falar no "fora de campo", Frank até mesmo indicou que a palavra dos mais veteranos em matéria de seleção deve ser preponderante: "É claro que os mais jovens escutam o que eu falo, mas escutarão ainda mais se vier de um Gini [Wijnaldum], um Daley [Blind], um Virgil [van Dijk]".

Se o novo técnico da seleção masculina holandesa tem toda a cautela possível antes de fazer as alterações previsíveis que uma hora fará ("No processo, sempre avaliaremos o que deve ou não mudar"), os principais jogadores também foram cuidadosamente otimistas com o comandante que acabou de chegar. Na entrevista coletiva de segunda passada, ladeando o técnico, o capitão Van Dijk acalmou: "Não havíamos indicado nem o nome dele nem o de nenhum outro, mas Frank é dos mais adequados nomes para seguir a linha de Koeman". Nesta terça, Wijnaldum até falou um pouco mais ("Fui escalado na ponta-direita [contra a Itália], fiz o meu melhor, mas prefiro jogar no meio-campo"), mas nada que ameaçasse ou questionasse De Boer ("Nós não conversamos com ele sobre posicionamento. Ele só conversou na segunda-feira, sobre suas ideias de futebol, apontou o que vai bem e onde podemos melhorar, e foi positivo").

Até mesmo a única lamentação na convocação foi unânime: a ausência de Ihattaren. Iniciando a temporada no banco de reservas do PSV (até surpreendentemente), supostamente abatido por não ter saído do banco contra Polônia e Itália, na Liga das Nações (boatos deram até conta de que Ihattaren pensava em voltar atrás em sua escolha de "seleção", pensando em jogar por Marrocos), o jovem ponta-de-lança tinha tudo para receber alguns minutos de oportunidade - ainda mais no jogo contra o México. Mas uma leve lesão muscular foi o suficiente para o corte. Mesmo assim, no que depender de quem estiver na seleção, as portas seguirão abertas. Tanto da parte de Frank de Boer ("Ele tem um grande futuro à frente, e pode ser importante para nós já na Euro"), quanto da parte de Wijnaldum ("Eu o vi pela primeira vez na convocação passada, pude aconselhá-lo, é um bom rapaz").

Nesta foto, há um nome que não jogará mas poderia (Tim Krul, à frente); outro que terá chance com a suspensão de Memphis Depay (Luuk de Jong, no meio); e mais outro contestado que segue na convocação, Ryan Babel, no fundo (Pim Ras Fotografie)


O único momento em que Frank de Boer aumentou um pouco seu tom foi ao lamentar o amistoso bissexto contra o México: "O ideal seria não jogar [esse amistoso], porque aí a preparação seria mais tranquila. Eu preferia que nos preparássemos melhor". Ainda assim, até mesmo o jogo contra El Tri - cujo integrante Edson Álvarez, jogador do Ajax, reconheceu que jogos contra a Holanda "têm peso especial após aquela partida na Copa de 2014" - pode trazer benefícios ao técnico. Afinal de contas, será uma rara oportunidade para fazer testes, experimentar novos nomes. Como o supracitado Koopmeiners, no meio-campo. Ou talvez ver Hans Hateboer jogando como faz melhor na Atalanta, como ala, num time com três zagueiros. Ou até mesmo ver Tim Krul, o único goleiro que anda em fase aceitável dos três relacionados na Oranje - o titular Jasper Cillessen é reserva no Valencia, e Marco Bizot anda falhando pelo AZ no início do Campeonato Holandês.

Ainda assim, Frank de Boer sinaliza que nem mesmo o amistoso terá mudanças bruscas (com relação aos goleiros, o treinador opinou que "nesse momento, os três convocados são os que merecem estar aqui"). As únicas mudanças para os jogos que vêm por aí devem mesmo ser Stefan de Vrij, enfim, como titular da zaga laranja ao lado de Van Dijk, bem como Luuk de Jong ocupando a vaga do suspenso Memphis Depay contra a Bósnia ("Cresci muito na temporada passada", reconheceu o atacante do Sevilla). 

Afinal de contas, Frank de Boer sabe que já chega com desconfianças. E tentará começar a vencê-las com todo o cuidado.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Um jogo, um parágrafo, um vídeo: a 4ª rodada da Eredivisie

Utrecht 1x1 Heerenveen (sexta-feira, 2 de outubro)

Principal qualidade ofensiva do Heerenveen neste começo de temporada, o contra-ataque já fez os visitantes da Frísia ficarem na frente do placar logo aos 4': Rodney Kongolo passou a bola em profundidade, e Henk Veerman entrou livre na área para chutar por baixo do goleiro Maarten Paes e fazer 1 a 0. E não foi só: com bolas na trave de Mitchell van Bergen (no travessão, aos 7') e novamente Veerman (aos 23'), o Fean poderia ter ampliado a vantagem. Só a partir do meio do primeiro tempo é que o Utrecht começou a melhorar. Principalmente com Simon Gustafson, que quase marcou aos 30' (o goleiro Erwin Mulder espalmou) e aos 35' (tentou por cobertura, e mandou na rede por cima do gol). Enfim, a visível melhora dos Utregs foi premiada com o empate, por outro destaque: aos 44', Gyrano Kerk chutou forte de pé esquerdo, cruzado, da entrada da área, para o 1 a 1. E na etapa final, os mandantes é que quase venceram em Utrecht: tiveram mais a bola, chegaram mais ao ataque e criaram várias chances - a melhor delas, aos 69', quando Bart Ramselaar finalizou fortemente, mas Lucas Woudenberg evitou o gol em cima da linha. Os apuros do Heerenveen ficaram ainda maiores aos 83', quando Rein Smit levou o segundo cartão amarelo e foi expulso. Mas o Utrecht, mesmo tentando demais (no último lance do jogo, Mimoun Mahi mandou a bola na trave), viu o 1 a 1 ficar no placar do primeiro jogo do Campeonato Holandês após a volta da proibição do público nos estádios.


Vitesse 3x0 Heracles Almelo (sábado, 3 de outubro)

Após uma boa chance de Rai Vloet abrir o placar para os visitantes, aos 4', o primeiro tempo ficou sem emoções por um bom tempo. Mas quando elas voltaram, o Vitesse tratou de encaminhar sua vitória em três minutos. Aos 34', após passe de Matus Bero, o zagueiro Marco Rente escorregou, e Loïs Openda ficou livre para fazer 1 a 0; aos 37', uma boa triangulação rendeu o 2 a 0 do Vites - de Oussama Tannane para Openda, de Openda para Oussama Darfalou, e de Darfalou para as redes. E no segundo tempo, após Openda ter uma boa chance aos 58', Tannane definiu a vitória do time de Arnhem aos 63': após longo lançamento de Riechedly Bazoer, Darfalou ajeitou de cabeça para o meio-campista finalizar e fazer 3 a 0, confirmando o bom começo de temporada dos Arnhemmers.


VVV-Venlo 1x2 ADO Den Haag (sábado, 3 de outubro)

Numa chuvosa Venlo, o jogo começou com tudo. Aos três minutos, o zagueiro Roy Gelmi desviou a bola com a mão, o VAR alertou, o juiz Bas Nijhuis reviu e marcou o pênalti, que Shaquille Pinas bateu para colocar o Den Haag na frente. Por pouquíssimo tempo: já aos 5', Georgios Giakoumakis teve tempo e espaço na área para empatar o jogo, com uma meia-bicicleta. De resto, na etapa inicial, só uma chance digna de nota: aos 45', na área, Jonas Arweiler ajeitou, Amar Catic finalizou e o goleiro Thorsten Kirschbaum evitou o gol com os pés. No segundo tempo, os momentos de emoção seguiram raros. Pelos mandantes de Venlo, só um cabeceio de Vito van Crooij, defendido por Luuk Koopmans aos 66'; nos visitantes de Haia, um chute de Vicente Besuijen foi pego pelo goleiro Delano van Crooij (substituto do lesionado Kirschbaum), aos 71'. O empate parecia inescapável, mas no último lance do jogo, aos 90' + 3, Koopmans cobrou tiro de meta, Michiel Kramer e Besuijen ajeitaram de cabeça, e o estreante David Phillip tocou por baixo do goleiro para garantir a primeira vitória do ADO Den Haag na Eredivisie - de um jeito sempre agradável.


Twente 1x1 Emmen (sábado, 3 de outubro)

A liderança estava na alça de mira do Twente, caso viesse uma vitória por dois gols de diferença sobre o Emmen. E os Tukkers estiveram bem perto dela no primeiro tempo, com muitas chances: aos 28', Tyrone Ebuehi tocou para Danilo, mas o zagueiro Miguel Araújo tirou a bola em cima da linha, enquanto o goleiro Dennis Telgenkamp salvou o Emmen em dois chutes de longe (Queensy Menig, aos 41', e Danilo, aos 42'). Os visitantes só trouxeram perigo num chute de Marko Kolar, aos 35'. E tão logo o segundo tempo começou, aos 48', veio o merecido gol dos mandantes: após um erro de Simon Tibbling, Ramiz Zerrouki dominou e passou a Vaclav Cerny, que chutou no canto esquerdo para o 1 a 0. Mas o Emmen, já com alterações, reagiu. Teve um gol anulado aos 59'. Aos 65', empatou, também merecidamente: Nikolai Laursen ajeitou para Glenn Bijl chutar cruzado, o goleiro Joël Drommel rebateu, mas Michael de Leeuw fez o 1 a 1. E, finalmente, os Emmenaren se seguraram bem na defesa para tirarem um ponto e frustrarem os desejos de liderança do Twente.


Groningen 1x0 Ajax (domingo, 4 de outubro)

Quando o jogo começou, até que o Ajax rondou o gol do Groningen. Aos 6', Zakaria Labyad cabeceou, mas o goleiro Sergio Padt pegou firme. Aos 15', foi a vez de Edson Álvarez completar para fora, após cruzamento de Nicolás Tagliafico. E aos 22', até que o chute de Ryan Gravenberch (de volta aos titulares) passou perto do gol. Só que, aos poucos, os mandantes foram tendo sucesso em bloquear a área para as jogadas dos Ajacieden. Mais do que isso: começaram a chegar ao ataque em contra-ataques. Como aos 24', quando Damil Dankerlui veio pela direita, cruzou, e o cabeceio de Jörgen Strand Larsen passou por cima do gol. Os Groningers foram aumentando a velocidade, o Ajax foi se abatendo ao ficar sem espaço para manter a bola... e o time alviverde da casa fez 1 a 0 tão logo o segundo tempo começou: aos 49', Larsen chutou cruzado, André Onana rebateu, e Remco Balk - estreando entre os titulares - aproveitou o rebote para abrir o placar. Prostrados no ataque, os visitantes de Amsterdã só reagiram aos 66', num cabeceio de Álvarez. Animado, o Groningen quase marcou o segundo aos 74': num rápido contra-ataque, Ramon-Pascal Lundqvist completou da entrada da área, na trave. E mesmo com quatro atacantes, quando o Ajax acertou duas vezes o travessão na mesma jogada (primeiro Dusan Tadic, depois Klaas-Jan Huntelaar, aos 86', após cruzamento de Gravenberch rebatido por Padt rebateu), ficou claro: o Ajax seria derrotado, por um Groningen esforçado e eficiente.


Sparta Rotterdam 4x4 AZ (domingo, 4 de outubro)

Quando Zakaria Aboukhlal fez 1 a 0 para o AZ, aos 9', completando de cabeça o cruzamento de Jesper Karlsson (estreante, com a iminente saída de Oussama Idrissi), os visitantes de Alkmaar pareciam começar um ótimo dia em Het Kasteel. Mais cinco minutos, e o roteiro se repetiu: cruzamento de Karlsson, desvio de Dani de Wit, gol. Aos 19', Aboukhlal fez 3 a 0 - seu segundo no jogo, aproveitando falha de Jeffrey Fortes. Aos 34', de cabeça, Dani de Wit transformou a vantagem em goleada: 4 a 0. E parecia o fim. Até porque o AZ teve mais chances: Karlsson aos 21', Myron Boadu aos 27'... houve até um pênalti, aos 39', cobrado por Teun Koopmeiners. Habitualmente preciso nas cobranças, Koopmeiners bateu no travessão. Era um sinal de que não era o fim, mas um recomeço para o Sparta Rotterdam. O goleiro Marco Bizot foi a principal vítima deste recomeço. Aos 57', Bizot se atrapalhou em tiro de meta, o juiz deu tiro livre indireto, e Abdou Harroui chutou forte: era o primeiro do Sparta. Aos 64', Dirk Abels bateu de longe, e Bizot errou no golpe de vista: bola no ângulo, 4 a 2. Os mandantes se animaram: já na reta final, aos 81', Lennart Thy chutou para fora. Aos 88', já com os dois erros prévios, Bizot novamente errou: não só cometeu pênalti, ao derrubar Aaron Meijers na área, como levou o cartão vermelho. Thy bateu o pênalti na sequência, e fez 4 a 3. Agora o empate era um sonho real do Sparta. Realizado aos 90', por Sven Mijnans: 4 a 4. Reação tão admirável merecia público.


Willem II 1x4 Feyenoord (domingo, 4 de outubro)

O Willem II até começou com esperanças: pressionou a saída de bola do Feyenoord, teve mais a bola, e coroou tudo isso fazendo 1 a 0 aos 13': num escanteio, Sebastian Holmén desviou, e Vangelis Pavlidis completou na pequena área. Depois, aos 17', Mike Trésor quase ampliou, chutando da entrada da área, por cima do gol. Foi o susto derradeiro dos Feyenoorders. Que começaram a reagir numa bola parada, aos 21': Steven Berghuis cobrou falta, e o goleiro Robbin Ruiter espalmou. Mais um minuto, e o empate veio bonito: o lateral Ridgeciano Haps tabelou com João Teixeira, este cruzou, e Haps completou na pequena área. A virada poderia ter vindo já aos 35': num erro de Vincent Schippers, Bryan Linssen entrou na área pela esquerda e tocou, mas Ruiter evitou o gol com os pés. Já na etapa final, aos 48', o Feyenoord conseguiu: Mark Diemers chutou, a bola rebateu em Schippers na área, e sobrou para Linssen chutar e fazer 2 a 1. Foi o suficiente para o Stadionclub deslanchar em campo. Aos 56', veio o terceiro gol, também bonito: em triangulação veloz, Diemers tocou, Teixeira ajeitou, e Berghuis bateu da entrada da área. Vieram até mais chances para os Feyenoorders, ambas com Linssen, aos 57' e 60'. Mas Berghuis enfim converteu a vitória em goleada, aos 77', chutando colocado de fora para o gol vazio, após erro da defesa. Berghuis goleador na Eredivisie (seis gols em quatro jogos), liderança do campeonato... o Feyenoord está otimista.


PSV 2x0 Fortuna Sittard (domingo, 4 de outubro)

No início do jogo, o PSV deu a impressão de que passaria como um rolo compressor pelo Fortuna. Tanto que o primeiro gol já saiu aos 5': após passe em profundidade, Donyell Malen driblou o goleiro Alexei Koselev na direita da área e tocou para o gol vazio. Todavia, foi a única vez em que o placar se movimentou na etapa inicial. E o PSV teve o que lamentar, porque os visitantes de Sittard mostraram ter gente capaz de dar algum trabalho. Aos 7', logo após o gol, Sebastian Polter se virou e chutou, mas Yvon Mvogo rebateu. Depois, Lisandro Semedo tentou duas vezes (aos 22', Mvogo novamente evitou o empate; aos 24', Semedo acertou o travessão). Mas os Eindhovenaren lamentaram, principalmente, porque a má colocação do ataque nos passes e cruzamentos rendeu nada menos do que quatro gols anulados: Eran Zahavi aos 9', Ryan Thomas aos 15', Malen aos 39' e nos acréscimos do primeiro tempo. Poderia ser uma goleada, mas estava só 1 a 0. E o Fortuna Sittard lembrou na segunda etapa como essa vantagem era tênue: Mvogo novamente pegou arremate de Semedo aos 55', e Jorrit Smeets cobrou falta por cima do gol aos 58'. Para o Fortuna, foi só. Para o PSV, a vida no ataque reapareceu em cabeceios de Cody Gakpo (aos 63') e Malen (aos 83', na rede pelo lado de fora). Finalmente, um contra-ataque trouxe o gol da tranquilidade, aos 85': Noni Madueke superou Lazaros Rota no jogo aéreo, chegou à área com a bola e tocou por baixo de Koselev para assegurar a vitória.


RKC Waalwijk 1x1 Zwolle (quarta-feira, 21 de outubro)

A princípio, o jogo em Waalwijk ocorreria no dia 3 de outubro, mas um surto de infecções pelo novo coronavírus fez com que só 18 dias depois. E quando os dois times foram ao gramado do estádio Mandemakers, o Zwolle criou muito mais chances no primeiro tempo. As mais perigosas, aos 8' (Clint Leemans chutou, e o goleiro Kostas Lamprou espalmou para escanteio), aos 22' (Immanuel Pherai fez a jogada, cruzou, e Leemans completou, mas Ahmed Touba tirou em cima da linha) e aos 34' (outro arremate de Leemans, na trave). E já no segundo tempo, Yuta Nakayama ainda acertou o travessão antes do Zwolle enfim fazer 1 a 0: aos 65', num erro de Lamprou ao tentar um chutão, os jogadores dos Zwollenaren trocaram passes, até Eliano Reijnders enfim concluir, num chute rasteiro no canto esquerdo. Todavia, uma rara falha dos visitantes deu o empate que salvou o RKC: aos 87', num cruzamento, Finn Stokkers - vindo do banco - cabeceou livre para fazer 1 a 1.