quarta-feira, 3 de agosto de 2022

A Holanda nas Copas masculinas: 1990 - Algo de podre

 
A Holanda chegou para a Copa de 1990 badalada: cheia de estrelas, campeã europeia naquele momento, cogitada como campeã... tudo se perdeu nas crises internas e numa péssima campanha (fanpicture.ru)

(Aqui, antes de mais nada, um texto mais completo e profundo sobre a participação da Holanda na Copa de 1990)

Como já dito nesta série, após a final da Copa de 1978, a geração que transformara a Holanda num país de alto nível no futebol mundial foi deixando a seleção aos poucos. E também aos poucos, os Países Baixos foram mergulhando no ostracismo: fora da Copa de 1982, da Euro 1984, da Copa de 1986 (desta até estiveram perto, mas caíram para a Bélgica na repescagem das eliminatórias europeias)... contudo, ao longo daquela "década perdida", craques foram surgindo aos borbotões na Holanda. Eles resgataram a imagem do país, com o título da Euro 1988, até agora o único da Laranja no futebol masculino. Aumentaram as expectativas pelo que poderiam fazer na Copa de 1990... mas protagonizaram uma das maiores decepções da seleção em sua história.

A decepção doeu mais por aquela seleção ser, como já dito, recheada de jogadores admirados Europa afora. Na defesa, Ronald Koeman era garantia de segurança, e suas cobranças de falta e pênalti faziam dele um "zagueiro artilheiro" como poucos, enquanto Frank Rijkaard se alternava entre miolo de zaga e meio-campo, com classe altamente incomum. Também se alternava - mas entre meio-campo e ataque - Ruud Gullit, dono de força física admirável, ostentando espírito de liderança, e capacidade de finalização quando chegava à área. Capacidade tão grande quanto a de Marco van Basten, ainda hoje visto como um dos mais icônicos atacantes daquela geração - classe nos movimentos, técnica para voltar e até criar jogadas, precisão absoluta nas conclusões a gol. Muitos coadjuvantes também eram bons: o goleiro Hans van Breukelen - o mais experiente da escalação - tinha bom nível e era um dos líderes do grupo, os laterais (Berry van Aerle na direita, Adri van Tiggelen na esquerda) eram voluntariosos, Jan Wouters tinha a vitalidade na marcação que permitia a Rijkaard circular mais livremente pelo campo.

Todavia, vários deles eram figuras de personalidade forte. E se aceitaram mais humildemente (e até se entrosaram com) a liderança inquestionável de Rinus Michels, técnico no título da Euro-88, estranharam-se com o sucessor de Michels no banco, Thijs Libregts, que treinou a Holanda nas eliminatórias - e que já tecera críticas a Gullit, anos antes, resvalando no racismo. Ao longo da campanha nas eliminatórias europeias, entre 1988 e 1989, Libregts ainda tomou atitudes estranhas, como colocar Van Basten no banco de reservas, sem que ele estivesse sofrendo com as renitentes lesões no tornozelo que encurtaram sua carreira. Pelo talento e pelo entrosamento da equipe, a Oranje conseguiu chegar à Copa de 1990 como vencedora do grupo 4 da qualificação. Mas os triunfos magros contra Finlândia e País de Gales, e as atuações inferiores contra a Alemanha, rival marcante e também integrante do grupo, indicavam: em apenas um ano, a magia da campanha campeã europeia se acabara. Como se não bastasse, Gullit sofria com uma lesão no joelho, que o tirou de boa parte da temporada 1989/90 - pelo Milan, por exemplo, o ponta-de-lança só voltou a tempo de jogar (e vencer pela segunda vez) a Copa dos Campeões da Europa.

O ambiente entre Libregts e os jogadores só piorava. A volta de Rinus Michels à federação holandesa - daquela vez, nos bastidores, como diretor técnico da entidade - aumentava a "fogueira" em que o técnico ardia: havia rumores de que Michels manobrava para ter mais comando em campo do que o próprio treinador. Em março de 1990, a três meses da Copa começar, o limite: alguns líderes do grupo (Van Breukelen, Koeman, Van Basten, o lesionado Gullit) impuseram a Rinus Michels a opção - ou Thijs Libregts saía da seleção, ou a coisa ficaria ainda mais grave. Pesado demais para o técnico, que de fato foi demitido. Os "cardeais" tinham até uma alternativa para treinar a Holanda na Copa: ninguém menos do que Johan Cruyff, então já comandando o Barcelona, respeitado por todos eles. Então, a federação optou por oferecer aos jogadores uma lista tríplice de "candidatos" a técnico no Mundial: Cruyff, Leo Beenhakker (treinando o Ajax) e Aad de Mos (então no comando do Anderlecht-BEL). Claro, o grupo elegeu Cruyff. Definido o treinador para a Copa, certo? Errado: em decisão até hoje questionada, Rinus Michels preferiu subverter o resultado da votação, trazendo Leo Beenhakker.

Leo Beenhakker foi escolhido para treinar a Holanda na Copa de 1990 - à revelia de uma votação do grupo de jogadores. Pagou o preço num péssimo ambiente (Arquivo ANP)

Beenhakker convocou todos os destaques da Holanda - recuperado dos problemas no joelho, Gullit conseguiu estar entre os 22 chamados. Novatos de talento, como o meio-campo Richard Witschge e o atacante Bryan Roy, também figuraram na convocação. Mas de nada adiantava ter um grupo considerado entre os favoritos ao título mundial se o ambiente dentro dele estava em polvorosa. Era o caso: os jogadores se estranhavam entre eles - e carregavam a irritação pelo que julgavam "traição" da federação, Rinus Michels à frente, no caso da votação para a escolha do técnico. Falando nele, aliás, Beenhakker era tratado como figura decorativa pelos jogadores.

E se ninguém fora do ambiente interno sabia de todo aquele caos, passou a desconfiar depois dos péssimos resultados holandeses na primeira fase, pelo grupo F da Copa. Na estreia, contra o Egito, esperava-se goleada da Laranja; não só o que se viu foi um empate em 1 a 1, como os egípcios mereceram mais a vitória em Palermo. Na segunda partida, outro empate com desempenho irritante e lento da Holanda: 0 a 0 com a Inglaterra. Na concentração holandesa durante o Mundial - o hotel Kafara, em Palermo -, o astral era tão baixo que Van Basten e Gullit chegaram a pensar em pedir dispensa durante a Copa. Ficaram nela, mas no último jogo pela fase de grupos, mais um empate: 1 a 1 com a Irlanda. O fato do juiz daquela partida, o francês Michel Vautrot, ter pedido mais empenho aos capitães das duas seleções, diante do marasmo nos minutos finais - o empate classificava as duas para as oitavas de final -, dá uma noção de como a impressão da Holanda na Copa de 1990 era péssima.

Veio a punição: iguais em todos os critérios, Holanda e Irlanda foram para um sorteio de definição de segundo e terceiro colocados no grupo F - e a Laranja ficou em terceiro. Nas oitavas de final, pegaria a arquirrival Alemanha, com uma geração também famosa e brilhante, sedenta de vencer a vizinha geográfica após a derrota na semifinal da Euro 1988. E no jogo em Milão - um "clássico indireto" entre o Milan de Rijkaard-Gullit-Van Basten e a Internazionale de Brehme-Matthäus-Klinsmann -, os neerlandeses até começaram bem, como nunca haviam estado naquela Copa. Mas desentendimentos entre Rijkaard e o atacante Rudi Völler, ainda no primeiro tempo, culminaram com a expulsão de ambos, incluindo até cusparada de Rijkaard. O cenário ficou melhor para a Alemanha, que cresceu, fez os gols no segundo tempo, e se classificou: 2 a 1.

Até agora, talvez para sempre, nomes como Gullit e Koeman lamentam a chance que perderam em 1990. Uma das gerações mais brilhantes que a Holanda já teve em campo perdeu uma tremenda chance de fazer grande papel, numa Copa em que todos esperavam isso. Porque, como se soube depois, havia algo de podre no Reino dos Países Baixos.

Os convocados da Holanda para a Copa de 1990

Goleiros
1-Hans van Breukelen (PSV) - 4 jogos, 4 gols sofridos
16-Joop Hiele (Feyenoord) - não jogou
22-Stanley Menzo (Ajax) - não jogou

Defensores
2-Berry van Aerle (PSV) - 4 jogos
3-Frank Rijkaard (Milan-ITA) - 4 jogos
4-Ronald Koeman (Barcelona-ESP) - 4 jogos, 1 gol
5-Adri van Tiggelen (Anderlecht-BEL) - 4 jogos
13-Graeme Rutjes (Mechelen-BEL) - 1 jogo
18-Henk Fräser (Roda JC) - 1 jogo
21-Danny Blind (Ajax) - não jogou

Meio-campistas
10-Ruud Gullit (Milan-ITA) - 4 jogos, 1 gol
11-Richard Witschge (Ajax) - 4 jogos
6-Jan Wouters (Ajax) - 4 jogos
7-Erwin Koeman (Mechelen-BEL) - 1 jogo
8-Gerald Vanenburg (PSV) - 1 jogo
20-Aron Winter (Ajax) - 1 jogo

Atacantes
9-Marco van Basten (Milan-ITA) - 4 jogos
12-Wim Kieft (PSV) - 4 jogos, 1 gol
17-Hans Gillhaus (Aberdeen-ESC) - 3 jogos
14-John van't Schip (Ajax) - 2 jogos
19-John van Loen (Roda JC) - 1 jogo
15-Bryan Roy (Ajax) - não jogou

Técnico: Leo Beenhakker

Campanha

Fase de grupos
Holanda (Países Baixos) 1x1 Egito
Holanda (Países Baixos) 0x0 Inglaterra
Holanda (Países Baixos) 1x1 Irlanda

Oitavas de final
Alemanha Ocidental 2x1 Holanda (Países Baixos)

terça-feira, 2 de agosto de 2022

A Holanda nas Copas masculinas: 1978 - (Não) Foi a mesma coisa

Como em 1974, a Holanda foi vice-campeã na Copa do Mundo. Mas em 1978, ela teve um caminho cheio de turbulências (ANP Archief)

(Aqui, antes de mais nada, um texto mais completo e profundo sobre a participação da Holanda na Copa de 1978)

A Holanda impressionara na Copa de 1974 - até inesperadamente, diante de todas as atribulações dos meses anteriores. Quatro anos depois, a princípio, o desempenho da Laranja poderia ser considerado tão honroso quanto no Mundial da Alemanha: afinal de contas, repetiu-se o vice-campeonato, consolidando que o país passara para o primeiro escalão do futebol mundial, pelo menos naquela época. E o segundo lugar obtido pelos Países Baixos na Copa de 1978 também chegou de modo surpreendente, de certa forma. No entanto, se o resultado foi o mesmo, a forma não foi: a campanha foi menos embasbacante, as dificuldades foram maiores, a Holanda oscilou muito ao longo dos seus sete jogos na Argentina.

É correto dizer que as oscilações ficaram de fora da campanha nas eliminatórias: com cinco vitórias e um empate contra Bélgica, Islândia e Irlanda do Norte, no grupo 4 da qualificação europeia, a vaga para a Copa foi conquistada tranquilamente. Elas começaram junto ao início do ano do Mundial. Primeiro, com o que já se sabia: Johan Cruyff até atuou nas eliminatórias, mas ficaria de fora da Copa, por uma decisão pessoal que despertou várias teorias de motivo (protesto contra o governo militar argentino, protesto contra a premiação baixa que a federação holandesa ofereceria por resultado - até que o próprio Cruyff explicasse, anos mais tarde, que desejava ficar com a família, após ela ser vítima de um sequestro-relâmpago). Depois, já em 1978, a troca de técnico: Jan Zwartkruis, que comandara a Laranja na qualificação, foi "rebaixado" a auxiliar do austríaco Ernst Happel, campeoníssimo com o Feyenoord - mas contestado por parte do grupo, em razão de seu autoritarismo.

Houve mais problemas no caminho dos Países Baixos até aquela Copa. Cerca de duas semanas antes da viagem à Argentina, país-sede, Wim van Hanegem decidiu deixar o grupo de convocados que já treinava: sem garantias de que seria titular, Van Hanegem preferiu abrir mão do lugar na Copa. Uma vez já no quartel-general da Laranja na Copa - o afastado Gran Hotel Potrerillos, a 60 quilômetros de Mendoza -, Hugo Hovenkamp foi outra baixa forçada, desta vez por lesão. E o clima sob o comando de Ernst Happel estava cada vez mais tenso. Por isso, mesmo com vários remanescentes de 1974 - Jan Jongbloed no gol; Wim Rijsbergen e Ruud Krol na defesa (aliás, de lateral direito no vice-campeonato de quatro anos antes, Krol jogava como um tremendo zagueiro, dos melhores do mundo em 1978); Johan Neeskens, Wim Jansen e os gêmeos Van de Kerkhof (Willy e René) no meio-campo; Johnny Rep e Robert Rensenbrink no ataque.

Rensenbrink foi um dos únicos da Holanda a já mostrar alto nível desde a fase de grupos (Fotocollectie/Anefo)

Rensenbrink já despontou como o melhor jogador holandês na Copa na primeira fase de grupos: fez os três gols dos 3 a 0 no Irã, na estreia. Contudo, um 0 a 0 contra o Peru, em ótima atuação da Albirroja, já dificultou um pouco a situação da Laranja. E no último jogo da fase inicial, contra a Escócia, sérios riscos foram corridos: os escoceses chegaram a estar com vantagem de 3 a 1, e pelo saldo, mais um gol deles deixaria a Holanda fora da Copa, pelo maior número de gols pró do adversário. Mas Johnny Rep chutou, de longe, diminuindo a derrota para 3 a 2 (o outro gol holandês, de Rensenbrink, foi o 1000º da história das Copas). Mesmo perdendo, a Holanda estava classificada. Mas precisava mudar. A segunda fase - também em grupos, como na Copa de 1974, com os vencedores fazendo a final - não podia ser a mesma coisa.

E não foi. Primeiro, a federação forçou uma perda de poder de Ernst Happel: bem melhor relacionado com os jogadores, o auxiliar Jan Zwartkruis passou a ter mais influência. Depois, vieram algumas mudanças na escalação: jogadores mais jovens, como o lateral Jan Poortvliet e o zagueiro Ernie Brandts, ganharam espaço com a lesão de nomes mais experientes. E o aspecto ofensivo, aliado ao espírito de luta, mostrou uma outra Holanda. Que já recuperou respeito com o 5 a 1 sobre a Áustria, estreia na segunda fase. Depois, no clássico contra a Alemanha, repetição da rival de 1974, a Laranja mostrou poder de reação: ficou atrás por duas vezes no placar, e buscou o empate em 2 a 2. Melhor ainda no jogo que definiu a chegada à final da Copa: os holandeses saíram atrás contra a Itália, mas viraram para 2 a 1 em grande estilo, incluindo o gol da vitória, de Haan - grande chute de fora da área.

Na final, contra a Argentina, bem que a Holanda se esforçou de novo. Num jogo truncado e ríspido, cheio de violência, a equipe europeia também bateu, quase tanto quanto levou. Aos poucos, uma mudança tática (apostar em cruzamentos, com a entrada de Dick Nanninga) fez a Holanda melhorar, e empatar ainda no tempo normal. Mais ainda: a virada quase veio, nos acréscimos, com um toque de Rensenbrink na trave. E na prorrogação, usando da motivação que a torcida lhe trazia no Monumental de Núñez, a Argentina conseguiu a vitória por 3 a 1. Se servia de consolo, a Holanda mostrara espírito de luta, e poderia sair despercebida de um ambiente altamente tenso como estava a Argentina da época. Mas, novamente, era vice-campeã. 

Ou seja: o final foi o mesmo da Copa de 1974. Mas o caminho da Holanda até ele não foi.

E só as memórias intensas daquela geração conduziriam a Laranja, que viveu no ostracismo durante os anos 1980, fora das Copas daquela década. Até outra geração surgir...

Os convocados da Holanda para a Copa de 1978

Goleiros
8-Jan Jongbloed (Roda JC) - 5 jogos, 6 gols sofridos
1-Piet Schrijvers (Ajax) - 3 jogos, 4 gols sofridos
19-Pim Doesburg (PSV) - não jogou

Defensores
5-Ruud Krol (Ajax) - 7 jogos
2-Jan Poortvliet (PSV) - 5 jogos
22-Ernie Brandts (PSV) - 4 jogos, 1 gol, 1 gol contra
20-Wim Suurbier (Schalke 04-ALE) - 4 jogos
17-Wim Rijsbergen (Feyenoord) - 3 jogos
4-Adrie van Kraay (PSV) - 2 jogos
7-Piet Wildschut (Twente) - 1 jogo
15-Hugo Hovenkamp (AZ)*

Meio-campistas
11-Willy van de Kerkhof (PSV) - 7 jogos, 1 gol
10-René van de Kerkhof (PSV) - 7 jogos, 1 gol
6-Wim Jansen (Feyenoord) - 7 jogos
9-Arie Haan (Anderlecht-BEL) - 6 jogos
13-Johan Neeskens (Barcelona-ESP) - 5 jogos
3-Dick Schoenaker (Ajax) - 1 jogo
14-Johan Boskamp (Molenbeek-BEL) - 1 jogo

Atacantes
12-Robert Rensenbrink (Anderlecht-BEL) - 7 jogos, 5 gols
16-Johnny Rep (Bastia-FRA) - 7 jogos, 3 gols
18-Dick Nanninga (Roda JC) - 4 jogos, 1 gol
21-Harry Lubse (PSV) - não jogou

Técnico: Ernst Happel

*Lesionado, Hovenkamp foi cortado com a Copa já em andamento. Por isso, deixou a seleção da Holanda com 21 jogadores

Campanha

Primeira fase de grupos
Holanda (Países Baixos) 3x0 Irã
Holanda (Países Baixos) 0x0 Peru
Holanda (Países Baixos) 2x3 Escócia

Segunda fase de grupos
Holanda (Países Baixos) 5x1 Áustria
Holanda (Países Baixos) 2x2 Alemanha Ocidental
Holanda (Países Baixos) 2x1 Itália

Final
Argentina 3x1 Holanda (Países Baixos)

domingo, 31 de julho de 2022

A Holanda nas Copas masculinas: 1974 - Apenas o (re)começo

A Holanda voltou às Copas do Mundo em 1974, de um jeito que ninguém mais esqueceu. Mas esta foto é do sofrido jogo da classificação nas eliminatórias, contra a Bélgica. Em pé: Hulshoff, Schrijvers, Mansveld, Suurbier, Neeskens e Krol. Agachados: Haan, Cruyff, Gerrie Mühren, Rep e Rensenbrink (Peter Robinson/Empics/Getty Images)

Quase tudo já foi dito e escrito sobre a campanha da seleção da Holanda na Copa de 1974. Inclusive que quase tudo já foi dito e escrito sobre a campanha da seleção da Holanda na Copa de 1974. Sendo assim, é muito difícil fazer um texto curto sobre a icônica participação da Laranja naquele Mundial - o retorno dela, vale lembrar, após 36 anos de ausência - sem citar coisas já sabidas de cor e salteado por todo mundo que conheça um pouco de história do futebol. Então, o melhor caminho é falar, principalmente, do que pouco se sabe. Do caminho que a Oranje fez antes de marcar época, num dos momentos mais marcantes da história das Copas. Mais precisamente, do que ela fez nas eliminatórias para chegar à Alemanha.

Já havia alguma expectativa pela Europa sobre o que aquela geração de jogadores poderia fazer com a camisa laranja. Afinal de contas, após as profundas mudanças por que o futebol dos Países Baixos haviam passado desde a já longínqua aparição na Copa de 1938 - Karel Lotsy já era um personagem antigo, o profissionalismo havia chegado ao esporte no país em 1954, dois anos depois surgira a Eredivisie -, os jogadores que começaram a aparecer desde os anos 1960 estavam em franca ascensão na seleção. Aos mais experientes - Wim Suurbier (1945-2020), Willem van Hanegem, Piet Keizer (1943-2017), Johan Cruyff (1947-2016) -, já se somavam nomes mais novos, como Johan Neeskens e Johnny Rep. Por clubes, todos brilhavam: é quase desnecessário lembrar que vinham da Holanda os quatro primeiros campeões europeus da década de 1970 - Feyenoord em 1969/70, Ajax nas três edições seguintes (1970/71, 1971/72 e 1972/73). 

Mas... e na seleção? A capacidade daquela geração seria colocada à prova nas eliminatórias, iniciadas em 1972, no grupo 3 da qualificação europeia, enfrentando Noruega, Islândia e Bélgica. Comandada desde 1970 pelo tcheco Frantisek Fadrhonc (1914-1981), a Laranja iria tentar a vaga na Copa com alguns nomes que não chegariam a ela. O goleiro Jan van Beveren (1948-2011), do PSV; os zagueiros Barry Hulshoff (1946-2020), do Ajax, e Aad Mansveld (1944-1991), do ADO Den Haag - então, FC Den Haag; e o atacante Theo Pahlplatz, do Twente. Bastou o primeiro jogo daquelas eliminatórias para que a Holanda mostrasse seu valor: no dia 1º de novembro de 1972, em De Kuip (Roterdã), 9 a 0 na Noruega. Simplesmente a maior goleada que a seleção masculina holandesa conseguira até então, nos 67 anos de história que tinha até ali - e o recorde duraria até 2011.

O tcheco Frantisek Fadrhonc conduziu a seleção da Holanda por todo o tortuoso caminho nas eliminatórias - e seguiria na Copa de 1974, mas subjugado a Rinus Michels (Arquivo/Fotocollectie Anefo)

Contudo, se havia alguma adversária capaz de fazer frente naquele grupo da qualificação, era a vizinha Bélgica, o rival mais conhecido, velha conhecida de eliminatórias (disputara vaga em 1934 e em 1938). Em matéria de Copas, inclusive, a tradição dos Diabos Vermelhos era bem maior àquela altura - para citar só um motivo, porque os belgas haviam jogado o Mundial de 1970. E boa parte da geração deles ainda estava firme e forte na seleção, tendo o goleiro Christian Piot, o meio-campo Wilfried van Moer e os atacantes Paul van Himst e Raoul Lambert como destaques. Além do mais, se os neerlandeses ainda começavam a campanha nas eliminatórias, os principais adversários já tinham três jogos e três vitórias - duas contra a Islândia, uma contra a Bélgica. Em suma: Holanda e Bélgica fariam jogos muito equilibrados. E começariam a provar isso em 19 de novembro de 1972: no estádio Bosuil, em Antuérpia, a Laranja foi visitante numa partida igual. Em atuações e no resultado: 0 a 0.



1972 passou, 1973 chegou, e a Holanda teve dois amistosos para respirar - uma derrota para a Áustria (1 a 0 em Viena, em 28 de março), uma vitória contra a Espanha (3 a 2 no Estádio Olímpico de Amsterdã, em 2 de maio de 1973). Justamente nesses amistosos, Frantisek Fadrhonc começou a dar chance a muitos jogadores que vinham barbarizando no antológico Ajax - o meio-campo Arie Haan e os citados Neeskens e Rep tiveram suas primeiras partidas pela Laranja justamente nesses amistosos. Mas se sabia: o que importava eram as eliminatórias da Copa. E a Holanda, embora merecesse respeito, apenas cumpria o esperado, sem impressionar. Foi assim nas duas vitórias contra a Islândia - duas goleadas, diante da seleção mais fraca do grupo 3 das eliminatórias europeias: 5 a 0 em Amsterdã, em 22 de agosto de 1973; 8 a 1 em Deventer (sim, a Islândia sequer tinha estádio capaz de receber jogos oficiais, e foi "mandante" numa cidade dos Países Baixos), uma semana depois.

O sinal de alerta ficou mais intenso para a Holanda no penúltimo jogo daquelas eliminatórias: fora de casa, em Oslo, contra a Noruega, em 12 de setembro de 1973. Com somente cinco titulares escalados que estariam na Copa (Krol, Jansen, Van Hanegem, René van de Kerkhof e Cruyff - Haan substituiu Van Hanegem aos 81'), a Laranja até saiu na frente: Cruyff fez 1 a 0 já aos sete minutos da etapa inicial. Todavia, os visitantes levaram a maior parte dos 90 minutos em ritmo lento demais, apenas administrando a vantagem. Quase tiveram o pior dos castigos: aos 77', o atacante Harry Hestad ganhou disputa de bola com o goleiro Van Beveren, e empatou o jogo em Oslo. Ali a Holanda poderia perder pontos que a tirariam da Copa de 1974. Mas não os perdeu: a três minutos do fim, Cruyff ajeitou, e o zagueiro Hulshoff invadiu a área e chutou para o 2 a 1 salvador. 


Um amistoso para recuperar fôlego no meio do caminho (1 a 1 contra a Polônia - outra seleção que faria sucesso na Copa de 1974 -, em Roterdã, em 10 de outubro de 1973), e um mês e oito dias depois, chegou o momento. Estádio Olímpico de Amsterdã, 18 de novembro de 1973, um domingo. Empatadas em pontos (9) no grupo 3 das eliminatórias, Holanda e Bélgica fariam a "final" pela vaga na Copa, na última rodada. A Laranja só se aliviava por ter saldo maior de gols do que os Diabos Vermelhos - +22 a +12 -, mas convinha não abusar da sorte: afinal, uma vitória dos visitantes, e seriam eles os classificados, sem nem repescagem para dar uma "segunda chance".

O tempo foi passando em Amsterdã. O 0 a 0 seguia no placar, enervando o time; enervando Frantisek Fadrhonc, no banco; enervando toda a torcida que lotava o Estádio Olímpico. Até que, justamente no último minuto, uma falta foi marcada, na esquerda. Cobrada para a área, a defesa holandesa fez a linha de impedimento. Mas à direita da grande área, o belga Jan Verheyen estava a postos - e completou para o gol. Bola na rede. 1 a 0. Poderia ser o gol da Bélgica na Copa de 1974, o gol que frustraria o Reino dos Países Baixos, com aquela geração esplendorosa de jogadores. Mas não foi: o juiz búlgaro Pavel Kazakov anulou o gol, alegando impedimento de Verheyen. Acréscimos dramáticos depois, a partida acabou 0 a 0. Alegria no Estádio Olímpico de Amsterdã: ambas as seleções ficaram com dez pontos, mas pelo maior saldo de gols, a Holanda voltava a uma Copa do Mundo, após 36 anos. Por trás do que a Oranje faria no Mundial, porém, ficou uma dúvida até hoje esquecida: Verheyen estava mesmo impedido?


Mesmo classificada, todavia, a Holanda sabia: era preciso que algo mudasse, para que sua seleção tivesse alguma chance de boa campanha na Copa. Mesmo respeitado pelo grupo, mesmo com histórico no futebol holandês, Frantisek Fadrhonc não atraía a menor confiança sobre suas capacidades para treinar a seleção. Em março de 1974, então, a federação decidiu: Fadrhonc seguiria na comissão técnica, mas seria "rebaixado" a supervisor técnico, apenas auxiliando o novo nome que chegaria. Novo nome que, na verdade, era um velho conhecido de vários daqueles jogadores: desde 1971 treinando o Barcelona, Marinus Hendricus Jacobus Michels, o Rinus Michels (1928-2005), viria para acumular o comando barcelonista ao da seleção.

E Michels decidiu mudar boa parte do que se via no time. Mas eram apostas, e ninguém saberia se elas teriam êxito. Pelo visto no amistoso contra a Áustria, estreia de Michels no comando (1 a 1, 27 de março de 1974, em De Kuip), não teriam. Ironia das ironias, um jornal estampou na manchete pós-jogo: "A Laranja não é uma unidade". A goleada contra a Argentina, já na reta final de preparação (4 a 1 em Amsterdã, em 26 de maio de 1974), amenizou o clima, mas as dúvidas só cresciam: apostar em Jan Jongbloed, que era goleiro mais seguro com os pés do que com as mãos e não jogava na seleção desde 1962, como titular? Apostar em Arie Haan, um meio-campo, recuado para a zaga? Apostar em Wim Rijsbergen, jovem zagueiro que só estreou pela seleção no último amistoso antes da Copa - 0 a 0 contra a Romênia, em De Kuip, em 5 de junho de 1974? Apostar que a inteligência tática de boa parte dos titulares saberia entender o "Futebol Total" que só os do Ajax conheciam melhor?

Rinus Michels apostou. Deu muito mais certo do que a própria Holanda poderia imaginar. 

Na estreia avassaladora contra o Uruguai, quando Pedro Rocha, meio-campista da Celeste, afirmou que a partida foi uma das poucas vezes em que, mesmo adulto, ele quis gritar por socorro da mãe; nos 4 a 0 antológicos sobre a Argentina, já na segunda fase; nos 2 a 0 sobre o Brasil, que levaram a Holanda à final, quando um começo difícil foi superado para a vitória no segundo tempo; e até na derrota para a Alemanha, na final, a maior dor que o futebol holandês já sentiu.

E o texto termina aqui, neste (re)começo da história do Reino dos Países Baixos numa Copa do Mundo. Já prometendo um especial, como se deve, em 2024, quando aqueles sete jogos que abalaram o mundo do futebol completarão 50 anos.

Porque um texto só, como este, não dá conta de dizer o tamanho do terremoto que a Holanda de 1974 provocou no futebol mundial.

Estes 22 convocados para a Copa de 1974 merecem um texto só para eles (ANP Archive)

Os convocados da Holanda para a Copa de 1974

Goleiros
8-Jan Jongbloed (FC Amsterdam) - 7 jogos, 3 gols sofridos
18-Piet Schrijvers (Twente) - não jogou
21-Eddy Treijtel (Feyenoord) - não jogou

Defensores
20-Wim Suurbier (Ajax) - 7 jogos
12-Ruud Krol (Ajax) - 7 jogos, 1 gol, 1 gol contra
17-Wim Rijsbergen (Feyenoord) - 7 jogos
5-Rinus Israël (Feyenoord) - 3 jogos
4-Cornelius "Kees" van Ierssel (Twente) - não jogou
19-Pleun Strik (PSV) - não jogou
22-Harry Vos (Feyenoord) - não jogou

Meio-campistas
14-Johan Cruyff (Barcelona-ESP) - 7 jogos, 3 gols
13-Johan Neeskens (Ajax) - 7 jogos, 5 gols
2-Arie Haan (Ajax) - 7 jogos
3-Wim van Hanegem (Feyenoord) - 7 jogos
6-Wim Jansen (Feyenoord) -7 jogos
7-Theo de Jong (Feyenoord) - 3 jogos, 1 gol
10-René van de Kerkhof (PSV) - 1 jogo
11-Willy van de Kerkhof (PSV) - não jogou

Atacantes
15-Robert Rensenbrink (Anderlecht-BEL) - 6 jogos, 1 gol
16-Johnny Rep (Ajax) - 7 jogos, 4 gols
9-Piet Keizer (Ajax) - 1 jogo
1-Ruud Geels (Club Brugge-BEL) - não jogou

Técnico: Rinus Michels

Campanha

Primeira fase de grupos
Holanda (Países Baixos) 2x0 Uruguai
Holanda (Países Baixos) 0x0 Suécia
Holanda (Países Baixos) 4x1 Bulgária

Segunda fase de grupos
Holanda (Países Baixos) 4x0 Argentina
Holanda (Países Baixos) 2x0 Alemanha Oriental
Holanda (Países Baixos) 2x0 Brasil

Final
Alemanha Ocidental 2x1 Holanda (Países Baixos)

sábado, 30 de julho de 2022

A Holanda nas Copas masculinas: 1938 - Queda previsível

Se houvera expectativa frustrada antes de 1934, a Holanda já entrou na Copa de 1938 achando que não duraria muito. Embora tenha se esforçado bastante, de fato caiu para a Tchecoslováquia. E dali mergulhou no ostracismo (Arquivo)

De certa forma, a situação da seleção da Holanda não se alterou muito entre a Copa de 1934, primeira participação da Laranja num Mundial, e 1938, quando ela estaria de novo numa edição do torneio. Na federação dos Países Baixos, o presidente podia ser ainda Dirk van Prooije (1881-1942), que comandou a KNVB entre 1930 e 1942, mas o diretor Karel Lotsy continuava tendo tanta ou mais autoridade na entidade (até demais, costumeiramente). Se a situação não mudou fora de campo, teve uma leve alteração nele - para pior. Com azar logo no começo daquela Copa, sem causar a expectativa levemente positiva que atraíra quatro anos antes, a Holanda também foi eliminada rapidamente.

Houve um outro fator a prejudicar a seleção dos Países Baixos: o apego excessivo de Karel Lotsy ao amadorismo, regime que o futebol do país ainda seguia. Se algum dos jogadores da Laranja - ou mesmo atuando em qualquer clube do futebol neerlandês - se interessasse em ganhar dinheiro ao praticar a modalidade, seria prontamente barrado da equipe nacional pelo diretor de seleções. Foi o que aconteceu com um dos principais destaques holandeses para a Copa de 1934: o atacante "Beb" Bakhuys. Em 1937, Bakhuys aceitou a proposta do Metz, da França - país que já adotara o profissionalismo no esporte. Bastou: aquele também foi o último ano em que jogou pela seleção holandesa. Tudo pela proibição imposta por Lotsy sobre profissionais na Holanda.

A não ser pelo afastamento de Bakhuys, porém, o cenário na seleção mudara pouco. A começar pelo técnico: muito próximo a Karel Lotsy, o inglês Robert "Bob" Glendenning (1888-1940) seguia treinando a Holanda - aliás, comandando a equipe desde 1923, tal proximidade com a federação faria de Glendenning o técnico que mais treinou a Laranja em todos os tempos: 87 partidas, recorde que dura até hoje, quase cem anos depois. No campo, os destaques liderados por Glendenning eram muito semelhantes aos da Copa de 1934: Wim van Anderiesen e Puck van Heel no meio-campo, cuja experiência se somava à juventude ainda mantida por "Leen" Vente e "Kick" Smit no ataque - que possuiria ainda duas novidades.

Bob Glendenning foi um técnico marcante nos primeiros tempos da seleção da Holanda. De certa forma, continua sendo, por seu recorde que ainda vige (Arquivo Nacional)

Nas eliminatórias, o caminho da Holanda ficaria mais fácil do que se supunha. A princípio, haveria um triangular regional com Bélgica e Luxemburgo: três nações disputando uma vaga. Poderia ser dramático, mas com a desistência de vários países da América do Sul em tentar jogar a Copa, uma vaga adicional que "sobrou" dos sul-americanos foi destinada ao grupo 9 da qualificação europeia, que teria o triangular do Benelux. Desde aquela época, Holanda e Bélgica já tinham seleções francamente superiores a Luxemburgo. E com três seleções para (agora) duas vagas, era fácil imaginar quais equipes iriam à Copa. No caso da Holanda, bastou vencer Luxemburgo (4 a 0 em De Kuip/Roterdã, em 28 de novembro de 1937) para garantir lugar no Mundial. Em 3 de abril de 1938, apenas cumprindo tabela, um empate (1 a 1) com a Bélgica, também assegurada entre as 16 seleções classificadas.

Como preparação antes da viagem à França, um amistoso com derrota (3 a 1 para a Escócia, em Amsterdã, no dia 21 de maio de 1938). E daquela vez, a expectativa já baixa da torcida em sua seleção ficou ainda mais abalada pelo mau destino no sorteio. Numa Copa outra vez disputada com "mata-mata" desde o começo, caberia à Holanda enfrentar a Tchecoslováquia, vice-campeã mundial em 1934, com uma brilhante e experiente geração de jogadores: o goleiro Frantisek Planicka, o zagueiro Ferdinand "Fernando" Daucik, o meia Vlastimil Kopecky, o atacante Oldrich Nejedly. 

Não deu outra: a queda previsível aconteceu no Estádio Municipal de Le Havre, em 5 de junho de 1938. Se serve de consolo, a Holanda (que tinha o mais jovem - Bertus de Harder, 18 anos - e o mais velho - Wim Anderiesen, 34 anos - jogadores daquela Copa) se esforçou demais. Conteve os tchecos durante todo o tempo normal, conseguindo alcançar a prorrogação. Porém, já na reta final dos 90 minutos, o meia "Freek" van der Veen torceu o tornozelo, e precisou sair do jogo. Com dez em campo, numa época em que ainda não havia substituições no futebol, a Laranja sucumbiu na prorrogação: Josef Kostalek fez aos 96', Nejedly marcou aos 102', Josef Zeman completou aos 104', Tchecoslováquia 3 a 0, classificada para as quartas de final - nas quais seria eliminada pelo Brasil.

Pelo menos, aquele mês de junho terminou com um momento curioso na história da seleção da Holanda: um amistoso não-oficial, em 26 de junho. Explique-se: a região onde atualmente se localiza a Indonésia era colonizada na época pelo Reino dos Países Baixos - tratavam-se das Índias Holandesas Orientais (onde, aliás, havia nascido o citado "Beb" Bakhuys), que... também haviam jogado a Copa de 1938 - e também tinham sido eliminadas logo na estreia, goleadas pela Hungria (6 a 0). Porém, pelo território ser considerado "parte do reino", o amistoso com a seleção índica não entrou nas estatísticas oficiais. E o 9 a 2 da Holanda na sua colônia distante virou apenas uma memória distante.

Como virariam memórias distantes as próprias participações da Holanda nas Copas de 1934 e 1938. No ano seguinte, começaria a Segunda Guerra Mundial. Os Países Baixos sofreriam barbaramente, em muitos casos. Em outros, haveria colaboração com o Eixo nazifascista (a começar pela relação - contestada aqui e ali - de Karel Lotsy, o todo-poderoso presidente da federação, com os nazistas). De todo modo, o caráter amador que persistiu por muito tempo retardou bastante o desenvolvimento da Holanda. Craques como os atacantes Faas Wilkes e Abe Lenstra nunca passariam nem perto de uma Copa do Mundo. E o Reino dos Países Baixos era, para todos os efeitos, uma nação de segundo/terceiro escalão no futebol masculino.

Até a sua volta a uma Copa do Mundo, 36 anos depois. Quase uma "reestreia". Que seria antológica.

Os convocados da Holanda para a Copa de 1938

Goleiros
Adri van Male (Feyenoord) - 1 jogo
Niek Michel (VSV Velsen) - não jogou

Zagueiros
Mauk Weber (ADO Den Haag) - 1 jogo
Bertus Caldenhove (DWS Amsterdam) - 1 jogo
Dick Been (Ajax) - não jogou
Hendrikus Plenter (Be Quick 1887) - não jogou

Meio-campistas
Wim Anderiesen (Ajax) - 1 jogo
Puck van Heel (Feyenoord) - 1 jogo
Bas Paauwe (Feyenoord) - 1 jogo
Frans Hogenbirk (Be Quick 1887) - não jogou
René Pijpers (RFC Roermond) - não jogou

Atacantes
Frank Wels (Unitas) - 1 jogo
Leen Vente (Feyenoord) - 1 jogo
Kick Smit (HFC Haarlem) - 1 jogo
Bertus de Harder (VUC Den Haag) - 1 jogo
Frans "Freek" van der Veen (Heracles Almelo) - 1 jogo
Arie de Winter (HFC Haarlem) - não jogou
Daaf Drok (RFC Rotterdam) - não jogou
Klaas Ooms (DWB) - não jogou
Piet de Boer (KFC) - não jogou
Piet Punt (DFC Dordrecht) - não jogou
Henk van Spaandonck (Neptunus) - não jogou

Técnico: Bob Glendenning

Campanha

Primeira fase
Tchecoslováquia 3x0 Holanda (Países Baixos)

sexta-feira, 29 de julho de 2022

A Holanda nas Copas masculinas: 1934 - Eles foram a Roma

Mesmo com um futebol ainda amador, a seleção da Holanda estreou em Copas do Mundo atraindo relativo otimismo em 1934. A derrota frustrou tudo (Arquivo)

Muitos jovens. Alguns bons jogadores - boa parte deles, talvez, os grandes craques da era em que o futebol da Holanda (Países Baixos) ainda era amador, e tinha uma seleção de terceiro escalão. Havia até uma música de incentivo para os 22 convocados da primeira participação da seleção masculina holandesa numa Copa do Mundo. Só não havia um nível técnico muito alto. Por isso, e pela rapidez do regulamento, a aparição da Holanda foi muito fugaz, em sua primeira Copa. Talvez até por isso, esta série histórica do Espreme a Laranja tenha alguma utilidade: para lembrar que, mesmo com desempenhos esquecíveis, a Laranja apareceu em Mundiais, sim senhor, antes de "recomeçar sua história" em 1974. E se ela estava na segunda Copa do Mundo da história, deve parte considerável disso ao principal diretor da federação dos Países Baixos. 

Karel Lotsy (1893-1959) começou a colaborar com a KNVB durante os Jogos Olímpicos de 1924, em Paris. Com seu ímpeto para comandar - que, comumente, resvalava no autoritarismo -, Lotsy logo se tornou um braço-direito de Carl Hirschmann (1877-1951), antológico dirigente da entidade, um dos fundadores da FIFA. Por volta de 1927, Lotsy já tinha se tornado um "diretor sem cargo", tomando conta de tudo que se relacionasse com a seleção holandesa. No ano seguinte, foi integrante fundamental para a organização dos Jogos Olimpícos de 1928, em Amsterdã - nos quais a Holanda teve a medalha de bronze no futebol. Em setembro de 1930, Karel virou de direito o que já era de fato: diretor na federação de futebol. E finalmente, em 1931, com Carl Hirschmann precisando abandonar suas funções na federação (para socorrer suas empresas, ainda sofrendo com a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929), Lotsy se converteu num comandante quase sem limites de poder na KNVB.

Polêmico e autoritário, Karel Lotsy deu algum senso de organização à seleção masculina da Holanda, no começo da década de 1930 (Arquivo)

Se seu autoritarismo se traduzia em atitudes exageradamente críticas e exigentes com a seleção da Holanda, que vivia então em péssima fase (estava sem vencer amistosos fora de casa havia seis anos, por exemplo), se negar o direito de disputar a Copa de 1930 havia pego mal para uma nação que ajudara a fundar a FIFA, Karel Lotsy tinha tudo para usar a Laranja como um meio de fortalecer seu poder no esporte dos Países Baixos. E fez isso. Tendo em mente chegar à Copa de 1934, ele criou uma seleção permanente já em seu primeiro ano dirigindo o futebol na entidade. Tal grupo fazia períodos e mais períodos de treinos, além dos amistosos. E sair desse grupo, para o diretor, equivalia a uma traição imperdoável à nação, que contava com a seleção - ponto de vista previsível, numa época em que os populismos nacionalistas começavam a pulular pela Europa. Como o nazismo, na Alemanha - regime com o qual há até hoje acusações de colaboração por parte de... Karel Lotsy.

Fosse como fosse, de fato, no começo da década de 1930 a seleção da Holanda ganhou novo impulso. Venceu amistosos contra Dinamarca (2 a 0) e França (4 a 3), ambos fora de casa. Mesmo contra seleções europeias que eram mais fortes, como a Áustria, tinha desempenhos honrosos - diante do "Wunderteam" em que Matthias Sindelar brilhava em campo, a derrota foi "só" 1 a 0, em 1933. Além do mais, todos esses amistosos abriam caminho para alguns dos principais craques holandeses pré-1974, como o atacante Leendert "Leen" Vente (1911-1989), que estreou justamente contra a Áustria. No começo de 1934, o ano da Copa do Mundo, um amistoso contra a velha rival Bélgica, em 11 de março. E uma goleada: 9 a 3 - cinco gols de Leen Vente, dois de outra estrela que subia na Holanda: o atacante Elisa Hendrik "Beb" Bakhuys (1909-1982), de volta ao país após passagem a trabalho pelas Índias Holandesas Orientais - hoje, Indonésia, onde Bakhuys nasceu. Naquele 9 a 3, fazia sua primeira partida pela Laranja mais um atacante de destaque: Johannes "Kick" Smit (1911-1974).

E o otimismo da Holanda em sua seleção cresceu de vez em sua participação nas eliminatórias da Copa de 1934: num grupo com Bélgica e Irlanda (então chamada Estado Livre Irlandês), a Laranja venceu as duas partidas, graças a duas viradas. No primeiro jogo, em 8 de abril de 1934, no Estádio Olímpico de Amsterdã, saiu na frente da Irlanda, tomou a virada, mas partiu para uma goleada - 5 a 2. E fora de casa, contra a velha adversária Bélgica, em 29 de abril de 1934, também tomou 1 a 0, mas também virou para o triunfo (4 a 2) que a levou à primeira participação numa Copa. 

"Beb" Bakhuys voltou das Índias Holandesas Orientais para ser um dos primeiros destaques da seleção da Holanda, ao lado de Kick Smit e Leen Vente (Arquivo)

"Beb" Bakhuys marcara quatro gols nas eliminatórias - e se tornava a principal promessa de uma boa campanha holandesa. Com Kick Smit e Leen Vente também se destacando na frente, mais a relativa experiência dos meio-campistas Puck van Heel e Wim Anderiesen, a esperança aumentava ainda mais. E ela se embalava por uma música: "Wij gaan naar Rome" ("Nós vamos a Roma"), evocando a Itália, país-sede daquele Mundial.

We gaan naar Rome, we gaan naar Rome ("Nós vamos a Roma, nós vamos a Roma")
Bep Bakhuys doelpunt daar voor twee ("E Beb Bakhuys fará dois gols")
We gaan naar Rome, we gaan naar Rome ("Nós vamos a Roma, nós vamos a Roma")
En Vente neemt z'n kanjers mee ("E Vente está levando seu brilho")


Porém, o autoritarismo de Karel Lotsy desgastou a equipe antes mesmo dela ir a Roma. Tudo a partir de uma polêmica sobre o goleiro titular. Nas eliminatórias, Adri van Male e Gerrit Keizer jogaram uma partida cada um; no amistoso contra a França, último pré-Copa, Gerrit Keizer tomou cinco gols (França 5 a 4, em 10 de maio de 1934). E Lotsy, em uma coluna que mantinha numa revista, decidiu exortar o veterano Gejus van der Meulen, 30 anos, já dedicado à medicina - sempre bom lembrar que o futebol na Holanda ainda era amador. Van der Meulen sucumbiu à pressão, se integrando à delegação de convocados para a Copa. Esperando por Van Male como titular, o grupo se aborreceu com a imposição de Karel Lotsy. Aborreceu-se ainda mais ao saber que Van der Meulen tivera a permissão de levar a esposa para a viagem à Itália. 

Fosse como fosse, a seleção da Holanda chegava à Copa de 1934 com algum otimismo. Num torneio com regulamento diferente das Copas atuais (era mata-mata desde o começo, sem fase de grupos, em partida única), a Suíça coubera como adversária da Laranja - adversária respeitável, mas não era a forte Itália, país-sede, nem Tchecoslováquia ou Espanha, duas das melhores seleções europeias da época. Entretanto, os suíços tinham dois destaques: os atacantes Léopold Kielholz e André Abegglen. Já haviam vencido os neerlandeses num amistoso, no ano anterior (2 a 0). E tanto Kielholz quanto Abegglen marcariam gols - um do primeiro, dois do segundo - no 3 a 2 em San Siro, partida em que a Holanda mal estreou e já foi eliminada da Copa. Kick Smit e Leen Vente ainda diminuíram, mas ficou no placar mesmo a derrota e a queda, na primeira partida dos Países Baixos em Copas, em 27 de maio de 1934.

A Holanda foi mesmo a Roma. Mas voltou rápido. Até demais, para um time que atraiu certas expectativas.

Os convocados da Holanda para a Copa de 1934

Goleiros
Gejus van der Meulen (HFC) - 1 jogo
Adri van Male (Feyenoord) - não jogou
Leo Halle (Go Ahead Eagles) - não jogou

Zagueiros
Mauk Weber (ADO Den Haag) - 1 jogo
Sjef van Run (PSV) - 1 jogo
Jan van Diepenbeek (Ajax) - não jogou

Meio-campistas
Wim Anderiesen (Ajax) - 1 jogo
Henk Pellikaan (Longa Tilburg) - 1 jogo
Puck van Heel (Feyenoord) - 1 jogo
Toon Oprinsen (NOAD Breda) - não jogou
Bas Paauwe (Feyenoord) - não jogou*

Atacantes
Frank Wels (Unitas) - 1 jogo
Beb Bakhuys (ZAC) - 1 jogo
Leen Vente (Neptunus) - 1 jogo, 1 gol
Kick Smit (HFC Haarlem) - 1 jogo, 1 gol
Joop van Nellen (DHC) - 1 jogo
Jan Graafland (HBS) - não jogou
Wim Langendaal (Xerxes) - não jogou
Kees Mijnders (DFC Dordrecht) - não jogou
Jaap Mol (KFC) - não jogou
Arend Schoemaker (Quick) - não jogou
Hermanus "Manus" Vrauwdeunt (Feyenoord) - não jogou*

Técnico: Bob Glendenning

*Embora relacionados oficialmente entre os convocados, Paauwe e Vrauwdeunt ficaram de sobreaviso na Holanda (Países Baixos). Só 20 jogadores embarcaram à Itália para a Copa do Mundo

Campanha

Primeira fase
Suíça 3x2 Holanda (Países Baixos)