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| Como em 1974, a Holanda foi vice-campeã na Copa do Mundo. Mas em 1978, ela teve um caminho cheio de turbulências (ANP Archief) |
(Aqui, antes de mais nada, um texto mais completo e profundo sobre a participação da Holanda na Copa de 1978)
A Holanda impressionara na Copa de 1974 - até inesperadamente, diante de todas as atribulações dos meses anteriores. Quatro anos depois, a princípio, o desempenho da Laranja poderia ser considerado tão honroso quanto no Mundial da Alemanha: afinal de contas, repetiu-se o vice-campeonato, consolidando que o país passara para o primeiro escalão do futebol mundial, pelo menos naquela época. E o segundo lugar obtido pelos Países Baixos na Copa de 1978 também chegou de modo surpreendente, de certa forma. No entanto, se o resultado foi o mesmo, a forma não foi: a campanha foi menos embasbacante, as dificuldades foram maiores, a Holanda oscilou muito ao longo dos seus sete jogos na Argentina.
É correto dizer que as oscilações ficaram de fora da campanha nas eliminatórias: com cinco vitórias e um empate contra Bélgica, Islândia e Irlanda do Norte, no grupo 4 da qualificação europeia, a vaga para a Copa foi conquistada tranquilamente. Elas começaram junto ao início do ano do Mundial. Primeiro, com o que já se sabia: Johan Cruyff até atuou nas eliminatórias, mas ficaria de fora da Copa, por uma decisão pessoal que despertou várias teorias de motivo (protesto contra o governo militar argentino, protesto contra a premiação baixa que a federação holandesa ofereceria por resultado - até que o próprio Cruyff explicasse, anos mais tarde, que desejava ficar com a família, após ela ser vítima de um sequestro-relâmpago). Depois, já em 1978, a troca de técnico: Jan Zwartkruis, que comandara a Laranja na qualificação, foi "rebaixado" a auxiliar do austríaco Ernst Happel, campeoníssimo com o Feyenoord - mas contestado por parte do grupo, em razão de seu autoritarismo.
Houve mais problemas no caminho dos Países Baixos até aquela Copa. Cerca de duas semanas antes da viagem à Argentina, país-sede, Wim van Hanegem decidiu deixar o grupo de convocados que já treinava: sem garantias de que seria titular, Van Hanegem preferiu abrir mão do lugar na Copa. Uma vez já no quartel-general da Laranja na Copa - o afastado Gran Hotel Potrerillos, a 60 quilômetros de Mendoza -, Hugo Hovenkamp foi outra baixa forçada, desta vez por lesão. E o clima sob o comando de Ernst Happel estava cada vez mais tenso. Por isso, mesmo com vários remanescentes de 1974 - Jan Jongbloed no gol; Wim Rijsbergen e Ruud Krol na defesa (aliás, de lateral direito no vice-campeonato de quatro anos antes, Krol jogava como um tremendo zagueiro, dos melhores do mundo em 1978); Johan Neeskens, Wim Jansen e os gêmeos Van de Kerkhof (Willy e René) no meio-campo; Johnny Rep e Robert Rensenbrink no ataque.
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| Rensenbrink foi um dos únicos da Holanda a já mostrar alto nível desde a fase de grupos (Fotocollectie/Anefo) |
Rensenbrink já despontou como o melhor jogador holandês na Copa na primeira fase de grupos: fez os três gols dos 3 a 0 no Irã, na estreia. Contudo, um 0 a 0 contra o Peru, em ótima atuação da Albirroja, já dificultou um pouco a situação da Laranja. E no último jogo da fase inicial, contra a Escócia, sérios riscos foram corridos: os escoceses chegaram a estar com vantagem de 3 a 1, e pelo saldo, mais um gol deles deixaria a Holanda fora da Copa, pelo maior número de gols pró do adversário. Mas Johnny Rep chutou, de longe, diminuindo a derrota para 3 a 2 (o outro gol holandês, de Rensenbrink, foi o 1000º da história das Copas). Mesmo perdendo, a Holanda estava classificada. Mas precisava mudar. A segunda fase - também em grupos, como na Copa de 1974, com os vencedores fazendo a final - não podia ser a mesma coisa.
E não foi. Primeiro, a federação forçou uma perda de poder de Ernst Happel: bem melhor relacionado com os jogadores, o auxiliar Jan Zwartkruis passou a ter mais influência. Depois, vieram algumas mudanças na escalação: jogadores mais jovens, como o lateral Jan Poortvliet e o zagueiro Ernie Brandts, ganharam espaço com a lesão de nomes mais experientes. E o aspecto ofensivo, aliado ao espírito de luta, mostrou uma outra Holanda. Que já recuperou respeito com o 5 a 1 sobre a Áustria, estreia na segunda fase. Depois, no clássico contra a Alemanha, repetição da rival de 1974, a Laranja mostrou poder de reação: ficou atrás por duas vezes no placar, e buscou o empate em 2 a 2. Melhor ainda no jogo que definiu a chegada à final da Copa: os holandeses saíram atrás contra a Itália, mas viraram para 2 a 1 em grande estilo, incluindo o gol da vitória, de Haan - grande chute de fora da área.
Na final, contra a Argentina, bem que a Holanda se esforçou de novo. Num jogo truncado e ríspido, cheio de violência, a equipe europeia também bateu, quase tanto quanto levou. Aos poucos, uma mudança tática (apostar em cruzamentos, com a entrada de Dick Nanninga) fez a Holanda melhorar, e empatar ainda no tempo normal. Mais ainda: a virada quase veio, nos acréscimos, com um toque de Rensenbrink na trave. E na prorrogação, usando da motivação que a torcida lhe trazia no Monumental de Núñez, a Argentina conseguiu a vitória por 3 a 1. Se servia de consolo, a Holanda mostrara espírito de luta, e poderia sair despercebida de um ambiente altamente tenso como estava a Argentina da época. Mas, novamente, era vice-campeã.
Ou seja: o final foi o mesmo da Copa de 1974. Mas o caminho da Holanda até ele não foi.
E só as memórias intensas daquela geração conduziriam a Laranja, que viveu no ostracismo durante os anos 1980, fora das Copas daquela década. Até outra geração surgir...
Os convocados da Holanda para a Copa de 1978
Goleiros
8-Jan Jongbloed (Roda JC) - 5 jogos, 6 gols sofridos
1-Piet Schrijvers (Ajax) - 3 jogos, 4 gols sofridos
19-Pim Doesburg (PSV) - não jogou
Defensores
5-Ruud Krol (Ajax) - 7 jogos
2-Jan Poortvliet (PSV) - 5 jogos
22-Ernie Brandts (PSV) - 4 jogos, 1 gol, 1 gol contra
20-Wim Suurbier (Schalke 04-ALE) - 4 jogos
17-Wim Rijsbergen (Feyenoord) - 3 jogos
4-Adrie van Kraay (PSV) - 2 jogos
7-Piet Wildschut (Twente) - 1 jogo
15-Hugo Hovenkamp (AZ)*
Meio-campistas
11-Willy van de Kerkhof (PSV) - 7 jogos, 1 gol
10-René van de Kerkhof (PSV) - 7 jogos, 1 gol
6-Wim Jansen (Feyenoord) - 7 jogos
9-Arie Haan (Anderlecht-BEL) - 6 jogos
13-Johan Neeskens (Barcelona-ESP) - 5 jogos
3-Dick Schoenaker (Ajax) - 1 jogo
14-Johan Boskamp (Molenbeek-BEL) - 1 jogo
Atacantes
12-Robert Rensenbrink (Anderlecht-BEL) - 7 jogos, 5 gols
16-Johnny Rep (Bastia-FRA) - 7 jogos, 3 gols
18-Dick Nanninga (Roda JC) - 4 jogos, 1 gol
21-Harry Lubse (PSV) - não jogou
Técnico: Ernst Happel
*Lesionado, Hovenkamp foi cortado com a Copa já em andamento. Por isso, deixou a seleção da Holanda com 21 jogadores
Campanha
Primeira fase de grupos
Holanda (Países Baixos) 3x0 Irã
Holanda (Países Baixos) 0x0 Peru
Holanda (Países Baixos) 2x3 Escócia
Segunda fase de grupos
Holanda (Países Baixos) 5x1 Áustria
Holanda (Países Baixos) 2x2 Alemanha Ocidental
Holanda (Países Baixos) 2x1 Itália
Final
Argentina 3x1 Holanda (Países Baixos)


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