quarta-feira, 31 de julho de 2024

Laranja Mecânica, primeira e única - 5º capítulo: a euforia cresce e diminui

Na segunda partida pela Copa de 1974, a Holanda atacou, mas teve na Suécia um adversário que se segurou e até tentou responder. O 0 a 0 diminuiu um pouco a empolgação (Getty Images)

Introdução





O que uma grande estreia não faz... bastou a seleção da Holanda (Países Baixos) fazer 2 a 0 com tremenda atuação em seu primeiro jogo na Copa de 1974, contra o Uruguai, para que hordas e hordas e mais hordas de holandeses atravessassem a fronteira, fosse da maneira que fosse, para assistirem à Laranja na Alemanha. Um bom exemplo vinha da agência de viagens Maduro, sediada em Haia. Antes da estreia, ela tinha vendido mil pacotes de viagens para a Copa do Mundo, ingressos inclusos; depois da vitória, foram dez mil pacotes vendidos. Parecia que todos os problemas anteriores haviam desaparecido. Como as citadas dificuldades na campanha pelas eliminatórias do Mundial. Ou as dificuldades de Rinus Michels para montar a equipe titular. Ou mesmo a oposição da torcida à postura dos jogadores, considerada mercenária. 

Não era sem motivo: a partir da influência do agente - e sogro - Cor Coster (1920-2008) sobre Johan Cruyff, o capitão da seleção, ele influía no desejo do grupo de jogadores em pedir mais dinheiro à federação, por sua própria postura. Cruyff era dos primeiros futebolistas daqueles tempos a se comportar - e a pedir pagamentos - como uma estrela. Prova disso era a negociação para que o "Número 14" divulgasse uma empresa de material esportivo, pouco antes da Copa. A Puma tinha a proposta de 1,5 mil florins (moeda dos Países Baixos pré-euro); Cruyff achava pouco, e Cor Coster já tinha um princípio de acordo com a Adidas, para usar como trunfo na negociação. A Puma soube e... aumentou a oferta para 250 mil florins. Pronto: Cruyff aceitou, e como contratado da empresa fundada por Rudolf Dassler, se negou a usar a camisa holandesa "normal" da Copa, com as três listras da Adidas (de Adolf "Adi" Dassler). Exigia as duas listras. E foi acompanhado pelos irmãos Van de Kerkhof, Willy e René. Tais posturas desagradavam a torcida. Ainda mais com a falta de resultados dentro de campo.

Cor Coster (à direita) ajudou o genro Cruyff a fortalecer sua imagem e seus ganhos, mas também tornou a postura dele controversa (Arquivo ANP)

Mas isso era passado. A euforia tinha crescido logo que a Copa começou - ainda mais com um começo daqueles para a Laranja... e a popularidade começava a rondar mais o Waldhotel, na cidade alemã de Hiltrup, quartel-general da delegação neerlandesa durante o torneio. No ambiente interno, porém, antes do jogo contra a Suécia, Rinus Michels surpreendeu de novo. Durante a preparação para a Copa, ainda nos treinos em Hengelo, o treinador já comunicara a Piet Keizer (1943-2017): ele ficaria na reserva de Rensenbrink, por se encaixar menos no time do que o camisa 15 faria. Keizer, dos melhores pontas holandeses dos anos 1960 e 1970, destaque do Ajax campeoníssimo dos anos recentes, até achava que poderia ser titular, mas aceitou bem a decisão de Michels - e, de fato, vivia em má fase. Tudo isso, para, dias antes do jogo contra a Suécia, saber que ele seria o titular do ataque holandês, ao lado de Johnny Rep (e à frente de Johan Cruyff), e não Rensenbrink. Explicações? Rinus Michels não deu. Seria daquele jeito, e pronto. 

Piet Keizer se destacou muito no futebol holandês, nos anos 1960 e 1970, mas já estava na descendente da carreira na Copa de 1974. E só apareceria em campo contra a Suécia (Bert Verhoeff/Anefo)

Assim a Holanda começou o jogo, num Waldstadion de Dortmund que já estava bem mais repleto de holandeses do que o estádio Niedersachsen, em Hannover, estava na estreia. Só que a Suécia também era um time bem mais exigente do que o Uruguai tinha sido. Tinha um goleiro respeitável em Ronnie Hellström (1949-2022); um zagueiro já experiente em Bjorn Nordqvist; e a dupla de ataque formada por Ralf Edström e Roland Sandberg não faria nada feio naquela Copa. Tanto que a Suécia seria a outra classificada do grupo 3 para a segunda fase. E tanto que a Suécia é que começaria atacando. Aos 2', Edström tentou um cabeceio e só não conseguiu porque Jongbloed se antecipou e afastou; no minuto seguinte, o meio-campo Ove Grahn arriscou de fora, e o goleiro da camisa 8 defendeu firme.

Depois dos sustos, a Laranja acordou. No ataque (aos 4', Keizer passou e Van Hanegem bateu para fora) e na defesa (só aos 8', a defesa já tinha montado duas linhas de impedimento, deixando os suecos em condição ilegal de jogo). Aos poucos, Keizer deu razão às desconfianças, se mostrando tímido demais nos ataques pela esquerda. Krol até tentou avançar no começo, mas quem cobriu a lacuna? Claro, o homem que sempre se mexia, tudo via e tudo sabia de bola na Holanda: Hendrik Johannes Cruijff, o Johan Cruyff, que começou a cruzar bolas (como a que passou por Johan Neeskens na pequena área, aos 12'; a que Neeskens voleou para fora, aos 17'; e a que Johnny Rep escorou por cima do gol, aos 29'), a chutar (aos 14', arremate defendido por Hellström)... e a driblar. Como faria em lance que se tornou histórico, aos 23 minutos da etapa inicial: tentando passar pelo lateral Jan Olsson na área, Cruyff deu um giro de corpo que "descadeirou" Olsson. Nascia ali a "Cruyff Turn", o "giro de Cruyff". No triste 24 de março de 2016 em que o "Número 14" faleceu, o lateral sueco foi ouvido pelo jornal inglês The Guardian. E celebrou: "Eu me lembro daquele lance todo dia".


A Holanda sempre atacava. Mesmo assim, a Suécia lembrava aqui e ali que não estava morta no jogo, e que tinha capacidade técnica. Assustou no primeiro tempo, aos 21': em cobrança de falta ensaiada, Sandberg bateu após ajeitarem, e Jongbloed rebateu - na sequência, o meio-campo Inge Ejderstedt chegou à área com a bola, mas completou para fora. Na etapa final, Ejderstedt voltou a aparecer, aos 49', num chute após escanteio (Jongbloed pegou). Só que a Holanda, mais veloz, amparada por Cruyff velocíssimo e Neeskens em outra boa atuação, criou várias chances - a primeira, aos 52', voleio de Rep por cima do gol. As chances fizeram Hellström brilhar no gol da Suécia. Mesmo sem milagres, o camisa 1 esteve a postos para pegar chute colocado de Cruyff, aos 55'; arremate de Van Hanegem, aos 62'; cruzamento rasteiro de Keizer na pequena área, aos 65' (pouco antes, Keizer chutara torto para fora, da entrada da área, causando reclamações de Cruyff); e nova tentativa de Cruyff, aos 79'. A Suécia só teve mais uma grande chance, aos 80': após lançamento e desvio de cabeça, Ejderstedt ajeitou, mas Sandberg perdeu o gol. No mais, a Laranja tentou o "abafa", até defensores como Wim Rijsbergen foram para a área... mas o placar ficou num 0 a 0. Divertido, mas 0 a 0.

Que diminuiu um pouco a euforia da estreia. Só um pouco. Porque, no jogo seguinte da Holanda na Copa de 1974, ela cresceu e nunca mais diminuiu.




COPA DO MUNDO FIFA 1974 - FASE DE GRUPOS - GRUPO 3

Holanda 0x0 Suécia

Data: 19 de junho de 1974
Local: Waldstadion (Dortmund)
Árbitro: Werner Winsemann (Canadá)

HOLANDA
Jan Jongbloed; Wim Suurbier, Arie Haan, Wim Rijsbergen e Ruud Krol; Wim Jansen, Willem van Hanegem (Theo de Jong, aos 73') e Johan Neeskens; Johan Cruyff; Piet Keizer e Johnny Rep. Técnico: Rinus Michels

SUÉCIA
Ronnie Hellström; Jan Olsson (Roland Grip, aos 75'), Kent Karlsson, Bjorn Nordqvist e Björn Andersson; Ove Grahn, Bo Larsson, Staffan Tapper (Örjan Persson, aos 61') e Inge Ejderstedt; Ralf Edström e Roland Sandberg. Técnico: Georg Ericson

terça-feira, 30 de julho de 2024

Laranja Mecânica, primeira e única - 4º capítulo: o mais lindo acidente

Posando para fotos no estádio de Hannover, antes da estreia na Copa de 1974: contra o Uruguai, a Holanda já começaria a surpreender. Principalmente no segundo tempo (Getty Images)

Como se sabe, os amistosos da seleção da Holanda (Países Baixos) pré-Copa de 1974 não atraíam lá muita confiança no que a Laranja poderia fazer na Alemanha. Mas como também se sabe, as coisas começavam a mudar, nas conversas privadas que Rinus Michels tinha com Johan Cruyff, o diferenciado de sua equipe. E elas continuariam a mudar, até que se soubesse o que seria da equipe neerlandesa na estreia na Copa, em 15 de junho de 1974, contra o Uruguai, em Hannover. Uma mudança já era certa: Jan Jongbloed seria o goleiro titular. Mais pelo que jogava com os pés pelo que jogava com as mãos.

A mudança seguinte viria a partir dos dois amistosos seguintes. O primeiro, tão somente um jogo-treino: vitória por 2 a 1 sobre o Kickers Offenbach, time alemão, em 1º de junho de 1974, na cidade de Den Bosch. Já ali, se veria uma sugestão tática de Cruyff: uma defesa menos estática e mais hábil, podendo iniciar até as saídas de bola, com Arie Haan (meio-campista que nunca havia jogado como zagueiro) e Wim Jansen formando a dupla no miolo de zaga. Seria esta a dupla que também começaria o último amistoso oficial antes do Mundial: 0 a 0 contra a Romênia, 5 de junho de 1974, em De Kuip (Roterdã). Um jogo em que, de novo, a euforia foi inexistente: De Kuip tinha meia lotação, a Holanda ainda foi lenta, e a imprensa não se encantou - o De Telegraaf começou sua notícia no dia seguinte com "No seu último amistoso, a Holanda novamente não se impôs".

Nessa partida, o time laranja contou com escalação mista - sim, havia os citados Haan e Jansen, Ruud Krol, Johan Neeskens, Willem van Hanegem, Robert Rensenbrink, mas também o goleiro Eddy Treijtel, e os atacantes Theo de Jong e Ruud Geels. Este, inclusive, protagonista indireto de uma historieta: com a Holanda tendo suas camisas numeradas em ordem alfabética para a Copa, Geels ficaria com a camisa 14. Justamente a preferida de Johan Cruyff, a quem coubera a camisa 1. Cruyff usou de toda sua liderança naquele ambiente para, bem, persuadir Geels a lhe ceder a camisa 14. Persuasão bem sucedida, como se sabe. Pelo menos, Geels marcaria época para os holandeses: foi seis vezes artilheiro da Eredivisie.

Ruud Geels marcaria época dentro do futebol holandês... mas na Copa de 1974, ficaria na reserva. E teria de trocar o número de sua camisa - pedido de Cruyff (Rob Mieremet/Anefo)

No intervalo daquele 0 a 0 contra a Romênia, um novato substituiu Jansen no miolo de zaga: Wim Rijsbergen, jovem (22 anos) zagueiro do Feyenoord, fazendo naquele amistoso justamente a sua estreia pela seleção neerlandesa. Até melhorou o toque de bola com Haan. E se decidiu, no restante dos treinos em Hengelo, antes mesmo da viagem à Alemanha: Haan e Rijsbergen formariam a zaga da Laranja na Copa. Algo até compreensível. Mas também temerário, tendo em vista que Haan era desacostumado a jogar na defesa, e Rijsbergen era praticamente um estreante em seleção. Mais um fator a aumentar a incógnita com que a Holanda viajou à Alemanha - ao jornalista Auke Kok, Haan confessou que passou a viagem de ônibus pensando como era possível que a seleção fosse vista com tamanha desconfiança, sendo que os times holandeses (principalmente o Ajax) viviam fase tão boa. O guia da revista alemã Kicker para a Copa de 1974 era claro: "A Holanda espera por um pequeno milagre. A preparação da seleção para a Copa foi tão curta que os torcedores não têm expectativas (...) Apesar de estrelas como Johan Cruyff, Willem van Hanegem, Johan Neeskens e Piet Keizer estarem disponíveis, os habitantes do país das tulipas já se alegrarão só do país conseguir um lugar entre os oito classificados à segunda fase".

Em seu livro Futebol Total - a edição brasileira de Mundial 74, publicação espanhola na qual rememorou o que viveu naquele Mundial -, Cruyff reconheceu: "Estávamos muito nervosos. Além de nunca termos atuado juntos, cinco jogadores estreavam em novas funções. O goleiro Jongbloed era novo na equipe. (...) Haan e Rijsbergen nunca haviam atuado daquela maneira - formando a dupla de zaga. Jansen demorou a chegar ao elenco, e atuava como Neeskens, no meio. O próprio Neeskens teve de se sacrificar e fazer várias funções. Eu não estava 100% fisicamente... E tudo isso junto, num só jogo, o da estreia, contra uma seleção bicampeã mundial, quarta colocada na Copa anterior".

Triângulos de bermudas

Pois deu muito certo. Nos primeiros dois minutos, até que o Uruguai (time experiente, que contava com destaques conhecidos dos brasileiros - o goleiro Ladislao Mazurkiewicz, o lateral direito Pablo Forlán - sim, pai do recente Diego -, o meio-campo Pedro Rocha) tentou manter a bola. Mas no terceiro, Forlán já levou cartão amarelo, por falta dura em Neeskens. E aos 7', uma triangulação rendeu o 1 a 0: Cruyff dominou a bola, passou a Suurbier, este cruzou, e Johnny Rep completou de cabeça. Já valeu para empolgar a torcida holandesa - ainda pouca - presente em Hannover. Mesmo nem tão veloz assim, a Holanda mantinha a posse de bola, com os avanços de Jansen e Neeskens, dois dos melhores holandeses em campo. E ficava claro que, longe de ser uma "bagunça", o esquema tático estava definido numa espécie de "4-3-Cruyff-2", como cunhou o jornalista André Rocha. Na defesa, a linha Suurbier-Haan-Rijsbergen-Krol; no meio, enquanto Jansen e Neeskens corriam, Van Hanegem era o homem dos lançamentos; Rep era mais de finalizar, e Rensenbrink, de buscar a bola; e coordenando tudo, avançando, ajudando a defesa quando tinha de ajudar, criando ataques quando tinha de criar, Johan Cruyff, o centro daquilo tudo.

Indo e vindo do meio-campo para o ataque, dominando a bola, direcionando os ataques: Cruyff era um capitão na acepção da palavra. E já mostrou isso na estreia (Bob Thomas Sport Fotography/Getty Images)

A Holanda nem foi tão veloz assim desde o primeiro tempo em Hannover. Somente criou chances em chutes de fora da área (Wim Suurbier aos 32', muito de longe; Krol, mandando mais perto do gol, aos 36'). O Uruguai até trabalhou aos 23', num cruzamento que Jongbloed cortou. Mas aos 39', Van Hanegem deixou claro o time que andara mais perto do gol, quase marcando após cabeceio desviado. E de mais a mais, com os constantes avanços de Suurbier e Krol (pelos lados) e Neeskens e Jansen (pelo meio), notavam-se "triângulos" de bermudas e camisas laranjas a impedirem os uruguaios de criarem jogadas de ataque. Ainda assim, o 1 a 0 mostrava que faltava algo.

Segundo tempo: os primeiros sinais do Carrossel

Não faltaria mais no segundo tempo. Nele, sim, a Holanda mostrou por quê seria a sensação daquela Copa, criando chances e mais chances de gol. Já aos 50', uma cobrança de falta de Krol, ensaiada - Cruyff ajeitou e Van Hanegem bateu para fora; aos 53', num cruzamento de Neeskens, Rep escorou à queima-roupa, e Mazurkiewicz pegou. Era a chave: além dos avanços constantes, as jogadas pelas pontas aumentariam a pressão sobre o Uruguai. Avanços como os de Neeskens e Jansen: aos 59', os dois tabelaram, e o meio-campista da camisa 13 (incansável em campo) chutou para fora. No minuto seguinte, um lance que simbolizou aquela equipe da Holanda: numa cobrança de falta de Pedro Rocha, no meio-campo, bastou o camisa 10 uruguaio rolar a bola para dois, cinco, sete jogadores holandeses virem para cima de Mantegazza, que tentou dominar. Claro, roubavam a bola. Pressão incomum naqueles tempos do futebol.

E as chances continuaram até em maior número, na reta final do jogo. Aos 71', um chute de Rensenbrink, para fora; aos 72', Mazurkiewicz pegou outro, e na sequência, após cruzamento, Cruyff cabeceou para fora. Mais dois minutos, e um gol anulado de Cruyff, após bonita jogada de Van Hanegem. No minuto seguinte, em cobrança de falta ensaiada, Jansen bateu na trave, e quase Cruyff fez na sobra (Mazurkiewicz pegou em cima da linha). Diante de pressão quase irrespirável, até surpreendeu que o segundo gol só viesse a quatro minutos do fim, novamente com Rep - Van Hanegem lançou, Rensenbrink cruzou, Rep completou para o gol vazio.

Ao lembrar aquele dia, Pedro Rocha (1942-2013), considerado dos mais técnicos meio-campistas que o Uruguai já teve, reconhecia: "Somente duas vezes na minha carreira senti vontade de pedir socorro e gritar pela minha mãe: uma no primeiro clássico entre Nacional e Peñarol em que joguei, e outra quando enfrentei a Holanda em 1974". Já Cruyff, meses depois, no seu livro da época, se impressionava como tinha dado tão certo: "Até hoje não entendo como tudo daria tão certo (...) É impressionante ler e ouvir tudo que falavam de bom da gente durante o Mundial, que tínhamos um bloco homogêneo... como?! Até a Copa não tínhamos uma escalação, um time formado!".

Era um acidente que acontecia. O mais lindo acidente.


COPA DO MUNDO FIFA 1974 - FASE DE GRUPOS - GRUPO 3

Uruguai 0x2 Holanda

Data: 15 de junho de 1974
Local: Niedersachsenstadion (Hannover)
Árbitro: Karoly Pálotai (Hungria)
Gols: Johnny Rep, aos 7' e aos 86'

URUGUAI
Ladislao Mazurkiewicz; Pablo Forlán, Baudilio Jáuregui, Julio Montero Castillo e Pavoni; Walter Mantegazza, Victor Espárrago e Pedro Rocha; Luis Cubilla (Denís Milar, aos 64'), Fernando Morena e Juan Masnik. Técnico: Roberto Porta

HOLANDA
Jan Jongbloed; Wim Suurbier, Arie Haan, Wim Rijsbergen e Ruud Krol; Wim Jansen, Willem van Hanegem e Johan Neeskens; Johan Cruyff; Robert Rensenbrink e Johnny Rep. Técnico: Rinus Michels

domingo, 28 de julho de 2024

Laranja Mecânica, primeira e única - 3º capítulo: perdas antes dos ganhos

Estes foram os jogadores da Holanda convocados para a Copa de 1974. Mas àquela altura, ninguém sabia que marcariam época (Arquivo ANP)

Introdução


Como se comentou no capítulo passado, Rinus Michels já começou a ter uma ideia dos nomes com que poderia contar para a Holanda (Países Baixos) na Copa de 1974, logo após o primeiro amistoso em que comandou a Laranja. Só precisava treiná-los com toda a intensidade possível. E isso precisaria começar o mais rápido possível: em 30 de abril de 1974, o treinador forneceu à FIFA uma lista preliminar de 30 convocados.

GOLEIROS
Jan Jongbloed (FC Amsterdam), Piet Schrijvers (Twente), Eddy Treijtel (Feyenoord), Jan van Beveren (PSV), Heinz Stuy (Ajax) e Ton Thie (FC Den Haag - atual ADO Den Haag)

DEFENSORES
Wim Suurbier (Ajax), Barry Hulshoff (Ajax), Ruud Krol (Ajax), Dick Schneider (Feyenoord), Wim Rijsbergen (Feyenoord), Joop van Daele (Feyenoord), Rinus Israël (Feyenoord), Harry Vos (Feyenoord), Cornelius "Kees" van Ierssel (Twente), Epy Drost (Twente), Willem de Vries (Twente) e Kees Kornelis (NEC)

MEIO-CAMPISTAS
Johan Neeskens (Ajax), Gerrie Mühren (Ajax), Arie Haan (Ajax), Wim Jansen (Feyenoord), Theo de Jong (Feyenoord), Willem van Hanegem (Feyenoord), René Notten (Twente), Pleun Strik (PSV), Willy van de Kerkhof (PSV) e Chris Dekker (FC Amsterdam)

ATACANTES
Johnny Rep (Ajax), Jan Mulder (Ajax), Piet Keizer (Ajax), Henk Wery (Feyenoord), Theo Pahlplatz (Twente), René van de Kerkhof (PSV), Harry Lubse (PSV), Willy van der Kuylen (PSV), Willy Brokamp (MVV Maastricht), Johan Cruyff (Barcelona-ESP), Robert Rensenbrink (Anderlecht-BEL) e Ruud Geels (Club Brugge-BEL)

Todos eles chegaram para a reta final de treinamentos, na cidade holandesa de Hengelo, antes mesmo da viagem para a Alemanha. E neles, Rinus Michels já notou certas coisas. E teve de passar por certas perdas até formar os 22 convocados para a Copa. Dois deles tinham tudo para serem titulares, mas não resistiram a problemas físicos. O primeiro deles, justamente quem sugerira primeiro o nome do treinador do Barcelona para comandar a Laranja no Mundial: Barry Hulshoff. O zagueiro do Ajax já chegou para os treinos em más condições, e não demorou muito para ser cortado.

Outro nome que foi desligado da delegação mas poderia ter contribuído na Copa de 1974 foi Jan van Beveren, goleiro do PSV. Aí, a situação foi mais dramática. Porque Van Beveren era considerado na época (e continua sendo, 50 anos depois) um dos melhores goleiros já aparecidos no Reino dos Países Baixos. Seguro na meta, alto, elástico, calmo, com espírito de liderança... contudo, pelo que já se contou no segundo capítulo, se sabia que ele tinha muitas reservas - para nem dizer oposição - ao comportamento de muitos jogadores dentro do grupo de convocados, principalmente em relação a questões comerciais e interesses financeiros. Para piorar, Van Beveren vinha de uma séria lesão muscular na virilha, sofrida ainda em 1974. Só aceitou a convocação porque estava focado: queria que 1974 fosse sua Copa. Queria ser o titular.

Jan van Beveren, dos melhores goleiros holandeses de todos os tempos, poderia ter estado na Copa de 1974 - mas uma lesão e problemas de relacionamento causaram seu corte (Pro Shots)

Aí, entrou Rinus Michels. Até pelo pouco tempo de trabalho na seleção, o treinador exigia dedicação absoluta e ritmo já alto. Tanto que seriam feitos quatro amistosos até a estreia na Copa, em 15 de junho de 1974. Van Beveren ponderou: queria evitar testes desnecessários, já que ainda voltava de lesão. Em 23 de maio, o primeiro amistoso - na verdade, mais um jogo-treino: vitória por 2 a 1 sobre o Hamburgo. Michels queria que o goleiro jogasse: afinal de contas, pretendia ver o time que seria titular na Copa. Mas Van Beveren se recusou. Michels forçou: ou ele jogava, ou seria cortado. Van Beveren se negou, e foi desligado. Já estava em forma para poder jogar, entretanto, muito se pensa: Michels preferiu aquele corte abrupto para evitar o confronto praticamente inevitável entre o arqueiro e Johan Cruyff, Johan Neeskens, Willem van Hanegem... enfim, todos aqueles que o arqueiro julgava mercenários. A lesão foi um "álibi" para sua decisão de cortar Van Beveren.

Eram duas perdas. Vieram mais, entre os 30 pré-convocados: goleiros como Ton Thie e Heinz Stuy (titular do Ajax campeoníssimo dos anos anteriores), zagueiros como Epy Drost e Joop van Daele, o meio-campo Gerrie Mühren, o atacante Willy van der Kuylen (simplesmente o maior goleador da história do Campeonato Holandês)... um dos cortes foi até engraçado, quando restavam apenas dois a serem desligados para a formação dos 22 finais. O atacante Willy Brokamp, do MVV Maastricht, tinha tanta certeza de que seria um desses dois que perguntou a Rinus Michels: "Ei, professor, qual será o outro além de mim?" Brokamp estava certo: além dele, o atacante Jan Mulder foi o outro a perder a chance de estar na Copa. Pelo menos, não ficaram mágoas de Rinus Michels...

E esta foi a lista definitiva:

GOLEIROS
8-Jan Jongbloed (FC Amsterdam)
18-Piet Schrijvers (Twente) 
21-Eddy Treijtel (Feyenoord)

DEFENSORES
20-Wim Suurbier (Ajax) 
12-Ruud Krol (Ajax)
17-Wim Rijsbergen (Feyenoord)
5-Rinus Israël (Feyenoord) 
4-Cornelius "Kees" van Ierssel (Twente)
19-Pleun Strik (PSV)
22-Harry Vos (Feyenoord)

MEIO-CAMPISTAS
14-Johan Cruyff (Barcelona-ESP) 
13-Johan Neeskens (Ajax) 
2-Arie Haan (Ajax)
3-Wim van Hanegem (Feyenoord) 
6-Wim Jansen (Feyenoord)
7-Theo de Jong (Feyenoord)
10-René van de Kerkhof (PSV)
11-Willy van de Kerkhof (PSV)

ATACANTES
15-Robert Rensenbrink (Anderlecht-BEL) 
16-Johnny Rep (Ajax)
9-Piet Keizer (Ajax) 
1-Ruud Geels (Club Brugge-BEL)

Todos eles já estavam relacionados para o primeiro amistoso "para valer" da preparação da Oranje rumo à Copa: contra a Argentina, no Estádio Olímpico de Amsterdã (era a sede da seleção holandesa para amistosos e partidas oficiais, na capital, antes da Johan Cruyff Arena), em 26 de maio de 1974. O resultado foi bom: uma goleada por 4 a 1. O desempenho, nem tanto: a torcida não lotou, o time ainda não brilhou, e a formação de zaga deixava o time estático, com dois "zagueiros-zagueiros", Pleun Strik (PSV) e Rinus Israel (Feyenoord - Israel ficara na convocação final para a Copa, superando dores no joelho).

Rinus Michels e Johan Cruyff: os dois diferentes que se entendiam pelo bem da seleção holandesa antes da Copa de 1974 (Wilfried Witters/PRESSE SPORTS/Presse Sports)

Isto seria corrigido. A partir de pensamentos de Rinus Michels, vindos, entre outros lugares, de conversas que ele tinha com... Johan Cruyff, no decorrer da preparação. Sim, ambos tinham grandes diferenças de visão sobre o futebol. Cruyff gostava da beleza do jogo; Michels até considerava isso, mas o resultado sempre vinha em primeiro lugar. Ainda assim, o técnico reconhecia que o capitão da seleção que treinava era único entre seus pares, era taticamente diferenciado, era já naquela época o melhor jogador de futebol que nascera em território neerlandês. Partiu de Cruyff - ou Cruijff, como se escrevia mais comumente na época -, por exemplo, a sugestão de fazer Jan Jongbloed o goleiro titular da seleção, por saber jogar melhor com os pés, quase como um líbero. Logo Jongbloed, que só tinha uma partida pela seleção até 1974, disputada... 12 anos antes.

Reza a lenda, inclusive, que numa dessas conversas na concentração em Hengelo, Rinus Michels teria jogado uma pedra num lago nas redondezas. Cruyff viu aquilo e comentou: "Veja, professor, que interessante! A partir do impacto da pedra, ela cria círculos ao redor do local do impacto!". Michels respondeu: "Poxa, poderíamos fazer isso com nosso time".

Não se sabe se é verdade ou se é mentira. Talvez seja mentira. Mas essas conversas entre Michels e Cruyff, dois diferentes que se respeitavam, traçaram as bases do que se veria na Holanda da Copa de 1974....

sábado, 27 de julho de 2024

Laranja mecânica, primeira e única - 2º capítulo: um treinador muda tudo

A Holanda terminou as eliminatórias para a Copa de 1974 sabendo: muita coisa precisava mudar. O catalisador dessa mudança foi Rinus Michels (Rob Mieremet/Anefo)


Como se soube no primeiro capítulo desta série - e quem não soube, fica a sugestão de leitura -, o alívio pela chegada da Holanda (Países Baixos) à Copa de 1974 não escondia a impressão geral: a Laranja precisava melhorar um bocado, se quisesse mostrar que era digna de crédito no torneio na Alemanha. Para o grupo de jogadores em questão, a mudança tinha um nome para começar: Frantisek Fadrhonc. Por melhor que o técnico tcheco fosse, internamente ele era considerado (por jogadores e pela própria federação) um nome "bonzinho", tímido, até "medroso" demais para comandar uma equipe cheia de jogadores de personalidade tão forte.

Coube a um dos jogadores externar essa necessidade de alterar o técnico: Barry Hulshoff (1946-2020). O zagueiro do Ajax foi claro sobre suas oposições numa entrevista concedida aos jornalistas Frits Barend e Henk van Dorp, para a revista Vrij Nederland, na edição de 15 de dezembro de 1973, um mês depois de garantir lugar no Mundial: "A cada hora do dia você dá de frente com um temperamento nervoso. (...) Você começa a sentir arrepios, você fica pensando em coisas que tiram sua concentração. No dia do jogo, ele se fecha completamente para os jogadores, fica horas voltado para si mesmo. Ele não é concreto nas instruções táticas. E a informação sobre o adversário é muito pobre. A preleção é mais um discurso emocionado dele [do que uma instrução]".

Coube a Barry Hulshoff externar a insatisfação latente com o trabalho de Frantisek Fadrhonc (Getty Images)

Outro nome daquela geração neerlandesa - este, bem mais preponderante no time - também comentou sobre as dificuldades de Fadrhonc para comandar a equipe: Willem van Hanegem. Ainda no fim de 1973, o meio-campista até colocou dúvidas se aceitaria a convocação para a Copa se o tcheco treinasse a Laranja: "Eu tenho minha opinião sobre Fadrhonc, e a mantenho (...) Não tenho nada contra o homem Fadrhonc; por mim, ele nem precisa sair completamente. Só acho que, na Alemanha, [o técnico] precisa ser um técnico melhor, um homem mais forte". O próprio treinador dizia: se fosse para o bem da seleção, não teria vaidade nenhuma em querer manter o cargo, abriria caminho para um sucessor. Aí começavam as dúvidas: quem? E aí também começavam as desconfianças e as desuniões. 

Na entrevista supracitada, Barry Hulshoff opinava que Rinus Michels (1928-2005) seria um bom nome; para Willem van Hanegem, o treinador da Holanda na Copa de 1974 deveria ser Ernst Happel (1925-1992). Nada mais previsível: um nome do Ajax, outro do Feyenoord, ambos trabalhando então na Espanha - Rinus Michels no Barcelona, Ernst Happel no Sevilla - escolhendo os dois técnicos que haviam guiado ambos os clubes às conquistas mais icônicas de suas histórias (Happel treinando o Feyenoord no título europeu de 1969/70; Michels, no Ajax que conquistou o mesmo título em 1970/71). Tão previsível quanto o distanciamento entre os grupos de jogadores dos dois arquirrivais do futebol holandês. Só que a federação já tinha o seu decidido, se precisasse trocar. A decisão tinha sido por eliminação: ainda em 1973, Ernst Happel concedeu entrevista coletiva na qual indicava oposição a jogadores que mantivessem sua vida familiar e até sexual ativa durante uma Copa. Valor extremamente caro a uma geração que tinha jogadores tão próximos de suas parceiras. Por isso, se alguém tivesse de suceder Frantisek Fadrhonc, seria Marinus Jacobus Hendricus Michels. Mas ele quereria? Michels até aceitaria, desde que ele fosse o comandante absoluto. A única voz a ser ouvida, até pela própria federação, quanto a organização, a maneira de jogar, enfim... a tudo.

Ah, se fosse esse o único problema da seleção da Holanda (Países Baixos) antes da Copa de 1974... entre os possíveis convocados, o clima de desconfiança era indisfarçável. Ainda mais quando determinados jogadores miravam um determinado grupo: Johan Neeskens e os citados Willem van Hanegem e Johan Cruyff. Para alguns, esses três jogadores se mobilizavam de modo a sempre colocar o dinheiro acima de tudo, em qualquer aspecto: comercial, esportivo... principalmente Cruyff, guiado em questões comerciais por seu sogro e agente, Cor Coster (1920-2008), que o ajudou a catapultar sua fortuna quando isso ainda era incomum no futebol mundial. Um desses jogadores verbalizou sua antipatia em relação a tal grupo, mesmo sem citá-los nominalmente: Jan van Beveren (1948-2011), goleiro do PSV, considerado um dos melhores da posição que os Países Baixos já tiveram. Já em 1970, Van Beveren deixava claro seu aborrecimento: "Muitos jogadores se esquecem da importância de um torneio como uma Copa do Mundo. Eles só falam em dinheiro. Grana. Eles querem ver a bufunfa diretamente nas mãos".

Rinus Michels tinha a mesma impressão. Ele tinha sido o único treinador holandês presente à Copa de 1970, quando vários dos titulares em 1974 (Wim Suurbier, Wim Jansen, Willem van Hanegem, Robert Rensenbrink, o próprio Johan Cruyff) já eram titulares no fracasso holandês nas eliminatórias. Michels pensou: se a Holanda tivesse estado no México, não faria feio, com os jogadores talentosos que tinha. Só era necessário ter mais foco. Pensar no dinheiro, sim, mas pensar mais ainda no aspecto esportivo. E ele aceitaria ser o treinador (nomeado como "supervisor técnico"), em fevereiro de 1974, a quatro meses da Copa começar. Já Frantisek Fadrhonc "cairia para cima": seguiria dentro da delegação da Holanda na Copa do Mundo, nomeado como "técnico" - mas todos sabiam que, na Copa do Mundo, o treinador seria Rinus Michels. E ele deixou claro numa frase: "Quem não quiser vir junto, seguindo minhas regras, pode falar agora, e ficará em casa". O apelido de "General" não era à toa.

Frantisek Fadrhonc seguiu na delegação, mas todo mundo sabia: Rinus Michels (à esquerda) comandaria a Holanda com mão de ferro na Copa de 1974 (Bert Verhoeff/Anefo)

Depois de um primeiro amistoso - 1 a 1 com a Áustria, em Amsterdã, em 27 de março de 1974 -, testando um esquema com quatro no ataque (seria abandonado), Marinus Jacobus Hendricus Michels soube quem queria vir junto dele. 

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Laranja Mecânica, primeira e única - 1º capítulo: dificuldade nas eliminatórias

 

A Holanda até garantiu vaga na Copa de 1974. Mas as eliminatórias não trouxeram a menor confiança de que ela faria bom papel. Esta foto é do sofrido jogo da classificação nas eliminatórias, contra a Bélgica. Em pé: Hulshoff, Schrijvers, Mansveld, Suurbier, Neeskens e Krol. Agachados: Haan, Cruyff, Gerrie Mühren, Rep e Rensenbrink (Peter Robinson/Empics/Getty Images)


(Versão revista e ampliada de texto sobre a Copa de 1974, dentro da série especial publicada em 2022 sobre a história da Holanda nas Copas do Mundo)


Agora é relativamente fácil comentar sobre como a seleção da Holanda (Países Baixos) impressionou na Copa de 1974. Até porque, normalmente, só se lembram dos bons momentos que ela protagonizou já no Mundial, na Alemanha. O que pouco se sabe é como o trajeto dela até ali foi tortuoso. A começar pelas eliminatórias da Copa. A geração que misturava nomes já experientes - Wim Suurbier (1945-2020), Willem van Hanegem, Piet Keizer (1943-2017), Johan Cruyff (1947-2016) - a jovens como Johan Neeskens e Johnny Rep causava furor em clubes: é quase desnecessário lembrar que os quatro campeões anteriores da Copa dos Campeões Europeus eram dos Países Baixos (Feyenoord em 1969/70, Ajax nas três edições seguintes - 1970/71, 1971/72 e 1972/73). Só que na seleção... ela não disputava Copas desde 1938! E a trajetória no limbo era tanta, incluindo vexames, que poucos apostavam que ela seria a sensação da Copa.

A capacidade daquela geração seria colocada à prova nas eliminatórias, iniciadas em 1972, no grupo 3 da qualificação europeia, enfrentando Noruega, Islândia e Bélgica. Comandada desde 1970 pelo tcheco Frantisek Fadrhonc (1914-1981), a Laranja iria tentar a vaga na Copa com alguns nomes que não chegariam a ela. O goleiro Jan van Beveren (1948-2011), do PSV; os zagueiros Barry Hulshoff (1946-2020), do Ajax, e Aad Mansveld (1944-1991), do ADO Den Haag - então, FC Den Haag; e o atacante Theo Pahlplatz, do Twente. Bastou o primeiro jogo daquelas eliminatórias para que a Holanda mostrasse seu valor: no dia 1º de novembro de 1972, em De Kuip (Roterdã), 9 a 0 na Noruega. Simplesmente a maior goleada que a seleção masculina holandesa conseguira até então, nos 67 anos de história que tinha até ali - recorde que duraria até 2011.

O tcheco Frantisek Fadrhonc conduziu a seleção da Holanda por todo o tortuoso caminho nas eliminatórias - e seguiria na Copa de 1974, mas subjugado a Rinus Michels (Arquivo/Fotocollectie Anefo)

Contudo, se havia alguma adversária capaz de fazer frente naquele grupo da qualificação, era a vizinha Bélgica, o rival mais conhecido, velha conhecida de eliminatórias (disputara vaga em 1934 e em 1938). Em matéria de Copas, inclusive, a tradição dos Diabos Vermelhos era bem maior àquela altura - para citar só um motivo, porque os belgas haviam jogado o Mundial de 1970. E boa parte da geração deles ainda estava firme e forte na seleção, tendo o goleiro Christian Piot, o meio-campo Wilfried van Moer e os atacantes Paul van Himst e Raoul Lambert como destaques. Além do mais, se os neerlandeses ainda começavam a campanha nas eliminatórias, os principais adversários já tinham três jogos e três vitórias - duas contra a Islândia, uma contra a Noruega. Em suma: Holanda e Bélgica fariam jogos muito equilibrados. E começariam a provar isso em 19 de novembro de 1972: no estádio Bosuil, em Antuérpia, a Laranja foi visitante numa partida igual. Em atuações e no resultado: 0 a 0.



1972 passou, 1973 chegou, e a Holanda teve dois amistosos para respirar - uma derrota para a Áustria (1 a 0 em Viena, em 28 de março), uma vitória contra a Espanha (3 a 2 no Estádio Olímpico de Amsterdã, em 2 de maio de 1973). Justamente nesses amistosos, Frantisek Fadrhonc começou a dar chance a muitos jogadores que vinham barbarizando no antológico Ajax - o meio-campo Arie Haan e os citados Neeskens e Rep tiveram suas primeiras partidas pela Laranja justamente nesses amistosos. Mas se sabia: o que importava eram as eliminatórias da Copa. E a Holanda, embora merecesse respeito, apenas cumpria o esperado, sem impressionar. Foi assim nas duas vitórias contra a Islândia - duas goleadas, diante da seleção mais fraca do grupo 3 das eliminatórias europeias: 5 a 0 em Amsterdã, em 22 de agosto de 1973; 8 a 1 em Deventer (sim, a Islândia sequer tinha estádio capaz de receber jogos oficiais, e foi "mandante" numa cidade dos Países Baixos), uma semana depois.

O sinal de alerta ficou mais intenso para a Holanda no penúltimo jogo daquelas eliminatórias: fora de casa, em Oslo, contra a Noruega, em 12 de setembro de 1973. Com somente cinco titulares escalados que estariam na Copa (Krol, Jansen, Van Hanegem, René van de Kerkhof e Cruyff - Haan substituiu Van Hanegem aos 81'), a Laranja até saiu na frente: Cruyff fez 1 a 0 já aos sete minutos da etapa inicial. Todavia, os visitantes levaram a maior parte dos 90 minutos em ritmo lento demais, apenas administrando a vantagem. Quase tiveram o pior dos castigos: aos 77', o atacante Harry Hestad ganhou disputa de bola com o goleiro Van Beveren, e empatou o jogo em Oslo. Ali a Holanda poderia perder pontos que a tirariam da Copa de 1974. Mas não os perdeu: a três minutos do fim, Cruyff ajeitou, e o zagueiro Hulshoff invadiu a área e chutou para o 2 a 1 salvador. Ainda assim, a impressão foi preocupante. Em reportagem para a edição de 21 de setembro de 1973 da revista Placar, diretamente do jogo em Oslo, o jornalista Raul Quadros (1942-2016) foi desconfiado: "A fraquíssima Noruega perdeu-se em campo, e só não sofreu mais gols porque os holandeses - fora Cruyff - são tecnicamente medíocres. (...) Aí é que está o problema da Holanda: será que o futebol deles é suficiente para aparecer sem o concurso do gênio?".


Um amistoso para recuperar fôlego no meio do caminho (1 a 1 contra a Polônia - outra seleção que faria sucesso na Copa de 1974 -, em Roterdã, em 10 de outubro de 1973), e um mês e oito dias depois, chegou o momento. Estádio Olímpico de Amsterdã, 18 de novembro de 1973, um domingo. Empatadas em pontos (9) no grupo 3 das eliminatórias, Holanda e Bélgica fariam a "final" pela vaga na Copa, na última rodada. A Laranja só se aliviava por ter saldo maior de gols do que os Diabos Vermelhos - +22 a +12 -, mas convinha não abusar da sorte: afinal, uma vitória dos visitantes, e seriam eles os classificados, sem nem repescagem para dar uma "segunda chance".

O tempo foi passando em Amsterdã. O 0 a 0 seguia no placar, enervando o time; enervando Frantisek Fadrhonc, no banco; enervando toda a torcida que lotava o Estádio Olímpico. Até que, justamente no último minuto, uma falta foi marcada, na esquerda. Cobrada para a área, a defesa holandesa fez a linha de impedimento. Mas à direita da grande área, o belga Jan Verheyen estava a postos - e completou para o gol. Bola na rede. 1 a 0. Poderia ser o gol da Bélgica na Copa de 1974, o gol que frustraria o Reino dos Países Baixos, com aquela geração esplendorosa de jogadores. Mas não foi: o juiz búlgaro Pavel Kazakov anulou o gol, alegando impedimento de Verheyen. Acréscimos dramáticos depois, a partida acabou 0 a 0. Alegria no Estádio Olímpico de Amsterdã: ambas as seleções ficaram com dez pontos, mas pelo maior saldo de gols, a Holanda voltava a uma Copa do Mundo, após 36 anos. Por trás do que a Oranje faria no Mundial, porém, ficou uma dúvida até hoje esquecida: Verheyen estava mesmo impedido?


Os jornais foram claros em suas manchetes no dia seguinte sobre o tamanho do sufoco por que a Laranja passara no Estádio Olímpico de Amsterdã para garantir vaga no Mundial. O Het Parool estampou: "Nu flink aan de slag" (em holandês, "agora é colocar mãos à obra de verdade") - e ainda acrescentou num quadro "Het einde van een lijdensweg" (em tradução, "o fim de um caminho sofrido"). No Algemeen Dagblad, o reconhecimento da classificação e do sofrimento, numa coluna de comentários: "Ondanks alles" ("Apesar de tudo"). Em outro jornal não identificado, manchete até mais sintética: "Gelukt! Maar adem stokte even..." ("Deu certo! Mas foi de prender a respiração...").

Enfim: a Holanda estava de volta à Copa. Mas precisaria melhorar muito, todos sabiam. E isso ocorreria no primeiro semestre de 1974. A duras penas.