segunda-feira, 31 de maio de 2021

Segunda divisão - análise: justiça seja feita

O Cambuur liderava a segunda divisão em 2019/20, quando a pandemia interrompeu o futebol. Teve de se reanimar, e fez justiça com as próprias mãos: campeão e promovido à Eredivisie de modo inquestionável (Pro Shots)

Poucos clubes lamentaram tanto a interrupção do futebol na Europa, durante a temporada 2019/20, quanto Cambuur e De Graafschap. Tiveram razões para isso: quando a segunda divisão da Holanda foi interrompida, após 29 rodadas (faltando dez para o final), o time de Leeuwarden liderava, os Superboeren vinham em segundo lugar, e ambos estavam muito bem encaminhados para retornarem à primeira divisão. Tiveram de engolir o adiamento, deixarem de lado os recursos contra a federação... e esperarem pela Eerste Divisie 2020/21. Ela chegou. E mostrou a justiça sendo feita, para contentamento do Cambuur - e descontentamento do De Graafschap.

No caso do Cambuur, após a frustração com o recurso na Justiça dos Países Baixos contra a federação, restou apostar na continuidade: Henk de Jong continuou sendo o técnico no clube auriazul, o atacante Robert Mühren seguiu como grande destaque do time, continuou a aposta numa base que mesclasse experiência em clubes médios/pequenos da Eredivisie (Doke Schmidt, Calvin MacIntosch, Issa Kallon... todos eles já atuaram na primeira divisão) com certos privilégios aos destaques (no ataque, por exemplo, Kallon e Jarchinio Antonia vinham pelas pontas, criando as jogadas para Mühren finalizar). Deu muito certo. Já no primeiro período, entre a 1ª e a 9ª rodadas, o Cambuur foi o melhor time, garantindo desde então um lugar na repescagem de acesso/descenso. 

Mas nem isso seria necessário: a equipe mostrou melhorar à medida que a segunda divisão transcorria. Foi também a melhor do segundo período (entre 10ª e 19ª rodadas). A partir da 20ª rodada, engatilhou sequência invicta de nove jogos, com sete vitórias, e o título virou questão de tempo. A comemoração começou na 34ª rodada, com goleada em casa no Helmond Sport (4 a 1), e foi confirmada com os 4 a 2 no time B do AZ, fora de casa. De quebra, nem o relaxamento pós-título trouxe tropeços: foram mais quatro vitórias e um empate. Com 92 pontos, quinze à frente do vice-campeão, o Cambuur ostenta um título inquestionável, voltando à elite do futebol da Holanda após cinco anos. Personificado em Robert Mühren: goleador da temporada, sendo simplesmente o segundo nome com mais bolas na rede numa só temporada da Eerste Divisie - 38 gols, em 38 jogos. Só não mostrará isso na Eredivisie: Mühren ficará na segunda divisão, contratado que foi pelo Volendam.

Alicerçado na excelente defesa (destaque para o goleiro Gorter, de verde), o Go Ahead Eagles embalou, surpreendeu o De Graafschap e conseguiu o melhor prêmio: o acesso (Pro Shots)

Se o Cambuur nadou de braçada durante praticamente toda a temporada da segunda divisão, o De Graafschap pareceu por muito tempo destinado a completar a história que fora interrompida em 2019/20. Desde a oitava rodada, o time de Doetinchem se alternou entre a segunda e a terceira posições (ocupando a quarta, na 14ª e na 18ª rodadas). Mesmo em meio a uma equilibrada disputa com o Almere City - e quem mais quisesse entrar no meio, como ensaiaram NAC Breda, NEC, Volendam... -, os Superboeren se amparavam na experiência do zagueiro Ted van de Pavert e nos gols da dupla Daryl van Mieghem-Ralf Seuntjens para serem o melhor clube do terceiro período, entre a 20ª e a 28ª rodadas, e chegarem à reta final na vice-liderança.

Mas o Go Ahead Eagles veio. Devagar e sempre. Após começo estacionado no meio da tabela, a equipe aurirrubra de Deventer entrou nos eixos. Nem tanto pelo desempenho ofensivo, mas sim por dois nomes de destaque na defesa: o zagueiro Sam Beukema (já contratado pelo AZ) e o goleiro Jay Gorter. Eles simbolizaram uma façanha do Kowet: 25 jogos sem gols sofridos, recorde histórico na segunda divisão neerlandesa. Uma derrota justamente para o De Graafschap - 1 a 0, na 33ª rodada - pareceu acabar com o sonho da volta à primeira divisão. Que nada: nas cinco rodadas seguintes, o adversário de Doetinchem emperrou - quatro empates e uma derrota. 

O Go Ahead Eagles empilhou cinco vitórias. E terá razões para se lembrar da última rodada. Cumpriu sua parte na busca do acesso, vencendo o Excelsior fora de casa (1 a 0). Mas teve de esperar pelo resultado de De Graafschap x Helmond Sport, iniciado no mesmo horário, interrompido pela chuva aos 38 minutos do primeiro tempo. O jogo voltou, o De Graafschap foi incompetente para fazer gols, os jogadores do Go Ahead Eagles acompanharam o segundo tempo sentados no gramado em Roterdã... e o 0 a 0 completou o êxtase do Kowet: vice-campeão pelo melhor saldo de gols (ambos tiveram 77 pontos), retornado à Eredivisie. De certa forma, justiça também, premiando a solidez da equipe treinada por Kees van Wonderen. Pior para o De Graafschap, já eliminado na primeira fase da repescagem de acesso/descenso, perdendo de virada para o Roda JC (3 a 2).

O NEC foi bastante inconstante na temporada regular da Eerste Divisie. Sem problemas: na hora necessária, usou da eficiência para voltar à Eredivisie via repescagem (Pro Shots)

Aliás, "injustiça" mesmo, só se viu na repescagem: mesmo inconstante por toda a temporada, sétimo colocado após as 38 rodadas regulares, o NEC apostou no chamado "cateNECcio": proteção à defesa e eficiência nos contra-ataques puxados por Jonathan Okita. Foi assim que superou o Almere City, goleando na primeira fase dos play-offs (4 a 0); que sobrepujou facilmente o Roda JC (3 a 0); e, finalmente, foi assim que entristeceu o NAC Breda - fora de casa, o NEC teve Okita fazendo 2 a 1 no último minuto, para garantir a volta à Eredivisie, após quatro anos.

Injustiça? Melhor seria dizer competência. De todos os três promovidos.

domingo, 30 de maio de 2021

Eredivisie feminina - análise: quem tem medo dos lobos maus?

O Twente seguiu devagar e sempre, contra os badalados PSV e Ajax. Riu por último, campeão da Eredivisie feminina (Pro Shots)


Era uma vez três "porquinhos" - ou melhor, dois lobos maus e um porquinho. Todos estavam muito ansiosos antes do Campeonato Holandês feminino começar nesta temporada 2020/21. O lobo mau vindo de Amsterdã se chamava Ajax, e estava bem ansioso para comprovar sua força, com a vinda de a zagueira Stefanie van der Gragt (titular da seleção feminina) para se juntar a um time bem entrosado, com Victoria Pelova, Nikita Tromp e Marjolijn van den Bighelaar como destaques. Já o lobo mau de Eindhoven, chamado PSV, foi ainda mais feroz em sua apresentação: de uma só vez, repatriou Mandy van de Berg e Sari van Veenendaal, a melhor goleira do mundo em 2019, para se afirmar como o favorito à conquista da Vrouwen Eredivisie - até porque teria nomes como a promissora Esmee Brugts e o destaque Joëlle Smits. O porquinho Twente foi bem mais modesto, manteve seus destaques, só ousou numa vinda... mas foi quem saiu sorrindo no fim da fábula, campeão holandês entre as mulheres.

Um fim surpreendente, porque quando o campeonato começou, os lobos maus pareciam soprar forte para derrubar a casa sólida do Twente, Aliás, o Ajax fez isso na primeira rodada, vencendo os Tukkers na primeira das 14 rodadas da temporada regular (3 a 1, em setembro do ano passado). O PSV ainda foi fragilizado por um surto de infecções pelo coronavírus, que o impediu de estrear na data prevista, mas já começou vencendo o Heerenveen (2 a 1) - e quando enfim pôde jogar a primeira rodada, fez 5 a 1 no VV Alkmaar. O Twente começou capengando (além da derrota para o Ajax na estreia, ficou no 1 a 1 com o Zwolle), e só venceu duas vezes nas cinco primeiras rodadas.

Porém, aos poucos a temporada regular foi correndo. Nela, o PSV foi apresentando um problema preocupante: a equipe de Eindhoven mostrava a força esperada contra os adversários mais frágeis. Só que alguns nomes de destaque, como Van Veenendaal, falhavam com frequência acima do desejável. E contra os adversários a sério na disputa do título, o time de mulheres dos Boeren fraquejava quase sempre. Foi assim na vitória que fez o Twente bradar que estava a sério na Vrouwen Eredivisie: o 3 a 2 da sétima rodada. Na partida seguinte, mais um jogo para o porquinho mostrar que não era qualquer lobo mau que destruiria sua morada: 2 a 1 no Ajax.

Àquela altura, já era possível notar as qualidades que o Twente possuía. Mesmo com poucas contratações, os destaques da equipe treinada por Tommy Stroot eram muito confiáveis. Daphne van Domselaar no gol, Lynn Wilms na lateral direita, Sisca Folkertsma no meio-campo, Anna-Lena Stolze e Fenna Kalma na frente: todas elas sempre tinham um nível de atuação razoável. Mas o grande símbolo da regularidade da equipe de Enschede era uma boa e velha conhecida: a capitã Renate Jansen. Pode não ser brilhante tecnicamente, pode não ser a atacante mais falada da Holanda, mas bem ou mal, sempre faz seus gols, sempre se sacrifica pela equipe, e tem certa experiência. Talvez por isso, Renate é figura certa nas convocações da seleção feminina da Holanda (Países Baixos).

A capitã Renate Jansen (no centro) simbolizou a constância do Twente rumo ao título (Pro Shots)

A reta final da temporada regular indicou que o leme virava no campeonato. Nas rodadas finais, PSV e Ajax tropeçavam entre si e entre outros. Basta lembrar o 1 a 1 do Ajax com o Heerenveen, na 11ª rodada, a derrota do mesmo Ajax para o Zwolle na rodada seguinte - 1 a 0 - e o empate do PSV com o ADO Den Haag na 13ª e penúltima rodada. Os lobos maus ficavam mais fracos, de tanto soprar sem derrubar a casinha do Twente. Que devagar e sempre, com esmero, somava pontos para terminar as 14 rodadas como líder do Campeonato Holandês, concluindo a campanha com 2 a 1 no PSV, trazendo belíssimo gol de Fenna Kalma. Eram 32 pontos do "porquinho", contra 31 dos "lobos maus".

Àquela altura, o lupino de Amsterdã já recobrara suas forças com outra contratação recebida com pompa e circunstância: Sherida Spitse, mais uma neerlandesa retornada ao país natal pela saudade familiar. Mas se a questão era ter força, o Twente deu uma cartada tão discreta quanto certeira: trazer Kika van Es - menos falada, reserva atual na seleção da Holanda, mas voltando da Inglaterra (Everton) para ser absoluta na lateral esquerda dos Tukkers. E o PSV, ora vejam, contava com a velha conhecida Joëlle Smits para se destacar em meio a tantas contratações - Smits já se credenciava como a goleadora da Vrouwen Eredivisie.

E no quadrangular pelo título, com seis rodadas, coube ao lobo mau de Eindhoven e ao porquinho de Enschede tirarem de vez o Ajax do páreo. Na primeira rodada, o PSV fez 3 a 1 nos Ajacieden; o Twente os despachou de vez na 3ª rodada (2 a 1, fora de casa) e na 4ª também (Twente 1 a 0, em casa). Só restou a Spitse, vinda para liderar o Ajax em campo, lamentar, à ESPN holandesa: "Eu não voltei para isso". Mas na quinta e penúltima rodada do quadrangular, o licantropo Amsterdammer feriu o lobo de Eindhoven, fazendo 3 a 2. 

Faltava um tijolo para o porquinho prático de Enschede conseguir concluir sua bonita casa com o título. Mas ele estava difícil de ser conseguido: o ADO Den Haag segurava as pontas, com o 0 a 0 fora de casa. No entanto, como em toda fábula infantil, o final foi feliz: a quatro minutos do fim, o esforço do Twente foi premiado com o gol de Stolze. O gol da vitória. O gol do título. O gol que dava o melhor fim possível à passagem de Lynn Wilms, de saída para o Wolfsburg.

A fábula da Vrouwen Eredivisie podia terminar com o porquinho Twente, feliz, zombando dos lobos maus PSV (vice-campeão) e Ajax (3º colocado). Nem ligou para a derrota ao PSV nesta última rodada. Já podia cantar alegre: "Quem tem medo do lobo mau, lobo mau, lobo mau...".

quarta-feira, 26 de maio de 2021

De volta. Para o futuro ou para o passado?

O trabalho da Holanda rumo à Euro já começou. Com opções novas entre os 26 convocados. E opções antigas que poderão ser vistas no estilo de jogo (Pro Shots)

A pandemia de COVID-19 evitou que isso acontecesse em 2020. Ela ainda está aí, mas já permite certas coisas. Por exemplo, a realização de uma Euro. Então, chegou a hora: após seis anos que viraram sete, a seleção masculina da Holanda está de volta a uma grande competição. Os preparativos já começaram nesta semana, com os treinamentos envolvendo 14 jogadores, no centro da federação, na cidade de Zeist. E a Laranja começará a disputar o torneio continental sob dúvidas que eram inesperadas no cenário pré-pandemia. Para tentar responder essas dúvidas, os sinais dados indicam tanto para o futuro quanto para o passado.

No que se refere ao futuro, o técnico Frank de Boer deu uma piscadela para a nova geração de jogadores - também envolvida com coisa importante: o mata-mata da Euro sub-21, começando na próxima segunda, com duelo contra a forte seleção da França, pelas quartas de final. Alguns nomes da Laranja Jovem foram incluídos na lista preliminar, mas se esperava o corte de alguns deles, em detrimento de veteranos frequentes nas convocações desde Ronald Koeman, como Ryan Babel. Que nada: Babel já ficou fora da lista preliminar, e não só Teun Koopmeiners (já com alguns minutos pela seleção adulta) estará na Euro, como estão na lista dos 26 convocados Cody Gakpo e Jurriën Timber, nomes que nunca haviam passado perto da Laranja principal. Nunca. Nem mesmo haviam sido convocados. Talvez tenha ocorrido pela versatilidade, como De Boer explicou na entrevista coletiva: "Jurriën [Timber] foi muito bem na temporada, mostrou versatilidade".

Entretanto, alguns sinais indicam que a Holanda terá opções usadas no passado para tentar ter vida longa na Euro. Por exemplo, os sinais fortes de que Frank de Boer pode até escalar a Laranja no 5-3-2, para proteger mais a defesa - a mesma coisa que Louis van Gaal fez na Copa de 2014, tendo êxito com o elogiável 3º lugar naquele torneio. Até lógico, se pensando na falta que Virgil van Dijk previsivelmente fará na seleção. Até elogiável, quando se pensa que um dos bons momentos dos neerlandeses com Frank de Boer foi o 1 a 1 contra a Itália, na Liga das Nações, em Bérgamo, também com cinco homens na defesa. Mas surpreendente, quando se pensa que De Boer é um técnico que prefere a manutenção da posse de bola.

Claro, há nomes que permitem pensar numa boa campanha: Frenkie de Jong, Georginio Wijnaldum, Memphis Depay. Nada que faça frente aos grandes favoritos, talvez seja insuficiente para chegar às semifinais (como deseja a federação - Frank de Boer fala até em "buscar o título"), mas a Holanda está de volta. Para o futuro, que pode ser feliz, ou para o passado turbulento nos últimos anos, como se desconfia? Respostas a serem dadas a partir do dia 13 de junho, domingo, quando a bola rolará contra a Ucrânia, na Johan Cruyff Arena.

Os 26 convocados da Holanda (clique nos nomes e saiba mais sobre eles)

Goleiros


Laterais
Zagueiros

Meio-campistas

Atacantes



Os 26 holandeses na Euro: Timber

O próprio Timber se surpreendeu com sua convocação para a Euro 2020. Mas a evolução notável e acelerada na zaga do Ajax justifica a experiência (Pro Shots/onsoranje.nl)


Ficha técnica
Nome: Jurriën David Norman Timber
Posição: Zagueiro/Lateral direito
Data e local de nascimento: 17 de junho de 2001, em Amsterdã
Clube na carreira: Ajax (desde 2020)
Desempenho na seleção: nenhum jogo
Torneios pela seleção: nenhum

Ele mesmo se surpreendeu. Após a última rodada do Campeonato Holandês, comentando sobre sua inclusão na lista preliminar da seleção masculina da Holanda para a Euro, Jurriën Timber reconheceu: "Quem me avisou foram meu irmão e minha mãe. Eu não acreditei. Aliás, até agora não acredito". Pois é: bastaram seis meses de titularidade no Ajax para que Jurriën Timber se fizesse notar como um zagueiro promissor. A ponto de superar a pré-convocação e estar entre os 26 da Laranja na Euro - mais uma das apostas que dará frutos em competições futuras (só?).

Na família Timber, Jurriën teve um companheiro muito próximo nos caminhos futebolísticos: seu irmão mais novo, Quinten Timber, meio-campista que só agora se separará dele nos campos (Quinten está deixando o Ajax rumo ao Utrecht). Na infância, ainda usando o sobrenome paterno Maduro como "nome de carreira", tanto Jurriën quanto Quinten começaram juntos, no amador DVSU, de Utrecht, cidade natal de ambos. Lá ficaram até 2010, quando tomaram o caminho das categorias de base do... Feyenoord, arquirrival do Ajax.

Já nos tempos de Feyenoord, Jurriën começou a se estabelecer como zagueiro. Mas não seria em Varkenoord, o centro de formação de jogadores do clube de Roterdã, que Timber estabeleceria sua carreira. Seria em Amsterdã: em 2014, ele rumou para o Ajax, para a reta final da preparação rumo à carreira profissional - ele e o irmão Quinten, claro.

Quando Timber fez parte da Holanda campeã europeia sub-17, em 2018, ainda era conhecido como Jurriën Maduro (Pro Shots)

E em De Toekomst, a escola do Ajax, de fato Jurriën foi evoluindo - ou "amadurecendo", para citar o sobrenome que ainda usava. Primeiro, nas seleções de base: um jogo pela seleção sub-15 em 2015, mais três pela Holanda sub-16 em 2016. Já em 2017, a chegada à equipe neerlandesa sub-17 seria para chamar a atenção: o zagueiro participou da trajetória que levou à Euro da categoria, já em 2018. No torneio continental, Timber não só foi titular da Holanda campeã europeia sub-17, como até gol fez na final contra a Itália (2 a 2, com vitória neerlandesa nos pênaltis). Ele... e o irmão Quinten Maduro.

Chegara a hora da transição mais importante: a partir de novembro de 2018, Jurriën foi integrado ao time B do Ajax, fazendo sua primeira partida na derrota por 2 a 1 contra o Cambuur, pela 12ª rodada da segunda divisão holandesa (seriam 11 partidas pelo Jong Ajax no campeonato). O zagueiro continuou no time juvenil Ajacied, é verdade - até participou da campanha na Liga Jovem da UEFA. Mas a partir dali, a equipe principal dos Godenzonen ficara mais ao alcance da mão. Nas seleções inferiores dos Países Baixos, após a passagem vitoriosa pela sub-17, iria para a sub-19. E de 2018 em diante, o zagueiro também deixaria o antigo sobrenome de lado: ao invés de Jurriën Maduro, seria Jurriën Timber, como o irmão também passou a fazer.

Na temporada 2019/20, Timber ainda fez mais partidas pelo Jong Ajax: 24 jogos pela segunda divisão, todos iniciados como titular. A segurança na posse de bola e a versatilidade apresentada na defesa - além de zagueiro, também podia atuar na lateral direita - já o fez entrar no radar de Erik ten Hag, treinador do time principal. Em janeiro de 2020, o jovem foi levado para a viagem de treinos que o Ajax fez ao Catar, durante a pausa de inverno. Logo que a temporada foi retomada, passou a integrar o banco de reservas do Ajax de cima. Finalmente, Timber teve sua primeira chance como titular na vitória por 3 a 1 sobre o Heerenveen. 26ª rodada do Campeonato Holandês. Seria a última partida do Ajax em muito tempo: na semana seguinte, a pandemia de COVID-19 suspendeu a Eredivisie - e depois, forçou o cancelamento do seu restante.

Com o recomeço do futebol na Europa, Timber ficou momentaneamente para trás: Perr Schuurs foi escolhido como zagueiro titular do Ajax, durante boa parte da primeira metade da temporada recém-encerrada. O reserva fazia uma ou outra partida, atuava também pelo time B do Ajax na segunda divisão (foram quatro jogos), e até aparecia na seleção sub-21, em um jogo pelas eliminatórias da Euro. Mas viria a virada, junto com a virada de ano: tão logo 2021 começou, Timber recebeu a chance de ser titular do Ajax, com Schuurs sendo criticado pela inconstância de suas atuações.

No começo de 2021, Timber recebeu a titularidade no Ajax. E aproveitou muito bem (Pro Shots)

Rapidamente Timber tomou a posição para não mais sair. Jogou no mata-mata pela Liga Europa, foi titular absoluto do Ajax no returno do Campeonato Holandês, foi elogiado pela firmeza e segurança apresentadas na zaga e na saída de bola. Só teve a lamentar a infecção pelo novo coronavírus, que o tirou da convocação para a fase de grupos da Euro sub-21. Cumprido o isolamento social, Timber retornou ao time - e já teve um primeiro prêmio, de certa forma: foi do zagueiro o gol que abriu o placar nos 4 a 0 sobre o Emmen, jogo do título para o Ajax no Campeonato Holandês.

Mas o prêmio maior foi aquele que o surpreendeu: a convocação para a Euro, sem nenhuma partida anterior pela Laranja. Timber é outro jovem que já ganhará alguma experiência em termos de seleção principal, pensando no futuro. 

Só que o futuro bem pode ser agora, dependendo das circunstâncias.


Os 26 holandeses na Euro: Stekelenburg

Stekelenburg estaria sendo apenas um reserva experiente no Ajax, em condições normais. As surpresas do destino lhe deram a chance de jogar, mostrar capacidade e ir à Euro (Pro Shots/onsoranje.nl)

Ficha técnica
Nome: Maarten Stekelenburg
Posição: Goleiro
Data e local de nascimento: 22 de setembro de 1982, em Haarlem
Clubes na carreira: Ajax (2002 a 2011 e desde 2020), Roma-ITA (2011 a 2013), Fulham-ING (2013 a 2016), Monaco-FRA (2014 a 2015, por empréstimo), Southampton-ING (2015 a 2016, por empréstimo) e Everton-ING (2016 a 2020)  
Desempenho na seleção: 56 jogos, desde 2004 (44 gols sofridos)
Torneios pela seleção: Copa de 2006 (não jogou), Euro 2008 (1 jogo, nenhum gol sofrido), Copa de 2010 (7 jogos, 6 gols sofridos), Euro 2012 (3 jogos, 5 gols sofridos)

Há um ano, Maarten Stekelenburg parecia no crepúsculo de sua carreira, voltando ao Ajax para um fim coberto de respeito e homenagens onde sua trajetória começou. Há um ano, também, o arqueiro surdo de um ouvido parecia coisa do passado, em termos de seleção. Pois é: sua convocação para a Euro é mais um sinal de como as coisas mudam no futebol. Em uma reviravolta notável, "Steek" teve chance de voltar a ter uma sequência de jogos no Ajax. Aproveitou, e teve o caminho reaberto na Laranja. A reação (até inesperada) está coroada com a convocação, para ser o mais velho jogador da história da seleção neerlandesa na Euro, aos 38 anos - fará 39 em setembro.

Dono de um diploma profissionalizante como cozinheiro, o nativo de Haarlem começou a trajetória em dois clubes amadores: primeiro, o Zandvoort '75, depois o VV Schoten. Inclusive, nem era goleiro: acabou engrenando na posição ao ser experimentado nela, com sucesso, durante uma partida em que o titular faltara. E já foi jogando debaixo das traves que Stekelenburg chamou a atenção de olheiros do Ajax, aos 13 anos de idade. Simultaneamente, recebeu proposta do Haarlem, clube da cidade natal, já extinto. Mas preferiu rumar para o clube de Amsterdã.

Mais alguns anos, e Stekelenburg também começou o caminho nas seleções holandesas de base, a partir do ano 2000, quando ganhou a primeira chance na equipe sub-18 da Laranja. No ano seguinte, o goleiro já foi convocado para o Mundial Sub-20, com Louis van Gaal como técnico neerlandês e futuros colegas de seleção adulta na equipe, como John Heitinga e Arjen Robben. Stekelenburg ficou na reserva, mas já sinalizara: vinha com tudo para começar a carreira. Sinal mais fortalecido na temporada 2001/02, quando o time B do Ajax foi semifinalista da Copa da Holanda - com ele como titular do gol.

E a partir da temporada 2002/03, Stekelenburg entrou na disputa tripla que se via então no gol do Ajax, com o romeno Bogdan Lobont e o croata Joey Didulica. Mas tanto o titular quanto o reserva se lesionaram, e o jovem já apareceu numa ou noutra partida: foi titular na conquista da Supercopa da Holanda, e teve nove partidas pela Eredivisie, mais três pela Liga dos Campeões. O goleiro ainda ficou mais na reserva de Lobont em 2003/04, mas recebeu a chance definitiva na temporada seguinte: o técnico Ronald Koeman anunciou que seria Stekelenburg o titular do Ajax em 2004/05. De quebra, mereceu também sua primeira atuação pela seleção principal da Holanda: substituiu Van der Sar e jogou o segundo tempo de um amistoso contra Liechtenstein (3 a 0, em 3 de setembro de 2004).

Stekelenburg foi promissor no Ajax desde o início. Mas só a partir de 2005 se tornou titular inquestionável nos Amsterdammers (Stuart Franklin/Getty Images)

Houve ainda uma lesão, que tirou Stekelenburg da reta final daquela temporada 2004/05. Porém, em 2005/06, restabelecido, enfim ele se tornou o titular absoluto do Ajax, tanto no Campeonato Holandês quanto na Liga dos Campeões. Celebrou o primeiro título como titular do Ajax: a Copa da Holanda. E por fim, o primeiro grande torneio pela seleção holandesa: Stekelenburg foi um dos três goleiros convocados por Marco van Basten para a Copa de 2006. Aos 23-quase-24 anos, era a "aposta para o futuro".

Dali por diante, seguindo como titular inquestionável do Ajax, Stekelenburg foi ganhando uma relativa sequência no gol da Holanda: com Van der Sar já se preparando para o adeus à Laranja, jogou mais partidas nela do que o titular durante 2007 (sete, contra quatro do habitual camisa 1 holandês). Novamente, foi convocado para um grande torneio, a Euro 2008 - e nela, até atuou em uma partida, contra a Romênia, na fase de grupos. 

Após aquela Euro, Van der Sar deixou a seleção. Outro reserva habitual até então, o também veterano Henk Timmer parou de ser convocado. O caminho parecia aberto para Stekelenburg estabelecer na seleção uma trajetória tão longa quanto a que estabelecia no Ajax. 2009 colocou dúvidas sobre isso: falhando tanto pela Holanda quanto pelos Ajacieden, o arqueiro chegou a passar uns meses no banco de reservas. Com Edwin van der Sar ainda brilhando no Manchester United, não faltava quem pedisse que ele fosse "desaposentado" e defendesse a Holanda na Copa de 2010.

Mas o técnico Martin Jol chegou ao Ajax e fez de Stekelenburg novamente titular da equipe. Em fevereiro de 2010, o próprio Van der Sar pediu fim aos rumores de que voltaria à seleção, sendo claro: Stekelenburg deveria ser o titular da Holanda, na Copa que se aproximava. Foi o que aconteceu. E o camisa 1 da Laranja na África do Sul apagou as dúvidas quando mais se precisava: justamente na Copa. Fez defesas importantes já contra a Eslováquia, nas oitavas de final. E sua defesa num chute de Kaká, durante um excelente primeiro tempo do Brasil nas quartas de final, ficou historicamente fundamental: ajudou a manter a Holanda no jogo, antes da virada no segundo tempo. Novamente a Laranja caiu na final, mas Stekelenburg voltou da Copa com o melhor presente possível: ganhara o respeito de quem acompanhara futebol no país. Ninguém mais pedia a volta de Van der Sar à seleção. De quebra, ainda houvera um título com o Ajax, em 2009/10: outra Copa da Holanda.

Poucos lances são tão lembrados na campanha da Holanda pela Copa de 2010 quanto a defesa de Stekelenburg num chute de Kaká, no primeiro tempo contra o Brasil (Getty Images)

Na melhor fase da carreira, Stekelenburg concluiu a fase no Ajax com mais um título holandês - mesmo com uma fratura no dedo polegar, na reta final da temporada 2010/11. E enfim, após boatos de transferências aqui e ali, veio a aposta de um clube num centro mais competitivo: em julho de 2011, o goleiro tomava o caminho da Roma. Além do mais, continuava inquestionável na seleção, na fase madura da carreira, a caminho dos 30 anos.

Ocorreu de novo: quando tudo estava bem, a má fase perturbou Stekelenburg. Na seleção, embora sem comprometer, fez parte do vexame da Euro 2012. Na Roma, ainda em 2011, semanas após a chegada, foi atingido na cabeça pelo pé de Lúcio, durante um jogo contra a Internazionale, e desmaiou em campo - ainda assim, foi titular na maior parte da temporada de estreia, 2011/12. Já em 2012/13, titular romanista, o holandês falhou demais, a ponto de perder a posição para o uruguaio Mauro Goicochea. Ainda voltou a ter alguma sequência sob o comando de Aurelio Andreazzoli, mas seu espaço na Roma se diminuía mais e mais - bem como na seleção, onde já cedia a titularidade para vários concorrentes. 

Um forte golpe acidental na cabeça assustou e atrapalhou. Mas não foi só por ele que Stekelenburg decaiu na Roma (AFP)

Já em janeiro de 2013, houve negociações com o Fulham, fracassadas no último dia da janela de transferências. Mas em junho de 2013, tudo certo: Stekelenburg tomou o caminho do time inglês, para lá tentar recuperar alguma sequência de jogos. No começo, até deu certo: o técnico Felix Magath fez dele o titular dos Cottagers. Porém, durante a temporada 2013/14, duas lesões no ombro abriram caminho para o reserva Gavin Stockdale se estabilizar no gol do Fulham. Quando Stekelenburg voltou, já era tarde: teria de se contentar com o banco de reservas. Passou longe de ser lembrado na convocação da Copa de 2014.

Àquela altura, Stekelenburg já começava a ser lembrado menos como um goleiro digno da titularidade, e mais como um reserva experiente, sempre pronto para eventualidades. Já assim foi emprestado ao Monaco francês, na temporada 2014/15, sendo opção ao titular Danijel Subasic, e só atuando nas partidas da Copa da França. E também no empréstimo ao Southampton, onde passaria a temporada 2015/16 secundando o titular Fraser Forster, a pedido do técnico Ronald Koeman. 

Stekelenburg até reagiu no Everton. Mas àquela altura, já era mais um coadjuvante experiente do que um protagonista, a despeito de rápida volta à seleção holandesa (AFP)

Só aí se viu uma leve reação na carreira. Na primeira metade daquela temporada, Forster lesionou o ombro - Stekelenburg teve a chance, e foi bem. Forster retomou o posto, mas o nome do holandês voltara à baila. Ronald Koeman tomou o caminho do Everton após 2015/16, aproveitou que o contrato do goleiro compatriota com o Fulham se encerrava, e o levou para Goodison Park. E no começo do Campeonato Inglês, Stekelenburg pareceu recuperar a melhor forma, sendo titular do Everton. Chegou a pegar um pênalti de Sergio Agüero, contra o Manchester City (1 a 1, outubro, 8ª rodada). De quebra, num período em que Jasper Cillessen já era reserva no Barcelona e Tim Krul pelejava no banco do Ajax, o já veterano "Stekel" até voltou à seleção: jogou quatro partidas por ela, em outubro e novembro, no início da campanha fracassada nas eliminatórias da Copa de 2018.

A reação durou pouco. Logo o espanhol Joel Robles tomou a titularidade no gol do Everton. Depois, Jordan Pickford chegou para ser o nome absoluto na meta dos Toffees. Stekelenburg? Sempre na reserva. Assim ficou até 2020, já durante a pandemia. O contrato com o Everton se encerrava, e ele sinalizou que desejava voltar à Holanda. Dias depois, em junho, a surpresa: uma rápida negociação, e o retorno ao Ajax em que a história começara.

A volta ao Ajax parecia ser o começo de um digno fim. Foi um recomeço para Stekelenburg (Yannick Verhoeven/BSR Agency/Getty Images)

Como dizia o parágrafo deste longo texto, parecia o retorno para um fim de carreira respeitado. O destino transformou em recomeço: em janeiro deste 2021, o titular André Onana levou a suspensão de um ano, pelo uso de furosemida, substância proibida pela UEFA. Stekelenburg virava titular do Ajax, de uma hora para outra. Pelo menos, sua experiência o deixava mais do que preparado para a tarefa. Ele terminou como goleiro campeão holandês - e de quebra, ainda pegou até um pênalti, no clássico contra o Feyenoord, pela 32ª rodada.

As atuações seguras pelo Ajax bastaram para que um velho conhecido, Frank de Boer, o trouxesse de volta à seleção holandesa, cinco anos depois. E a experiência dos quase 40 anos, duas Euros e duas Copas longínquas depois, valem a Stekelenburg o retorno a um grande torneio pela Holanda. Por enquanto, como reserva de Tim Krul. Mas vai que...

(Laurens Lindhout/Soccrates/Getty Images)