quarta-feira, 27 de maio de 2026

A Holanda na Copa 2026: De Roon


A trajetória de Marten de Roon na Holanda (Países Baixos) já parecia acabada. Mas sua indiscutível dedicação pela Atalanta - e a grande experiência - o trouxeram de volta à Laranja, e de volta a uma Copa (Divulgação/KNVB Media)

Ficha técnica

Nome: Marten de Roon
Posição: Meio-campista
Data e local de nascimento: 29 de março de 1991, em Zwijndrecht
Clubes na carreira: Sparta Rotterdam (2010 a 2012), Heerenveen (2012 a 2015), Atalanta-ITA (2015 a 2016 e desde 2017) e Middlesbrough-ING (2016 a 2017)
Desempenho na seleção: 42 jogos e 1 gol, desde 2016
Torneios pela seleção: Copa de 2022 (5 jogos, nenhum gol), Euro 2020+1 (3 jogos, nenhum gol), Liga das Nações (2018/19, 2020/21, 2022/23)

(Versão revista e ampliada dos textos de apresentação para os guias deste blog na Euro 2020+1 e na Copa de 2022)

Depois de ficar fora da Euro 2024, machucado, e ver o técnico Ronald Koeman sinalizar, respeitosamente, que seu tempo na seleção da Holanda (Países Baixos) talvez já tivesse acabado, era possível supor que Marten de Roon só vestiria laranja de novo para ser torcedor, em grandes torneios. Mas essa frase bem humorada (típica, aliás, do ar espirituoso que o jogador dá ao seu perfil no Twitter/X, com piadas e autoironias o tempo todo, sem agressividade nenhuma) foi desmentida pelo tempo, só ele. Como sempre foi na carreira, de lá para cá, De Roon seguiu demonstrando grande capacidade na marcação, e se firmou a ponto de poder, já, ser considerado um símbolo da Atalanta que defende há quase dez anos. Tanta experiência e tanto espírito de grupo devolveram o veterano ao olhar do treinador da Laranja, cada vez mais cioso dos nomes experientes que tem à disposição. E a compensação está completa: se doeu ficar fora da Euro, De Roon voltou à Laranja após mais de dois anos, para disputar a segunda Copa do Mundo de sua carreira.

Após começar a bater bola no amador ASWH (Altijd Sterker Worden Hendrik-Ido-Ambacht), próximo à sua cidade natal, De Roon entrou nas categorias de base do Feyenoord, ainda na fase final da infância. Lá ficou por seis anos. Mas seria em outro clube de Roterdã que o nativo de Zwijndrecht teria a porta aberta para a carreira nos campos: o Sparta Rotterdam, onde chegou em 2006. No clube do bairro de Spangen, De Roon terminou sua formação nas categorias de base. Teve até uma chance em seleção inferior - um jogo pela equipe sub-18 da Holanda, e outros três pela seleção sub-19, todos em 2009.

Finalmente, em 27 de março de 2010, veio a estreia do volante pelo time principal do Sparta Rotterdam: De Roon saiu do banco durante o jogo contra o Twente, já na 29ª rodada do Campeonato Holandês da temporada 2009/10. O Sparta caiu para a segunda divisão ao fim da temporada, mas o jogador ficou no Kasteel. E se consolidou, nas duas temporadas seguintes, como um nome regular e confiável na marcação, dentro do meio-campo. A ponto de atrair muito interesse dentro do futebol dos Países Baixos: AZ, Heracles Almelo, Heerenveen... E coube a este último clube levar De Roon logo no fim do contrato com o Sparta Rotterdam, no meio de 2012. 

No Heerenveen, sob o comando de Marco van Basten, De Roon demorou um pouco para se tornar indispensável. Mas a partir da metade da temporada 2012/13, cresceu e tomou a titularidade no clube das camisas alviazuis com folhas de lírio para não mais perdê-la. Em 2013/14, então, De Roon ficou ainda mais prestigiado: já com novo técnico no Heerenveen (Dwight Lodeweges, que o treinou interinamente na seleção), não só prosseguiu titular absoluto no meio-campo, como foi escolhido o capitão do time. E até se entrosou bem com um nome no meio do Fean, Joey van den Berg: este cuidava dos desarmes, com mais força, enquanto De Roon apostava na capacidade com a saída de bola. Finalmente, na temporada 2014/15, o meio-campista foi um dos principais nomes do Heerenveen que quase teve vaga na Liga Europa - perdeu-a para o Vitesse, na final da repescagem holandesa.

No Heerenveen, De Roon consolidou seu estilo marcador no meio-campo (Pro Shots)

A constância das atuações fez com que De Roon chamasse a atenção da Atalanta - e antes da temporada 2015/16, ele chegou ao clube italiano. Já na primeira temporada em Bérgamo, o holandês demonstrou a sua principal qualidade em campo: continuidade. Não era um goleador (só um gol), nem um criador de jogadas (só um passe para gol), mas raramente perdia um jogo (36 das 38 partidas da Atalanta no Campeonato Italiano) e mantinha firme a posse de bola (em média, 60,9 toques na bola por jogo). Mesmo que a Atalanta fosse um time de meio de tabela, então - terminou a Serie A 2015/16 na 11ª posição -, De Roon se destacou. E já deu mais um salto: a contratação pelo Middlesbrough, que voltava à primeira divisão inglesa.

No Boro, o holandês seguiu constante (33 jogos). Até marcou mais gols (4). E se aprimorou nos desarmes. Tudo isso, enfim, o levou à seleção holandesa: em 13 de novembro de 2016, o volante teve a sua estreia na Laranja, contra Luxemburgo, vindo do banco para os últimos dois minutos de jogo. Porém, só durou uma temporada na Inglaterra: o Middlesbrough caiu novamente para a segunda divisão, e teve de vender o volante.

Sorte da Atalanta: já então sob o comando do técnico Gian Piero Gasperini, que desejava um estilo mais ofensivo em campo, o clube trouxe De Roon de volta, para a temporada 2017/18. Àquela altura, já havia mais alvos na temporada: além do Campeonato Italiano, a Atalanta tinha uma Liga Europa para disputar. E De Roon esteve nisso tudo. Mais focado no lado direito do meio, seguiu titular da Atalanta, tanto na Serie A quanto na Europa League. E a melhora de seus índices com a bola nos pés indicava como aquela Atalanta estaria diferente.

De certa forma, se abria ali a grande fase da carreira do volante. Porque, se só atuara em um jogo pela seleção da Holanda em 2017, sua boa fase o levou a ser experimentado por Ronald Koeman na escalação da Laranja, a partir do amistoso contra Portugal, em 26 de março - vitória holandesa, 3 a 0. Ali De Roon começou a se mostrar um jogador discreto e confiável. Tão confiável que Koeman o tornou titular absoluto da seleção a partir dali. 

De Roon chegou à Atalanta, teve a experiência frustrada no Middlesbrough... e só decolou quando voltou a Bérgamo (VI Images)

O que só progrediria ao longo da temporada 2018/19. Pela Atalanta, De Roon mostrou-se cada vez mais preciso na saída de bola (só pelo Campeonato Italiano, foram 88% de acerto nos passes). Ajudando demais na meia-direita, foi nome certo na escalação do time que conseguiu a façanha de levar a Dea pela primeira vez à Liga dos Campeões. O bom nível de equilíbrio entre marcação e apoio consolidava De Roon também na seleção: enquanto Frenkie de Jong circulava por todo o campo e Georginio Wijnaldum era mais do ataque, o volante cuidava da marcação - e tal entrosamento fez dele titular na maioria dos jogos da Holanda em 2019, incluindo a final da Liga das Nações.

De lá para cá, a situação seguiu a mesma. Pelo menos, na Atalanta: De Roon fez parte da campanha elogiável na Liga dos Campeões, em 2019/20, e segue como nome frequente na escalação do time azul e negro de Bérgamo - quase sempre, cabe a ele roubar as bolas e iniciar as jogadas de ataque. Na seleção, o volante até continuou com bastante espaço mesmo após a saída de Ronald Koeman e a chegada de Frank de Boer: jogou a maioria das partidas da Holanda em 2020.

Isso mudou um pouco em 2021: uma atuação ruim contra a Turquia, na estreia das eliminatórias da Copa, fez De Roon perder a vaga para Davy Klaassen, em boa fase no Ajax. Ainda assim, garantido naquela Euro, o volante foi titular em três dos quatro jogos na campanha, só sendo poupado contra a Macedônia do Norte, quando a Holanda já estava classificada às oitavas de final nas quais seria eliminada. Além do mais, seu "anticarisma" foi útil para amenizar as tensões da campanha decepcionante: no perfil oficial da seleção masculina no YouTube, De Roon "apresentou" algumas brincadeiras com os companheiros - como esta, com De Jong e De Ligt -, e ainda fez um vídeo com um dia de folga na Euro, quando a delegação se divertiu num jogo de boliche.

A utilidade de De Roon na marcação o fez titular da Holanda na Euro (Alex Gottschalk/DeFodi Images/Getty Images)

Na Atalanta, De Roon seguiu com a realidade a lhe mostrar a pecha de "coadjuvante". Basta citar um caso pitoresco ocorrido em setembro de 2021: o meio-campo fez parte de uma promoção do clube, na qual pagaria as camisas que fossem compradas por torcedores que pedissem seu nome na personalização... e ninguém as comprou. Tudo bem: como sempre, De Roon se saiu com um gracejo. Além do mais, o que se viu no campo compensou: foram 30 jogos e três gols na temporada 2021/22 do Campeonato Italiano, titular absoluto da "Dea" (apelido da Atalanta), sem contar o poder de marcação. Em média, nos números do SofaScore, foram 2,3 carrinhos por jogo - e desde a temporada 2017/18, sua chegada ao Campeonato Italiano, ninguém roubou mais bolas (1.142) e nem deu mais carrinhos que desarmaram (246) do que De Roon.

Na seleção, sob Louis van Gaal, De Roon perdeu espaço jogando: foram só dois jogos no segundo semestre de 2021, ambos pelas eliminatórias da Copa, ambos vindo da reserva (jogou os 17 minutos finais nos 4 a 0 contra Montenegro, e os 16 finais da vitória contra a Noruega que pôs a Holanda no Mundial). Neste 2022, só dois jogos: os dois derradeiros antes da Copa, pela Liga das Nações, contra Polônia (2 a 0, substituindo De Jong) e Bélgica (1 a 0 - este, como titular). O que aumentou as perspectivas de que ele estaria entre os 26 convocados. De Roon sabia de seu papel como coadjuvante, mas também lembrava da sua utilidade, em entrevista à revista Voetbal International: "Eu entendo que Frenkie [De Jong] é o titular. Eu não sou Frenkie, mas eu acho que posso acrescentar algo, caso ele não esteja. Por exemplo, ajudar a segurar uma vantagem". 

Outra de suas utilidades - sua aceitação no grupo de jogadores - foi ressaltada por Van Gaal: "Eu também preciso de jogadores que falem a língua do técnico no vestiário. E eu lembrei a ele o exemplo de Dirk Kuyt na Copa de 2014: eu levei Kuyt à Copa exatamente por isso". E foi assim que De Roon foi à Copa do Mundo de 2022: em nenhuma vez jogou noventa minutos (saiu do banco contra Senegal e Equador, jogou 83 minutos contra o Catar, foi substituído no intervalo contra Estados Unidos e Argentina), mas saiu cumprindo seu papel, sem comprometer. Após a eliminação, reconheceu: "No meu tempo de jogador, Messi era o sonho de todos. Joguei contra um sonho que virou pesadelo". Pelo menos, valeu a expectativa.

De Roon não foi titular integralmente da Holanda (Países Baixos) na Copa de 2022, mas trouxe a utilidade que se esperava (Harry Langer/DeFodi Images/Getty Images)

De volta à Atalanta, a partir dali De Roon começou a deixar de ser um jogador importante da Atalanta para se tornar um símbolo do time italiano de Bérgamo. Começou a fazer isso na temporada 2022/23, figurando em 35 jogos do Campeonato Italiano, marcando três gols e sendo, com disposição incansável, importante na campanha que levou os bergamascos à Liga Europa. Pela Holanda, mesmo ainda se alternando entre campo e banco no trabalho de Ronald Koeman, De Roon ainda seguiu tendo seu espaço em 2023: além de figurar nas semifinais da Liga das Nações, ainda esteve em cinco jogos das Eliminatórias da Euro 2024. Num deles, inclusive, fez aquele que até agora é seu único gol pela Laranja, abrindo o placar dos 3 a 0 sobre a Grécia. E já em 2024, ainda atuou por 15 minutos, num amistoso contra a Alemanha, em março - até agora, seu último jogo vestindo laranja.

E na temporada 2023/24, De Roon cravou seu nome na história da Atalanta. Pela Série A italiana, 30 jogos, 3 passes para gol, a braçadeira de capitão, e uma façanha: tornar-se o primeiro jogador estrangeiro da história do clube a alcançar a marca de 250 jogos, na vitória por 2 a 0 sobre o Empoli, pela 34ª rodada. Pareceria pequeno, diante do que seria o feito na Liga Europa: também titular constante da Dea, De Roon seguiu por quase toda a campanha. Porém, às vésperas do ápice de sua carreira em clubes, o holandês amargou a dor da ausência: na final da Copa da Itália, perdida para a Juventus, ele machucou o joelho. 

Em 2023/24, De Roon começou a viver seu auge pela Atalanta. Porém, no ápice de temporada histórica para o time italiano, o meio-campista se machucou. Ficou fora da decisão ganha na Liga Europa e fora da Euro 2024 (Matteo Ciambelli/DeFodi Images/Getty Images)

O problema se revelou grave a ponto de tirar De Roon da esperada final da Liga Europa, em que a Atalanta venceu o Bayer Leverkusen. Pelo Twitter/X, como sempre, o holandês descreveu o tamanho da decepção: "O que deveria ser a semana mais importante da minha carreira se tornou o maior pesadelo". A reação da torcida da Atalanta, numa faixa, antes mesmo da vitória, até retribuiu a dedicação, com os dizeres "Identificação, sacrifício e camisa sempre suada. De Roon, sua taça você já conquistou". Porém, viria coisa pior para o holandês: a lesão no joelho o tirou também da Euro 2024, para a qual ele certamente teria utilidade. Uma temporada acabada, outra iniciada (2024/25), e quando a seleção da Holanda retomou os trabalhos, em setembro de 2024, na Liga das Nações, Ronald Koeman indicou que talvez o tempo do volante na Laranja estivesse acabado: "Liguei para ele, e expliquei que vou chamar novos nomes, mais jovens".

Sem mágoas. Até porque De Roon, de volta à Atalanta, fez talvez sua melhor temporada pela Dea em 2024/25: 36 dos 38 jogos, quatro gols, quatro passes para gol, aparição constante também na campanha pela Liga dos Campeões (10 jogos), ocupando o campo todo, recuperando a bola quatro vezes por jogo, em média. Mais uma façanha viria na temporada 2025/26: ainda titular frequente atalantino, tanto no Campeonato Italiano quanto na Liga dos Campeões, De Roon se tornou o jogador com mais partidas na história do clube, envergando a camisa negra-azul pela 436ª vez em 22 de março passado, na vitória por 1 a 0 sobre o Verona, na 30ª rodada da Série A - e sendo celebrado pela torcida, com direito a entrada em campo dos filhos.

As homenagens a De Roon, quando bateu o recorde de partidas com a camisa da Atalanta, foram dignas de um jogador com nove anos de casa (Emanuele Comincini/NurPhoto/Getty Images)

Atuações tão confiáveis pela Atalanta foram, lentamente, virando a cabeça de Ronald Koeman. O volante ainda ficou ausente dos amistosos de março passado, contra Noruega e Equador, mas o técnico da Holanda deixou claro que poderia mudar de ideia e trazê-lo de volta aos trabalhos: "O nome dele ainda passa pela minha cabeça. Sempre convoco os melhores, ele ainda não está entre eles... mas nunca diga nunca". 

Pois bem: desejoso de fortalecer a experiência da Laranja - até por isso, chamando nomes como Nathan Aké -, Koeman concretizou o que indicava. Aos 34 anos, De Roon está de volta, já na convocação para a segunda Copa de sua carreira. Em campo, pode se esperar muito esforço dele. Fora, se possível, alguma autogozação no Twitter.

(ProShots/Icon Sport/Getty Images)

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