Ficha técnica
Nome: Lutsharel Emiliano Geertruida
Posição: Lateral direito/Zagueiro
Data e local de nascimento: 18 de julho de 2000, em Roterdã
Clubes na carreira: Feyenoord (2017 a 2024), RB Leipzig-ALE (2024 a 2025) e Sunderland-ING (desde 2025, por empréstimo)
Desempenho na seleção: 19 jogos e nenhum gol, desde 2023
Torneios pela seleção: Liga das Nações (2022/23 e 2024/25) e Euro 2024 (2 jogos, nenhum gol)
Embora Lutsharel Geertruida já tenha até um bom tempo de carreira, há gente que o considera inseguro dentro de campo. E é opinião até razoável: afinal de contas, desde que deixou o Feyenoord, o defensor ainda não conseguiu uma longa sequência que o torne opção confiável para a defesa da seleção masculina da Holanda (Países Baixos). Contudo, ao longo da carreira, Geertruida conseguiu passar a imagem de jogador esforçado, tanto no miolo de zaga, quanto na lateral direita. Por isso - e por cuidar mais da marcação do que Denzel Dumfries, titular absoluto -, o jogador de 25-para-26 anos conseguiu gradativamente a confiança do técnico Ronald Koeman. E a coroa agora, com a ida para sua primeira Copa do Mundo na carreira.
Confiança que, aliás, Geertruida demorou a ganhar na carreira. E até na vida. Filho de imigrantes curaçauenses, desde a infância, no subúrbio de Roterdã (onde vivia até perto de De Kuip, o tradicional estádio do Feyenoord), ele sofria com a disfemia, nome científico da popular "gagueira". Em entrevistas recentes, confessou sua resistência para falar, exatamente por esse problema. Para superá-la, "Lutsha", seu apelido no meio do futebol holandês, se valeu - e até hoje se vale - do rap como hobby. E também do futebol, no qual começou cedo. Ainda muito pequeno, começou a bater sua bola no Overmaas, clube amador de Roterdã. Apenas aos sete anos de idade, partiu para outro clube amador, o Spartaan'20. Em 2009, ainda na infância, o primeiro sinal de que o futebol era uma possibilidade real de futuro: Geertruida partiu para a base do Sparta Rotterdam, conhecida por trabalhar bem os jogadores que passam por lá - Denzel Dumfries e Memphis Depay, agora companheiros de seleção de Geertruida, são dois exemplos.
Contudo, Geertruida só teria caminho aberto mesmo ao chegar ao clube a que ainda é muito identificado: o Feyenoord. Em 2012, começo de adolescência, partiu para Varkenoord, centro de treinamentos e de preparação das categorias de base. E lá mesmo "Lutsha" foi subindo, equipe de base por equipe de base. Após certa altura, também fez isso na seleção: em 2016, chegou à seleção sub-16 da Holanda (Países Baixos). Mais um ano, e estava na Laranja sub-17, pela qual disputou a Euro daquela categoria. E o destino também o ajudou a alcançar, mesmo ainda aos 17 anos, o grupo principal do Feyenoord: como o time sofria com muitas lesões na temporada 2017/18, Geertruida - então defendendo o time na Youth League, a "Liga dos Campeões" para jovens - teve sua primeira chance, substituindo o zagueiro Jeremiah St. Juste, aos 32 minutos do segundo tempo da goleada por 4 a 1 sobre o amador AVV Swift, na segunda fase da Copa da Holanda daquela temporada. Foi a única aparição do defensor pelo Feyenoord naquela temporada - pela Youth League, na qual o Feyenoord foi às oitavas de final, seriam seis jogos e dois gols (na época, Geertruida era até um goleador inesperado, muito ofensivo na lateral direita). Mas já valeria um título à carreira iniciante, já que o clube de Roterdã levou a Copa da Holanda em 2017/18.
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| Desde o começo da adolescência, Geertruida teve vinculação ao Feyenoord. Estreando pelo time em 2017/18, já conseguiu festejar o título da Copa da Holanda (VI Images/Getty Images) |
Também não seria na temporada seguinte, 2018/19, que Geertruida deslancharia no Feyenoord: seriam só dois jogos pelo Campeonato Holandês, vindo da reserva, e até mesmo sua estreia num torneio europeu - jogou na 3ª fase preliminar, contra o Trencín, da Eslováquia - foi eclipsada pela eliminação do clube. Pelo menos, haveria mais uma ascensão em seleções de base, com o defensor indo para a seleção holandesa sub-19. E em 2019/20, pouco a pouco, Geertruida começou enfim a ter chances no time principal do Feyenoord. Sendo alternado com Rick Karsdorp na lateral direita, foi um nome com muita presença no Campeonato Holandês (17 jogos, 11 como titular), teve sua participação na Copa da Holanda, teve até mesmo participação na Liga Europa (4 jogos). Contudo, não só o Stadionclub de Roterdã viveu momento difícil naquela campanha, como a pandemia de COVID-19 interrompeu toda aquela ascensão à força.
Pelo menos, pandemia amenizada, Geertruida não foi mais interrompido na evolução. Em 2020/21, com Karsdorp já retornado à Roma após empréstimo, "Lutsha" se firmou na lateral direita do Feyenoord para não sair mais. Foram 30 jogos pelo Campeonato Holandês - e no terceiro deles, no 4 a 2 sobre o ADO Den Haag, pela terceira rodada, seu primeiro gol pelo clube que o viu crescer. O primeiro dos cinco que faria naquela temporada da Eredivisie, mais dois passes para gol. Se ainda tinha certas inseguranças defensivas (dois erros, um pênalti cometido), se o próprio Feyenoord decepcionou novamente na Liga Europa (com ele como titular, também), Geertruida mostrou a que vinha naquela temporada. A ponto de renovar seu contrato inicial, até 2014. A ponto ter sido convocado para a maior "seleção de base" holandesa, a sub-21, a Laranja Jovem: substituiu Jurriën Timber, cortado por estar adoentado, na convocação para a Euro sub-21, em que foi reserva. Mais ainda: a ponto de ter sido cotado para a seleção principal... de Curaçao. Sim: a "Onda Azul" colocou Geertruida entre os pré-convocados para a Copa Ouro de 2021. Mas ele ficou fora do torneio de seleções da CONCACAF. Somente sua imagem pública seguia sem evoluir: sofrendo com a "gagueira", Geertruida combinou com o Feyenoord ser dispensado de entrevistas. Sentia-se tímido demais em frente às câmeras. E o clube o preservou.
Até porque, se importava mais a bola no pé, com ela Geertruida cresceu sobremaneira em 2021/22. Já se alternando entre lateral-direita (sua posição preferencial) e miolo de zaga, também na destra, recuperado de uma cirurgia no joelho feita em maio de 2021, ele despontou numa temporada de reação do Feyenoord à opinião pública. Se nem tanto no Campeonato Holandês - 28 jogos, 3 gols -, na histórica campanha da primeira edição da Conference League, Feyenoord finalista, o defensor teve lá seu papel, com 12 jogos, um gol e titularidade certa. Mesmo com a derrota na decisão contra a Roma, ele era um nome com quem Arne Slot, o técnico de então no Feyenoord, contava claramente. Aliás, conseguia equilibrar melhor seu potencial: se começara ofensivo, tornava-se pouco a pouco mais defensivo. Qualidade que o ajudaria a dar o passo seguinte: chegar à seleção masculina principal da Holanda (Países Baixos). Esta convocação, ao contrário da de Curaçao em 2021, ele aceitou. E pela Laranja estreou, em 24 de março de 2023. Só a ocasião foi aziaga: goleada sofrida para a França (4 a 0), nas Eliminatórias da Euro 2024.
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| Na reação do Feyenoord, marcada pela final da Conference League em 2021/22, Geertruida se consolidou. Quase foi chamado para a seleção de... Curaçao (Giuseppe Maffia/NurPhoto via Getty Images) |
Pelo menos, àquela altura, temporada 2022/23 já andada, Geertruida brilhava no Feyenoord. Tinha a simpatia natural da torcida a quem é vindo das categorias de base do clube. Na ausência do meio-campo Orkun Kökcü, era o capitão do Feyenoord, com apenas 23 anos de idade. Foi titular absoluto no Campeonato Holandês (dos 34 jogos da campanha, esteve em 30). Além de ser defensor, às vezes até era escalado como volante. E dos três gols que marcou na campanha do título holandês do Feyenoord então, pelo menos um será para sempre lembrado pela torcida do Stadionclub: seu gol aos 41 minutos do segundo tempo da vitória por 3 a 2 sobre o Ajax, em Amsterdã, encerrando 18 anos de jejum do clube sem vitórias fora de casa contra o arquirrival pela Eredivisie. Inclusive, no lance do gol, tímido que era, Geertruida hesitou em acenar que tinha sido ele o autor do gol, já que o colega de time Dávid Hancko estava sendo mais celebrado na comemoração. Pelo menos, na festa da vitória em Roterdã, o defensor viveu momento de glória: aclamado pela torcida, ergueu a salva de prata e até se deu ao luxo de arriscar um pouco ser o "mestre-de-cerimônias" da comemoração. Impossível haver melhor maneira para mostrar o sucesso do tratamento contra a disfemia.
Se pelo Feyenoord Geertruida já era uma certeza, pela seleção ainda sofreu para ganhar o respeito de torcida e imprensa. Afinal, nas decisões da Liga das Nações, em junho de 2023, ele foi experimentado como volante por Ronald Koeman... e falhou, tanto na derrota para a Croácia na semifinal, quanto na queda para a Itália, na decisão de 3º e 4º lugares (nesta, inclusive, saiu no intervalo). Contudo, seu esforço já ganhara a confiança de quem importava: o técnico. Ronald Koeman seguiu o convocando, fez dele titular em três outras partidas da qualificação para a Euro 2024. Pelo Feyenoord, naquela temporada 2023/24, não só seu espaço estava intocado na lateral direita, como ele mostrava força física. Também retomava seu lado goleador, no Campeonato Holandês: oito gols e cinco passes para gol na campanha daquela Eredivisie. Mais ainda: celebrou seu terceiro título pelo clube, a Copa da Holanda, com direito a um gol marcado na campanha. Participando de três dos amistosos pré-Euro, ganhou seu lugar entre os 26 convocados da Holanda para o torneio continental.
Nele, já que Ronald Koeman considerava - e continua considerando - Jeremie Frimpong mais um ponta do que um ala na direita, Geertruida poderia ter espaço defensivo. Contra a França, na fase de grupos, entrou nos 17 minutos finais para ajudar a segurar o 0 a 0, substituindo Xavi Simons. Contra a Áustria, com a Laranja praticamente classificada às oitavas de final, enfim, ele seria titular. Só que foi justamente quando teve essa grande chance que Geertruida deixou dúvidas em todos quantos acompanham a seleção holandesa. Desatento, até inseguro, foi facilmente superado pelos atacantes austríacos na derrota por 3 a 2. Não sairia mais do banco, no resto da campanha neerlandesa naquela Euro 2024. De certa fora, ainda não conseguiu tirar da opinião pública sua má atuação naquela derrota.
O que não quer dizer que Geertruida se abateu. Longe disso: sua grande fase no Feyenoord rendeu a chance de transferência para um centro mais competitivo. No caso, a Alemanha: após ainda jogar três partidas da Eredivisie na temporada 2024/25 - e ver o título na Supercopa da Holanda -, Geertruida rumou para o RB Leipzig, se despedindo do Feyenoord que "sempre estaria em seu coração". Contudo, nos Touros Vermelhos, sim, o defensor caiu de produção. Se pela Liga dos Campeões até foi titular constante, na Bundesliga mostrou certas inseguranças na lateral, cometeu erros que resultaram em gols adversários, cometeu três pênaltis, nem mesmo mostrou ousadia nos avanços (somente um gol marcado na temporada). De certa forma, a queda influiu nas aparições pela seleção da Holanda entre 2024 e 2025: titular mesmo, do começo ao fim, Geertruida só esteve na ida das quartas de final da Liga das Nações, jogando os 90 minutos do 2 a 2 contra a Espanha. No mais, três jogos pela fase de grupos daquele torneio (todos saindo do banco), mais a participação na volta das quartas de final. Com a volta de Jurriën Timber à boa forma, após sua lesão no joelho, Geertruida perdia espaço.
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| Geertruida teve a chance no RB Leipzig. Ainda terá outras, mas pelo menos em sua primeira temporada nos Touros Vermelhos, decepcionou, com algumas falhas (Gerrit van Keulen/ANP/Getty Images) |
Contudo, se o começo no RB Leipzig teve indisfarçável decepção, na hora de um empréstimo para tentar melhorar, o defensor "caiu para cima": foi cedido para passar a temporada 2025/26 no Sunderland inglês. Pelos Black Cats, até agora, na temporada, Geertruida se alterna mais entre campo e banco no Campeonato Inglês. Mas atua de maneira mais razoável do que fez no RB Leipzig. Suficiente para seguir nas convocações de Ronald Koeman: nas Eliminatórias da Copa do Mundo, foram três partidas, duas delas vindo da reserva.
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| No Sunderland, emprestado, Geertruida não chega a brilhar - mas não compromete (MI News/NurPhoto/Getty Images) |
E nos amistosos da Holanda em março passado, pelo menos em um deles, Geertruida mostrou a utilidade que mantém a confiança de seu técnico, por mais que ele ainda atraia desconfianças. No 1 a 1 contra o Equador, Denzel Dumfries expulso com menos de vinte minutos de jogo, quem saiu do banco para aumentar a marcação holandesa? Ele, Lutsharel Geertruida. Que se dedicou, diante de uma seleção equatoriana bem mais intensa, e ajudou a segurar o empate. Por essas e outras, ele foi a primeira opção pensada, com a necessidade do corte de Jurriën Timber. E irá à primeira Copa da carreira. Que pode terminar, quem sabe, com um lugar na final sendo um "presente de aniversário": afinal, a decisão no MetLife Stadium será em 19 de julho, um dia depois de "Lutsha" fazer 26 anos...
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| (Rene Nijhuis/MB Media/Getty Images) |








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