Ficha técnica
Nome: Memphis Depay
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 13 de fevereiro de 1994, em Moordrecht
Clubes na carreira: PSV (2012 a 2015), Manchester United-ING (2015 a 2017), Lyon-FRA (2017 a 2021), Barcelona-ESP (2021 a 2022), Atlético de Madrid-ESP (2023 a 2024) e Corinthians-BRA (desde 2024)
Desempenho na seleção: 108 jogos e 55 gols, desde 2013
Torneios pela seleção: Copa de 2014 (4 jogos, 2 gols), Copa de 2022 (5 jogos, 1 gol), Euro 2020+1 (4 jogos, 2 gols), Euro 2024 (6 jogos, 1 gol) e Liga das Nações (2018/19, 2020/21, 2022/23 e 2024/25)
(Versão revista e ampliada dos textos de apresentação para os guias deste blog na Euro 2020+1 e na Copa de 2022)
Se Memphis Depay é um jogador controverso, amado e odiado, praticamente desde o começo de sua carreira, por quê seria diferente agora? Em clubes, numa carreira inconstante - bem em PSV e Lyon, mal por Manchester United, Barcelona e Atlético de Madrid -, só o fato de tomar a ousada decisão de ir para o Brasil já aumentou essa controvérsia. E seu destino foi um clube onde amor e ódio são exacerbados por natureza: o Corinthians. Pois bem, se por um lado Memphis atrai desconfiança de alguns por sua postura, por outro é inegável que deixou sua marca na retomada corintiana de títulos, em 2025. Mas em seleção, nem mesmo as conquistas brasileiras, nem mesmo ter virado o maior goleador (e até quando as estatísticas começam, quem mais passes para gol deu) dos 121 anos de história da seleção holandesa masculina de futebol, nada disso tirou de torcida e imprensa a desconfiança: em jogos importantes, em decisões pela seleção neerlandesa, Memphis Depay nunca se sobressai. Sem isso, ele nunca será um ídolo inconteste da Laranja. Por mais que diga que nem pensa em parar com a seleção mesmo após a que será a terceira Copa do Mundo de sua carreira, a impressão é de que esta será a última chance de Memphis tirar as desconfianças em seu país natal.
Seu começo foi o de sempre para um jogador holandês: Memphis começou a jogar na infância, num clube amador (o VV Moordrecht, da cidade natal homônima). De lá, para uma agremiação profissional, forte nas categorias de base - no caso, o Sparta Rotterdam, para onde o garoto rumou em 2003. Ficou em Het Kasteel por três anos, já sendo elogiado por nomes como o diretor Tom Redegeld, que se recordou, em 2016, ao diário Omroep Brabant: "Ele já era completo na juventude. Era ambidestro e fisicamente forte. Se vencêssemos por 7 a 0 um jogo, era capaz dele ter feito cinco gols e dado passe para os outros dois". Nos idos de 2006, Depay já era um jovem cortejado pelo trio de ferro holandês: Ajax, PSV e Feyenoord. Aí, entrou o conselho do avô: mesmo torcedor Ajacied, aconselhou o adolescente a tomar o caminho de Eindhoven. Foi o que Memphis fez, em 2006.
Na base do PSV, o atacante começou a se estabelecer pelas pontas. Continuou chamando a atenção. E a principal prova disso veio nas seleções de base da Holanda. Mais precisamente, na sub-17, que Depay começou a defender em 2010 (antes, passara pelas seleções sub-15, em 2008, e sub-16, em 2009). Na Euro da categoria em 2011, na Sérvia, o atacante chegou como destaque neerlandês. Confirmou isso. Nem tanto pelos gols que marcou - só um. Mas com velocidade e movimentação, Memphis foi um dos principais nomes da Holanda que se sagrou campeã europeia sub-17. A ponto de ser escolhido para a seleção daquela Euro.
![]() |
| O título europeu sub-17, em 2011, foi o primeiro sinal de que Memphis Depay tinha algo a oferecer (Getty Images) |
Aquilo já bastou: sem ter partidas oficiais pela equipe B do PSV, o atacante foi promovido de imediato ao time principal dos Eindhovenaren, para a temporada 2010/11. Na primeira partida atuando pela equipe - em 21 de setembro de 2011, segunda fase da Copa da Holanda -, já marcou gol. Aliás, dois, nos 8 a 0 sobre o amador VVSB Noordwijkerhout. Pelo Campeonato Holandês, seriam três gols em oito jogos na temporada. Mais participação na semifinal e na final da Copa da Holanda que o PSV conquistou, no primeiro título da carreira.
E em 2012/13, Depay já foi um reserva bem mais utilizado dentro do PSV. Nem tanto na Liga Europa: foram só quatro jogos. Mas no Campeonato Holandês, ainda que o time de Eindhoven fizesse uma campanha decepcionante, Depay já apareceu em 20 jogos, quase sempre substituindo o titular Dries Mertens. E já então, ostentava sua marca registrada nas costas da camisa 22 com que foi inscrito: ao invés do sobrenome, o prenome Memphis. Tudo pelo grande trauma familiar da infância: o pai ganês, Dennis Depay, se separara da mãe holandesa, Cora Schensema, e cortara contato com ele. Que retrucou ao omitir o sobrenome paterno. Só o avô lhe serviu como referência masculina na infância - até pelo citado conselho de ir para o PSV.
Antes da temporada 2013/14, Dries Mertens tomou o caminho do Napoli. A vaga estava aberta no time titular. De quebra, também a partir daquela temporada, o técnico do PSV seria um nome que conhecera e treinara Memphis nas categorias de base: Phillip Cocu. As pistas foram confirmadas: naquele Campeonato Holandês, Depay se tornaria titular do PSV. Mais do que isso: o mais importante jogador do time, em outra temporada apagada: foram 32 jogos e 12 gols, na campanha do quarto lugar. A velocidade na ponta-esquerda já ficava notável. Até em termos de seleção.
![]() |
| Bastou uma temporada como titular no PSV para que Memphis Depay já merecesse uma chance na Holanda. Foi à Copa de 2014 como promessa - e saiu de lá revelação (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images) |
Porque, na reta final das eliminatórias da Copa de 2014, o técnico Louis van Gaal já notara a utilidade que Depay poderia ter, mesmo jovem. Deu a ele a primeira chance na Holanda nos 2 a 0 contra a Turquia, em outubro de 2013, na rodada final da qualificação para o Mundial. O atacante jogou mais dois amistosos no mesmo ano, mais um em 2014, demonstrou personalidade... e foi premiado com a convocação para a Copa do Mundo daquele ano. Pois o camisa 21 deu seu cartão de visitas pela Holanda em grande estilo: substituiu Bruno Martins Indi contra a Austrália, na fase de grupos, e fez o gol da difícil vitória holandesa (3 a 2, de virada). Na partida seguinte, contra o Chile, já nos acréscimos, completou o 2 a 0 da Laranja, justamente no estádio que atualmente conhece tão bem. Seriam mais dois jogos ainda - começando como titular contra a Costa Rica, nas quartas de final. Em suma, Memphis entrara na Copa do Mundo apenas como uma promessa para o futuro da seleção... e saiu como uma das revelações do torneio. O terceiro lugar no Brasil foi um sinal do que viria em 2014/15.
O que veio: o título holandês do PSV, após sete anos. E dentro da campanha, o destaque absoluto de Memphis Depay. Sim, o entrosamento com Luciano Narsingh e Luuk de Jong ajudou. Sim, ele ainda se focava mais na ponta. Mas o jovem começou a mostrar capacidades além da velocidade: a precisão nas cobranças de falta, a evolução nas finalizações, até uma certa segurança. E o crescimento foi confirmado com o posto de goleador naquela Eredivisie 2014/15, com 22 gols, o mais jovem artilheiro da liga dos Países Baixos desde Ronaldo (2014/15). Memphis Depay parecia o nome para continuar conduzindo o futebol holandês em campo, no futuro. Por isso mesmo, os boatos que já o ligavam ao Manchester United desde a Copa de 2014 foram concretizados: tão logo a temporada 2014/15 acabou, Memphis foi anunciado nos Diabos Vermelhos, por 30,5 milhões de euros, a transferência mais cara da história do Campeonato Holandês naquele momento.
![]() |
| Memphis foi a cara do PSV campeão holandês em 2014/15 (EFE) |
Jogando num gigante europeu, usando a camisa 7 de simbolismo grande no United (de George Best a Cristiano Ronaldo, passando por Éric Cantona), treinado pelo mesmo Louis van Gaal que lhe dera a chance bem aproveitada na seleção em 2014, Depay tinha a grande chance de turbinar sua carreira em Old Trafford. Fracassou. Fez parte de uma campanha ruim na Liga dos Campeões, com a eliminação na fase de grupos - só um gols nas seis partidas. Pelo Campeonato Inglês, até jogou bastante: 29 das 38 partidas do Manchester United. No entanto, ia e vinha do banco de reservas: só começou como titular em 16 partidas da Premier League. E só marcou dois gols. Pior: não dava ao ataque do clube a força necessária. Nem nas finalizações, nem nas criações de chances. Nomes como Ángel di María ou Marcus Rashford tinham mais espaço e importância do que Memphis. Nem o título na Copa da Inglaterra amenizou a má impressão.
![]() |
| Na crise pesada da seleção da Holanda entre 2014 e 2018, Depay muitas vezes foi o bode expiatório - até o vestuário era criticado (ANP) |
Para piorar, a situação na seleção holandesa não era muito melhor. Ao longo de 2015, Depay se converteu em titular absoluto da Laranja, como prometia, é verdade. Só que a própria equipe se consumia na desastrosa participação nas eliminatórias da Euro 2016. E nada do jovem conseguir cumprir o protagonismo que dele se esperava, nas ausências do trio Arjen Robben-Wesley Sneijder-Robin van Persie. Só fez um gol em todo o ano, e num amistoso (a derrota por 4 a 3 para os Estados Unidos, em junho). Além da má fase técnica, Memphis começava a ser visto na Holanda como um deslumbrado, um jovem mais preocupado com o vestuário do que propriamente com o que jogava ou não em campo. Chegou a receber críticas de luminares de outras gerações, como Willem van Hanegem, por uma suposta falta de comprometimento. Se a Holanda estaria ausente daquela Euro, o atacante foi considerado um dos principais culpados.
![]() |
| Memphis Depay ficou longe de corresponder às grandes expectativas no Manchester United (Paul Ellis/Getty Images) |
A situação ficou pior ainda entre 2016 e 2017. No Manchester United, se a situação do atacante já decaíra ainda com Louis van Gaal no comando, ele se tornou quase anônimo com José Mourinho no comando, durante a temporada 2016/17. Foram só quatro jogos no Campeonato Inglês, só três jogos pela Liga Europa (que o United terminaria por conquistar)... se Memphis Depay desejava retomar algum destaque na carreira, necessitava deixar Old Trafford. Fez isso em janeiro de 2017: entre alguns interessados, o jogador escolheu o Lyon, indo para o clube francês, por 16 milhões de euros.
Acertou de cara: ainda na reta final do Campeonato Francês, Depay teve lá sua importância na campanha lionesa. Começando na reserva mas se tornando titular no decorrer do returno, já foram cinco gols em 17 jogos - um deles, contra o Toulouse, eleito o gol mais bonito do futebol francês em 2017. Em 2017/18, a estabilização definitiva, com a volta às boas atuações: 19 gols em 36 partidas pelo Campeonato Francês, marca não atingida desde os bons tempos de PSV - e que ajudou o Lyon a garantir o 3º lugar, com vaga na Liga dos Campeões. A titularidade na campanha pela Liga Europa. O futebol francês poderia ter nível técnico inferior, mas Memphis Depay retomara mais espaço nele. Já não era mais só um ponta-esquerda: mudava de posicionamento, atuava mais no meio do ataque.
E ganhara mais espaço na seleção. Se no fracasso de outra tentativa de qualificação, na Copa de 2018, Depay teve importância menor (só quatro jogos, com três gols), bastou 2018 chegar e Ronald Koeman assumir o comando da Laranja para o técnico fazer o que já sonhava desde que pensou em levar Memphis para o Everton que treinara: tornar Memphis Depay o seu destaque, o seu nome indispensável dentro da seleção. Conseguiu, até porque o atacante já era considerado um nome mais maduro e calmo, após as turbulências dos anos anteriores. Em uma biografia - "Coração de Leão", lançada em 2018 pelo jornalista Simon Zwartkruis -, ele atribuía à religião sua pacificação. E até já se manifestava noutro campo que se tornaria seu principal passatempo: a música - em 2017, começou a carreira o rapper Memphis Depay, já tendo até um EP na carreira ("Heavy Stepper", de 2020).
![]() |
| Logo que chegou à seleção, Ronald Koeman apostou em Memphis Depay. Ele retribuiu: foi uma das caras da reação da Holanda, desde 2018 (Sport 360) |
Começava ali um momento, se não de brilho, de mais confiança na carreira. Pela seleção, enfim Memphis começou todas as partidas - e só foi substituído num amistoso contra Portugal, em março de 2018. Na Liga das Nações, com dois gols, se consolidou como um dos destaques da campanha que levou a Laranja à final, além de se converter num atacante de meio de área, só voltando a ser escalado na ponta caso necessário. Pelo Lyon, a temporada 2018/19 foi de transformação no grande nome ofensivo dos Gones: em 36 jogos pelo Campeonato Francês, 10 gols e 10 passes para gols, em outra campanha que terminou com o terceiro lugar e vaga na Liga dos Campeões. E em 2019/20, o começo de temporada vinha sendo esplendoroso no clube. Pela Ligue 1 francesa, nove gols em 13 jogos; pela Liga dos Campeões, cinco gols em cinco jogos. Na Holanda, Depay se consolidava como o destaque da seleção. Estava bom demais para seguir assim.
Não seguiu. Em dezembro de 2019, contra o Rennes, pela 18ª rodada do Campeonato Francês, Depay sofreu uma torção no joelho. Ela rendeu o diagnóstico tão habitual quanto amedrontador: rompimento do ligamento cruzado anterior. Seria fim de temporada, fim das chances de disputar a Euro... seria. Mas não foi. O adiamento da Euro causado pela pandemia possibilitou que Memphis se recuperasse com menos pressão. A pausa do futebol possibilitou até que ele se dedicasse a outras coisas - como a participação em algumas manifestações do movimento "Black Lives Matter", ou mesmo conversas para restabelecer alguma relação com o pai Dennis Depay, com quem era rompido desde a infância.
![]() |
| A reação: no Lyon, Memphis voltou a exibir bom nível técnico, virando o grande destaque do time francês (Emmanuel Fouldron/Reuters) |
E Memphis Depay voltou. A princípio, brilhando menos no Lyon: mesmo com o Campeonato Francês 2019/20 encerrado à força pela pandemia, o atacante não chegou a brilhar no mata-mata da Liga dos Campeões, quando esta foi retomada. Só em 2020/21 é que o jogador recuperou a velha forma. No Lyon, se o clube seguiu na disputa do título do Campeonato Francês por muito tempo, isso se deveu em grande parte aos 20 gols (e 10 passes para gol) que Memphis marcou. Foi a verdadeira consolidação do holandês como um atacante de área, não só como um ponta.
Pela seleção, o destaque ficou maior ainda: se Ronald Koeman deixou a seleção, Frank de Boer chegou para treiná-la, e fez dele capitão, em alguns jogos da Liga das Nações, alternando a braçadeira com Wijnaldum. Ainda pela Holanda, ainda pela Nations League 2020/21, foram mais dois gols. 2021 começou com dois jogos contra Gibraltar, na terceira rodada das eliminatórias da Copa. Seguiu com mais gols nos amistosos pré-Euro, contra Escócia e Geórgia. E chegou à Euro mostrando algum destaque: o camisa 10 fez gols contra Áustria e Macedônia do Norte, na fase de grupos. E a boa fase teve uma espécie de "coroação" entre essas duas partidas: em 19 de junho de 2021, dois dias antes do jogo contra os norte-macedônios, o Barcelona confirmava a contratação de Memphis Depay. Era a grande chance de voltar a se destacar num centro mais competitivo - e treinado novamente por Ronald Koeman, que dera novo impulso à sua carreira.
Está certo que a chegada de Memphis a Camp Nou foi eclipsada pela eliminação decepcionante na Euro, quando novamente o atacante teve críticas pela falta de imposição contra a República Tcheca. Todavia, isso foi minorado pelo seu bom começo no novo clube: titular absoluto do Barcelona sob Koeman, ele fez relativamente poucos gols nesse início (4), mas sempre era titular. Já bastava para ser soberano também na seleção da Holanda. E aí, Depay justificava plenamente a confiança do recém-chegado Louis van Gaal: na reta final das eliminatórias da Copa, ao longo do segundo semestre de 2021, foram seis gols. Alguns deles, decisivos, como o segundo gol nos 2 a 0 contra a Noruega, na decisão da última rodada, assegurando a vaga no Mundial. Pelo menos uma atuação brilhante - três gols, na goleada por 6 a 1 na Turquia. Ao todo, 12 bolas de Depay nas redes: ao lado de Harry Kane, goleador das eliminatórias europeias da Copa.
Porém, no Barcelona, a demissão de Ronald Koeman foi o início de uma derrocada para o atacante. Xavi Hernández chegou para treinar o clube catalão, e bastou 2022 começar para Memphis passar a ser reserva, sem se encaixar no novo estilo que Xavi pensava para a equipe. Mais do que isso: entrando somente na reta final das partidas. Colaborou, é verdade: 12 gols em 28 jogos pelo Campeonato Espanhol 2021/22 - goleador do time em La Liga -, titular na fase de grupos da Liga dos Campeões (na qual o Barça já caiu), mais um gol na aparição barcelonista na Liga Europa. Só que estava cada vez mais clara a perda de espaço do holandês no clube.
Se não estivesse claro, ficou antes da temporada 2022/23, com a contratação de nomes como Robert Lewandowski e Raphinha. Chegou-se a cogitar a saída de Memphis Depay, mas ele ficou. Antes das datas FIFA de setembro daquele ano, ele falou, meio que se consolando: "Na temporada passada, fui artilheiro do time com Aubameyang, não é como se eu não tivesse mostrado nada. Eu não vou fugir porque a concorrência aumentou. Eu adoro concorrência”. Nas poucas chances que tivera, não foi de todo ruim: em dois jogos como titular barcelonista no Campeonato Espanhol 2022/23, marcou um. Porém, justamente pela seleção, sofreu uma lesão no músculo posterior da coxa, contra a Polônia, em 22 de setembro de 2022, pela Liga das Nações. E não retornou mais ao time, ficando desde então em recuperação. Certos jornalistas de Espanha e Holanda até cogitaram que o atacante retardasse de propósito seu retorno, para poder chegar sem lesões à Copa. Memphis reagiu em sua conta no Twitter: "Não duvidem do meu profissionalismo". Para não haver riscos de corte, ele foi liberado mais cedo para os trabalhos sob a supervisão da comissão técnica da Holanda.
![]() |
| O começo de Memphis Depay no Barcelona, ainda sob Ronald Koeman como técnico, foi razoável. Mas o tempo passou, e o espaço diminuiu cada vez mais (Sergio Ruiz/Pressinphoto/Icon Sport/Getty Images) |
Com lesão ou não, a presença de Depay na seleção masculina da Holanda era bem importante. Ali, sim, era titular absoluto. Embora sem brilhar tanto quanto em 2021, deixara sua marca por quatro vezes no ano da Copa - com destaque para os dois gols nos 4 a 1 contra a Bélgica, pela Liga das Nações, em junho. E chegou ao segundo Mundial da carreira com espaço garantido na convocação, mesmo ainda em recuperação do problema muscular sofrido em setembro daquele ano. Então, a participação do atacante na Copa de 2022 foi gradativa. Primeiro, jogando 28 minutos, ao substituir Vincent Janssen nos 2 a 0 sobre Senegal, na estreia pelo torneio (e já ajudando no segundo gol, chutando a bola antes de Davy Klaassen aproveitar o rebote). Depois, um tempo inteiro, substituindo Steven Bergwijn - seu amigo pessoal - no 1 a 1 com o Equador. No último jogo da fase de grupos, enfim, Memphis começou como titular, fazendo 66 minutos em campo nos 2 a 0 da Laranja sobre o Catar.
Pelas oitavas de final, contra os Estados Unidos, a ajuda que tanto se esperava: o camisa 10 laranja abriu o placar na vitória por 3 a 1, e teve várias chances, em boa atuação, só encerrada aos 38 minutos do segundo tempo, com sua substituição por Xavi Simons. Era apenas para preservá-lo rumo à partida em que a Oranje precisaria mostrar seu valor real naquela Copa: contra a Argentina, nas quartas de final. E nelas... Memphis decepcionou. Nenhuma chance notável de gol, superado pela marcação do trio argentino de zagueiros, substituído discretamente por Wout Weghorst (que interferiria diretamente no jogo) aos 33 minutos da etapa final. Mesmo com as entradas gradativas, no momento de ser o destaque holandês na Copa de 2022, Memphis decepcionara novamente.
O pior só começara, para ele. Terminada a Copa, de volta ao Barcelona, as contratações no ataque o haviam deixado sem espaço no grupo. E em 20 de janeiro de 2023, ele acertou a transferência para o Atlético de Madrid, em contrato por dois anos e meio. O atacante teria até utilidade nos Colchoneros, começando com três gols e um passe para gol no returno do Campeonato Espanhol... não fosse um problema que o começou a atingir cada vez mais, a partir dali: estar machucado. No fim de março de 2023, Memphis ainda participou das duas primeiras rodadas das Eliminatórias da Euro 2024. Nos 4 a 0 sofridos para a França, no dia 27, perdeu um pênalti; nos 3 a 0 em Gibraltar, no dia 31, fez um dos gols. Mas saiu com uma lesão muscular, que o tirou dos campos por todo o mês de abril - aqueles jogos de março seriam os seus únicos pela Laranja em todo aquele ano. De volta ao Atlético de Madrid, Depay ainda entrou nos onze minutos finais contra o Valladolid, pela 32ª rodada do Campeonato Espanhol... mas uma lesão na panturrilha, pouco depois, o afastou do resto da temporada 2022/23. Nem mesmo nas decisões da Liga das Nações, pelos Países Baixos, o atacante conseguiu participar.
![]() |
| No Atlético de Madrid, Memphis Depay começou a sofrer com a principal aflição de sua carreira nos anos recentes: lesões musculares (Alberto Gardin/NurPhoto/Getty Images) |
Memphis só voltou aos campos na pré-temporada para 2023/24. Num Atlético de Madrid já bem preenchido no ataque, com Antoine Griezmann e Álvaro Morata, o holandês começava mais no banco de reservas. Mas já ajudava: nas primeiras três rodadas do Campeonato Espanhol, dois gols dele. Só que as lesões musculares voltaram. Em setembro, cerca de 20 dias parado; volta ainda naquele mês, oito minutos jogados vindo da reserva na vitória no clássico contra o Real Madrid (3 a 1, 6ª rodada de La Liga)... mais um problema muscular logo depois, e mais dois meses parado. Pelo menos, quando voltou, em novembro de 2023, o atacante conseguiu ter uma sequência de jogos, ainda que vindo mais do banco. Ajudou um pouco mais: em 23 jogos pelo Campeonato Espanhol daquela temporada, fez cinco gols. E teve pelo menos um grande momento: na volta das oitavas de final da Liga dos Campeões, contra a Internazionale, fez o gol que levou a decisão para a prorrogação no Civitas Metropolitano - nos pênaltis, o Atleti foi às quartas. Já valeu para voltar à seleção da Holanda (Países Baixos): nos amistosos de março de 2024, contra Escócia e Alemanha, Memphis começou como titular - para contentamento do técnico Ronald Koeman, que sempre o teve como nome confiável em sua seleção.
Só que os problemas musculares, sempre eles, retornaram na reta final da temporada - e da preparação para a Euro 2024. Em abril, mais uma lesão, e a volta só foi no princípio de maio, já às vésperas da convocação para o torneio europeu de seleções. Diante de tantas lesões, o atacante e o Atlético de Madrid entraram em entendimentos, e afinal rescindiram o contrato ao final da temporada. Pelo menos, Memphis conseguiu voltar, conseguiu estar entre os 26 chamados da Laranja para a Euro, e até gol marcou em um dos amistosos - os 4 a 0 no Canadá, em 6 de junho de 2024. Entretanto, tantas questões físicas "cobraram a conta" na Euro. Memphis foi, de longe, um dos mais criticados jogadores holandeses no torneio. Foi considerado lento, a ponto de arruinar contra-ataques. Só marcou um gol, na derrota para a Áustria (3 a 2), na fase de grupos. Perdeu terreno para Cody Gakpo na campanha, em termos de importância. E na semifinal contra a Inglaterra, quando sua experiência poderia ajudar a Oranje... mais uma lesão na parte posterior da coxa, logo aos 35 minutos do primeiro tempo, forçando-o a dar lugar a Joey Veerman. Sem clube, cada vez mais contestado... Memphis precisava de uma reação.
O que ninguém poderia supor, nem mesmo o mais informado jornalista ou o mais ousado torcedor, é que esta reação viria a partir do Brasil. Começando a temporada 2024/25 sem clube, longe da seleção (Ronald Koeman deixava claro: confiava no atacante, mas sem ritmo de jogo, nada de convocações), Memphis mantinha a forma com treinos em Mônaco. Chegou a ter sondagens de Roma e Porto, mas segundo revelou, neste 2026, em entrevista à emissora Ziggo Sport, queria e precisava de um "detox europeu". Cada vez mais pressionado no lado sul-americano do Oceano Atlântico - dívidas abissais, zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro, o presidente Augusto Melo cada vez mais acossado pelo impeachment que afinal viria -, o Corinthians decidiu fazer a proposta a Memphis, ouvindo dicas de agentes. Diretor de futebol corintiano de então, Fabinho Soldado participou ativamente das negociações, com a casa de apostas patrocinadora do clube se responsabilizando pelos gastos. Enfim, no princípio de setembro de 2024, a surpresa inesperada: sim, Memphis Depay tomaria o caminho do Corinthians (não sem antes impor fazer os exames médicos para a contratação na Holanda, a seu pedido). Dias antes da viagem ao Brasil, o encontro com o grupo da Holanda, nas partidas contra Bósnia e Alemanha, pela Liga das Nações, apenas para manter contato. E em 11 de setembro de 2024, antes da vitória corintiana sobre o Juventude (3 a 1), pelo Campeonato Brasileiro, Memphis era apresentado na NeoQuímica Arena.
O começo foi cauteloso. Em termos de seleção, o técnico Ronald Koeman mantinha distância: se fechara de vez a porta das convocações para Steven Bergwijn após a transferência deste para o Al-Ittihad (Arábia Saudita), considerando um torneio menos competitivo, Koeman sequer saberia opinar sobre o Campeonato Brasileiro que Memphis começaria a disputar, preferindo esperar e observar antes de trazê-lo ou não de volta. Memphis, afinal, estreou pelo novo clube em 21 de setembro (dois meses e onze dias após a semifinal da Euro 2024), jogando os 22 minutos finais dos 3 a 0 no Atlético Goianiense, pela 27ª rodada da Série A. Ficaria restrito a ela, sem inscrição na Copa do Brasil. O embalo só veio a partir de seu primeiro gol pelo Corinthians - o terceiro dos 5 a 2 no Athletico Paranaense, pela 30ª rodada do Brasileiro, em cobrança de falta. Entrosando-se cada vez mais com Rodrigo Garro e Yuri Alberto (Memphis sempre foi melhor ao ter parceiros no ataque), o holandês foi um dos símbolos da arrancada que afastou os medos de rebaixamento e levou o Corinthians à fase classificatória da Copa Libertadores da América. O rendimento técnico foi inegável, com sete gols em 11 jogos - com destaque justamente nas duas últimas rodadas da Série A em 2024: dois gols nos 3 a 0 no Bahia, um gol de belo voleio para fechar os 3 a 0 no Grêmio fora de casa.
Se o ar "bad boy/bon vivant" que sempre teve incomodava aqui e ali - e Memphis não só o mantinha, mas o aprofundava no Brasil, em visitas a comunidades, à torcida Gaviões da Fiel, em parcerias musicais com MC Hariel -, o atacante holandês seguiu a "lua-de-mel" com a maior parte da torcida no primeiro semestre de 2025. Mesmo com a queda na segunda fase classificatória da Libertadores, para o Barcelona-EQU, Memphis ainda tinha crédito. E o aumentou com o decorrer do Campeonato Paulista de 2025. Primeiro com a seleção da Holanda (Países Baixos): Ronald Koeman e Nigel de Jong - este, diretor de seleções da federação holandesa - vieram ao Brasil, viram-no marcar um gol e dar passe para outro nos 2 a 0 no Mirassol (quartas de final do Paulista), e semanas depois, Memphis estava convocado para as quartas de final da Liga das Nações, contra a Espanha. Memphis foi a elas, voltou a ser titular da Laranja, até gol fez - de pênalti - no 3 a 3 do jogo de volta. Depois, o crédito com a torcida corintiana foi ampliado: Memphis disputou a final do Paulistão, contra o Palmeiras, e ali celebrou seu primeiro título com o Corinthians, o primeiro do clube do Parque São Jorge após seis anos. Se não brilhou tecnicamente naquela decisão, seu "pisão na bola" nos minutos finais do 0 a 0 da volta, na NeoQuímica Arena, foi muito usado por corintianos para gozar os palmeirenses.
No segundo semestre de 2025, Memphis reafirmou a importância que ainda poderia ter para a Laranja, ao longo das Eliminatórias da Copa do Mundo. Nas duas primeiras rodadas, três gols (um nos 2 a 0 na Finlândia, dois nos 8 a 0 em Malta), igualando o recorde de gols de Robin van Persie (51) pela Laranja. No meio, as lesões musculares voltaram - foram duas, em agosto e setembro. Mas Memphis se recuperou, foi chamado para as datas FIFA de setembro... e num jogo inesperadamente difícil para a equipe neerlandesa, o atacante se sobressaiu. Contra a Lituânia, na quarta rodada, fez o marcante 1 a 0 com que se isolou como maior goleador da Laranja em todos os tempos; e após o empate lituano, com a ameaça de vexame holandês na cidade de Kaunas, coube a ele fazer o gol da vitória por 3 a 2. As críticas da torcida holandesa estavam controladas. Viriam mais três gols nas Eliminatórias - um deles, importante, empatando o 1 a 1 em jogo direto contra a Polônia, na penúltima rodada. E Memphis, bem ou mal, terminou a qualificação com vaga na Copa de 2026. E com seu espaço na Laranja recuperado.
![]() |
| Em 2025, Memphis não só reconquistou o espaço na seleção da Holanda (Países Baixos): ajudou a Laranja a buscar a vaga na Copa. E conseguiu o recorde de gols por ela (ProShots/Getty Images) |
Faltava contornar a situação no Corinthians: mesmo jogando bem, mesmo prestigiado pela maior parte da torcida - seu típico gesto nas comemorações e sua tiara viraram sucesso com alguns -, Memphis deixava escapar enfado com atrasos de salário, e críticas abertas a nomes que "perturbavam" o trabalho do grupo (e também o de Fabinho Soldado, muito próximo a Memphis). Ainda assim, ajudou em campanha mediana no Brasileiro, com pelo menos um grande momento: o gol nos 3 a 1 no clássico contra o São Paulo, pela 34ª rodada. Mesmo com os problemas físicos seguindo - outra lesão muscular, em setembro; nos ligamentos do joelho, no fim de novembro -, ele se recuperou para os momentos decisivos do Corinthians em 2025, na reta final da Copa do Brasil. E neles, brilhou.
Começou ainda nas oitavas de final, mais um clássico contra o Palmeiras: na volta, aí sim, Depay foi decisivo, com o gol da vitória por 1 a 0 que confirmou a classificação. Na ida da semifinal contra o Cruzeiro, fez logo no começo o gol de outro 1 a 0 (gol irregular para muitos - Memphis teria ajeitado com a mão). E na volta da final contra o Vasco, após tenso 0 a 0 em Itaquera na ida, coube ao holandês finalizar a jogada bem iniciada por Breno Bidon, continuada por Matheuzinho e Yuri Alberto, que passou a bola para que o camisa 10 fizesse o 2 a 1 do título corintiano no Maracanã. Mesmo contestado aqui e ali, inegavelmente, Memphis participara de títulos. Tinha moral para cobrar sem medir palavras, em entrevistas após a final: "As pessoas da diretoria precisam acordar. Eu sei exatamente para quem eu estou falando, e eles sabem também. Deixem esse clube em paz, vão fazer merda em outro lugar. Porque este clube precisa crescer (...). Os torcedores merecem. Quem quer fuder o Corinthians, vai embora".
![]() |
| Na trajetória do Corinthians na Copa do Brasil de 2025, Memphis fez gols importantes. Concluiu do melhor jeito possível: com o gol do título contra o Vasco (Pablo Porciúncula/AFP/Getty Images) |
E começou 2026. Com Memphis celebrando mais um título, a Supercopa do Brasil. Os ruídos na relação com o Corinthians apareciam aqui e ali: queixas da torcida a suposta falta de dedicação na precoce queda no Campeonato Paulista, as dívidas que seguem, a forte dúvida sobre sua permanência após o fim do contrato, em junho. Sem contar as lesões: um problema muscular sofrido no 1 a 1 contra o Flamengo, em 22 de março, pela 8ª rodada do Campeonato Brasileiro, o tirou dos amistosos contra Noruega e Equador, e causou queixas internas do atacante à equipe médica corintiana - a ponto da diretoria ter trazido o fisioterapeuta espanhol Fermín Valera Garrido, para um trabalho independente com o holandês.
De todo modo, se a dúvida em setembro de 2024 era se Memphis poderia seguir nas convocações da Holanda (Países Baixos) jogando no Brasil, o técnico Ronald Koeman as tirou no fim de 2025, em famoso programa de entrevistas holandês, com a apresentadora Eva Jinek: "Não há risco [de queda de produção], o Brasil tem um campeonato competitivo". Em março de 2026, contudo, nos amistosos em que Memphis não pôde estar, as críticas à suposta falta de dedicação e a preocupação com lesões encontraram eco no treinador da Laranja ("Ele precisa estar no auge de sua forma [para ser convocado]... Caso contrário, ele não terá a capacidade de ser decisivo para nós"). De mais a mais, outra lesão na parte posterior da coxa - cuja recuperação foi atrapalhada por outro problema físico, na panturrilha - dificultou muito o caminho do atacante, que só voltou a jogar no 1 a 0 contra o Atlético Mineiro, a três dias da convocação da Laranja.
Koeman, afinal, o levou à terceira Copa do Mundo de sua carreira. Se Memphis Depay já deixou uma marca no Corinthians, mesmo que não fique no clube após o fim do contrato, ainda falta vencer o grande desafio que a seleção da Holanda (Países Baixos) lhe oferece: ser o grande símbolo de uma grande conquista. Afinal, se a pergunta é por quê o maior goleador da história da Laranja não é um ídolo inquestionável do futebol do Reino dos Países Baixos, outro símbolo dela - Ruud Gullit, campeão na Euro 1988, inclusive com gol na decisão - "respondeu", em comentário na mesa-redonda Rondo, do canal a cabo holandês Ziggo Sport: "É uma conquista icônica [o recorde], não vou negar. Mas se [você] realmente quer ser grande, você precisa marcar gols decisivos em um grande torneio. Van Persie, Robben, Sneijder, eles marcaram em momentos que realmente importavam. É disso que as pessoas se lembram. Isso constrói o teu legado".
A Copa do Mundo de 2026 deve ser a última chance para Memphis Depay conseguir isso na Laranja.
![]() |
| (Koen van Weel/ANP/Getty Images) |

















Nenhum comentário:
Postar um comentário