A coincidência chega a ser até engraçada. Antes da Copa de 2022 começar, a seleção da Holanda (Países Baixos) era considerada uma equipe boa, mas não exatamente candidata a título - e teria um grande desafio na estreia, encarando Senegal, então campeã africana de seleções, com bons jogadores, muito capacitada a ser uma das surpresas daquele Mundial. Quatro anos - na verdade, três anos e meio - depois, a Copa do Mundo de 2026 está aí. A Laranja, novamente, é considerada uma equipe de boa qualidade. Em relação a 2022, até melhorou um pouco. Mas ainda tem nível técnico e resultados insuficientes para ser considerada, sem hesitação, como favorita ao título (até porque o histórico de decepções se impõe). E também novamente, ela estreará na sua 12ª participação numa Copa tendo de se provar contra um seleção considerada sólida e candidata a ser surpresa no torneio: o Japão, primeiro adversário à espera no grupo F, no dia 14 de junho (domingo), em Dallas, às 17h de Brasília. Pela frente, outras duas adversárias traiçoeiras: a Suécia (20 de junho, sábado, às 14h de Brasília, em Houston) e a Tunísia (25 de junho, quinta-feira, às 20h de Brasília, em Kansas City).
A Laranja terá de se provar, em última análise, porque embora ela tenha jogadores inegavelmente qualificados, o trabalho de Ronald Koeman ainda não conseguiu convencer. Se evitou um dos principais problemas no ciclo para 2022 (uma roda-viva de técnicos - entre o terceiro lugar de 2014 e o retorno aos Mundiais, no Catar, foram oito treinadores), por outro lado, em três anos da segunda passagem de Koeman, a inconstância holandesa foi clara. Nem é preciso citar aqui, em 2023, a decepção de ficar no quarto lugar da Liga das Nações, em casa: afinal de contas, era começo de trabalho. Mas mesmo que o resultado na Euro 2024 tenha sido relativamente satisfatório - nunca é ruim chegar à semifinal, ainda mais tendo perdido três meio-campistas importantes antes do torneio -, até hoje muitos julgam que a Laranja conseguiu essa campanha mais pela fragilidade do chaveamento do que por seus méritos. Até porque terminou seu grupo em terceiro lugar, após uma derrota para a Áustria. E mesmo com um chaveamento considerado mais fácil, a equipe suou para virar contra a Turquia, nas quartas de final.
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| Ronald Koeman tem inegável sequência de trabalho, mas nunca conseguiu convencer, nem mesmo na campanha de semifinalista da Euro 2024 (KNVB/Divulgação) |
E aí, entra o problema que mais aborrece torcida e imprensa holandesas: não conseguir superar seleções grandes, nos últimos tempos. Em todo o trabalho de Koeman, desde 2023, só quatro vezes houve vitória contra equipes nas 40 primeiras posições do ranking da FIFA (2 a 1 na Turquia, 22ª, nas citadas quartas de final da Euro 2024; os 4 a 0 no Canadá, 30º do ranking, em amistoso pré-Euro; os 2 a 1 na Noruega, 31ª, no amistoso de 27 de março passado; e os 2 a 1 na Polônia, 35ª colocada, na estreia pela Euro). No mais... França, dois jogos nas Eliminatórias da Euro, duas derrotas, um reencontro na fase de grupos da Euro, um empate; Alemanha, dois jogos pela Liga das Nações 2024/25, uma derrota e um empate; Inglaterra, a derrota na semifinal da Euro 2024. Contra a Espanha, no momento reconhecido como o melhor da Oranje sob Koeman, dois empates nas quartas de final da Liga das Nações passada, um time que fez jogo duro para a atual campeã europeia... mas, afinal, derrota nos pênaltis.
Embora seja algo contraindicado para uma seleção que deseje ir longe na Copa, vá lá, perder de seleções grandes é algo compreensível em cenários equilibrados. Até porque a derrota nas quartas da Liga das Nações levou a um grupo muito acessível nas Eliminatórias da Copa do Mundo (o grupo G europeu, com Finlândia, Lituânia, Malta e Polônia). E do modo como a campanha foi iniciada, em junho do ano passado, parecia que essa facilidade seria aproveitada, com duas vitórias tranquilas - 2 a 0 na Finlândia e 8 a 0 em Malta (goleada fundamental para o saldo de gols, primeiro critério de desempate).
Contudo, nas datas FIFA de setembro, os problemas apareceram. Na terceira rodada, dia 4, abrindo o placar contra a Polônia, a Laranja perdeu muitos gols. Dependeu demais de Denzel Dumfries e de Cody Gakpo. E no fim, tomou o castigo, com os poloneses empatando (1 a 1) em pleno De Kuip. Pior, muito pior, foi ver, três dias depois, um inesperado sufoco. Contra a Lituânia, fora de casa, a Laranja abriu 2 a 0 ainda no primeiro tempo - com Memphis Depay superando o recorde de então de Robin van Persie, fazendo 52 gols pela seleção neerlandesa e se isolando como o maior goleador dos 120 anos de história dela. Tudo resolvido, certo? Errado: lentíssima, a Holanda viu os lituanos não só empatarem, como ameaçarem a virada, no que seria um tremendo vexame, além de colocar a esperada vaga direta na Copa em risco. Coube a Memphis Depay, fazendo um de seus melhores jogos da carreira pela seleção, resolver as coisas fazendo o 3 a 2 do vídeo abaixo. Mas que pegou mal, pegou.
De certa forma, a Holanda não resolveu o mau humor em relação a ela nem mesmo com duas goleadas por 4 a 0 nas rodadas de outubro das Eliminatórias: sobre Malta, fora de casa, e sobre a Finlândia, em Amsterdã. Até porque, na penúltima rodada, em novembro, quando poderia garantir a vaga na Copa por antecipação caso vencesse a Polônia fora de casa, um novo empate (1 a 1) - pois é, a Holanda ficou sem vencer os poloneses, únicos que poderiam lhe fazer frente no grupo das eliminatórias. Pelo menos, a vitória que garantiu lugar no Mundial foi convincente: novos 4 a 0, na Lituânia, em 17 de novembro de 2025.
Essa e outras goleadas deixaram claro: quando se entendem em campo, os holandeses formam uma boa seleção. Também, pudera, tendo em vista que nada menos do que sete prováveis titulares estão na Premier League, considerada a liga mais prestigiosa da Europa. O meio-campo, sem dúvida, é o setor da Laranja que mais melhorou em relação a 2022: se na Copa passada Frenkie de Jong monopolizava as ações, tendo em Davy Klaassen e Marten de Roon apenas bons coadjuvantes, agora Tijjani Reijnders e Ryan Gravenberch são tão criativos quanto Frenkie. Na zaga, segue a "fartura" de sempre: Virgil van Dijk, Jan Paul van Hecke, Jurriën Timber, Nathan Aké. Nas laterais, Denzel Dumfries de um lado, Micky van de Ven do outro, ambos são velocíssimas opções de ataque. O gol, se vivia uma roda-viva antes do Mundial passado, agora tem em Bart Verbruggen um nome firme. E mesmo o ataque, se segue um pouco abaixo em termos de opções, pelo menos tem Donyell Malen em grande fase na Roma.
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| Se nada de errado ocorrer, esta é a formação tática com que a Holanda (Países Baixos) estreará na Copa (buildlineup.com) |
Só que os maus momentos indicaram os problemas que esta Holanda ainda tem. Para começo de conversa, algo que independe do que se faça ou se deixe de fazer: as tantas lesões que vitimaram jogadores importantes da Laranja. Dumfries passou por cirurgia em março passado; Jurriën Timber chega à Copa do Mundo vindo de lesão muscular que lhe atrapalhou a reta final da temporada com o Arsenal; Frenkie de Jong, também com problema muscular, chegou a temer a repetição do drama da ausência da Euro 2024; e Memphis Depay, por fim, com a lesão na parte posterior da coxa sofrida em março passado, quase repetiu a história de 2022, quando foi à Copa sem ter jogado partidas desde que se machucou (ainda fez duas partidas pelo Corinthians). Enfim, raríssimas vezes a escalação foi a ideal. Depois, se o time flui no ataque, é cada vez mais lento na defesa, quando tem de se proteger de contra-ataques - até por isso, não se pode descartar a ideia de Ronald Koeman colocar o time com três zagueiros, para que uma dupla proteja Van Dijk, ficando cada vez mais na sobra. Além do mais, o último amistoso de março - 1 a 1 contra o Equador, com Dumfries expulso no primeiro tempo - deixou claro que os Países Baixos sofrem contra seleções fisicamente intensas.
Por essas questões é que a Laranja começará a Copa do Mundo já tendo de se provar contra o Japão, quando muita gente suspeita que a zebra passeará. Caberá ao time de Ronald Koeman - que começará como treinador em Dallas, a mesma cidade em que terminou sua trajetória como jogador da seleção, nas quartas de final da Copa de 1994 - provar que não é para tanta desconfiança. Porque a Holanda melhorou só um pouco em relação a 2022, mas continua abaixo das favoritas.
Os 26 convocados da Holanda para a Copa (clique nos nomes e saiba mais sobre eles)
GOLEIROS
LATERAIS
ZAGUEIROS
MEIO-CAMPISTAS
ATACANTES


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Xavi Simons é um desfalque de muito peso ao setor criativo da equipe, mas acredito numa copa sem sustos ao menos até as quartas de final....
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