quarta-feira, 27 de maio de 2026

O guia da Holanda na Copa 2026: melhorou só um pouco

Esta foi a escalação da Holanda (Países Baixos) na última rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo - inclui Xavi Simons (terceiro agachado da esquerda para a direita), fora da Copa. A qualificação mostrou: a Laranja tem um bom time, mas abaixo das favoritas (KNVB Media/Divulgação)

A coincidência chega a ser até engraçada. Antes da Copa de 2022 começar, a seleção da Holanda (Países Baixos) era considerada uma equipe boa, mas não exatamente candidata a título - e teria um grande desafio na estreia, encarando Senegal, então campeã africana de seleções, com bons jogadores, muito capacitada a ser uma das surpresas daquele Mundial. Quatro anos - na verdade, três anos e meio - depois, a Copa do Mundo de 2026 está aí. A Laranja, novamente, é considerada uma equipe de boa qualidade. Em relação a 2022, até melhorou um pouco. Mas ainda tem nível técnico e resultados insuficientes para ser considerada, sem hesitação, como favorita ao título (até porque o histórico de decepções se impõe). E também novamente, ela estreará na sua 12ª participação numa Copa tendo de se provar contra um seleção considerada sólida e candidata a ser surpresa no torneio: o Japão, primeiro adversário à espera no grupo F, no dia 14 de junho (domingo), em Dallas, às 17h de Brasília. Pela frente, outras duas adversárias traiçoeiras: a Suécia (20 de junho, sábado, às 14h de Brasília, em Houston) e a Tunísia (25 de junho, quinta-feira, às 20h de Brasília, em Kansas City).

A Laranja terá de se provar, em última análise, porque embora ela tenha jogadores inegavelmente qualificados, o trabalho de Ronald Koeman ainda não conseguiu convencer. Se evitou um dos principais problemas no ciclo para 2022 (uma roda-viva de técnicos - entre o terceiro lugar de 2014 e o retorno aos Mundiais, no Catar, foram oito treinadores), por outro lado, em três anos da segunda passagem de Koeman, a inconstância holandesa foi clara. Nem é preciso citar aqui, em 2023, a decepção de ficar no quarto lugar da Liga das Nações, em casa: afinal de contas, era começo de trabalho. Mas mesmo que o resultado na Euro 2024 tenha sido relativamente satisfatório - nunca é ruim chegar à semifinal, ainda mais tendo perdido três meio-campistas importantes antes do torneio -, até hoje muitos julgam que a Laranja conseguiu essa campanha mais pela fragilidade do chaveamento do que por seus méritos. Até porque terminou seu grupo em terceiro lugar, após uma derrota para a Áustria. E mesmo com um chaveamento considerado mais fácil, a equipe suou para virar contra a Turquia, nas quartas de final.

Ronald Koeman tem inegável sequência de trabalho, mas nunca conseguiu convencer, nem mesmo na campanha de semifinalista da Euro 2024 (KNVB/Divulgação)

E aí, entra o problema que mais aborrece torcida e imprensa holandesas: não conseguir superar seleções grandes, nos últimos tempos. Em todo o trabalho de Koeman, desde 2023, só quatro vezes houve vitória contra equipes nas 40 primeiras posições do ranking da FIFA (2 a 1 na Turquia, 22ª, nas citadas quartas de final da Euro 2024; os 4 a 0 no Canadá, 30º do ranking, em amistoso pré-Euro; os 2 a 1 na Noruega, 31ª, no amistoso de 27 de março passado; e os 2 a 1 na Polônia, 35ª colocada, na estreia pela Euro). No mais... França, dois jogos nas Eliminatórias da Euro, duas derrotas, um reencontro na fase de grupos da Euro, um empate; Alemanha, dois jogos pela Liga das Nações 2024/25, uma derrota e um empate; Inglaterra, a derrota na semifinal da Euro 2024. Contra a Espanha, no momento reconhecido como o melhor da Oranje sob Koeman, dois empates nas quartas de final da Liga das Nações passada, um time que fez jogo duro para a atual campeã europeia... mas, afinal, derrota nos pênaltis.

Embora seja algo contraindicado para uma seleção que deseje ir longe na Copa, vá lá, perder de seleções grandes é algo compreensível em cenários equilibrados. Até porque a derrota nas quartas da Liga das Nações levou a um grupo muito acessível nas Eliminatórias da Copa do Mundo (o grupo G europeu, com Finlândia, Lituânia, Malta e Polônia). E do modo como a campanha foi iniciada, em junho do ano passado, parecia que essa facilidade seria aproveitada, com duas vitórias tranquilas - 2 a 0 na Finlândia e 8 a 0 em Malta (goleada fundamental para o saldo de gols, primeiro critério de desempate). 

Contudo, nas datas FIFA de setembro, os problemas apareceram. Na terceira rodada, dia 4, abrindo o placar contra a Polônia, a Laranja perdeu muitos gols. Dependeu demais de Denzel Dumfries e de Cody Gakpo. E no fim, tomou o castigo, com os poloneses empatando (1 a 1) em pleno De Kuip. Pior, muito pior, foi ver, três dias depois, um inesperado sufoco. Contra a Lituânia, fora de casa, a Laranja abriu 2 a 0 ainda no primeiro tempo - com Memphis Depay superando o recorde de então de Robin van Persie, fazendo 52 gols pela seleção neerlandesa e se isolando como o maior goleador dos 120 anos de história dela. Tudo resolvido, certo? Errado: lentíssima, a Holanda viu os lituanos não só empatarem, como ameaçarem a virada, no que seria um tremendo vexame, além de colocar a esperada vaga direta na Copa em risco. Coube a Memphis Depay, fazendo um de seus melhores jogos da carreira pela seleção, resolver as coisas fazendo o 3 a 2 do vídeo abaixo. Mas que pegou mal, pegou.


De certa forma, a Holanda não resolveu o mau humor em relação a ela nem mesmo com duas goleadas por 4 a 0 nas rodadas de outubro das Eliminatórias: sobre Malta, fora de casa, e sobre a Finlândia, em Amsterdã. Até porque, na penúltima rodada, em novembro, quando poderia garantir a vaga na Copa por antecipação caso vencesse a Polônia fora de casa, um novo empate (1 a 1) - pois é, a Holanda ficou sem vencer os poloneses, únicos que poderiam lhe fazer frente no grupo das eliminatórias. Pelo menos, a vitória que garantiu lugar no Mundial foi convincente: novos 4 a 0, na Lituânia, em 17 de novembro de 2025.


Essa e outras goleadas deixaram claro: quando se entendem em campo, os holandeses formam uma boa seleção. Também, pudera, tendo em vista que nada menos do que sete prováveis titulares estão na Premier League, considerada a liga mais prestigiosa da Europa. O meio-campo, sem dúvida, é o setor da Laranja que mais melhorou em relação a 2022: se na Copa passada Frenkie de Jong monopolizava as ações, tendo em Davy Klaassen e Marten de Roon apenas bons coadjuvantes, agora Tijjani Reijnders e Ryan Gravenberch são tão criativos quanto Frenkie. Na zaga, segue a "fartura" de sempre: Virgil van Dijk, Jan Paul van Hecke, Jurriën Timber, Nathan Aké. Nas laterais, Denzel Dumfries de um lado, Micky van de Ven do outro, ambos são velocíssimas opções de ataque. O gol, se vivia uma roda-viva antes do Mundial passado, agora tem em Bart Verbruggen um nome firme. E mesmo o ataque, se segue um pouco abaixo em termos de opções, pelo menos tem Donyell Malen em grande fase na Roma.

Se nada de errado ocorrer, esta é a formação tática com que a Holanda (Países Baixos) estreará na Copa (buildlineup.com)

Só que os maus momentos indicaram os problemas que esta Holanda ainda tem. Para começo de conversa, algo que independe do que se faça ou se deixe de fazer: as tantas lesões que vitimaram jogadores importantes da Laranja. Dumfries passou por cirurgia em março passado; Jurriën Timber chega à Copa do Mundo vindo de lesão muscular que lhe atrapalhou a reta final da temporada com o Arsenal; Frenkie de Jong, também com problema muscular, chegou a temer a repetição do drama da ausência da Euro 2024; e Memphis Depay, por fim, com a lesão na parte posterior da coxa sofrida em março passado, quase repetiu a história de 2022, quando foi à Copa sem ter jogado partidas desde que se machucou (ainda fez duas partidas pelo Corinthians). Enfim, raríssimas vezes a escalação foi a ideal. Depois, se o time flui no ataque, é cada vez mais lento na defesa, quando tem de se proteger de contra-ataques - até por isso, não se pode descartar a ideia de Ronald Koeman colocar o time com três zagueiros, para que uma dupla proteja Van Dijk, ficando cada vez mais na sobra. Além do mais, o último amistoso de março - 1 a 1 contra o Equador, com Dumfries expulso no primeiro tempo - deixou claro que os Países Baixos sofrem contra seleções fisicamente intensas.

Por essas questões é que a Laranja começará a Copa do Mundo já tendo de se provar contra o Japão, quando muita gente suspeita que a zebra passeará. Caberá ao time de Ronald Koeman - que começará como treinador em Dallas, a mesma cidade em que terminou sua trajetória como jogador da seleção, nas quartas de final da Copa de 1994 - provar que não é para tanta desconfiança. Porque a Holanda melhorou só um pouco em relação a 2022, mas continua abaixo das favoritas.

Os 26 convocados da Holanda para a Copa (clique nos nomes e saiba mais sobre eles)

GOLEIROS

LATERAIS

ZAGUEIROS

MEIO-CAMPISTAS
ATACANTES

Um comentário:

  1. Xavi Simons é um desfalque de muito peso ao setor criativo da equipe, mas acredito numa copa sem sustos ao menos até as quartas de final....

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